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domingo, 4 de março de 2012

GUNS AND GUTS (1974)


Eu nunca tinha ouvido falar de GUNS AND GUTS até encontrá-lo praticamente por acaso num site de compartilhamento de arquivos. Pelo título, por algumas fotos que prometiam sangue e mulher pelada e pelo diretor (o mexicano René Cardona Jr., um especialista em cinema exploitation), achei que não iria me decepcionar.

Só não imaginava a surpresa que teria ao colocar o filme para rodar. Pois, amigos, quando GUNS AND GUTS terminou, eu estava simplesmente boquiaberto. Essa é uma daquelas surpresas que você se pega imaginando porque nunca havia visto antes, e então percebe que ninguém está falando ou escrevendo sobre ela. Corrijo a injustiça: aqui está ela no FILMES PARA DOIDOS, como legítima representante desse nosso estilo peculiar de cinema.


Trata-se de um western rodado no México, mas que lembra muito, narrativamente e visualmente, os faroestes produzidos na Itália, e conhecidos popularmente como spaghetti westerns. E qual será a nomenclatura para os faroestes mexicanos? Chilli Westerns? Tortilla Westerns?

O título original é "Las Viboras Cambian de Piel" (As Serpentes Trocam de Pele), mas o título em inglês, GUNS AND GUTS, é muito mais marcante e descreve com maestria o que é o filme. Afinal, estamos diante de uma aventura suja, sangrenta e amoral daquele tipo que deixaria muito espectador atual de cabelos em pé, e que cita abertamente o cinema brutal do norte-americano Sam Peckinpah.


O filme já começa mostrando a que veio: os primeiros 20 minutos consistem, basicamente, nos personagens principais surrando uns aos outros, espancando outros figurantes e apanhando, mas quase sem diálogos. A coisa é tão curta e grossa que os personagens sequer têm nomes!

Começamos acompanhando um prisioneiro que acabou de escapar da cadeia (Rogelio Guerra, que não é meu parente). Ele consegue engambelar os homens da lei que o perseguem, e passa a espancar várias pessoas em busca do paradeiro de um antigo comparsa de quem quer vingar-se - seria o responsável pela sua prisão.


Durante o brutal processo de "interrogatório", o prisioneiro é abordado por um forasteiro (Pedro Armendáriz Jr., de "007 - Permissão para Matar") que, por coincidência, está procurando o mesmo homem, e também em busca de vingança porque o cara roubou sua esposa. Como o alvo é o mesmo, os dois resolvem somar forças.

Finalmente, em meio à caçada, a dupla pára no saloon de uma cidade e o prisioneiro fugitivo se estranha com um jogador de pôquer almofadinha (Jorge Rivero, visto depois em "Conquest", do Lucio Fulci), que está rodeado de prostitutas, mas se recusa a dividi-las com os outros clientes.


O prisioneiro e o jogador brigam violentamente por uns bons cinco minutos (lembra até aquela cena clássica do "Eles Vivem", de John Carpenter), destróem todo o bar e, ao final da pancadaria, tornam-se bons amigos. Ah, esse jeito macho de ser...

Acontece que o jogador, vejam só, é um matador de aluguel que aluga sua pistola (sem malícia) a quem pagar mais. E como os dois homens em busca de vingança precisam da mãozinha de um profissional para acertar as contas com seu alvo, resolvem contratar o assassino para integrar o grupo, agora transformado em trio.


Após diversas aventuras (incluindo até um encontro nada amistoso com um grupo de monges), os três homens chegam à cidade de Santa Fé e ao seu alvo prioritário. Pois o homem que eles querem matar é ninguém menos que o xerife do lugar (Quintín Bulnes), que vive escondido num forte vigiado por dezenas de capangas armados até os dentes, inclusive com metralhadoras gatling!

GUNS AND GUTS é aquele tipo de aventura que até segue os clichês básicos do gênero (estranhos numa missão que acabam virando grandes amigos, honra e amizade mais fortes que o medo da morte, etc etc). Mas a forma como a história é contada é a melhor coisa do filme: Cardona Jr. sempre surpreende o espectador ao fugir das armadilhas e convenções desse tipo de narrativa.


Considerando que este é um western típico, por exemplo, é curioso que o primeiro disparo de um revólver só aconteça depois de meia hora de projeção. Antes, todos os embates e "discussões" são resolvidos na base da porrada.

Por sinal, a primeira cena com um disparo de revólver já mostra o tipo de violência que veremos pelo restante do filme: um sujeito que intima o matador de aluguel para um duelo estilo "quem saca primeiro?" leva um tiro no pescoço e, em câmera lentíssima, estrebucha caído no chão com sangue esguichando da garganta, até tomar um segundo tiro, esse de misericórdia. É uma cena brutal que lembra o cinema do italiano Lucio Fulci.


Isso só prepara o espectador para o massacre final no forte do xerife, quando os três pistoleiros enfrentam dezenas de homens e o fogo das metralhadoras em um confronto do qual dificilmente sairão vivos, e que lembra bastante o sangrento desfecho de "Meu Ódio Será Sua Herança", de Peckinpah, inclusive na montagem - o filme deve ter sido a principal inspiração de Cardona Jr.

Esta é a grande cena de GUNS AND GUTS, daquelas que deixam o espectador vibrando, grudado na tela e com a adrenalina a mil. Quando uma mulher desarmada é implacavelmente fuzilada em câmera lenta por um sujeito crivado de balas comandando uma das metralhadoras, eu juro que deu vontade de pular do sofá e aplaudir de pé - ninguém mais filmou nada parecido depois que Peckinpah foi pro caixão!


Por sinal, muita gente tentou imitar ou homenagear o velho Sam com tramas sobre amizade e honra cheias de cenas de ação em câmera lenta, de Enzo G. Castellari e John Woo a Walter Hill em "O Limite da Traição" (que tem um grande tiroteio final bem parecido).

E todos estes o fizeram em grande estilo. Mesmo assim, eu me atrevo a dizer que a conclusão desse faroeste do Cardona Jr. é o mais perto que alguém chegou de conseguir copiar decentemente o tiroteio final de "Meu Ódio Será Sua Herança". É ver para crer.


Morto em 2003, com 63 anos, o mexicano Cardona Jr. teve uma prolífica filmografia, assinando quase 100 filmes como diretor. Muitos são divertidos justamente pelo sensacionalismo, como o disaster movie "Ciclone", ou o horror "Bermudas - O Triângulo do Diabo". Dos poucos filmes dele que eu vi, GUNS AND GUTS é disparado o melhor. Não apenas no quesito diversão, mas principalmente porque é muito bem dirigido e produzido.

É bom destacar, para quem não tem familiaridade com cinema mexicano, que o cineasta é filho de René Cardona, outro prolífico diretor que fez um pouco de tudo nos 145 filmes que assinou, de aventuras com lutadores mascarados a clássicos do sensacionalismo como "Os Sobreviventes dos Andes" (e até aparece numa ponta aqui no faroeste do filho, interpretando um monge).

A família já está na sua terceira geração de cineastas: René Cardona III, filho de Cardona Jr., já fez mais de 60 filmes e ainda está na ativa.


Um aspecto muito interessante de GUNS AND GUTS é a interação entre seu trio de protagonistas - que funciona, apesar de eles sequer terem nomes na narrativa. Quem rouba a cena é o matador/jogador interpretado por Rivero, que veste-se como o Sartana dos filmes italianos.

Apaixonado por prostitutas, seu sonho é ganhar dinheiro suficiente para "aposentar" várias mulheres da vida e formar um harém particular num rancho isolado da civilização. Ele passa a maior parte do filme rodeado de putas seminuas, e, numa cena hilária, joga strip-pôquer com três delas.


Ao entrar na história, o personagem de Rivero acaba eclipsando um pouco os outros dois, transformando-se no verdadeiro protagonista. Guerra interpreta o sujeito impetuoso que não vai parar diante de nada até conseguir vingar-se, fala pouco mas bate muito. Já o bonachão Armendáriz Jr. funciona como alívio cômico: raramente se envolve nas pancadarias e fica de canto assistindo, apenas esperando para ver quem vai ficar de pé. Ele veste um poncho que o aproxima do personagem de Clint Eastwood na "Trilogia do Dólar", de Sergio Leone.

Também há um pouquinho, mas quase nada, de drama e romance na narrativa, graças a uma prostituta, Chiquita (Zulma Faiad), por quem o matador de aluguel se apaixona, prometendo tirá-la da difícil vida fácil após sua última missão. O destino da personagem, na cena final, é de partir o coração e só acentua o tom seco e realista do filme.


Sempre que eu "descubro" um obra sobre a qual ninguém comenta muito, me dá a maior vontade de falar/escrever o máximo possível sobre ela, para que outras pessoas se interessem e (re)descubram-na também. Por isso, minha vontade é de escrever muitos parágrafos mais descrevendo outras cenas de GUNS AND GUTS, mas acho que já contei demais e não quero estragar a surpresa.

Portanto, largue tudo que estiver fazendo e saia em busca desse faroeste mexicano impressionante e brutal, mas ao mesmo tempo divertido e curioso, que não faz feio em comparação a grandes clássicos do western spaghetti. E que, definitivamente, deixaria o velho Peckinpah orgulhoso com sua recriação do massacre de "Meu Ódio Será Sua Herança".

Aproveite, também, para conhecer outros trabalhos da família Cardona. Tem muita porcaria, mas ao mesmo tempo boas surpresas no meio. E é muito fácil deixar-se seduzir e hipnotizar pelo cinema mexicano de ação, terror e fantasia.

GUNS AND GUTS inclusive é uma bela forma de iniciar-se nesse universo colorido e maravilhoso. E se você ainda não se convenceu... Bem, dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Então tome três:


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Las Viboras Cambian de Piel / Guns and Guts
(1974, México)

Direção: René Cardona Jr.
Elenco: Jorge Rivero, Pedro Armendáriz Jr., Rogelio Guerra,
Zulma Faiad, Quintín Bulnes, Chano Urueta, Rebeca Silva,
Letícia Robles, Diana Selga e René Cardona.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NO CALOR DO BURACO (1987)


Há poucos dias, fiz uma sessão dupla escatológica que detonaria todos os neurônios saudáveis de cinéfilos de bom gosto (o que, felizmente, eu não sou): num intervalo de algumas horas, reassisti NO CALOR DO BURACO, pornô brasileiro dirigido por Sady Baby, e a comédia-trash-cult "Pink Flamingos", de John Waters. E enquanto conferia as bizarrices do diretor norte-americano, como um travesti de 130 quilos fazendo um boquete (de verdade) e comendo cocô de cachorro (de verdade), não conseguia deixar de pensar que aquilo não era nada muito distante de um filme do Sady Baby falado em inglês.

Um dos cineastas mais extremos do pornô brasileiro, Sady é um nome que dispensa apresentações aqui no FILMES PARA DOIDOS - se quiser saber mais, leia a minha resenha de "Emoções Sexuais de um Jegue". Digamos apenas que o excêntrico cineasta e ex-jogador de futebol seria o resultado de um cruzamento genético entre John Waters, Lloyd Kaufman, Chuck Norris e o cantor Ovelha.


Em parceria com o amigo e sócio Renalto Alves, Sady Baby produziu alguns dos filmes pornográficos mais escatológicos, nojentos e extremos da Boca do Lixo, e olha que estamos falando de um lugar onde se produziu coisas como "Alucinações Sexuais de um Macaco". Aliás, vou reformular: Sady provavelmente foi o responsável por alguns dos pornôs mais escatológicos, nojentos e extremos do mundo ocidental - porque lá no Oriente os caras são doidos demais e não dá para rivalizar.

A dupla dinâmica Sady e Renalto escrevia, produzia e dirigia uma trupe de esfarrapados digna do Exército de Brancaleone, composta por sujeitos que mais pareciam mendigos recrutados a preço de cachaça ou prato feito na Rua do Triunfo, e mulheres tão feias que, se fossem garotas de programa, teriam que pagar para o cliente comê-las.


Gente como Feijoada, X-Tayla, Rubens Larápio e outros malucos que, durante quase uma década, ajudaram a dar vida aos delírios cinematográficos de Sady e Renalto, em filmes nada palatáveis para "pessoas normais", como esse NO CALOR DO BURACO.

Para dar uma ideia do nível de podridão da obra, é bom explicar, desde o começo, que o título vem de uma frase dita por um sujeito asqueroso depois de enfiar o dedo no fiofó de um porco - cena que, claro, foi feita pra valer, sem cortes e sem dublês (nem para o sujeito, nem para o porco). E o nobre suíno reclama com voz humana depois de tomar a dedada, já que no universo sadybabyniano os animais pensam alto, como o Garfield!


É inútil esperar muito da trama ou da narrativa; afinal, isso aqui é um filme pornô. E, pior, um filme pornô escrito e dirigido por Sady Baby. Mas, basicamente, o que veremos durante pouco mais de 60 minutos é a busca de vingança de um psicopata chamado Alemão (Sady, é claro), que estupra e mata brutalmente suas vítimas (não necessariamente nessa ordem), supostamente em represália pela morte da sua família - motivo torpe jogado ao léu na narrativa, e mencionado apenas uma ou duas vezes pelo protagonista.

Entretanto, quem já conhece o cinema sadybabyniano sabe que é ridículo buscar lógica, continuidade ou mesmo uma narrativa minimamente linear num filme dele. O negócio é sentar no sofá, preparar o sal-de-frutas ou o saco de vômito e embarcar numa montanha-russa de depravação e perversidade, com direito a muitas gargalhadas ao longo do passeio.


Acompanhe: NO CALOR DO BURACO começa num matagal, onde Alemão prepara uma cova para um cadáver anônimo, e pelado, caído ao seu lado. Enquanto cava, dá uma das suas tradicionais risadas maléficas de vilão de filme B e declara: "Um preto a menos no mundo!".

Perto dali, sua namorada é atacada por um homem que tenta violentá-la. Os dois rolam dentro de um córrego até a chegada de Alemão, que rende o estuprador e prepara uma armadilha digna de "Jogos Mortais": o sujeito é amarrado pelado numa árvore, com uma das pontas de uma cordinha amarrada no seu pinto, e a outra no gatilho da espingarda - que, portanto, disparará no momento em que o coitado ficar excitado.

Enquanto sua namorada, nua, rebola na frente do homem amarrado para forçar a excitação que o levará à morte, nosso "herói" Alemão provoca com o primeiro de muitos diálogos impagáveis: "Você não tava a fim de comer minha mina? Pois agora você vai foder legal. Você vai foder pra caralho! Quando seu pau subir, cara, você vai ver o pipoco que vai levar! Se bem que isso aí não é pau, é um pintinho de plástico!".


Quando a natureza se manifesta, o pinto do sujeito sobe e o "pipoco" dá cabo dele, o filme corta para os créditos iniciais, Sady Baby style (ou seja, com os atores segurando pedaços de cartolina onde seus próprios nomes foram escritos à mão).

Bizarramente, no momento em que a narrativa recomeça, não há mais qualquer menção aos fatos apresentados no prólogo, nem vemos mais a namorada (ou esposa?) de Alemão. Como escrevi lá em cima, não adianta querer encontrar muita lógica no cinema sadybabyniano...


Enfim, o filme recomeça e nosso "herói" reaparece simulando um ato sexual com uma árvore (!!!), em momento improvisado pelo próprio Sady na hora da filmagem. A filha de um fazendeiro da região, interpretada por X-Tayla, dá azar de passar por ali bem na hora. Ela é atacada e violentada por Alemão, que depois, na maior cara-de-pau, pede que a moça lhe arranje um emprego na fazenda do pai dela (!!!).

Tudo tem uma explicação, ou mais ou menos isso: acontece que, no passado, o fazendeiro (interpretado por Bim Bim, de "A Rota do Brilho") e seu capataz mataram a família de Alemão. Isso nunca é mostrado, e aparentemente aconteceu no período entre a cena inicial (em que a namorada/esposa de Alemão ainda estava viva) e os créditos do filme. Mesmo assim, Sady continua com a mesma roupa da cena inicial, como se toda a trama se passasse no mesmo dia!


Depois de conseguir o emprego na fazenda, nosso "herói" faz amizade com o grupo de degenerados que trabalha no local: o débil mental Sarampo (Gerônimo Freire), que gosta de enfiar o dedo e o pinto no orifício anal dos porcos e bebe leite de uma garrafa de cachaça, e o alcoólatra e homossexual Macaco (que, graças à incorreção política da época, é o negro Feijoada).

Mas ele se estranha com o capataz interpretado por Renalto Alves, e vive fazendo comentários pouco amigáveis como: "Eu não gosto daquele capataz. Eu vou comer o cu dele!".


Certo dia, o fazendeiro e o capataz resolvem dar um fim em Alemão. Sob a mira de um revólver, obrigam-no a cavar a própria cova. Inexplicavelmente, os caras deixam sua futura vítima cavando e vão jogar palitinho longe dali (!!!), dando tempo para que Alemão consiga um revólver e mate todo mundo!

Assim, a vingança teoricamente estaria concluída, já que os alvos prioritários do protagonista, que eram o fazendeiro e o capataz, foram exterminados. Mas Alemão continuará praticando atos de crueldade e matando gente até o final do filme!!! E não adianta tentar entender.


Sobra, por exemplo, para um velhote e sua esposa coroa, aprisionados pelo psicótico e sua trupe de degenerados - uma espécie de versão Boca do Lixo da família Firefly, de "Rejeitados pelo Diabo". A mulher é estuprada "pero no mucho" (já que não oferece grande resistência) e depois esfaqueada, enquanto o homem é morto a pauladas. Em cada uma das mortes, Sady ri sadicamente e declara: "Se fodeu!".

Sobra, também, para os próprios colegas de Alemão. Sarampo, por exemplo, é morto com um tiro nas costas sem motivo algum, e tem seu cadáver queimado no meio da floresta. Até quando continuará a sede de sangue de Alemão?


Neste momento, a "narrativa" já titubeante de NO CALOR DO BURACO é interrompida para a tradicional suruba que sempre atravanca a história dos filmes de Sady Baby. Somos transportados a uma inexplicável escola de educação sexual (!!!) chamada "Xeiro de Sexo" (sic), onde uma placa anuncia "Bem-vindo ao mundo da Aids" (tema já abordado no anterior "Emoções Sexuais de um Jegue").

Ali, um traveco comanda uma orgia hetero e homo sem muita distinção, onde até um pobre e indefeso MAMÃO é estuprado! A orgia caligulesca ocupa uns 15 ou 20 minutos do filme. É quando Alemão invade o recinto com um maçarico e toca o terror - outro tema recorrente, pois em "Emoções Sexuais de um Jegue" Sady interrompia suruba semelhante ao adentrar o recinto com uma motosserra!


Primeiro, Alemão ameaça o "amigo" Macaco, em plena relação sexual com outro homem. Sem-noção como apenas Sady Baby conseguia ser, ele perigosamente aproxima demais a chama do pinto dos "atores", certamente queimando-os, enquanto grita: "Isso aqui não vale nada! Vou enfiar esse fogo na sua boca, seu pilantra! Vou queimar sua bunda, nego, vou queimar seu saco. Mostra que você é macho!".

Finalmente, nosso "herói" aproxima-se da única garota mais ou menos bonita da película (Luana Scarlet), que minutos antes havia matado a facadas o travesti que comandava a suruba. Ela tenta explicar porque fez isso, mas não consegue (provavelmente não havia a menor justificativa para o ato de violência nem no roteiro do filme!). Alemão então pendura a moça de ponta-cabeça e prepara-se para queimá-la viva entre as tradicionais risadas sádicas.


Parece ser a conclusão para as "aventuras" do psicótico protagonista, mas ainda tem mais um pouquinho. Alemão e a filha do fazendeiro (até então sumida, ela reaparece sem maiores explicações) sequestram um caminhoneiro, que é forçado a dirigir até um bosque próximo. Nosso "herói" então empurra o sujeito em direção ao matagal enquanto anuncia: "O negócio é o seguinte, mermão: nós vamos te matar só um pouquinho, não repara não".

Crime concretizado, X-Tayla faz a Alemão a mesma pergunta que todo espectador está se fazendo até então: por que ele segue matando, se já eliminou as pessoas de quem queria se vingar? A resposta é absurda: "Porque mataram toda a minha família". Sim, óbvio, motivo suficiente para seguir matando 100, 200, 300 pessoas, até cansar...


Mas, felizmente, NO CALOR DO BURACO já está terminando, e não há tempo para tamanha chacina. Sobra, porém, para a pobre X-Tayla. Sem motivo algum além da sua incontrolável sede de sangue, Alemão atira nas costas da moça.

Em seguida, bebe o sangue que sai da ferida e faz sexo com o cadáver, ao mesmo tempo em que olha para a câmera, dá uma piscadinha e pronuncia uma das melhores sentenças de todo o cinema sadybabyniano: "Dar uma trepada com uma pessoa morta é uma sensação arrepiante!".

Volta, então, ao caminhão e pega a estrada sozinho, provavelmente para continuar sua carreira de crimes violentos em outros pagos. The end.


NO CALOR DO BURACO é um típico representante do cinema escalafobético de Sady Baby, em que pouco ou nada faz sentido e os acontecimentos servem ao choque gratuito e nada mais; para o diretor, importa mais provocar o espectador com insinuações de crimes brutais, zoofilia e necrofilia do que propriamente excitá-lo, como deveriam fazer os bons pornôs.

Por isso, foi curioso reassistir isso e o filme do John Waters num curto intervalo de tempo: me parece que os dois diretores têm muito em comum, dos impagáveis diálogos e personagens toscos às cenas escatológicas, do sexo (mal) filmado como algo sujo e nojento ao uso da violência explícita num tom exageradamente cômico. Fico imaginando o que Sady e Waters diriam se um assistisse ao filme do outro; quem sabe, até trabalhariam juntos num próximo projeto!


Embora seja oficialmente um pornô, é claro que ninguém assiste um filme do Sady Baby pelas cenas de sexo - pelo contrário, é mais comum ficar sem vontade de trepar por um mês depois de ver alguma obra do diretor. Aqui, ele mantém seu padrão de porqueira, incluindo as famigeradas cenas de homossexualismo entre homens escrotos, barbudos e peludos - infelizmente, as duas únicas mulheres mais "pegáveis", Luana Scarlet e X-Tayla, não protagonizam sexo explícito.

Mas Sady reserva uma surpresa para o espectador: no meio daquela suruba na escola de sexo, o mítico Diabo Loiro surge sem maiores explicações, vestindo apenas uma sunga, para receber uns boquetes e protagonizar seus números... hã... "diferentes" de auto-mutilação corporal!


Para as novas gerações, o nome pode não significar absolutamente nada. Mas, na década de 80, Diabo Loiro costumava aparecer em programas tipo o Show de Calouros, do Silvio Santos, protagonizando "façanhas" de gosto duvidoso. como esfregar o rosto em cacos de garrafas de vidro ou pregar a própria língua numa tábua.

E o que diabos Diabo Loiro está fazendo de sunga numa suruba de um filme do Sady Baby? Ora, exatamente a mesma coisa: esfregando o rosto em cacos de garrafas de vidro e pregando a própria língua numa tábua enquanto homens e mulheres e homens e homens se comem ao redor! Algo muito excitante, pelo menos na cabeça demente de Sady Baby...


Não bastasse a "participação especial" de Diabo Loiro e o sexo nojento, esta cena da suruba faria sucesso numa aula de semiótica, já que os gemidos e sussurros dos amantes foram substituídos por sons de galinhas, porcos e bois!!!

Como o sexo não excita, e é provável que você passe quase todas as trepadas com o fast foward (eu sempre faço isso), o que sobra para ver em NO CALOR DO BURACO? Ora, as cenas de elevado fator trash, é claro! Com destaque para aqueles diálogos impagáveis que são presença constante na obra de Sady.


Um dos diálogos mais hilários acontece quando Alemão invade a escola de sexo e aborda a personagem de Luana Scarlet. A garota se espanta com o maçarico e segue-se a seguinte conversa:

- (assustada) O que é isso?
- É o fogo!
- Eu não quero morrer!
- Você é da família do cara que matou minha família! Eu vou matar você aos poucos! Eu vou queimar você, sua puta!
- Não, eu sou filha adotiva!



Já quando o personagem de Sady é obrigado a cavar a própria cova, o fazendeiro lhe pergunta qual seu último desejo. Impassível diante da morte iminente, ele sai-se com uma pérola: "Eu poderia comer seu cu?".

Finalmente, uma das cenas mais impagáveis precisa ser vista para fazer sentido, pois a simples narração por escrito não faz justiça à dimensão da coisa. Quando o carro em que o protagonista está com sua trupe atola num lamaçal, ele sai furioso do veículo, berrando ordens para que todos façam força e desatolem o veículo. Subitamente, num rompante de fúria que parece ter sido improvisado, agarra Feijoada e tenta enforcá-lo, para em seguida rolar com ele na lama aos gritos: "Você sempre mole, porra! Acho que eu vou te matar, seu filho da puta! Eu tô te pedindo ajuda e você não me ajuda! Porra, você não é meu amigo? Eu vou te matar como um porco se você não me ajudar!".


Fiel aos elementos comuns à toda a sua filmografia (poderia Sady Baby ser considerado um "autor" conforme a teoria de Truffaut?), em NO CALOR DO BURACO o diretor volta a representar o prazer lado a lado com a dor, a humilhação e o sofrimento do parceiro, num universo em que estupros e torturas sexuais (como a impagável armadilha da cena inicial) são comuns à natureza dos personagens.

O próprio Sady novamente interpreta um psicopata sádico que violenta as mulheres e força pessoas a fazer sexo contra a vontade, ameaçando-as com um revólver ou espingarda. Não há espaço para romantismo no cinema sadybabyniano.


O jornalista Gio Mendes, biógrafo oficial do cineasta que prepara um livro sobre sua obra, assistiu NO CALOR DO BURACO junto com Sady e Renalto. Segundo ele, ao questioná-los sobre o porquê de tanta violência em filmes pornográficos, Sady teria respondido que o público gostava, porque "só sexo é cansativo". Já Renalto justificou de maneira mais psicanalítica: "O povo é sádico. Ele não demonstra porque é muita lei proibindo. Mas o povo é sádico, gosta de violência. E o mundo é violento".

Portanto, se o mala-mor Glauber Rocha criou a Estética da Fome, Sady e sua trupe definitivamente são os inventores da "Estética da Podridão", que não poupa esforços para incomodar o espectador com um excesso de pobreza, nojeira e escatologia (tem até uma trepada filmada dentro de um chiqueiro, com porcos ao redor!!!). O objetivo não é excitar o público, mas representar o mundo-cão da forma mais exagerada possível.


Nesse, e em vários outros filmes, Sady faz questão de mostrar os personagens rolando na lama ou em córregos imundos, aproximando-os (e assim ao espectador) da sujeira, ao mesmo tempo em que faz um retrato fiel (ainda que sensacionalista) da vida miserável na zona rural brasileira, onde, até uns 20 ou 30 anos atrás, coisas como a zoofilia não eram apenas herança cultural, mas também um comportamento socialmente aceito - garotos da fazenda perderem a virgindade com galinhas ou vacas era tão comum quanto o pai levar seu filho moleque para perder o cabaço no puteiro, comportamentos impensáveis no dito "mundo moderno".

Não que Sady Baby queira ser tão sério ou fazer crítica social, como o mala Glauber. Pelo contrário, o que lhe interessava era ganhar dinheiro explorando aberrações sexuais em pornôs extremos, sujos e mal-filmados. Se era essa a intenção, NO CALOR DO BURACO funciona que é uma beleza. E deve ter feito, sozinho, muito mais bilheteria que toda a obra do Glauber. Chupem, viúvas do Cinema Novo!!!


Cinéfilos "alternativos" certamente encontrarão algumas qualidades, e muitos motivos para dar risada, nesse impagável pornô trash. Pule as escabrosas cenas de sexo e divirta-se com as péssimas interpretações e com os diálogos e situações hilariantes, que certamente deixariam John Waters e a trupe de "Pink Flamingos" rolando de rir.

A propósito: o super-alternativo Waters teve a sorte de nascer no país certo e virou cult, migrando depois para o "cinemão" e dirigindo galãs como Johnny Depp em filmes bem mais comerciais e palatáveis. Será que Sady Baby teria a mesma chance, caso não fosse um cineasta tão irresponsável? Vocês conseguem imaginar o homem fazendo filmes mais inofensivos para a Globo Filmes, dirigindo galãs nacionais como, digamos, Cauã Reymond?

Que nada: enquanto o transgressor Waters se aquietou e partiu para filmes mais calminhos, o brasileiro continuou porra-louca, a ponto de dirigir, há alguns anos, um filme pornô estrelado pela própria filha. Por isso, assistir um filme de Sady Baby é sempre uma experiência arrepiante.

PS: Eu escrevi ali em cima que a nova geração provavelmente nunca ouviu falar de Diabo Loiro, mas no YouTube é possível encontrar duas participações recentes do sujeito em programas do SBT, Qual é o Seu Talento? (2009) e Ratinho (2011). Ele envelheceu e está mais barrigudo, mas continua fazendo a mesma coisa que fazia quase 30 anos atrás: esfregando o rosto em vidro e pregando a própria língua. Eis um artista íntegro!


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No Calor do Buraco (1987, Brasil)
Direção: Sady Baby e Renalto Alves
Elenco: Sady Baby, X-Tayla, Renalto Alves, Feijoada,
Luana Scarlet, Jerônimo Freire, Bim-Bim, Diabo Loiro,
Franklin Neto e Erivaldo Nery.