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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ROBOT HOLOCAUST (1986)


- Ok Larry, nosso primeiro filme, "Ligadas pelo Desejo", foi um sucesso e um grande estúdio quer produzir o próximo. Você tem alguma ideia?
- Na verdade não, Andy. Gastei toda a minha criatividade escrevendo "Ligadas pelo Desejo" e agora só consigo pensar na minha cirurgia de mudança de sexo.
- Então por que nós não reaproveitamos a trama de algum filme toscão que ninguém viu e vendemos ao mundo como algo visionário?
- Genial, cara! Lembra de um lixo chamado "Robot Holocaust", cuja fita eu comprei numa promoção da Blockbuster? Pois eu acho que podemos tirar algo interessante desse negócio...


Dificilmente a gênese de "Matrix" (1999) foi assim, e talvez os irmãos Andy e Larry (atualmente Lana, pós-mudança de sexo) Wachowski nunca tenham assistido ROBOT HOLOCAUST em suas vidas.


Mas é muito engraçado rever hoje esse lixo atômico da Era "Direct-to-Video" e perceber "coincidências" muito suspeitas entre os dois filmes - sem contar, é claro, que um custou 63 milhões de dólares, e o outro parece ter sido produzido com menos de um salário mínimo.

ROBOT HOLOCAUST é tão ruim, mas tão ruim, que tem um charme todo especial - um "Filme para Doidos" em sua mais pura essência. Chegou a ser exibido na TV brasileira, no extinto Cine Trash, com um título enganoso ("Mutantes Carnívoros"!!!), por causa de uma única cena. Mas nunca chegou a ganhar lançamento oficial em VHS ou DVD, nem passou pelos cinemas brasileiros na época (e olha que em 1986 passava cada porqueira nos cinemas brasileiros...).


A origem dessa tralha é muito divertida: em 1986 (portanto 13 anos ANTES de "Matrix"), aquelas aventuras pós-apocalípticas baratas realizadas pelos italianos, como "1990 - Os Guerreiros do Bronx" e "O Guerreiro do Mundo Perdido", estavam fazendo muito sucesso nos cinemas de bairro dos Estados Unidos. Assim, o produtor norte-americano Charles Band, que não era bobo nem nada, resolveu fazer o caminho inverso: produzir uma aventura pós-apocalíptica barata 100% ianque para depois exportá-la para a Itália, onde o subgênero fazia muito sucesso!

(Ou, em outras palavras, dar aos italianos a chance de provar o gostinho do próprio remédio; nesse caso, uma aventura pós-apocalíptica tosca como as que os estúdios da Itália mandavam para os Estados Unidos!)


Não existem fontes para relatar se a estratégia deu certo, mas ROBOT HOLOCAUST chegou a ser exibido nos cinemas italianos (com o título "I Robot Conquistano il Mondo"), embora tenha sido lançado direto em vídeo no resto do mundo, inclusive no país em que foi produzido.

E com justiça, já que o filme é um trashão dos mais constrangedores - mas, ao mesmo tempo, bastante divertido em todas as suas falhas. Até o próprio Ed Wood teria vergonha de assinar esse negócio (e talvez isso explique porque Band tirou seu nome dos créditos)!


ROBOT HOLOCAUST começa com uma colagem de cenas do "fim da civilização" (na verdade, uns prédios semi-demolidos na periferia de Nova York e um único esqueleto atirado no chão). Sobre essas cenas, uma narração pessimista anuncia: "A última cidade permanece de pé. Foi só o que restou da civilização de New Terra (!!!). A sociedade foi destruída durante a Rebelião dos Robôs de 2033, quando bilhões de robôs se voltaram contra seus mestres. O caos resultou num vazamento radioativo, muito mais mortal que qualquer explosão atômica. E o mundo caiu de joelhos diante do... HOLOCAUSTO DOS ROBÔS!".

(Ainda aqui? Então vamos em frente!)


Pois nesse mundo pós-apocalíptico pobretão rebatizado New Terra, os poucos seres humanos sobreviventes são dominados por robôs e governados por uma entidade maligna chamada "The Dark One". O vilão controla a humanidade porque tem poder sobre o oxigênio contaminado do planeta: enquanto as pessoas lhe obedecem, ele mantém o ar purificado; ao menor sinal de revolta, desliga os filtros e todo mundo começa a sufocar com o ar contaminado!

Mas e por que Dark One não mata logo todos os humanos de uma vez, desligando seu maravilhoso purificador de oxigênio? Ahá: é que aqui, como em "Matrix", os robôs usam as pessoas para gerar a energia necessária para manter sua fortaleza, uma usina de força que, na verdade, não passa de uma fábrica antiga e abandonada.

Não bastasse tudo isso, Dark One também promove lutas de gladiadores entre os sobreviventes (!!!), fazendo com que se matem entre si. Belo mundo para se viver, não?


Felizmente, o reinado das máquinas está perto do fim. Eis que surge na última cidade humana um guerreiro errante chamado Neo (!!!), "interpretado" por Norris Culf no primeiro dos três trabalhos da sua "filmografia".

Neo tem poderes telepáticos e é imune ao gás venenoso da atmosfera, logo não pode ser escravizado pelos robôs. Ele pretende destruir Dark One e seu séquito de autômatos, e para isso se une a uma trupe de esfarrapados de fazer inveja ao Branceleone: tem Klyton, robô chato que copia C3PO (J. Buzz Von Ornsteiner); Deeja (Nadine Hartstein), filha de um cientista raptado por Dark One; e dois sobreviventes do fim do mundo que não viverão mais muito tempo, portanto é inútil querer lembrar seus nomes.


No início de sua jornada até a fortaleza das máquinas, nossa Aliança Rebelde (pffff!) passa por uma floresta (???) e tem um encontro nada amistoso com uma tribo de Amazonas (???). Sua rainha, Nyla (Jennifer Delora), aprisiona homens para fins reprodutivos e arranca suas línguas para que não possam ficar de lero-lero (e eu que sempre pensei que as mulheres fossem a "parte falante" do casal).

Após rápida batalha, Nyla é vencida e junta-se ao incrível exército de Brancaleo... ops... Neo. Com eles também parte Kai (Andrew Howarth), o último homem preso e abusado pelas Amazonas, e que certamente deve ter ficado bem contente de abandonar a rotina de escravo sexual de belas garotas para juntar-se a um grupo de heróis fuleiros!


A jornada da trupe até os domínios de Dark One será repleta de perigos, incluindo o ataque de mutantes e a visita a uma caverna onde vivem gigantescos vermes que saem das paredes - na verdade fantoches de braço inteiro, mas ainda assim essa é a MELHOR PARTE DO FILME!

Mais adiante, já na usina de força, enfrentarão uma terrível aranha gigante (por causa do orçamento reduzido, foi possível mostrar apenas uma única pata da bicha!!!) e, finalmente, os robôs malvados, entre eles Torque (Rick Gianasi, o "Sgt. Kabukiman N.Y.P.D." da Troma!) e a gata Valaria (Angelika Jager, primeiro e último filme), robô que inexplicavelmente tem a forma de uma loira vagaba! Além, é claro, do próprio Dark One.

"Não temos dinheiro para uma aranha gigante inteira!



ROBOT HOLOCAUST foi escrito e dirigido por Tim Kincaid (nome de batismo: Tim Gambiani). Pela pobreza e pelo estilo, o que parece é que estamos vendo as cenas "entre trepadas" de algum daqueles antigos filmes pornôs com historinha. Até atores e atrizes têm jeitão de hardcore - a única diferença é que eles nunca trepam!

A explicação para isso pode estar na filmografia pregressa de Kincaid: entre 1976 e 1985, ele realmente dirigiu X-Rated - no caso, pornôs gays! -, usando os pseudônimos Joe Gage e Mac Larson. Entre os títulos, "Oil Rig" e "Closed Set" 1 e 2.


A partir de 1986, com o WIP "Bad Girls Dormitory" e este ROBOT HOLOCAUST, Kincaid ganhou certa notoriedade como diretor de produções extremamente baratas e ruins - num nível muito abaixo de outros caras do terceiro escalão da época, como Fred Olen Ray e Jim Wynorski.

Outros "clássicos" assinados por ele, e lançados em vídeo no Brasil pela extinta Top Tape, são "Mutant Hunt - O Exterminador de Humanóides" e "Breeders - A Ameaça de Destruição". Quem já viu qualquer um deles, sabe bem o que esperar de ROBOT HOLOCAUST...

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que a pobreza da produção é tão grande que o diretor chega ao cúmulo de usar desenhos para representar o exterior da fortaleza do vilão (sem nem ao menos tentar disfarçar). E para um mundo que foi dominado por "bilhões de robôs", segundo a narração do início, é até engraçado o fato de os heróis enfrentarem todo tipo de ameaça (Amazonas, mutantes, vermes carnívoros, aranhas gigantes...), MENOS robôs!!!


Vai ver que as roupas de robôs eram muito caras para a mixaria que o filme deve ter custado. Seja como for, tudo o que vemos de "robótico" num filme chamado ROBOT HOLOCAUST são Klyton e Torque, e ambos não passam de atores usando máscaras inexpressivas que não mexem nem os olhos; há ainda dois robozinhos secundários que surgem numa ceninha de cinco minutos, e Valaria, em forma humana durante a maior parte do filme, até ficar com metade do rosto cibernético exposto à la "O Exterminador do Futuro"!

Os cenários, então, são de chorar. Se na introdução Kincaid usou umas casas demolidas e/ou em construção para simular o apocalipse, o restante da aventura se passa num único lugar, a tal fábrica abandonada que é o covil de Dark One e seu reduzidíssimo exército robótico (fico me perguntando onde estarão os bilhões de outros robôs que se revoltaram contra a humanidade...).


E em algumas poucas cenas, quando vemos os heróis caminhando pela "paisagem desolada" do futuro pós-apocalíptico, os atores estão simplesmente zanzando por um parque, sem a menor vergonha na cara, enquanto a câmera fica na altura do chão para esconder o movimento de pessoas e o tráfego de automóveis nas redondezas - só não consegue esconder os edifícios intactos no horizonte, mas aí já é outro problema!

Dê só uma sacada nesse still de divulgação abaixo para ter uma ideia de como é a coisa, embora a fotografia faça o filme parecer bem melhor do que realmente é...


Num filme chamado ROBOT HOLOCAUST, também seria correto esperar por emocionantes duelos entre humanos e robôs, certo? Errado! Como já disse, temos míseros quatro robôs em cena (cinco, contando com a "quase humana" Valaria), e apenas dois deles fazem uso de armas laser (!!!). Assim, na maior parte do tempo, o que vemos são heróis e vilões robóticos lutando com... ESPADAS!!!

Exato: estamos no futuro, os vilões são robôs tecnologicamente evoluídos (em teoria), mas todo mundo usa espadas para lutar, como se fossem bárbaros saídos de alguma cópia barata de "Conan"! E vamos combinar que é bem questionável a eficácia do uso de armas brancas contra adversários mecânicos e metálicos...


(Vale ressaltar que Klyton, o chatíssimo robô "do bem", tem uma arma laser, mas raramente a utiliza. Afinal, se o fizesse, o restante do grupo não precisaria utilizar suas espadas contra mutantes, vermes e outros robôs, e aí o filme ficaria ainda mais curto do que os seus parcos setenta e poucos minutos.)

Já o roteiro do próprio Kincaid tem mais furos que a fachada de uma residência iraquiana. No começo do filme, o herói Neo usa telepatia para conversar com Klyton, e sabe-se lá como é que poderes mentais atuam num cérebro eletrônico. O mesmo Klyton mais tarde aparece dormindo - não desativado nem desligado, mas deitado e dormindo mesmo, só faltou roncar! Ah, também tem uma cena em que Neo sufoca um robô usando uma corrente. Opa, peraí: como você pode sufocar um negócio que nem respira? Bem, considerando que eles também dormem...


Mais: nunca é explicado o motivo para Dark One, uma máquina que liderou uma rebelião de robôs, ter como braço direito um andróide em forma de mulher (e vestida com roupitchas de perua!). E o que dizer de um cérebro eletrônico inteligente e desenvolvido o suficiente para dominar o mundo, mas que cria um aparato de auto-destruição na sua própria fortaleza que é acionado por... uma manivela?!? Assim ele não tem como desativá-lo por conta própria, e seu esconderijo só não vai para os ares porque um outro personagem esbarra acidentalmente na tal manivela (!!!) e cancela a auto-destruição quando restam apenas 10 segundos antes da explosão!

Também há muitos outros motivos para rir e fazer piada em ROBOT HOLOCAUST, como os diálogos expositivos criados apenas para tentar corrigir furos de roteiro ("Vocês também aprenderam a suportar o ar contaminado, certo?"), ou o narrador que permanece fazendo comentários redundantes até o final. Ou ainda o dispositivo que Deeja usa para respirar, que fica atrás da sua orelha (deve ser facílimo respirar com aquele cabelão por cima do aparato, não é?).


Ou seja, o filme é tão ruim que acabou ganhando certo culto ainda nos tempos do VHS, e este culto se intensificou - claro! - com a internet. Hoje você encontra sites com análises gigantescas dessa tralha (mais gigantescas do que essa minha, inclusive), e até homenagens à péssima atriz que interpreta Valaria, Angelika Jager, que sumiu do mapa depois desse negócio (ela tem um sotaque estranho, alemão ou francês).

Agora, curioso mesmo é analisar os créditos de ROBOT HOLOCAUST. Tudo bem que a maioria dos "atores" não foi muito longe, mas há exceções como J. Buzz Von Ornsteiner, que "atuou" escondido debaixo da roupa do robô Klyton. Pois após mais alguns filmes ruins, Von Ornsteiner abandonou o cinema e transformou-se numa autoridade em Psicologia (!!!), com direito a participação regular em programas de TV nos Estados Unidos.


E o que dizer do sujeito responsável pelos ridículos cenários pintados do filme, como o quartel-general do vilão? Acredite se quiser, mas trata-se de um tal de Andrew Kevin Walker - que anos depois abandonaria o cine-trash para virar roteirista de "Seven", "Oito Milímetros" e, mais recentemente, "O Lobisomem"!!!

O diretor-roteirista teve menos sorte: após mais alguns anos insistindo em filmes baratos de horror e ficção científica direct-to-video, em 2001 ele voltou ao mercado do pornô gay, onde continua firme (sem malícia!) até hoje, e ainda usando o pseudônimo Joe Gage.


Será que Tim Kincaid gostou de "Matrix" e enxergou as mesmas "coincidências" entre seu filme bagaceiro e aquela superprodução milionária? Boa pergunta, e acho que ninguém teve a boa vontade de entrevistá-lo sobre o caso ainda. Seria engraçado.

Mas além do herói com superpoderes chamado Neo, dos robôs que dominaram o mundo, da atmosfera contaminada, do uso de pessoas para criação de energia e da resistência na última cidade humana, ROBOT HOLOCAUST tem outros dois pontos em comum com a obra dos Irmãos Wachowski (agora Irmão e "Irmã").


O primeiro é a imagem de um ser humano usado como se fosse uma "bateria" por Dark One, preso num casulo bem parecido com aqueles em que os prisioneiros ficam em "Matrix".

O segundo, e mais interessante, é a "Câmara dos Prazeres" utilizada por Valaria em determinada cena do filme. Tá, a cena é gratuitíssima e mera desculpa para mostrar os peitos da atriz, mas o caso é que as máquinas têm essa câmara onde podem entrar para satisfazer seus "prazeres ocultos", entrando num universo de realidade virtual onde tudo é lindo e maravilhoso, bem diferente daquele mundo pós-apocalíptico em que vivem.

Ora, mas na essência não soa como uma versão pré-histórica da própria Matrix?


São muitos elementos em comum, mas as coincidências entre ROBOT HOLOCAUST e "Matrix" ficam só nesses elementos parecidos. Pois é óbvio que a aventura dos Wachowski é muito melhor em todos os sentidos (e aqui estou falando do "Matrix" original, pois as duas sequências são umas bombas atômicas!).

De qualquer forma, porcarias como essa do Tim Kincaid tem pelo menos uma qualidade além do fator trash e das gargalhadas que proporcionam: depois que você vê um longa-metragem pós-apocalíptico rodado por mixaria em pleno centro de Nova York, sem que sequer tenham sido produzidos cenários ou figurinos decentes, dá a maior vontade de fazer o seu próprio filme pós-apocalíptico caseiro!


E essa mágica "do it yourself" é algo que "Matrix", por exemplo, não tem. Porque você precisa de 100 milhões de dólares para fazer algo como "Matrix", mas definitivamente não precisa de mais do que mil reais para rodar algo semelhante a ROBOT HOLOCAUST.

Portanto, divirta-se com as aventuras de Neo e sua trupe de esfarrapados, com os robôs que vestem fantasias de carnaval, e aprenda com Kincaid como fazer um filme inteiro dentro de uma única fábrica em ruínas. Daí para bolar a sua própria aventura estrelada pelos amigos é só um pulinho!

PS: Não se espante se perceber uma qualidade absurda na trilha sonora do filme, qualidade esta que é inexistente em todos os outros departamentos da obra. Acontece que o produtor Charles Band "emprestou" para os realizadores músicas de um velho filme que produziu, "Laserblast - Alienígenas na Terra" (1978), compostas por Richard Band e Joel Goldsmith.

Monstros-fantoches + mutantes!



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Robot Holocaust (1986, EUA)
Direção: Tim Kincaid
Elenco: Norris Culf, Nadine Hartstein, J. Buzz Von
Ornsteiner, Jennifer Delora, Andrew Howarth,
Angelika Jager e Rick Gianasi.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

FORÇA ESPECIAL (2003)


Até o começo deste nosso século 21, o cineasta israelense Isaac Florentine era apenas "o cara que dirigia episódios dos Power Rangers". Tudo bem, ele já estava no mercado do cinema há algum tempo, tendo atuado como coreógrafo de cenas de luta em filmes como "American Cyborg - O Exterminador de Aço", e como diretor de aventuras com astros do segundo escalão, de Oliver Gruner e Gary Daniels a Dolph Lundgren.

Mas ainda não era considerado um sinônimo de ação barata e de qualidade, como é hoje; nem tinha um séquito tão grande de admiradores.


Dois filmes marcaram o ponto de virada na carreira de Florentine: "U.S. Seals 2", de 2001, e "Special Forces", de 2003, lançado no Brasil como FORÇA ESPECIAL, ambos produzidos pela barateira Nu Image. Vendo esses filmes, fica fácil de entender porque Isaac Florentine é, hoje, um dos nomes mais respeitados do cinema de ação independente.

Tanto "U.S. Seals 2" quanto FORÇA ESPECIAL são produções norte-americanas rodadas em pequenos países europeus para baratear custos. Mas o espectador desavisado juraria estar vendo uma aventura feita em Hong-Kong, ou pelo menos comandada por um diretor oriental, e não por um sujeitinho mirrado vindo de Israel.


Já virou clichê dizer que ocidental não sabe filmar cena de luta. É só ver o que fizeram com Jackie Chan e Jet Li quando eles foram "importados" para os Estados Unidos: não bastou colocá-los em filmes cada vez mais estúpidos, mas também era preciso estragar o talento deles para cenas de ação, filmando lutas quase incompreensíveis de tão picotadas e tremidas.

Pois Isaac Florentine é a exceção à regra. Ele próprio treina artes marciais desde os 13 anos de idade, e não apenas sabe filmar as lutas direitinho - com planos mais abertos e câmera fixa -, como também tem plena noção da importância de uma coreografia decente. Não é só gravar detalhes caóticos e jogar a bomba nas mãos do editor; com Florentine na direção, os atores precisam treinar exaustivamente as coreografias (aqui elaboradas por Akihiro Noguchi) para que o resultado final convença o espectador.


E FORÇA ESPECIAL é exatamente assim. Digo mais: era o filmaço que eu esperava que "Os Mercenários", do Stallone, fosse. Inclusive a trama dos dois filmes é bem parecida, com um batalhão de soldados encarando uma difícil missão de resgate num pequeno país oprimido por um governo militar.

Mas se Stallone rendeu-se a todas essas porqueiras que eu citei anteriormente - câmera epilética, edição de videoclipe que não permite sequer entender o que se passa -, Florentine fez exatamente o contrário, entregando um filme eficiente, bem dirigido, com a dose correta de pancadaria, tiros e explosões, sem perder tempo com frescurada.


O resultado é que você assiste a esta obra que custou 2,5 milhões de dólares e acha que custou 10 vezes isso, enquanto ao ver "Os Mercenários" é impossível acreditar que os caras tenham torrado 82 milhões (!!!) num filme tão mal-feito!

(E se ultimamente parece que vivo malhando "Os Mercenários", é simplesmente porque considero o filme do Stallone, junto com "Machete", dois belíssimos exemplos de como cagar um projeto quase perfeito!)


Voltando a FORÇA ESPECIAL: o roteiro de David N. White é o retrato da simplicidade. Começa mostrando uma ação do grupo das "Special Forces" no Líbano, quando eles invadem um campo de treinamento de terroristas do Hezbollah para resgatar um soldado ianque aprisionado e que está sendo "interrogado" na base do sopapo.

Sem sutilezas, o filme apresenta cada um dos soldados-heróis com legendas que informam seu nome. O pelotão é liderado por um veterano casca-grossa, o Major Don Harding (Marshall R. Teague), que não fica apenas gritando ordens, mas também põe as mãos (e pés) na massa.


Bem, depois da ação no Líbano, o filme nos transporta sem escalas para a "Muldônia, ex-República Soviética", país que eu acredito ser fictício - pelo menos nunca tinha ouvido falar sobre ele, e nem achei nada sobre no Google; além disso, as filmagens aconteceram na Lituânia.

Enfim, "Muldônia" é um daqueles pequenos países europeus sob regime ditatorial que os norte-americanos adoram representar em filmes de ação, especialmente depois que a antiga inimiga União Soviética sumiu do mapa.

Ali, uma vila inteira é exterminada pelo cruel General Hasib Rafendek (Eli Danker, cuja cara realmente dá medo). Só que uma jornalista norte-americana (Daniella Deutscher) estava por perto e registrou todo o massacre. Ela acaba sendo aprisionada pelo ditador, que pretende trocá-la por prisioneiros de guerra.


Entretanto, como todos sabemos, "os Estados Unidos não negociam com terroristas". E lá se vão os bravos soldados da Força Especial para uma difícil missão de resgate, em que precisam enfrentar, literalmente, todo o exército da Muldônia!

Sorte que eles contarão com uma ajudinha especial de Talbot (Scott Adkins), um espião inglês especialista em artes marciais que pretende vingar a morte do parceiro.


Se eu precisasse resumir as qualidades de FORÇA ESPECIAL em apenas três palavras (e felizmente não preciso, mas vamos fingir que sim), eu usaria essas: Florentine, Teague e Adkins.

Nosso diretor já foi suficientemente bem apresentado e não precisa de maiores referências. Já nosso astro Teague é um ator de segundo para terceiro escalão que já apareceu em blockbusters ("Armageddon", "A Rocha"), em filmes do Chuck Norris e em produções de quinta categoria.

Seu papel mais memorável foi enfrentando Patrick Swayze em "Matador de Aluguel", ainda bem jovem - ele era o capanga de Ben Gazarra, que tinha o pescoço dilacerado por Swayze com um único golpe! Aqui, Teague demonstra suas habilidades em artes marciais numa luta final das boas com o grande vilão.


Mas a grande estrela de FORÇA ESPECIAL é o inglês Adkins, que, apesar de "coadjuvante", rouba o filme. Enquanto antigas promessas como Jason Statham vem fazendo filmes cada vez piores e mais convencionais, Scott Adkins é o único astro de ação da modernidade cuja filmografia eu tenho interesse em acompanhar.

Fã de Bruce Lee e Van Damme, o ator treina judô, taekwondo e kickboxer desde moleque, portanto tem gabarito para fazer suas próprias cenas de luta, sem recorrer a dublês. Ele começou sua carreira em produções como "O Medalhão" (com Jackie Chan) e "Máscara Negra 2".


Mais recentemente, após vários papéis de coadjuvante ou de vilão em produções dinheirudas ("A Pantera Cor-de-Rosa", "O Ultimato Bourne"), Adkins vem galgando os degraus para sair da "classe B" para o estrelato - o que pode acontecer em breve, já que ele está no elenco de "Os Mercenários 2".

FORÇA ESPECIAL marca sua primeira parceria com Florentine. Ele apareceu em todos os filmes do diretor desde então, no que se revelou uma dobradinha bem-sucedida. Inclusive teve a honra de dar uns catiripapos no ídolo Van Damme em "Operação Fronteira", e depois estrelou o divertidíssimo "Ninja".


Aqui, Adkins mostra os seus talentos com punhos e pernas em diferentes cenas ao longo do filme, e também ganha sua própria longa e violenta luta final contra o braço direito do vilão, numa pancadaria editada em paralelo ao confronto entre o protagonista Teague e o "último chefão".

Dá gosto de ver o cara lutar. Inclusive ele lembra Van Damme nos bons tempos de "Cyborg - O Dragão do Futuro", mas é muito melhor ator. Espero que a parceria Florentine-Adkins mantenha-se firme ainda por um bom tempo.


É interessante ressaltar que um outro diferencial de FORÇA ESPECIAL para "Os Mercenários", além da qualidade superior de direção e edição aqui, é que os heróis liderados pelo Major Harding enfrentam situações de vida ou morte e não raramente acabam levando a pior, mostrando-se muito mais "descartáveis" do que os "expendables" do Stallone - o que não deixa de ser irônico.

Óbvio que a coisa seria mais interessante se os heróis fossem interpretados por atores mais conhecidos (algo que "Os Mercenários" tinha e não soube aproveitar). Tem até uma cena em que um dos "good guys" é metralhado pelas costas em câmera lenta, estilo "Platoon"!


Também é curioso o fato de que os soldados desse filme REALMENTE parecem soldados. Ao invés de sair correndo e atirando contra tudo que se mexe, como é frequente nos filmes de ação, os caras parecem bem treinados e seguem estratégias e ordens do seu comandante, o que dá um ar um pouco mais verossímil às cenas de combate.

Talvez ajude o fato de um dos heróis ser interpretado por Tim Abell, um cara que serviu no Exército e que já trabalhou dando assessoria em filmes que representam a vida militar, como o drama sobre o Vietnã "Fomos Heróis".


Em entrevistas, o diretor Florentine declarou que seu filme aborda polêmicos temas atuais, como o conflito entre bósnios e croatas e os genocídios em países dos Balcãs, onde aconteceram e acontecem extermínios em nome da "limpeza étnica".

Mas convém não dar muita bola para os discursos do cineasta, pois FORÇA ESPECIAL não passa de um belo filme de ação casca-grossa que não perde muito tempo com sociologia ou discursos engajados. Pelo contrário, o negócio é tão clichê que os vilões, todos feiosos, aparecem surrando idosos e crianças, e sempre com cigarros na boca, enquanto os heróis são bonitões, simpáticos, hiper-patrióticos e exemplos de honra e virtude.


O resultado é absurdamente competente, ainda mais considerando a mixaria que o filme custou e a quantidade de pancadarias, tiroteios e explosões ao longo dos 90 minutos de duração. A contagem de cadáveres chega a umas três centenas, lembrando o estrago que John Rambo fez na Birmânia em "Rambo 4".

Por isso, sabendo que o orçamento mal chegou a 3 milhões de dólares, fico só imaginando o que Isaac Florentine e seu chapa Scott Adkins fariam com metade do orçamento de um blockbuster nas mãos.

E é uma pena que uma coisa dessas continue apenas na imaginação, e que um filme como "Os Mercenários 2", o veículo perfeito para Florentine demonstrar sua técnica, caia nas mãos de um cabeça-de-bagre como Simon West - e com um orçamento de 100 milhões para desperdiçar.

Mundo injusto...

Trailer de FORÇA ESPECIAL



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Special Forces (2003, EUA)
Direção: Isaac Florentine
Elenco: Marshall R. Teague, Scott Adkins, Tim Abell,
Danny Lee Clark, Troy Mittleider, Daniella Deutscher,
Terence J. Rotolo e Eli Danker.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A GUERRA DOS NINJA (1982)


O passado do Japão é repleto de guerras e intrigas - a bem da verdade, como o passado de toda nação que se preze. Da metade do século 15 até o início do século 17, desenrolou-se por lá o período batizado Sengoku, ou "Era dos Reinos Combatentes", marcado por inúmeras revoluções, traições, intrigas políticas e batalhas sangrentas. O período Sengoku levaria à unificação do poder político sob o comando do shogun Tokugawa. Mas, antes disso acontecer, muito sangue rolou.

A GUERRA DOS NINJA (o título em português é assim mesmo, com plural e singular) é uma impressionante fábula épica produzida pela Toei Company no início dos anos 1980. A história se passa justamente no período Sengoku.


Mas, além das revoluções, trações, intrigas políticas e batalhas sangrentas narradas nos livros de história, o filme também toma algumas, digamos, "liberdades poéticas", introduzindo na história real elementos como samurais voadores com poderes sobrenaturais (inclusive mortíferos disparos de vômito!!!), trocas de cabeças decepadas e ressurreições mágicas, poções afrodisíacas e até um sujeito que dispara dardos pelos olhos!!!

Resumindo: é mais um daqueles FILMES PARA DOIDOS que me fazem ficar pensando no que diabos tem na água que os japoneses bebem...


Menos uma aventura de pancadaria e mais uma fábula "artística" no estilo dos recentes "O Tigre e o Dragão" e "O Clã das Adagas Voadoras" (embora "filme de arte" com vômito mortífero seja muito mais divertido!), A GUERRA DOS NINJA foi baseado na história do Japão, mas também num livro de Fûtarô Yamada, "Iga Ninpōchō", publicado originalmente em 1964.

Yamada era especialista nessas fábulas com ninjas e samurais usando poderes mágicos, e o mesmo livro deu origem a um mangá mais recentemente. Eu, na minha quase ignorância em relação à cultura oriental, classificaria tanto a história quanto o filme como "Wuxia", um gênero da ficção chinesa encontrado em livros, filmes, quadrinhos e artes em geral, e que narra histórias de heróis e batalhas reais misturando-as com elementos fantásticos, como guerreiros que voam ou usam magia.


Entretanto, sites muito mais especializados no negócio do que eu afirmam que não se encaixa como Wuxia, embora a trama de A GUERRA DOS NINJA também misture personagens e acontecimentos reais com aquelas maluquices típicas das aventuras orientais. Na dúvida, vamos deixar a questão em aberto...

Para entender o filme, é preciso antes fazer um intensivão de cultura japonesa. Na "versão oficial" dos livros da história de lá, existe a figura de um conspirador chamado Hisahide Matsunaga, que, aliado ao clã Miyoshi, tramou o assassinato do shogun Ashikaga para chegar ao poder. Depois, aliou-se a Oda Nobunaga para eliminar os ex-companheiros do clã Miyoshgi, e finalmente, para ficar com o poder só para ele, declarou guerra ao próprio Nobunaga, quando foi vencido.


Sabendo que o rival iria ficar com a sua cabeça decepada como troféu, e também com seu valioso pote para fazer chá (chamado "Hiragumo", ou "Pote da Aranha"), o ardiloso Matsunaga resolveu cometer suicídio, mas ordenou que os servos depois cortassem sua cabeça, colocassem no tal pote e explodissem ambos com pólvora. Assim foi feito, privando o vencedor Nobunaga de seus troféus e garantindo uma saída de cena em alto estilo para Matsunaga!

(Viram só? FILMES PARA DOIDOS também é cultura!)



Vários dos elementos dessa história inacreditável, das conspirações de Matsunaga contra o clã Miyoshi ao tal pote de chá Hiragamu, aparecem em A GUERRA DOS NINJA. O livro de Yamada foi adaptado para o cinema por Ei Ogawa.

No filme, Hisahide Matsunaga virou Danjo Matsunaga (interpretado por Akira Nakao), e seu conflito com o clã Miyoshi começa por causa de uma mulher (claro!), a bonita Ukyodayu (Noriko Watanabe), que é a jovem noiva do mas velho dos Miyoshi (Noboru Matsuhashi, de "Portal do Inferno").


Sabendo que nunca poderá tê-la pelos "meios oficiais", Danjo apela para o famoso e maligno feiticeiro Kashin Koji (Mikio Narita, de "Mensagem do Espaço"). O bruxo tem a receita para uma mirabolante fórmula afrodisíaca que fará com que a bela Ukyodayu fique caidinha por Danjo. O único problema é que a tal fórmula é um pouquinho, digamos, complicada de preparar.

Menos mal que o feiticeiro empresta a Danjo seus cinco capangas, uns monges demoníacos que usam chapelões, voam, têm poderes mágicos bizarros (como o tal disparo de vômito mortífero) e podem ter sido a inspiração para personagens bem parecidos em "Os Aventureiros do Bairro Proibido", de John Carpenter.


Além de dez tipos de ervas raras e do famoso Pote da Aranha, o afrodisíaco requer lágrimas da pretendente para funcionar. Sabendo que jamais conseguirá chegar tão perto de Ukyodayu para obter essa parte da receita, Danjo manda os cinco monges voadores sequestrarem Kagaribi, que é a irmã gêmea bastarda de Ukyodayu (interpretada pela mesma atriz).

Kagaribi, por sua vez, está apaixonada pelo jovem ninja Jotaro (Hiroyuki Sanada, o professor Takayama da série "Ringu"). O rapaz até já lhe ensinou alguns truques ninjas, como o de cortar bambu com as mãos nuas, soltando uma espécie de raio laser azulado com os dedos (!!!).


O idílio romântico dos dois no meio de um bosque é interrompido com a chegada dos monges voadores. Jotaro é imobilizado pelo vômito mortífero de um dos bruxos (e vocês nem imaginam o quanto eu rio aqui sozinho toda vez que escrevo isso "vômito mortífero").

A meleca atinge o rosto do pobre rapaz e se solidifica. Faça um favor a si mesmo e veja essa cena, no vídeo abaixo!

Como vencer um ninja usando vômito



Enquanto Jotaro sofre com vômito duro na cara (!!!), os monges levam Kagaribi até o palácio de seu chefe. Danjo pretende estuprar a garota para poder recolher suas lágrimas. Mas, prevendo seu triste destino, Kagaribi prefere cometer suicídio, cortando a própria cabeça (!!!) com o truque da mão de raio laser (!!!).

E a coisa não acaba por aqui. Acontece que os monges malvados conhecem um truque bizarrísimo para ressuscitar os mortos: eles decepam a cabeça de uma criada de Danjo e simplesmente trocam as cabeças das garotas - o corpo de Kagaribi fica com a cabeça da pobre criada, e vice-versa!!! Assim eles conseguem estuprar o corpo de Kagaribi e recolher as lágrimas necessárias para o feitiço.


Aí os problemas recomeçam: deixado esquecido num canto, o corpo da criada com a cabeça de Kagaribi desperta, rouba o Pote da Aranha com a poção afrodisíaca dentro e foge de encontro a Jotaro.

A garota é eventualmente morta, enquanto o jovem ninja passa a ser caçado implacavelmente pelos monges voadores e resolve proteger a fórmula com sua própria vida para que Ukyodayu não seja enfeitiçada - e porque ele simplesmente não joga fora o maléfico afrodisíaco e se livra dos problemas é algo que foge à minha compreensão!


Como deve ter ficado claro pelo resumo, A GUERRA DOS NINJA é uma coleção de belíssimas imagens - ora violentas, ora coloridas, ora românticas, ora acachapantes -, e também dessas maluquices tipicamente orientais, como corpos decapitados que ficam de pé jorrando sangue como um gêiser.

A trama é naturalmente absurda, mas se leva a sério, com pouquíssimo humor (sem contar, é claro, o humor involuntário). Portanto, não é todo mundo que vai embarcar e engolir o excesso de absurdos, principalmente porque uma maluquice logo vem seguida de outra ainda pior. Mas o clima de estranheza deve passar depois dos 15 minutos iniciais, que já bombardeiam o espectador com toda sorte de bizarrices; quem conseguir sobreviver a isso, vai encarar até o final (trágico, porém poético) numa boa.


Na verdade, é miraculoso que o diretor Kôsei Saitô (um veterano que fez pouquíssimos filmes) tenha conseguido realizar uma aventura interessante com base numa trama tão trágica e deprimente, em que personagens inocentes são mortos cruelmente a todo momento (o destino da pobre Kagaribi é notavelmente perverso).

As cenas de ação e de luta são bem filmadas e particularmente bem coreografadas pelo astro Sonny Chiba, que aparece num pequeno, mas importante papel (entrando em cena apenas no começo e na conclusão).


E o roteiro também inclui outras particularidades históricas do passado do Japão, como o incêndio criminoso do Templo Budista de Nara (que realmente aconteceu em 1567, e foi atribuído a Matsunaga, no filme e nos livros de história), ou a presença de Hattori Hanzo, um famoso ninja do século 16 que já foi usado como personagem em diversos filmes, inclusive em "Kill Bill", de Quentin Tarantino (então interpretado por Sonny Chiba).

Originalmente batizado "Iga Ninpôchô" (Guerras Ninjas), como o livro em que se baseia, o filme ganhou todo tipo de título em seus lançamentos comerciais no Ocidente, de "Black Magic Wars" até "Death of a Ninja".


No Brasil, foi distribuído em VHS pela Transvídeo como A GUERRA DOS NINJA e saiu numa época ingrata, em que aquelas aventuras ocidentais com ninjas (tipo "American Ninja" e "Ninja - A Máquina Assassina") faziam sucesso nas locadoras.

Deve ter sido um choque para muita gente que alugou a fita imaginando que veria um filme de ação "comum", deparando-se então com essa fábula maluca e mórbida. Felizmente, só o vi "depois de velho"; fico imaginando o estrago que algumas imagens fariam na minha cabeça de moleque.


E ironicamente, apesar do título, um único ninja com aquela tradicional roupinha preta e mascarado aparece no filme... e durante uns 10 segundos, no máximo!

Tudo considerado, A GUERRA DOS NINJA é um pouco difícil de acompanhar, principalmente para um pobre ocidental que desconhece a cultura e a história do Japão (essas explicações todas que você encontrou de lambuja aqui na resenha eu tive que pesquisar na internet DEPOIS de ver o filme).


Mas é um filme que eu recomendo fortemente apenas pelo clima mágico/fantástico, e por cenas belíssimas como a dos jovens Jotaro e Kagaribi no bambuzal antes da encrenca começar, ou da cabeça decapitada que cai girando por causa do chapelão que o finado usava no momento da morte.

São imagens tão bonitas (mesmo quando fortes e sangrentas) e hipnóticas que acho que eu veria o filme até sem legendas, descartando os diálogos em prol do visual. Porque, no fundo, essa é uma daquelas aventuras cujo charme é justamente a esquisitice, e não a trama propriamente dita - na linha do incompreensível "Duna", de David Lynch.


Claro, sempre vai aparecer um daqueles malas reclamando que A GUERRA DOS NINJA é muito "surreal" com suas trocas de cabeças, vômitos mortíferos e ninjas voadores. Ironicamente, às vezes são os mesmos caras que aceitam numa boa os filmes ocidentais de super-heróis, em que a picada de uma aranha radioativa faz alguém escalar paredes e lançar teias, ao invés de morrer contaminado.

Ou então pessoas que aceitam numa boa um certo livro muito mais fantasioso chamado "Bíblia Sagrada", que tem pessoas caminhando sobre as águas, cobras falantes e um sujeito que vive dias dentro da barriga de uma baleia.

Comparando com isso tudo, A GUERRA DOS NINJA até parece bem menos absurdo...

Trailer de A GUERRA DOS NINJA



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Iga Ninpôchô / Ninja Wars (1982, Japão)
Direção: Kôsei Saitô
Elenco: Hiroyuki Sanada, Noriko Watanabe, Jun Miho,
Yuki Kazamatsuri, Mikio Narita, Noboru Matsuhashi,
Hiroshi Tanaka, Sonny Chiba e Akira Nakao.