WebsiteVoice

quinta-feira, 7 de abril de 2011

SLAUGHTER (1972)



Sempre que algum cinéfilo deslumbrado vem me falar sobre a "originalidade" e o "politicamente incorreto" em filmes contemporâneos como o "Machete", do Robert Rodriguez, eu imediatamente retruco: "Cara, na boa, vai ver um blaxploitation e depois a gente conversa". Porque pouquíssimos filmes de hoje conseguem ser tão ofensivos, violentos, sem-noção, politicamente incorretos e DIVERTIDOS quanto as obras desse ciclo produzido para o público negro nos anos 1970.

Quem visita o FILMES PARA DOIDOS com frequência já deve até ter certa intimidade com esse subgênero; afinal, resenhei vários deles e outros tantos estão por vir. A atualização de hoje traz uma pérola esquecida e um dos títulos mais violentos e inusitados do ciclo: SLAUGHTER, dirigido por Jack Starrett no comecinho do ciclo, em 1972.

SLAUGHTER tem tudo aquilo que você espera ver num legítimo blaxploitation. Em outras palavras: um herói negro que passa o filme todo comendo mulheres (brancas) e arrebentando vilões (igualmente brancos), ao som de uma trilha sonora "funky" cuja letra canta os feitos do protagonista como os menestréis da Idade Média.


Nesse caso, o refrão da música-tema composta por Billy Preston anuncia: "Slaughter's big, bad, black and bold / The brother has a lot of soul / Don't you make him mean and cross / 'Cause he'll show you who's the boss".

(E, como todos devem saber, Quentin Tarantino, grande fã do cinema blaxploitation, reutilizou esta a música-tema em "Bastardos Inglórios".)

SLAUGHTER tem também todos aqueles ternos coloridos, calças bocas-de-sino, penteados black power e costeletas gigantescas que caracterizam a década em que foi feito, dando um charme todo especial à película.


O roteiro de Mark Hanna ("Attack of the 50 Foot Woman") e Don Williams (também produtor, ao lado de Samuel Z. Arkoff) não podia ser mais simples e esquemático: o veterano do Vietnã e ex-capitão dos boinas-verdes Slaughter (Jim Brown) começa a investigar por conta própria a morte dos pais num atentado a bomba.

Descobre que o velho estava metido com uma perigosa quadrilha e parte para a vingança. No processo, Slaughter é recrutado por agentes federais liderados por Price (Cameron Mitchell, em participação minúscula), que igualmente querem ver a quadrilha fora de circulação, e por isso se utilizam dos "talentos" do nosso herói.


Ele é enviado para a América do Sul (mas as cenas foram feitas no México) com a missão de desbaratar a gangue liderada pelo italiano Mario Felice (Norman Alfe) e pelo seu braço direito psicopata, Dominic Hoffo (Rip Torn, ainda jovem!).

Lá pelas tantas, Slaughter envolve-se com a amante de Hoffo, uma delícia de loirinha interpretada por Stella Stevens, que passa boa parte do filme sem roupa, transando ou apanhando!


O herói também conta com um parceiro que mais atrapalha do que ajuda, interpretado por Don Gordon. Ele é uma tentativa de alívio cômico, o que às vezes dá uma cara de "Máquina Mortífera" às avessas ao filme, como se Danny Glover fosse o mocinho e Mel Gibson seu sidekick!

É óbvio que ninguém pode esperar um roteiro complexo e profundo de uma produção blaxploitation. Agora, se o seu negócio é ação, tiradas preconceituosas, mulher pelada, sangue a rodo e aquele jeitão estiloso dos anos 70, SLAUGHTER é um filme simplesmente imperdível.

Exagerada do começo ao fim, a trama já começa com uma cena em que Slaughter persegue, de carro, um pequeno avião em decolagem (!!!). Certamente convencido de que tamanho não é documento, o herói atropela, literalmente, o avião, provocando uma explosão! A partir daí, é um festival de socos, tiroteios e frases de efeito.


Posso estar viajando, mas vi em SLAUGHTER uma tentativa de se criar um herói negro à la James Bond. Na época, como se sabe, a série estava em seu sétimo filme ("Os Diamantes São Eternos", de 1971) e era bastante popular.

Pois Jim Brown parece ser uma resposta black a Sean Connery e George Lazenby, e inclusive tem uma cena em que vai jogar num cassino infestado de vilões, com smoking e tudo mais, e aproveita para seduzir a mulherada! Além disso, a abertura do filme tem créditos animados ao estilo 007.

(Ironicamente, a oitava aventura de Bond - "Com 007 Viva e Deixe Morrer", de 1973 - parece prestar homenagem ao ciclo blaxploitation ao colocar uma quadrilha de negros como vilões.)


Por falar nele, é bom lembrar que Jim Brown não era tão desconhecido à época de SLAUGHTER, e vinha de clássicos como "Os Doze Condenados". Mas esse aqui é seu primeiro filme como protagonista (corrijam-me se estiver errado), e já serviu para inscrever o nome do mano num imortal panteão de heróis negros que inclui do Shaft de Richard Roundtree ao Blade de Wesley Snipes.

Brown parece se divertir muito como herói "badass", que não hesita em sentar o ferro nos branquelos (aquele tipo de "atitude" que hoje o Samuel L. Jackson tenta sempre copiar, mas raramente consegue).


O ator passa o filme inteiro com um sorriso cínico e confiante no rosto, disparando diálogos antológicos como aquele em que seu parceiro alerta para a quantidade de capangas que terão que enfrentar, e Slaughter simplesmente mostra seu revólver e comenta: "You got your shit? Well, I got mine. So, c'mon!".

Tem até uma cena absurda em que o herói chega em casa e escuta um barulhinho vindo do banheiro. Sem hesitar, puxa o revólver, descarrega a munição na porta do banheiro e grita: "Se ainda estiver vivo, saia devagar"!!!! Sim, como se não houvesse outra forma mais simples de lidar com a situação... Deve ser muito perigoso tentar organizar uma festa de aniversário surpresa para Slaughter!


O personagem fez tanto sucesso que acabou dando origem a uma continuação no ano seguinte, "Slaughter's Big Rip-Off", desta vez dirigida por Gordon Douglas.

SLAUGHTER também é bastante violento, com sangrentos tiroteios onde os balaços provocam explosões tão exageradas no corpo das vítimas que até parece que elas tomaram tiros de bazuca.

Na conclusão, quando Slaughter e seu parceiro invadem a fortaleza dos vilões para um confronto final, armados com metralhadoras, espingardas e até granadas (!!!), temos uma chacina que faz jus ao título do filme e ao nome do personagem - de certa forma antecipando o cinema de ação barulhento e exagerado dos anos 80.


Pouca gente reconhece o diretor Starrett por nome, até porque ele é mais conhecido como ator do que como cineasta. Em "Rambo - Programado para Matar", por exemplo, ele aparece como aquele policial coroa que provoca o Stallone e depois cai do helicóptero, lembra?). Pois Starrett morreu em 1989, e hoje não recebe o devido reconhecimento por uma trinca de filmes muito legais que dirigiu: este aqui, o também blaxploitation "Cleopatra Jones" (1973) e o horror "Corrida com o Diabo" (1975).

Em SLAUGHTER, o diretor rende-se a exageros típicos do período (como as várias cenas de sexo e a nudez gratuita da estrelinha Stella, que inclusive aparece num longo banho de chuveiro), e tenta inventar moda usando lente "olho-de-peixe" em algumas cenas de ação, artifício que se revela bizarro e deslocado - embora estiloso.


Hoje, a chatíssima patrulha do politicamente correto certamente cairia de pau em cima de SLAUGHTER. Afinal, os vilões (brancos) vivem se referindo ao herói como "black ape" (macaco negro), entre outros termos depreciativos. O próprio Cameron Mitchell solta um "Who the hell you think you are, nigger?", antes de tomar uns catiripapos do herói. Ou seja, nem Cameron Mitchell pode com Slaughter!

Por tudo isso e pelas tiradas divertidíssimas disparadas pelos personagens (inclusive impagáveis rimas do tipo "Your ass is grass!", que Tarantino começaria a copiar em seus filmes três décadas depois), SLAUGHTER é diversão de primeira e, principalmente, cinema grindhouse "de verdade", não uma cópia de quinta categoria sem nenhuma ousadia, como essas tralhas atuais à la "Machete".

Como curiosidade, quando a Globo Vídeo lançou o filme em VHS no Brasil, resolveu traduzir o título literalmente, rebatizando-o "A Chacina", sem perceber que SLAUGHTER também é o nome do personagem principal! A mesma Globo Vídeo lançou a continuação com um nome genérico, "Jogando Sujo", ao invés de linkar os dois filmes - quem sabe com um estúpido "A Chacina 2".

Enfim, coisas do nosso mercado de VHS...

Trailer de SLAUGHTER



*******************************************************
Slaughter/A Chacina (Slaughter, 1972, EUA)
Direção: Jack Starrett
Elenco: Jim Brown, Stella Stevens, Rip Torn,
Cameron Mitchell, Don Gordon, Marlene Clark,
Norman Alfe e Eddie Lo Russo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA (1977)


Alguns fãs de cinema - principalmente aqueles que já viram filmes demais - costumam defender a teoria de que todas as boas ideias (e as ruins também) já foram filmadas, e tudo o que está sendo lançado nas últimas décadas não passa de um reaproveitamento (às vezes inconsciente) de produções do passado.

Não concordo muito com essa afirmação. Por outro lado, às vezes me surpreendo ao descobrir em um filme antigo vários elementos que aparecem posteriormente em obras que eu julgava originais!

É o caso desse BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA, uma relíquia do mercado de VHS no Brasil que eu nunca tive a sorte de encontrar nas locadoras (nem nos sebos), e que só consegui conferir agora, via download. Pior: o filme é raro no mundo inteiro e nunca foi relançado em DVD. Tive que me contentar com uma péssima cópia VHSripada e sem legendas (e aparentemente cortada nas cenas de violência).


Para a minha surpresa, essa produção obscura de 1977 já traz elementos marcantes de dois filmes que eu gosto muito e que foram lançados 20 anos depois: "Cubo" (1997), de Vincenzo Natali, e "Matrix" (1999), dos Irmãos Wachowski.

O roteiro de Stephen Schneck e Michael Winder (sem outros créditos expressivos; Winder também escreveu "A Fera Deve Morrer") trabalha um conceito enigmático: numa época indeterminada, oito pessoas acordam na margem de um rio, num local desconhecido, sem saber como foram parar ali.

Vestem uniformes idênticos na cor cinza e coturnos, mas aparentam ter perdido a memória, pois não sabem quem são ou o que faziam antes de despertar naquele local. Dentro de seus bolsos, cada um deles encontra uma ficha com seu nome (ou o que acreditam que deve ser seu nome) e um crime que supostamente cometeram (mas é claro que não lembram de nada disso).


De cara, já temos o argumento central de "Cubo": os desconhecidos que acordam - também com uniformes padronizados e coturnos, também sem lembrar como foram parar ali - no interior de uma gigantesca estrutura em formato de cubo.

Sem saber o que fazer, o grupo resolve seguir o rio na esperança de encontrar algum lugar habitado, mas têm um encontro nada agradável com dois homens vestidos como pistoleiros do Velho Oeste. A dupla mata um dos homens, estupra a única garota do grupo (Hollis McLaren) e foge levando todos os calçados do pessoal.


Parece que a coisa não pode ficar pior, mas fica: os sete sobreviventes logo chegam a uma misteriosa cidadezinha chamada Blood City, que também lembra uma pequena vila do Velho Oeste, com cowboys e pistoleiros andando a cavalo pelas ruas principais e trocando tiros com forasteiros.

A única diferença é que, misteriosamente, todos os cowboys se vestem de preto, e com uma enorme estrela vermelha bordada no peito, onde está impresso um código alfa-numérico!


Eis que surge Frendlander (Jack Palance!!!), o xerife de Blood City, e prende os poucos desmemoriados que sobreviveram ao confronto com os pistoleiros da cidade. Ao que parece, os homens de uniforme são escravos e devem trabalhar como tal, até conquistarem o direito de ser cidadãos de Blood City. E a única forma de fazer isso é matando algum pistoleiro em duelo!

Tudo parece muito estranho, mas já aos 20 minutos de filme a trama começa a se explicar, quando a câmera deixa Blood City e vai para dentro de um laboratório repleto de cientistas e computadores, onde as imagens dos prisioneiros e dos pistoleiros são acompanhadas atentamente através de monitores.


Na verdade não estamos no Velho Oeste, mas sim num futuro distante. Os desmemoriados prisioneiros que foram parar em Blood City são cidadãos do futuro que estão presos naquele laboratório, e, através de implantes cerebrais, foram "transportados" para um ambiente de realidade virtual - sim, o argumento de "Matrix" num filme feito quando os Irmãos Wachowski estavam começando a tirar as fraldas!

O objetivo do "experimento", segundo explica a dra. Katherine (Samantha Eggar), é identificar e preparar futuros líderes, que demonstrem capacidade de enfrentar situações adversas e tomar decisões difíceis no ambiente de realidade virtual de Blood City, para que depois possam fazer o mesmo no caótico "mundo real".


A trama de BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA começa a esquentar quando a dra. Katherine se interessa por um dos prisioneiros, o inteligente e determinado Lewis (Keir Dullea, que interpretou um dos astronautas de "2001 - Uma Odisséia no Espaço").

A cientista começa a manipular a programação do experimento para ajudar seu queridinho, pois, através de simples comandos de computador, pode influenciar em praticamente tudo o que acontece em Blood City, como se fosse o "Deus" daquele universo - inclusive fazer aparecer armas magicamente para salvar Lewis no meio de um duelo, como veríamos depois em "Matrix".

Assim, Lewis mata um pistoleiro e adquire o direito de ser um "cidadão" do lugar. Mas pode colocar tudo a perder quando resolve salvar a sua companheira, que será vendida como escrava a um dos mais terríveis pistoleiros da cidade, Gellor (Chris Wiggins).


É possível assistir BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA como uma espécie de embrião ou rascunho de "Matrix". Várias ideias e conceitos vistos nas aventuras de Neo, Trinity e Morpheus já aparecem nesse filme de 1977, não só no tocante ao "mundo falso" criado por computador, mas também à manipulação do universo virtual por fora dele.

Uma cena que lembra muito um "retro-Matrix" mostra o personagem de Jack Palance perseguindo Lewis; graças aos comandos de computador digitados pela dra. Katherine, Frendlander aparece magicamente sempre um passo à frente do herói, como se fosse o avô do Agente Smith de "Matrix", numa cena muito bem-bolada que você pode ver no vídeo abaixo:

Jack Palance, o avô do Agente Smith



Ação, entretanto, não é o forte de BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA, ainda mais em comparação aos posteriores "Cubo" e "Matrix". O clima é de mistério, com Lewis tentando descobrir quem é e o que faz em Blood City, e o espectador descobrindo, aos poucos, para que serve aquele bizarro experimento.

No final, frio e pessimista, Lewis e o espectador finalmente têm as respostas - inclusive sobre o que acontece às pessoas que "morrem" no mundo virtual. Longe de uma conclusão heróica, como a de Neo e sua trupe, a história termina deixando poucas esperanças de um "futuro melhor".


Infelizmente, BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA não é o filmaço que parece e que poderia ser, nem consegue desenvolver satisfatoriamente a belíssima situação que apresenta.

Depois dos primeiros 30 minutos, o ritmo torna-se arrastado, como se não houvesse mais história para contar, com Keir Dullea perambulando pela cidadezinha de Velho Oeste (que resume-se a meia dúzia de casas) e discutindo com Jack Palance. A coisa só volta a esquentar no final, mas é difícil não pensar que o mesmo roteiro ficaria muito melhor em mãos mais habilidosas.


Do jeito que está, parece mais uma inocente produção para a TV, talvez um episódio de "Além da Imaginação" esticado. Não por acaso, o diretor Peter Sasdy é mais conhecido justamente por seu trabalho na TV, onde dirigiu alguns episódios da célebre série "Hammer House of Horror", embora também tenha assinado alguns filmes de terror (entre eles, "Nas Mãos do Estripador", de 1971).

Pois o trabalho de Sasdy aqui é burocrático e inexpressivo, salvando-se apenas a ótima idéia do mundo de Velho Oeste de mentirinha. Por alguns momentos, eu até achei que o filme seria uma cópia de "Westworld - Onde Ninguém Tem Alma", e que os pistoleiros com cruz vermelha eram todos robôs!


BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA vale, entretanto, por ser uma produção obscura e difícil de encontrar, e principalmente por já antecipar esses elementos de dois filmaços da década de 90.

Mas bem que alguma distribuidora gringa poderia fazer um relançamento correto em DVD, pois na versão ripada de VHS que se encontra na internet o formato original em widescreen foi transformado em tela cheia, com horrendos cortes nas laterais da imagem (às vezes os personagens ficam totalmente fora do quadro!). Talvez com uma cópia melhor o fime pareça melhor também.


Ou então alguém poderia financiar um remake, dessa vez com um diretor mais habilidoso no comando e, principalmente, um ritmo mais apropriado.

Epa, peraí, isso já existe: é só ver "Cubo" e "Matrix" em seqüência que a sensação é a mesma de se ver uma refilmagem melhorada de BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA!

PS: É bom lembrar que essa não é a primeira obra a trazer elementos parecidos com "Matrix". Quatro anos antes, em 1973, a minissérie de TV da Alemanha "Welt am Draht/World on a Wire", de Rainer Werner Fassbinder, já trazia o conceito de um super-computador que gera um mundo virtual para aprisionar os humanos. Será que realmente todas as boas ideias já foram filmadas?

Cena de BEM-VINDOS À CIDADE MALIGNA



*******************************************************
Bem-vindos à Cidade Maligna (Welcome to
Blood City, 1977, Inglaterra/Canadá)

Direção: Peter Sasdy
Elenco: Keir Dullea, Jack Palance, Samantha Eggar,
Barry Morse, Hollis McLaren, Chris Wiggins, Les
Barker e Larry Benedict.

quarta-feira, 30 de março de 2011

AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM (1983)


Se a sua única referência de "pornô nacional" são aqueles filmes horríveis e padronizados produzidos pelas Brasileirinhas na última década, com pitboys cobertos de tatuagens e garotas siliconadas fazendo caras e bocas, sinto informar que você desconhece o que de melhor foi produzido dentro do rótulo "X-Rated" no país. E vou mais longe: algumas das obras mais inventivas, extremas e - por que não? - geniais do cinema brasileiro estão justamente entre estas películas pornográficas realizadas em escala industrial na Boca do Lixo paulistana durante a década de 80.

Há muita porcaria, claro, e nem sempre é fácil separar o joio do trigo. Mas quando você topa com um filme do Sady Baby ou uma sátira pornô tão bem bolada quanto "Um Pistoleiro Chamado Papaco", de Mário Vaz Filho (em breve aqui no blog), sabe que está vendo algo único. Na verdade, alguns desses filmes são tão criativos e interessantes que o sexo explícito só estraga o conjunto, e eles talvez até ficassem melhor SEM as trepadas!


Nossa resenha de hoje analisará um destes casos. Trata-se de um mistério chamado AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM, co-dirigido por Wilson Nunes da Silva e um famoso "pau pra toda obra" do pornô nacional, Fauzi Mansur, aqui escondido sob o bizarro pseudônimo "Hizat Surman" (um dos muitos que usou durante sua trajetória no sexo explícito, ao lado de "Victor Triunfo" e "Izuaf Rusnam").

Chamo essa obra de mistério porque temos ao mesmo tempo uma sofisticada história de ficção científica (!!!), sobre um apocalipse nuclear, as duas belas sobreviventes do desastre e um astronauta que volta à Terra, e também o tradicional sexo explícito feio, sujo e malvado que era feito na Boca do Lixo - neste caso numa história paralela sobre sobreviventes do fim do mundo que são aprisionados e estuprados (nem sempre nessa ordem) por um bárbaro que domina o Brasil pós-apocalíptico.


Os créditos iniciais do filme informam que serão apresentados dois episódios. O primeiro, chamado "Só Restam as Estrelas", foi dirigido por Silva e é o tal sobre as duas sobreviventes e o astronauta; o segundo leva o nome do longa, "As Ninfetas do Sexo Selvagem", tem direção de Fauzi (ou "Hizat Surman") e a trama sobre o bárbaro estuprador.

O problema é que os episódios não são apresentados separadamente, mas sim paralelamente. Você está acompanhando uma das histórias e, subitamente, a outra invade a narrativa de sopetão. É tão estranho que, na primeira vez que vi, fiquei boiando durante a maior parte do tempo até entender que na verdade eram duas historinhas independentes apresentadas em paralelo; numa reassistida consegui "pegar" melhor onde começa um e outro segmento, mas creio que o filme ficaria muito melhor se os episódios fossem separados.

A bem da verdade, parece que AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM é um filme meio improvisado. Fica difícil hoje saber como rolou o processo, mas aposto que Fauzi pegou um filme inacabado de Silva, sem nada de pornográfico (pelo contrário, as cenas do episódio "Só Restam as Estrelas" só mostram sexo simulado e nudez), e completou-o com cenas de sexo explícito filmadas por ele mesmo, e sem qualquer relação com a trama do outro diretor.


O fato de as cenas gravadas por Fauzi trazerem o mesmo elenco, cenário e figurinos de uma obra posterior do cineasta ("As Rainhas da Pornografia", de 1984) pode ser uma evidência de que ele filmou tudo ao mesmo tempo - o material para completar esse longa aqui e o outro filme. Além disso, Silva era um diretor veterano sem nenhuma experiência com o cinema pornô, outra prova de que talvez Fauzi tenha apenas completado um filme deixado inacabado pelo outro diretor.

Seja como for, AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM continua interessante para o cinéfilo curioso de hoje como uma obra híbrida e cheia de momentos inspirados, alguns pela beleza (principalmente nos trechos filmados por Silva), outros pela escatologia, incluindo uma terrível cena (real) de violência contra um animal que não faz feio em comparação ao clássico italiano "Cannibal Holocaust"!


Você já percebe que AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM não foi concebido como típico filme pornô só pelas primeiras cenas (dirigidas por Wilson Silva), que trazem dois atores famosos do cinema brasileiro da época, Milton Moraes e Ítala Nandi, num barco em alto-mar. Digamos apenas que nem Ítala e nem Milton eram figurinhas carimbadas nos pornôs da Boca do Lixo...

A trama aparentemente se passa naquele típico futuro pessimista concebido em plena época de Guerra Fria e Corrida Armamentista, já que, através de um rádio no barco, ouvimos notícias sobre um "encontro de chanceleres latino-americanos", protestando contra "a decisão das superpotências de incluírem bombas de nêutrons em seus sistemas orbitais de defesa" (lembre-se, era a Era Reagan com seu projeto "Guerra nas Estrelas"...).


Enquanto olha para suas duas filhas pequenas (interpretadas por Karen Louback e Cristie Stein), que brincam na praia, o personagem de Milton começa a filosofar sobre a situação do mundo, explicando-a didaticamente (até demais) para o espectador:

"Antes a guerra matava mil pessoas, agora mata milhões. Antes era a espada, agora é o SODE - Sistema Orbital de Defesa Estratégica. Defesa não sei de quê... É um satélite artificial lançador de bombas nucleares de 500 megatons de cada vez no alvo que quiser. Sem falar nas bombas de nêutrons, que destróem a vida deixando o resto sobre a Terra para o vencedor tomar conta. Se houver vencedor! Cada superpotência tem um super-assassino no céu. Sabe o que isso representa? Que nesse momento estamos embaixo de um poder maior que seis milhões de toneladas de dinamite! A dinamite pelo menos é limpa. O SODE não. Ele é sujo, imundo!"


O filósofo do apocalipse então explica à mulher - e ao espectador - que estão ancorados diante de uma ilha deserta que encontraram ao acaso, e que não consta nos mapas. Nesse exato momento, explode a guerra nuclear e o próprio barco, matando na hora os pais das meninas enquanto elas continuam brincando na praia. (Destaque para a cabeça decepada de Milton sendo arremessada na areia!!!)

Abandonadas à própria sorte, as duas garotinhas aprendem a se virar sozinhas - e peladas - na tal ilha deserta, e, numa bela elipse de tempo de uns 15 anos, aparecem já adultas, e ainda peladas, agora interpretadas pelas belas Marneide Vidal e Eva de Oliveira. As moças fazem praticamente todo o filme nuas!


Durante um bom tempo, acompanhamos o cotidiano silencioso de ambas, até que, aos 21 minutos, as cenas filmadas por Fauzi invadem a narrativa. Assim, de repente, somos transportados para uma vila (que, ao contrário do que imaginei inicialmente, parece não ficar na mesma ilha, mas em alguma parte do mundo devastado).

Ali, um bárbaro interpretado pelo grande comedor da Boca, Oásis Minitti (de "Coisas Eróticas"), aprisiona os poucos sobreviventes do apocalipse, fazendo os homens de escravos braçais e as mulheres de escravas sexuais.


Esta primeira cena mostra-o prendendo e estuprando duas garotas, interpretadas por Tatiana e Dinéia Dantas (irmãs?), mas as cenas ainda são de sexo simulado, sem os tradicionais inserts de penetração explícita. Aliás, estas duas irmãs provavelmente são as "ninfetas do sexo selvagem" do título, e não as náufragas do outro episódio.

Voltamos então ao episódio das irmãs na ilha (eu avisei que as histórias em paralelo eram confusas), cuja vida é alterada com a chegada de um astronauta norte-americano, Alex (Luiz Ernesto Imbassahy). Ciente de que é um dos poucos seres vivos na face da Terra, o astronauta se surpreende ao encontrar aquelas duas gatas peladas. Primeiro, tenta explicar-lhes a situação do mundo com mais uma caralhada de diálogos pseudo-filosóficos; depois, finalmente cala a boca e começa a passar o rodo nas duas!


Já na trama narrada por Fauzi, o bárbaro Minitti aprisiona Daniel (Alan Fontaine), em cena que rola ao som da trilha sonora de "Poltergeist - O Fenômeno". Depois de tomar uns cascudos de Minitti, Fontaine dá início a um diálogo espetacular:

- Por que me agrediu?
- Porque você invadiu meus domínios. E quem faz isso morre ou se torna meu escravo!



Depois de Daniel, o bárbaro também aprisiona mais três pessoas (quanta gente sobreviveu ao apocalipse, hein?): um casal interpretado por Luiz Dias e Teka Lanza e uma lésbica (?!?) vivida pela loira Kristina Keller. Novamente, uma das mulheres é estuprada por Minitti (a personagem de Kristina, chamada Lilith, protesta dizendo que homem algum vai "possuí-la"), enquanto os homens apanham e se tornam escravos.

O sexo explícito só aparece aos 44 minutos, e a única atriz que protagoniza o tchaca-tchaca na butchaca sem simulação é Teka Lanza (loira jeitosinha que era figurinha carimbada nos pornôs da Boca, aparecendo também em "A B... Profunda" e em "Coisas Eróticas 2"). Teka transa primeiro com Dias, depois com Minitti (umas três vezes). Kristina só aparece tocando uma siririca, e nada mais.


Chegamos, então, ao auge do grotesco de AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM: perto do final do filme, Minitti ataca e mata um homem (MAIS um sobrevivente???) que carregava uma ovelha. O animal é pendurado de cabeça para baixo e degolado com um facão, numa cena real. Em seguida, Minitti e seus escravos esfolam e comem a carne crua do bicho, em momento gráfico e repulsivo que se aproxima das barbaridades vistas nos filmes italianos sobre canibalismo. Tenho certeza que tal cena deve ter sido muito excitante para quem foi ao cinema na época em busca de um filme pornô "normal"...

(Se tiver estômago, veja a cena da ovelha no vídeo abaixo.)

"Cannibal Holocaust" à brasileira



O filme termina tão bizarro quanto começou e se desenvolveu, com uma mal-sucedida tentativa de ligar as duas histórias: enquanto no episódio do astronauta o mar amanhece coberto de peixes mortos e uma das irmãs também morre contaminada por radiação, revelando que em breve o astronauta e a outra garota terão o mesmo destino, no episódio de Fauzi o bárbaro e seus escravos amanhecem moribundos, igualmente por causa da contaminação radioativa (quem mandou comerem a ovelha crua?).

Apenas Daniel e uma das mulheres aprisionadas sobrevivem e caminham rumo ao horizonte, quem sabe para reiniciar um mundo melhor... ou para morrer em breve, vítimas da mesma radiação que matou os demais personagens!


Subitamente, a trama volta para o barco do começo do filme (!!!), e os personagens de Milton Moraes e Ítala Nandi estão vivos!!! O quê??? É isso mesmo! As meninas estão brincando na praia, como no início, e o casal de pais se beija a bordo do barco, que então aparece navegando rumo ao horizonte. Logo, todo o filme foi um pesadelo, delírio ou "futuro alternativo" imaginado pelo personagem de Milton em sua já clássica divagação sobre o negro futuro da humanidade...

AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM é exatamente o que parece pela nem-tão-breve descrição acima: uma confusa e bizarra mistura de gêneros e tramas, onde o sexo explícito só aparece por exigências de mercado e não se encaixa de forma alguma na narrativa.

Também há uma queda de qualidade visível quando o filme pula de um episódio para o outro: enquanto o de Silva lembra um curioso cruzamento entre "A Lagoa Azul" e "O Planeta dos Macacos", o de Fauzi é uma apelativa versão pornô de "Mad Max", mas sem muita história para contar além dos estupros perpetrados por Minitti.


Quem sai perdendo com a mistura dos dois episódios é Wilson Silva, já que suas cenas são as mais belas e interessantes do longa - como aquela em que as náufragas, ainda meninas, precisam enfrentar um escorpião que invade sua tenda. Apesar das garotas crescidas aparecerem nuas o tempo todo (e logo também o personagem de Imbassahy), o episódio da ilha nunca cai na apelação, e as cenas de sexo são delicadas e bem realizadas, com certo romantismo e lirismo até.

Pena que estas cenas sejam entrecortadas pelo espetáculo "mundo cão" dirigido por Fauzi, onde sujeitos barbudos, sujos e vestindo farrapos aparecem estuprando garotas em closes ginecológicos, em mais uma bela amostra do sexo sujo e nojentão filmado na Boca do Lixo.


E a cena da ovelha sendo esquartejada é mais do que broxante num suposto "filme pornô", ultrapassando até algumas das barbaridades gravadas por Sady Baby.

Tudo considerado, o episódio de Fauzi também é o mais estúpido e duro de engolir. Afinal, o tal bárbaro interpretado por Minitti consegue aprisionar facilmente todos os personagens secundários sem que ninguém se rebele contra ele. A cena de "estupro" com Teka Lanza é até engraçada, pois a moça começa protestando e logo está curtindo animadamente o rala-e-rola.


Mas não dá pra aceitar momentos como o que SEIS prisioneiros dividem a mesma cabana com seu algoz, sem nem ao menos estarem amarrados, e ninguém tem a ideia de que pulem todos juntos sobre Minitti para subjugá-lo!

Assim, AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM hoje pode ser visto como um curiosíssimo exemplar de um período fascinante do cinema brasileiro, o dos filmes pornográficos da Boca, que não se contentavam apenas em mostrar gente trepando, como os similares estrangeiros, mas geralmente apelavam para histórias mirabolantes e fantásticas onde o sexo explícito é quase brinde - e geralmente soa deslocado.

Esse filme aqui, por exemplo, é uma mais do que óbvia história de ficção científica, que até poderia ser distribuída com esse rótulo se alguma alma caridosa fizesse o favor de cortar as trepadas explícitas com Teka Lanza. Até porque nada se perderia sem estas cenas - elas são rápidas e nada excitantes.


Até sugiro que alguém experiente no Adobe Premiere use seu tempo livre para eliminar da montagem todas as cenas gravadas por Fauzi (inclusive a chocante "cena da ovelha"), deixando apenas o material de Silva, que poderia ser reeditado e relançado como uma "fan cut" intitulada "Só Restam as Estrelas". Aposto que ficaria bem melhor do que este samba do crioulo doido chamado AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM.

Diferente de outros pornôs da Boca da época, que divertiam pela quantidade de bobagens e diálogos estúpidos, este aqui também tenta ser mais sério do que a média, e por isso nem sempre é tão engraçado - apesar dos longos e pomposos diálogos como o de Milton Moraes sobre o SODE ou o do astronauta sobre o declínio da humanidade.

De qualquer forma, a associação entre Silva e Fauzi tem seu valor justamente pela estranheza, picaretagem e escatologia, dando-nos a certeza de que poucas coisas eram tão malucas quando os pornôs brasileiros dos anos 80...

Cena inicial de AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM



*******************************************************
As Ninfetas do Sexo Selvagem (1983, Brasil)
Direção: Wilson Nunes da Silva e
Hizat Surman (aka Fauzi Mansur)
Elenco: Luiz Ernesto Imbassahy, Marneide Vidal,
Eva de Oliveira, Oásis Minitti, Alan Fontaine, Milton
Moraes, Ítala Nandi e Kristina Keller.