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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

METALSTORM (1983)


Um fenômeno que merecia estudo mais aprofundado é o das produções de fundo de quintal que, no começo da década de 1980, praticamente ressuscitaram a febre do 3-D - ferramenta surgida nos anos 50 e que estava em plena decadência. Eu comentei rapidamente sobre isso no meu dossiê sobre pornografia em três dimensões, mas, recapitulando, foi o seguinte:

Esquecido durante duas décadas depois do seu glorioso surgimento, quando ficou relegado a produções pornográficas ou filmes baratos de terror, o 3-D voltou à crista da onda em 1981, graças ao western spaghetti (!!!) "Comin' at Ya!", dirigido por Ferdinando Baldi. Foi um inesperado sucesso de bilheteria. Assim, realizadores de filmes classe B e C perceberam que podiam agregar valor às suas obras mequetrefes filmando-as em três dimensões.


Um desses produtores espertalhões foi Charles Band. Em 1982, Band produziu e dirigiu em três dimensões uma ficção científica com toques de horror chamada "Parasite". O filme custou 800 mil dólares e faturou quase 7 milhões nas bilheterias - além de marcar uma das primeiras aparições nas telas de uma tal Demi Moore.

A grana preta arrecadada por "Comin' at Ya!" e "Parasite" chamou a atenção dos grandes estúdios de Hollywood, que começaram a investir em seus próprios filmes em 3-D, como "Sexta-feira 13 Parte 3", "Tubarão 3" e "Amityville 3" (todos foram batizados com o trocadilho "3-D" no lançamento nos cinemas).

Enquanto isso, Band resolveu aproveitar o sucesso de "Parasite" para rodar uma aventura mais ambiciosa em três dimensões. Investiu mais (2,5 milhões de dólares, uma mixaria para a maioria, mas uma fortuna para os padrões do realizador e da época em que o filme foi feito) e conseguiu um acordo com uma "major" (a Universal) para distribuí-lo nos cinemas.


Nascia assim a sci-fi pomposamente batizada "Metalstorm - The Destruction of Jared-Syn", que, no Brasil, ficou conhecida apenas como METALSTORM mesmo, ao ser lançada em VHS pela saudosa Everest Vídeo.

Essa bizarra mistura de ficção científica pós-apocalíptica pobretona com faroeste e toques de "Star Wars" se passa num futuro distante e em um planeta não-identificado, que pode ou não ser a Terra depois de alguma daquelas catástrofes atômicas tradicionais do cinema dos anos 80.

Ali vive nosso herói, um solitário ranger chamado Dogen, interpretado por um Jeffrey Byron permanentemente com olhos arregalados.


Nesse mundo semi-destruído onde vale a lei do mais forte, Dogen patrulha o deserto num carro-blindado feito com sucata, à la "Mad Max 2", caçando o perigoso vilão intergaláctico Jared-Syn (Michael Preston, de - surpresa-surpresa! - "Mad Max 2"!!!). O sujeito escravizou um povoado de mutantes que têm um olho só (como cíclopes), e tenta dominar o mundo roubando a energia vital das pessoas através de cristais mágicos (?).

Durante uma missão de rotina, Dogen resgata a bela Dhyana (Kelly Preston!!!), cujo pai minerador foi morto pelos homens de Jared-Syn. Juntos, eles tentam encontrar uma mística máscara de cristal (?), que é a única proteção contra os poderes malignos do vilão. Começa uma odisséia de explosões, tiros de pistola laser, maquiagens baratas e muitos efeitos em 3-D que devem ter ficado bem divertidos nos cinemas de bairro.


O roteiro de Alan J. Adler (que também escreveu o anterior "Parasite") não faz muito sentido, como é possível perceber só pelo breve resumo da trama. Na verdade, é mais fácil encarar METALSTORM como um amálgama de tudo aquilo que estava fazendo sucesso na época.

Vejamos: o herói, Dogen, é um policial valentão num mundo árido e semi-destruído, lembrando um certo Mel Gibson e um certo Mad Max. Ele até veste um traje de couro preto muito parecido com o de Max nos filmes australianos, e os carros esquisitos feitos de sucata, usados por heróis e vilões, parecem sobra das filmagens de "Mad Max 2".


Há toques de western (um duelo de "quem saca a pistola laser mais rápido" bem no meio de uma cidadezinha quase deserta), de fantasia medieval (luta de espadas entre o herói e o mais forte dos cíclopes) e de ficção científica bagaceira (a presença de um cyborg cujo braço mecânico, com uma garra na ponta, se estica para agarrar as vítimas).

Finalmente, também aparecem as pistolas laser e os toques "místicos" (máscara de cristal, vilão com poderes sobrenaturais, criaturas mutantes) da série "Star Wars", incluindo uma cena em que o herói persegue o vilão em velozes motos voadoras muito parecidas com as de "O Retorno de Jedi", que foi lançado no mesmo ano (1983). Coincidência?


O sempre divertido Tim Thomerson bate cartão como Rhodes, um soldado aposentado e pseudo-Han Solo que ajuda Dogen na sua busca. Como acontecia em "Star Wars", que mostrava Han Solo como o contraponto bem-humorado à seriedade de Luke Skywalker e de Obi-Wan Kenobi, Rhodes aqui funciona como alívio cômico ao lado do sempre carrancudo herói. Já um dos vilões cíclopes, Hurok, é interpretado por Richard Moll, o Big Ben de "A Casa do Espanto".

O resultado dessa mistureba é muito esquisito, embora estranhamente atrativo e sempre divertido. O filme também é curto demais para incomodar, com menos de 80 minutos de duração, e não nega fogo no quesito ação, com inúmeros "tiroteios laser", explosões de carros e lutas.


Mas é óbvio que, hoje, METALSTORM vale muito mais como retrato de uma época (saiu há quase 30 anos!!!) e pelo fator trash.

Mesmo que Band estivesse trabalhando com mais dinheiro do que a média que usava, fica claro a todo momento que o filme é uma produção pra lá de capenga, e essa pobreza pode ser constatada nos cenários carnavalescos, nas cenas de ação sem grandes malabarismos e nos efeitos especiais quase improvisados.


Os próprios figurinos e maquiagens são tão fuleiros que os vilões parecem ter saído de algum episódio de "Jaspion" ou "Changeman", especialmente o malvadão Jared-Syn. Já o cyborg Baal está bem caracterizado e é uma das melhores coisas do filme: como o ator R. David Smith não tem um dos braços na vida real, foi fácil improvisar o membro mecânico que o personagem usa. É um vilão de respeito, bem melhor que Jared-Syn.

E mesmo que o filme em si não seja lá essas coisas, há um charme difícil de explicar nessa pobreza toda, inclusive nas pistolas de raios que parecem velhos secadores de cabelo adaptados.


Você se diverte (principalmente se estiver assistindo com a turma toda), e fica pensando em como os caras conseguiram fazer aquilo tudo com tão pouca grana, ao invés de, como hoje, ficar indignado por um filme que custou 100 milhões de dólares parecer tão ruim e mal-feito.

Tem uma cena, por exemplo, em que uns vermes extremamente toscos saem da areia do deserto para tentar abocanhar a dupla de heróis. São uns bonequinhos inexpressivos - muito parecidos com fantoches! -, mas é incrível como você aceita a pobreza dos monstrinhos com muito mais naturalidade do que muito bicho feito em computação gráfica nos filmes atuais.


E a Kelly Preston está uma coisinha fofa, mas infelizmente aparece sempre vestida. O que não deixa de ser surpreendente, considerando que ela mostrou os peitos em quase todos os filmes do começo da sua carreira - "A Primeira Transa de Jonathan", "Nenhum Passo em Falso", "Admiradora Secreta"... Pô Kelly, por que foi regular logo aqui, quando você é a única coisa bonita num universo de homens feios e/ou deformados, cenografia indigente e figurinos de segunda mão?


Confesso que queria muito ter visto METALSTORM nos cinemas, com aqueles óculos 3-D feitos de papelão, com lentes azul e vermelha. Porque a obra foi realizada numa época em que os efeitos de três dimensões eram usados para tornar produções baratas, como essa, mais atrativas ao grande público, e não para maquiar a ruindade e a falta de história, como acontece nos blockbusters produzidos atualmente em 3-D.

Se em muitos filmes lá dos anos 80 o 3-D era um artifício bem tosco e gratuito, geralmente usado apenas para mostrar pipocas pulando da panela direto na cara do espectador ou outras bobagens parecidas, em METALSTORM os efeitos de três dimensões são bem criativos.


Mesmo assistindo o filme em formato comum, em "2-D", percebe-se que ele deve ter ficado muito divertido em três dimensões, pois a toda hora alguma coisa é apontada direto para a câmera, pronta para "sair" da tela: pistolas que disparam laser, carros que aceleram para cima do espectador, o braço mecânico do cyborg que se estica e até um sujeito que atravessa o pára-brisa do carro em câmera lenta e "sai da tela" junto com os cacos de vidro! Band podia ser pobretão, mas era bem criativo!

Infelizmente, a aventura nunca foi propriamente lançada em 3-D fora dos cinemas, hoje existindo apenas uma versão retirada do VHS japonês que circula pelos torrents. O DVD "oficial" é um engodo: além de não trazer a versão em três dimensões, os distribuidores ainda cometeram o crime de cortar a imagem para fullscreen, estragando a bela fotografia original em wide. Para dar uma idéia de como ficou, compare as versões original em 3-D e cortada nos lados e 2-D nas imagens abaixo:


METALSTORM também marca o "momento George Lucas" de Charles Band. Ao assegurar a distribuição da Universal, que lhe garantia mais cópias do filme em mais salas de cinema, o produtor-diretor acreditou que tinha uma mina de ouro nas mãos - sempre pensando no grande lucro de seu "Parasite".

Em parceria com o roteirista Adler, resolveu transformar a trama de Dogen, Jared-Syn e cia. numa trilogia: o sucesso do original - que era algo certo, para o realizador - asseguraria a realização de outros dois episódios. Portanto, apesar do subtítulo "A Destruição de Jared-Syn", a aventura termina com o vilão escapando (!!!), e o herói Dogen assegurando que irá continuar sua caçada para quem sabe finalmente "destruí-lo"!


Band planejou até uma linha de produtos baseada no filme, com revistas em quadrinhos, brinquedos e roupas. Mas a estréia de METALSTORM foi um fiasco: o público da época não se deixou levar apenas pelos efeitos em 3-D, como acontece hoje, e saiu dos cinemas reclamando que a história não fazia nenhum sentido; a crítica também destruiu o filme.

Resultado: a produção de 2,5 milhões de dólares mal se pagou, faturando 5 milhões até sair de cartaz. E se você lembrar que o longa anterior de Band, "Parasite", custou 800 mil e arrecadou 7 milhões, imagine o banho de água fria que foi para o coitado.

Mas, de certa forma, o fracasso de METALSTORM fez bem a Charles Band. OK, ele não pôde mais brincar de George Lucas dos pobres, não pôde lançar sua linha de produtos com merchandising e nem completar sua suposta trilogia.


Por outro lado, atribuiu o resultado negativo à distribuição da Universal e resolveu criar sua própria empresa, a Empire Pictures, que a partir de 1985 engatou uma bem-sucedida série de filmes de horror e ficção científica de baixo orçamento, produzindo "Reanimator", "Do Além", "Duro de Prender", "Catacumbas", as franquias "Trancers" e "Puppet Master", entre outros.

(E até hoje Band faz piada, em entrevistas, com o título do seu filme, considerando que não há nenhuma "metalstorm/chuva de metal" e Jared-Syn nunca é destruído, como o título promete!)


Já os engravatados de Hollywood não aprenderam nada com o episódio. No mesmo ano, a Columbia produziu uma espécie de "primo rico" de METALSTORM, o clássico do Cinema em Casa "Spacehunter - Aventuras na Zona Proibida", de Lamont Johnson. Parece até um remake do filme de Band, com Peter Strauss no lugar de Jeffrey Byron, Molly Ringwald no de Kelly Preston e Michael Ironside como cyborg malvado, e também filmado em 3-D. O orçamento foi milionário perto de METALSTORM, e por isso o tiro no pé foi maior: "Spacehunter" custou 14 milhões e faturou apenas 16 milhões nos cinemas. Mas é tão divertido e ridículo quanto seu "primo pobre".

Depois dele, e de outros fracassos semelhantes, os estúdios começaram a ficar temerosos em relação ao 3-D, e o recurso acabou esquecido. Isso praticamente até alguns anos, quando o cinema em 3-D voltou à moda, agora com técnicas mais modernas, mas um vazio ainda maior em relação a roteiro e criatividade.


E quando um filme toscão como METALSTORM parece ter mais história para contar do que um "Avatar", por exemplo, é porque realmente o recurso de três dimensões atingiu seu ponto mais baixo: um legítimo engana-trouxa. Eu, particularmente, não faço questão de ver filmes modernos em 3-D, até porque eles raramente valem o investimento (o ingresso é muito mais caro do que o de um filme "normal").

Fico me perguntando, também, até quando vai durar essa modinha estúpida, que só está rendendo um montão de filmes com cenas que não fazem nenhum sentido quando vistas em 2-D. Mais do que nunca, precisamos de boas histórias e bons filmes - não de efeitinhos mequetrefes que só funcionam como enfeite.

PS: Eu não poderia encerrar essa resenha sem destacar a excelente trilha sonora do irmão de Charles, Richard Band, muito melhor que o próprio filme.

Trailer de METALSTORM



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Metalstorm - The Destruction of Jared-Syn
(1983, EUA)

Direção: Charles Band
Elenco: Jeffrey Byron, Tim Thomerson, Kelly Preston,
Michael Preston, Richard Moll, R. David Smith, Larry
Pennell, Mickey Fox e William Jones.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

NENHUM PASSO EM FALSO (1986)

(Queridos leitores, já faz meses que não resenho um filmaço apenas pelo seu fator trash/diversão - mais precisamente desde "Sonatine", em março. Portanto, resgato este texto antigo do meu aposentado Multiply para a série FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA. Se já leu, não se preocupe: a resenha é praticamente toda nova, pois desde que a escrevi originalmente, em 2005, eu li o livro que inspirou o filme, e aqui faço as devidas comparações.)

Harry Mitchell (Roy Scheider) é um rico e bem-sucedido homem de negócios, ligado à indústria da siderurgia, dono de capital considerável graças a uma patente com a Nasa, que lhe garante uma caprichada conta bancária. Tem um carrão conversível que ele mesmo reformou em sua rica garagem e uma bonita mulher, Barbara (Ann Margret), que o ama e pretende investir no futuro político, lançando sua candidatura a vereadora. Pode-se dizer que Harry Mitchell tem tudo. Mas, como nós sabemos, quem tem tudo geralmente está querendo um algo mais.


E é assim que nosso executivo de meia-idade se envolve com Cini, uma jovem "modelo" de apenas 22 anos de idade (interpretada pela atual esposa de John Travolta, Kelly Preston). O caso extraconjugal poderia melhorar ainda mais a vida de Mitchell. Porém, como estamos em um filme de John Frankenheimer, e com roteiro do mestre da literatura policial pop Elmore Leonard, é claro que a coisa vai dar mal.

Estou falando de "52 Pick-Up", filmão baseado em livro de mesmo nome que foi publicado no Brasil na década de 1970 como "Os Chantagistas". Pior sorte teve o filme, que foi inexplicavelmente lançado por aqui com dois títulos diferentes: NENHUM PASSO EM FALSO e A HORA DA BRUTALIDADE (para aproveitar a febre de filmes com "Hora" no título, tipo "A Hora do Espanto", "A Hora do Pesadelo"...).


Depois, quando a América Vídeo lançou-o em VHS, resolveu unir ambos e ficou NENHUM PASSO EM FALSO - A HORA DA BRUTALIDADE!!!

(E caso você esteja se perguntando, o original "52 Pick-Up" refere-se a um jogo de cartas infantil bem popular nos Estados Unidos: um jogador atira um maço de 52 cartas para o alto, de maneira que elas caiam desordenadamente no chão, e o outro jogador precisa "remontá-lo" através de combinações crescente e descrescente, como no jogo tradicional de Paciência.)

Mas voltemos à vida do pobre Harry Mitchell. Logo no início do filme, quando ele se prepara para mais um encontro com Cini, tem a desagradável surpresa de encontrar no quarto de hotel não a sua gatinha loira, mas sim três homens mascarados. Um deles com um revólver na mão.


"Sente e aproveite o show"
, diz um dos desconhecidos, e então o trio mostra a Mitchell um vídeo amador que registra cenas do dia-a-dia do ricaço. Aqueles bandidos o seguiram por um bom tempo, filmando momentos em que ele sai de casa, entra na empresa, sua mulher fazendo cooper e, finalmente, detalhes que comprovam a traição conjugal: Mitchell encontrando-se com Cini, levando-a para uma viagem de férias quando deveria estar numa convenção de empresários e fazendo sexo com a garota.

Os bandidos sabem que aquelas imagens podem destruir o casamento e a vida pacata de Harry Mitchell, além de arruinar as pretensões políticas da sua esposa graças ao escândalo. Por isso, pedem 105 mil dólares pelo silêncio.


O milionário convence o trio de que não pode simplesmente chegar no banco e retirar 105 mil dólares. Fica acertado que ele pagará em "prestações mensais", começando com uma primeira de 10 mil dólares. E, assim, Mitchell fica à mercê dos perigosos chantagistas.

Ao invés de ir direto à polícia, nosso herói resolve contar tudo ao seu advogado, Mark Arveson (o falecido Doug McClure, de "Humanoids from the Deep"). Este sugere que o executivo não ceda às pressões dos chantagistas.

Naquela noite, Mitchell volta para casa e abre o jogo com a esposa, dizendo que a traiu, que aquela foi a primeira vez, que ele estava desconfortável com o casamento, etc etc. Barbara, é claro, fica furiosa. Mas Harry sente-se aliviado, pois teoricamente arruinou o plano dos chantagistas, certo?


Errado!

O que Mitchell não sabe é que não se brinca com três homens perigosos como aqueles com que se envolveu. O trio de chantagistas é formado pela nata da maldade humana, todos ligados ao submundo da pornografia.

O cabeça da quadrilha é o falante e cruel Alan Raimy (o excelente John Glover, um ator que nunca recebeu a merecida atenção e aqui simplesmente rouba o filme). Raimy é diretor de filmes pornô amadores e proprietário de um cinema X-Rated.

Seus comparsas são Leo Franks (Robert Trebor), o cagão do grupo, dono da boate de strip-tease onde Cini trabalha; e Bobby Shy (Clarence Williams III), que é a verdadeira encarnação da violência e da malvadeza, um assassino frio que matou o padrasto com 13 anos e não hesita em puxar o gatilho para resolver situações simples.


Estes três monstros acreditam que terão seus 105 mil dólares e estão até promovendo festas para comemorar o negócio bem-sucedido. O legal é que, na cena da festa, podemos ver muitos astros pornôs dos anos 80, como Tom Byron, Ron Jeremy, Amber Lynn e Sharon Mitchell, divertindo-se com os vilões.

A felicidade dos dois lados logo vai acabar. Na noite combinada para o pagamento da primeira parcela da chantagem, Mitchell passa às mãos de um dos bandidos um envelope que parece estar forrado de grana, mas na verdade só tem jornal cortado e um singelo recado.

Raimy fica puto: "Eu juro que não sei onde o mundo vai parar... Você explica honestamente como as coisas vão ser, e mesmo assim tentam te passar para trás!".


 Logo, Bobby faz uma nova visita a Mitchell e o leva para um passeio. Dessa vez, o trio mostra um novo vídeo - um snuff movie.

As cenas mostram Cini sendo agarrada pelos bandidos e amarrada a uma cadeira. Em seguida, ela tem suas roupas arrancadas e uma tábua de madeira é posicionada na sua frente, sobre o peito. Para finalizar, os bandidos disparam cinco tiros na placa de madeira, direto no peito da moça, que cai morta enquanto os assassinos fazem piada: "A melhor coisa sobre Cini é que ela não apenas vive o seu papel, ela morre também!".

Em seguida, mostram a placa de madeira toda perfurada (para comprovar que não houve "efeitos especiais") e o corpo sem reação nem respiração da moça. Uma cena tétrica, ainda mais pela maneira como os bandidos tratam aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo...


Eles propõem uma nova chantagem: como a arma usada no assassinato era um revólver roubado da casa de Mitchell, com suas impressões digitais e tudo mais, o homem de negócios deverá pagar 105 mil dólares todo ano, até o fim da sua vida, pelo silêncio do grupo.

Caso contrário, eles farão com que o cadáver da moça apareça, bem como o revólver e bem como um casaco também roubado de Mitchell, propositalmente manchado de sangue pelos bandidos.

Sem saída, o executivo só vê uma chance de escapar dessa: não pagar o que os bandidos pedem, mas sim investigar e descobrir quem são aqueles bastardos, aprender mais sobre eles e suas fraquezas. Então, numa estratégia inteligente e bem pensada, Mitchell começa a jogar um contra o outro, com complicações imprevisíveis para todos os envolvidos no caso.


Concordo com o crítico de um site norte-americano, que diz que NENHUM PASSO EM FALSO nunca fez o merecido sucesso.

Claro que, comparado com outros filmaços de Frankenheimer, este não passa de um thriller comum, simplório até.

Entretanto, analisando independentemente da filmografia do cineasta, eu não hesitaria em colocá-lo entre os grandes filmes policiais dos anos 1980. Até porque ele foge do exagero e do absurdo que tornou-se marca registrada da década, principalmente quando lembramos que, no mesmo ano e pela mesma produtora, saiu "Stallone Cobra"!


NENHUM PASSO EM FALSO
tem aquele clima sério e realista do cinema policial dos anos 70, com narrativa lenta que esmiuça as características dos personagens e suas relações/motivações, uma bela trilha sonora, excelentes atores representando excelentes personagens e uma trama que prende a atenção do espectador do início ao fim, complicando cada vez mais a vida do herói – de forma que o espectador fica intrigado para saber como é que ele vai se salvar daquela enrascada.

Vale destacar que a adaptação do livro "Os Chantagistas" foi feita pelo próprio autor Elmore Leonard, em parceria com John Steppling. Seu roteiro é enxuto e sem grandes malabarismos ou absurdos, embora peque na parte final por certos exageros que devem ter sido uma imposição da produtora, a célebre Cannon Films (já chego nesse detalhe).


O mesmo livro havia sido adaptado dois anos antes, em 1984, no filme "O Embaixador", também produzido pela Cannon e com direção de J. Lee Thompson. Esse não teve a participação direta de Leonard, e os roteiristas tomaram amplas "liberdades poéticas" na trama, aproveitando apenas a idéia da chantagem e transformando-a num thriller político.

Leonard, vale lembrar, é um dos mais populares autores de livros policiais dos Estados Unidos, e entre os filmaços baseados em suas obras estão "Jackie Brown", de Quentin Tarantino (baseado no livro "Ponche de Rum") e "O Nome do Jogo", de Barry Sonnenfeld (baseado no livro "Um Golpe de Sorte").


Especialista em criar universos violentos e personagens cafajestes, Leonard escreveu, em "Os Chantagistas" e NENHUM PASSO EM FALSO, uma de suas histórias mais contidas e realistas.

É perfeitamente possível acreditar na reação de todos os personagens do filme, que agem como seres humanos reais – especialmente o protagonista Harry Mitchell. Ao contrário de um Charles Bronson, por exemplo, Mitchell não sai distribuindo tiros nos bandidos assim que descobre a identidade dos três chantagistas; pelo contrário, ele prefere deixar as mãos limpas e jogar um contra o outro.

Os erros cometidos pelos personagens também são perfeitamente verossímeis, ainda mais quando seus planos iniciais não dão certo e as consequências tornam-se cada vez mais tenebrosas. Eles não parecem os típicos herói e vilão do cinema policial tradicional.


As diferenças entre filme e livro são relativamente pequenas.

Em "Os Chantagistas", a esposa demora muito mais tempo a perdoar a traição do marido e aceitá-lo de volta, e também sofre mais nas mãos dos vilões do que na adaptação para o cinema (melhor não dar muitos detalhes para não estragar a surpresa).

No livro, também, Mitchell sofre ainda mais pressão porque há um líder sindical no seu pé, fator determinante para deixar nosso "herói" ainda mais estressado e em ponto de bala.

Mas a mudança mais marcante entre "Os Chantagistas" e NENHUM PASSO EM FALSO é a conclusão: enquanto no livro Mitchell livra-se de Raimy usando a esperteza e um artifício relativamente simples (envolvendo troca de maletas), no filme ele subitamente se transforma numa espécie de McGyver e cria todo um aparato sofisticado para controlar um veículo - uma reviravolta desnecessária que, como eu falei, deve ter sido sugestão dos produtores Golan e Globus para o filme ficar mais "explosivo". Porque, como todos sabemos, os filmes deles "explodem como dinamite"!


Talvez tentando relembrar seus bons tempos, já que andava em fase ruim (no auge do alcoolismo e sem um sucesso comercial há anos), Frankenheimer também filmou uma momento ultra-gratuito que mostra Mitchell dirigindo seu carrão em alta velocidade, mas nada tem a ver com a história (e é uma cena anos-luz aquém daquela maravilhosa perseguição automobilística em alta velocidade vista num de seus últimos filmes, "Ronin", de 1998).

Pelo menos ele demonstra que não está pra brincadeira, e não alivia o tom pesado do livro. O filme tem poucas cenas de violência, mas, quando elas aparecem, são cruéis e marcantes.


E não tem como não se impressionar com o desempenho dos atores que interpretam os malvados, principalmente John Glover, que não precisa apelar para expressões exageradas ou explosões de fúria para mostrar como é perigoso.

Outro destaque é a interpretação nervosa de Clarence Williams III: Bobby, o matador que ele encarna, é um sujeito tão frio que só seu olhar dá medo.

O terceiro bandidão, interpretado por Trebor, é o elo fraco da corrente, um covardão de quem o espectador quase sente pena, em outra atuação monstruosa. Esses caras são VILÕES de verdade, daqueles com quem você espera nunca topar numa rua escura - nem mesmo numa bem iluminada!

Já a modelo e cantora Vanity, uma das musas daquela década, aparece como uma prostituta amante do personagem de Williams III. Vanity talvez seja a única coisa bonita num filme feio, sujo e malvado – como se uma flor das mais coloridas brotasse no meio de um beco imundo e escuro, entre camisinhas usadas e cachimbos de crack descartados.


Talvez você tenha visto NENHUM PASSO EM FALSO nas prateleiras da sua locadora nos velhos tempos do VHS, mas nunca se interessou por causa da capinha feia da América Vídeo (que mostra apenas Scheider com uma arma com Ann Margret fazendo cara de múmia logo embaixo).

Afinal, a julgar pela capinha, era até de se esperar mais um filminho de ação bobo e barato feito pela Cannon.

Só que todos sabemos que não se deve julgar um livro pela capa: dê uma chance a Frankenheimer e Elmore Leonard, e prepare-se para a surpresa de ver um policial de primeira linha, digno de figurar entre outras obras-primas da década de 80, como "O Ano do Dragão", de Cimino, e "Viver e Morrer em Los Angeles", de Friedkin.

Pode até ser um filme "menor" de Frankenheimer, mas esse é o bom de ser um diretor foda: até os seus trabalhos de menor brilho são uns filmaços. Ainda mais quando comparados a muito besteirol de hoje que pretende ser "filme policial".


Trailer de NENHUM PASSO EM FALSO

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52 Pick-Up (1986, EUA)
Direção: John Frankenheimer
Elenco: Roy Scheider, Ann-Margret, Vanity,
 John Glover, Robert Trebor, Kelly Preston,
Doug McClure e Clarence Williams III.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pulp fiction de rodoviária


Devido a viagens de ônibus cada vez mais frequentes de um lado para o outro, a trabalho e a lazer, tenho dedicado mais tempo ao hábito da leitura do que a ver filmes (não acompanhei quase nada dos últimos lançamentos nos cinemas). E quando você lê muito rápido, como eu, é comum ficar sem "munição" bem no começo de uma viagem. Nesse caso, é preciso apelar para uma banca de jornais ou livraria, em busca de gibis ou livros baratinhos que durem o tempo da viagem de ônibus.

Porto Alegre, uma quinta-feira - antes de longa viagem a Curitiba. Entro numa banca em busca de literatura rápida e rasteira e, numa das paredes do estabelecimento, deparo-me com uma verdadeira volta no tempo: num singelo mostruário de plástico, estão exibidos dezenas de livrinhos de bolso (hoje é chique usar o termo em inglês, "pocket book") com aquela pulp fiction bem vagabunda, de rodoviária mesmo.

Porque se hoje o "pocket book" está na moda e você pode comprar best-sellers (inclusive do Stephen King) e clássicos da literatura (de Nietzsche a Shakespeare) em formato de bolso, numas edições caprichadas com papel de qualidade e bonito acabamento, no passado apenas historinhas bobas de faroeste, espionagem, terror e putaria saíam como pocket, tentando atingir um público popularzão mesmo.

Por isso, eram umas publicações extremamente vagabundas, em papel jornal e com impressão tosca, cheia de erros. As tramas eram simples e rápidas, com poucos personagens e muita ação (às vezes umas descrições bem gráficas de cenas de sexo também). Não tinham mais do que cento e poucas páginas, mas se você copiasse e colasse o texto em formato A4, o total não chegaria a 40 ou 50 páginas.

Enfim, a verdadeira leitura descartável: aquilo era algo que você lia em poucas horas para passar o tempo, e em questão de minutos já tinha esquecido de tudo. É muito difícil você encontrar alguém que saiba os títulos dos pocket books que já leu. Muitos inclusive jogavam os livrinhos no lixo ao invés de colecionar!

Aí lembrei que, tempos atrás, comentei com um amigo aqui de São Paulo sobre o sumiço dessa pulp fiction de rodoviária. Quem é das antigas deve lembrar com saudade das publicações da (extinta?) Editora Monterrey, que entre a década de 60 e o começo dos anos 1990 entulhava bancas, livrarias e rodoviárias com seus pockets de papel jornal a preços bem populares. Havia outras editoras, mas a Monterrey era líder de mercado no ramo.


Tinha livrinho para todos os gostos. A série "FBI", por exemplo, contava histórias policiais, "Epopéias de Guerra" narrava tramas bélicas, e havia ainda uma infinidade de selos diferentes para histórias de bangue-bangue, como "Oeste Brutal", "Feras do Oeste", "Chumbo Mortal" e até "Oeste Sensual" (dependendo da série que você escolhia, as histórias tinham mais ou menos ação e sacanagem). Eram o equivalente masculino àqueles livretos de mulherzinha tipo "Julia", "Sabrina" e "Bianca", que não eram exatamente pocket books, mas tinham a mesmíssima proposta.

A maioria das histórias da Monterrey eram escritas por um mesmo cara, que assinava com 30 pseudônimos diferentes para parecer que havia todo um rol de "autores" na folha de pagamento da editora. Por exemplo, Rubens Francisco Lucchetti, autor dos roteiros dos filmes do Zé do Caixão e do Ivan Cardoso, escreveu muitos livros de bolso, só não sei se para a Monterrey. Mas o campeão foi o paulista Ryoki Inoue, que chegava a escrever três pockets num dia, e assinou (com nomes falsos) mais de mil, façanha que lhe rendeu menção no Guinness Book of Records.

(Para saber mais sobre a trajetória do prolífico autor brasileiro de pulp fiction, confira seu site, onde inclusive é informada a sua extensa bibliografia.)


Outra série bem popular da Monterrey era a "ZZ7", que narrava as aventuras de uma espiã sensual chamada Brigitte Monfort, uma espécie de James Bond em versão feminina - inclusive usava o corpão para seduzir os inimigos, em relatos eróticos perfeitos para adolescentes entrando na puberdade.

Esses livrinhos da "ZZ7" (007, alguém?) foram um sucesso estrondoso. Eram escritos pelo espanhol Francisco Ramires sob pseudônimo em inglês ("Lou Carrigan"). Sozinho, Ramires/Carrigan criou mais de 400 aventuras de Brigitte, que saíam por aqui com capas altamente sensuais desenhadas pelo artista brasileiro Benício (o mesmo que fazia os pôsteres das pornochanchadas da época).

Para dar uma ideia do sucesso de "ZZ7" no país, os livrinhos eram originalmente publicados na "Série Vermelha", com o logotipo em cor vermelha na capa; algum tempo depois, a procura pelas aventuras antigas era tão grande que a Monterrey começou a relançar tudo em "segunda edição", mas dessa vez com o logotipo azul, no que ficou conhecido como "Série Azul". Já nos anos 90, antes que essas publicações de bolso fossem sumariamente canceladas, a editora já estava republicando tudinho pela terceira vez na "Série Verde"!!!

Na pré-adolescência, meu hábito de leitura foi formado com os saudosos livros da série Vagalume e também com essas publicações vagabundas da Monterrey, especialmente as aventuras de faroeste e de Brigitte Monfort. Cheguei a ter uns 100 pockets da editora, mas, após uma limpeza no quarto lá pelo começo do ano 2000, doei tudo para uma biblioteca. Nem era o tipo de coisa que você iria querer ler mais de uma vez, mesmo...

Tempos depois, fiquei com saudade dessa página esquecida do mercado literário nacional. Ao perceber que a pulp fiction de rodoviária havia sumido das bancas, pensei que seria interessante recomeçar uma coleção dos velhos livrinhos "ZZ7", só por nostalgia. Mas o preço absurdo cobrado pelos sebos me fez mudar de ideia rapidinho.

E é nesse ponto que voltamos à banca de jornal de Porto Alegre, com seu mostruário de pocket books vagabundos. Fazia um tempão que eu não via mais produtos do gênero, e imaginei que fosse um revival, uma tentativa de retomar aquele nicho de mercado de grande sucesso no passado.

Essas obras em questão eram publicadas pela Editora Fittipaldi e tinham uma apresentação semelhante aos velhos livrinhos da Monterrey, embora com qualidade ainda mais vagabunda. Havia no mostruário pockets com histórias policiais, de faroeste e de terror, publicadas com rótulos pomposos tipo "Pocket Suspense Diamante".

Como a promoção era estilo "um por R$ 2 e três por R$ 5", peguei logo três títulos da tal Coleção Suspense. E só no ônibus, quando tirei os livros do plástico que os envolvia, descobri, frustrado, que não são exatamente novos, mas sim publicações editadas em 1995 e 1996 (!!!), portanto há quase 20 anos, e encalhadas lá no mostruário da banca desde então (por isso que nunca vi o diacho dos pockets da Fittipaldi para vender em outros locais!).


Li os três em poucas horas, e então percebi porque eles estão sem encontrar comprador desde 1995. Primeiro porque nesse país ninguém mais lê sequer livros bons, quem dirá essas porqueiras para consumo rápido; segundo que não bastasse a péssima qualidade da apresentação, as histórias desses livrinhos da Fittipaldi são muito, mas muito abaixo da média.

Os livros seguem o "padrão Monterrey": títulos genéricos e/ou apelativos (Trama Diabólica, Terror em Sumerville e Círculo do Terror), autores brasileiros usando ridículos pseudônimos "importados" (respectivamente Gaskeel Holand, Constance Gray e Tony Carson) e capinhas "sensuais" copiando Benício, mas agora no traço de um tal Balieiro (e mais ousadas que as de antigamente, com peitos e bundas de fora, mesmo quando nem sequer há sexo na trama!).

Dos três, o único que poderia render uma boa história de horror (desde que sofrendo uma recauchutagem geral, óbvio) é Terror em Sumerville, sobre uma mansão assombrada pelos espíritos de soldados torturados e mortos na Guerra da Secessão. Engraçado é que o título é Terror em SUmerville, mas o bairro em que se passa a história chama-se "SOmerville". E a "autora" Constance Gray copia "O Iluminado" em diferentes momentos, sem a menor vergonha na cara.


Os outros dois são um engodo. Círculo do Terror é uma história erótica à qual foram adicionados toques sobrenaturais para vender como livro de horror. Percebe-se que a especialidade do autor Tony Carson é a putaria, já que ele usa páginas e mais páginas para narrar as (várias) trepadas nos seus mínimos detalhes, mas depois não sabe o que fazer quando demônios e assombrações entram em cena.

Resta, assim, o deleite punhetístico de descrições românticas como "Roy retesou o corpo e levantou os quadris, como se fosse fazer seu corpo todo penetrar pela abertura quente da mulher", ou "O homem começou a movimentar-se com mais vigor. Os golpes se sucederam com uma cadência desenfreada, até que ambos se sentiram fundir-se numa só pele, gozando a delícia do prazer".

Trama Diabólica é simplesmente ridículo, começando pelo "resumo" da história na contracapa, que não diz nada com nada, e, filosoficamente sensacionalista, lembra as chamadas nos trailers de filmes do Zé do Caixão. Confira:


Apesar de tanto lero-lero, o livro conta apenas a história (fraquíssima) de um sujeito paralisado numa cama após acidente, e a quem os parentes querem matar para ficar com sua fortuna. Sorte que ele usa insuspeitos poderes telepáticos para se comunicar com os mortos e iniciar uma vingança.

Esse é trashão total: a história é digna de redação do Ensino Fundamental, mas o autor "Gaskeel Holand" fica colocando umas citações intelectualóides para tentar (inutilmente) tornar o texto mais rico.

Como quando um personagem diz: "Se Ana Bolena (sic) não houvesse colocado chifres em Henrique VIII, este não teria mandado cortar sua cabeça. A vida de cada pessoa é como é, querido Corrie". Ou "Estou me lembrando de Macbeth e do seu banquete, quando Banquo se apresentou entre os convidados depois de ter acabado de ser assassinado".

Mas o auge da doideira é quando "Holand" narra um ritual demoníaco tomando emprestados elementos de vodu, macumba e missa negra. Animais são sacrificados e o "bruxo" invoca Erzulli, Belial e até Iemanjá, que de demoníaca não tem absolutamente nada!!!

No fim, por mais que os três livrinhos tenham me divertido na sua pobreza e ruindade, bateu o saudosismo: numa comparação grosseira, os velhos títulos publicados pela Monterrey décadas atrás estão para Shakespeare como esses "novos" da Fittipaldi estão para Paulo Coelho!

Tempos tristes esses em que os caras não conseguem fazer nem pulp fiction de rodoviária...

PS: Na próxima atualização voltamos à nossa programação normal de filmes bagaceiros!