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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DRIVE (1997)


Nesta sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012, finalmente chega aos cinemas brasileiros o filme "Drive", de Nicolas Winding Refn, grande campeão de puxa-saquismo do ano passado, idolatrado por cinéfilos do mundo inteiro como se fosse um novo "Cidadão Kane". Portanto, não fique espantado se todos os sites e blogs brasileiros estiverem falando desse negócio hoje e pelos dias vindouros.

Mas não o FILMES PARA DOIDOS, porque eu devo ser a última pessoa sobre a Terra que ainda não viu o filme - gosto de conferir essas produções mais badaladas somente depois que saem da ordem do dia. E enquanto todos os meus colegas de internet escreverão maravilhas sobre Nicolas Winding Refn, Ryan Gosling e cia., prefiro aproveitar esse humilde espaço para falar sobre um outro DRIVE...


Pois eis que, em 1997, o chinês naturalizado norte-americano Steve Wang dirigiu um filmaço que tem justamente este nome, DRIVE. No Brasil, na época do vídeo, a obra recebeu o dispensável subtítulo "Tensão Máxima". Porque, naqueles tempos, tudo era "máximo" nos cartazes nacionais de filmes de ação: "Velocidade Máxima", "Risco Máximo", "Rotação Máxima", "Fervura Máxima", "Adrenalina Máxima", e por aí vai.

Infelizmente, o DRIVE do Steve Wang nunca alcançou a mesma projeção, repercussão ou nível de rasgação de seda deste "Drive" novo do Nicolas Winding Refn - e, é bom esclarecer, os dois filmes não têm absolutamente nada em comum além do título.

Se uso a expressão "infelizmente", é porque esse fantástico trabalho de Wang pode tranquilamente ser incluído em qualquer lista dos melhores filmes de ação da década de 90.


Mas você pode viver sua vida toda e nunca dar bola para ele, já que o filme se confunde com centenas de outras tralhas feitas direto para DVD, e nem a capa, nem o resumo empolgam de primeira. O que é uma pena, porque em tempos de Zack Snyder e Paul W.S. Anderson, DRIVE é uma verdadeira obra-prima.

Só fazendo uma rápida contextualização: na segunda metade dos anos 90, o cinema de pancadaria produzido nos Estados Unidos estava meio moribundo. Se antes todo mundo engolia ocidentais como Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris e o "ninja falso" Michael Dudikoff mostrando suas habilidades em artes marciais, a onda a partir de então era importar diretores (John Woo, Ringo Lam, Tsui Hark), astros (Chow Yun-Fat, Jet Li, Michelle Yeoh) e coreógrafos do cinema oriental (Yuen Woo Ping, Corey Yuen) para fazer filmes hollywoodianos com cara de filmes de Hong-Kong.


O problema é que estas produções metade Ocidente, metade Oriente nunca conseguiam dosar as duas culturas a contento: ou elas soavam extremamente falsas e exageradas ao colocar, por exemplo, Tom Cruise como super-karateka (em "Missão Impossível 2", de John Woo), ou desperdiçavam o potencial de astros do lado de lá, como Jet Li, eternamente perdido e sub-aproveitado em aventuras bundonas e aquém do seu talento como lutador, repletas de efeitos digitais, dublês e cenas com cabos.

E então apareceu Steve Wang como saudável exceção à regra. Curto e grosso: DRIVE é o mais perto que o cinema de ação ocidental conseguiu chegar do nível dos filmes de ação orientais, sem afetação demais nem lutas de menos.


O roteiro de Scott Phillips é redondinho e bastante eficiente. Num futuro próximo, Mark Dacascos interpreta Toby Wong, um chinês especialista em artes marciais que teve um dispositivo bio-mecânico implantado no coração, para aumentar sua força, reflexos e velocidade. Graças ao dispositivo, pode trabalhar como super-assassino para seus empregadores, os executivos da maléfica Leung Corporation.

Só que Toby cansou de ser um super-capanga da bandidagem. Ele prefere fugir para os Estados Unidos e encontrar-se com os representantes de uma outra companhia, que não só tirarão o negócio do seu peito, como ainda pagarão alguns milhões de dólares pela traquitana.


Óbvio que não será uma tarefa fácil: o chefão da Leung Corporation (James Shigeta) contratou um exército de mercenários para caçar nosso herói e levá-lo de volta para casa com o dispositivo intacto. Caçado pelos bandidos e pela polícia, Toby precisa unir-se à força com um fracassado compositor de jingles, Malik Brody (Kadeem Hardison), para chegar a Los Angeles, onde a outra organização irá livrá-lo do incômodo probleminha em seu peito.

(O título do filme vem de uma frase que o herói diz ao entrar no carro do novo parceiro: "Just relax and drive!")

Para a sorte da dupla, a super-agilidade proporcionada pelo mecanismo transformou Toby num adversário praticamente invencível, que abrirá caminho na base da porrada, enfrentando grupos cada vez mais numerosos de inimigos.


À primeira vista, DRIVE não escapa de um milhão de clichês dos filmes de ação, incluindo a dupla sem nada em comum que é forçada a unir forças para sobreviver, e que, como manda a cartilha do cinema moderno, é formada por um branco e por um negro - à la "Máquina Mortífera" e tudo o que foi feito desde então.

A diferença é que tudo no trabalho de Wang funciona como um relógio: das cenas de ação pontuais e cada vez mais impressionantes à química entre a dupla de heróis, até os bem-sacados vilões que têm personalidade própria.


Me refiro aos líderes dos mercenários, que são o fanfarrão Vic Madison (John Pyper-Ferguson) e seu parceiro Hedgehog (Tracey Walter, o capanga do Coringa no "Batman" do Tim Burton). O primeiro passa do cômico ao ameaçador em questão de minutos - e tem colhões para usar um chicote contra um negro, algo muito corajoso nesses tempos politicamente corretos!

DRIVE não é somente um eficiente filme de pancadaria, mas também uma aventura bastante divertida, repleta de citações cinéfilas e de cenas engraçadas sem apelar para a caricatura ou gritaria. Malik refere-se a Toby como "os cinco dedos da morte", lembrando o título de um clássico das artes marciais, e reclama que o parceiro improvisado não é "Miss Daisy" para ser conduzido por ele em seu carro. O herói também identifica-se como "Sammo Hung" (!!!) em determinado momento do filme.


O próprio nome Toby Wong vem de "Cães de Aluguel", do Tarantino. Lembra da cena em que Joe, o chefão dos bandidos, examina uma velha agenda e fica repetindo para si mesmo: "Como era o nome daquela garota chinesa? Toby Chew? Toby Wong?".

Lá pelas tantas, Toby e Malik chegam a um hotel de beira de estrada dirigido por uma jovem maluquinha e ninfomaníaca. Para surpresa geral da nação, a moça é interpretada por uma ainda desconhecida Brittany Murphy, dois anos depois da comédia "As Patricinhas de Beverly Hills". Brittany, que morreu em 2009, viraria estrela hollywoodiana lá por 2001, e aqui tem participação bem curiosa - não, ela não é interesse romântico de nenhum dos personagens e logo some da narrativa.


Porque não há espaço para beijinhos e romance em DRIVE, e é na hora da pancadaria que o bicho pega e o filme mostra a que veio. As cenas de ação, coreografadas por Koichi Sakamoto, mesclam diferentes tipos de luta (até capoeira, que Dacascos já havia demonstrado em "Esporte Sangrento", de 1993).

As lutas também dão oportunidades para que o herói use todos os objetos à sua disposição contra os bandidos, de cadeiras a colchões, como Jackie Chan fazia nos bons tempos.


Ao lutar num apertado quarto de hotel, Toby pula contra as paredes para tomar impulso e literalmente voar contra os inimigos; ao lutar no interior de um bar, ele se pendura de ponta-cabeça num ventilador de teto para, girando, conseguir atirar em todos os bandidos ao seu redor (!!!); não falta nem a clássica cena em que os dois parceiros estão algemados e o herói é forçado a lutar usando o próprio corpo e o do seu parceiro como "armas".

E o melhor de tudo: na maior parte do tempo, a pancadaria é fruto de muito treino dos atores e dublês, e não de efeitos de computador ou do uso de cabos para suspender os lutadores. Dacascos realmente luta pra caramba, e tem a oportunidade de demonstrar isso sem maquiagem digital. Prepare-se para um montão daquelas cenas que você assiste meio emocionado e meio apavorado, pois fica evidente que os dublês se machucam ao serem atirados contra móveis e outros obstáculos.


Também fica evidente que tudo teve que ser exaustivamente treinado nos mínimos detalhes para que os atores soubessem onde encaixar os golpes sem colocar em risco a si mesmos e aos oponentes. Porque as lutas, longas e excepcionalmente bem filmadas por Wang, utilizam-se de longos planos abertos e sem cortes, em detrimento da muito mais cômoda edição picotada de videoclipe que é uma praga do cinema moderno.

Ou seja: os caras tinham que treinar muito bem a coreografia para convencer, ao invés de gravar tudo em pedacinhos curtos e deixar a bomba nas mãos do editor. Mesmo quando exageram um tantinho os feitos do herói, as lutas de DRIVE são muito mais críveis e convincentes do que a maioria das pancadarias vistas nas produções recentes.


Quando você vê Jason Statham sentar porrada na série "Carga Explosiva", por exemplo, aquilo chega a ser cômico de tão inverossímil e forçado; já aqui é mais fácil acreditar que o herói Dacascos realmente seja capaz de vencer inúmeros oponentes, pois os confrontos, ainda que cheios de malabarismos e piruetas, são mais "pé no chão" e menos videogame.

DRIVE também resolve com criatividade um problema crônico das aventuras de artes marciais produzidas nos Estados Unidos: o fato de os bandidos nunca dispararem um tiro na cabeça do Jet Li ou do Jackie Chan ao invés de tentarem inutilmente sair no braço com eles.


Afinal, Toby tem o valioso dispositivo no seu peito que só funciona enquanto seu coração estiver batendo, e por isso os mercenários no seu encalço precisam capturá-lo vivo, mesmo querendo muito usar suas metralhadoras e bazucas para dar um fim na carreira do herói. Toby também pode ser rastreado facilmente por causa do tal dispositivo, então nunca tem a chance de se esconder por muito tempo.

Por sinal, a cena mais fantástica de DRIVE é quando o batalhão de mercenários comandado por Vic invade um hotel onde a dupla dinâmica recupera as energias. Para não correr o risco de matar a galinha dos ovos de ouro, os bandidos levam bastões eletrificados para tentar nocauteá-lo com segurança. Esperto que só, Toby tira as botas de um dos bandidos e as usa como "luvas" para poder lutar sem correr o risco de tomar choques!


Esta cena também inclui um momento impagável em que Malik usa uma serra elétrica contra um dos mercenários! É um humor negro tão sem-noção que parece até saído daquele clássico momento com Schwarzenegger na cabana de jardinagem em "Comando para Matar".

E Dacascos está F-O-D-A como herói. Aliás, um puta herói que usa punhos, pés, armas de fogo, objetos em geral e até espadas contra os inimigos, sem fazer muita distinção entre apenas nocauteá-los ou matá-los.

Esse aqui é indiscutivelmente o seu grande papel no cinema, após uma série de aventuras baratas, bombas como "Double Dragon" e participações pouco expressivas em blockbusters tipo "A Ilha do Dr. Moreau" de John Frankheimer, em que interpretou uma das criaturas. (Uma rara exceção na sua filmografia é o igualmente decente "Crying Freeman", lançado dois anos antes).


Em cada cena de ação de DRIVE, Dacascos luta como se sua vida dependesse disso, movimentando-se com tanta rapidez e agilidade que dá vontade de rever o filme inteiro em câmera lenta. Seu herói hiperativo parece um cruzamento genético do Jet Li de "Máscara Negra" com o Jackie Chan da série "Police Story".

Consta, inclusive, que o diretor Wang e o coreógrafo de ação Sakamoto espremeram o pobre do ator até o bagaço, praticamente obrigando-o a participar do máximo de cenas sem dublê que ele conseguisse encarar. Isso é mais um fator que valoriza o resultado final: se você passar as lutas em câmera lenta, vai ver que é o próprio Dacascos botando pra quebrar em 80% do tempo!


A conclusão é um verdadeiro presente aos fãs de ação: um quebra-pau que dura uns bons 20 minutos, em que primeiro nosso herói enfrenta um grupo de motociclistas (à la "O Jogo da Morte", aquele filme póstumo do Bruce Lee), e depois um "modelo avançado" que tem um dispositivo como o dele implantado no próprio corpo, mas mais moderno e garantindo alguns recursos a mais, como uma "sobre-vida" em caso de morte.

A tal "versão 2.0" é interpretada pelo japonês Masaya Katô, que já havia contracenado com Dacascos em "Crying Freeman". Bem, se o herói é um cruzamento de Jet Li com Jackie Chan, este vilão anabolizado parece o Agente Smith, de "Matrix", depois de cheirar cocaína e beber dez litros de Red Bull.

(Ah, vale lembrar que DRIVE é dois anos anterior a "Matrix", embora o modelo avançado interpretado por Katô apareça com um figurino bem semelhante aos personagens dos Irmãos Wachowski, vestindo casacão longo e óculos escuros!)


Segundo Scott Phillips declarou em entrevistas, ele escreveu o roteiro ainda no começo dos anos 90, originalmente imaginando-o como um veículo para Jackie Chan (no lugar de Dacascos) e Sylvester Stallone como sidekick (!!!). É por isso que, num momento do filme, o vilão Vic orienta um de seus homens para atirar na perna do "baixinho" e na cabeça do "altão", uma fala escrita pensando em Jackie e Stallone, já que Dacascos e Kadeem têm praticamente a mesma altura.

Pessoalmente, fico muito feliz que esse projeto para blockbuster não tenha saído do papel como o roteirista havia concebido, pois Stallone faria de tudo para ganhar mais tempo em cena e roubar o estrelato de Jackie, o que não acontece aqui entre Dacascos e seu sidekick. Além disso, grandes estúdios não sabem fazer filmes de ação e iriam substituir a ação desenfreada pela comédia, e as lutas práticas por efeitos especiais.

(Só para constar, o único encontro entre Stallone e Jackie acabou sendo na mal-sucedida comédia "Hollywood - Muito Além das Câmeras", em que eles estrelam um filme de ação fictício chamado "Trio".)


Para encerrar, DRIVE é tão competente e bem produzido que parece ter custado bem mais do que o seu real orçamento. Acredite se quiser, mas essa maravilha custou apenas 3,5 milhões de dólares - valor que não paga nem um dia de filmagens de "Os Mercenários 2"!

Superior a qualquer coisa que Jet Li ou Jackie Chan tenham feito nos Estados Unidos (o que nem é um grande feito, considerando as porcarias em que ambos se meteram), o filme também deve ter deixado Brett Ratner possesso, pois é tudo que esse zé-mané tentou fazer nos seus três "A Hora do Rush" e não conseguiu.


DRIVE é tão bom, mas tão bom, que tinha tudo para transformar Mark Dacascos em super-ídolo de ação e Steve Wang no novo nome quente do gênero. Afinal, se voltarmos a 1997 iremos constatar que não havia praticamente nada no mesmo nível sendo produzido nos Estados Unidos: os filmes de ação norte-americanos de destaque naquele ano foram "Con Air", "A Outra Face", "Velocidade Máxima 2", "A Colônia" e aquelas produções baratas rotineiras estreladas por Gary Daniels, Oliver Gruner e Don "The Dragon" Wilson.

Infelizmente, a companhia que produziu DRIVE não tinha grana suficiente para bancar um lançamento decente, e ele foi distribuído direto para o mercado de VHS/DVD, sem nunca chegar à tela grande. Para piorar, ganhou uma nova edição para americano ver, com quase 20 minutos a menos e uma abominável trilha sonora com música eletrônica.

A "director's cut" de Steve Wang, com mais desenvolvimento de personagens e trilha original que não incomoda os ouvidos, saiu em DVD somente na Europa.


Por causa disso (versão mutilada e sem lançamento nos cinemas), DRIVE acabou relegado à poeira das videolocadoras e nunca recebeu o merecido destaque, nem transformou Dacascos e Wang em grandes nomes das suas respectivas áreas, como podia ter acontecido num mundo justo e perfeito.

Pelo contrário: o diretor foi comandar episódios dos seriados "Power Rangers" e "Kamen Rider", sem nunca mais ter assinado nenhuma outra produção no mesmo nível, enquanto seu ator continuou estrelando aventuras baratas direto para vídeo.


A bem da verdade, Dacascos quase chegou lá uma segunda vez ao aparecer na aventura "O Pacto dos Lobos", de Christophe Gans, no papel de um índio bom de briga. Mas não foi muito além disso, e o mais perto que chegou do cinemão classe A foi como vilão que apanha de Jet Li no descartável "Contra o Tempo" (2003).

Ironicamente, comparar a luta afetada e mal-filmada entre Li e Dacascos nesse filmeco com qualquer cena de DRIVE é o mesmo que comparar Mozart com Michel Teló!


Por isso, repito que é uma lástima o fato de DRIVE não ter feito o devido sucesso e até hoje seja tão pouco conhecido. Pois, como já escrevi, você pode viver sua vida toda e nunca dar bola para ele.

E vou além: se dependesse de mim, novos diretores de ação seriam obrigados a assistir muitas vezes o filme de Wang para aprender como se faz cinema de ação direitinho.

Pode até ser que esse DRIVE aqui não seja tão fodão quanto o novo aí do dinamarquês, do qual todo mundo está falando maravilhas. Mas pelo menos uma coisa eu garanto: depois de vê-lo, quase tudo que foi feito em matéria de "cinema de ação" de 1997 para cá parece completamente obsoleto ou muito fraco.


Pois este é um daqueles raros filmes que, quando acaba, deixam a maior vontade de ver de novo, nem que seja só para checar as melhores lutas. E também é um daqueles cada vez mais raros casos em que você fica até torcendo para sair um "Drive 2" com os mesmos atores e realizadores. O que, infelizmente, jamais acontecerá, dada a obscuridade do original.

Alô, Stallone: o que é que você está esperando para colocar o Mark Dacascos em "Os Mercenários 3"?

Alô, grandes estúdios: o que você estão esperando para dar emprego e dinheiro ao Steve Wang?

Trailer de DRIVE



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Drive (1997, EUA)
Direção: Steve Wang
Elenco: Mark Dacascos, Kadeem Hardison, Brittany Murphy,
John Pyper-Ferguson, Tracey Walter, James Shigeta, Ron Yuan,
Masaya Katô, R.A. Mihailoff e Dom Magwili.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

AMERICAN NINJA (1985)


Você certamente já viu AMERICAN NINJA numa das incontáveis reprises do filme pela Globo, ou pelo menos ouviu falar do que se tratava graças aos comerciais das tais incontáveis reprises. Você certamente sabe que esta bem-sucedida aventura ocidental sobre ninjas deu origem a uma nem tão bem-sucedida franquia, com direito a quatro continuações. Mas você sabia que AMERICAN NINJA só existe porque o público não estava preparado para ver uma ninja-menina?

Acredite se quiser, mas a gênese dessa aventura produzida pela lendária Cannon Films foi a bilheteria abaixo do esperado de um filme anterior dos mesmos realizadores, "Ninja III - A Dominação" (1984), terceiro e último capítulo de uma série iniciada com "Ninja, A Máquina Assassina" - aquele estrelado pelo italiano Franco Nero!


Como os outros filmes de ninja produzidos pela Cannon tinham rendido um dinheirão, e como "Ninja III" trazia uma ninja-menina (interpretada pela gata Lucinda Dickey) e rendeu menos, os produtores machistas alegaram que o sexo da personagem era o motivo da bilheteria reduzida, exigindo que o diretor Sam Firstenberg colocasse um ninja-menino em sua próxima produção do gênero. Pronto: nasceu AMERICAN NINJA.

O que pouca gente sabe, também, é que por volta de 1984 o projeto seria dirigido por Joseph Zito e estrelado por Chuck Norris, já que os dois tinham feito uma parceira bem-sucedida em "Braddock - O Super Comando".

Anúncios divulgando a produção com os nomes de ambos chegaram a ser publicados (veja ao lado), mas Zito e seu astro pularam fora logo depois - o orçamento inteiro do filme era menor que o salário de Norris, dizem as más línguas.

Assim, o barateiro Firstenberg assumiu e os produtores pediram que ele encontrasse um ator jovem que fosse boa-pinta e "parecido com James Dean" para o papel principal.

Foi quando subiu a bordo do projeto um loirinho com cara de surfista chamado Michael Dudikoff, que não lutava porcaria nenhuma e nem tinha pinta de herói de ação (antes, seu papel de mais destaque foi como um dos amigos tarados de Tom Hanks na comédia "A Última Festa de Solteiro").

Ora, e o que importa se Dudikoff não sabia lutar? O importante é que ele era boa-pinta e parecia James Dean, como os produtores queriam. Além disso, Franco Nero também não sabia lutar e estrelou "Ninja, A Máquina Assassina". Por sinal, a solução encontrada nos dois filmes foi a mesma: substituir o astro (tanto Dudikoff quanto Nero) pelo coreógrafo das cenas de ação Mike Stone nas cenas mais "delicadas". Afinal, o sujeito estaria escondido atrás da roupa de ninja mesmo!


E não é que convenceu? Tanto que a primeira vez que vi AMERICAN NINJA, ainda molecão, jurava que Michael Dudikoff lutava bem pra caramba. Claro, isso foi antes de perceber que as "lutas" com o sujeito eram beneficiadas pela montagem e pelos planos de detalhe, quando fica fácil substituir o galã que não sabe lutar pelo dublê que sabe. Ah, a magia do cinema...

Mas quer saber? Não importa se o astro não sabe lutar, e sim que AMERICAN NINJA funciona que é uma beleza. Revi o filme recentemente e até achei melhor do que eu me lembrava - principalmente considerando o fator trash da coisa toda, que torna o programa ainda mais divertido.


Dudikoff interpreta Joe T. Armstrong, o novo e misterioso recruta de um destacamento militar norte-americano nas Filipinas. Carregamentos de armamentos e munições estão sendo roubados com frequência do quartel, e o responsável é um traficante de armas da região, Victor Ortega (Don Stewart), que vende a muamba para ditaduras de todas as partes do globo.

Certo dia, o carregamento que está sendo escoltado pelo soldado Armstrong cai numa emboscada. Só que, além de armas, o comboio leva também Patricia (Judie Aronson), a bela filha do comandante da base. Temendo pela segurança da moça, o herói reage contra os ladrões e mostra ser bom de briga. Mas logo uns guerreiros ninja de uniforme preto aparecem do nada e atacam os soldados. Armstrong foge com a garota, mas seus companheiros são todos chacinados pelos misteriosos atacantes.


Apesar de ter salvado a filha do general, Joe atrai a inimizade dos seus colegas de farda porque sua reação resultou na morte de diversos soldados. E quando o vilão Ortega exige a cabeça do herói, para poder continuar com seus roubos de armas sem maiores problemas, o "ninja americano" precisa unir-se ao cabo Jackson (Steve James), que também é bom de briga, para enfrentar os ataques dos bandidos.

O roteiro redondinho de AMERICAN NINJA foi escrito por Paul De Mielche, e surpreendentemente este é o seu único crédito no ramo. James R. Silke, que havia assinado os roteiros de "A Vingança do Ninja" e "Ninja III" para a Cannon, foi chamado para fazer algumas adaptações no material, mas sem receber crédito.


Uma das grandes qualidades do filme é que ele oferece um bocado de cenas de ação sem grandes exageros ou façanhas físicas absurdas, mas numa quantidade tão grande e frequente que não permite que o espectador pense muito no que está acontecendo (o ataque ao comboio do exército e o primeiro confronto do herói com os ninjas acontece já nos primeiros 10 minutos!).

As lutas em si não têm nada de tão espetacular, embora rápidas e bem coreografadas. Quem rouba a cena é o ninja preto inimigo, interpretado por Tadashi Yamashita (que já havia enfrentado Chuck Norris em "Octagon").


Yamashita realmente consegue passar a imagem de um ninja invencível e ameaçador, e convence o espectador de que pode, por exemplo, invadir uma base militar deixando uma trilha de cadáveres.

Seu confronto final com o "american ninja" é muito bem filmado e envolvente, já que o vilão usa todas as armas e truques ninja à sua disposição - e até alguns truques sujos que não são bem coisa de ninja, como o disparo de um inexplicável raio laser (???). Sem querer estragar a surpresa sobre quem vive e quem morre no duelo final, Joe Armstrong voltou nas Partes 2 e 4...


Também há pelo menos três momentos bem dirigidos envolvendo o herói às voltas com carros em movimento. Num deles, parecido com cena clássica de "Os Caçadores da Arca Perdida", Armstrong rala a bunda no chão para pendurar-se embaixo de um caminhão em movimento; n'outro, bate propositalmente com um sidecar contra outro veículo para livrar-se de um caroneiro indesejado!

E, claro, tudo termina num daqueles massacres hiper-exagerados típicos do cinema de ação da década de 1980, quando Armstrong (finalmente vestido de ninja, o que não acontece durante o resto do filme) e Jackson (vestido de Rambo) invadem a fortaleza dos vilões distribuindo shurikens, espadadas e tiros de metralhadora.


Até me impressionou a quantidade de mortes ao longo do filme. Segundo o IMDB, a contagem de cadáveres chega a 114. Porém é um tanto frustrante a ausência de sangue e violência: a não ser alguns buraquinhos de bala e dois pescoços cortados, as espadadas dos ninjas não fazem nenhum estrago, nem vemos os característicos jorros de sangue que estes golpes costumam proporcionar nas aventuras orientais.

Logo, apesar da matança superior a 100 figurantes, AMERICAN NINJA é de uma violência quase inofensiva e poderia muito bem passar na Sessão da Tarde – e provavelmente passou!


Outro fato curioso é que Dudikoff não tinha nenhum treinamento em artes marciais quando fez o filme, mas o finado Steve James, que interpreta seu parceiro, sim - ele praticava kung-fu desde a juventude. Talvez por isso, e para não minimizar a pouca experiência do verdadeiro protagonista da aventura, James quase não luta durante o filme inteiro, preferindo usar armas de fogo e até um míssil (!!!) para despachar os vilões.

Além de funcionar bem como filme de ação, AMERICAN NINJA também diverte bastante pela idiotice geral da coisa.


Afinal, os ninjas caíram praticamente de pára-quedas na trama, tanto o herói (um ocidental treinado na infância por um veterano da Segunda Guerra Mundial) quanto os vilões, que convenientemente trabalham como capangas para o contrabandista de armas, embora ele já tenha um exército de mercenários fortemente armados à disposição.

O problema é que, tirando as roupinhas pretas e as armas brancas, são uns ninjas tão fracotes e fáceis de matar (com exceção do interpretado por Tadashi Yamashita, claro) que o roteirista poderia muito bem colocar qualquer outra coisa no lugar de assassinos ninja, de mulheres de topless a piratas. Só que aí o filme não se chamaria "American Ninja"...


A situação dos roubos de armas do quartel, encobertados pelos figurões do lugar, também é tão absurda que chega a dar dó. Quer dizer, os caras perderam diversos carregamentos e continuam mandando mais e mais caminhões carregados de armas e munições para serem roubados pelos ninjas inimigos, ao invés de pensar num plano alternativo - ou pelo menos investigar o paradeiro dos outros armamentos roubados?

E como não citar o irritante interesse romântico do herói, a mocinha interpretada por Judie Aronson? Ela não foge daquele clichê "garota em perigo" que primeiro odeia o protagonista e depois se apaixona por ele, mas é tão chata que você torce para o "american ninja" também ficar estressado e dar uma voadora nela.

Infelizmente, a bela Judie não mostra seus atributos físicos, que já tinham sido largamente explorados em seu trabalho anterior, "Sexta-feira 13 Parte 4 - O Capítulo Final".


Não que isso tenha importado para o resultado final: AMERICAN NINJA custou um milhão de doletas e lucrou, dependendo da fonte, entre US$ 10 e 30 milhões - ou seja, dez ou trinta vezes o que custou.

Feliz da vida com o sucesso muito maior que o do anterior "Ninja III", a Cannon deu sinal verde para a produção de várias sequências, das quais apenas a segunda foi assinada por Firstenberg; as outras têm diretores diferentes e até protagonistas diferentes, pois Dudikoff não aparece nas partes 3 e 5.

No fim, quem mais lucrou com o sucesso de AMERICAN NINJA foi o próprio Michael Dudikoff, já que o loirinho com cara de surfista foi esculpido na marra para virar herói de ação do segundo escalão.


E, quem diria, ele até conseguiu enganar muita gente, estrelando uma série de filmes de baixo orçamento para a Cannon nos anos seguintes, e inclusive roubando um outro papel de Chuck Norris ao estrelar "A Vingança de 1 Predador" (1986), originalmente concebido como continuação de "Invasão USA" (que tinha Norris como astro).

Nada mal para um ninja americano que nem sabia lutar porra nenhuma...

PS: No Brasil, AMERICAN NINJA foi originalmente distribuído nas locadoras e exibido na TV com o título "Guerreiro Americano". Vai ver os dubladores tinham medo de que os brasileiros não soubessem o que era um ninja. Curiosamente, o título original lá nos EUA era "American WARRIOR", como você pode ver no trailer abaixo!

Trailer de AMERICAN NINJA



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American Ninja (1985, EUA)
Direção: Sam Firstenberg
Elenco: Michael Dudikoff, Steve James, Tadashi Yamashita,
Judie Aronson, Guich Koock, John Fujioka, Don Stewart,
John LaMotta, Phil Brock e Manolet Escudero.