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sábado, 17 de dezembro de 2011

BOA VS. PYTHON (2004)


Existe um subgênero pavorosamente ruim surgido nos anos 90 e que atingiu o ápice da mediocridade neste nosso novo século: os filmes com animais gigantes assassinos toscamente produzidos por computação gráfica, geralmente produções paupérrimas realizadas para a TV a cabo. E como volta-e-meia eu gosto de analisar filmes REALMENTE RUINS aqui no FILMES PARA DOIDOS, hoje vamos colocar em discussão um deles.

Trata-se de BOA VS. PYTHON, mistura de aventura e horror produzida pelo Sci-Fi Channel (atualmente "SyFy") com a mixaria de US$ 1.200.000, e rodada na Bulgária para economizar. Como a maioria desses novos filmes com bichos monstruosos (pode colocar "Sharktopus" no mesmo balaio), esse aqui também comete o erro mortal de se levar a sério demais, gastando um precioso tempo para "contar história" ao invés de investir no duelo prometido pelo título ou no gore (reduzido ao mínimo).


O pior é que qualquer besta-quadrada veria potencial na história de duas cobras gigantes que saem na porrada enquanto brincam para ver quem devora mais o elenco humano. Roger Corman e Charles Band fariam miséria lá nos anos 80, e o resultado certamente seria muito mais divertido, inconsequente e sanguinolento.

Infelizmente, as bestas-quadradas que escreveram, produziram e dirigiram BOA VS. PYTHON não parecem ter visto esse potencial. Afinal, sabe-se lá por que motivo, resolveram levar o projeto mais a sério do que deveriam.


O resultado é uma enfadonha trama onde as duas cobras, verdadeira razão de ser de um filme chamado BOA VS. PYTHON, não passam de meras coadjuvantes, e ainda por cima produzidas naquele já tradicional CGI de fundo de quintal (de maneira que você até fica feliz enquanto as tosquíssimas cobras NÃO aparecem!!!).

BOA VS. PYTHON é uma espécie de continuação/cruzamento de outras produções com cobras gigantes feitas anos antes pelo mesmo Sci-Fi Channel: a série "Python" (com dois filmes, o primeiro dirigido por Richard Clabaugh em 2000 e o segundo por L.A. McConnell em 2002) e o filme "Terror em Alcatraz", assinado por Phillip J. Roth em 2002, que traz uma gigantesca cobra jibóia ("boa", em inglês) como vilã.

Inclusive o roteiro aqui faz citações explícitas a estes três filmes, como quando um agente da CIA informa que as operações da agência com cobras gigantes foram suspensas na Rússia (conforme foi visto no horrendo "Python 2").


A trama deste confronto de titãs é absurda, ridícula e inverossímil, o que novamente me faz questionar por que motivo, razão e circunstância não virou algo assumidamente divertido na linha de "Serpentes a Bordo": Broddick (Adam Kendrick) é um milionário entediado e amante de caçadas, que resolve "importar" uma gigantesca cobra python mutante de 25 metros de comprimento para realizar um safári particular com seu grupo de amigos.

Detalhe: embora o ricaço tenha grana suficiente para comprar o tal monstrengo, e embora possua seu próprio avião (com o nome dele escrito na fuselagem e tudo mais), o sujeito precisa alugar os serviços de uma transportadora (!!!) para levar o contêiner com a python até o local da caçada - o que, claro, vai acabar mal.


A serpente foge do contêiner, devora os homens responsáveis pelo transporte e se esgueira pela tubulação de água e esgoto. Como o caminhão onde a cobra era transportada acabou explodindo no processo de fuga do réptil, a CIA entra em cena para investigar a possível ligação com algum atentado da Al-Qaeda (pós-11 de setembro, sabe como é...). E não demora para o agente Sharpe (Kirk B.R. Woller) concluir que uma serpente gigante está à solta.

É aí que a trama começa a ficar ainda mais improvável: Sharpe e a especialista em animais marinhos (hein?) Monica, que vem a ser uma loira gostosa e siliconada (Jaime Bergman, infelizmente vestida o tempo inteiro), descobrem que existe outra serpente gigante nas redondezas, uma imensa jibóia-vermelha de 20 metros criada por um especialista em cobras, o dr. Emmett (David Hewlett, que teve tempos melhores em "Scanners 2" e "Cubo", e é a cara do Bono Vox).


O cientista, acredite se quiser, mantém a cobrona trancada numa salinha apertada de seu laboratório (!!!), e deixou-a gigante para "pesquisar a cura para os venenos das serpentes", depois que sua irmã foi morta por uma cobra em Buenos Aires (!!!). Por que uma cobra de 20 metros ajudaria na descoberta da cura dos venenos das serpentes é algo que foge à minha compreensão. Por outro lado, também não consigo entender como é que esse pessoal consegue criar cobras mutantes gigantescas com tanta facilidade, mas vamos em frente...

O plano de Sharpe e Monica é fantástico de tão implausível: colocar sensores de movimento, câmeras e até GPS na jibóia de Emmett (epa, nada de maliciar!), e depois soltá-la nos esgotos da cidade para caçar a python fugitiva.


O plano seria fantástico se as duas cobras não começassem a devorar todo o elenco humano antes de propriamente saírem no pau entre elas - o que acontece apenas na conclusão, depois que quase todos os personagens já foram comidos ou partidos no meio. Paralelamente, Broddick (o milionário fã de caçadas, lembra?) convida os melhores caçadores do mundo para participar do safári e caçar a python.

BOA VS. PYTHON tem algumas coisas bem legais, como o início que faz um paralelo do combate das cobras com uma exibição de luta livre, mas esses elementos são desperdiçados porque a narrativa abre um espaço gigantesco para a "investigação" do paradeiro dos monstros e para as explicações científicas, ao invés de concentrar-se na sangueira e na matança.


Há três situações distintas no roteiro de Chase Parker e Sam Wells (cobras matando geral, cobra versus cobra e caçadores excêntricos versus cobra), mas filme e roteiro desperdiçam as três, sem trabalhar satisfatoriamente nenhuma delas.

A qualidade do texto da dupla é de chorar, ainda mais quando eles tentam dar profundidade aos personagens (o pobre dr. Emmett que perdeu a irmã em Buenos Aires, a especialista em vida marinha que aprendeu, com os golfinhos, a respirar por longos minutos debaixo d’água...). Até mesmo frases com alto potencial cult-trash (do tipo "Die you slithering piece of shit!", gritada por um sujeito que tenta torrar a gigantesca jibóia usando um lança-chamas!) acabam perdidas num conjunto medíocre.


E se o roteiro já é ruim, todas as cenas com potencial ainda são lamentavelmente estragadas pelo cineasta de primeira viagem David Flores (editor de "Python 2" e "Terror em Alcatraz", que depois dirigiria "Pânico no Lago 2").

O ponto alto da película é a cena de sexo entre dois jovens no banco de trás de um carro; eis que a python ataca no auge de uma sessão de sexo oral que o garoto fazia na moça, devora o garanhão e enfia a própria língua na garota, que vai à loucura sem perceber a diferença entre a língua humana e a língua descomunal do réptil (!!!).

O problema é que a cena foi filmada de maneira tímida e rápida, e a pobre mocinha nem mesmo aparece nua - há uma cena de sexo interrompido por cobras muito mais interessante em "Serpentes a Bordo", com direito a cobra (o bicho) abocanhando o peito siliconado da garota). Nas mãos de um cineasta menos cagão, o sexo oral com a cobra gigante poderia ter rendido algo tão escroto quanto a cena da cabeça decepada em "Reanimator"...


Outra furada gigantesca está na conclusão: quando a jibóia e a python finalmente se encontram face a face (???) numa festa rave, onde também está o exército atrás dos monstrengos, qualquer cineasta digno desse nome faria miséria. Imagine as serpentes devorando a rapaziada, sangue e membros decepados espalhados por toda a parte, tiros e explosões a rodo, o som tecno rolando no fundo, luzes piscando, etc etc...

Mas o que faz David Flores? Primeiro evacua rapidamente o recinto para que as duas serpentes possam brigar sozinhas (!!!), depois corta imediatamente (e de maneira absurda) para uma estação de metrô completamente deserta, sem qualquer explicação! Como escrevi lá em cima, a contagem de cadáveres é mínima e a violência acontece quase sempre off-screen.


É uma pena, considerando que o filme tenta ser apelativo às vezes (como ao mostrar a gostosa Angel Boris Reed completamente pelada em um demorado banho de banheira, e na já citada cena de sexo oral com uma python de 25 metros), mas na maior parte do tempo é quase inocente.

Os ataques das cobras praticamente não são mostrados, e todos sabemos que esse tipo de tralha só funciona com sangue e tripas - um bom exemplo recente é o divertidíssimo e infinitamente superior "Frankenfish", de Mark A.Z. Dippé, realizado no mesmo ano.


No fim, o espectador fica se sentindo um bocó, porque o título e a capinha (as duas serpentes lutando no meio da cidade enquanto um helicóptero dispara mísseis contra elas, algo que NÃO acontece no filme) anunciam um confronto trash de dimensões épicas, mas na verdade as duas serpentes raramente aparecem, raramente se encontram e raramente lutam - e, quando o fazem, é sempre em lugares fechados, nunca no meio da cidade, como mostra o cartaz.

Por isso, BOA VS. PYTHON tem um lugar de honra numa longa galeria de tranqueiras que inclui outras bombas atômicas semelhantes, como "Sharktopus" e "Mega Shark Vs. Giant Octopus" (e, como esses citados, têm um trailer onde já são mostradas as únicas cenas boas). Todos eles são uma bela evidência de que fazer filmes ruins é muito fácil; fazer bons filmes ruins, entretanto, é bem mais complicado...

Trailer de BOA VS. PYTHON



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Boa Vs. Python (2004, EUA)
Direção: David Flores
Elenco: David Hewlett, Jaime Bergman, Kirk B.R. Woller,
Adam Kendrick, Angel Boris Reed, Marianne Stanicheva,
Griff Furst e George R. Sheffey.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

TRANCERS - O EXTERMINADOR DO SÉCULO 23 (1985)


(Eu tinha essa resenha pronta desde 2008, e estava esperando por uma oportunidade para publicá-la no site Boca do Inferno. Na época, ainda não havia criado o FILMES PARA DOIDOS. Hoje acho que a resenha se encaixa muito mais aqui do que no site. E vai especialmente para o leitor Daniel, que pediu uma análise do filme em comentários passados.)

Ele se chama Deth, Jack Deth, e é um policial durão do século 23. Nesse futuro distante, policiais são chamados de "troopers" e a Califórnia foi devastada por um imenso terremoto ocorrido em 2065, ficando parcialmente submersa. Deth vive em "Lost Angeles", que é o que restou de Los Angeles, e um de seus hobbys é mergulhar nas ruínas da cidade para recuperar artefatos como a placa de trânsito indicando a antiga Sunset Boulevard. Apesar de viver no século 23, ele é um policial à moda antiga, que lembra os detetives dos contos policiais de Raymond Chandler, ou dos filmes noir da década de 1950. Não por acaso, anda sempre com um sobretudo quase arrastando no chão, fuma muito e adora fazer a velha e boa narração em off - quase como um primo pobre de outro detetive futurista, o Richard Deckard interpretado por Harrison Ford "Blade Runner - O Caçador de Andróides".


Sim, amiguinhos, Jack Deth é um personagem tão "cool" quanto o Ash interpretado por Bruce Campbell na série "Evil Dead", ou o Snake Plissken de Kurt Russell nos filmes "Fuga de Nova York" e "Fuga de Los Angeles".

Mas infelizmente, para a maior parte da civilização, o nome "Jack Deth" não significa nada. O que é uma pena, pois o filme em que o personagem fez sua estréia no mundo da cultura pop, TRANCERS, é um clássico e divertidíssimo filme B, daqueles que conseguem ser criativos e originais mesmo chupando ideias de uma infinidade de outras produções.


No Brasil, o filme foi exibido nos cinemas e na TV com um título bizarro, "O Exterminador do Século 23", que será ignorado a partir de agora. E se por aqui a obra é praticamente desconhecida, lá fora tornou-se um verdadeiro sucesso underground - até astros como Sylvester Stallone viram e falaram maravilhas na época - e deu origem a uma franquia atualmente no sexto episódio!

TRANCERS foi produzido e dirigido por Charles Band em 1985. Caso você ainda não tenha ligado o nome à pessoa, Band era o cabeça das extintas produtoras Empire Pictures e Full Moon, e através delas realizou inventivos filmes com orçamento quase zero, mas muita criatividade - entre eles, clássicos como "Reanimator" e "Bonecos da Morte". Quando Empire e Full Moon foram à falência - em parte devido à quantidade enorme de filmes lançados, cada vez mais baratos e ruins -, Band criou a Shadow Entertainment, com a qual atualmente produz obras com uma merreca de orçamento, direto para o mercado de DVD.


Em TRANCERS, encontramos características habituais do trabalho de Band, como o orçamento baixíssimo (400 mil dólares!) e a produção apressada (foi filmado em apenas uma semana). Isso se reflete em efeitos baratos e tempo de duração reduzido (o filme tem apenas 74 minutos).

Entretanto, o diretor-produtor sai-se muito bem ao contornar a falta de recursos com muita criatividade, tendo em mãos um roteiro divertido e cheio de boas ideias assinado por dois jovens, Danny Bilson e Paul DeMeo. A dupla mistura referências alopradas, colocando na mesma trama futuro e presente, viagens no tempo, zumbis, traquitanas estilo James Bond e um policial durão e engraçadinho. E sabe o que é mais curioso? A mistura funciona perfeitamente!


A história começa no século 23, quando nosso herói Jack Deth (interpretado de maneira brilhante por um ranzinza Tim Thomerson) apresenta-se ao espectador na típica narração em off de detetive noir.

Deth explica que é um policial do futuro envolvido numa longa caçada a um supervilão fanático chamado Martin Whistler (Michael Stefani). Whistler, que todos imaginam estar morto, criou uma legião de asseclas chamados "Trancers", que, nas palavras do herói, são um cruzamento entre mutantes e zumbis.


(O curioso é que o espectador jamais fica sabendo o que, exatamente, são os Trancers. Neste primeiro filme, não passam de pessoas de mente fraca subjugadas pelos poderes psíquicos de Whistler; embora tenham a aparência de seres humanos normais, os Trancers são uma espécie de zumbis/demônios/mutantes disfarçados de humanos, que, quando mostram a verdadeira face, ficam com a pele amarelada e o rosto deformado, e se desintegram automaticamente quando mortos. Nas sequências, entretanto, a origem dos Trancers foi sendo frequentemente alterada conforme a vontade do freguês: na Parte 3, por exemplo, ficamos sabendo que eles surgiram de uma experiência militar realizada em 2005; já nas Partes 4 e 5, eles são apresentados como vampiros mutantes!)

Continuando sua narração em off, Deth conta que sua esposa foi morta na luta contra os Trancers, e por isso ele iniciou uma cruzada para exterminar todos os remanescentes da seita de Whistler. Sua primeira parada é em uma cafeteria, onde o herói desconfia que um caminhoneiro bebendo café é um Trancer disfarçado; na verdade, é a velha garçonete negra quem se revela, atacando Deth até ser morta com disparos de sua estilosa arma laser.


Cansado de ser quase morto pelos vilões a todo momento, o policial resolve desistir da caçada e entrega o distintivo (tem clichê maior?) ao seu superior, o xarope tenente McNulty (o engraçado Art La Fleur, que praticamente repetiria o papel no posterior "Stallone Cobra").

Porém, após um mergulho nas ruínas de "Lost Angeles", Deth é procurado por McNulty, que lhe encarrega de uma missão especial: perseguir e prender seu arquiinimigo Whistler, que, ao contrário do que se imaginava, está bem vivo e tem um plano maquiavélico para eliminar o Conselho que governa a Califórnia.


Só que a luta entre Deth e Whistler não será no século 23, mas sim no "passado", no caso, 1985, no século 20 (que era o "presente" na época de produção do filme, vale lembrar). Isso porque, de uma forma nunca totalmente explicada pelo roteiro, Whistler viajou de volta para 1985 e, num plano à la "O Exterminador do Futuro", começou a matar os antepassados dos membros do Conselho. Eram três originalmente, mas um deles já foi desintegrado graças à bagunça que o vilão fez no passado.

Com medo de também desaparecerem da história, os dois governantes que ainda restaram resolvem enviar Jack Deth de volta ao passado para proteger seus antepassados e, ao mesmo tempo, aprisionar o vilão.


O detalhe mais interessante do roteiro é que o pessoal do século 23 pode enviar objetos mecânicos para o passado, mas não tecido vivo. Assim, para voltar no tempo, Whistler e Deth utilizam uma droga que envia a consciência de ambos do futuro ao passado, onde elas irão habitar o corpo de um antepassado que viveu naquele período.

Dessa forma, os corpos futuristas de herói e vilão permanecem no futuro, numa espécie de coma, enquanto suas mentes são transferidas para novos corpos no ano de 1985! Não é uma doideira?


Sim, é. Porém também abre a brecha para discutirmos três furos grosseiros de roteiro:

1-) Se as viagens no tempo têm o poder de alterar o futuro, como é que as pessoas do futuro ainda têm consciência das coisas, considerando que o passado foi alterado? No caso, ao matar o antepassado de um dos membros do Conselho, Whistler faz com que o sujeito seja apagado da história. Mas, se o futuro foi reescrito a partir do crime (cometido três séculos antes), ninguém no novo futuro alternativo deveria se lembrar que assassinado existia e foi desintegrado, já que, na prática, ele nunca existiu. Confuso? Mas não é - e a trilogia "De Volta para o Futuro" abordou melhor estas mudanças passado-presente-futuro.


2-) Por que Whistler viajou dois séculos para o passado ao invés de voltar, tipo, apenas uns 50 ou 100 anos? Imagine a quantidade de alterações na história que o vilão deve ter provocado ao eliminar pessoas com dois séculos de diferença!

3-) Se qualquer pessoa poderia voltar no tempo ocupando o corpo de seus antepassados, por que é que os próprios membros do Conselho não retornaram nos corpos de seus antepassados para poderem fugir e se esconder de Whistler, ou mesmo procurar o vilão para matá-lo, eliminando a necessidade de Jack Deth voltar ao passado e ter todo o trabalho de procurar os tais antepassados dos membros do Conselho, que ele sequer conhecia ou sabia onde moravam?


OK, teorias de viagem no tempo à parte, sempre é bom lembrar de que estamos falando de um filme B produzido e dirigido por Charles Band, então não podemos esperar muita lógica!Prosseguindo...

Como o pessoal do século 23 precisa retornar ao passado "invadindo" o corpo de algum antepassado sanguíneo, Deth volta no tempo e assume o corpo de um jornalista mulherengo chamado Phil (interpretado pelo mesmo Tim Thomerson). Whistler, por sua vez, tem mais sorte: seu antepassado dos anos 80, chamado Weisling, é um respeitado chefe de polícia, o que lhe permite agir com toda a tranquilidade a aprontar o que bem entender.


Esse tipo curioso de viagem no tempo torna a missão do herói ainda mais complicada: ele não pode simplesmente matar Whistler no passado com um tiro, pois não estaria matando o vilão, e sim o inocente Weisling, um cara honesto, que tem esposa e filhos. Por isso, a missão de Deth é injetar no corpo atual de Whistler uma droga que fará a consciência do vilão voltar ao futuro, onde poderá ser julgado e aprisionado. Mas é claro que não será fácil. Até porque Whistler já criou uma legião de Trancers nos anos 80!

E como pepino pouco é bobagem, Deth ainda encarna no seu antepassado Phil na manhã seguinte a uma noite de sexo do cara com uma gatinha chamada Lena (interpretada por Helen Hunt, antes da fama e antes do Oscar de Melhor Atriz por "Melhor é Impossível"). Perdido numa época que não conhece e numa cidade que não conhece (lembre-se: Los Angeles está submersa no futuro em que Deth vive), o herói precisa convencer Lena a ajudá-lo.


E durante sua aventura, entre duelos com os vilões, tiroteios e perseguições em motocicletas, Deth ainda tem a chance de usar um fantástico brinquedinho do futuro: o "relógio de congelar segundos", que dá ao herói o poder de congelar o tempo durante 10 segundos - um artifício simplesmente genial utilizado duas vezes ao longo do filme, com direito a efeito que parece uma versão pré-histórica do "bullet time" de "Matrix"!

TRANCERS é um filme curto e grosso: se o tempo reduzido de duração deixa aquela gostinho de "quero mais", pois não há um número suficiente de situações perigosas entre Deth e Whistler, por outro lado o desenvolvimento é sempre a mil por hora - o filme nunca perde o pique ou fica chato.



Eu só lamento que o roteiro não tenha explorado mais as dificuldades de adaptação do futurístico e brutamontes Jack Deth na Los Angeles dos anos 80, o que certamente renderia boas piadas (ao pedir ajuda para Lena, o herói chega a confidenciar: "Eu sou de outro tempo e outro mundo, nem sei o que vocês comem no almoço!").

Um dos raros momentos em que o filme apresenta a dificuldade de adaptação do herói é engraçadíssimo: Lena leva Jack a um inferninho repleto de punks, onde a banda está detonando uma versão pauleira de "Jingle Bells". Apavorado com a música, com os cabelos espetados e com os figurinos do pessoal do lugar, o herói resmunga: "Parece que estou cercado de Trancers!".


Outro momento impagável é aquele em que Jack assiste na TV a um episódio do seriado "Petter Gunn" (uma produção dos anos 50 sobre policiais e gângsters. Encasquetado, Deth reclama: "Mas que espécie de nome é 'Peter Gunn'?". Lena responde: "E que espécie de nome é 'Jack Deth'?". (Não que alguém chamada "Helen Hunt" possa falar muito...)

Para uma produção de 400 mil dólares, chama a atenção também o número de nomes conhecidos envolvidos na produção: a edição é de Ted Nicolaou, que no ano seguinte se tornaria um cineasta habitual da Empire/Full Moon, realizando filmes como "A Visão do Terror" e a franquia "Subspecies", e um dos produtores executivos é Peter Manoogian, outro que se transformaria em cineasta dentro da própria Full Moon, para quem assinou "Brinquedos Diabólicos". Já os efeitos especiais são assinados por John Carl Buechler, colaborador habitual da Empire/Full Moon, mas que é popularmente reconhecido como diretor de "Sexta-feira 13 Parte 7".


Mas o nome mais conhecido está creditado com um singelo "assistente do departamento de arte": trata-se de Frank Darabont, hoje um nome conhecido em Hollywood, onde dirigiu filmes como "O Nevoeiro" e "Um Sonho de Liberdade"!

Se TRANCERS virou cult, certamente não foi por acaso. Entre os grandes acertos estão a caracterização de Tim Thomerson como Jack Deth (no grande papel da sua carreira; sem ele, o filme perderia metade da graça), o roteiro inspiradíssimo da dupla DeMeo/Bilson (que, também em parceria, escreveriam o ótimo "Rocketeer" alguns anos depois) e a trilha original de Phil Davies e Mark Ryder, que conseguiram uma daquelas raras músicas-temas que fazem você lembrar na hora do filme para a qual ela foi composta.


E com o sucesso do original, não demorou para Band tentar faturar em cima. Durante uma década, a série "Trancers" foi a sua galinha dos ovos de ouro: ele produziu cinco continuações entre 1991 e 2002, progressivamente piores e mais baratas, e até alguns gibis com adaptações dos filmes para os quadrinhos. Inclusive acho que só não há mais porque os orçamentos ficaram tão baixos que Band não conseguia nem pagar mais o cachê de Tim Thomerson ("Trancers 6", de 2002, já não tem mais o astro no elenco!).

O próprio Band fez uma auto-crítica em entrevista recente, alegando que só gosta dos dois primeiros (que ele dirigiu): "Fizemos 'Trancers' demais, e o que era bom nos primeiros nós não conseguimos mais recapturar". Na mesma entrevista, ele lembrou que só se envolveu com TRANCERS porque um dos roteiristas, Danny Bilson, havia trabalhado como assistente de cameraman em "Ghoulies" (outra produção de Band) e lhe entregou uma cópia do roteiro.


Como é comum no Brasil, algumas dessas sequências saíram em vídeo com títulos diferentes, gerando grande confusão. Se o original, que nunca chegou às nossas locadoras, tinha o nome de "O Exterminador do Século 23", o segundo filme saiu como "O Tira do Futuro", o terceiro como "Trancers 3 - A Luta pela Sobrevivência" (e imagine o pobre sujeito locando essa fita e procurando inutilmente pelos dois outros "Trancers" nas prateleiras da locadora!), e o quarto como "Fome de Sangue"!!!

Recentemente, descobriu-se que havia uma continuação direta e não-oficial de TRANCERS, produzida em formato de curta-metragem em 1987: novamente com direção de Band e roteiro da dupla DeMeo/Bilson, esse curta tem Tim Thomerson, Helen Hunt e Art LaFleur, e era uma das atrações de uma coletânea chamada "Pulse Pounders". Com a falência da Empire Pictures, a tal coletânea nunca foi oficialmente lançada, e hoje é considerada perdida. Uma pena, pois "Pulse Pounders" incluía outros dois curtas que muita gente daria um braço para ver: "Dungeonmaster 2" e "The Evil Clergyman", uma adaptação de H.P. Lovecraft de Dennis Paoli ("Reanimator") estrelada por Jeffrey Combs, Barbara Crampton e David Warner!!!


É curioso constatar que hoje, com mais tecnologia e recursos à disposição, é muito difícil topar com um filme barato tão divertido e original quanto TRANCERS, em que as boas ideias ficam acima dos efeitos especiais e do orçamento milionário.

Eu inclusive sugiro uma sessão tripla com as três primeiras aventuras da série, as únicas que valem a pena, e que são um belo testamento do legado das extintas Empire/Full Moon ao universo das produções baratas.

As duas empresas também produziriam outras franquias mais populares, como "Puppet Master" e "Subspecies", antes de falir, mas TRANCERS continua mantendo um charme todo especial e nunca mais igualado - embora Band tenha tentado produzir "pseudo-Trancers" posteriores, como "Dollman", também com Tim Thomerson.

Trailer de TRANCERS



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Trancers (1985, EUA)
Direção: Charles Band
Elenco: Tim Thomerson, Helen Hunt, Michael
Stefani, Art LaFleur, Telma Hopkins, Richard Herd,
Anne Seymour e Biff Manard.