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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

HOLLYWOOD BOULEVARD 2 (1989)


Diz a lenda que HOLLYWOOD BOULEVARD 2 foi filmado em 1989, mas lançado comercialmente apenas no ano de 1992. Hoje, percebe-se uma irônica coincidência na data de lançamento: no mesmo ano de 92, Robert Altman produziu o impagável "O Jogador", uma demolidora sátira aos bastidores da indústria de cinema de Hollywood. Ora, pois HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é exatamente o outro lado da mesma moeda: uma demolidora sátira aos bastidores da indústria de cinema de BAIXO ORÇAMENTO de Hollywood, sendo que o próprio filme foi produzido com baixíssimo orçamento.

Trata-se, como o título já anuncia, de uma obscura seqüência da comédia dirigida por Joe Dante e Allan Arkush em 1976. Enquanto o original nunca foi lançado no Brasil, a seqüência chegou com o título "Um Filme Muito Louco" pela F.J. Lucas. E o termo "seqüência" é generoso, já que esta suposta "Parte 2" é apenas uma refilmagem disfarçada do original.


Naquela época, a Concorde (produtora de Roger Corman) estava entupindo as locadoras com novas versões dos seus clássicos dos anos 70 - são da mesma época os remakes de "Piranha" e "Humanoids from the Deep", além de seqüências picaretas do tipo "Rock'n'Roll High School Forever".

A trama é basicamente a mesma do filme de 76: Candy Chandler, uma jovem e ingênua aspirante a atriz, muda-se para Hollywood e acaba arrumando emprego como figurante das produções bagaceiras da Miracle Pictures (cujo impagável slogan, como no primeiro filme, é: "Se for um bom filme, é um Milagre"). Ela se apaixona pelo roteirista Woody (Ken Wright, de "O Príncipe das Sombras"), e acaba ganhando o papel principal quando todas as outras atrizes da Miracle Pictures morrem em misteriosas explosões - alguém da equipe parece estar sabotando as produções com intenções misteriosas.


Enquanto o original tinha a bonita Candice Rialson no papel principal, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 ganha disparado na comparação ao colocar a ex-atriz pornô e musa da geração "anos 80" Ginger Lynn Allen como estrela, em um dos seus poucos destaques em filmes não-pornográficos. E é claro que a moça não se faz de rogada na hora de aparecer nua, mostrando os peitinhos numa divertida cena de sexo protagonizada diante de uma tela de cinema que exibe imagens de cavalos e cabras!

Mas esta talvez seja a única qualidade desta continuação/refilmagem comandada por Steve Barnett (que anos depois dirigiria o divertido terror-gore "Pesadelo Futuro". O velho Guia de Filmes Nova Cultural, que às vezes tinha seus momentos de sabedoria, definiu muito bem: "O humor é mais caótico do que engraçado". Bem por aí, e fico imaginando para que tipo de público estavam produzindo esta suposta "comédia", que não se decide entre fazer piadas infantilóides, cinismo, sátira ou humor negro.


Além disso, a maior parte de HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é "Hollywood Boulevard 1" com outros atores e as melhores piadas repetidas. Há o diretor estrangeiro metido a Stankey Kubrick, mesmo quando dirige produções classe Z sobre amazonas peladas (papel feito por Paul Bartel no original, e aqui assumido pelo desconhecido Kelly Monteith); a ambiciosa atriz veterana que não suporta ver uma estreante conseguindo os melhores papéis (Mary Woronov em 1976, a desconhecida Michelle Moffett aqui) e o roteirista pau-pra-toda-obra que vai mudando páginas dos roteiros conforme a necessidade financeira (Wright, substituindo Jeffrey Kramer do original).

Assim como o filme de Dante e Arkush, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é uma irônica sátira ao universo do cinema barato, com algumas divertidas piadas auto-referenciais, como o diretor se queixando ao produtor que o dinheiro sempre vem antes da arte (isso enquanto filma cenas com um bando de gostosas de shortinho metralhando soldados nas Filipinas!), ou a figurante reclamando que suas cenas são apenas uma desculpa para mostrar os peitos e a bunda (a reclamação é feita, ironicamente, enquanto ela mostra os peitos e a bunda).


Além disso, os dois filmes foram realizados a partir de cenas de outras produções de Roger Corman, adicionadas habilmente na montagem de forma que não se percebe a "malandragem". Se o original usava cenas de "Ano 2000 - Corrida da Morte" e "Big Bad Mama", como se fossem os filmes que a Miracle Pictures estava realizando, esta nova versão traz incontáveis trechos de filmes de ação filipinos, aventuras com amazonas (provavelmente tirados de "Amazons" ou "Barbarian Queen"), lutas medievais (cenas saídas de "Deathstalker 2") e ficções científicas bagaceiras.

Chega um ponto em que uma das personagens declara: "Filmes são ilusão!". Considerando o próprio HOLLYWOOD BOULEVARD 2, a declaração torna-se ainda mais verdadeira: é só as atrizes aparecerem disparando metralhadoras ou entrando num helicóptero que a edição corta diretamente para cenas tiradas de outros filmes, numa costura hábil que até engana - acredito que os realizadores tenham filmado apenas uns 40% de novas cenas, e o resto é tudo trechos reaproveitados!


Mas a repetição desta técnica de colagem cansa, e logo perde a graça tentar adivinhar de que filme foram "emprestadas" as cenas utilizadas. Se em "Hollywood Boulevard" a brincadeira era usada com economia, na Parte 2 ela ocupa o maior tempo do filme, deixando de lado as saborosas brincadeiras com a precariedade e a guerra de egos nos bastidores da produção classe B norte-americana.

Há ainda algumas brincadeiras razoavelmente engraçadas com "Apocalypse Now" e "O Massacre da Serra Elétrica", e piadinhas nonsense advindas das comédias do trio Zucker e Abrahams, como as "legendas para cego" das fotos abaixo. Sim, este é o nível das piadas ENGRAÇADAS do filme. Agora imagine as que não são...


Mesmo com todos os seus defeitos, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 vale como curiosidade por trazer um time de "celebridades B" em pequenas participações: Eddie Deezen ("1941") como o contador da Miracle Pictures, Robert Patrick (pré T-1000 do "Terminator 2") como cameraman, o crítico cult Joe Bob Briggs como ele mesmo e o diretor Barnett como o rapaz da claquete; numa festa da turma do cinema, também aparecem o produtor Corman e os diretores Joe Dante, Deborah Brock ("Slumber Party Massacre 2"), Howard Cohen ("Deathstalker 4"), Jim Wynorski ("Chopping Mall"), Rod Lurie ("A Última Fortaleza") e Allan Arkush (que co-dirigiu o original). O IMDB também anuncia uma ponta de Traci Lords "as himself", mas não consegui visualizar a musa no filme.

Menos divertido que o original, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 também vale como um dos poucos filmes a representar de maneira apaixonada, embora satírica, o universo do cinema independente e bagaceiro - algo que Tim Burton levaria à perfeição no maravilhoso "Ed Wood", de 1994.

Todo fã de cinema ou realizador independente tem a obrigação de conhecer essas produções, não só para ver a balbúrdia que acontece por trás das câmeras, mas também para reconhecer o esforço desses malucos que transformam sonhos em imagens (mesmo que estes sonhos envolvam loiras seminuas disparando metralhadoras nas Filipinas).

Trailer de HOLLYWOOD BOULEVARD 2


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Hollywood Boulevard 2 (1989/1992, EUA)
Direção: Steve Barnett
Elenco: Ginger Lynn Allen, Kelly Monteith,
Eddie Deezen, Michelle Moffett, Ken Wright
e um monte de participações especiais.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

DEVASSIDÃO TOTAL - ATÉ O ÚLTIMO ORGASMO (1986)


"Sou uma pessoa muito preocupada com o homem. Com o seu estado de espírito, o seu 'modus vivendi' em função de uma sociedade falha e injusta que ele mesmo criou. Em meus trabalhos, dentro do que a atual estrutura permite, coloco em evidência esses problemas de desencontro psicológico. De deslocação, entende?"

A frase acima é creditada ao cineasta brasileiro Fauzi Mansur, um dos grandes nomes do violento ciclo sexploitation produzido na Boca do Lixo durante a década de 80. E, vendo seu filme DEVASSIDÃO TOTAL - ATÉ O ÚLTIMO ORGASMO, juro que fiquei me questionando onde estava essa sua "preocupação com o estado de espírito do homem e com a sociedade injusta": será que na cena em que uma carcereira sádica enfia a rosca de uma lâmpada ainda quente na vagina de uma prisioneira - cena mostrada em close e sem trucagens -, ou no momento em que um gorila (isso mesmo!) estupra outra prisioneira?


Brincadeiras à parte, DEVASSIDÃO TOTAL, por pior que seja (e é mesmo muito ruim), cumpre a cota de violência e perversões sexuais necessária para encontrar seu "público" no cenário sexploitation da Boca. E quem conhece um mínimo sobre as produções do gênero sabe que é preciso ter estômago forte para ver esses filmes - não só pela feiúra dos atores e atrizes e pelos asquerosos closes genitais nas cenas de sexo, mas também pela violência sexual (simulada) característica de muitos pornôs brasileiros. O que, obviamente, torna esses filmes bem pouco ou nada excitantes.

Mansur começou como um cineasta "sério", rodando comédias e dramas históricos (entre eles "O Guarani", com David Cardoso como índio!!!), antes de descambar para a pornochanchada e depois para a pornografia nos anos 80. Talvez com vergonha, costumava assinar suas obras pornôs com pseudônimos diversos, como Abdalla Mansur, Izuaf Rusnam (Fauzi Mansur ao contrário), Victor Triunfo e De Bako (foi com este que ele assinou DEVASSIDÃO TOTAL).


Hoje, o cineasta é uma figura avessa à publicidade e não gosta de falar sobre os seus filmes do passado, muito menos esses pornográficos. Dá para entender: não deve ser fácil comentar obras como "A Seita do Sexo Profano" (1985), que traz cenas quase explícitas de mutilação dos genitais, ou o chocante "Ninfetas do Sexo Selvagem" (1983), com uma cena de orgia entre os restos de uma ovelha morta de verdade em frente à câmera! (E ainda tem gente que implica com o "Cannibal Holocaust"...)

Pois em DEVASSIDÃO TOTAL, que é um legítimo WIP (Women in Prison, ciclo de filmes sobre mulheres na prisão), a famosa estrela pornô Márcia Ferro interpreta uma inocente seduzida por uma quadrilha de traficantes de escravas brancas. Prometendo bons empregos no Japão (!!!), a quadrilha atrai e aprisiona belas jovens numa ilha na fronteira do país, onde elas são "treinadas" para se tornarem prostitutas e serem vendidas a "prostíbulos do Paraguai".

Tal treinamento inclui todo tipo de abusos nas mãos da carcereira sádica, inclusive as já citadas cenas da lâmpada na vagina (fiquei o tempo todo apavorado com a possibilidade do bulbo da lâmpada quebrar no interior da pobre atriz!) e do estupro protagonizado por um gorila, o auge do mau gosto da obra.


Claro que o tal gorila não é real, e sim um mané vestido com uma ridícula fantasia de gorila, estilo "Trocando as Bolas", de John Landis. Mas é curiosa essa fixação simiesca de diversos produtores de pornôs da Boca do Lixo, algo que merecia um estudo aprofundado; afinal, macacos e gorilas também aparecem nos "clássicos" (sim, é ironia) "Alucinações Sexuais de um Macaco" (1986), de Custódio Gomes, e "Edifício Treme-Treme" (1984), de Nilton Nascimento, entre outros. Sempre interpretados por atores "humanos" (ou nem tanto) em fantasias de gorila e macaco. (Se fosse possível colocar um macaco verdadeiro para protagonizar cenas de sexo com as moças, os produtores da Boca do Lixo certamente o teriam feito!)

Mas voltando à trama: depois que todas as prisioneiras aparecem sendo violentadas, em cenas explícitas de sexo feio e mal-filmado, chegam à ilha dois náufragos (interpretados por Custódio Gomes, diretor do já citado "Alucinações Sexuais de um Macaco", e por Ronaldo Amaral, figurinha carimbada dos filmes pornôs com cavalos, como "Viciados em Cavalos" e "Meu Marido, Meu Cavalo"). Um deles se identifica como "o delegado Carlos Casado", e diz que o outro, fraco e ferido, é seu prisioneiro, Guilherme Risadinha, um marginal perigoso.


A mocinha Márcia acaba se apaixonando pelo prisioneiro durante sua recuperação, e logo descobre que ele é o delegado, e não o outro sujeito. Numa cena sádica, ela é estuprada pelo verdadeiro Risadinha na frente do seu amado - pena que "interpretação" não é o forte da estrelinha pornô da Boca, considerando sua expressão de serenidade durante todo o estupro!

Escrito por W.A. Kopezky (roteirista de vários pornôs de Mansur e diretor de "A Gaiola da Morte"), DEVASSIDÃO TOTAL divide vários elementos com "A Seita do Sexo Profano", que é do ano anterior. O principal é a narrativa do filme: as cenas foram rodadas sem captação de som direto, e por isso praticamente não há diálogos, apenas uma narradora comentando todas as cenas, na típica "narração para cego", que anuncia inclusive aquilo que estamos obviamente ENXERGANDO!

Devia ser muito mais simples fazer filmes assim, sem a necessidade de dublar os diálogos dos atores posteriormente. Por outro lado, fica extremamente tosco, principalmente a dublagem das cenas de sexo, quando gemidos absurdos ("ai, ai, ai...") são inseridos sobre as cenas inclusive quando as atrizes estão com a boca fechada, ou "ocupada" (se é que vocês me entendem).


Outro elemento em comum entre este filme e "A Seita do Sexo Profano" é a presença da atriz que interpreta Marcela, a carcereira sádica, e que no filme anterior aparecia como uma das demoníacas líderes da tal "seita do sexo profano". Não consegui descobrir o nome da moça, mas, apesar de ser muito feia, ela participa ativamente das cenas de sexo, tornando o filme ainda mais apavorante!

Com o fim da Boca do Lixo, no começo dos anos 90, os atores pornôs brazucas ou acabaram na miséria, ou morreram de fome. Os diretores não gostam de falar sobre o assunto. E assim se perde uma página muito interessante da história do cinema brasileiro. Márcia Ferro foi uma das poucas que continuou mantendo certo culto pós-Boca, e recentemente (2006), quarentona, até tentou um retorno mal-sucedido em pornôs produzidos pelo selo Brasileirinhas - um deles chamado "A Idade da Loba".

Quanto a Mansur, ele terminou a carreira fazendo filmes de terror filmados em 16mm e falados em inglês, para distribuir diretamente no mercado norte-americano. No geral, seus pornôs são muito ruins e verdadeiramente asquerosos, com gente feia, sexo feio e nada excitantes - a não ser que você seja um sádico ou doente mental que se excite vendo torturas e abusos contra mulheres.


Tudo bem que os pornôs de José Mojica Marins, Sady Baby e outros grandes nomes da Boca também traziam gente feia e sexo nojento. O diferencial é que os filmes deles eram pelo menos engraçados. Não é o caso das obras de Mansur, que se mantêm revoltantes e difíceis de ver até o fim sem o auxílio do fast foward.

Mas é sempre interessante conhecer este momento pouco lembrado e pouco estudado do cinema nacional (que muita gente, garanto, gostaria que ficasse esquecido). Os violentos pornôs brasileiros, como DEVASSIDÃO TOTAL, não fariam feio em comparação àquelas famosas obras extremas vindas do Oriente.

Por isso que eu fecho com o pesquisador Nuno César de Abreu, autor do livro "O Olhar Pornô", quando ele diz que os filmes pornôs brasileiros não excitavam, mas sim INCITAVAM! Calígula e o Marquês de Sade às vezes parecem meras crianças travessas perto das barbaridades encenadas pela Boca do Lixo no seu ciclo do sexo violento - como as lâmpadas e revólveres enfiados na vagina em DEVASSIDÃO TOTAL...


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Devassidão Total - Até o Último
Orgasmo (1986, Brasil)

Direção: De Bako (Fauzi Mansur)
Elenco: Márcia Ferro, Ronaldo Amaral,
Custódio Gomes, Neusa Dias, Sheila
Santos e um gorila de mentira.