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segunda-feira, 13 de abril de 2009

1968: TUNNEL RATS (2008)


Já virou clichê escrever que o alemão Uwe Boll é um dos mais medíocres cineastas atualmente em atividade (se é que dá pra considerar cinema as porcarias que ele "escreve" e "dirige"). Mas esta generalização às vezes se transforma numa injustiça; afinal, o pobre sujeito virou sinônimo de ruindade mesmo para quem nunca realmente viu um filme dele! E não dá para negar que alguns dos seus trabalhos são pelo menos divertidos (o primeiro "Bloodrayne", por exemplo, que ainda tem o mérito de mostrar a linda Kristanna Loken pelada, ou a comédia "Postal", que atrai justamente pelo seu extremo mau gosto).

E então chegamos a 1968: TUNNEL RATS, um dos novos filmes do hiperativo Boll, que só neste ano de 2009 deve lançar mais três obras ("Far Cry", "Stoic" e "Rampage") e já está filmando outras duas ("The Storm" e "Darfur"), isso tudo mesmo com a quantidade absurda de críticas que seu trabalho recebe, e apesar de seus filmes jamais terem dado qualquer retorno financeiro em bilheteria - queria saber como o sujeito ainda consegue encontrar financiadores para as suas maluquices...


TUNNEL RATS é diferente dos filmes que Boll vinha fazendo até então, já que parte de uma história original de Dan Clarke transformada em roteiro do próprio diretor, mas sem inspiração em nenhum videogame, como a maior parte de suas obras anteriores. Aqui ironicamente fizeram o caminho inverso: foi o filme que depois se transformou em jogo de videogame!

Também é um dos primeiros trabalhos do diretor sem grandes astros ou nomes conhecidos no elenco, depois que nosso amigo desperdiçou gente como Ben Kingsley, Jason Statham e Burt Reynolds em suas produções anteriores. Aqui, para dar uma idéia, o nome mais conhecido é o ex-astro dos anos 80 Michael Paré, o que obviamente não quer dizer grande coisa. O orçamento foi de míseros 8 milhões de dólares e, reza a lenda, a estréia foi num único cinema de Los Angeles (!!!).


A surpresa é que, dependendo do seu estado de espírito, e com alguma boa vontade, este drama de guerra é bem divertido, e até, acredite se quiser, interessante. Talvez seja preciso um idiota como o Boll para conseguir fazer um filme cínico sobre a idiotice da guerra, neste caso a Guerra do Vietnã. Claro que não é nada que chegue aos pés de um "Apocalypse Now" ou "O Franco-Atirador", mas é louvável a maneira como o filme foge do tradicional estereótipo de "heróis americanos" vitimados pelos "malvados vietcongues". Para Boll, não há heróis nem vilões, vencedores ou perdedores - apenas vítimas.

O clima é tão pessimista que lembrei de alguns ótimos filmes italianos sobre o tema (como "Apocalypse 2/The Last Hunter", do Antonio Margheritti), que uniam extrema violência com uma mensagem anti-belicista, o contrário do que se via nas produções norte-americanas sobre o conflito - especialmente os "clássicos" produzidos e dirigidos por David A. Prior, como "Batalha no Campo do Inferno" e "Zona de Ataque", onde um ou dois heróicos soldados norte-americanos chacinavam pelotões inteiros de vietcongues (vai saber como é que os Estados Unidos não ganharam a guerra...).


E você realmente percebe que o homem está aprendendo a fazer filmes já nos créditos de abertura, em que helicópteros carregados de sacos-de-cadáver sobrevoam a imensidão da selva (as filmagens foram na África do Sul) ao som da música "In the Year 2525", de Zager & Evans.

TUNNEL RATS enfoca um grupo de soldados que têm como missão se infiltrar nos apertados túneis subterrâneos onde os inimigos vietcongues vivem, se escondem e preparam armadilhas e emboscadas para os rivais. Assim, são "ratos de túnel", como o título já diz, sob o comando do fanático tenente Vic Hollowborn (Paré), um personagem que parece saído de "Apocalypse Now", e que tem como atividades rotineiras enforcar prisioneiros de guerra ou desafiar soldados que discutem suas ordens para lutas de boxe (e vai entender como é que o sujeito tem luvas de boxe em plena selva!!!).


Os primeiros 20 minutos, que tentam apresentar um pouco mais da vida pregressa, dos dramas e dos medos dos jovens recrutas, é de longe a pior parte. É Boll tentando criar seu próprio "Platoon" ou "Nascido Para Matar", obviamente sem conseguir. Até que, lá pelas tantas, um dos personagens faz um discurso que parece ler o pensamento do próprio espectador: "Nada dessas merdas interessa, onde você esteve, de onde você é... Agora você está no Vietnã, e só interessa o que você faz no campo de batalha!".

É então que o filme começa a mostrar ao que veio, a partir do momento em que o pelotão entra em um túnel recém-descoberto nas cercanias do seu acampamento. É quando o clima tosco de "Platoon" vai para o espaço e a história se transforma numa versão bélica de "Abismo do Medo", com os pobres soldadinhos se arrastando por túneis escuros e cada vez mais apertados, e sendo despachados violentamente pelo inimigo escondido na escuridão.


Claro que, para curtir o filme, é preciso ignorar o fato de o roteiro de Boll ser HORRÍVEL. O desenvolvimento dos personagens é mínimo, e, quando existe, é constrangedor (tipo o negro que sonha em abrir uma lanchonete fast food quando voltar para os EUA, e passa as noites mandando beijos para a Lua para a sua namorada!!!!); o fio narrativo é inexistente, com as cenas e as mortes se sucedendo meio sem razão; personagens desaparecem sem explicação da história até que seja conveniente trazê-los de volta, e tudo acaba meio sem propósito, como se nunca tivesse existido, de fato, uma trama a seguir, deixando o espectador com aquela sensação de "Tá, e daí?".

Mesmo assim, algumas coisas realmente me agradaram em TUNNEL RATS para fazer com que eu esquecesse que estava vendo um filme sem roteiro. Uma delas é que o diretor-roteirista brinca com as expectativas do espectador, surpreendendo-nos inúmeras vezes ao longo da trama. Para começar, não há protagonistas principais: todos os recrutas ganham mais ou menos o mesmo destaque, e você acaba nem lembrando os nomes da maioria deles. Também não há espaço para heroísmos individuais à la "Rambo", frases de efeito ou acrobacias pirotécnicas.


Melhor: Boll faz com que um dos seus personagens passe o filme inteiro sobrevivendo a todo tipo de dificuldade no interior dos túneis, apenas para chegar à superfície e ser estupidamente abatido por fogo amigo! Também engana o público ao fazer o soldado metido a machão, que parece o grande herói da trama, morrer por primeiro (e de forma imbecil também), e ao mesmo tempo mantém vivo até a conclusão o recruta banana e covarde, que todos passam o filme inteiro dizendo que não vai durar muito tempo.

Para quem tem saudade daquelas produções bagaceiras e hiperviolentas feitas pelos italianos, TUNNEL RATS também é um deleite, primando pelo exagero: de soldados eviscerados por baionetas a espinha arrancada em enforcamento, o filme traz todo um catálogo de barbaridades. Uma das grandes influências de Boll parece ter sido "O Resgate do Soldado Ryan", já que há desde cenas com vietcongues esfaqueando impiedosamente inimigos desarmados até um soldado que é fanático religioso.


Pode-se até criticar o ritmo lento da narrativa, já que as cenas dos soldados engatinhando nos túneis escuros são repetidas à exaustão até deixar o próprio espectador sem fôlego. Mas elas funcionam para criar um clima de claustrofobia (é terrível imaginar-se naquela situação, com pouco espaço para se mexer e ainda sendo atacado pelos inimigos vindos de todos os lados), e ainda ajudam a criar uma história sobre a Guerra do Vietnã narrada de maneira original, até porque você fica se questionando sobre a idiotice daquilo - por que os caras não tacam umas 30 granadas e explodem os túneis ao invés de obedecer as ordens de seus superiores para rastejar lá embaixo? Há um momento altamente bizarro em que um soldado fica bloqueado no túnel após matar um vietcongue, e precisa esquartejar o cadáver pedaço por pedaço para liberar a passagem!

No final, quando um soldado norte-americano morre lado a lado com um "inimigo" vietcongue, o espectador até releva diversas bobagens que viu durante o filme para admirar a coragem do diretor. Longe de ser aquela historinha de ação e guerra que eu esperava, TUNNEL RATS traz até uma mensagem altamente crítica sobre a estupidez do conflito e sobre a futilidade da guerra. É isso mesmo, amiguinhos: Boll está tentando passar uma mensagem!

E, quem diria, consegue fazer isso de maneira muito mais contundente do que muito suposto clássico sobre o Vietnã que existe por aí...

Trailer de 1968: TUNNEL RATS


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1968: Tunnel Rats (2008, Canadá/Alemanha)
Direção: Uwe Boll
Elenco: Michael Paré, Nate Parker, Wilson
Bethel, Brandon Fobbs, Jane Le, Rocky
Marquette e Erik Eidem.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Mais críticas rápidas para pessoas nervosas


GRAN TORINO (Gran Torino, 2008, EUA. Dir: Clint Eastwood)
Clint Eastwood velho e fantástico num filme que, do começo ao fim, me pareceu o tipo de produção que o saudoso Charles Bronson estaria fazendo hoje caso continuasse vivo (talvez o final fosse diferente, uma coisa mais "Desejo de Matar 3", mas vá lá...). Ora, se o Stallone revisitou Rocky e Rambo aos 60 anos de idade, se o Bronson encarnou pistoleiros comedores de garotinhas na casa dos 80, por que é que o eterno durão Clint não poderia entregar algo bem próximo de uma versão envelhecida e ainda mais ranzinza do seu Dirty Harry? Seu personagem em "Gran Torino", Walt Kowalski, aparece sempre carrancudo, ao ponto de rosnar em algumas cenas, e xinga tudo e todos (inclusive os filhos mercenários) como uma metralhadora. Mesmo assim, Walt acaba virando herói do bairro sem querer quando intercede a favor de um vizinho oriental (ironicamente, ele ODEIA os orientais, que combateu na Guerra da Coréia!). Resolve "adotar" o rapaz e cuidar para que ele tenha um futuro decente, mesmo com todas as dificuldades e a presença de uma gangue pelo caminho. Tudo desemboca na tradicional conclusão com redenção, mas o filme não é, de maneira alguma, aquela historinha para boi dormir que parece ser pelo resumo. É, isso sim, um filmaço, e não me lembro qual foi a última vez que ri tanto, e sozinho, numa sala de cinema, por conta dos comentários mal-humorados e xingamentos do estressado personagem de Eastwood. Só as conversas dele com o jovem padre da paróquia (nas palavras do protagonista, "um virgem de 28 anos que acabou de sair do seminário"), incluindo uma impagável confissão, já valem o filme. Sem contar que o astro, também diretor, opta pelo tom dramático, sem exagerar os "heroísmos" do seu personagem (ao contrário do que o Charles Bronson aparecia fazendo em seus filmes já do fim da vida). Paro por aqui: direto para a lista dos melhores do ano!




DIA DOS NAMORADOS MACABRO 3D (My Bloody Valentine 3D, 2009, EUA. Dir: Patrick Lussier)
Analisando friamente, este filme é horrível: apesar de tentar seguir os passos do original canadense de 1981, que era um slasher bem decente (principalmente em sua versão uncut), essa refilmagem erra o tom ao partir para o exagero e para o vale-tudo. Não há suspense ou tensão, o minerador Harry Warden aqui não é capaz de dar um mísero susto ou sequer parecer uma ameaça decente, e o final não tem aquela perseguição legal nos escuros túneis das minas - sem contar que a revelação da identidade do assassino não acrescenta nada. Mesmo assim, achei um passatempo bastante divertido, talvez porque foi a primeira sessão que peguei com esta nova tecnologia em 3D (e convenhamos que é muito legal ver picaretadas saindo da tela do cinema e mandíbulas arrancadas voando na direção da platéia!). Ou talvez porque consegui achar graça justamente no lado mais trash da coisa, principalmente nos absurdos erros factuais (como o "assassino" sabia onde estava enterrado o corpo de Harry Warden?) e nas burrices não-intencionais (tipo uma enfermeira ir checar o soro de um paciente e só depois disso perceber que ele não está mais na cama!!!). Além do mais, você até releva uma meia dúzia de bobagens só por causa daquela cena da loira totalmente pelada (a gostosa Betsy Rue) sendo perseguida pelo assassino - cena esta que inclui até o assassinato de uma anã, vejam se tem cabimento! E as mortes são todas exageradas e bastante sangrentas, ao contrário do novo "Sexta-feira 13", que falhou justamente neste quesito. Inclusive acredito que Harry Warden e sua picareta fariam picadinho do novo Jason. Bobo, tosco, feio e burro, mas divertido e engraçado - em 3D, bem entendido. Sem 3D, deve perder 80% da graça.




A LIGA EXTRAORDINÁRIA (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003, EUA. Dir: Stephen Norrington)
Este passou seis anos na minha lista de "filmes que jamais vou ver", ao lado de "Van Helsing", da trilogia "Jurassic Park" e de muitos outros. Devia ter ficado outros seis anos, mas a curiosidade foi mais forte e eu quis ver o quanto tinham estragado a fantástica minissérie em quadrinhos escrita por Alan Moore e Kevin O'Neill. Bem, digamos que o resultado conseguiu ficar abaixo das minhas mais baixas expectativas. Como é que alguém consegue transformar um material tão inteligente num filme tão tosco e idiota? Neste caso, a culpa é tanta do diretor Stephen Norrington ("Blade"), que parece mais interessado em explodir cenários do que em contar uma história, quanto do roteirista de primeira viagem (e que continue assim!) James Robinson. A Liga, para quem não sabe, é um "supertime" formado por personagens famosos da literatura do século 19, como Mina Harker (do livro "Drácula"), Dr. Jekyll ("O Médico e o Monstro") e Allan Quatermain ("As Minas do Rei Salomão"). Mas a adaptação para o cinema aproveita apenas umas duas ou três falas dos quadrinhos, o resto é tudo novo - e ruim. A vampira Mina perde o cargo de líder da Liga para Quatermain; afinal, aqui ele é interpretado por Sean Connery. O personagem também é mostrado como um aventureiro em plena forma física mesmo na velhice, enquanto nos quadrinhos era um trapo viciado em ópio! Para piorar, o roteirista Robinson meteu no balaio outros dois personagens que não estavam na minissérie de Moore e O'Neill, o imortal Dorian Gray e o aventureiro norte-americano Tom Sawyer. O resultado é abaixo da crítica: fiquei tão revoltado com os excessos do filme (na verdade um videogame fuleiro) que comecei a usar a tecla FF a partir da cena em que Sawyer dirige um carro conversível (resquícios de Batmóvel?) em alta velocidade pelas ruas da Veneza do século 19, enquanto edifícios feitos por computação gráfica desmoronam pelo caminho (!!!). E não espere ver o Homem Invisível ou Mr. Hyde (a "parte má" do dr. Jekyll) matando seus inimigos violentamente, como acontecia nos quadrinhos. Aqui o show é todo de Quatermain e Sawyer, e os outros personagens são apenas figurantes. Não por acaso, Connery e o diretor Norrington brigaram durante toda a filmagem, num trabalho tão estressante que ambos abandonaram o mundo do cinema desde então. Enfim, uma aula de como destruir um texto inteligente, mastigando-o para a geração MTV.




RESSACA DE AMOR (Forgetting Sarah Marshall, 2008, EUA. Dir: Nicholas Stoller)
O título nacional babaca para "Esquecendo Sarah Marshall" quase me fez desistir de ver esta surpreendentemente divertida comédia romântica, mais uma do time do produtor Judd Apatow - e, como as outras, repleta de humor grosseiro para adultos. Jason Segel (também roteirista) leva um fora da namorada, uma atriz famosa chamada Sarah Marshall (Kristel Bell). Sem conseguir se recuperar do baque, mesmo após transar com inúmeras garotas, ele resolve tirar umas férias no Havaí para esquecer a ex. Mas a tarefa será bastante difícil, já que Sarah e seu novo namorado, um roqueiro inglês lesado (Russell Brand), estão hospedados no mesmo hotel. Seguem-se as confusões e piadas eróticas de praxe, aqui com direito a farta exibição de genitais masculinos (!!!). O filme se estende demais, por quase duas horas (um defeito comum nas comédias produzidas por Apatow), mas consegue fugir do lugar-comum das comédias românticas contemporâneas. Um dos pontos altos é a discussão sobre a ruindade de um filme de horror estrelado por Sarah, sobre celulares assassinos (provavelmente uma citação ao remake "Uma Chamada Perdida"). Mas vale destacar também as cenas da série policial de TV que Sarah protagoniza ao lado de William Baldwin (!!!), com direito até aos bordões infames dos seriados policiais televisivos reais! Enfim, ideal para quem procura uma comédia romântica para assistir com a namorada, mas sem se privar do direito de rir de piadas infames e sexistas.




PARANÓIA (Disturbia, 2007, EUA. Dir: D.J. Caruso)
Bem legal este suspensezinho inofensivo voltado ao público jovem que eu acabei vendo numa madrugada insone via TV a cabo (e acredito que este seja o melhor jeito de ver um programinha simplório como este). Basicamente, é "Janela Indiscreta" para a Geração YouTube: o novo galã Shia LaBeouf (ô nomezinho...) é um garoto rebelde obrigado a cumprir prisão domiciliar após agredir um professor. Como ele está nos Estados Unidos, e não no Brasil, a coisa funciona: ele recebe uma tornozeleira digital que emite um alarme à polícia no caso de ele mal colocar o pé fora da área da sua casa. Sem poder escapar da condenação, ele se dedica a espionar os vizinhos, principalmente a gracinha interpretada por Sarah Roemer, que acabou de se mudar para a casa ao lado. O problema é quando ele começa a desconfiar que o vizinho da frente, um esquisitão interpretado pelo ótimo David Morse, é um serial killer. O elenco tem ainda a "Trinity" Carrie-Anne Moss em participação que não fede nem cheira, como a mãe do rapaz. Me lembrou inclusive uma variação do "A Hora do Espanto" (rapaz espiona vizinho, desconfia dele, o vizinho percebe que está sendo espionado e começa a invadir a vida do rapaz, e por aí vai). Mas, e isso realmente me surpreendeu, o filme é bem feitinho e consegue prender a atenção até o final. Pena que não tem coragem de ir além: na conclusão, alguns personagens que pareciam mortos reaparecem para o "final feliz" obrigatório nestas produções comercialóides.




PAGANDO BEM, QUE MAL TEM? (Zack and Miri Make a Porno, 2008, EUA. Dir: Kevin Smith)
Vendo os últimos filmes do eterno nerd Kevin Smith, quem diria que ele já foi considerado a salvação do cinema independente lá atrás, nos anos 90, ao fazer filmes simples e inteligentes como "O Balconista" e "Procura-se Amy"? Eu já tinha desistido do sujeito há algum tempo, especialmente desde os muito ruins "O Balconista 2" e "Menina dos Olhos", mas resolvi esquecer o título nacional horroroso e arriscar, já que o tema deste seu novo trabalho me pareceu interessante (casal de amigos fica sem grana para pagar o aluguel e resolve fazer um filme pornô amador), e a dupla de protagonistas valia a pena (com o engraçado Seth Rogen e a delícia Elizabeth Banks). O resultado acertou na trave: continua anos-luz distante das coisas boas que Smith já fez, continua tão besta quanto suas produções mais recentes (difícil entender que tipo de público ele anda mirando, se são os "adultescentes" de antigamente ou a garotada desmiolada de hoje), mas tem lá seus momentos. O melhor é a primeira parte, principalmente a sátira pornô de "Star Wars" (Star Whores), e também porque Smith não cai na burrada de fazer um filme sobre a indústria pornográfica sem mostrar nudez ou sexo (erro cometido por comédias patetas e inocentes como "Quase Ilegal" e "Um Show de Vizinha"). Entretanto, e isso é uma pena, o que começa como uma comédia sacana e safada bem legal desmorona a partir da metade, quando se transforma em comédia romântica, e o filme pornô é simplesmente esquecido. E a Elizabeth Banks NÃO aparece pelada, o que é extremamente deprimente! Para piorar, a tradução das legendas é ridícula, deixando de fora 80% dos palavrões e termos de baixo nível tão necessários numa história como essa. Resumindo: até vale uma espiada, mas não é nada memorável. Atenção para as pequenas participações da ex-musa pornô Traci Lords (agora uma baranga de dar medo), e do novo Superman, Brandon Routh, aqui em papel de homossexual!




O RETORNO DOS MALDITOS (The Hills Have Eyes 2, 2007, EUA. Dir: Martin Weisz)
Falaram tão mal desta continuação do remake de Alexandre Aja para o clássico de Wes Craven que nunca me animei a ver, até agora. Puro exagero: trata-se de uma típica continuação caça-níquel para o mercado de DVD, tão comum quanto outras tantas, mas longe de ser esta ruindade que comentaram - a continuação "original", dirigida por Wes Craven em 1985, é que é um lixão indefensável. O roteiro desta seqüência foi assinado por Craven com seu filho Jonathan, e mostra um pelotão da Guarda Civil em uma missão de resgate naquela mesma área do deserto do Novo México onde a família Carter foi atacada no primeiro filme. Claro que ainda há muito mutantes canibais por lá (embora misteriosamente nenhum deles tenha dado as caras no primeiro filme...), e os monstrengos tratarão de aniquilar os soldadinhos de chumbo um a um. Há bastante sangue e mortes (com direito a cabeça esmagada com pedra EM CLOSE, saco esmagado a marretadas e lâmina de baioneta enfiada na boca), mas sem um pingo da tensão e do suspense do original de Craven ou mesmo do remake do Aja. Culpa do diretor alemão Weisz, mais interessado no visual do que na história. Mas vale para uma Sessão da Tarde gore para doidos. Sem contar que é divertido ver soldados tão burros quanto a média das jovens vítimas de slasher movies. Dá até para traçar um paralelo com a ocupação norte-americano no Iraque: como lá, aqui também temos jovens soldados bem equipados, mas mal-preparados, tentando tomar posse de um território que não é deles e sofrendo a sangrenta retaliação dos habitantes locais. Quem disse que só o George Romero pode fazer crítica social? Divertidinho, e nada mais.




UMA VIAGEM MUITO LOUCA (Harold & Kumar Escape from Guantanamo Bay, 2008, EUA. Dir: Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg)
Este filme é seqüência de uma comédia boba que tinha lá seus momentos ("Harold e Kumar Go To White Castle", lançada no Brasil como "Madrugada Muito Louca", por isso o igualmente tenebroso título nacional desta continuação). Infelizmente, os roteiristas cometeram a burrada de pegar estes poucos bons momentos do original e repetir aqui, pensando que teria a mesma graça. Não tem. Isso sem contar que a trama é bisonha: a dupla de maconheiros Harold e Kumar pega um vôo para Amsterdã, mas um mal-entendido a bordo, envolvendo um bong, faz com que eles sejam acusados de terrorismo e enviados a Guantanamo Bay (!!!). Está no título original, mas a cadeia se resume a uma ceninha de cinco minutos: logo a dupla foge e atravessa os EUA, com o Serviço Secreto no seu encalço. Acontece de tudo um pouco: eles invadem uma reunião da Ku-Klux-Klan, quase transam várias vezes, fumam maconha com o presidente George Bush (!!!), mas nada disso tem a menor graça. O único momento divertido, como já acontecia no filme original, é a participação do ator Neil Patrick Harris interpretando ele mesmo, e fazendo uma curiosa auto-crítica (é representado como um astro de Hollywood viciado em drogas e sexo com prostitutas). O desfecho de sua aparição, de tão absurdo, é o ponto alto do filme. O resto é bobagem e não provoca nem sorrisos amarelos. E nem mesmo o festival de gostosas peladas ajuda. Está na hora de os roteiristas de comédias debilóides aprenderem que peidos e pessoas cagando, por si só, não têm graça nenhuma, pelo menos para as pessoas normais. Pior: segundo o IMDB, um terceiro filme com Harold e Kumar vem aí...




O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The Curious Case of Benjamin Button, 2008, EUA. Dir: David Fincher)
Como é que um conto bem humorado e com meia dúzia de páginas escrito por F. Scott Fitzgerald se transforma num porre melodramático interminável com quase três horas de duração? Boa pergunta... Eu nem vou discutir aqui os aspectos técnicos do filme, a maquiagem perfeita e o talento de David Fincher como diretor, já demonstrado diversas vezes ao longo de uma carreira repleta de filmaços. Mas este "Benjamin Button" é muito chato, e falha principalmente por não conseguir tornar interessante o drama absurdo do personagem principal. Tudo bem, o Brad Pitt nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos ao invés de envelhecer. Legal, interessante, mas a criatividade da situação se esgota depois dos primeiros 20 minutos, e ainda tem 140 pela frente! O maior problema é o roteiro de Eric Roth, que mais parece uma regurgitação do seu premiado trabalho anterior, "Forrest Gump" (são tantas semelhanças entre os dois filmes que nem vou perder meu tempo enumerando). E, estranhamente, os melhores momentos são justamente aqueles que não têm relação com a trama principal, como o velhinho que vive se lembrando de quantas vezes foi atingido por raios (eu ria alto a cada vez que os flashbacks mostravam o sujeito sendo atingido!), ou a história do relojoeiro que constrói um relógio cujos ponteiros andam para trás, na esperança de que o tempo volte e seu filho retorne vivo da Primeira Guerra Mundial. Já no caso da história sem graça do Benjamin Button - que, como Forrest Gump, participa sem querer de diversos fatos históricos -, a única parte realmente empolgante é a sua participação involuntária na Segunda Guerra Mundial. Mas quando a guerra acaba, e o ótimo personagem do Capitão Mike (interpretado por Jared Harris) some de cena, o filme se transforma numa xaropice interminável. Grande decepção que ainda estou tentando entender como ganhou tantas críticas positivas.




THE GIRLS REBEL FORCE OF COMPETITIVE SWIMMERS (Joshikyôei hanrangun, 2007, Japão. Dir: Kôji Kawano)
Mais um da série "O que será que tem na água que esses japas malucos bebem?". Rodada em vídeo digital, esta tosqueira bizarra bota no mesmo balaio extrema violência, tabus reprimidos, sacanagens das mais diversas, fetiches (japinhas vestidas como colegiais, japinhas tomando banho, japinhas de biquíni, lesbianismo entre japinhas), zumbis, vilões à la James Bond, raio laser saindo da perereca (!!!) e até uma super-assassina estilo Nikita. Como o filme tem apenas 78 minutos de duração, ou 1h18min, pouco ou nada deste tempo de projeção será utilizado para o desenvolvimento dos personagens. O que se sabe é que a bonitinha e tímida Aki (Sasa Handa) e a extrovertida Sayaka (Yuria Hidaka) se encontram num colégio, para onde a primeira foi transferida, bem no meio de uma invasão de zumbis. Sorte que elas são integrantes do time de natação do título, e o cloro da piscina garante imunidade ao vírus da zumbificação (!!!). Na verdade, é tudo uma grande bobagem, daquele tipo que não pode e nem deve ser levado a sério. Tudo, das interpretações (espere para ver as caretas dos atores que interpretam os zumbis...) aos efeitos especiais, é de segunda linha, o que às vezes até provoca alguma risadinha aqui e acolá pela produção miserável. Mas logo a piada perde a graça, pois lembra um filme amador, com imagem um pouco melhorzinha, gravado no quintal da casa de alguém. O que parece é que o diretor Kawano se perdeu por querer atirar para todos os lados, e acaba sem acertar em nenhum alvo: há gore, humor, bobagem e sacanagem em doses esparsas, mas não equilibradas, de maneira que o filme fica apenas vazio e muito chato, mesmo sendo curto.




NOSSO QUERIDO BOB (What About Bob?, 1991, EUA. Dir: Frank Oz)
Dos populares comediantes dos anos 80, Bill Murray talvez seja o único que mantenha uma carreira elogiável até hoje - já que Steve Martin, Eddie Murphy, James Belushi e Chevy Chase perderam a graça, John Belushi e Richard Pryor morreram e Dan Aykroyd hoje sobrevive de pontas em comédias sem graça, inclusive servindo de escada para o Adam Sandler! Portanto, sempre é bom redescobrir os filmes antigos do Murray, como esta pérola de humor negro chamada "Nosso Querido Bob", e que inacreditavelmente eu nunca havia visto. Ele interpreta um sujeito tão chato, mas tão chato, que faz aquele seu amigo mais xarope ou cunhado mais inconveniente parecerem anjinhos. É tudo que Jim Carrey tentou ser em "O Pentelho" e não conseguiu. O chatão chama-se Bob Wiley e é um paranóico e hipocondríaco cheio de manias, que transforma num inferno a vida de seu novo psiquiatra, o dr. Leo Marvin (Richard Dreyfuss, excelente). Desesperado por atenção médica, ele segue o doutor até o lago onde o psiquiatra está passando férias com a família. E, claro, transforma a vida do pobre homem num inferno - principalmente porque toda a família vê Bob como um sujeito simpático, menos, é claro, o psiquiatra, e o espectador! É aquele tipo de comédia em que as coisas só vão piorando, mesmo quando você pensa que o pior já aconteceu (excelente a maneira como Bob destrói a entrevista ao vivo que o psiquiatra está concedendo em rede nacional!!!). Humor negro de primeira, e realmente dá a maior pena do personagem de Dreyfuss.