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domingo, 1 de março de 2009

JOHNNY MNEMONIC (1995)


"QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO? Toda minha vida eu tive o cuidado de ficar no meu canto, sem complicações. Agora, de repente, sou o responsável por toda a porra do mundo, e todos estão tentando me matar... Isso se minha cabeça não explodir primeiro! Você vê aquela cidade lá no fundo? Era lá que eu deveria estar! Não aqui embaixo com cães, lixo e essas merdas de jornais do mês passado. Me enchi deles, me enchi de você, me enchi de tudo isso! Eu quero um serviço de quarto! Eu quero um 'club-sandwich'! Eu quero uma cerveja mexicana gelada! Eu quero uma prostituta de 10 mil dólares! Eu quero minhas camisas lavadas... como eles fazem... no Imperial Hotel... em Tóquio!"

Em 1995, quando realidade virtual e internet ainda eram pura ficção científica, um filme chamado JOHNNY MNEMONIC tentou faturar em cima da estética "cyberpunk" dos romances de William Gibson - um universo então conhecido apenas por nerds, e que somente "Matrix", quatro anos depois, conseguiria transformar em "cultura pop".

Talvez JOHNNY MNEMONIC seja um filme à frente do seu tempo. Afinal, esta bizarra e sombria aventura de ficção científica parece bem melhor hoje do que na época do seu lançamento, quando foi detonada pela crítica e boicotada pelo público, quase enterrando a promissora carreira de um jovem astro chamado... Keanu Reeves! Que, por este trabalho, foi indicado ao Framboesa de Ouro de Pior Ator, depois passou um tempão estrelando porqueiras como "O Observador", e, ironicamente, voltou ao estrelato justamente ao revisitar o tema "cyberpunk" na bem-sucedida série "Matrix".


Roteirizado pelo próprio William Gibson, a partir do seu conto homônimo, este filme "quase B" (custou 26 milhões de dólares) parte de uma idéia intrigante: no ano de 2021, piratear informação é tão comum que internet e satélites não são mais confiáveis; a única maneira segura de "transportar" informação é carregar o cérebro dos chamados agentes mnemônicos com os dados em gigabytes e então mandá-los até o seu destino, incógnitos.

Pode parecer idiota, considerando que o tal agente corre o risco de sofrer um acidente no percurso e adeus informações. Mas, sei lá, soa mais seguro que o correio comum numa sociedade à beira do colapso como a que é mostrada no filme - uma sociedade extremamente capitalista e dominada por megacorporações, tipo a nossa.

Keanu interpreta Johnny, um destes agentes mnemônicos, cuja capacidade cerebral de informação é de 80 GB. Isso mesmo, igual a muitos smartphones de hoje (e insira aqui mesmo a sua própria piadinha em relação ao tamanho do cérebro de Keanu Reeves!).

Claro que o mundo de 2021 não é dos melhores: fazer implantes cibernéticos no corpo é tão comum quanto cortar o cabelo ou trocar de cueca; por outro lado, uma doença chamada NAS é transmitida através das ondas eletromagnéticas e está matando a maior parte da população mundial. Que horror, não?


A ação começa quando o pobre Johnny aceita uma "última missão" (alerta de clichê!!!): carregar dados confidenciais de uma poderosa indústria farmacêutica, de Tóquio para Newark. Ele "compacta" seu HD cerebral para poder carregar 160 GB, mas a quantidade de informação que os caras enfiam na sua cabeça chega a 320 gigas!!! Claro que isso não é nada bom: se Johnny não conseguir fazer o download dos dados em 24 horas, seu crânio vai literalmente explodir!!! Problema número 2: a Yakuza, ligada à tal indústria farmacêutica, está atrás dos dados confidenciais carregados por Johnny. E a vida do mensageiro não importa: tudo que eles precisam é da sua cabeça, e o resto que se exploda!

JOHNNY MNEMONIC tem muitos problemas que explicam a fria recepção na época do seu lançamento. Keanu vinha do sucesso de "Velocidade Máxima", e ninguém esperava vê-lo no papel de um herói desagradável e nada simpático, numa história complicada e sem humor. Embora o roteiro tente "humanizar" o agente mnemônico vivido pelo astro (o rapaz perdeu todas as memórias da sua infância por carregar mais informações no cérebro do que seria recomendável), a verdade é que Johnny Mnemonic é um herói bem diferente do usual, egoísta, insensível e sem a menor vocação para salvar o mundo - tudo que ele quer é salvar a própria cabeça.

Outro grande problema é que tudo soa bizarro demais para o público em geral, embora seja um verdadeiro deleite para quem gosta de FILMES PARA DOIDOS. A ambientação "cyberpunk", por exemplo, atropela o espectador com uma quantidade absurda de informação que não fazia muito sentido lá atrás, em 1995.


Se hoje termos como download, cyberspace e internet já são comuns até para crianças de 6 anos, é bem possível que a maioria do público tenha ficado boiando na época de lançamento do filme. Mesmo hoje, algumas operações "cibernéticas" dos personagens e certos termos técnicos utilizados parecem grego até para quem tem um mínimo de conhecimento na área.

Completando o quesito "bizarria", este é um filme não só estrelado por um herói nada heróico (o discurso do início do texto é feito pelo personagem no clímax da trama, para dar uma idéia de sua preocupação com o futuro da humanidade), mas que também conta com um assassino que usa seu chicote laser para cortar metal, pescoços e pessoas ao meio; um médico viciado em fazer implantes cibernéticos baratos em seus amigos; um golfinho que teve o cérebro modificado pela Marinha para decodificar códigos inimigos e que vive num aquário, além, é claro, de um padre psicopata, vestido como Jesus Cristo, com esqueleto biônico e uma espada em forma de cruz!!!

Para completar, JOHNNY MNEMONIC traz um dos elencos mais "diferentes" já reunidos numa produção hollywoodiana: um astro como Keanu Reeves divide a tela com roqueiros (Ice-T e Henry Rollins), com o astro oriental Takeshi Kitano e mais Dina Meyer, Udo Kier, Barbara Sukowa e, acredite se quiser, Dolph Lundgren (!!!), provavelmente no papel mais esquisito da sua carreira como o tal padre biônico assassino! O pior é que Lundgren quase rouba o filme. Inacreditável!

Obviamente, uma mistura tão estranha só pode ser apreciada por públicos bem específicos. Também não ajuda o fato de o filme ser de uma escuridão digna de Tim Burton (toda a história se passa à noite), e de ser o primeiro (e até agora único) longa-metragem de um obscuro artista plástico chamado Robert Longo, que até então só havia dirigido videoclipes do REM e do New Order e um episódio (ruim) da série "Contos da Cripta".


Contando ainda com as tradicionais e multicoloridas cenas criadas por computação gráfica para representar as viagens dos personagens pelo cyberspace (estilo "O Passageiro do Futuro"), JOHNNY MNEMONIC é o tipo de filme que você nem sabe direito como avaliar, em que idéias muito boas são jogadas lado a lado com outras completamente imbecis, e cenas bem legais (incluindo mãos e cabeças decepadas com o tal chicote-laser) são seguidas por momentos pouco ou nada inspirados (cortesia do diretor de primeira viagem).

Entretanto, várias imagens e situações seriam vistas posteriormente em outros filmes, dos sobretudos escuros que viraram mania em "Matrix" às traquitanas tecnológicas que se tornaram presença obrigatória em todo e qualquer filme sobre hackers e computadores (alguns aparelhos ligados no cérebro também lembram "Matrix"). E tem até a imagem do casal se beijando enquanto edifícios queimam no horizonte (vista depois em "Clube da Luta").

Será que estamos diante de uma obra visionária? Bem, dá para apostar que tanto o filme quanto os seus realizadores teriam muito mais sorte caso JOHNNY MNEMONIC tivesse sido lançado hoje, e não 14 anos atrás. Mas este é o preço pago por todas as obras à frente do seu tempo, como "Blade Runner", que também foi um fracasso na época de seu lançamento (1982).


Claro que seria covardia (para não dizer loucura) comparar este debut de Robert Longo ao eterno cult movie de Ridley Scott, embora ambos tenham muito em comum, da "estética" futurista à presença de um astro hollywoodiano completamente perdido no seu papel. Mas quem sabe JOHNNY MNEMONIC não seja redescoberto nos anos vindouros?

PS 1: O tradutor brasileiro que teve a genial idéia de colocar no filme o subtítulo "O Cyborg do Futuro" merecia ele mesmo um implante cibernético... no rabo! Afinal, não há um único cyborg no filme, seja do futuro ou do passado.

PS 2: A versão japonesa do filme tem 107 minutos (11 a mais que a versão original). Estes minutos adicionais dão mais tempo em cena para o personagem de Takeshi Kitano. Como o ator era muito mais conhecido no Oriente do que no Ocidente lá no ano de 1995, foram gravadas mais cenas com ele especialmente para atrair o público oriental. Não deu outra: esta versão estendida é mais respeitada (e realmente bem melhor, incluindo uma trilha sonora diferente) do que a "oficial".

Trailer de JOHNNY MNEMONIC



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Johnny Mnemonic (1995, EUA/Canadá)
Direção: Robert Longo
Elenco: Keanu Reeves, Dina Meyer, Dolph
Lundgren, Takeshi Kitano, Ice-T, Henry
Rollins, Barbara Sukowa e Udo Kier.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O dia em que QUASE conheci John Landis


Essa viagem que fiz para a Europa em janeiro foi uma viagem de "quases". Eu quase peguei o Fantasporto, famoso Festival de Cinema Fantástico na cidade portuguesa de Porto (passei por lá exatamente um mês antes do início do evento!). Eu quase dei de cara com o Jaume Balagueró e o Paco Plaza filmando as últimas cenas de "REC 2" em Barcelona (descobri tarde demais onde ficava o prédio usado para as filmagens, mas esta história eu conto numa próxima postagem). E eu quase, mas quase mesmo, conheci pessoalmente um dos meus ídolos, John Landis.

Para explicar a importância que este senhor barbudo e bonachão de 59 anos teve na minha vida, comecemos do princípio: meu interesse pelo cinema fantástico e de horror se deve a um dos seus clássicos, "Um Lobisomem Americano em Londres" (1981). Até ver esta perfeita mistura de horror, comédia, efeitos especiais e sangue na telinha do SBT, eu, então lá pelos meus 10 anos de idade, odiava (leia-se "morria de medo") filmes de terror. Com "Um Lobisomem Americano em Londres", Landis despertou o monstro que havia em mim - mais ou menos como o lobisomem que "saía de dentro" do David Naughton no filme.

E mesmo que esteja meio sumido há alguns anos (este ano teremos seu retorno com a comédia de humor negro "Burke and Hare", atualmente em pré-produção), Landis já imortalizou seu nome entre os grandes do mundo do cinema com clássicos do calibre de "Os Irmãos Cara-de-Pau" e "O Clube dos Cafajestes", e até pérolas da cultura pop como o imortal videoclip "Thriller", do Michael Jackson (sim, aquele em que o cantor dança com zumbis).

Mas vamos aos fatos: eu estava em Paris com meu irmão Goti e consegui, por acaso, um folder com a programação da Cinemateca Francesa (La Cinèmathèque Française, para os parisienses). Primeiro, fiquei louco ao descobrir que lá estava sendo realizada uma exposição sobre a vida e carreira do cineasta francês Georges Meliès (um dos pioneiros dos efeitos especiais, ainda nos tempos do cinema mudo). A exposição tinha cenários, figurinos, desenhos, câmeras, filmes... enfim, mais de 700 itens relacionados ao trabalho de Meliès, além de promover palestras e seminários sobre sua obra.

Depois, descobri que a Cinemateca tem um famoso museu sobre a história do cinema mundial, onde é possível ver peças famosas de grandes clássicos, como as engrenagens que sugam Charles Chaplin em "Tempos Modernos", a sedutora robô de "Metrópolis", de Fritz Land, e pôsteres de filmes da época.

E então veio o golpe de misericórdia: analisando a programação de filmes da Cinemateca, descobri que, entre retrospectivas dos trabalhos de Dennis Hopper, Freddie Francis e Michael Mann, e de uma exibição de "Luca, O Contrabandista", de Lucio Fulci (!!!), estava para começar um ciclo com todos os trabalhos de John Landis. E estava lá, em destaque, na programação, no dia 28 de janeiro: "Overture de la rétrospective John Landis: 'Inocent Blood', en présence du réalisateur".

Acho que nem preciso dizer que esta última frase significa "com a presença do realizador", não é mesmo?

Surtei. A exibição seria na noite do dia 28, uma quarta-feira. Então era segunda-feira, dia 26, e eu sabia que meu irmão já tinha comprado a passagem de trem para a Suíça, nosso próximo destino. Porra, para quando é que aquele desgraçado teria comprado a passagem, dia 28 ou 29?

Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim:

- Goti, quando a gente vai pra Suíça?
- Deixa eu ver aqui... (Mentalmente, Felipe fica repetindo: "Dia 29, dia 29, dia 29!!!") Vamos no dia 28. De manhã.
- Dia 28? (Furioso) Por que não vamos dia 29?
- Mas já vimos tudo aqui em Paris, quer ficar aqui fazendo o quê?
- Tá, mas não dá para ir dia 29?
- Não dá, já comprei as passagens e a reserva do hotel aqui em Paris é só até dia 28. Por quê?
- Goti, tem certeza que não podemos ir dia 29?
- Não. Mas tu quer o quê afinal?
- (Resignado) Nada, nada...


E assim, por umas meras 12 horas de desencontro, eu não consegui conhecer pessoalmente o John Landis. Mesmo que fosse para vê-lo bem de longe, ou de relance - ainda assim eu estaria dividindo o mesmo ambiente com ele (para vocês terem uma idéia, este imenso prédio aí embaixo...).


Talvez eu devesse ter estrangulado meu irmão, rasgado as passagens já compradas para a Suíça e dito: "Nós vamos ficar aqui de qualquer jeito porque eu quero conhecer o John Landis! Essa é uma oportunidade única e não vai ser a tua mania de programar tudo com antecedência que vai me deter!".

Por outro lado, tive que reconhecer a paciência e a organização de meu pobre irmão caçula, que realmente programou tudo com perfeição e ia atrás destes detalhes burocráticos da viagem, como datas e horários de trens e aviões, enquanto eu ficava enchendo a cara e procurando DVDs baratos. Sim, eu devia isso a ele. Não podia esbofeteá-lo nem estrangulá-lo. Além disso, a culpa não era dele, mas sim da Cinemateca Francesa. Não podiam ter marcado o início da retrospectiva antes, tipo para a segunda-feira?

Já conformado em ter perdido o encontro com Landis, aumentei minha dor quando conferi o restante da programação: a retrospectiva do trabalho do cineasta se estenderia durante todo o mês de fevereiro, até 1º de março, com exibições de praticamente todas as obras do cineasta, das mais famosas às mais obscuras, como "The Kentucky Fried Movie" (que na França, estranhamente, foi rebatizado "Cheeseburger Film Sandwich"!!!) e até "Schlock", seu primeiro filme. De todo jeito, o homem em carne, osso e barba só estaria presente no dia 28.

E lembro que fiquei imaginando quando, aqui no Brasil, teríamos uma programação desse nível: uma retrospectiva da obra de um famoso cineasta, internacional ou brasileiro mesmo, com a exibição de todos os seus filmes e a presença do próprio fulano comentando seus trabalhos de antes e de agora.

No ano passado, participei da sessão de pré-estréia de "Encarnação do Demônio" em Porto Alegre, com a presença do Zé do Caixão em pessoa, mas não era a mesma coisa (alguém já promoveu uma retrospectiva completa e comentada da obra de Mojica, incluindo seus pornôs e filmes mais obscuros?). Assim, morri de inveja dos parisienses, das suas retrospectivas maravilhosamente completas e de sua maldita Cinemateca Francesa!

Para terminar este triste relato, na terça-feira, 27 de janeiro, antes da partida para a Suíça, fui tentar afogar minhas mágoas com uma visita à Cinemateca, onde pretendia pelo menos ver a exposição do Meliès e o museu com as relíquias de uma época de ouro do cinema.

E foi quando percebi que estou mesmo precisando me benzer: justamente naquele dia, o meu último dia livre em Paris, toda a estrutura da Cinemateca estaria fechada para preparar o início da Retrospectiva John Landis!!!