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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

BODIGAADO KIBA (1973) e THE BODYGUARD (1976)


Hoje voltamos com mais uma exclusiva Sessão Dupla aqui no FILMES PARA DOIDOS, e trazendo um caso curioso: as versões oriental e ocidental do filme "O Guarda-Costas", estrelado por Sonny Chiba, sendo que apenas a última (e mais fraquinha) foi lançada no Brasil.

Por que "caso curioso"? Já explico: em 2006, publiquei no meu extinto Multiply (alguém ainda usa essa joça?) uma resenha mal-humorada sobre o filme, baseada num DVD pra lá de fuleiro distribuído no país pela Kives.

E, como sempre digo, vai chegar o dia em que os fãs de cinema perceberão o completo desserviço que são esses DVDs fuleiros e piratex lançados em larga escala por aqui. O argumento do "Ah, pelo menos estão lançando clássicos inéditos" não cola mais como desculpa para justificar produto porco nesses tempos de download.


Acontece que o disquinho da Kives tem imagem em fullscreen e com qualidade de VHS, tão ruim, mas tão ruim, que torna-se praticamente impossível entender qualquer coisa que acontece nas cenas de luta. E foi nessa edição lamentável que embasei minha resenha de então.

Só recentemente arranjei uma cópia de qualidade para rever, e parecia que estava assistindo um outro filme (como aconteceu com o western "Sete Dólares para Matar", cujo DVD nacional também é um lixo).

Só para terem uma idéia da "qualidade" do tal DVD nacional, e de quanta informação se perde pelo fato do filme estar em tela cheia, comparem as imagens abaixo (a primeira, em fullscreen e cores lavadas pela ripagem de VHS, é do disco da Kives; a segunda, em widescreen e super-nítida, é do DVD importado).


Lá em 2006, quando escrevi sobre o filme, eu ainda nem sabia que "The Bodyguard" era a versão ocidental do filme japonês "Bodigaado Kiba" (1973), devidamente cortada e "adaptada" para o mercado norte-americano, onde estreou em 1976. Curiosamente, até hoje nem o IMDB sabe disso (os filmes não estão linkados na opção Movie Connections).

Com ambos os filmes em mãos, pude finalmente assistir e comparar as diferenças entre eles, conforme você vai acompanhar a partir de agora:


BODIGAADO KIBA (1973)


Sonny Chiba é uma lenda viva do cinema oriental de pancadaria. Fez mais de 120 filmes, estrelou grandes sucessos de bilheteria e hoje é um ídolo cult, embora sua participação no cinema, dos anos 90 para cá, tenha se relegado a pequenas participações em filmes como "Battle Royale 2".

Um de seus fãs, o cineasta Quentin Tarantino, fez questão de prestar homenagem a Chiba mais de uma vez: em "Amor à Queima-Roupa" (roteiro dele dirigido por Tony Scott), o personagem principal assiste uma sessão tripla da franquia "The Street Fighter" (grande sucesso do ator) no cinema; mais tarde, incluiu o próprio Chiba no papel de Hattori Hanzo em "Kill Bill - Volume 1" - sendo que o ator já havia feito um personagem com este nome num seriado de TV dos anos 80.

Uma das características de Chiba é que seus heróis sempre foram mais brutais e menos simpáticos, daquele tipo que mata com os punhos e sem pensar duas vezes; em alguns filmes, ele exibe um olhar mais mal-encarado do que o dos próprios vilões, e talvez por esse motivo Chiba acabou interpretando vários papéis de vilão no cinema.


BODIGAADO KIBA é de 1973, portanto veio antes da famosa série "The Street Fighter" e também de outros sucessos do ator (como "The Executioner"). Dirigido por Tatsuichi Takamori e escrito por Ryuzo Nakanishi, o filme começa com um bandidão sendo executado, junto com a família e os guarda-costas, ao sair de uma igreja. Os responsáveis são perigosos assassinos da Máfia.

Corta para o mestre de artes marciais Naoto Kiba (Chiba) dando uma demonstração de seus poderes mortais ao impedir o sequestro de um avião por terroristas. Kiba é tão foda que enfrenta homens armados com revólveres e consegue matá-los com as próprias mãos. Um deles chega a cuspir os dentes da frente, ainda presos pelas gengivas!!! Os créditos iniciais do filme se desenrolam durante a pancadaria.


De volta ao Japão, o herói é recebido com honras e entrevistado por diferentes emissoras de TV, quando revela que seu "ato de heroísmo" na verdade foi a forma que encontrou para fazer auto-divulgação. Em rede nacional, Kiba afirma que é a segunda única pessoa do mundo a dominar uma técnica mortífera de karatê chamada "Tesshinkai", e que está alugando seus punhos como guarda-costas. (A outra pessoa que domina a técnica é o velho mestre do herói, Daito Tetsugen, famoso por ter matado um touro furioso com as próprias mãos!)

Numa cena ótima, nosso herói dá uma demonstração do seu dom ao arrancar o gargalo de uma garrafa de Coca-Cola com um único golpe de mão aberta!!!


À noite, enquanto conversa com a irmã Maki e se lembra do treinamento com o mestre Tetsugen, Kiba é procurado por uma garota muito suspeita que o contrata como guarda-costas, alegando que está sendo perseguida por mafiosos. Mesmo sem saber nada sobre ela, o herói aceita o trabalho.

Depois que Maki é agredida e quase morta pelos mesmos assassinos da Máfia da cena inicial Kiba passa o restante do filme acompanhando sua cliente para cima e para baixo, até descobrir que entrou numa furada: a garota era amante do bandidão executado na cena inicial, e também a única pessoa que sabe onde está uma carga milionária em heroína que é cobiçada por um montão de personagens.


A partir de então, BODIGAADO KIBA começa a ficar mais complicado do que o necessário. As poucas cenas de ação são separadas por longos momentos de conversa fiada em que são apresentados os outros personagens, basicamente quadrilhas rivais de bandidos que também cobiçam a fortuna em entorpecentes.

Em determinado momento, os criminosos começam a matar uns aos outros, e Kiba, pego no meio do fogo cruzado, precisa revidar, usando os punhos para dar cabo dos vilões que continuam vivos.

Quem espera ver lutas mirabolantes vai se decepcionar, pois, além das cenas de ação serem poucas, o herói interpretado por Chiba mata todos os seus oponentes de primeira usando seus golpes mortais, com requintes de crueldade que vão de olhos perfurados com os dedos a braços torcidos até a inevitável fratura exposta.


Mas o confronto final de Kiba com os bandidos sobreviventes à beira do mar é bem-filmado e bastante climático, graças à música de Toshiaki Tsushima (que muitas vezes lembra uma trilha de western spaghetti) e aos absurdos malabarismos do protagonista, que desvia machadinhas e facas com os pés e parte um rifle ao meio com uma única voadora!

É preciso relevar o exagero das cenas de ação e o estrago provocado pelos golpes de Chiba, algo que não é exclusividade desse filme aqui: em várias produções posteriores, as mãos do herói são tão poderosas que seus socos são capazes de arrancar os olhos do oponente das órbitas ("Return of the Street Fighter") e até costelas ("The Executioner")! Ou seja, Sonny Chiba desarmado é mais perigoso que um tiro de bazuca, e no filme a moça que ele protege chega a comentar: "Como é que mãos tão bonitas podem ser armas letais?".


Apesar de não ter achado BODIGAADO KIBA um grande filme, há algumas coisas bem interessantes: Chiba aparece com sua tradicional expressão de mal-encarado, quase como um anti-herói (é hilária a cena em que ele usa o braço decepado de um dos vilões como arma, jogando-o contra outro comparsa!).

E há algumas boas idéias perdidas num roteiro chinfrim, como um cadáver sendo usado para camuflar as drogas (detalhe copiado em dezenas de outros filmes, inclusive o recente "Os Bad Boys 2"). Também é ótima a cena em que assassinos da Máfia se escondem no interior de um sofá para tentar pegar sua vítima de surpresa - é bem legal ver adagas brotando do interior do sofá e depois os sujeitos saindo dali de dentro!


Pena que Sonny Chiba apareça muito pouco em ação e que o roteiro prefira ficar enrolando com uma trama policial fraquinha. BODIGAADO KIBA pode até não ser um dos melhores filmes do astro, mas esta versão oriental é bem melhor que o "corte norte-americano", sobre o qual falaremos agora...


THE BODYGUARD (1976)


Três anos depois de "Bodigaado Kiba", o famoso produtor norte-americano Terry Levene resolveu aproveitar o sucesso que os filmes de artes marciais estavam fazendo nos Estados Unidos: adquiriu os direitos sobre a obra de Tatsuichi Takamori e preparou a famigerada "U.S version", rebatizada THE BODYGUARD, ou "O Guarda-Costas", como foi lançada no Brasil.

Pode parecer estranho hoje, mas o picareta Levene era famoso por picotar as versões originais de filmes estrangeiros para poder lançá-las nos Estados Unidos. Lançou, por exemplo, o terror italiano "Zombie Holocaust", de Marino Girolami, com o título "Dr. Butcher M.D.", e uma sequência de abertura totalmente diferente, editada a partir de cenas de arquivo de um outro projeto que não deu certo!


Enfim, nosso nobre Levene colocou suas mãos em "Bodigaado Kiba" e resolveu, inicialmente, cortar o excesso de diálogos; depois, a última cena (!!!); e, para completar, todas as referências ao fato do personagem de Chiba ser mestre de uma técnica desconhecida de karatê. Aliás, Chiba, em THE BODYGUARD, não interpreta Naoto Kiba, mas sim ele mesmo, Sonny Chiba!!! No total, foram eliminados cinco minutos de cenas do filme japonês.

Talvez achando que o filme não estava "americanizado" o suficiente, o produtor chamou um diretor de araque chamado Simon Nuchtern para filmar algumas cenas adicionais em Nova York (???), mostrando prédios, ruas e transeuntes que, desavisados do que acontecia, ficam o tempo todo olhando para a câmera ou correndo para fora do quadro.


Nuchtern também filmou uma cena gratuitíssima numa escola de artes marciais, onde vemos uma demonstração fuleira dos talentos de dois campeões americanos de karatê, Aaron Banks e Bill Louie, interpretando eles mesmos. Para justificar tal imbecilidade, um deles fala "Vou mostrar como Sonny Chiba faz", antes de dar umas porradas nuns figurantes de quimono!!!

Só depois da "demonstração" dos convidados especiais (que deviam ser super-famosos na época do lançamento do filme, mas hoje ninguém mais lembra quem são) é que entram as cenas de "Bodigaado Kiba" reeditadas por Victor Zimet.


Ah, quase esqueci: THE BODYGUARD começa com outra loucura inventada por Levene: uma passagem bíblica romanceada de "Ezequiel 25:17" que depois seria inteiramente chupada por Tarantino em "Pulp Fiction" (é a citação recitada pelo personagem de Samuel L. Jackson). Só que, ao invés de "...and you will know my name is the Lord", o letreiro do filme diz: "...and they shall know that I am Chiba, The Bodyguard"!!! Bizarro...

(Vale destacar que esse texto, reaproveitado por Tarantino, não existe na Bíblia. Se vocês procurarem Ezequiel 25:17 nas escrituras, encontrarão apenas esse trechinho: "E executarei sobre eles grandes vinganças, com furiosos castigos, e saberão que eu sou o SENHOR, quando eu tiver exercido a minha vingança sobre eles")


Como esta versão norte-americana eliminou todas as referências ao "Tesshinkai" e ao mestre do personagem de Chiba, as cenas de treinamento que eram mostradas em flashback em "Bodigaado Kiba" aqui foram reutilizadas para os créditos iniciais.

A trama continua com o sequestro do avião, mas os diálogos dublados em inglês mudaram um pouco a situação: não é mais um grupo terrorista qualquer, mas sim traficantes em busca do próprio Sonny Chiba, que resolve a situação do seu jeito.

Em seguida, na entrevista coletiva (a edição norte-americana reduziu bastante esta cena), ao invés de falar sobre o "Tesshinkai", Chiba explica que pretende exterminar todos os traficantes de drogas do Japão (!!!), e para isso oferecerá seus serviços a qualquer um que esteja sendo ameaçado por eles. Quando ele arrebenta o gargalo da garrafa de Coca-Cola com um único golpe, por exemplo, diz: "É isso que vou fazer com os traficantes"!!!


A partir de então, a história continua idêntica a "Bodigaado Kiba", apenas com uma dublagem atroz em inglês e alguns cortes pouco importantes em cenas de diálogos. As pancadarias e tiroteios, porém, permanecem intactos.

Uma outra mudança importante de THE BODYGUARD em relação ao original é que Levene cortou a cena final: o filme termina logo que acaba o duelo de Chiba com os vilões na praia. Na versão japonesa, havia ainda algumas cenas alternativas mostrando uma nova coletiva de imprensa do herói, em que ele explicava que continuaria levando sua técnica mortal de karatê para o resto do mundo. A personagem da irmã do protagonista também reaparecia rapidamente, o que não acontece na "U.S. Version" (fotos abaixo).


(Só para constar, THE BODYGUARD termina com 1h28min e sem créditos finais, nem mesmo um "The End". O filme original tem 1h27min. Ou seja: Levene e sua turma cortaram 5 minutos do original, mas adicionaram 6 minutos de encheção de linguiça no lugar! Dá pra entender?)

Mesmo que as diferenças entre as duas versões sejam relativamente pequenas, continuo preferindo a original japonesa. Não consigo engolir aquela cena estúpida com Aaron Banks e Bill Louie em THE BODYGUARD, muito menos as bisonhas cenas em que a câmera apenas passeia pelas ruas de Nova York. Não gosto da dublagem em inglês e muito menos da desculpa fuleira encontrada para colocar Sonny Chiba lutando "contra o tráfico de drogas".

Mas, na essência, "Bodigaado Kiba" e THE BODYGUARD são o mesmo filme. Sonny Chiba fez coisas bem melhores depois, mas para quem tiver curiosidade de conhecer este, sugiro começar pela versão original japonesa. A única coisa legal da edição norte-americana é a falsa citação bíblica na introdução.



E fica a mesma recomendação que fiz no Multiply em 2006: fique longe do DVD nacional, pois o enquadramento que corta os lados das cenas, mais a imagem horrível de VHS, não permitem que se entenda nada do que está acontecendo nas cenas de luta!

Ah, como última curiosidade, compare essas duas imagens, retiradas respectivamente de "Bodigaado Kiba" e "The Bodyguard": aquela velha história de que os japas trocam o "R" pelo "L" é verdadeira, como revela o "Salbadole Locco" na manchete do jornal na versão japonesa!!!


PS 1: As fichas de ambos os filmes no IMDB são uma bagunça e mais confundem do que esclarecem. Na de "Bodigaado Kiba", são creditados apenas quatro atores sem identificar o nome do personagem que interpretam, e não há nenhum link para "The Bodyguard" em Movie Connections. Na ficha da versão norte-americana, além de Simon Nuchtern, outro diretor e roteirista japoneses são creditados (respectivamente Ryuichi Takamori e Ikki Kajiwara), mas eles não têm absolutamente nada a ver com o filme (enquanto os responsáveis pelo original sequer são mencionados); já os atores Sue Shihomi e Jiro Chiba, que segundo o site estão no elenco, nunca dão as caras, em nenhuma das versões do filme. O IMDB também inventou que o "título original" (hein?) da versão ianque é "Karate Kiba"! E, como confusão pouca é bobagem, o site informa que existe uma continuação (???) do filme japonês chamada "Bodigaado Kiba: Hissatsu Sankaku Tobi", feita no mesmo ano de 1973 e com o mesmo elenco e equipe técnica. Aparentemente, é apenas um cadastro repetido do próprio filme original...

PS 2: Alguém sabe se o "Bodigaado Kiba" que Takashi Miike dirigiu em 1993 tem alguma coisa a ver com o filme de Sonny Chiba?

Trailer de O GUARDA-COSTAS



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Bodigaado Kiba (1973, Japão)
Direção: Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Yayoi Watanabe e Hideo Murota.

The Bodyguard (1976, EUA/Japão)

Direção: Simon Nuchtern e Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Aaron Banks e Bill Louie.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PAULA-PAULA (2010)


Já fazia algum tempo que eu estava devendo um texto sobre uma obra de Jess Franco, o mítico cineasta espanhol que já dirigiu mais de 200 filmes (o IMDB registra "apenas" 192, mas o próprio Franco jura que foram 209 até o momento em que publico este texto). Nada mais justo, portanto, do que introduzir (ui!) Jess Franco no FILMES PARA DOIDOS com seu filme mais recente, o esquisitíssimo PAULA-PAULA.

Quem conhece um mínimo sobre a carreira do cineasta sabe que ele adorava produzir filmes baratos e rápidos, chegando a fazer 10 num único ano (!!!). Em alguns deles, filmava meia dúzia de cenas para ter uma "historinha" e depois deixava atores e atrizes pelados ou transando no restante do tempo.

PAULA-PAULA é apresentado com o subtítulo "Una experiencia audiovisual de Jess Franco", o que significa que o octagenário cineasta resolveu esquecer as convenções narrativas e partiu para a "experimentação" pura e simples. Portanto, não espere uma história com começo, meio e fim (embora muitos trabalhos de Franco no passado também fugissem a essa regrinha).


O filme começa com Paula (a bela Carmen Montes), uma stripper espanhola, sendo interrogada por uma veterana policial interpretada por Lina Romay, esposa e musa do diretor. A garota conta que assassinou uma colega do night club em que trabalhava, e que também se chamava Paula, mas a polícia não dá muita bola para ela, tratando-a como louca (o que, aparentemente, ela é).

Essa é uma das únicas cenas com diálogos, e dura uns três minutos na introdução. A partir daí, PAULA-PAULA se transforma num imenso videoclipe que se divide entre trechos da garota dançando nua intercalados com imagens lisérgicas da outra Paula ("interpretada" por Paula Davis), aquela que supostamente foi assassinada, vestida com trajes de dança-do-ventre e rebolando em câmera lenta diante de um painel de papel-alumínio.


A montagem fica pulando de uma Paula para outra, em cenas cada vez mais surreais, até que finalmente ambas se encontram e começa uma longa (literalmente) transa lésbica em super-câmera lenta, sem pressa, com incontáveis beijos antes de as duas partirem para o rala-e-rola. Só esse "momento romântico" ocupa meia hora (!!!) da "narrativa".

Finalmente, no que parece ser a "conclusão" da trama, uma das Paulas mata a outra degolada, e um letreiro anuncia: "E nunca mais se ouviu falar de um show de Paula-Paula". The end.


Qualquer pessoa que por ventura queira assistir PAULA-PAULA como um filme convencional vai quebrar a cara. Eu já tinha sido alertado sobre isso antes de colocar o DVD para rodar e já esperava a doideira que vinha pela frente, senão provavelmente ficaria muito puto. O próprio Jess aparece na introdução dizendo que este é "um dos dois ou três filmes mais estranhos" que ele fez na vida.

E é claro que não dá para esperar muito do 209º filme (!!!) de um cineasta de 80 anos cuja carreira foi justamente marcada pelo improviso e muitas vezes pela picaretagem. Se com 103 anos de idade o respeitado diretor português Manoel de Oliveira continua filmando, e fazendo filmes cada vez mais chatos, por que Franco não pode?


PAULA-PAULA tem apenas 66 minutos de duração, tempo mais do que suficiente para Jess aprontar das suas maluquices. Embora os créditos iniciais tragam a informação de que o "roteiro" é baseado em "O Médico e o Monstro", não há nada sequer parecido com o livro de Robert Louis Stevenson. A não ser que algum cinéfilo com muita boa vontade encare a relação entre as duas Paulas como uma metáfora para o "Jekyll e Hyde" que todos temos dentro de nós.

(Eu, particularmente, só vi duas gostosas peladas rebolando e se comendo, mas fiquem livres para viajar como quiserem na "história".)

Menos um filme e mais uma espécie de "vídeo-arte erótica", PAULA-PAULA parece ter sido filmado em algumas horas e no interior do apartamento do próprio diretor (estantes com livros e caixas empilhadas aparecem no fundo de algumas cenas, bem como o tripé e a iluminação, comprovando que Franco não estava muito preocupado com "burocracias técnicas"). Deve ter custado uma mixaria, foi gravado em vídeo digital e editado às pressas.


O filme todo parece ser uma desculpa do diretor para usar uma fantástica trilha inédita de jazz do pianista austríaco Friedrich Gulda. Ele compôs a música de um dos antigos trabalhos de Franco (o fantástico "Necronomicon", de 1968), e os dois continuaram amigos até a morte do músico, em janeiro de 2000. Foi um filho de Gulda que entregou a Franco o disco com a música original e ainda não-utilizada do pai, que toca durante os 66 minutos de PAULA-PAULA.

E assim, como um enorme videoclipe, as cenas se arrastam ao som da belíssima música de Gulda. Como aparentemente não tem material suficiente, Franco usa e abusa de câmera lentíssima para que as imagens "caibam" na trilha. Também se dá ao direito de brincar com os efeitos da edição por computador, adicionando, por exemplo, a imagem duplicada de espelho nas cenas em que a Paula loira dança.


Esse tipo de doideira, somada à música doidona e à ausência de narrativa, personagens ou diálogos, fazem de PAULA-PAULA uma autêntica viagem audiovisual, que poderia muito bem ser exibida em exposições de arte moderna ou bares de jazz. Mas também é um negócio perfeito para ver em casa chapado: apenas escolha seu entorpecente preferido e prepare-se para a loucura.

Confesso que em alguns momentos eu prestei mais atenção na trilha sonora do que nas imagens. Até porque, lá pelas tantas, estas começam a ficar repetitivas ou enfadonhas (principalmente os intermináveis beijos entre as duas Paulas na sua transa de meia hora em câmera lenta). Mas as mulheres são belas e valem o espetáculo.


O show é todo de Carmen Montes (acima), uma bela espanholinha que aparece completamente pelada desde os primeiros minutos do filme. Ela deve ser a nova musa do cineasta, já que tem sete filmes no currículo e seis dele são dirigidos por Franco, numa parceria que começou com "Killer Barbys vs. Dracula", em 2005.


A outra Paula, a loira Paula Davis (acima; esse é seu primeiro e único filme), chama a atenção por fugir daqueles padrões de beleza da mídia e do marketing: é mais cheinha, não exatamente gordinha, mas peituda, coxuda e bunduda. Ela dança vestida a maior parte do tempo, mas no final finalmente fica peladona para o rala-e-rola lésbico com Carmen, quando o espectador pode apreciar melhor seus "dotes".

Já Lina Romay não tem muito tempo para fazer coisa alguma e aparece mais como participação especial, ao lado do jovem produtor Alberto Sedano. Juntos, os três (Franco, Lina e Sedano) são responsáveis por toda a parte técnica do filme (câmera, edição, maquiagem, iluminação e até "efeitos especiais"), comprovando que ele deve ter sido gravado num único dia, no improviso e a preço de banana.


PAULA-PAULA me deixou curioso sobre os futuros trabalhos de Jess Franco. Se antes ele já fazia dez filmes por ano, imagine o que poderá aprontar agora, com as facilidades do vídeo digital e da edição por computador?

Esse filme até dá uma idéia das possibilidades da tecnologia nas mãos do diretor, pois tem uma equipe técnica mínima (com apenas 6 pessoas envolvidas!) e no máximo 20 minutos de cenas repetidas ou esticadas pela câmera lenta para fechar o tempo de um longa. Safado como é, Franco poderia fazer uns 20 trabalhos parecidos por mês, até que os produtores fiquem de saco cheio e implorem para que ele tente dirigir outra coisa!

Obviamente, PAULA-PAULA não é para todos os públicos. É preciso comprar a proposta antes de encarar a viagem, caso contrário você dificilmente passará dos cinco minutos iniciais. Mas, sabendo que é um grande clipão com duas gatas peladas dançando ao som de jazz, relaxe no sofá com sua bebida alcoólica preferida ou baseadinho, e relaxe com a "experiência audiovisual de Jess Franco".


Até porque o filme é muito mais prazeroso que qualquer vídeo-arte ou vídeo-instalação. Afinal, não foi feito para ganhar prêmios em festivais de filmes-cabeça, nem para discutir o sentido da vida, e sim para puro e simples consumo pornográfico.

Doideira por doideira, também é muito mais apreciável em seu erotismo sem frescura e menos chato do que os últimos filmes do David Lynch.

Continue pelando a mulherada, Jess!

PS: Para quem procura uma leitura mais "filosófica" e "metafórica" de PAULA-PAULA, deixo essa resenha em português como sugestão. Confesso que a interpretação feita tem certa lógica, mas, como já disse, tudo que eu vi foram duas gatinhas peladas dançando, e isso já me bastou (não fiquei procurando muito sentido na putaria)!

Trailer (?) de PAULA-PAULA


Trailer provided by Video Detective


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Paula-Paula (2000, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Carmen Montes, Paula Davis e Lina Romay.

domingo, 7 de agosto de 2011

Os filmes que eu vi no Fantaspoa

A SERBIAN FILM (Srpski Film, 2010, Sérvia. Dir: Srdjan Spasojevic)
Esse originalmente estava na minha lista de boicote, mas resolvi conferir no Fantaspoa só para sacar de perto qual seria a reação do público ao tão anunciado "filme mais chocante dos últimos tempos". Claro, isso foi antes da palhaçada da censura à película no Rio de Janeiro. O irônico é que todo esse marketing em cima do "choque" não poderia ser menos apropriado: os espectadores que se preparavam para sair chocados e revoltados da sessão em Porto Alegre (eu inclusive) acabaram rindo o tempo todo, de forma que o título poderia ser modificado para "A Serbian Comedy". Vá lá que a cópia exibida no Fantaspoa era cortada em alguns minutos, mas mesmo as supostas cenas "mais fortes" não trazem nada de tão abominável (os "momentos snuff" do "Emanuelle in America", que Joe D'Amato fez mais de 30 anos antes, continuam muito mais fortes que essa tralha sérvia inteira). Além disso, vamos combinar que momentos dignos das obras da Troma, como o sujeito que é morto com um caralho enfiado no olho, não ajudam nada. Pelo menos, "A Serbian Film" revelou-se bem mais divertido do que eu imaginava. Confesso que esperava algo mais grosseiro e gratuito, estilo "Irreversível" ou aquelas sangreiras da série "Guinnea Pig". Mas o trabalho do estreante Spasojevic surpreende porque ele tenta contar uma historinha razoavelmente interessante que justifique a barbárie no ato final. Eu até achei a trama muito melhor ANTES que toda a brutalidade finalmente entrasse em cena. Porque, quando o sangue começa a rolar, a opção do diretor em querer ser fodão e "super-chocante" acaba levando a cenas absurdamente apelativas, idiotas até, como o tal "newborn porn". Só não vá na onda de certos críticos e nem acredite muito nas entrevistas do diretor sobre como "A Serbian Film" é uma história sobre a situação atual da Sérvia. Na verdade, este é mais um caso de muito barulho por nada, de cachorrinho que late demais mas não morde. E muito parecido com o filme norte-americano "8mm", de Joel Schumacher - inclusive a figura do cineasta maluco de "A Serbian Film" é uma cópia xerox do personagem interpretado por Peter Stormare no filme ianque. Se você está com medo do filme sérvio por tudo que leu por aí, não se preocupe que há muito de exagero e pouco de verdade nos relatos. Para quem já viu pérolas como "Cannibal Holocaust" e "Antropophagous" (que também tem violência contra fetos, mas de forma muito mais convincente), o tal "filme mais chocante dos últimos tempos" parecerá quase inofensivo. Cômico, até, em seus exageros e absurdos. Mas, definitivamente, não é para todos os públicos.


VERMELHO, BRANCO E AZUL (Red White & Blue, 2010, Inglaterra. Dir: Simon Rumley)
Curto e grosso: eu não gostei de "Vermelho, Branco e Azul". Mas vou humildemente pedir aos leitores que relevem minha opinião e assistam o filme por sua conta e risco. Afinal, eu sou a única pessoa que conheço que NÃO gostou de "Vermelho, Branco e Azul": o filme não só foi elogiado com louvor por todos que estavam na mesma sessão que eu em Porto Alegre, como ainda foi eleito Melhor Filme do Fantaspoa 2011! A obra tem dois atos bem distintos: (SPOILERS) o primeiro é um drama pesado sobre uma garota promíscua que se relaciona sexualmente com vários homens, na verdade contaminando-os com o vírus da Aids sem que eles saibam; o segundo mostra um psicopata, obcecado pela tal garota, "castigando" brutalmente as pessoas que julga responsáveis pela sua morte (FIM DOS SPOILERS). Cada ato dura cerca de uma hora, e o último é basicamente uma sequência de tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte de pessoas, sem nenhuma reviravolta ou surpresa no processo. Me lembrou um filme exibido no Fantaspoa do ano passado, "O Cavaleiro" (lançado em DVD no Brasil como "Vingança Animal"), que também não foge muito disso. E confesso que não me agrada esse tipo de história que não chega a lugar algum, apenas vai de uma tortura-morte para a outra. Ora, até o mais básico dos "Jogos Mortais" tem uma historinha por trás. Não é o caso aqui: você logo percebe que o sujeito vai pegar, torturar e matar cada uma das pessoas que está perseguindo, e nenhuma delas vai tentar escapar ou reagir para pelo menos criar alguma situação de tensão ou conflito; e como nem ao menos há a polícia ou algum outro antagonista atrás do sujeito, o restante do filme se resume ao tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte... Para piorar, é impossível simpatizar com qualquer um dos personagens! Vá lá, há algumas boas qualidades no conjunto, como a relação de um roqueiro rebelde com sua mãe que sofre de câncer, e a interpretação do irreconhecível Noah Taylor (que geralmente faz papel de bonzinho, e aqui está assustador como psicopata). Mas, como já falei, particularmente EU não engulo esse tipo de narrativa. E se todo mundo ficou extasiado menos eu, então provavelmente o errado da história sou eu, e é por isso que recomendo que todos confiram "Vermelho, Branco e Azul" para julgar por conta própria. Só sei que, além de ter achado o filme em si bem fraquinho, fiquei ainda mais puto acompanhando os comentários do diretor Simon Rumley ao final, quando ele tentou convencer o público de que seu filme era uma "alegoria sobre a situação sóciopolítica dos Estados Unidos hoje". Aham, tá bom...


O MASSACRE DE REYKJAVIK (Reykjavik Whale Watching Massacre, 2009, Islândia. Dir: Júlíus Kemp)
Uma decepção. O título original, o pôster, a sequência de abertura nua e crua mostrando a pesca e matança de uma baleia (cena real?) e a presença do ator Gunnar Hansen (o Leatherface original) fazem pensar que estamos diante de um terrorzão sério, estilo "O Massacre da Serra Elétrica". Tem até uma família de psicopatas (provavelmente canibais) que vivem não no interior do Texas, mas num velho barco de pesca de baleias, e uma garota aprisionada e submetida a vários horrores para gritar o tempo todo, como Marilyn Burns no filme de Tobe Hooper. Infelizmente, se a ideia era homenagear ou emular o clima daquele clássico, "O Massacre de Reykjavik" erra feio. Até porque logo se entrega a um inesperado senso de humor, com mortes e diálogos engraçadinhos, personagens toscos e vilões patéticos. Uma qualidade do filme é não render-se ao tradicional clichê dos "adolescentes em férias", preferindo apresentar um elenco adulto e formado por estrangeiros de diferentes nacionalidades. Mas as piadas não funcionam - com exceção do herói que se confessa gay no "clímax romântico" com a mocinha -, o suspense e a tensão logo dão lugar a intermináveis correrias pelo navio, e os personagens são tão idiotas que acabamos torcendo para que todos morram de uma vez, tanto heróis quanto vilões. Gunnar Hansen tem uma participação minúscula e sai de cena sem muito brilho, e o roteiro é uma verdadeira bagunça, espalhando núcleos de pessoas para lá e para cá sem muito critério. O filme até tem sangue e violência, mas as cenas não são memoráveis e já foram vistas antes e melhor. Não falta nem o negro morto acidentalmente como se fosse vilão, à la "A Noite dos Mortos-vivos". Muitos talvez encontrem diversão nessa balbúrdia, mas é uma pena que o filme nunca se decida entre tensão ou humor negro, e nem tente contar uma história minimamente diferente (e mais séria). Como curiosidade, ele foi inicialmente marketeado como "Iceland's first thriller", mas após sua estreia nos cinemas os realizadores mudaram a tagline para "Should only be seen if you have a sense of humor"!!!


AURORA (Dawning, 2009, EUA. Dir: Gregg Holtgrewe)
Uma família passa uma noite de horror numa casa de campo quando um desconhecido aparece dizendo que há algo monstruoso "lá fora", na floresta. OK, o ponto de partida é interessante, embora nada original. O problema é que a tal família descrita no argumento é uma família disfuncional, detalhe que parece apenas uma desculpa do diretor-roteirista-produtor Gregg Holtgrewe para esticar o que podia ser um curta-metragem interessante durante insuportáveis 82 minutos. É isso mesmo, amiguinhos: embora o argumento, do jeito que se apresenta, não sobreviva a mais que 20 minutos, Holtgrewe faz o possível e o impossível para acabar com um longa nas mãos, e isso inclui intermináveis discussões da tal família disfuncional, cujos filhos ficam toda hora se pegando com os pais e vice-versa. Parece até que você está assistindo aqueles programas barraqueiros de TV, tipo "Casos de Família", ao mesmo tempo em que fica zapeando para algum filme de terror classe B em outro canal, pois as duas ideias parecem nunca funcionar juntas. E o interesse por qualquer coisa que possa acontecer aos personagens se esvai depois da décima briga e/ou discussão entre eles, quando você fica esperando desesperadamente que a tal "coisa" existente na floresta entre logo naquela maldita casa e mate todo mundo de um vez. O pior é que a trama até começa bem, apresentando a ideia de uma ameaça desconhecida (sobrenatural ou "humana"?) quando o cachorro da família some e depois reaparece mortalmente ferido. Aí você fica esperando que algo interessante aconteça a qualquer momento, mas a situação não se sustenta, a tensão é inexistente e a sensação de que o diretor está embromando de propósito e fazendo um curta esticado logo fica evidente. E é tão chato, mas tão chato, que um crítico gringo fez um trocadilho com o título original, mudando-o para "Yawning" (Bocejo). Uma boa opção para quem sofre de insônia, portanto!


LUNÓPOLIS (Lunopolis, 2009, EUA. Dir: Matthew Avant)
Até a metade de "Lunópolis", eu imaginei que estava diante do "8th Wonderland" do Fantaspoa 2011: com o já saturado formato de "falso documentário", o filme de estreia do norte-americano Matthew Avant narra uma intrincada, porém muito inteligente história que envolve viagens no tempo, teorias da conspiração, universos paralelos e até a existência de uma civilização avançada que vive na Lua e controla o destino da humanidade. Porém (e sempre tem um porém), a trama que começa intrigante e interessantíssima de repente "trava". É como se alguém desse "pause" na narrativa para que um montão de estudiosos e cientistas (atores, obviamente) entre em cena para teorizar sobre viagens no tempo e a criação de universos paralelos, tentando dar algum "embasamento científico" para a história que está sendo contada. Só que é um autêntico tiro no pé: os sujeitos falam, falam e falam sem parar para explicar o que, na essência, qualquer pessoa que viu a série "De Volta para o Futuro" já sabe! Talvez o objetivo dos realizadores seja fazer com que espectadores desavisados acreditem que tudo aquilo possa ser real; afinal, isso é um "mockumentary" (será que alguém ainda cai nessa?). Mas podiam ter feito a mesma coisa de outra maneira. Até porque, depois da chatíssima aula de física, o filme segue ladeira abaixo, com soluções fáceis e explicações idiotas (uma pedra mágica da Lua?) quase estragando o que começou tão bem. A sequência final, que remete de volta ao início (e também explica a primeira cena), é ótima, mas até chegar ali o estrago já foi feito. "Lunópolis" não é exatamente ruim, mas exige muita paciência e também que o espectador "embarque" no conceito, o que não é tão simples. Porém é preciso dar algum crédito a Avant, pois o sujeito fez absolutamente tudo na obra: dirigiu, escreveu, produziu, estrelou, editou e ainda assinou som, design de produção e direção de arte (!!!). Ainda assim, o filme se parece muito com um episódio de "Arquivo X" esticado.


O SANATÓRIO (El Sanatorio, 2010, Costa Rica. Dir: Miguel Alejandro Gomez)
Mais um falso documentário estilo "A Bruxa de Blair" e "Atividade Paranormal"? Aham. E foi um dos quatro ou cinco filmes nesse estilo exibidos no Fantaspoa, comprovando que os cineastas desse mundo andam precisando desesperadamente de novas ideias. Menos mal que "O Sanatório" tem pelo menos dois grandes motivos para ser descoberto: primeiro, é uma rara produção do gênero vinda da Costa Rica (!!!); segundo, é um daqueles raros filmes de horror que são mais divertidos e interessantes pelos momentos que ANTECEDEM os fenômenos sobrenaturais! Contada através de entrevistas feitas pelos protagonistas e cenas supostamente "reais" gravadas com câmera na mão, a história mostra jovens jornalistas e estudantes de cinema realizando um documentário sobre um sanatório com fama de assombrado. O horror e os fantasmas só aparecem nos 20 minutos finais; antes, no que considero a melhor parte do filme, acompanhamos o relacionamento entre os personagens, que vivem brigando e brincando entre si. O diretor-roteirista Gomez se esforça para transformá-los em personagens verossímeis, em momentos como o dos amigos jogando videogame (e discutindo, lógico), ou o rapaz tímido que convida a bonitona por quem é apaixonado para fazer parte da equipe, e depois vive levando foras diante da câmera. Esses momentos e detalhes são muito mais interessantes que os fantasmas propriamente ditos. Também são bem engraçados os depoimentos de pessoas que testemunharam os horrores do sanatório (a cena em que um jornalista fala, com os olhos arregalados, que "se cagou todo", naquele espanhol hilário, é de rolar de rir). Ao final, quando os fantasmas do sanatório finalmente dão as caras, cai-se na rotina das histórias do gênero, mas mesmo assim com alguns bons sustos. Por isso, mesmo que perca bastante no quesito "novidade", esse é um pequeno filme bem divertido que vale a pena conhecer. "Juancitoooooo"...


PRESSÁGIO (Presagi, 2010, Itália. Dir: Lamberto Bava)
Entre os famosos representantes do cinema fantástico italiano dos anos 70-80, Lamberto Bava é um dos poucos que continua na ativa, mesmo que seus filmes recentes ("A Tortura", "Mensagem do Além"...) fiquem bem abaixo da média. "Presságio", seu último trabalho, é uma produção feita para a TV italiana e estreou oficialmente no Fantaspoa - também foi a primeira vez que o diretor viu a obra junto com o público. O filme conta a história de uma médium que começa a ter visões com uma garotinha vestindo capa-de-chuva vermelha; um ex-agente do FBI investiga o caso, acreditando que são premonições envolvendo uma menina recentemente sequestrada. Não há grandes novidades na trama nem na forma de contá-la, embora o roteiro tenha alguns poucos detalhes visualmente criativos - como as visões da médium que mostram o vulto do assassino em forma de animal predador. No geral, entretanto, "Presságio" é um filme extremamente convencional e sem grandes atrativos, daquele tipo que mais cedo ou mais tarde acaba passando no Supercine e é ignorado. Essa não é a primeira vez que Bava faz filmes para a TV: "O Terror Não Tira Férias" e "Amantes Diabólicos", por exemplo, também foram produzidos para a televisão italiana e são infinitamente mais criativos e melhor dirigidos. Aqui, o veterano diretor trabalha de maneira burocrática e contida. Parece até de má vontade, como se estivesse apenas esperando para receber o cheque pelo trabalho no final do mês. E mesmo assim é possível encontrar pelo menos uma qualidade: a excelente interpretação do norte-americano Craig Bierko como o amargurado e traumatizado agente. E olha que o sujeito já se queimou fazendo "Todo Mundo em Pânico 4" e "Super-Herói - O Filme"!!! A propósito: Bava jura que a menina de capa-de-chuva vermelha é uma referência a Chapeuzinho Vermelho, e não ao clássico "Inverno de Sangue em Veneza". Então tá...


FAMÍLIA NUCLEAR (Nuclear Family, 2010, EUA. Dir: Kyle Rankin)
Assistindo a essa aventura pós-apocalíptica do simpático Kyle Rankin (com quem tive a felicidade de bater um papo e tomar umas cachaças durante os dias de Fantaspoa), me senti de volta aos anos 80. Como muitos filmes daquela década, "Nuclear Family" também se leva pouco a sério, atropelando explicações em prol da ação que nunca pára, e com um roteiro esquemático que apenas leva os heróis de um perigo para outro. O filme acompanha as aventuras de uma família (pai, mãe e filha pequena) que tenta sobreviver após um holocausto nuclear, num mundo devastado e repleto de criminosos bárbaros. Personagens e situações são caricaturais: há uma garota (interpretada por Danielle Harris) que atira facas com fantástica perícia, portanto o roteiro logo se adianta em explicar que, antes do holocausto, ela era atiradora de facas num circo (!!!); já o vilão era um escritor de livros de auto-ajuda antes do fim do mundo, interpretado pelo fantástico Ray Wise. Há algumas bobagens, como um misterioso vírus que afeta o comportamento humano, mas são falhas facilmente perdoáveis toda vez que Wise entra em cena, roubando o show como um vilão cruel e psicopata, sim, mas tão cheio de frases de efeito e momentos ensandecidos que o espectador fica do seu lado, torcendo para que ele apareça mais no filme. Wise parece um Jack Nicholson dos pobres, e "Nuclear Family" é a prova de que como ele rende quando bem-dirigido. Curiosamente, a história não tem uma conclusão, deixando a trama em aberto para uma possível sequência. Ou, quem sabe, para continuar a acompanhar as aventuras da "família nuclear" num futuro seriado. Até porque o filme tem a maior cara de piloto de série de TV. De qualquer jeito, continuando ou não no futuro, esse aqui cumpre o que promete: diversão descompromissada e muitas gargalhadas. Algumas propositais, mas outras visivelmente involuntárias.


MANÔUSHE (1992, Brasil. Dir: Luiz Begazo)
A grande curiosidade do Fantaspoa 2011. Esse filme brasileiro foi realizado em 1992, nunca lançado comercialmente no país (embora tenha sido exibido no exterior), e é o único trabalho do mineiro Luiz Begazo. Com um olhar bem particular, o diretor encena uma trama fantástica que se passa num universo mágico, envolvendo ciganos, artistas mambembes e uma floresta repleta de criaturas bizarras. Praticamente sem diálogos - as poucas conversas entre os personagens são num bizarro dialeto usado pelos ciganos, e, sem legendas, ininteligíveis -, "Manôushe" começa com o funeral de um velho cigano; sua viúva então começa a recordar-se dos dias em que se conheceram, e o filme conta a história em flashback mostrando a fuga do casal de apaixonados e sua passagem por uma floresta repleta de monstrinhos e ameaças. Visualmente deslumbrante e com uma fotografia belíssima, a obra tem elementos que lembram trabalhos tão díspares quanto os de Fellini, Alejandro Jodorowsky ou mesmo o cinema fantástico da década de 80 (especialmente obras como "A Lenda", de Ridley Scott, e "Labirinto", de Jim Henson). Mas não é um filme infantil. Aliás, se há um problema na obra, é justamente sua indecisão entre ser fantasia para adultos ou história fofinha para crianças. Embora o primeiro e o segundo atos sejam fantásticos, a narrativa começa a se tornar arrastada quando o casal entra na tal floresta mágica. O episódio se arrasta mais do que o necessário, e, pior, sem que exista um fio condutor para manter o interesse. Isso, mais a ausência de diálogos, são um convite ao sono, embora o belíssimo visual e a fotografia consigam prender a atenção do espectador até o final. "Manôushe" é uma obra mais bela e "diferente" do que propriamente memorável, mas conhecê-la é obrigatório para qualquer fã de cinema brasileiro, e principalmente para quem tem interesse no cinema fantástico feito no país. É uma pena que tenha permanecido obscuro, pois talvez tivesse incentivado a realização de outros filmes na mesma linha.


SANTOS E PECADORES (Sinners and Saints, 2010, EUA. Dir: William Kaufman)
Esse violento filme policial chegou ao Brasil após receber láureas em vários sites gringos, que compararam o trabalho do novato William Kaufman com obras consagradas como "Viver e Morrer em L.A." e "Fogo Contra Fogo". Não é para tanto, e no fim das contas "Santos e Pecadores" é até bem previsível e rotineiro. Se não fosse pelo elenco de primeira (com Tom Berenger e Jürgen Prochnow fazendo personagens secundários) e por alguns momentos mais exagerados de violência, graças aos vilões que torturam suas vítimas queimando-as vivas, a obra provavelmente passaria desapercebida e acabaria sua trajetória num Domingo Maior qualquer. Mas, ainda que o roteiro não ajude muito, sempre é bom assistir um filme policial violento e sem frescura feito nesses nossos tempos politicamente corretos, e protagonizado por um tira durão (Johnny Strong, muito bom) que sai enchendo a bandidagem de tiros sem pensar duas vezes. Somente um sujeito casca-grossa como esse para enfrentar a quadrilha de bandidos barra-pesada liderada por Costas Mandylor (um dos vilões de "Jogos Mortais"). Existe um "MacGuffin" cobiçado pelos bandidos, mera desculpa para levar a trama adiante, um detalhe que é rapidamente esquecido numa trama que privilegia a ação rápida e rasteira e os tiroteios, filmados de maneira estilizada e realista. Kaufman desfila um amplo repertório cinéfilo que prende a atenção de fãs de filmes policiais, como o duelo final entre herói e vilão, correndo em direção um ao outro e trocando tiros como os protagonistas de "O Ano do Dragão", de Michael Cimino. Embora não tenha nada de tão espetacular para justificar os elogios rasgados que recebeu, "Santos e Pecadores" diverte e não compromete - ainda que faça falta uma história melhorzinha e sem tantos clichês, onde não falta nem a mais do que batida dupla de policiais branco e negro que começa o filme se odiando e depois "descobre o valor da amizade"!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quatro dias com Lamberto Bava


Como toda uma geração de fãs de horror brasileiros, minha "alfabetização" no gênero se deu em meio à década de 80, atráves da grande variedade de fitas lançadas no país por uma infinidade de pequenas distribuidoras. E, como todo fã de horror do período, um dos clássicos da minha infância/adolescência foi "Demons - Filhos das Trevas", pequena pérola lançada em VHS no Brasil pela F.J. Lucas.

Assim, foi como um sonho realizado poder participar da primeira visita do diretor de "Demons", o italiano Lamberto Bava, ao Brasil, trazendo-o para participar de uma retrospectiva da sua obra no Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, realizado no início de julho.

Para tornar a passagem de Lamberto ainda mais especial, foi realizada não só uma retrospectiva da sua obra, mas também do seu pai, o mestre Mario Bava (1914-1980), realizador de clássicos que influenciaram gerações inteiras de cineastas, como "A Máscara de Satã" e "Banho de Sangue".

O que se segue é um relato desses dias passados ao lado de Bava em Porto Alegre, já que, como curador das mostras realizadas no Fantaspoa, tive o prazer de acompanhá-lo durante sua passagem pelo RS, antes de seguir viagem, como turista, para o Rio de Janeiro...


Dia 1 - Terça-feira
Originalmente, Lamberto e sua esposa cubana Ileana chegariam na noite de segunda-feira, mas um problema com o voo adiou a chegada para a manhã de terça-feira. Lá vou eu buscar o casal no Aeroporto Salgado Filho.

Reconheci Bava sem maiores problemas - um italiano atarracado como ele não passa desapercebido -, e então percebi que ele e a mulher vestiam roupas leves para um clima tropical, e o inverno gaúcho estava de rachar! Para piorar a situação, a bagagem deles havia ficado retida no Rio de Janeiro, numa daquelas clássicas palhaçadas de nossas empresas aéreas, então o convidado teve que passar frio até a noite, quando suas malas finalmente chegaram a Porto Alegre.

No táxi a caminho do hotel, usei meu inglês improvisado para conversar sobre filmes e a carreira de Lamberto, que respondia num inglês macarrônico tão improvisado quanto o meu (porque apesar de entender razoavelmente bem o italiano, não conheço o suficiente para manter uma conversação no idioma).


Ainda no táxi, uma revelação. Perguntei a Bava se era sua primeira viagem ao Brasil, e ele disse que sim. Então pedi se não havia conhecido a parte brasileira da Amazônia durante as filmagens do clássico "Cannibal Holocaust" (1980), de Ruggero Deodato, em que é creditado como assistente de diretor.

Lamberto então confessou que nunca pisou na Amazônia nem participou das filmagens de "Cannibal Holocaust", e que Deodato colocou seu nome nos créditos apenas porque tinha uma equipe muito pequena e queria fazer com que parecesse maior!!! Ah, a velha picaretagem italiana...

Entretanto, me contou Lamberto, ele foi assistente de diretor de Deodato em outro filme sobre canibalismo, o anterior "O Último Mundo dos Canibais" (1977), filmado na Malásia e nas Filipinas.

Ao lembrar do filme, ele mostrou pequenas cicatrizes na mão direita e relatou: "Isso é uma lembrança daquela filmagem. Tinha uma cena em que uma cobra enorme era mostrada rastejando pelo chão. Para filmar isso, nós soltávamos uma cobra que tínhamos numa gaiola, a cobra fugia rastejando, Deodato filmava e então precisávamos apanhar a cobra para fazer um novo take. O correto é pegar a cobra logo abaixo da cabeça, pois aí ela não pode morder. Mas depois de vários takes eu estava cansado e fui pegá-la mais embaixo, e então ela teve espaço para virar a cabeça e me encher de mordidas na mão!". Nem a esposa Ileana sabia dessa história, pela maneira assustada como olhou para as cicatrizes na mão do velhinho...

Falei a Lamberto que naquele primeiro dia exibiríamos quatro clássicos do seu pai, inclusive "The Whip and the Body", e ele se espantou ao saber que esse filme foi lançado nos cinemas brasileiros como "Drácula, O Vampiro" apenas por ter Christopher Lee no elenco (sendo que não há nenhum vampiro no filme, muito menos Drácula!). A sessão comentada pelo diretor naquela noite seria a do grande clássico de seu pai, "A Máscara de Satã".

Aproveitei para ir direto ao assunto: Lamberto dirigiu, em 1989, um remake da obra-prima do pai, e um filme tão ruim que nunca chegou a ser oficialmente lançado em lugar algum (no Japão, saiu em VHS como "Demons 5"!).

Originalmente, como curador, eu pretendia exibi-lo no Fantaspoa, até para que o público pudesse comparar o abismo de qualidade entre as duas versões, mas não encontramos uma versão com imagem boa o suficiente para exibir na tela grande. Expliquei isso a Lamberto e pedi se era verdade que ele não gostava da sua refilmagem, algo que tinha lido em algum lugar séculos atrás.

Para minha surpresa, ele não apenas disse gostar do estapafúrdio remake (que é mesmo muito ruim) como defendeu supostas qualidades da obra que eu não lembro de ter visto. Em todo caso, o "Mask of Satan" de Lamberto certamente entrou para a história como um daqueles raros casos em que o filho resolveu refazer um clássico do pai - e é uma pena que não conseguimos exibi-lo no Fantaspoa! (Numa dessas noites, num boteco, César "Coffin" Souza quase teve um treco quando citei este remake e pôs-se a xingá-lo das maneiras mais escabrosas!)

Após um rápido almoço com apresentações formais aos organizadores do festival, João Pedro Fleck e Nicolas Tonsho, Lamberto entregou-me o DVD de sua produção mais recente, um filme produzido para a TV italiana chamado "Presagi" (no Fantaspoa, "Presságio"). Como ele seria exibido na noite de quinta-feira, eu tinha menos de dois dias para fazer as legendas em português da obra.

As primeiras cenas de "Presságio" são promissoras: mostram uma menina vestida com capa-de-chuva vermelha ("Inverno de Sangue em Veneza"?) sendo perseguida por um homem de capa e chapéu pretos, figura típica dos filmes giallo. Infelizmente, o restante do filme cai na burocracia dos telefilmes - e a falta de violência ou cenas mais fortes é compensada com uma quantidade absurda de diálogos que o pobre coitado aqui teve que legendar.


À noite, fui buscar Lamberto e Ileana no hotel para a sessão comentada de "A Máscara de Satã". Aproveitei para perguntar se a menina de vermelho em "Presságio" era citação ao clássico de Nicolas Roeg, mas Bava desconversou: "Não, não, é uma referência a Chapeuzinho Vermelho". Tá bom...

Bava não quis ver pela milésima vez o filme do seu pai, então ficamos num restaurante ao lado do Cine Bancários, onde vários participantes do festival se encontravam para jantar antes das sessões da noite. Grandes fãs de Lamberto ficavam distantes, meio tímidos, e tive que chamá-los para apresentar formalmente ao "maestro".

Um deles foi Rodrigo Aragão, que estava lançando "A Noite do Chupacabras" no Fantaspoa e confessou seu amor por "Demons". Na foto abaixo, Aragão, eu, Bava e o zumbi do "Mangue Negro", grande filme do diretor brasileiro:


Na hora da sessão comentada, o organizador do Fantaspoa João Pedro me chamou para sentar ao lado de Lamberto e da tradutora de italiano, algo que se repetiu nas noites seguintes, para o meu desespero - ficar sentado calado diante de uma sala de cinema lotada não é minha praia.

Para tentar ser útil, resolvi fazer perguntas a Bava quando o público, por timidez, ficava mudo. Fui eu que pedi que ele falasse sobre seu remake de "A Máscara de Satã", por exemplo - mas tenho certeza que algum dos presentes na sessão, como Carlos Primati ou Carlos Thomaz Albornoz, acabaria fazendo a mesma questão.

Novamente, Lamberto falou com carinho do seu remake. Mas, se você ainda tem alguma dúvida sobre qual é o melhor, compare as imagens do original e da refilmagem abaixo:


Foi uma noite tranquila e de poucas perguntas, já que todo mundo queria mesmo era pegar autógrafo e foto ao lado de Lamberto, o que aconteceu depois da sessão. Percebi o enorme cansaço do convidado, que não havia dormido quase nada desde sua chegada ao Brasil, mas mesmo assim ele foi simpático, prestativo e não arredou o pé do cinema até dar seu último autógrafo, quando finalmente pediu que eu o acompanhasse de volta ao hotel porque não aguentava mais. Terminava o dia 1.


Dia 2 - Quarta-feira
Envolvido com a legendagem de "Presságio", só encontrei Lamberto no final da tarde.

Conversamos muito sobre cinema de horror italiano, histórias em quadrinhos (que lá eles chamam de "fumetti") e sobre a série de filmes de fantasia infanto-juvenil que ele dirigiu nos anos 90, "Fantaghirò", que foi um clássico do Cinema em Casa do SBT durante praticamente uma década.

Nesse ponto, talvez surpreso pela quantidade de cultura inútil sobre cinema que eu demonstrava (conhecendo alguns dos seus filmes melhor do que ele próprio!), Bava perguntou como eu sabia tanto sobre ele e seu pai Mario. Respondi que era fã e pesquisador de cinema desde a adolescência, ao que Lamberto respondeu: "Bravo, bravo".

Ainda na conversa sobre quadrinhos, falávamos sobre "Perigo: Diabolik", dirigido por Mario, quando Lamberto surgiu com uma curiosidade sobre a qual jamais tinha ouvido falar. Disse-me que, por conta de sua primeira esposa, acabou tornando-se parente do diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de "Carandiru" e "Pixote - A Lei do Mais Fraco").


Não me lembro direito qual era o grau de parentesco da sua ex-mulher com Babenco, mas o lance é que o jovem Hector, alguns anos antes de iniciar sua carreira como diretor, foi à Itália a convite de Lamberto para assistir as filmagens de "Perigo: Diabolik", quando teria feito uma ponta como um dos policiais que admiram a "estátua de ouro de Diabolik" na cena final!

Portanto, na próxima vez que vocês forem rever "Perigo: Diabolik", não esqueçam de prestar atenção num argentino com jeito atrapalhado na cena final: segundo Lamberto, ele é o próprio Hector Babenco!

Nesta noite, a sessão comentada foi sobre "Cani Arrabbiati" (1974), um dos grandes filmes de Mario Bava, e provavelmente o mais amaldiçoado. E lá estava eu outra vez, sentado ao lado de Lamberto e tentando fazer cara de inteligente (foto abaixo).


Após anos dirigindo filmes de horror gótico, este policial violento representaria um grande ponto de virada na careira de Mario, mas o produtor faliu e os negativos ficaram retidos pela justiça italiana como parte do seu espólio até os anos 90. Mario, portanto, nunca viu o filme pronto e exibido na tela grande, já que ele só ficou pronto uma década depois da sua morte.

Finalmente, em 1992, foi lançada uma primeira versão com o título em inglês "Rabid Dogs", mas Lamberto nunca a aprovou, conforme confirmou na sessão comentada - disse que era mais um copião das cenas filmadas pelo pai do que uma edição digna do que ele queria fazer.

Assim, junto com o produtor Alfredo Leone, o próprio Lamberto apropriou-se do material, reeditando-o, filmando novas cenas e relançando-o em 1996 com o título "Kidnapped". Esta foi a versão exibida no Fantaspoa.

Mais uma vez, o convidado não quis ver o filme inteiro, limitando-se a dar uma espiada pela porta para ver a cena final. "Que imagem maravilhosa", elogiou, surpreso com a qualidade da versão exibida.

Depois, na sessão comentada, o filho de Mario contou que foi complicado encontrar veículos dos anos 70 para poderem refilmar algumas cenas que foram adicionadas à edição. "Sua" versão também tem um final novo, razoavelmente diferente da conclusão original. Música e créditos iniciais também são diferentes, e a edição é mais rápida e dinâmica.

Apesar disso, eu ainda prefiro o final da primeira versão lançada, que era muito mais macabro e filho da puta...


Dia 3 - Quinta-feira
Perto do meio-dia, eu estava concluindo as legendas de "Presságio" quando recebi a missão de fazer um passeio de ônibus pelo subúrbio de Porto Alegre com Bava e sua esposa. Esse passeio é uma verdadeira armadilha para turistas (já tinha feito com Luigi Cozzi no Fantaspoa do ano passado), 1h30min dentro de um ônibus que nunca pára e passa por raros locais interessantes. Meio contra a vontade, aceitei minha missão, mais pela oportunidade de passar o tempo papeando com Lamberto.

Dito e feito: após uns 10 minutos, o próprio Bava percebeu que havia pouco de interessante para ver naquele passeio, e, embora eu tenha tentado traduzir para o italiano algumas das informações sobre o Rio Guaíba e os prédios históricos porto-alegrenses, a conversa logo enveredou para anedotas da passagem de Cozzi pelo Brasil em 2010, características italianas da minha cidade-natal (fundada por imigrantes italianos) e, claro, cinema.

Quando a conversa chegou em Quentin Tarantino e sua paixão pelo cinema italiano, Bava contou que, numa das muitas visitas de Tarantino a Roma, os dois se encontraram e o diretor de "Bastardos Inglórios" disse que seu filme preferido de Lamberto, para a surpresa do próprio, era "Blastfighter" (1984), uma aventura estrelada por Michael Sopkiw.

O bate-papo sobre cinema italiano oitentista foi tão animado que Lamberto decidiu que queria ver um dos seus filmes à tarde, "O Assassino da Meia-noite" ("Morirai a Mezzanotte", 1986, nunca lançado no Brasil). A sessão tinha um público reduzido, mas fiquei honrado com a oportunidade de ver um filme sentado ao lado do seu diretor.

Como se estivesse gravando a faixa de comentário de um DVD, Bava ficava falando o tempo todo sobre sua obra - mas os comentários eram sobre como ele não lembrava quase nada do filme! Quando rolavam os créditos iniciais, por exemplo, ele perguntou: "Mas quem fez essa música?". Surge o crédito: Claudio Simonetti. "Ah, Simonetti, claro, só podia ser!".

A versão exibida era falada em italiano, o que deixou o diretor mais animado. Depois de meia hora de filme, entretanto, ele me cutucou e pediu para sair da sessão. Na rua, quando eu o escoltava até o hotel, Lamberto disse, envergonhado, que não lembrava do filme. "É como se outra pessoa tivesse dirigido!", afirmou.

O mais engraçado, porém, foi quando Bava me perguntou quem era o assassino do filme!!! Contei-lhe a revelação do final e ele fez uma expressão de surpresa, como se nunca tivesse visto "Morirai a Mezzanotte" antes. "Ah é? Faz sentido...", comentou, e então emendou uma declaração simplesmente genial: "Até que é uma revelação inteligente".

Após um breve descanso, nos encontramos para a estréia de "Presságio" na sessão comentada das nove da noite. Bava estava surpreendentemente nervoso pela primeira vez, e justificou dizendo que o filme foi feito para a televisão e essa seria a primeira vez que ele o assistiria num cinema, com o público, portanto não sabia que reação teriam os espectadores.

"Presságio" é mesmo bem fraquinho (embora seja válido destacar a ótima interpretação do norte-americano Craig Bierko). Mas o público educadamente compreendeu que estava diante de um produto televisivo e poupou Lamberto de maiores críticas. Preferiram fazer perguntas sobre outros filmes exibidos no dia, como "A Blade in the Dark", infinitamente mais interessante.


O diretor depois distribuiu mais alguns autógrafos. Quando Leandro Caraça, do Viver e Morrer no Cinema, pôs diante dele a capinha do VHS de "O Quebra-cabeça" ("Body Puzzle", 1992), Bava ficou encucado: "Mas que filme é esse?". Não reconheceu a foto genérica da capa, com uma cena sangrenta que, pelo que me lembro, nem está no filme. Quando eu disse que era "Boddy Puzzle", Lamberto ficou emocionado: "Não vejo esse filme há 20 anos! Vai passar aqui? Eu gostaria de rever". Para nossa sorte, a sessão de "Body Puzzle" seria no dia seguinte, antes de "Demons"...

Na saída, Bava pediu para conhecer um pouco da noite porto-alegrense. Queria ver samba, o que me deixou numa encruzilhada: como mostrar samba em pleno inverno gaúcho? A solução foi tentar entretê-lo com um show de bossa nova no Odeon, um pequeno barzinho próximo ao cinema, onde, após vários chopps, Lamberto entrou no clima de avacalhação, inclusive tirando fotos fazendo caretas.

Interessante é que Luigi Cozzi foi levado ao mesmo bar em 2010 e pacientemente deu papo para um bêbado chato que ficou lhe torrando a paciência. Bava escapou disso, mas teve que aguentar outro bêbado chato: seu curador e cicerone Felipe (abaixo)!



Dia 4 - Sexta-feira
Sexta era o "Dia D" da Retrospectiva Bava no Fantaspoa. Dia D literalmente: à noite, numa sessão concorridíssima, seria exibido "Demons", o grande clássico do diretor.

Ao meio-dia, nos encontramos todos numa churrascaria para a tradicional overdose de carnes do italiano. É interessante destacar que, na sua chegada ao Brasil, Lamberto disse que queria conhecer a culinária brasileira e ao mesmo tempo manter distância da comida italiana. Nas palavras do próprio, "No pasta!" (Nada de massas).

Corajoso, ele não arregou diante de feijoada, mocotó e cortes de carnes diferentes; provou guaraná, caipirinha, cachaças e até a graspa brasileira. Na churrascaria, Bava fez a festa junto com outros convidados, como o simpático casal Kyle Rankin e Emily Janice Card (ele dirigiu o divertido "Nuclear Family") e os argentinos Hernán Moyano e Marina Glezer (roteirista e atriz de "Suor Frio").

À tarde, os hermanos quiseram ir até uma videolocadora em busca de DVDs de filmes brasileiros. Lamberto foi junto, mas não encontramos filmes de José Mojica Marins para vender, que era justamente o que todos procuravam (Hernán só conseguiu o recente "Encarnação do Demônio"). Quando lembro que esses filmes do Zé do Caixão eram vendidos a R$ 9,90 nos balaios das Americanas em São Paulo, me dá vontade de comprar uns 50 e vender a peso de ouro para os gringos no Fantaspoa 2012...

Após uma rápida visita à Usina do Gasômetro e à exposição da obra de Kenneth Anger, Lamberto foi para a sessão de "O Quebra-cabeça" - depois inclusive ganhou o DVD importado, inédito na Europa, de presente do organizador do Fantaspoa, João Pedro.

Bava tem melhores lembranças de "Body Puzzle" do que de "Morirai a Mezzanotte", mas se espanta com algumas cenas (segundo ele, hoje faria tudo diferente). Diz que a atriz Joanna Pacula era muito frígida e não conseguiu arrancar dela a atuação desejada.

Ele não pareceu incomodado com as risadas do público diante de cenas verdadeiramente imbecis do filme, como quando o assassino mata uma de suas vítimas numa piscina - e, apesar da água ser transparente, a tal vítima não enxerga um sujeito mergulhado que nada em sua direção com uma faca! Como aconteceu no dia anterior, Lamberto não aguenta o próprio filme até o fim, saindo da sala quando faltam 15 minutos para terminar.

O público começa a chegar para a sessão de "Demons", tomando o hall de entrada do Cine Bancários. Enquanto o filme não começa, aproveito para gravar depoimentos em vídeo de Lamberto sobre "Demons", "Roleta Macabra" (outro de seus filmes exibido no Fantaspoa, e que para mim é um guilty pleasure) e seu remake de "A Máscara de Satã".

Bebemos caipirinha, chopp e champanhe depois, num rápido coquetel realizado como parte da homenagem à carreira do diretor, que recebeu uma placa comemorativa dos organizadores do Fantaspoa.


Finalmente, "Demons" começa com sala lotada e gente sentada nas escadas (foto acima). "Tem que deixar espaço para a moto passar", brinca alguém, lembrando a cena mais antológica do filme.

Assistir um clássico da nossa juventude no cinema pela primeira vez é uma experiência única - ainda mais considerando que os horrores da trama se passam também dentro de um cinema!

E foi o único filme além de "Presságio" que Lamberto viu inteiro, sentado entre fãs que riam e vibravam durante a sessão inteira, contagiando o diretor (cada frase do cafetão interpretado por Bobby Rhodes gerava um festival de sonoras gargalhadas, inclusive do próprio Lamberto!).

Seguiu-se a sessão comentada, quando Bava explicou que "A Catedral", de Michele Soavi, surgiu de um roteiro não-filmado para "Demons 3".

Na saída do cinema, mais um festival de autógrafos e fotos que Lamberto encarou com alegria e entusiasmo, aparentando felicidade por ver que seu grande filme, lançado no hoje longínquo 1985, ainda funciona, inclusive para as novas gerações.

Bava ainda ficaria em Porto Alegre no sábado, mas é a hora da despedida - eu tinha outros compromissos no dia seguinte. Ele me agradeceu por tudo e confessou ter ficado surpreso por participar de um festival em que todas as suas despesas, inclusive com alimentação e bebedeiras, eram pagas pelos organizadores (o que não acontece em eventos maiores lá fora).

Ainda autografou-me um pôster de "Demons" com a frase: "Ao Felipe com carinho, tchau e obrigado por tudo". Finalmente, nos despedimos com uma demonstração de carinho de Lamberto Bava pelo seu curador, cicerone e fã, como demonstra a foto abaixo:

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fechado para o Fantaspoa 2011


Queridos amigos leitores do FILMES PARA DOIDOS...

Como já é tradição nos meses de julho, vou fechar este boteco para participar do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Ontem encarei as quase 20 horas de ônibus de São Paulo para o RS, e hoje me mudo de mala e cuia para Porto Alegre, onde ficarei nas próximas duas semanas.

Neste ano, além de ver uma cacetada de filmes como de costume, as programações envolvendo este humilde blogueiro serão bem exaustivas.


Primeiro, estarei lançando no Fantaspoa 2011 meu novo longa, "Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado Parte 2", uma produção independente que comecei a filmar ainda em 2009. A premiére será no domingo, 3 de julho, às 21h15min, no CineBancários, com reprise na segunda-feira às 15 horas.

É uma continuação do meu filme mais famoso, feito em 2001. Na sinopse, sete anos após o massacre do primeiro filme, os sobreviventes Eliseu e Niandra ainda temem a volta de Geison, o terrível psicopata que esquartejou seus amigos em uma noite de sexta-feira 13. É quando novos assassinatos começam a acontecer na pequena cidade de Carlos Barbosa, colocando uma nova geração de vítimas na mira do matador.

Longe de mim querer falar muito sobre minha própria obra, mas fiz esse filme - uma comédia de horror - quando o Wes Craven anunciou que dirigiria "Pânico 4". Era para o meu ter saído antes, no Fantaspoa do ano passado, mas não consegui filmar a cena final e acabei saindo depois do Craven, o que estragou parte da brincadeira. Mesmo assim, quem for ver a obra na telona certamente dará boas risadas.

Teaser de ENTREI EM PÂNICO... PARTE 2



Paralelamente ao Fantaspoa, participarei da Mostra A Vingança dos Filmes B, que será realizada na Sala P.F. Gastal, da Usina do Gasômetro, com curadoria de Cristian Verardi, com exibição do meu curta "Extrema Unção", de 2010. O evento será às 17 horas deste sábado, 2 de julho.

Notório por ter custado apenas 40 reais, o filme é uma história de fantasmas à moda antiga e será exibido ao lado de obras de Petter Baiestorf, Joel Caetano e outros diretores independentes aqui do Sul.


Por último, mas não menos importante, sou curador da Mostra Retrospectiva da obra de Mario e Lamberto Bava, que exibirá, durante o Fantaspoa, clássicos dirigidos por pai e filho, como "A Máscara do Demônio", "Banho de Sangue", "Demons" e muitos outros durante uma semana - entre a terça-feira, 5, e a sexta, 8 de julho, também no CineBancários.

O mais legal é que o próprio Lamberto (foto abaixo) estará presente, e vou passar a semana acompanhando o mestre pelas ruas de Porto Alegre, como já tinha feito no ano passado com o simpaticíssimo Luigi Cozzi.

Quem estiver em Porto Alegre durante estes dias, não deixe de vir falar comigo - se pagar uma cerveja, então, melhor ainda. Quem não estiver, bem... Só posso dizer que lamento muito!

Até a volta!