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sexta-feira, 27 de março de 2020

FASE 7 (2010)


Tendo nascido em 1979, já me considero um sobrevivente por ter escapado de algumas grandes epidemias ou pandemias, como o surto de cólera no Brasil no começo dos anos 1990, o ebola em 1993, a gripe aviária em 2005, a gripe suína (H1N1) em 2009, e a proliferação de chicungunha e zika pelo território brasileiro (em 2014 e 2015, respectivamente). Sem contar coisas não menos graves que seguem por aí de forma mais ou menos controlada, como dengue, sarampo, tuberculose, Aids, etc.

Mas, confesso, nunca vi nada sequer parecido com a COVID-19, a doença provocada pelo coronavírus que, enquanto escrevo estas linhas (março/2020), deixou o mundo inteiro em quarentena forçada – inclusive eu, pela primeira vez na vida. A facilidade de proliferação e a rapidez no contágio a tornam muito mais perigosa do que muitas das citadas no parágrafo anterior, especialmente porque o vírus afeta diretamente a nossa noção de sociedade (as atitudes de alguns poucos podem comprometer a saúde de outros muitos).

Ou seja, a única maneira de realmente estar seguro, como nos filmes de zumbis, é ficar trancado em casa e evitar qualquer contato com outras pessoas, sejam desconhecidos ou amigos próximos. E se vocês não acham isso único e assustador, não sei o que poderia lhes dar medo...


Ao redor do mundo, grandes cidades se tornaram grandes cidades-fantasma; vazias, com comércio fechado, transporte público parado e pessoas trancadas em suas casas tentando conter um inimigo invisível. Há prateleiras vazias nos supermercados e casos registrados de pessoas brigando, quase se socando, por um pacote de papel higiênico. E todos vivem numa sensação constante de medo ou paranóia: até alguns dias atrás, um simples espirro podia fazer com que você fosse expulso do ônibus, hostilizado no interior de um avião ou promover uma fuga em massa de pessoas próximas.

Nesse ponto ainda não dá nem para imaginar o que o futuro sob o pânico da COVID-19 nos reserva, pelo menos enquanto ainda não existir uma vacina ou cura eficiente para o vírus. Se formos nos basear pelo cinema, entretanto, é difícil manter o otimismo. Filmes sobre epidemias/pandemias costumam dar versões bastante tenebrosas do caos que se desencadeia quando um vírus mortal foge do controle, e as pessoas descabam para a selvageria no intuito de salvar a própria pele.


Da obra-prima “O Exército do Extermínio” (1973), de George A. Romero, ao banho de sangue de “Cabana do Inferno” (2002), de Eli Roth, passando por bombas fantasiosas como “Epidemia” (1995), de Wolfgang Petersen (onde uma cura milagrosa é descoberta em tempo recorde apenas para salvar a vida da namorada do protagonista), não faltam variações sobre um futuro negro para a humanidade frente ao perigo epidemiológico. Em meio a todos estes, poucos filmes foram tão visionários em prever o pânico provocado pelo coronavírus como um pequeno e praticamente desconhecido filme argentino chamado FASE 7, de 2010, dirigido por Nicolás Goldbart.

Eu já tinha escrito algumas poucas linhas sobre a obra após ver sua estreia no Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em 2012. Na época, não só o considerei um filmaço como um dos melhores que vi naquela edição do festival.


Obviamente, pela data em que foi feito, FASE 7 foi concebido na esteira do surto de outro vírus, o da gripe H1N1; porém, revendo-o hoje, percebe-se que ele continua dialogando bastante bem com novas ameaças epidêmicas, tipo este nosso coronavírus. Até porque mudam sa ameaças biológicas, mas nós, seres humanos, continuamos exatamente os mesmos; nosso lado mais terrível enquanto “sociedade” aflora justamente em tais situações-limite.

A trama tem certa semelhança com “REC”, aquele brilhante terror found footage espanhol de Jaume Balagueró e Paco Plaza lançado em 2007: um edifício é colocado em quarentena e as pessoas no seu interior são obrigadas a se defender como podem frente ao medo de uma contaminação mortal.

Mas a semelhança fica por aí: enquanto “REC” logo apresenta infectados que agem como zumbis raivosos, FASE 7 prefere se concentrar não nos efeitos colaterais da doença ou nos infectados, e sim na maneira como a simples possibilidade de pegar um vírus mortal espalha o pânico e a paranóia no interior de um espaço confinado.


O filme começa com imagens das prateleiras cheias de um supermercado, pouco antes do caos começar. A localização nunca é identificada, mas provavelmente é Buenos Aires, a capital da Argentina.

Martín, sempre chamado pelo apelido Coco (Daniel Hendler), e a esposa Pipi (Jazmín Stuart), grávida de sete meses, estão fazendo o rancho e discutindo amenidades na fila do caixa quando repentinamente o mercado é invadido por dezenas de pessoas em pânico, muitas com máscaras cirúrgicas, todas elas prestes a esvaziar aquelas prateleiras outrora cheias.


O espectador já percebe que algo assustador está acontecendo, mas Coco e Pipi continuam desligados do mundo ao seu redor e perdidos em discussões completamente desnecessárias – sobre o fato de ele ser preguiçoso por não ter testado uma lâmpada antes de comprar, ou desleixado por usar sempre a mesma camiseta velha que já deveria ter sido jogada no lixo. Sem que prestem atenção no mundo ao seu redor, enquanto eles levam as compras para o carro mais pessoas desesperadas e mascaradas passam correndo por ambos, bem como inúmeras ambulâncias com a sirene ligada.


No caminho de volta para casa, Coco sugere que eles poderiam largar a vida na cidade grande para viver no campo. Pipi ri, alegando que ele é um rapaz da cidade e jamais conseguiria viver sem seu computador. Enquanto isso, novamente sem que qualquer um dos dois perceba, um carro abandonado sobre o meio-fio revela que o mundo civilizado está rapidamente indo para o vinagre.

É somente chegando em casa, e recebendo um telefonema da mãe de Coco, que eles descobrem sobre a seriedade da situação. Ao ligar a TV, nosso “herói” é informado que uma grave epidemia se alastra pelo mundo: o vírus já atingiu sete países e acaba de chegar à Argentina, por isso o caos testemunhado pouco antes no supermercado, com as pessoas amedrontadas correndo para estocar água e comida para uma possível quarentena. Numa escala de seis etapas para pandemias, a Organização Mundial da Saúde já considera o caso uma “fase 6”, a mais grave de todas.


Poucas horas depois, interrompendo o jantar de Coco e Pipi, um representante de cada apartamento é chamado a descer para o lobby do edifício. Lá chegando, os residentes encontram um cordão de isolamento e descobrem que estão impedidos de sair do local.

Médicos e soldados vestindo roupa anti-contaminação explicam que um casal de idosos que vivia no local foi internado com sintomas muito semelhantes ao do novo vírus, e portanto o prédio inteiro terá que ser colocado numa quarentena forçada para certificar-se que mais ninguém está infectado e evitar que a contaminação se alastre para o mundo exterior.

Em teoria, os restantes serão monitorados por uma equipe médica e poderão tirar dúvidas por um número especial de telefone. “Fiquem em seus apartamentos e mantenham o contato com os vizinhos ao mínimo”, sugere o porta-voz do lado de fora, antes de lacrar a entrada do edifício com plástico.


Imaginando que será algo temporário, os residentes não chegam a ficar muito assustados – inclusive sobem de volta para seus apartamentos dividindo o mesmo elevador, sem perceber que podem estar passando ou pegando o tal vírus. Coco e Pipi aproveitam os primeiros dias da quarentena para ler quadrinhos, ver filmes, divertir-se com jogos de tabuleiro. Ele tenta fazer um racionamento dos víveres, já que o casal não chegou a fazer grandes estoques para sobreviver a uma quarentena.

Pipi inicialmente ridiculariza a preocupação do marido, só que logo eles estão reaproveitando saquinhos de chá e ficando estressados com o confinamento. O filme não deixa claro quantos dias passaram desde o início do período de contenção, mas, após uma rápida elipse, Coco já ostenta uma barba enorme, que depois transforma num hilário bigodão apenas para provocar a esposa.


E é claro que as coisas não funcionam tão bem quanto todo mundo espera. Os médicos que deveriam monitorar os moradores do edifício somem ainda nos primeiros dias. Ninguém nunca atende no tal número de telefone de emergência, nem há como conseguir ligação para números externos. A internet não funciona e a TV sai do ar, passando a reproduzir em looping uma gravação com recomendações para evitar o contágio (ironicamente, as mesmas divulgadas agora em relação ao coronavírus: evitar espaços fechados, beijos e apertos de mão; evitar contato com quem quer que manifeste sintomas).


FASE 7 se transforma numa brilhante mistura de thriller paranóico com comédia de humor negro no momento em que surge a suspeita de que mais alguém no edifício em quarentena possa estar manifestando sintomas da doença. Trata-se de Zanutto, um velhote antissocial interpretado pelo veterano Federico Luppi (de “A Espinha do Diabo” e “O Labirinto do Fauno”, que aqui está visualmente parecido com o diretor italiano Ruggero Deodato!).

Dois outros moradores, Guglierini (Carlos Bermejo) e Lange (Abian Vainstein), alegam que o velhote passa a noite tossindo. E como ele vive exatamente no meio do prédio, decidem movê-lo “de livre e espontânea pressão” para algum outro apartamento no andar mais acima, evitando que possa espalhar a doença – que eles nem sabem se o sujeito tem – pelo edifício. Enfurecido com a sugestão, Zanutto se recusa a sair do apartamento que divide com o cachorrinho de estimação.


O episódio acaba dividindo o prédio em duas facções. Sem querer, Coco é recrutado como aliado do seu vizinho de porta, Horacio (Yayo Guridi), um psicótico que acredita em teorias da conspiração e tem o apartamento cheio de armas – se um dia fizeream um remake brasileiro de FASE 7, provavelmente Horacio será um bolsominion. Ele presenteia Coco com uma roupa anti-contaminação e uma pistola carregada, e alerta aos demais que fiquem longe do quarto andar, onde os dois vivem: “O quarto andar agora é área restrista. Se algum de vocês se aproximar, isso será considerado um ato de guerra!”.


A situação vai progressivamente saindo do controle e ficando cada vez mais absurda, gerando momentos em que o espectador não sabe se ri de nervoso ou fica estupefato diante do que vê. Horacio começa a espalhar bombas de efeito moral nos acessos ao quarto andar (enquanto, ironicamente, se queixa que sempre lhe consideraram um “paranóico”). Isso acaba deixando Coco e Pipi ainda mais confinados, aumentando a sensação de isolamento e claustrofobia.

E Guglierini e Lange, na sua insistência de tentar tirar Zanutto à força de seu apartamento, acabam levando o velhote a tomar uma atitude radical: armado com uma espingarda de dois canos, ele aceita a declaração de guerra de Horacio e sai pelos corredores a matar quem quer que cruze seu caminho!


FASE 7 é o primeiro longa de Goldbart, que assina ainda o roteiro, a coprodução e a edição. Ele já trabalhava na área, como editor, desde 1995, tendo atuado em quatro dezenas de filmes, documentários, produções televisivas e curtas-metragens.

E sua experiência neste departamento pode ser constatada tanto na edição dinâmica do longa, que nunca perde o ritmo, quanto na administração do baixo orçamento, pois o diretor já tinha suas cenas esquematizadas desde o início, pensando na montagem, e pôde economizar dinheiro. Eu conversei com ele durante o Fantaspoa 2012, logo depois de ver a estreia do seu filme, e gravei uma entrevista que está no YouTube (veja link abaixo).


Entrevista com Nicolás Goldbart


Como “REC”, toda a narrativa se passa no edifício em quarentena, com algumas rápidas cenas externas no início e no final que nem de longe aliviam o clima de opressão e claustrofobia. Os personagens interagem em apartamentos reduzidos, dos quais vemos pouquíssimos cômodos, ou nos corredores e escadarias ainda mais apertados do prédio, que ajudam a passar a ideia de que o cerco está se fechando e não há para onde escapar. Para piorar a sensação de clausura, a câmera às vezes enquadra seus personagens através de “molduras” ainda menores, como o olho mágico da porta, janelas ou portas abertas que filtram luz para cômodos escuros.


Goldbart foi bem-sucedido em passar a ideia de que existem dois mundos distintos dentro deste universo que é o edifício lacrado: os apartamentos são os raros locais em que os personagens têm uma (às vezes falsa) sensação de segurança, já que em teoria podem trancar seus oponentes do lado de fora; já nos corredores e áreas de uso comum foi declarada guerra e não é mais seguro circular.

A situação atinge o ápice do absurdo quando Horacio e Coco, vestindo seus trajes e armados até os dentes, saem para “explorar” – ou seja, investigar os demais pisos do prédio como se fosse uma terra desolada, e invadir apartamentos alheios para roubar comida e medicamentos!


Por ironia, considerando o filmaço que saiu, Nicolás contou que FASE 7 foi uma espécie de tapa-buraco que ele teve que inventar para resolver uma obrigação contratual, depois de ter se comprometido com um projeto mais ambicioso que não conseguiu fazer – sobre um argentino que era preso num aeroporto dos Estados Unidos e acabava por acidente em um presídio de segurança máxima. Daniel Hendler também seria o astro deste projeto, mas Goldbart percebeu que, devido a uma série de dificuldades, não poderia fazer o filme com o orçamento que tinha à disposição.

Sua solução, para não ficar mal com os investidores (um dos produtores-executivos é o norte-americano Steven Schneider, que produziu as franquias “Atividade Paranormal” e “Sobrenatural”), foi sugerir um outro projeto possível de filmar com baixo orçamento. Como na época (2009) o mundo enfrentava o surto de gripe H1N1, ele inspirou-se no clima de medo e paranóia que via nas ruas da Buenos Aires de então para propor a história que se tornaria FASE 7.


Originalmente, seria um filme ainda menor, com uma estrutura quase teatral: dois personagens em uma única locação, enfrentando as agruras de uma quarentena forçada. À medida que ia escrevendo, Goldbart resolveu ampliar a história para todo o edifício, mostrando as interações dos personagens principais com os vizinhos, e assim surgiu a versão final do filme.

“Estávamos em plena Gripe A em Buenos Aires e me parecia que o que estávamos passando era ao mesmo tempo algo trágico, porque havia gente ficando doente e morrendo, e também cômico, absurdo”, me disse o diretor, naquela entrevista de 2012. “Pela falta de informações, e por não saber bem o que acontecia, aquilo gerou um pânico que talvez tenha sido pior e mais perigoso que a própria doença. E me pareceu que ali havia uma boa ideia para um filme.”


Assim como George Romero em “O Exército do Extermínio” (uma das inspirações confessas de Goldbart), o vírus e a epidemia são usados como uma desculpa para tratar temas maiores, como a incapacidade do Estado de lidar com uma situação-limite (não consegue proteger meia dúzia de famílias no interior do edifício em quarentena, e menos ainda as pessoas no mundo exterior), as relações humanas durante uma crise (algo que, de certa forma, parece remeter à gravíssima crise econômica na Argentina na virada dos anos 2000) e até masculinidade tóxica, já que as mulheres do prédio são deixadas de lado em todas as decisões e, trancadas cada qual em seu apartamento, nem imaginam que seus maridos e companheiros estão se matando pelos corredores.


E há um tantinho de crítica social velada; nada tão escancarado e esfregado na cara quanto certos diretores brasileiros adoram fazer, mas há. Quando as autoridades sanitárias perguntam o número de moradores do edifício, por exemplo, um dos residentes responde sem se dar conta: “Somos 16 pessoas e uma empregada doméstica”.

Supostamente também existe uma “família de chineses” no décimo andar, que ninguém sabe se está em casa; ao mesmo tempo, ninguém parece se importar com a segurança ou mesmo com a existência dos orientais – outra coincidência que remete a “REC”, onde havia uma família de japoneses, raramente vista, a quem alguns dos moradores atribuíam a culpa pela contaminação.


Neste cenário que vai avançando rapidamente para a barbárie, o tal vírus mortal é o menor dos problemas. E, espertamente, o diretor não perde tempo comprovando se personagem X ou Y realmente está contaminado ou se é apenas paranóia dos demais.

Uma única pessoa aparece morrendo em decorrência da doença, enquanto as outras vítimas são abatidas por tiros que certamente não foram disparados por nenhum vírus. Como disse Nicolás na entrevista, “o vírus mata, mas não tanto quanto as pessoas! Não me interessava que o filme fosse uma história sobre a Gripe A. É sobre uma situação-limite e como as pessoas reagem a ela”.


Num filme com poucos personagens, o cineasta teve a sorte de contar com um elenco incrível. Daniel Hendler está incrível como o protagonista preguiçoso e pamonha, um “herói improvável” na linha do Ash de Bruce Campbell ou do Shaun de Simon Pegg, embora radicalmente diferente de ambos – ele é incapaz de fazer mal a uma mosca e se revela um fracasso com armas, embora por ironia imite os trejeitos de gângsters de cinema diante do espelho quando corta a barba.

Jazmín Stuart, como a esposa que sequer imagina o banho de sangue que está se passando do lado de fora da porta de seu apartamento, alia ingenuidade com maturidade – ela é uma das poucas pessoas sensatas do filme. E Federico Luppi consegue mudar, em questão de segundos, de velhinho simpático e bonachão para louco homicida perigoso.


Mas quem rouba o filme é o pirado e paranóico Horacio, interpretado por Yayo Guridi. Praticamente desconhecido no Brasil, Yayo é um comediante de sucesso da TV argentina, e esta é sua estreia no cinema (embora ele tenha feito, pouco antes, uma participação ‘as himself’ na comédia “Bañeros 3: Todopoderosos”, de 2006). Seu personagem em FASE 7 não é exatamente engraçado, embora lá e cá seus rompantes de raiva ou ações absurdas provoquem risos pelos motivos errados.

E é de suas maluquices que vem o título do filme: “Fase 7” é o nome de um plano conspiratório, que Horacio acredita estar em curso, para fazer uma redução controlada da população e melhorar a economia global. Qualquer semelhança com as ridículas teorias da conspiração que agora circulam em relação à China e ao coronavírus não passa de mera coincidência, mas percebam como o filme argentino foi visionário até nisso!


Além do já citado “O Exército do Extermínio” (de quem emprestou o plot do vírus fora de controle e as roupas anti-contaminação), FASE 7 também tem inspiração confessa no cinema de John Carpenter, especialmente o ambiente de claustrofobia e clausura de “Assalto à 13ª DP” (1976), um dos filmes preferidos do diretor Goldbart. Nicolás me confidenciou que, na hora de editar o filme, usou as trilhas de “Fuga de Nova York” e “Eles Vivem” como música de referência, dando a Guillermo Guareschi as indicações para compor uma autêntica trilha “Carpenteriana”, que parece até ser trabalho do próprio mestre. E a obra-prima “Fase IV – A Destruição” (1974), de Saul Bass, que a produção argentina homenageia em seu título, está passando na TV num momento do filme – simbolicamente, um momento em que os personagens na telinha também estão usando roupas anti-contaminação.


Embora FASE 7 tenha surgido como um projeto mais “simples”, Goldbart e sua equipe passaram por uma filmagem infernal. “Foram semanas de gente trancada num mesmo lugar, uma filmagem muito cansativa”, lembrou ele. “Na primeira semana foi tudo muito fácil, porque filmei as cenas do casal no apartamento. E foi mais agradável, só com dois atores, próximo daquela minha ideia inicial de só ter dois personagens num apartamento. Mas quando tivemos que sair, já no primeiro dia com os trajes eu percebi que seria muito complicado, e ainda tínhamos quatro semanas daquilo!”.

O diretor lembra que, por filmarem em espaços pequenos e nos corredores do edifício, com uma equipe completa ao redor, a temperatura subia e tornava o uso dos trajes um pesadelo, principalmente porque o visor das máscaras ficava embaçado! O primeiro a se enfurecer com a situação foi Yayo, que iniciou um motim e disse que não conseguiria trabalhar vestindo aquilo. Assim, Goldbart teve que filmar as cenas de Horacio com o traje (e o personagem usa o traje durante a maior parte do filme!) dependendo do humor do ator; em vários momentos, para poupá-lo, o próprio diretor vestiu a roupa anti-contaminação e assumiu seu lugar em cenas onde não se via o rosto do ator.


Embora seja, repito, um filmaço, FASE 7 é o tipo de produção de baixo orçamento que infelizmente acaba ficando restrita ao circuito de festivais, com um lançamento comercial muito limitado nos cinemas antes de sair em DVD. Dez anos depois, para a surpresa de seu diretor, o coronavírus tornou a colocar o filme em evidência: principalmente na Argentina, pessoas começaram a redescobrir FASE 7 como se a trama tivesse profetizado o clima de paranóia e isolamento que estamos vivendo AGORA, e não na época da H1N1 que inspirou a história em primeiro lugar.

“Eu nunca podia imaginar algo assim, é tudo uma loucura”, resumiu o diretor Nicolás Goldbart semana passada, quando trocamos mensagens pelo Facebook. As filmagens de seu segundo longa-metragem inclusive foram canceladas por causa da nova pandemia, ao mesmo tempo em que FASE 7 ganhou capa e matéria de página inteira no Clarín, o maior jornal argentino, onde foi chamado de “filme premonitório” (ao lado).

Como diz a sabedoria popular, a vida muitas vezes imita a arte. Basta saber que, em algumas cidades norte-americanas, as pessoas formaram longas filas em LOJAS DE ARMAS para comprar e estocar munição, e não água e comida! Assim, só por via das dúvidas, convém dar uma conferida em FASE 7 para saber como comportar-se nesta quarentena forçada a qual TODOS, e não apenas os moradores de um pequeno edifício argentino, estamos confinados.

E, só por via das dúvidas, evite MESMO ter qualquer contato com os vizinhos – seja por medo do coronavírus, seja por medo de um tiro de doze no meio da cara...


Trailer de FASE 7

17 comentários:

Raphael Silvierri disse...

Lembro de ter lido um comentário seu sobre o filme na época...
Como pessoa que já assistiu MUITOS filmes apocalípticos, sabe que estou até me surpreendendo positivamente com a maneira como as pessoas estão enfrentando a atual crise do Coronavírus (exceto os cretinos usuais)...

Unknown disse...

Este eu não achei em lugar nenhum para baixar:(

Leonardo Peixoto disse...

Será que filmes com epidemias mortais vão marcar presença agora ?

spektro 72 disse...

Muita boa essa resenha desse filme ... o cinema argentino tá dando um pau no cinema brasileiro ,que só tem esse filmes ruins da Globo (chachada) Filmes no circuito nacional .. quer dizer tinha, pois com á Corona Vírus mudou todo, mundo em suas casas para não pegar o vírus e ninguem andando á toa nas ruas ,hum! vai nessa ,aqui no bairro não tem uma rua que não ha gente conversando ou saindo de carro á toa ou ate adolescente empinando pipa ou brincando na praça perto da minha casa .. o povo daqui não esta nem aí para essa pandemia e vizinhos ,hum! já tive até ameaça de morte por reclamar de alguma coisa da rua que eu moro,mas nada aconteceu e felizmente ainda estou aqui,alias ! não estou nem aí se o vírus chegar aqui e mata-los .. não dou á minima por essa gente daqui .Desculpe o desabafo ,mas é o que penso ,um abraço de Spektro 72.
P.S - filme bom para resenhar na próxima oportunidade " Nightmare City" do grande Umberto Lenzi.

Adriano Garcez disse...

Mas onde consigo assistir a esse filme? Não tem na Amazon nem Netflix, e no torresmo tem poucos seeders.

Judd Cruz disse...

Uma vez passou na tv a cabo, bem cedo da manhã, acho que que foi no FX, não tenho certeza, (pouco tempo após um postagem daquelas resenhas curtinhas... que vc faz aqui no blog) peguei já no finalzinho, mas não vi, pois pretendo ver-lo completo, até esqueci de procurar depois na internet.

Colecaoema disse...

Excelente matéria! Uma melhor que a outra!

Daniel I. Dutra disse...

Não vi o filme, mas pelo contexto não me parece que a intenção era fazer uma crítica a "masculinidade tóxica" (que é um termo bem questionável), mas a selvageria da natureza humana.

O que quero dizer é que, se a história se passasse num dormitório feminino universitário, teríamos praticamente o mesmo filme, a saber, um filme sobre um monte de mulheres se matando pelos corredores de um prédio.

Mulheres tendem a ficar de fora de violência não porque são mais pacíficas, mas porque homens, por terem mais força física, acabam tomando a dianteira em situações extremas, ainda mais no caso desse filme, que tem uma mulher grávida, ou seja, alguém que definitivamente não está em condições de lutar.

Basta ver que em filmes onde há ausência de personagens masculinos, tipo o subgênero "women in prison" ou o excelente "Abismo do Medo", as mulheres são tão violentas, e uma contra outras, quanto homens.

Acho que acabei de criar uma ideia nova para um filme: um filme de pandemia apocalíptica protagonizado apenas por mulheres e que se passe num único lugar. Que eu saiba não há nenhum filme assim, e eu veria esse filme.

Felipe M. Guerra disse...

Afe, eu sabia que o uso do termo ia gerar polêmica (e de fato já tive até que deletar dois comentários mais desaforados). O "masculinidade tóxica" se refere ao fato de os homens da história agirem como se estivessem em um filme de açáo dos anos 1980, sem nunca discutir nada do que está acontecendo com suas esposas, companheiras ou filhas, que ficam fechadas nos apartamentos e desconhecem completamente o banho de sangue que está acontecendo do lado de fora. Elas são deixadas de lado nas decisões importantes quando talvez pudessem trazer algum bom senso à situaçáo toda. E isso é mostrado de uma maneira bem divertida quando o personagem de Daniel Hendler fica voltando para casa cada vez mais machucado e ensanguentado, para a surpresa da esposa que demora a descobrir o que ele faz da porta para fora. A questão aquiu não é se MULHERES na mesma situação-limite se matariam ou não, mas o fato de que elas nunca chegam a participar do que está acontecendo porque seus maridos e companheiros assumem a "liderança" e ajudam a fazer com que a situação saia totalmente do controle. Talvez possanmos dar outro nome para isso que não seja tão incômodo quanto "masculinidade tóxica", decidam aí - de minha parte, acho curioso que um detalhe tão secundário no texto esteja gerando tanta polêmica...

Daniel I. Dutra disse...

Creio que o termo "masculinidade tóxica" cause tanta polêmica porque passa a ideia de que violência e outras atitudes duvidosas sejam exclusivamente masculinas.

Vou ver o filme (que tá bem difícil de achar, falar nisso) para opinar melhor, mas homens tomarem a dianteira nesse tipo de filme e a situação degringolar cada vez mais é algo esperado (e até clichê).

Mas agora, com a explicação da cena do malucão que volta cada vez mais ferido para a casa, entendi melhor o contexto (sugiro que essa explicação seja adicionada ao texto original para ficar mais claro no que Fase 7 se diferencia de outros filmes de gente se matando em lugares fechados).

E aproveitando para colocar lenha na fogueira: o filme poderia tbm ser interpretado também como uma crítica a passividade feminina, hahahaha

Felipe M. Guerra disse...

Na real as mulheres estão sendo inteligentes, seguindo as orientações da quarentena, ficando em casa e evitando contato com os vizinhos. ;-)

spektro 72 disse...

Mais ou mesmo ,mestre Felipe ! Aqui no bairro e ate bairros satélites ,o que eu vejo é muitas mulheres na ruas ,perto de suas casa ,em ponto de ônibus e super-mercados conversando em com as outas e geralmente com filhos no colo ou filho em pré adolescência sempre participando da conversa ou só ouvindo e olha que á mulherada estica o assunto em suas conversas e garotas saindo de casa á noite sempre mexendo o celular ( o vetor de doenças,pois duvido! que alguem passa álcool em gel nesse aparelho) junto de seus pares e as mulheres tambem não tão amáveis uma com as outras,sempre presencio mulheres falando mal uma das outras em fofocas,brigas delas ás vezes por coisa atoa,não estou escrevendo isso por que sou machista ! e por que vejo isso no dia á dia aqui no meu bairro que fica na periferia de São Paulo.
O Corona Vírus quando chegar aqui vai matar meio mundo,o pessoal daqui não está dando á minima para essa doença.

Daniel I. Dutra disse...

Mas se homens obecedessem as orientações da quarentena não haveria filme, rs.

Voltando ao tópico pandemia: um filme que me vem à mente é "Adrenalina" com Christopher Lambert, já resenhado no filmes para doidos.

Tirando a parte fantasiosa do monstro mutante, é um filme que retrata mais ou menos bem um mundo pós pandemia, a saber, fronteiras fechadas, estado repressor, economia em frangalhos, etc. Lembra algo?

Uma pandemia no mundo moderno dificilmente mandaria todo mundo de volta a idade média, mas fortaleceria (e justificaria) estados cada vez mais autoritários.

Já estão até falando em "ditadura do coronavírus". Parece coisa de filme do Albert Pyun, mas no Leste europeu governos já estão o vírus como desculpa para impor estados totalitários.

https://www.dw.com/pt-br/o-medo-de-uma-ditadura-do-coronav%C3%ADrus-na-europa/a-52973954

Daniel I. Dutra disse...

Spektro 72, elas não fazem isso porque são mulheres, mas porque são brasileiras, rs.

É como aquele famoso meme diz: "o brasileiro tem que ser estudado pela NASA".

spektro 72 disse...

Concordo ,com você caro ,Daniel ! Acho que nem á NASA conseguiria estudar o comportamento dos brasileiros diante de qualquer situação .. o país é bom de se morar mais o povinho que aqui habita .. só por deus .

peterson disse...

boa sorte com os Russos https://my.mail.ru/mail/jaqueline.m.c/video/_myvideo/1479.html?from=videoplayer

Felipe M. Guerra disse...

Para quem quiser conferir, o filme está disponível gratuitamente e legendado em português AGORA na plataforma Fantaspoa-at-Home:

https://www.fantaspoaathome.com/fase-7