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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

KING DINOSAUR (1955)


Muitos leitores do FILMES PARA DOIDOS devem conhecer uma engraçadíssima comédia dos anos 80 chamada "As Amazonas na Lua", dirigida por um time de feras (Joe Dante, John Landis, Carl Gottlieb, Peter Horton e Robert K. Weiss), e dividida em quadros que satirizavam, entre outras coisas, comerciais e programas de televisão. Um dos momentos mais hilariantes era a exibição de um filme falso, supostamente uma ficção científica classe B da década de 50, chamada "Amazon Women on the Moon". Essa parte, claro, ironizava os clichês, as interpretações canastronas e principalmente os defeitos técnicos (e absurdos científicos) das produções daquela época.

Para quem já viu "As Amazonas na Lua", torna-se ainda mais engraçado topar com uma ficção científica classe B da década de 50 que se leve a sério, por mais ridículo que ela possa parecer nos dias hoje. É o caso dessa pequena gema trash chamada KING DINOSAUR, de 1955, que não passa de uma versão séria de "As Amazonas na Lua" - também dá para perceber que foi uma grande inspiração para os realizadores da sátira, que inclusive fizeram piada com várias cenas outrora sérias deste filme!

A produção é de um nome conhecido para os que curtem "cinema alternativo": Bert I. Gordon, ou Mister BIG (olha a pretensão do sujeito), o responsável por coisas como "The Amazing Colossal Man", de 1957, e o clássico do SBT "O Império das Formigas", de 1977. KING DINOSAUR é seu primeiro filme, e, vendo-o hoje, ninguém apostaria que o sujeito conseguiria chegar tão longe - e olha que o Mister BIG dirigiu filmes até o começo dos anos 90, embora atualmente esteja sumido.


Esta ficção científica é tão trash e ingênua que poderia muito bem rivalizar com o posterior "Plan 9 From Outer Space", de Ed Wood, pelo prêmio de "pior filme de todos os tempos" - na verdade uma injustiça, já que tem coisa bem pior e menos divertida do que ambos os filmes. A verdade é que KING DINOSAUR é tão ruim e mal-feito que para o espectador contemporâneo já funciona automaticamente como comédia na mesma linha de "As Amazonas na Lua". Alguém poderia exibi-lo nos cinemas hoje dizendo que é uma sátira aos filmes B dos anos 50, e não uma produção séria!

Eu nem sei por onde começar a falar sobre as "qualidades" do filme. Só sei que qualquer produção que tenha uma frase como "Eu trouxe a bomba atômica. Essa parece uma boa hora para usá-la..." merece entrar com louvor para o panteão dos clássicos do cinema trash.

KING DINOSAUR inicia com uma tonelada de cenas de arquivo (espírito de Ed Wood?) e uma narração explicando que foi descoberto um novo planeta em nosso Sistema Solar, batizado, sem qualquer originalidade, de "Planeta Nova". Os Estados Unidos formam um time com quatro cientistas para uma missão de reconhecimento no novo astro.


Tal equipe conta com o zoogeógrafo Richard Gordon (Douglas Henderson, que havia feito uma pontinha no "A Guerra dos Mundos" original), com a especialista em minerologia Norah Pierce (Patti Gallagher), com o médico Ralph Martin (William Bryant, que ironicamente faria uma ponta em "As Amazonas na Lua"!!!) e com a química Patricia Bennett (Wanda Curtis). Os quatro são os únicos atores "humanos" do filme, que certamente não entrou para a história do cinema pelo seu numeroso elenco...

A narração interminável dura mais de 10 minutos, com uma voz cavernosa explicando todo detalhe possível e imaginável sobre a missão, da construção do foguete que levará os quatro intrépidos aventureiros ao Planeta Nova até a explicação minuciosa dos testes feitos para assegurar o sucesso da viagem espacial ("Novos metais precisam ser criados para resistir à pressão atmosférica. Fraquezas estruturais também são estudadas e testadas... Cada teste possível é feito por máquinas e homens. Não há margem para erros", e por aí vai...).

Finalmente, o foguetinho em miniatura preso por um fio de nylon chega a Nova, e você percebe que a produção é furreca simplesmente porque não há qualquer cena no interior da nave (talvez não houvesse dinheiro para construir o cenário!). Já o momento que mostra dois dos astronautas improvisados descendo do foguete é hilariante: percebe-se claramente que uma miniatura de metal foi colocada bem pertinho da lente da câmera para dar a impressão de que existe uma estrutura imensa ali, e não apenas os atores descendo por uma escada de lugar nenhum! Veja a imagem abaixo e tire suas próprias conclusões:


Chegando a Nova, a coisa só vai ficando mais e mais engraçada, com direito a todos os diálogos toscos e cientificamente imprecisos que se espera de uma ficção dos anos 50: os quatro aventureiros descobrem que a atmosfera de Nova tem oxigênio (uma desculpa para eliminar as roupas de astronauta), e resolvem explorar o planeta.

É quando descobrem que o lugar é habitado por criaturas gigantescas, que se materializam através de tosquíssimos efeitos especiais de sobreposição de imagens (bichos filmados em seu tamanho real são "aumentados" sobre os fotogramas para os atores parecerem bem menores).

Saiba, por exemplo, que o "rei dinossauro" do título é um tiranossauro rex "interpretado" por uma iguana comum. Através de truques fotográficos simples, a pobre iguana "interage" com os atores humanos como se fosse um bicho gigantesco - o que obviamente não é.


E tome cenas da iguana andando de lá para cá num cenário em miniatura para parecer gigantesca. E tome cenas da iguana lutando com outros "gigantescos dinossauros", neste caso um lagarto e um filhote de crocodilo! (As lutas dos bichinhos são verdadeiras, com direito à morte dos pobres seres, décadas antes dos produtores italianos exterminarem animais em seus clássicos filmes sobre canibalismo.)

KING DINOSAUR é rápido e rasteiro, com 63 minutos de duração e um número tão expressivo de risadas por minuto que bate tranqüilamente qualquer "comédia" contemporânea do Will Ferrell ou do Adam Sandler.

Acredite: o filme do Mister BIG é engraçadíssimo, não só pela tosquice dos seus efeitos especiais e pelos répteis comuns "interpretando" dinossauros, mas especialmente pelos diálogos sem noção escritos anos antes da conquista do espaço, quando a mente fértil dos roteiristas de ficção científica ainda podia voar beeeem longe.


Vejamos alguns diálogos que dão uma bela idéia do que estou tentando explicar. Que tal este, entre um dos casais da expedição:
- Você tem idéia da hora?
- Talvez umas três da tarde no horário da Terra...
- Mas não sabemos quantas horas têm o ciclo do dia aqui. Talvez o tempo aqui passe mais rápido do que o nosso.
- Bem, vamos chutar três da tarde de qualquer jeito. Isso nos dá umas quatro horas antes de escurecer.


Ou este, que começa quando uma das moças faz uma pergunta inocente a um dos rapazes:
- Talvez você possa me ajudar. Lembra algo de química?
- O bastante para saber da química entre nós!


Ou ainda a reação de um dos casais ao topar com a "iguana rex":
- O que é aquilo?
- Não sei. Algo pré-histórico!
- Ai, é horrível! Atire nele...
- Pra quê? Não vai ajudar.



E por aí vai... Se fosse para elencar todos os diálogos antológicos de KING DINOSAUR, eu poderia muito bem publicar o roteiro na íntegra. Além disso, o diretor Gordon mostra que é realmente muito fácil e barato fazer um filme de ficção científica usando imagens de arquivo e até cenas roubadas de outra produção ("One Billion B.C.", dirigida por Hal Roach e Hal Roach Jr. em 1940).

Não bastasse toda a ruindade natural da coisa, KING DINOSAUR ainda brilha pela "intrépida" atuação de Douglas Henderson, que, sem qualquer jeitinho para lidar com as moças que dividem a cena com ele, acaba empurrando as pobres coitadas de um lado para o outro, isso quando não as arrasta brutalmente pelo chão, visivelmente machucando as atrizes.

E é por esse conjunto de brilhantismo que essa película merece seu lugar de honra entre os grandes trash movies jamais produzidos!

PARA ENCERRAR, UM SPOILER: Nada, mas nada mesmo, pode preparar o espectador para a conclusão, quando, após explodir Nova com uma bomba atômica portátil que levavam em sua nave, os astronautas declaram, sem o menor constragimento: "Acabamos de trazer a civilização para o Planeta Nova". hahahahahahaha. Genial genial...

Trailer de KING DINOSAUR


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King Dinosaur (1955, EUA)
Direção: Bert I. Gordon
Elenco: William Bryant, Wanda Curtis,
Douglas Henderson, Patti Gallagher e
um monte de répteis!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bastardos cheios de glórias


Este blog nunca teve a proposta de discutir aqueles filmes novos sobre os quais todo mundo já está escrevendo, e sim dar espaço a obras mais obscuras. Entretanto, peço licença aos leitores mais radicais para abrir este pequeno post dedicado a BASTARDOS INGLÓRIOS, o novo filme de Quentin Tarantino.

Comentá-lo ao menos rapidamente, para mim, é quase uma obrigação. Primeiro porque é uma homenagem ao cinema de ação "alternativo" sobre a Segunda Guerra Mundial, principalmente a obras italianas, como o cult "Assalto ao Trem Blindado", de Enzo G. Castellari - cujo título em inglês, "Inglorious Bastards", Tarantino roubou para ele. E segundo porque esta provavelmente é a grande obra-prima do diretor.

Todo mundo sabe, por outros sites, blogs, revistas, jornais e etc que BASTARDOS INGLÓRIOS sempre foi a menina-dos-olhos do diretor, um roteiro que ele trazia na cabeça há 10 anos e achou que jamais conseguiria tirar do papel. Suas primeiras idéias previam uma superprodução monstruosa reunindo astros como Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis e até Adam Sandler (!!!), mas felizmente Tarantino pensou melhor e optou por um elenco que, à exceção de Brad Pitt, não tem astros nem estrelas, apenas ótimos atores e atrizes daquele tipo que você bota o olho e se pergunta: "Onde foi que eu já vi ele antes?". (E quem acabou reunindo os astros sonhados pelo diretor foi Stallone, em seu futuro "Os Mercenários".)


Pois neste novo filme, Tarantino parece mais maduro como cineasta. É o seu trabalho com narrativa mais redondinha e circular, sem aquelas loucuras de idas e vindas no tempo (vistas em "Cães de Aluguel", "Pulp Fiction" e "Kill Bill") ou repetição de cenas por diferentes pontos de vista (vistas em "Jackie Brown" e "Pulp Fiction"). Ainda que seja dividida em capítulos com nomes característicos, como se fosse um livro (tipo "Era Uma Vez na França Ocupada por Nazistas" e "Operação Kino"), a trama aqui é contada na ordem cronológica, começando em 1941, com o massacre de uma família de judeus, e terminando em 1944, quando os Aliados vêem uma grande chance de acabar com a guerra matando Hitler e o alto comando do Terceiro Reich.

Só há um momento, à la "Kill Bill", em que a trama é "congelada" para que se conte a história de um dos personagens, o sargento Hugo Stiglitz (Til Schweiger), como se fazia no outro filme para contar o passado da vilã O-Ren Ishii; e também um outro intervalo muito breve em que novamente a história "pausa" para que um narrador explique sobre a alta combustão das películas nos anos 40.

Cada um dos capítulos apresenta personagens diferentes que, à medida que a história avança, acabam se cruzando (como acontecia em "Pulp Fiction"). No excelente início, por exemplo, conhecemos o maléfico coronel da SS Hans Landa (o austríaco Christoph Waltz), na França ocupada pelos nazistas. Ele comanda o assassinato da família de Shosanna Dreyfus (a francesa Mélanie Laurent), que consegue escapar jurando vingança ao maléfico vilão - mais ou menos como uma "versão Segunda Guerra Mundial" da personagem de Uma Thurman em "Kill Bill".


É só no segundo capítulo que vamos conhecer os personagens-título: um grupo de soldados judeus norte-americanos chamado "Os Bastardos", reunido pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt) com a missão de aterrorizar as tropas nazistas, matando seus rivais violentamente e colecionando seus escalpos, à moda apache. "Cada um de vocês me deve 100 escalpos nazistas", ordena Raine ao recrutar seu pelotão. E a fama dos "Bastardos" chega até o próprio Adolf Hitler (interpretado de forma caricatural por Martin Wuttke).

Nos próximos capítulos, vamos conhecendo outros personagens cujos encontros e conexões vão levando a trama adiante. Reencontramos a sobrevivente Shosanna crescida e dona de um cinema em Paris, usando o nome falso Emanuelle Mimieux. O soldado alemão Fredrick Zoller (Daniel Brühl, de "Adeus Lênin"), considerado um herói por ter abatido mais de 100 inimigos sozinho, se apaixona por ela, ignorando seu passado. Já Joseph Goebbels (Sylvester Groth), o ministro de propaganda de Hitler, usou Zoller como ator de seu último filme, "O Orgulho de uma Nação", tentando levantar a moral das tropas com os feitos do bravo soldado alemão.

O pequeno cinema de Shosanna é escolhido para a estréia da obra, numa noite que reunirá toda a cúpula nazista, inclusive Hitler em pessoa. E a moça resolve usar a oportunidade para se vingar dos assassinos da sua família, ignorando que os Aliados estão criando seu próprio plano secreto para invadir o cinema e melar a festa, com a ajuda de uma agente dupla - a estrela de cinema alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kurger).


Lendo assim parece que a coisa é simples, mas a trama vai se complicando à medida que os dois planos (o de Shosanna e o dos Aliados, que será executado pelos próprios "Bastardos") se cruzam acidentalmente. E o coronel Landa, que de bobo não tem nada, começa a suspeitar da conspiração. No meio do bolo, Tarantino vai misturando personagens reais sem qualquer comprometimento com a História "oficial" - além de Hitler e Goebbels, aparecem Winston Churchill (interpretado pelo veterano Rod Taylor) e o famoso ator alemão Emil Jannings (interpretado por Hilmar Eichhorn).

Tarantino nunca deixa de demonstrar que é um cinéfilo de carteirinha, já que a ambientação no pequeno cinema parisiense rende uma série de citações a grandes nomes do cinema da época (como o diretor alemão G.W. Pabst ou o comediante Max Linder). Identificar todas as citações e referências que o diretor-roteirista utiliza é uma deliciosa brincadeira para fãs de cinema (no caso de "Kill Bill", por exemplo, até hoje acabo vendo um filme obscuro das antigas e descubro que Tarantino tirou de lá algum diálogo ou nome de personagem, como aconteceu quando vi "O Samurai Negro").

No caso de BASTARDOS INGLÓRIOS, as citações que mais saltam aos olhos são os nomes de alguns personagens, como Aldo Raine (evocando o ator Aldo Ray), Hugo Stiglitz (mesmo nome de um popular ator mexicano, astro dos filmes "Nightmare City" e "Tintorera") e o general Ed Fenech, interpretado por Mike Myers (homenageando a famosa atriz italiana Edwige Fenech, que fez vários filmes "giallo" dos anos 70).


Mais adiante, quando os "Bastardos" precisam usar nomes falsos de italianos, adotam pseudônimos tipo Antonio Margheritti (diretor de filmes como "The Last Hunter" e "Os Caçadores da Serpente Dourada") e Enzo Girolami (nome de batismo do diretor Enzo G. Castellari).

O uso das músicas instrumentais tiradas de westerns lembra "Kill Bill", e inclusive reaproveita algumas trilhas já utilizadas neste filme. Curioso é que nunca imaginei o famoso tema de "O Dólar Furado", composto por Gianni Ferrio, sendo usado numa cena "romântica", e não num duelo de pistoleiros.

Ainda no terreno das citações, dois detalhes me chamaram a atenção, mas ainda não vi nenhum "crítico especializado" citar, então pode ser loucura minha mesmo: o fato do sargento Donny Donowitz (interpretado por Eli Roth) usar um taco de beisebol para acertar os nazistas me lembrou um filme de guerra italiano chamado "Cinco Para o Inferno" (1969), de Gianfranco Parolini, onde um dos personagens usava uma bola de beisebol para o mesmo propósito; já uma brutal cena de estrangulamento pareceu idêntica, inclusive nos ângulos de câmera, a um momento do filme "Bay of Blood" (1971), de Mario Bava. Quem concordar comigo, levanta a mão. E sintam-se à vontade para compartilhar as referências que vocês pescaram.


Mas o que achei mais interessante em BASTARDOS INGLÓRIOS, e que me parece a "maturidade" de Tarantino como cineasta que citei lá no começo, é um cuidado fotográfico na composição das cenas, e o fato de as longas cenas de diálogos, tradicionais do cinema "tarantinesco", desta vez favorecerem a narrativa, e não apenas encherem lingüiça.

Por mais que eu adore "Pulp Fiction" e "Kill Bill", não dá para negar que algumas conversas entre os personagens são desnecessárias ou se estendem mais do que o necessário (Travolta e Jackson com o próprio Tarantino no final de "Pulp Fiction", A Noiva com Esteban Vihaio em "Kill Bill Volume 2", por exemplo).

Sim, em BASTARDOS INGLÓRIOS existem longos diálogos, como no interrogatório inicial entre o coronel Landa e o fazendeiro francês que esconde a família de judeus, ou na longa cena em que os conspiradores se encontram com a atriz Bridget von Hammersmark numa taverna repleta de soldados nazistas embriagados.

A diferença é que esses longos diálogos servem à narrativa, e não apenas ao gosto do diretor por escrevê-los: o interrogatório demonstra como o vilão é meticuloso e sempre descobre as mentiras que lhe contam, enquanto na cena da taverna o jogo feito pelos soldados apenas aumenta a tensão de que os conspiradores possam ser descobertos a qualquer momento. É o oposto dos piores trabalhos de Tarantino, o episódio final de "Grande Hotel" e o decepcionante "Death Proof - À Prova de Morte" (ainda inédito no Brasil, nos cinemas e nas videolocadoras), onde o bla-bla-bla não tinha função alguma na trama além de destilar cultura pop e enrolar.


Isso, mais o carinho especial que Tarantino dispensa a cada um dos personagens, faz de BASTARDOS INGLÓRIOS o grande filme que é. Todos os personagens são cheios de ricas características, como o taco de Donowitz, repleto de nomes de judeus mortos pelos nazistas, ou a enorme cicatriz no pescoço do tenente Raine, nunca explicada pelo roteiro. Tarantino deve ter sofrido muito para resumir seu filme a 153 minutos, percebe-se que muita coisa do roteiro original deve ter sido deixada de fora, e isso só aumenta o charme do filme, pois outras aventuras dos "Bastardos" podem ser filmadas.

E realmente dá vontade de ver mais, é até uma pena quando alguns saem de cena - como o descontrolado sargento Stiglitz. Pitt está ótimo e propositalmente canastrão, com um cômico sotaque caipira (ainda mais evidente quando ele precisa se passar por italiano). Mas quem realmente brilha no filme é Christoph Waltz, fazendo do seu coronel Landa um vilão de respeito, mas também divertido ("That's a bingoooo!"), diferente daquele "nazista clichê" de filmes tipo "A Lista de Schindler". E pensar que o diretor queria Leonardo DiCaprio para o papel (argh!). Se Waltz não for indicado ao Oscar de Melhor Coadjuvante, vai ser muita injustiça.

Não falta nem a violência típica do cinema do diretor (com direito a escalpelamentos explícitos e um nazista morto a golpes de taco de beisebol), e ele ainda se dá ao luxo de usar apenas a voz de atores do calibre de Samuel L. Jackson (como narrador em apenas duas seqüências) e Harvey Keitel (cuja voz é ouvida pelo rádio, como se fosse um militar aliado). O IMDB anuncia ainda participações do próprio Enzo G. Castellari ("as Himself"!!!) e Bo Svenson, astro de "Assalto ao Trem Blindado", mas não consegui identificar nenhum dos dois no filme.


Sem mais delongas, corra ao cinema para ver BASTARDOS INGLÓRIOS na tela grande. Ao final você provavelmente estará concordando comigo sobre o fato de esta ser a grande obra-prima de Quentin Tarantino.

Ou, pelo menos, um divertidíssimo filme sobre a Segunda Guerra Mundial sem qualquer compromisso com a seriedade, com personagens que não são "pessoas reais", mas sim "personagens de cinema", como em "Kill Bill". Por exemplo, você nunca vai ver, num outro filme, Hitler pedindo um chiclete a um dos seus soldados! Dá até vontade de rever aqueles amalucados filmes italianos sobre a Segunda Guerra Mundial...

Lembro inclusive que uma das grandes decepções de filmes como "Operação Valquíria" (aquele do plano para matar Adolf Hitler) é que você sabe que na vida real Hitler não morreu, e então o final do filme já é conhecido desde o início.

No caso de BASTARDOS INGLÓRIOS não tem essa: Tarantino chega a reescrever a história pelo bem do seu roteiro e dos seus personagens. E não é que realmente ficou mais interessante que a própria "vida real"? Confira e opine! Se dependesse de mim, seria assim também nos livros de história.


"Say hello to my little friend!"