sábado, 21 de março de 2020

KILLDOZER (1974)


Bulldozer é o termo em inglês para designar o veículo conhecido, no Brasil, como trator de esteira – embora seja popularmente chamado de escavadora/escavadeira.  Ela se difere de uma retroescavadeira, como a recentemente usada por Cid Gomes para enfrentar PMs amotinados no Ceará, por ter apenas uma lâmina frontal usada para empurrar ou colher o que vier pela frente, seja terra ou entulhos. A retroescavadeira, por sua vez, tem ainda um braço com pá, que pode ser frontal, traseiro ou lateral, capaz de puxar o material em direção ao veículo.

Existem vários modelos, mas uma bulldozer de tamanho médio – a D-9, por exemplo – é um trambolho que pesa quase 50 toneladas. Obviamente, para o propósito a que se destina, tal peso é fundamental. Mas as 50 toneladas também limitam bastante a velocidade do veículo, que se desloca a uma média de 10km/h – enquanto um homem adulto pode atingir, com pouquíssimo esforço, uns 13km/h.


Concordemos, portanto, que uma bulldozer não é exatamente a ameaça mais terrível a ser enfrentada, a não ser que você esteja com as duas pernas quebradas e diretamente no caminho de uma. Ou no interior de uma cabana que um sujeito descontrolado com uma bulldozer está prestes a demolir.

Mas os autores de histórias de horror e roteiristas de cinema sempre tiveram um talento no limite do ridículo para transformar em vilões algumas criaturas ou objetos que não representam uma ameaça em nosso mundo real, como brinquedos, biscoitos, formigas, lesmas e por aí vai. Era questão de tempo para alguém pensar numa bulldozer assassina, e voilà... surgiu KILLDOZER, uma daquelas desgraças inacreditáveis que, mesmo tendo sido produzida a sério, hoje é celebrada como uma hilariante comédia involuntária!


KILLDOZER é o filhote característico de uma época (a década de 1970) e de um formato (produções realizadas exclusivamente para exibição na TV). Num período em que ainda não havia videocassetes e a internet era um sonho, a televisão tentou impor uma existência paralela ao cinema. A ordem era manter no sofá de casa aquele espectador que não queria se arriscar a sair de casa para ir ao cinema e pagar ingresso para ver um filme que talvez nem fosse bom.

Até o começo dos anos 1970, as emissoras de TV norte-americanas exibiam ou seriados de produção original, ou filmes do arco-da-velha que todo mundo já tinha visto no cinema. Foi quando surgiu a ideia de produzir filmes especialmente para a televisão. Tais telefilmes eram produções mais baratas, com seu próprio star system (geralmente atores de seriados), e competiam diretamente com o que os grandes estúdios produziam – embora a televisão ainda não pudesse mostrar nada muito ousado em termos de sexo e violência, ao contrário do que faz hoje.


Como ainda existia o costume de reunir a família toda diante de um televisor na sala de casa, havia uma audiência cativa. O espectador não pagava ingresso, como no cinema; ao mesmo tempo, era bombardeado com publicidade a cada 10 minutinhos, fazendo com que grandes marcas e empresas investissem fortunas em publicidade no horário. Virou um negócio tão bom que alguns grandes estúdios até abriram divisões televisivas, só para produzir telefilmes. E logo perceberam o potencial das histórias de horror e ficção científica para segurar o telespectador na poltrona.

Gerações inteiras cresceram traumatizadas por telefilmes como “Satan’s Triangle” ou “Trilogy of Terror” (ambos de 1975), porque eles possuíam um clima verdadeiramente sinistro no lugar da violência explícita ou dos efeitos especiais milionários. Jovens cineastas que não conseguiam espaço na telona, como um certo Steven Spielberg, fizeram seus primeiros trabalhos para a telinha – no caso de Spielberg, o thriller “Encurralado” (1971) e o horror “Something Evil” (1972), ambos originalmente produzidos para a TV.


A exemplo da maioria dos telefilmes de então, KILLDOZER sugere mais do que mostra, abusa da seriedade mesmo quando os protagonistas se deparam com o ridículo, e traz em seu elenco várias caras conhecidas da TV gringa, incluindo nomes que nunca tiveram grandes chances no cinema.

Dane-se se o argumento (uma bulldozer assassina!) era absurdo; afinal, o telefilme era produzido para uma exibição única e no máximo uma reprise, ninguém imaginava que no futuro teríamos primeiramente videolocadoras e depois compartilhamento de arquivos para que essas tosquices se tornassem eternas e blogs sem noção, como o Filmes para Doidos, perdessem tempo escrevendo sobre elas!

KILLDOZER foi exibido pela primeira vez em 2 de fevereiro de 1974, como o “Filme da Semana” da emissora norte-americana ABC. Quem cresceu no Brasil dos anos 1980 pode até ter visto alguma das reprises do filme, primeiro pela Record com os títulos “Desespero” e “83 Horas de Desespero”, depois pelo SBT, que o rebatizou como “A Máquina Assassina”.


Produzido pela divisão televisiva da Universal, KILLDOZER é a adaptação para a telinha de uma novela de Theodore Sturgeon, autor relativamente respeitado no mundo da literatura fantástica. Novela esta que não existiria se não fosse pela Segunda Guerra Mundial: em 1941, após perder o negócio da família por causa do conflito, o escritor foi trabalhar para o Exército americano como mecânico de veículos militares.

Numa estação de abastecimento em Porto Rico, Sturgeon foi operador de bulldozer até o fim da guerra, em 1944, quando mudou-se para St. Croix, no Caribe, e escreveu “Killdozer” inspirado na sua experiência com estes veículos. A novela foi publicada numa revista de pulp fiction, a Astounding Science-Fiction de novembro de 1944 (ao lado), rapidamente tornando-se um de seus trabalhos mais populares.

A história de Sturgeon era ambientada durante a Segunda Guerra, quando oito homens estão trabalhando num posto de abastecimento do exército em uma pequena ilha. Enquanto usam uma bulldozer para preparar o terreno para uma construção, eles desenterram um templo milenar que abriga uma energia misteriosa capaz de animar objetos mecânicos. Esta energia “possui” a escavadeira e faz com que o veículo se volte contra os seres humanos, matando cinco deles. Dos três sobreviventes, um enlouquece e os outros dois conseguem destruir a máquina assassina. Enquanto discutem como irão relatar sua excêntrica aventura ao alto comando sem parecerem completamente loucos, um bombardeio inimigo destrói completamente a base e o que sobrou da bulldozer psicopata, tornando desnecessário contar a verdadeira versão dos fatos. Fim.

Trinta anos depois da publicação da novela, o próprio Sturgeon foi contratado pela Universal para trabalhar na sua adaptação para a TV, juntamente com o roteirista de primeira e única viagem Ed MacKillop. Jerry London, um jovem cineasta vindo de seriados inofensivos como “A Família Dó-Ré-Mi” e “The Brady Bunch”, ficou a cargo da direção.


KILLDOZER, o filme, elimina o longo prólogo da novela de Sturgeon, em que o autor explicava que uma avançada e antiquíssima civilização povoou a Terra na aurora dos tempos, mas foi destruída após uma guerra terrível. Os caras tinham criado uma forma de energia que “possuía” os veículos inimigos para destruí-los, e que obviamente fugiu do controle e acabou por eliminar toda esta antiga civilização. E o negócio ficou adormecido num velho templo durante bilhões de anos até ser desenterrado pelos peões nos anos 1940, dando início à balbúrdia.

Na adaptação para a telinha, até para evitar gastar demais com efeitos especiais mostrando a tal guerra entre povos de uma civilização avançada, toda esta explicação foi eliminada e vemos apenas um misterioso meteoro entrando na órbita do planeta e caindo numa ilha afastada, onde permanece enterrado por tempo não-determinado – anos? décadas? séculos?


Finalmente, no “presente” de 1974, uma equipe da companhia petrolífera Warburton está trabalhando na mesma ilha, preparando o terreno para a futura construção de um campo para extração de petróleo. Ao contrário dos oito homens da novela, aqui temos seis para cortar custos, e todos interpretados por nomes populares da TV norte-americana da época – incluindo um jovem Robert Urich em início de carreira, ele que depois ficaria razoavelmente conhecido como protagonista de seriados que ninguém mais lembra, como “S.W.A.T.”, “Vegas” e “Gavilan”.

Logo de início, uma sequência ininterrupta de diálogos expositivos constrangedores bombardeia o espectador para explicar, didaticamente, o motivo para aqueles seis homens estarem ali (“Vocês estão sendo pagos para trabalhar na construção da base de perfuração da Warburton, e não para ficar passeando”), o fato de estarem distantes do continente (“Estamos a 200 milhas da costa da África, o que você esperava?”) e conectados à civilização apenas por um equipamento jurássico de rádio que quase nunca funciona (“Parece que estamos na Lua!”).


Zanzando pela ilhota, os velhos amigos Dutch (James Wainwright) e McCarthy (o já citado Urich) encontram um velho posto de abastecimento dos tempos da Segunda Guerra, numa provável referência à ambientação original da novela que inspirou o filme. O local ainda tem alguns armários e até uma foto da atriz e sex symbol Veronica Lake (“Essa garota era cool antes de inventarem a palavra”, explica Dutch ao jovem colega).

Logo os dois são localizados pelo capataz da obra, Lloyd (Clint Walker, protagonista do seriado de faroeste “Cheyenne” nos anos 1950). Ele os adverte para que parem de perder tempo e prossigam com sua tarefa de demolir o barracão. Mac assume o comando da famigerada Caterpillar D-9 e coloca a estrutura no chão, numa cena que também serve para apresentar ao espectador a força e capacidade destrutiva de uma bulldozer. De repente, porém, a lâmina do veículo fica presa num estranho pedregulho azulado – que vem a ser o meteoro que vimos cair na Terra na cena inicial.


O próprio Lloyd assume o comando da escavadeira para mostrar como se faz, toma impulso e arremete contra a rocha, que parece emitir um estranho zumbido. A pá da bulldozer parte o meteoro e uma misteriosa energia azulada passa da rocha para o veículo. O pobre Mac, que observava a cena, também é atingido pela luz, que lhe provoca graves queimaduras de radiação.

O rapaz é levado para o acampamento, onde Lloyd não consegue explicar para o resto da equipe o que aconteceu, dando origem a um motim entre os trabalhadores, que acreditam que o capataz foi negligente. O restante do grupo é formado por Dennis (Carl Betz, protagonista da série “Judd for the Defense”), Beltran (James A. Watson Jr., de “Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! 2ª Parte”, único do elenco que seguia vivo até março/2020) e o mecânico Chub (Neville Brand, figurinha carimbada em filmes B dos anos 1970-80).


Sem conseguir contato com qualquer avião ou barco passando pelas redondezas, e impossibilitados de levar Mac a um médico, os cinco homens só podem observar enquanto o rapaz morre; suas últimas palavras são um alerta a Lloyd: uma misteriosa luz azulada saiu do meteoro para a bulldozer.

Enquanto Mac é sepultado à beira da praia, Lloyd vai até o local do acidente para recuperar o veículo, deixado para trás no tumulto. É quando o monstrengo mecânico, animado pela tal energia alienígena, começa a funcionar por conta própria e deixa de responder aos comandos do seu motorista humano. Lloyd ainda tenta cortar o cabo de combustível para forçar o motor a parar, mas por pouco não acaba esmagado pela enorme pá da escavadeira, que repentinamente pára.


Descobrimos, por meio de outro diálogo expositivo, que o capataz é um alcoólatra em recuperação, e aquele trabalho é a última chance que ele recebe da empresa para mostrar serviço. Isso cria uma situação complicada para nosso protagonista: sendo a única testemunha da misteriosa morte de um de seus homens momentos antes, ele agora não pode contar ao restante do grupo que viu a bulldozer funcionando sozinha, caso contrário seu passado de bebum será trazido à tona e ninguém vai levá-lo a sério (o que lembra muito a situação de Jack Torrance em “O Iluminado”, o livro de Stephen King publicado três anos DEPOIS, em 1977).

Na manhã seguinte, o veículo é finalmente recuperado e levado ao acampamento da equipe, onde passa por uma investigação completa nas mãos do mecânico Chub. Ele não encontra absolutamente nada de errado, embora o misterioso som vindo da pá da escavadeira chame sua atenção. Claro que a monstruosa bulldozer está apenas esperando o momento propício para eliminar os homens um por um: primeiro ela destrói o rádio para cortar a comunicação (já precária) com o continente, depois o acampamento e os suprimentos, e finalmente passa a persegui-los sem descanso pela diminuta ilha.


Uma hilária resenha gringa de KILLDOZER refere-se à escavadeira assassina como “Christine depois de tomar esteróides”, numa citação ao famoso carro assassino criado pelo já mencionado Stephen King. É mais ou menos por aí, já que obviamente o peso e a capacidade de destruição da bulldozer a classificam como uma espécie de “versão bombadona” desses filmes sobre veículos que adquirem vida e perseguem seres humanos.

O problema é que... Bem, como já foi escrito mais para cima, uma bulldozer não é exatamente a mais ágil das ameaças. Se numa narrativa literária, como a novela de Sturgeon, você até consegue administrar a situação através da prosa, num filme, quando isso é traduzido em imagens, fica evidente que qualquer um dos personagens poderia facilmente escapar correndo da escavadeira assassina, e que ela só consegue eliminar suas vítimas porque os sujeitos agem como completos imbecis.


Perseguido por meros cinco minutos pela monstrenga, por exemplo, um dos personagens busca abrigo DENTRO DE UM CANO DE METAL FINÍSSIMO, onde obviamente o gênio será transformado em burrito humano pela bulldozer de 50 toneladas (fico imaginando o trabalho para tirar o cadáver dali depois; ele provavelmente foi sepultado dentro do cano achatado mesmo!).

Mais tarde, um sujeito tenta fugir de jipe enquanto a bulldozer se aproxima “ameaçadora” – e uso aspas porque na verdade a bicha está se locomovendo a nada ameaçadores dez por hora. Por ironias do destino ou Lei de Murphy, o motor do jipe não quer pegar de jeito nenhum. Aí a montagem tenta criar algum suspense (inexistente, óbvio) ao intercalar planos do cara tentando ligar o jipe com contraplanos da bulldozer se aproximando a 10km/h. O infeliz teria tempo mais do que suficiente para pular da porra do jipe e sair na pernada, mas simplesmente se rende, fecha os olhos e aceita ser esmagado sem reagir! Parece até aquela cena do primeiro “Austin Powers”, em que um capanga do Dr. Evil fica gritando desesperado diante da aproximação de um rolo-compressor lentíssimo quando poderia facilmente fugir ou pelo menos sair da frente!


O ritmo de KILLDOZER é tão lento e arrastado quanto seu monstro, com inúmeros tempos mortos (num filme de 70 minutos!!!) em que nada acontece. Os personagens pouco fazem para tentar contornar a situação inacreditável em que se encontram, e ainda aceitam com naturalidade o fato de estarem sendo perseguidos e mortos por uma gigantesca escavadeira que se autopilota!

O único que pelo menos tenta questionar o que está acontecendo é um semi-enlouquecido Dutch, que acredita que “espiões estrangeiros“ estejam pilotando o veículo por controle remoto (tempos de Guerra Fria, sabe como é...). “Tem que haver uma explicação lógica!”, protesta ele, mas seus companheiros de agonia não dão muita bola.


Enfim, o filme se leva um bocadinho mais a sério do que deveria (UMA BULLDOZER ASSASSINA, CARAMBA!!!), o que ajuda a transformá-lo numa comédia. Com destaque absoluto para o momento em que seu astro Clint Walker “encara” a escavadeira mutante assassina, pé-de-cabra na mão contra um monstro metálico de 50 toneladas, e provoca: “C’mon dozer, c’mon and get me!”. Se já não fosse ridículo o bastante ver uns marmanjos com mais de quarenta na cara correndo de uma escavadeira assassina, eles ainda tentam FALAR com ela! Rapaz, que mico...

Há um momento que sintetiza perfeitamente a tragédia que é KILLDOZER, quando os dois únicos sobreviventes finalmente resolvem usar a cabeça e combater fogo com fogo, ou aço com aço: eles sobem numa retroescavadeira – que, como já expliquei, é diferente e maior que a “simples” escavadeira – e usam o braço da máquina para golpear e tentar conter os avanços da bulldozer. Mas se um veículo do tipo já é lento e desajeitado, imagine ver DOIS deles “lutando”! O resultado é um confronto tão sonolento e pouco emocionante quanto assistir à corrida entre uma tartaruga e uma lesma!


Em defesa do pobre diretor Jerry London, porém, ressalto que o coitado pelo menos tenta tirar algo do material pobre de que dispunha. À época ele estava com 27 anos e era da mesma geração de Spielberg. Apenas três anos depois de “Encurralado”, London também tentou usar curiosos ângulos de câmera e recursos cenográficos para fazer da sua bulldozer um vilão minimamente assustador, como o caminhão no telefilme do Spielberg.

A maneira como a escavadeira anda com os faróis acesos mesmo de dia, e a pá levemente erguida, dá a impressão de uma face inexpressiva, com olhos luminosos e uma enorme bocarra. E os efeitos de manivelas que se movem sozinhas, acionadas pelo próprio veículo, são até convincentes.


Mas é simplesmente absurdo e estúpido que uma bulldozer, um veículo que faz o maior barulhão para se locomover, e ainda anuncia sua passagem pela fumaça negra que solta, consiga pegar suas vítimas “de surpresa”. O caminhão de Spielberg, que também pesava toneladas, pelo menos atingia uma velocidade considerável e parecia um adversário de respeito.

Já a bulldozer de London é um negócio extremamente limitado, do qual você pode fugir caminhando rápido (nem precisaria correr). Ou ficar sentado confortável num ponto inacessível a um veículo tão pesado e desajeitado. Não faltam morros na ilha de KILLDOZER, mas o roteiro tenta nos convencer de que nem isso iria parar a máquina diabólica – quando os sobreviventes buscam refúgio no topo de uma colina, um deles comenta: “Não podemos ficar aqui, ela pode abrir uma estrada para onde quiser ir!”.


Lá pelas tantas, a bulldozer dá uma de esperta e usa sua lâmina frontal para provocar um deslizamento, empurrando toneladas de pedras sobre os protagonistas, que precisam fugir para não morrer esmagados. Não é uma cena particularmente tensa, ou mesmo bem feita, mas pelo menos mostra que a vilã poderia ter sido aproveitada de outra maneira, usando mais a inteligência do que a força bruta (sim, eu também não acredito que acabei de escrever isso, que uma retroescavadeira poderia ser mais inteligente!). Porque quando seu “monstro” se locomove a velocidade de tartaruga, seria mais lógico colocá-lo para pegar as vítimas de surpresa do que persegui-las a 10km/h!


A ambientação numa ilha afastada tenta criar um clima de isolamento para os personagens, como se não houvesse para onde fugir e eles fossem obrigados a enfrentar a bulldozer assassina até o último homem. Mas é simplesmente estúpido que nenhum deles tenha sequer pensado em fugir nadando mar adentro, já que obviamente um veículo tão pesado não poderia persegui-lo por ali – mais fácil que ficasse atolado na areia úmida.

Embora seu filme de veículo assassino passe bem longe da obra-prima que é “Encurralado”, London faria coisa bem melhor depois, tipo a minissérie “Shogun”, estrelada por Richard Chamberlein, e o telefilme “O Escarlate e o Negro”, com Gregory Peck. Ao contrário de Spielberg, porém, ele não conseguiu migrar da telinha para a telona, assinando algumas poucas produções para o cinema, como “Um Tira de Aluguel” (1987), com Burt Reynolds.

Será que sua carreira teria sido diferente se esta sua estreia estivesse mais para “Encurralado” do que para KILLDOZER?


Bem, pelo menos um integrante da equipe desta desgraça acabou alçando voos maiores, inclusive trabalhando com o supramencionado Steven Spielberg. Trata-se de Ben Burtt, que sequer recebeu crédito em KILLDOZER (talvez tenha sido esta a sua sorte!).

Na década de 1970, Burtt tentou seguir carreira na área dos efeitos visuais. Alguns de seus trabalhos semi-amadores em 16mm chegaram à Universal, que resolveu contratá-lo para fazer aquela cena inicial com o meteoro chegando à Terra, com a condição de que o fizesse rápido e barato (até porque a ideia original do estúdio era reaproveitar uma cena parecida de um velho filme de 1955, “This Island Earth”, para economizar). Burtt matou a charada filmando um pedaço de esponja pintado para simular o meteoro, num efeito improvisado que parece bom até hoje (veja a imagem abaixo e tire suas próprias conclusões)!


Alguns anos depois de KILLDOZER, ele foi contratado para trabalhar como designer de som e criar todos os efeitos sonoros de um pequeno filme de ficção científica chamado... “Star Wars”! Sim, o “Guerra nas Estrelas” original de 1977! Então da próxima vez que você ouvir o som de um sabre-de-luz, ou os barulhinhos do R2-D2, lembre-se que um dos responsáveis por eles foi um cara recém-saído de um thriller tosco sobre uma escavadeira assassina!

Burtt trabalhou com Spielberg nos filmes do Indiana Jones e em “E.T. – O Extraterrestre”, e ganhou quatro Oscars da categoria! Nada mal para quem começou tão por baixo...


Por pior que seja (e é mesmo bem ruim), KILLDOZER também foi um dos pioneiros (se não “o” pioneiro) em matéria de filmes sobre veículos assassinos movidos por alguma força alienígena ou sobrenatural. Até então, carros animados eram um recurso mais comum em comédias, como a série da Disney “Se Meu Fusca Falasse”.

Passados dois anos, em 1976, Charles Band produziu e dirigiu “Crash! – O Engavetamento do Século”, sobre um veículo que sai pela estrada sem motorista, em busca de vingança depois que sua proprietária quase morreu num acidente. Em 1977 chegou aos cinemas “O Carro – A Máquina do Diabo”, de Elliot Silverstein, e em 1980 foi a vez de “O Carro Sinistro”, de George Bowers, sobre um carro-funerário assassino!


Mas o veículo demoníaco mais famoso de todos, o Plymouth 1958 de “Christine – O Carro Assassino”, criado por Stephen King, só apareceu quase uma década depois (o livro e a adaptação para o cinema de John Carpenter saíram no mesmo ano, 1983). Vale lembrar que King já tinha escrito uma história sobre caminhões que se autoconduziam, “Trucks”, em 1973, um pouquinho antes de KILLDOZER estrear na TV norte-americana.

“Trucks” também foi a história escolhida pelo escritor para fazer sua estreia no cinema como diretor em “Comboio do Terror” (1986), uma bomba atômica cujo resultado desastroso fez King jurar que jamais dirigiria qualquer outra coisa. Curiosamente, o filme tem um momento incrível que parece remeter a KILLDOZER: aquele em que um rolo-compressor animado esmaga uma criança!


Passados quase 50 anos da sua estreia na TV norte-americana, fica difícil saber como foi a recepção de KILLDOZER então. Terá sido levado a sério, ou já era considerado ridículo naqueles tempos? (Quem viu na Record/SBT aqui no Brasil, na década de 1980, está convidado a dar seu depoimento nos comentários!)

O que se sabe com certeza é que a obra virou um cult instantâneo. Em abril de 1974, dois meses depois da exibição do filme na ABC, a Marvel Comics publicou uma quadrinização da novela para tentar faturar com a popularidade da produção. Saiu no nº 6 da Worlds Unknown (ao lado), revista especializada em adaptar contos de horror e ficção científica. Gerry Conway e Richard Ayers ficaram responsáveis pela adaptação, que resgatava aquele prólogo de Sturgeon com a guerra numa civilização tecnologicamente avançada do nosso passado. O mais marcante é a capa absolutamente mentirosa, que inclui uma garota (ela não aparece na novela e nem na própria HQ!) e uma versão “demoníaca” e falante da escavadeira.

“Killdozer” também virou o nome de uma banda de punk rock dos anos 1980, confessadamente batizada por causa do filme, e a alcunha de um bizarro caso policial acontecido no Colorado em 4 de junho de 2004, quando um sujeito chamado Marvin John Heemeyer despirocou – aparentemente por causa de multas recebidas da prefeitura da cidade – e saiu pelas ruas demolindo prédios públicos com uma bulldozer reforçada! Depois de derrubar a própria sede da prefeitura e a casa do prefeito, entre outros edifícios, Heemeyer cometeu suicídio com um tiro na cabeça para escapar da prisão. O caso ficou conhecido popularmente como “The Killdozer Rampage”, provavelmente também em referência ao filme. (E vejam só que timing: em fevereiro/2020 estreou “Tread”, um documentário de Paul Solet narrando esta história curiosa.)


Tudo considerado, KILLDOZER é um filme que talvez se beneficiasse de uma refilmagem contemporânea, onde o diretor pudesse colocar todo o sangue e violência que Jerry London jamais poderia mostrar na rigorosa TV norte-americana dos anos 1970.

Uma versão moderna pelo menos poderia mostrar vítimas sendo achatadas pela bulldozer, ou decapitadas e partidas ao meio pela lâmina do veículo, permitindo toda uma variedade de efeitos sangrentos. A tecnologia já avançou o suficiente para garantir que a escavadeira pareça mais ágil e ameaçadora do que seria na “vida real”, quem sabe até dar-lhe mais “expressões”.

Com o tanto de filme bom que vem ganhando remakes ruins ultimamente, seria uma boa hora para começar a variar e tentar fazer refilmagens boas de filmes ruins...


Comercial de TV de KILLDOZER

9 comentários:

massega disse...

depois de ver um filme de carros q tinham vida e se comunicavam com aeronaves ñ estranho mais nada
Seja bem vindo Guerra

Daniel I. Dutra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
spektro 72 disse...

Caramba !Nem sabia que esse filme Killdozer foi exibido na Record e na TVS (atual SBT) se foi de 80 para diante eu devo ter assistido ele ou não,mas vendo á sua analise sobre esse trash movie o filme é ruim parece em todos os sentidos mas por que não explodiram o diabo desse trator com dinamite ,aí seria o fim do trator assassino e de sua ameaça á humanidade .. desculpe! é um filminho de suspense barato ,vamos esquecer que escrevi isso ,mas sei que o melhor filme de terror sobre carros assassino que assisti é " O CARRO-A MAQUINA DO DIABO" é um filme que te prende do começo ao fim ,Comboio do Terror é filme fraco,acho ele teve um remake ,não sei ao certo .. mas deve ser tão ruim quanto o original e Christine - O Carro Assassino é um clássico .Feliz volta Felipe,um abraço de Spektro 72.

Fernando disse...

Nos anos oitenta eu programei o vídeo cassete para gravar esse filme, achando que era Ninja - A Máquina Assassina... kkk
No dia seguinte quando fui assistir tinha uma bulldozer matando as pessoas...
Me lembro de ter gostado na época, valeu pela lembrança!

Anônimo disse...

Ler essas análises é sempre bom porque sempre vem com informações e curiosidades históricas interessantes, Felipe é uma enciclopédia viva.

@jb1969cinema disse...

Texto bom demais, Felipe!

Colecaoema disse...

Muito bom! Mais uma matéria top com filmes obscuros, o que é sempre muito bem vindo!

Anônimo disse...

Seria um legal um filme de terror no Brasil ambientado no interior do Nordeste nos anos 30, uma vila ou cidade pequena longe da cidade grande começa ser atacada e sitiada por um lobsomen, a população precisa se unir caso queiram sobreviver. Seria uma união de 30 Dias de Noite, The Thing 1982, Assalto ao 13º DP e Olhos Famintos.

Anônimo disse...

"O infeliz teria tempo mais do que suficiente para pular da porra do jipe e sair na pernada, mas simplesmente se rende, fecha os olhos e aceita ser esmagado sem reagir!" Hahaha! Acho que essa cena sintetiza o tamanho da tosquice que é esse filme, pois
na hilário UM PEIXE CHAMADO WANDA, praticamente há a mesma cena, quando um lentissimo rolo-compressor guiado pelo gaguinho Michael Palin parte pra cima do matador Kevin Kline, só que até numa comédia, buscaram alguma lógica para o Kline não conseguir escapar, fazendo ele ficar com as pernas presas num cimentado.

Alaor Silveira - leitor e doido :-P