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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR 5 (1994)


No ano 2000, Charles Bronson foi diagnosticado como portador do Mal de Alzheimer. Como se sabe, o sintoma principal desta doença é a perda de memória. Apesar de ter seu óbvio lado trágico, o Alzheimer também deve ter sido um alívio para o astro. Afinal, ele finalmente poderia esquecer que fez DESEJO DE MATAR 5...

Humor negro à parte, um quinto "Desejo de Matar", e no momento em que foi feito, soa como uma das piores ideias da história - especialmente considerando que a fraquinha Parte 4, lançada em 1987, já demonstrava claramente o esgotamento da fórmula e do personagem. Mas eis que em 1994 (vinte anos depois do original) surgiu esta calamidade chamada DESEJO DE MATAR 5, o filme mais preguiçoso, precário e esquemático da série, e o verdadeiro fundo do poço de uma franquia já capenga.


A gênese da bomba remonta a 1987, quando a Cannon Films lançou "Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown". Mal o quarto filme chegou aos cinemas, e os produtores Golan e Globus já davam sinal verde para a pré-produção de uma quinta aventura de Kersey, tentando faturar uns trocados em cima daquela que era uma de suas franquias mais lucrativas - espremendo a laranja até o bagaço, se me permitem a metáfora hortifrutigranjeira.

Na mesma época, Gail Morgan Hickman, que escrevera a Parte 4, estava tentando vender seu novo roteiro chamado "The Four Horsemen". Era uma trama ambiciosa sobre terroristas que tomavam o controle de Alcatraz e ameaçavam o governo com armas nucleares - algo bem parecido com a superprodução "A Rocha", que Michael Bay dirigiu 10 anos depois, em 1996.


Os produtores da Cannon gostaram do roteiro, mas pediram que Hickman e o diretor inglês J. Lee Thompson reescrevessem a história para transformá-la numa quinta aventura de Paul Kersey. A dupla até fez as alterações necessárias, mas o projeto acabou não saindo do papel por causa das dificuldades financeiras que a produtora enfrentava no final da década de 80.

Logo aconteceu o inevitável: a Cannon Films pediu falência e seus sócios Golan e Globus separaram-se brigados. Parecia que Paul Kersey finalmente teria tempo para descansar, depois de três sequências num curto espaço de tempo (a Parte 2 saiu em 1982, a Parte 3 em 1985 e a Parte 4 em 1987!). Enquanto Kersey repousava, Charles Bronson vivia momentos difíceis: sua esposa Jill Ireland morreu em 1990, após um longo tratamento de câncer.


Finalmente, no começo dos anos 90, Menahem Golan fundou uma nova produtora, a 21st Century Pictures, e tentou tirar do papel alguns projetos que não deram certo nos tempos da Cannon, como as adaptações cinematográficas do Homem-Aranha (que nunca saiu do papel), do Capitão América (que virou um trashão dirigido por Albert Pyun) e, claro, DESEJO DE MATAR 5.

Golan ainda guardava aquele roteiro adaptado de "The Four Horsemen", mas continuava achando que seria muito caro produzi-lo. Preferiu criar um novo, e contratou Michael Colleary para escrever uma trama sobre Kersey voltando ao trabalho de vigilante quando sua nova namorada é ameaçada por gângsters. Eu até consigo imaginar o brainstorming dos caras: "O Bronson está meio velho, mas usaremos um dublê em todas as suas cenas. Acho que a mulher dele tem que ser morta por bandidos no começo do filme. O quê, já matamos três interesses românticos de Bronson nos outros filmes? Tudo bem, vamos fazer de novo, aposto que ninguém vai notar".


Inicialmente, o produtor israelense pensava em dirigir o filme ele mesmo, mas acabou trocando DESEJO DE MATAR 5 por outro dos seus projetos dos sonhos, uma adaptação moderna do livro "Crime & Castigo", de Fiódor Dostoiévski. Além disso, reza a lenda que Bronson não morria de amores por Golan, e já tinha recusado ser dirigido por ele em "Desejo de Matar 2".

Enquanto Golan filmava "Crime e Castigo", Steve Carver foi contratado como diretor. Para quem não lembra, ele dirigiu alguns dos melhores filmes de Chuck Norris ("McQuade, O Lobo Solitário" e "Ajuste de Contas"), e talvez pudesse ter agregado algo de interessante à quinta aventura de Paul Kersey.


Carver chegou a se encontrar várias vezes com Golan e Bronson para discutir o projeto, e começou a escrever o novo filme a quatro mãos com o roteirista Stephen Peters, seguindo as orientações do astro, que queria um Kersey "mais simpático e bem humorado". No total, Carver e Peters trabalharam na pré-produção de DESEJO DE MATAR 5 por dois meses, até serem subitamente demitidos.

O motivo: o produtor Golan resolveu transferir o projeto todo para o Canadá, onde era mais barato para filmar, desde que fossem empregados atores e técnicos canadenses! "No começo fiquei desapontado, mas depois fiquei feliz porque eles cortaram o orçamento ainda mais, e na minha época já era um orçamento ridículo!", comentou o demitido Carver no livro "Bronson's Loose! The Making of the 'Death Wish' Films", escrito pelo pesquisador Paul Talbot.


O substituto foi o canadense Allan A. Goldstein, que não tinha nenhuma experiência prévia com filmes de ação e sequer havia visto algum dos outros "Desejo de Matar". Ele era um diretor pouco expressivo que só havia feito alguns dramas e filmes para a TV, e que anos depois seria responsável por outra atrocidade chamada "2000.1 - Um Maluco Perdido no Espaço", com Leslie Nielsen.

Enfim, quando Goldstein comentou com Bronson e Golan que talvez não fosse a pessoa mais indicada para dirigir DESEJO DE MATAR 5, pois não entendia bulhufas de ação, foi tranquilizado pelo astro: "Fazer as cenas de ação é fácil, difícil é a parte do drama". Assim, o canadense pôs mãos à obra e começou ele mesmo a escrever um novo roteiro, aproveitando pouco ou nada do material escrito por Carver e Peters, mantendo apenas a ideia de Kersey contra gângsters que ameaçavam sua nova namorada, e o fato de a trama se passar no mundo da moda.


Toda esta longa introdução da odisseia que foi a pré-produção de DESEJO DE MATAR 5 é necessária para que o leitor tenha uma ideia mais apurada de como um desastre pode ser anunciado desde o começo. É como uma frase que um ex-chefe meu sempre repetia: "O que começa errado, termina errado".

Qualquer débil mental percebe que a coisa está feia ao ver que praticamente todos os envolvidos nos filmes anteriores (Michael Winner, J. Lee Thompson, Gail Morgan Hickman) pularam fora, restando apenas o astro e um dos produtores. Para completar a tragédia, DESEJO DE MATAR 5 teve um orçamento tão insignificante que o salário de Bronson era maior que a grana para realizar o filme inteiro!


Mas recapitulemos: após iniciar uma onda de assassinatos de bandidos em Nova York motivada pela morte da esposa (Parte 1) e de matar os responsáveis diretos pela morte da sua filha adolescente em Los Angeles (Parte 2), Paul Kersey varreu um bairro pobre de Nova York de uma gangue violenta (Parte 3) e aniquilou totalmente três quadrilhas de traficantes de cocaína em Los Angeles (Parte 4).

No processo, ele perdeu a esposa, a filha, a empregada (!!!), um velho amigo dos tempos da guerra, uma namorada advogada, uma namorada jornalista e sua enteada, filha desta última. Ou seja, o cara é um dos maiores azarados do mundo do cinema, além de autêntico "grupo de risco": envolveu-se com ele, nem que seja dando "bom dia" na rua, e você morre! Se bem que o próprio Kersey não aprende e continua acumulando interesses românticos, que nunca desconfiam de sua vida dupla como vigilante assassino.


Neste DESEJO DE MATAR 5 (que tem o subtítulo original "The Face of Death"), Kersey está de volta a Nova York, mas uma Nova York filmada em Toronto, no Canadá (!!!). Esta seria a sua terceira aventura na Big Apple, mas não se esqueça que, teoricamente, a trama de "Desejo de Matar 4" é continuação direta do segundo filme e passando a borracha no terceiro, então a volta do vigilante a Nova York mostrada em "Desejo de Matar 3" nunca aconteceu (arre, essas coisas são complicadas!). Sendo assim, DESEJO DE MATAR 5 representa o retorno "oficial" de Kersey a Nova York depois de anos vivendo em Los Angeles.

O herói agora está escondido através do programa de proteção a testemunhas, e adotou a identidade falsa do pacato professor de arquitetura Paul Stewart (pena que o diretor-roteirista Goldstein não foi malandro o suficiente para resgatar o nome falso "Kimball", usado pelo vigilante nas Partes 2, 3 e 4). Ninguém sabe a real identidade do velhinho matador além dos policiais que cuidam de sua nova vida.


E tudo vai bem na nova vida de Kersey: além de ter aposentado as armas e de lecionar numa universidade, ele arrumou novamente uma namorada bonitona e muitos anos mais nova que ele, Olivia (a bonita Lesley Anne-Down, na época com 40 anos, 30 a menos que Bronson), confirmando a máxima popular de que "cavalo velho gosta de capim novo"!

Olivia é uma estilista com uma filhinha pequena, Chelsea, fruto do primeiro casamento da moça. E se ex-marido já enche o saco por si só, imagine quando o dito cujo é um sanguinário gângster irlandês, Tommy O’Shea (o malvadão Michael Parks, compondo um vilão exagerado que parece saído de história em quadrinhos).


O’Shea e sua quadrilha usam a butique da ex-esposa para lavar o dinheiro de suas ações criminosas. Só que a moça já não quer mais colaborar com o esquema sujo do ex. E isso, claro, significa problemas. Kersey insiste para que ela testemunhe contra O'Shea. Só que o gângster tem um contato na Corregedoria e fica sabendo das intenções da ex-mulher. Para "gentilmente convencê-la" de não procurar a polícia, ele manda um assassino psicótico chamado Freddie Flakes (Robert Joy) para "assustar" a moça.

Numa cena grostesca, Freddie invade o banheiro feminino de um restaurante, travestido, e esmaga o rosto de Olivia contra o espelho - numa das cenas mais violentas e cruéis de toda a série, o que não significa pouca coisa! Mais tarde, Olivia será assassinada para fechar o bico definitivamente. Adivinhem quem vai desenterrar a machadinha da guerra e fazer justiça com as próprias mãos pela quinta vez?


DESEJO DE MATAR 5 é vergonhosamente vagabundo e nem ao menos respeita o que vimos nos filmes anteriores. Por exemplo: se nas Partes 3 e 4 precisou de muito pouco para Paul Kersey sair metendo bala na bandidagem, neste quinto episódio o justiceiro virou um mané cansado e medroso, que prefere engolir as ameaças de O’Shea durante mais de meia hora de filme e ainda acreditar no trabalho da Justiça, resolvendo encarar por conta própria os criminosos somente quando Olivia é morta - algo que ele poderia ter evitado se sacasse a arma mais cedo.

Além disso, numa estratégia que lembra muito o tom de "Desejo de Matar 4", Kersey prefere criar armadilhas para seus desafetos a encará-los diretamente. Primeiro ele despacha um dos capangas de O'Shea envenenando seu canolli; depois, compra um ridículo brinquedo de controle remoto, enche ele com explosivos e faz Freddie Flakes voar em pedacinhos (esta morte já dá o tom da pobreza do filme, graças ao ridículo boneco que substitui o ator Robert Joy), e por aí vai. Ah, o diretor faz uma ponta como o vendedor da loja de brinquedos.


Para piorar, há um número ínfimo de bandidos para Kersey matar, o que não deixa de ser frustrante, ainda mais considerando que ele matou mais do que isso em seu primeiro filme 20 ANOS ANTES, ou então comparando com a absurda contagem de cadáveres das Partes 3 e 4.

Dessa forma, DESEJO DE MATAR 5 simplesmente se arrasta sem qualquer suspense, sem nenhuma surpresa e sem a menor emoção, simplesmente pulando de uma morte para a outra. O espectador já percebe nos primeiros 15 minutos que não encontrará nenhuma novidade ou a menor tentativa de criar algo novo, então a tentação de dar stop ou desligar a TV é muito grande.

Até porque é brochante ver Kersey usando um mísero revólvinho o tempo inteiro contra seus inimigos, depois que ele detonou marginais com metralhadoras, lançadores de granadas e até bazucas nas aventuras anteriores!


Algumas coisas precisam ser destacadas. Em primeiro lugar, os aspectos involuntariamente cômicos do filme. Claro que você não podia esperar que Bronson fizesse muita coisa como herói aos 72 anos de idade. Mesmo assim, o diretor-roteirista concebeu inúmeros malabarismos para Kersey ao longo do filme, inclusive saltar de cabeça do segundo andar de um prédio e aterrissar confortavelmente sobre uma pilha de sacos de lixo! Porque, ao contrário da vida real, ninguém coloca vidro, metais e outros materiais cortantes dentro dos sacos de lixo cinematográficos...

Em outra cena, os bandidos invadem a casa de Olivia com metralhadoras e Kersey corre desviando-se agilmente das rajadas de metralhadora como se fosse o Neo da série "Matrix". Lembra quando Ed Wood escalou um dublê para Bela Lugosi em "Plan 9 From Outer Space", mas ele era tão diferente do ator que precisava esconder o rosto com uma capa? Pois aqui é a mesma coisa: para esconder a juventude do substituto de Bronson nas cenas de ação, Goldstein fez o dublê correr o tempo todo com as mãos escondendo o rosto!!! Como se, durante um tiroteio, você se preocupasse mais em proteger a cara do que o resto do corpo... Aliás, como se adiantasse proteger alguma parte do corpo contra tiros USANDO AS MÃOS!



Esses detalhes poderiam transformar DESEJO DE MATAR 5 num daqueles filmes divertidos de tão ruins, mas, infelizmente, a ruindade aqui rende mais raiva do que diversão.

É impossível engolir a extrema previsibilidade do roteiro e da narrativa de Goldstein: nos 10 minutos iniciais, quando o filme mostra uma piscina de ácido (hã?!?) no interior da fábrica de confecções de Olivia, até um macaco percebe que Kersey vai atirar alguém ali dentro mais adiante. Já a identidade do policial traidor que ajuda O’Shea salta aos olhos no momento em que o sujeito aparece no filme, mas o roteiro insiste em tratar a revelação do rato como se fosse uma grande surpresa!


Goldstein piora tudo ao nunca se decidir entre levar a coisa a sério ou na brincadeira, pois o tom muda radicalmente ao longo do filme como se dois diretores estivessem no comando da bagaça. Anos depois, em entrevistas, o canadense jurou que esculhambou de propósito, mas eu não caio nessas balelas.

Cenas engraçadinhas como os gângsters sacando suas armas durante o funeral de um deles, quando alguém entra correndo na igreja, e os próprios vilões caricaturais que o herói enfrenta, soam deslocadas e fora de lugar diante do tom de seriedade do resto da trama (especialmente o conflito interno de Kersey para voltar a empunhar armas, ou o violento ataque a Olivia).


E a história ainda está repleta de incongruências. Lá pelas tantas, um amargurado policial revela a Kersey que está tentando colocar O’Shea na cadeia há 16 anos (!!!), mas não consegue provas para incriminá-lo, nem aos seus capangas.

Em seguida, durante dois dias em que segue a trupe para "conhecer melhor o inimigo", o vigilante testemunha pelo menos meia dúzia de atos de violência perpetrados pelos bandidos, incluindo extorsão, agressão e tentativa de homicídio, sem nenhuma discrição! Mas o sujeito que investiga o caso nunca conseguiu provas para incriminá-los em 16 anos de trabalho! Santa ineficiência policial, Batman!


Para piorar, a afetação reina nas cenas de ação filmadas pelo diretor. Quando ele disse que não sabia filmar ação, não estava brincando! Imitando tudo que era modinha nas produções do gênero daquela época (quando a febre John Woo estava no auge), Goldstein encheu o filme de câmeras lentas exageradas durante tiroteios que nem são lá essas coisas, como se isso tornasse as coisas mais emocionantes - só faltaram mesmo as pombas voando, mas deve ter sido porque a produção não tinha dinheiro para pagar o cachê das aves!

Como não gosto de ser injusto, o diretor-roteirista pelo menos criou algumas belas frases de efeito para Kersey neste filme. Quando um capanga de O'Shea aponta uma arma para o herói e ele se mostra desconfortável, o vilão pergunta: "O que foi? Armas te deixam nervoso?". A resposta de Kersey é genial: "Armas podem ser úteis. Idiotas com armas é que me deixam nervoso!". Antes de explodir Freddie Flakes, que tem esse apelido ("Flocos") por causa de um problema crônico de caspa, o vigilante anuncia: "Ei Freddie, vou resolver definitivamente o seu problema de caspa!". Quem diria, Paul Kersey parece mais eficiente como humorista de stand-up do que como justiceiro nesta quinta aventura!


O próprio Bronson deve ter percebido, no meio do caminho, a furada em que se meteu, e interpreta seu papel pela quinta vez sem qualquer convicção, vontade ou mesmo tesão, visivelmente de saco cheio. Tanto que sua relação com o produtor Menahem Golan, que já não era das melhores, evoluiu para ódio mortal durante as filmagens. Consta que depois de algumas semanas, o astro só se comunicava com o produtor através do diretor Goldstein, e nunca diretamente.

Uma crítica publicada na Variety na época do lançamento dizia que Bronson estava tão acostumado ao personagem Paul Kersey que podia interpretá-lo dormindo. Bem, em diversos momentos o astro realmente parece estar adormecido, ou em coma, ou prestes a ter um infarto, diante da ruindade reinante e da falta de novidades desse quinto filme.


No fim, o subtítulo em inglês de DESEJO DE MATAR 5, "A Face da Morte", cai como uma luva para o próprio Charles Bronson: ele está literalmente com a face da morte, como se fosse cair duro a qualquer momento, e mesmo assim o filme insiste em representá-lo como um super-herói capaz de pular do topo de um prédio, desviar de balas e enfrentar dezenas de bandidos ao mesmo tempo.

Não por acaso, em sua última cena, Bronson/Kersey sai caminhando por uma porta iluminada, parecendo que morreu e está "indo em direção à luz" rumo ao Paraíso (imagem abaixo). E mesmo que sua última fala em DESEJO DE MATAR 5 seja "Se precisarem de alguma coisa é só me chamar", deixando um gancho para uma sexta parte nunca realizada, todos sabemos que Paul Kersey (e Charles Bronson) nunca mais vão voltar, pois o astro morreu em 30 de agosto de 2003, em decorrência de pneumonia e do Mal de Alzheimer.


Porém, a julgar pela qualidade deste filme e de vários outros que Bronson vinha fazendo na época, talvez o descanso eterno não tenha sido tão ruim assim, e a foice da Morte poupou-o de continuar pagando mico em futuras continuações de "Desejo de Matar".

Quase consigo visualizar Paul Kersey aos 90 anos, de cadeira de rodas e ligado a um tanque de oxigênio, mas ainda matando vagabundos que ocupam sua vaga de idoso no estacionamento, ou furam a fila do bingo. Já foi tarde, Paul Kersey! Descanse em paz ao lado da sua família e do seu harém de namoradas mortas por bandidos nesses cinco "Desejo de Matar"!


PS 1: Como a relação com o astro da franquia azedou durante as filmagens, o produtor Menahem Golan anunciou como novo projeto "Death Wish 6: The New Vigilante", que teria um novo justiceiro no lugar de Paul Kersey e de Charles Bronson. Só que sua 21st Century Pictures foi à falência antes que pudesse profanar o título da série. Teimoso, Golan criou anos depois uma nova empresa, a New Cannon Inc. (!!!), e produziu e dirigiu ele mesmo o pavoroso "Death Game" (2001), outra aventura sobre justiça com as próprias mãos.

PS 2: A adaptação de "Crime & Castigo" que Golan dirigiu enquanto Goldstein filmava DESEJO DE MATAR 5 também foi um tiro no pé, e de bazuca: o produtor gastou uma fortuna para filmar em Moscou e contratou um elenco de astros (Crispin Glover, Vanessa Redgrave, John Hurt, Margot Kidder, John Neville...), mas o resultado ficou tão ruim que, embora as filmagens tenham acontecido em 1993, o filme ficou na geladeira até 2002, quando estreou como uma piada ao estilo do "Chatô" de Guilherme Fontes aqui no Brasil!

PS 3: Em 2006, um tal de Sylvester Stallone anunciou que gostaria de dirigir e estrelar um remake de "Desejo de Matar", mas praticamente mudando a história toda: o personagem principal seria um policial honesto levado ao vigilantismo quando sua família é morta por bandidos. Até 2012 Joe Carnahan era anunciado como provável diretor do remake, mas acabou sendo substituído por Eli Roth num remake bem fraquinho lançado em 2018 e estrelado por Bruce Willis, não Stallone.


PS 4: Enquanto nada se sabe sobre um remake oficial, Allan Goldstein recentemente produziu um filme chamado "The Next Vigilante", originalmente batizado como "Return of the New York Vigilante" para tentar associá-lo à série "Desejo de Matar". O filme, dirigido por Marc Vorlander, será lançado em 2013, e sabe-se lá se os sujeitos vão tentar criar alguma relação com as velhas aventuras de Paul Kersey além do título picareta...

PS 5: Aqui termina a MARATONA DESEJO DE MATAR, e agora o blog entra em recesso por uns 10 dias para que todos possam ler e reler os cinco capítulos sobre os filmes da série. Considerando os números da nossa "ficha criminal", 171 pessoas perderam a vida em cinco filmes, sendo que só o justiceiro Kersey foi responsável por 113 dos cadáveres (66%)!!! Isso, meus amigos, é que é desejo de matar... (Clique no número de "pontos" de Kersey no placar das resenhas para ser redirecionado a um vídeo no YouTube que ilustra todas as mortes da série!)


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: namorada (morta)
* Armas usadas pelo vigilante: revólver Smith & Wesson 629 .44, brinquedo de controle remoto explosivo, cannoli envenenado, piscina de ácido
* Contagem de cadáveres: 11 (Kersey 7 x 4 Marginais)

Trailer de DESEJO DE MATAR 5



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Death Wish V - The Face of Death (1994, EUA)
Direção: Allan A. Goldstein
Elenco: Charles Bronson, Lesley-Anne Down, Michael Parks,
Kevin Lund, Chuck Shamata, Robert Joy, Saul Rubinek, Miguel
Sandoval, Kenneth Welsh e Claire Rankin.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN (1987)


Depois do apocalíptico "Desejo de Matar 3", parecia mais do que óbvio que a carreira cinematográfica do vigilante Paul Kersey estava encerrada. Afinal, não havia mais história para contar. A parceria entre a Cannon Films e Charles Bronson continuou com os filmes policiais "O Vingador" (1986) e "Assassinato nos Estados Unidos" (1987), e por algum tempo Kersey realmente permaneceu aposentado.

O problema é que, à época, a Cannon andava mal das pernas por causa do investimento exagerado - e nunca recuperado nas bilheterias - em filmes como "Falcão - O Campeão dos Campeões" (em que só o astro Sylvester Stallone embolsou 12 milhões de cachê!) e "Superman 4 - Em Busca da Paz". Os produtores Golan e Globus decidiram que a melhor forma de sair do vermelho era lançar continuações de suas franquias mais lucrativas. Sem pensar duas vezes, colocaram em pré-produção "Braddock 3", com Chuck Norris, e DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN.


Como Bronson e o diretor inglês Michael Winner se estranharam após o lançamento do terceiro filme, a direção da quarta aventura de Kersey passou para outro inglês, o veterano J. Lee Thompson, que já tinha trabalhado com Bronson cinco vezes (incluindo "Dez Minutos Para Morrer"). Era um verdadeiro encontro de dinossauros: o ator estava com 66 anos, e o cineasta com 73. Thompson já trabalhava para a Cannon há algum tempo, dirigindo aventuras como "As Minas do Rei Salomão" e "Os Aventureiros do Fogo", e estava acostumado a fazer filmes para os primos israelenses com orçamentos irrisórios.

Definido o diretor, o problema agora era qual direção seguir depois de "Desejo de Matar 3": continuar apostando no exagero e no absurdo, ou voltar àquele tom mais sério e realista dos dois primeiros filmes?


Nem os próprios Golan e Globus sabiam a resposta. Por isso, vários argumentos para DESEJO DE MATAR 4 foram analisados por eles, incluindo uma ideia sugerida pelo próprio Brian Garfield (autor do romance "Death Wish", que deu origem ao primeiro filme, lembra?).

Depois de muitas idas e vindas, Golan e Globus lembraram de Gail Morgan Hickman e das várias ideias não-aproveitadas que ele havia escrito alguns anos antes para a Parte 3. Hickman tinha roteirizado uma outra aventura de Bronson ("O Vingador"), e seu trabalho foi tão satisfatório que resolveram chamá-lo de volta para escrever DESEJO DE MATAR 4 a partir de um daqueles argumentos descartados em 1984.


Inicialmente, Hickman escreveu uma aventura mais séria que era continuação direta de "Desejo de Matar 2", fingindo que aquela Terceira Guerra Mundial num bairro pobre de Nova York, mostrada na Parte 3, nunca aconteceu! No argumento inicial, um envelhecido Kersey, ainda vivendo em Los Angeles, aposenta seu passado como vigilante e volta a se relacionar com aquela ex-namorada interpretada por Jill Ireland na Parte 2, prometendo a ela nunca mais fazer justiça com as próprias mãos. Só que namorar com Kersey é zica, e logo a moça seria executada por bandidos durante um assalto. Como o herói tinha feito a promessa de abandonar as armas, ele tenta agir conforme a lei dessa vez, levando os culpados a julgamento. Só que os assassinos são inocentados e voltam às ruas. É quando Kersey também resolve sair da aposentadoria e vingar-se ao seu estilo.

Parece até interessante no resumo, mas o roteiro de Hickman não foi bem recebido pela Cannon, que queria uma aventura com mais tiros e explosões e menos drama, questionamentos e conflitos internos do vigilante. Além disso, a atriz Jill Ireland estava se tratando de um grave câncer de mama e não se sentia confortável para interpretar uma personagem que morria. E sem ela, a ideia perdia todo o sentido.


Assim, Hickman voltou à estaca zero, e, entre as várias ideias surgidas no processo, bolou uma completamente absurda em que Kersey caçava um perigoso terrorista para vingar um amigo da CIA morto pelo vilão (coincidentemente, argumento parecido já havia aparecido na aventura "Exterminador Implacável", com Rutger Hauer, um ano antes)!

Finalmente, o roteirista chegou à ideia que acabou se transformando em DESEJO DE MATAR 4, baseada tanto no western "Por um Punhado de Dólares" quanto na fonte inspiradora deste, o filme japonês "Yojimbo": o vigilante Kersey agora agiria de maneira mais cerebral, colocando duas quadrilhas de traficantes de drogas uma contra a outra, e matando aqueles que sobrassem no final!


Naquela etapa dos anos 80, a Cannon Films estava buscando temas "socialmente engajados" para suas aventuras. Se "Superman 4 - Em Busca da Paz" era um libelo anti-corrida armamentista, DESEJO DE MATAR 4 seria uma aventura anti-drogas. A própria família Bronson sofria com o problema, já que o filho adotivo do astro, Jason McCallum, travava uma dura batalha contra o vício em drogas (mas nunca se soube se isso influenciou ou não no argumento do filme, e se foi Bronson quem sugeriu abordar o tema).

Fazendo de conta que "Desejo de Matar 3" nunca aconteceu, o filme mostra Kersey trabalhando normalmente como arquiteto em Los Angeles, e com um novo caso amoroso: trata-se de mais uma jornalista, Karen Sheldon (Kay Lenz, de "A Casa do Espanto"), e novamente com a metade da idade dele (Kay tinha 34 anos, Bronson 66!). Para quem não lembra, na Parte 2 a namorada de Kersey também era jornalista.


Embora sofra pesadelos frequentes relacionados a suas incursões anteriores como vigilante, Kersey parece ter aposentado seu passado para levar uma nova vida com Karen e sua enteada adolescente, Erica (Dana Barron, que interpretou a filha de Chevy Chase em "Férias Frustradas").

Sem que os pais saibam, Erica e seu namorado Randy (Jesse Dabson) são usuário de drogas. E, certa noite, a garota exagera no crack e acaba comendo capim pela raiz, morrendo de overdose. Isso tudo acontece já nos primeiros 10 minutos de filme, pois desenvolvimento de personagens parece não interessar muito nesse quarto filme.

Kersey sequer espera o cadáver esfriar: ele segue Randy até o traficante que vendeu a droga, Jojo (Héctor Mercado), testemunha a execução do rapaz (que, burramente, ameaçou entregar o traficante à polícia) e resolve sair da aposentadoria, dando o devido castigo ao "assassino" da sua enteada. Ok, os culpados pela overdose estão mortos, então parece que é o fim, certo? Errado.


As mortes de Randy e Jojo são investigadas por uma dupla de policiais, os detetives Reiner (George Dickerson) e Nozaki (Soon-Tek Oh). E como Nozaki é interpretado pelo mesmo ator que fez o vilão de "Braddock 2", é óbvio que mais cedo ou mais tarde ele vai se revelar um policial corrupto.

Paralelamente, o vigilante é procurado por um poderoso milionário, dono de um império de veículos de comunicação, chamado Nathan White (John P. Ryan). Ele quer "contratar" o justiceiro para um trabalhinho: aniquilar as duas quadrilhas de traficantes que comandam o império dos entorpecentes em Los Angeles. Nathan alega que sua única filha também morreu de overdose, e por isso não vai economizar dinheiro ou armas para que Kersey acabe com a raça dos bandidos. Apesar de não ter mais nada a ver com a história, e de não ser nenhum mercenário ou guerrilheiro, o vigilante aceita a proposta - com a desculpa de acabar com aqueles que estão matando "as crianças".


As duas quadrilhas são chefiadas por Ed Zacharias (Perry Lopez, que depois trabalhou com Bronson no ótimo "Kinjite - Desejos Proibidos") e pelos irmãos latinos Jack (Mike Moroff) e Tony Romero (Dan Ferro). Como já acontecia em "Por um Punhado de Dólares" e "Yojimbo", um grupo não se bica com o outro, e só precisa riscar um fósforo para explodir o barril de pólvora.

Kersey percebe isso e dá uma de Clint Eastwood/Toshiro Mifune, jogando uma quadrilha contra a outra, matando os homens-chave de cada organização e fazendo parecer que foi trabalho do outro grupo. O resultado é uma mini-guerra que quase lembra "Desejo de Matar 3", aquela aventura exagerada que o astro, o roteirista e os produtores estavam tentando esquecer...


Uma das minhas principais queixas em relação a DESEJO DE MATAR 4 é que ele parece não ter nada a ver com o restante da série - tudo bem, o terceiro também não, mas pelo menos era engraçadíssimo e já estava de bom tamanho para fechar a franquia. Não consigo engolir um justiceiro como Paul Kersey fazendo intriguinha nos bastidores, colocando bandidos uns contra os outros ao invés de atacá-los por conta própria e matar todo mundo, ao seu estilo. Soa tão imbecil quanto aquele filme do Justiceiro com o Thomas Jane.

O roteirista Hickman merece crédito por ter tentando ligar a história com os dois primeiros filmes, e até faz diversas citações a eles, quando os policiais que investigam o caso citam as tragédias acontecidas na família Kersey em "Desejo de Matar" e "Desejo de Matar 2"; além disso, novamente Kersey se identifica com o nome falso "Kimball", como fez na Parte 2 (e também na terceira, mas lembre-se que essa não foi levada em consideração aqui).


O problema é que Hickman não percebeu que Kersey não é um soldado, um policial ou um mercenário, mas sim um cara normal com desejo de matar (dã!). Eu consigo engolir o protagonista lutando sujo contra os punks do terceiro filme, mas não sua cruzada patrocinada contra os traficantes de drogas. Aliás, por que diabos o personagem de Ryan contrata Kersey para fazer o serviço ao invés de um mercenário ou assassino profissional?

Sem contar que é praticamente impossível acreditar que Kersey consiga esconder de todo mundo (da nova namorada, da polícia...) o seu trabalho atual como vigilante, já que aparece o tempo inteiro com armas de grosso calibre e até explosivos para despachar os traficantes. E a maneira como ele consegue se infiltrar com a maior facilidade em qualquer lugar - como ao entrar disfarçado de garçom numa festa promovida por Zacharias, ou fingindo ser funcionário numa refinaria de cocaína do mesmo traficante - é forçar demais a amizade!


Há algumas reminiscências daquele primeiro roteiro que Hickman escreveu e que não foi aprovado pela Cannon - aquele mais sério e tal -, e esses pequenos detalhes são a melhor coisa de DESEJO DE MATAR 4, o que me leva a imaginar como este primeiro roteiro poderia ter sido um filmaço antes da mudança para a trama chupada de "Por um Punhado de Dólares".

Por exemplo, a primeira cena do filme, que Hickman disse ter sido a única coisa que conseguiu manter daquela sua primeira versão do roteiro, é um pesadelo em que Kersey aparece interrompendo uma tentativa de estupro. "Quem é você?", pergunta um dos estupradores. "A morte", responde o herói antes de passar chumbo no sujeito, mas só para descobrir que acabou de matar um clone de si mesmo. Kersey então acorda suado e gritando na cama, comprovando que ele ainda é assombrado pela culpa de todos os crimes cometidos, numa ideia interessante que infelizmente é abandonada pelo filme no momento em que o vigilante inicia sua cruzada anti-drogas.


No livro "Bronson's Loose! - The Making of the 'Death Wish' Films", o roteirista explicou ao pesquisador Paul Talbot como foi o processo de destruição da sua história original: "Ficou bastante claro para mim que a Cannon queria que o filme fosse apenas entretenimento. Meu primeiro roteiro era muito sério, e acho que só existem duas maneiras de contar a história de um vigilante: uma é abordar seriamente as implicações morais da justiça pelas próprias mãos, e o que isso faz com você; a outra é fazer algum cartunesco, só para diversão".

Hickman também comparou a série "Desejo de Matar" com as franquias de James Bond e Dirty Harry, em que cada sequência vai ficando mais exagerada. Inclusive eu não entendo porque teimaram em passar a borracha na absurda Parte 3 se esta aqui também tem uma contagem de cadáveres altíssima e inverossímil, a segunda maior da série!


Para não ser injusto, DESEJO DE MATAR 4 tem algumas ótimas cenas de ação, especialmente o ataque de Kersey à refinaria e o massacre coletivo das duas quadrilhas. Algumas piadinhas inspiradas aqui e ali também ajudam a espantar a sensação de estarmos vendo algo completamente descartável. Gosto muito da cena em que um capanga flagra Kersey dentro de sua casa e pergunta o que ele faz ali, e o vigilante responde, com a maior cara-de-pau: "Estou só fazendo um sanduíche".

Outro diálogo inspirado acontece quando Kersey aborda um dos traficantes mostrando a foto da sua finada enteada Erica, e dizendo que fez tudo aquilo por ela. O bandido responde: "Mas eu nem a conheço!". Antes de disparar à queima-roupa, o vigilante retruca: "Mas eu sim!".


O final de DESEJO DE MATAR 4 envolve uma intereressante reviravolta (pouco convincente, mas, vá lá, inesperada) relacionada ao personagem de John P. Ryan. Mas até chegar nela será preciso resistir a cenas francamente estúpidas, como aquela em que o herói explode um trio de vilões usando uma garrafa de vinho-bomba, à la 007 (qual o problema em simplesmente chegar atirando?). Ou o momento patético de "crítica social" em que um médico-legista apresenta à personagem de Kay Lenz várias jovens vítimas do consumo de drogas.

Por sinal, o roteiro fraquinho desperdiça este novo interesse amoroso de Kersey. A pobre Karen aparece apenas no começo do filme, quando vê a filha morrer de overdose, e então desaparece da trama até o final, quando é sequestrada pelos bandidos e, claro, tem o tradicional final trágico reservado a todas as namoradas ou familiares de Paul Kersey. Ninguém se preocupa em explicar o que a personagem fez durante todo o tempo em que esteve sumida da narrativa, mas sabemos que ela não se encontra mais com Kersey - pois o vovô tem todas as noites livres para sair matando bandidos pela cidade!


Não faltam culpados para a inconsistência geral do filme. Um deles é o diretor Thompson, que naqueles tempos lutava contra o alcoolismo. Outros dois são Golan e Globus, que baixaram tanto o orçamento da produção que até reaproveitaram músicas de seus filmes "Braddock - O Super Comando" e "Invasão USA" na trilha sonora para economizar uns trocados, além de colocar pôsteres e displays de várias produções da Cannon em algumas cenas para fazer merchandising grátis. Ironicamente, o trailer de cinema do filme anunciava "The biggest 'Death Wish' ever!"...

Porém o maior culpado talvez seja o próprio Bronson. No livro "Bronson's Loose!", o roteirista Hickman lembra que o ator estava um verdadeiro pé no saco durante as filmagens, reclamando o tempo inteiro que não queria gravar cena "x" ou diálogo "y", e obrigando-o a fazer incontáveis mudanças no roteiro.


Originalmente, por exemplo, o grande vilão do filme morreria asfixiado pelo próprio veneno, quando Kersey o trancava numa sala com o ar impregnado de cocaína; na hora de filmar, optaram pelo velho e direto "Vamos explodir o filho da puta", já visto no final de "Desejo de Matar 3" e também de "Invasão USA". (Traficantes asfixiados com seu próprio veneno apareceriam dois anos depois no obscuro "Esquadrão Cobra 2", com Lorenzo Lamas.)

Também segundo o roteiro original, a namorada do herói permaneceria viva na conclusão, e até prometendo ajudar o vigilante em ações futuras para compensar a perda da filha. Temendo que isso provocasse polêmica pela velha questão do pró-vigilantismo, diretor e produtores optaram por matar a personagem no final, só para manter a tradição da série de que os interesses românticos de Kersey devem morrer!


Por causa dessa soma de fatores, DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN é bem decepcionante. Quando vemos o velhote Bronson correndo com uma metralhadora maior que ele, parecendo prestes a ter um infarto, fica claro que o filme funcionaria muito melhor como veículo para Chuck Norris ou, sei lá, Michael Dudikoff.

Enfim, esta Parte 4 só não é a mais fraca da série porque, anos depois, um ainda mais envelhecido Bronson cometeria a imbecilidade de voltar no fraquíssimo e ordinário "Desejo de Matar 5", um dos piores (e últimos) filmes de sua carreira.


Como já havia acontecido com os outros filmes da série, esta quarta aventura traz pelo menos dois atores que ficariam mais famosos depois em pequenas participações. Um deles é o Machete em pessoa, Danny Trejo, interpretando um dos homens de Zacharias (e uma das vítimas da hilária garrafa de vinho explosiva); o outro é Mitch Pileggi, o Skinner do seriado "Arquivo X", como um traficante que toma umas bolachas de Kersey na refinaria de cocaína. Suas participações são no estilo "piscou, perdeu", então aproveite para dar uma boa olhada em ambos nas imagens acima.

E um detalhe trágico: num daqueles casos em que a vida imita a arte, o filho adotivo drogado do astro, Jason McCallum, morreu dois anos depois de overdose. Pena que, na vida real, Bronson estava muito velho para sair matando traficantes ao estilo Paul Kersey no filme...


PS: Michael Winner nunca mais voltou a dirigir uma aventura de Paul Kersey, mas em 1993 revisitou o universo do vigilantismo em "Beleza Fatal", que é praticamente uma paródia de humor negro da série "Desejo de Matar", mas com UMA vigilante em ação. Para quem gosta do tema, vale a pena procurar!


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: namorada (morta), filha adotiva (morta por overdose) e namorado da filha adotiva (morto)
* Armas usadas pelo vigilante: pistola Walther PPK .32, pistola Walther PP .32 (outro modelo), submetralhadora MAC-10, submetralhadora Uzi, rifle M16 com lançador de granadas M203, rifle Ruger Mini-14, garrafa de vinho explosiva, porta-malas de carro
* Contagem de cadáveres: 50 (Kersey 34 + 3 em pesadelo x 13 Marginais)

Trailer de DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN



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Death Wish 4: The Crackdown (1987, EUA)
Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Charles Bronson, John P. Ryan, Kay Lenz, Perry Lopez,
Dana Barron, George Dickerson, Soon-Tek Oh, Jesse Dabson,
Mike Moroff, James Purcell e Danny Trejo.