sábado, 15 de fevereiro de 2020

PARASITE (1982)


O inusitado thriller sul-coreano “Gisaengchung”, aka “Parasite”, de Bong Joon Ho, foi um dos melhores filmes que eu vi em 2019. E, enquanto escrevo estas linhas, fez uma verdadeira rapa na entrada do Oscar, ganhando 4 estatuetas das principais categorias - e não apenas a de Melhor Filme Estrangeiro, mas também uma histórica de MELHOR FILME!

Obviamente, apesar da qualidade inquestionável da obra em questão, não é sobre o “Parasite” de Bong Joon Ho que vamos falar/escrever aqui, e sim sobre um outro filme com o mesmo título, lançado quase 40 anos antes, e que não ganhou nenhum prêmio, embora tenha apresentado ao mundo uma gracinha chamada Demetria Gene Guynes, que estava destinada a se tornar uma grande estrela de Hollywood (embora não com este nome de vovó).

Trata-se de uma produção classe B em que o “parasita” do título não foi usado em sentido metafórico, como no filme coreano, mas sim estupidamente literal. E um inesperado sucesso de bilheteria que praticamente ressuscitou a moda dos filmes em 3-D.

Sim, amiguinhos, estamos falando/escrevendo sobre o famigerado PARASITE do Charles Band!



Produção curiosa que mistura gêneros (filme de monstro, aventura pós-apocalíptica, ficção científica...), mas ao mesmo tempo transpira pobreza em todos os cenários, figurinos e efeitos especiais, PARASITE provavelmente seria outra tralha esquecida do início dos anos 1980 se não fosse por uma inesperada e fortuita soma de fatores.

O projeto nasceu como uma ideia esquisita desenvolvida por dois amigos, Frank Levering e Michael Shoob, durante uma festinha em Hollywood no ano de 1980 – festinha que, pelo jeito, estava chata pra cacete. Entre muitos drinks, e quiçá outras substâncias entorpecentes, a dupla concluiu que “Parasite” era um título genial para um filme de horror, independente de qual fosse a história. Poucos anos antes, “Calafrios”, de David Cronenberg, tinha sido lançado como “The Parasite Murders” em algumas salas de cinema (embora seu título original fosse “Shivers”), e isso pode ter inspirado Levering e Shoob.



Corta para o set de um filme B de horror chamado “The Alchemist”, em 1981. O diretor original da bagaça, Craig Mitchell, teve um ataque de pânico e abandonou a produção após apenas alguns dias de filmagem. Sobrou para o produtor, um certo Charles Band, terminar o trabalho - que ele assinou com o pseudônimo “James Amante” por não ter muito orgulho do resultado. 

Filho de um veterano produtor e diretor de cinema (Albert Band), Carlinhos tinha 30 anos na época e vinha seguindo os passos do velho. Desde meados dos anos 1970, ele produzia eficientes filmes B de horror e ficção científica como “Armadilha para Turistas” (1979, de David Schmoeller) e “Laserblast - Alienígenas na Terra” (1978, de Michael Rae), que depois chegavam aos cinemas de bairro e drive-ins em parceria com diferentes distribuidoras.



Volta-e-meia, Band filho se arriscava na direção, mas até o início da década de 1980 não tinha créditos muito expressivos. Além de um primeiro filme considerado perdido, que ele dirigiu sob pseudônimo em 1973, a outra única obra que Charles assinou foi o esquecido “Crash – O Engavetamento do Século”, de 1977 (uma história de carro assassino que saiu antes do livro “Christine”, de Stephen King).

E agora, contra a sua vontade, ele também havia se transformado no diretor do problemático “The Alchemist”, um filme que seria mantido engavetado até 1983 para que se tentasse salvar na edição (quem já viu sabe que não rolou).





Mas pelo menos para algo “The Alchemist” serviu: durante as gravações que foi obrigado a comandar, Band papeou muito com o roteirista deste, Alan J. Adler, sobre o projeto que pensava em fazer a seguir: um filme de ficção científica com um futuro caótico tipo “Mad Max”, o original. E aí Adler lembrou dos amigos 
Levering e Shoob e de seu projeto sobre parasitas, e convenceu Band que poderia muito bem juntar os dois argumentos em um único filme com aquele título charmoso! Nascia PARASITE

Percebendo potencial na coisa, Band resolveu oferecer o projeto ao produtor e distribuidor Irwin Yablans, cuja empresa Compass International Pictures havia feito, poucos anos antes, um dos filmes independentes de maior sucesso da história: o “Halloween” de John Carpenter. Diz a lenda que PARASITE estava inicialmente orçado em 6 milhões. Corta de lá, corta de cá, noves-fora, o filme custou apenas 800 mil dólares – e a economia APARECE na tela, como atesta a parede do “laboratório”, nas imagens abaixo, toda forrada com aquelas caixinhas de hambúrguer usadas por lanchonetes fast food!



Foi Yablans quem surgiu com a ideia de gênio de filmar PARASITE em 3-D, um processo que teve vida curta nos anos 1950 e, ao longo da década de 1970, ficou associado ao cinema pornográfico (conforme você pode ler neste longo artigo). O produtor/distribuidor sabia que o gimmick iria valorizar uma produção mequetrefe como a que se desenhava...

O timing foi perfeito: em 1981, um obscuro western coproduzido por americanos, espanhóis e italianos (“Comin’ at Ya!”, de Ferdinando Baldi) foi filmado em três dimensões e atraiu uma nova geração de espectadores para as salas de cinema, só pela curiosidade de assistir um filme com aqueles velhos e desconfortáveis óculos de cartolina de lentes azul e vermelha.

Sem querer querendo, Yablans e Band ressuscitaram o filme de horror tridimensional, mostrando que era a ferramenta ideal para dar sustos e “jogar coisas” na cara do espectador, do monstro no teto pingando gosma na lente da câmera a pessoas sendo jogadas ou caindo em direção ao espectador (imagens abaixo).




PARASITE já começa com o clichê do título que “sai da tela”, e que tenta potencializar o efeito 3-D desde os primeiros segundos.

Em seguida, uma cena que mistura pesadelo e flashback introduz a situação básica do longa: um parasitólogo, que trabalhava num projeto para desenvolver parasitas como armas de guerra para uma poderosa corporação, foi infectado pela sua própria criação ao tentar destruí-la, e agora carrega o monstro no próprio organismo. O bicho está crescendo dentro do hospedeiro e é mantido sob controle com injeções periódicas; caso contrário, pode simplesmente arrebentar o peito do protagonista e fugir, à la “Alien – O Oitavo Passageiro” (que deve ter sido uma grande inspiração para os realizadores).



O médico chama-se Paul Dean, e é interpretado pelo inexpressivo Robert Glaudini, outro reaproveitado diretamente do elenco do fracassado “The Alchemist”. Trata-se de uma curiosa escolha para o papel principal, porque ele transpira passividade e sofrimento – embora seu físico algo frágil ajude a compor um personagem que está sendo devorado por dentro pela ação de um parasita mutante assassino.

Num prólogo curioso, vemos Dean zanzando por um cenário devastado ao volante de uma ambulância. A estrada parece estar deserta a não ser por um ou outro veículo destruído. Ele chega a uma vila igualmente deserta, habitada por tarântulas e cascavéis que caminham livremente, onde gritos abafados chamam sua atenção.




Ali, numa velha cabana abandonada, uma jovem seminua está para ser violentada por dois sujeitos. Dean intercede e senta porrada nos dois, numa cena bizarra editada em câmera lenta mesmo quando nada de muito excitante está acontecendo. Os rivais são jogados para atravessar vidraças e janelas em 3-D, o que deve ter ficado muito divertido quando visto no cinema.

O protagonista então liberta a garota, mas ela não parece muito agradecida e corre atrás dos seus “estupradores” para continuar o joguinho em outro lugar. Este, meus amigos, é o estranho universo de PARASITE...



Aos poucos, mas sem explicar muita coisa, o filme vai nos dando indicações de que sua história se passa num universo em colapso. Para começo de conversa, estamos no “futuro” – o protagonista passa por uma placa onde consta o ano de 1992, hoje passado distante, mas à época ainda dez anos à frente. Não bastassem as estradas e cidades desertas, a sociedade parece ter ido para o vinagre.

Quando um desconhecido oferece café a Dean, ele pergunta surpreso: “Café de verdade?”. Num hotel improvisado, é informado de que há eletricidade “das sete às nove”. E ao reabastecer sua ambulância num posto de gasolina, a placa indica valores absurdos: 40 dólares por litro de gasolina e 30 por diesel, combustíveis que HOJE (2020) custam, em média, 2,50 e 2,28 dólares por litro nos Estados Unidos, respectivamente. (Pode ter sido uma referência à dramática crise energética dos anos 1970, quando o Ocidente tinha ficado sem petróleo e o preço do barril importado dos países árabes subiu às alturas.) 

O frentista também se recusa a receber o pagamento em cédulas de dólares; apenas moedas de prata ou outros bens para troca, tipo jóias e relógios, são válidos nesse futuro pouco otimista.



Dean acaba parando numa cidadezinha razoavelmente habitada chamada Joshua, onde consegue alugar um quarto na pensão administrada por uma velha ex-atriz, que vive se queixando da dificuldade para encontrar maquiagem naqueles tempos.

Curiosamente, a personagem é interpretada por uma velha ex-atriz de verdade, Vivian Blaine, à época com 60 anos e num dos seus últimos trabalhos no cinema. Quando jovem, ela fez relativo sucesso na Broadway e em comédias musicais da Hollywood dos anos 1940-50, e nos áureos tempos chegou a dividir a cena com Marlon Brando e Frank Sinatra em “Guys and Dolls” (1955). Será que o papel foi escrito como uma homenagem a Vivian, ou apenas adaptado para sê-lo quando ela entrou no elenco?



Além de “hotel”, a pequena Joshua tem ainda uma cafeteria administrada por Collins (Al Fann). É ali que descobrimos que a única comida existente é a enlatada, além de receber alguma informação sobre que diabos aconteceu com o mundo: Collins diz a Dean que abandonou Nova York quando as “bombas atômicas começaram a cair”, evidenciando que estamos em algum cenário pós-apocalíptico, no que restou da Terceira Guerra Mundial – contra quem, ou quem ganhou, jamais descobrimos.

Os demais habitantes da cidadezinha são uma gangue de jovens delinquentes liderados por Ricus (Luca Bercovici). E uma jovem chamada Patricia Welles, que vive numa pequena fazenda onde planta seus próprios limões, e é uma autêntica estranha-no-ninho naquele universo de canalhas.



A mocinha, como eu já havia informado, é interpretada por uma jovem de 19 anos chamada Demetria Gene Guynes, que ficaria conhecida no mundo artístico como Demi Moore. Enquanto PARASITE era filmado, a atriz estava casada com o colega de elenco e roqueiro Freddy Moore, que lhe deu o sobrenome que ela usa até hoje.

E embora este não seja seu primeiro trabalho como atriz (que foi em papel coadjuvante no
esquecido dramalhão “Escolha do Destino”, de 1981), certamente é seu primeiro filme de destaque, com o nome “Demi Moore” aparecendo em segundo lugar nos créditos iniciais!



Voltando ao filme: o pobre Dean só quer um pouco de paz no seu novo quarto alugado para poder trabalhar em algum antídoto que possa livrá-lo da indesejada presença do parasita na própria barriga. Num cilindro metálico fechado, ele leva um segundo monstrengo que pretende usar como cobaia para desenvolver uma cura para a sua situação.

Só que a gangue de Ricus acredita que, por ele ser médico, deve ter drogas em seu poder. Ao roubarem o tal cilindro, acabam libertando um parasita faminto por carne humana fresca, que começa a se alimentar do elenco secundário e vai crescendo a cada nova vítima (tipo o Alien).



E como desgraça pouca é bobagem, paralelamente a tudo isso temos um outro homem misterioso zanzando pelo cenário pós-apocalíptico num carrão ao estilo “futurista anos 1980” (que, grosso modo, não passa de uma Lamborghini). Vestindo terno e gravata – o que obviamente indica que ele é malvado –, Wolf (James Davidson) é um sinistro agente da Xyrex, a megacorporação para a qual Dean trabalhava, e para quem desenvolveu o parasita em primeiro lugar.

Wolf pretende reaver o protagonista ou o monstro em seu organismo para a Xyrex poder retomar aquela ideia original de utilizá-lo como arma de guerra – embora as bombas atômicas tenham feito um trabalho bem eficiente, pelo que se vê no filme. O vilanesco agente é cheio de truques, incluindo uma arma laser que literalmente sai da sua manga, e que ele usa como se fosse um sabre de luz do “Star Wars” para decepar mãos e braços, à la Alec Guiness na cena da cantina de “Guerra nas Estrelas”.



PARASITE é um filme visivelmente barato, que se passa exclusivamente à luz do dia (porque filmar em 3-D à noite era complicado e exigia mais produção e dinheiro) e em meia dúzia de cenários arrebentados que talvez já fossem sobras de qualquer outra produção anterior. Apesar da ambientação num futuro pós-guerra atômica, não há grandes esforços da direção de arte para tentar criar este universo, fora alguns parcos detalhes em plástico e uma única pistola laser que parece de brinquedo.

Grosso modo, nem sempre as duas ideias (aventura pós-apocalíptica e filme de monstro) funcionam juntas, algo que também ficaria evidente no clássico trash “Ratos” (1984), de Bruno Mattei. Enquanto a parte “futurista” do filme chega a ser sonolenta, com os personagens zanzando sem muito rumo entre cenários caindo as pedaços, o monstro só dá o ar da graça depois de 40 minutos (num filme que dura 1h20min!!!), exigindo certa paciência e cumplicidade do espectador. E nem poderia ser diferente, considerando a maneira torta como o projeto nasceu da fusão de dois argumentos tão distintos.



Quem aguentar firme vai se sentir recompensado com alguns belos efeitos vagabundos, criados por uma equipe liderada por – vejam só – Stan Winston! Creditado como “criador e designer dos parasitas”, Winston teve aqui um dos seus primeiros destaques no cinema de horror, depois de ter trabalhado com o pai de Charles, Albert, em “Zoltan – O Cão Vampiro de Drácula” (1977). 

Dois anos depois de PARASITE, em 1984, Winston foi trabalhar na equipe de outro filme B de ficção científica... um tal de “O Exterminador do Futuro”. E aí virou um superstar dos efeitos especiais, tendo ganhado inclusive três Oscars da categoria (por “Aliens – O Resgate”, “O Exterminador do Futuro 2” e “Jurassic Park”), antes da sua morte em 2008.



PARASITE basicamente repete os truques com bichos nojentos saltando sobre humanos e grudando ao corpo das vítimas que Ridley Scott e David Cronenberg já tinham usado, na década anterior, em “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Calafrios”, respectivamente. Claro que os efeitos de ambos eram muito mais asquerosos (e profissionais, no caso de Scott), enquanto os parasitas de Charles Band são criaturas simplórias animadas à mão. Segundo o que Band contou numa entrevista à revista Fangoria, em maio de 1982, de três a quatro pessoas operavam o monstro fora do alcance da câmera para dar-lhe alguma expressão e movimento.

O parasita sequer é visualmente original, lembrando o design do Alien em seu estágio ‘chestburster’. Mas há algo de extremanete perturbador na imagem de um bicho gosmento que se desenvolve no interior das suas vítimas, ou que “gruda” externamente em seus corpos para matá-las aos poucos, recusando-se a ser retirado (quando alguém tenta, a criatura enterra ainda mais os dentes na presa).



E as cenas em que o parasita aparece saltando de dentro do corpo (e até do rosto!) de alguém, diretamente em direção à lente da câmera, devem ter ficado incríveis em 3-D. Aliás, quando me lembro do cagaço que levei ao ver “Alien” pela primeira vez, na cena em que o bicho sai de dentro do ovo para grudar no rosto de John Hurt, fico imaginando que sofreria um infarto fulminante caso Ridley Scott tivesse filmado em 3-D, como Band fez aqui.



Vale lembrar que PARASITE provavelmente passaria em brancas nuvens se não fosse pelos tais efeitos em três dimensões – e foi por isso que escrevi lá em cima que o produtor-executivo Yablans foi muito gênio em sugerir que fosse filmado ressuscitando esta técnica.

Desconsiderando o anterior “Comin’ at Ya!”, que era um “ultrapassado” filme de faroeste com equipe e produção estrangeira, PARASITE foi a primeira produção norte-americana filmada em 3-D a chegar aos cinemas naquele início de década de 1980. O pôster anunciava: “The first futuristic monster movie in 3-D”. Já o trailer prometia, talvez com certo exagero: “You will be part of the terror!”.



O filme estreou em 62 salas de Nova York em março de 1982, antecedendo uma enxurrada de produções mais dinheirudas realizadas pelos grandes estúdios, como “Tubarão 3”, “Sexta-feira 13 – Parte 3” e “Spacehunter – Aventuras na Zona Proibida”. A curiosidade pelo formato, já que os jovens da época só tinham ouvido falar nos velhos filmes em 3-D que seus pais ou avós assistiram quase 30 anos antes, levou um grande público aos cinemas, mais preocupado em se divertir com as coisas “saindo da tela” do que com a qualidade da obra.

A jogada funcionou, e só na primeira semana PARASITE já tinha faturado 600 mil dólares (quase o que custou!). A crítica odiou e escreveu, entre outros gracejos, que não adianta fazer um filme em três dimensões quando seu roteiro mal tem UMA dimensão. Mas isso não impediu Band e Yablans de ganharem dinheiro: quando o filme saiu de cartaz, o total arrecadado só nos cinemas dos EUA já somava 6 milhões, e isso sem contar o que rendeu a distribuição em vídeo para o resto do mundo!



“Foi por causa do sucesso de PARASITE que eu consegui fazer ‘Metalstorm’ em 3-D logo depois”, lembrou Charles Band, em entrevista recente à revista Starburst. “Pra ser sincero, eu nunca foi um grande fã de 3-D, isso é apenas um gimmick. Depois de 10 minutos com aqueles óculos, a vontade é de ir ver outro filme. O único motivo para termos filmado PARASITE em 3-D foi o fato de que isso não era feito há muito tempo”.

Ou seja, os realizadores tiveram que correr atrás de recuperar a parte técnica do processo. Randall Larsen, que havia colaborado com a equipe de “Comin’ at Ya!”, foi contratado como “consultor de 3-D”. E o sistema adotado foi o Stereovision, desenvolvido e patenteado na década de 1950 por Chris J. Condon, que vinha sendo usado em filmes safadinhos como “The Stewardesses”, de 1969 – um grande sucesso de bilheteria justamente pelo marketing que prometia (e nem sempre cumpria) sexo em 3-D.

Depois de PARASITE, quando os filmes em terceira dimensão viraram febre, o veterano Condon foi contratado pela Universal para atuar como consultor durante as filmagens de “Tubarão 3” – e, diz a lenda, filmou ele mesmo algumas cenas em 3-D para aqueles jovenzinhos que não entendiam porra nenhuma do efeito. De peitos e pintos para um tubarão tridimensional, isso é o que eu chamo de subir na vida!




Para além das três dimensões, o elenco secundário de PARASITE tem alguns nomes bem curiosos além dos já citados.

Luca Bercovicci, que interpreta o líder da gangue de jovens, fez carreira com Charles Band e três anos depois dirigiu um dos maiores sucessos do produtor: o terror-comédia “Ghoulies” (1985), uma cópia de “Gremlins” que teve três sequências e até hoje mantém uma grande legião de fãs. Luca inclusive abandonou a carreira de ator em filmes B para concentrar-se na de diretor-roteirista.




O rapaz do posto de gasolina é Scott Thomson, que os fãs da série “Loucademia de Polícia” vão lembrar como Copeland, um dos recrutas malvados que se dá mal com Mahoney e sua turma (ele aparece no original e depois voltou, igualmente como vilão secundário, nas Partes 3 e 4).



Já Zeke, um dos punks da gangue de Ricus e a primeira vítima do parasita libertado, é o prematuramente falecido Tom Villard, mais lembrado como o vilão do divertido slasher “Popcorn” (1991). Ele foi um dos primeiros atores a tornar pública sua situação como soropositivo, numa época em que a Aids era vista com muito preconceito e não tinha cura.




De resto, o casting de PARASITE parece ter sido feito na cena punk-rocker de Los Angeles, já que quatro pessoas ligadas a bandas aparecem mais ou menos tempo no filme.

O maridão de Demi, Freddy Moore, àquela altura já tinha passado por várias bandas. Pouco tempo antes, quando era vocalista do grupo The Nu-Kats, ele e a atriz escreveram a quatro mãos o hit “It's Not A Rumour” (1980), que alcançou certa popularidade graças a um videoclipe bem rudimentar exibido na MTV em seus primórdios (a jovem Demi aparecia no vídeo, que você pode ver clicando aqui).

Pouco antes de aparecer em PARASITE, Freddy tinha trocado a Nu-Kats por outra banda chamada Boy Next Door. Demi aparece na foto da capa do único EP gravado por eles (ao lado), lançado em 1982.

Embora não tenha recebido crédito, uma das canções da Boy Next Door toca brevemente no filme quando Ricus e sua turma ligam uma velha vitrola e reclamam que ela só toca “coisa velha”!


Destaque-se que o personagem de Freddy no filme, identificado como “Arn” apenas nos créditos finais, não fede e nem cheira. Este é seu único crédito como “ator”, e aparentemente o visual de Garth, do “Wayne’s World”, com longos cabelos loiros e óculos, foi baseado no roqueiro e ex-Sr. Demi Moore (o casal se divorciou em 1985, embora ela tenha mantido o sobrenome até hoje). Freddy é o distinto cavalheiro imediatamente à esquerda na imagem abaixo. Não sei vocês, mas me parece um grande caso de casting equivocado para o integrante de uma gangue pós-apocalíptica, já que o rapaz parece ter saído diretamente do elenco de “A Vingança dos Nerds”, ou da banda Restart!



Também aparecem DUAS integrantes da lendária banda punk de meninas The Runaways. A vocalista Cherie Currie interpreta Dana, outra integrante da gangue pós-apocalíptica, que ganha mais destaque na trama porque se torna uma das vítimas do lazarento parasita.



E Cheryl Smith (abaixo), conhecida nos circuitos alternativos pelo nome de guerra “Rainbeaux” Smith, aparece brevemente como aquela moça seminua que leva bem a sério o papo do “relaxa e goza” no começo do filme. Em 1979, durante curto espaço de tempo, Cheryl foi baterista da The Runaways. Como atriz, participou de uma cacetada de filmes de culto, inclusive como protagonista no maravilhoso “A Maldição de Lemora” (1973).



PARASITE ainda marca uma das primeiras colaborações de Charles Band com dois nomes que o acompanhariam pelo resto da sua filmografia. O primeiro, obviamente, é o irmão músico Richard Band, responsável pela trilha sonora que, lá e cá, apresenta ecos da atmosfera que ele usaria mais tarde, e melhor, em “Reanimator”. O segundo é Peter Mannogian, que foi assistente de direção aqui e mais tarde assumiria a função de diretor em diversos filmes de baixo orçamento produzidos por Band, do ótimo “Território Inimigo” (1987) ao genérico “Brinquedos Diabólicos” (1992).



Revendo PARASITE hoje, em versão “normal” sem os efeitos em 3-D, algumas cenas parecem bem bagunçadas, com uma série de objetos roubando a atenção em primeiro plano (vide imagem acima para ter uma ideia) enquanto o diálogo ou a ação acontece mais ao fundo. Obviamente, graças à profundidade de campo e aos efeitos em três dimensões, os óculos de lentes azul e vermelha davam a impressão de estes objetos em primeiro plano estarem DESTACADOS da tela, mas a magia se perde vendo em “2-D”.

Band e cia fizeram de tudo para valorizar o 3-D, de mãos e armas sendo apontadas diretamente para a lente até um ataque de cobra! E há pelo menos um momento antológico em que a câmera vai se aproximando de um homem que foi empalado por um cano metálico, até que a ponta do cano - a esta altura já “fora da tela” - começa a escorrer o sangue da vítima, algo que deve ter ficado MUITO LEGAL em três dimensões!



Considerando o que o futuro reservaria para Charles Band (uns 200 filmes vagabundos sobre bonecos assassinos, bongs diabólicos e até monstros de biscoito!), PARASITE é levado muito a sério, sem as piadinhas ou o humor proposital que caracterizam suas produções mais modernas. Já o humor involuntário abunda, tipo o resgate nunca explicado do personagem principal do QG dos vilões, que acontece no intervalo entre duas cenas e um abrupto fade-in, sem jamais ser mostrado. Ou o buraco que o parasita abre no tórax do protagonista e que deveria matá-lo, mas é esquecido em segundos e fica por isso mesmo (ele apenas fecha a camisa e continua o que estava fazendo).

Espectadores generosos podem até encontrar algumas boas ideias perdidas num todo insosso. A melhor delas é o protagonista sofrido que precisa conter uma ameaça mortal que leva no próprio corpo. O uso de som de alta frequência para destruir os parasitas (uma ideia que seria retomada, recentemente, em filmes dinheirudos como “Marte Ataca!” e “Um Lugar Silencioso”) também é um detalhe bem bolado, embora Dean tenha esta epifania literalmente do nada, aos 45 do segundo tempo.



A falta de dinheiro obrigou Band e CONTAR muita coisa através dos seus personagens ao invés de MOSTRAR, e confesso que gosto da maneira como a história vai se revelando aos poucos, sem aquele clichê do letreiro inicial que explica o que está acontecendo, ou como exatamente funciona aquele “futuro distópico de 1992”.

O roteiro também usa com criatividade a ideia de, no futuro, uma única e inescrupulosa megacorporação (a tal Xyrex) aparentemente controlar os Estados Unidos. Seu logotipo é onipresente: está em outdoors pela estrada, na fachada do posto de gasolina, na lateral da ambulância, nos equipamentos levados pelo Dr. Dean, e até na pele de seus funcionários – um detalhe que parece remeter àquela clássica passagem do Livro do Apocalipse da Bíblia, de que o Anticristo governaria o planeta e perseguiria quem quer que não tivesse a sua “marca” na testa ou na mão direita.



A maneira como os funcionários da Xyrex passam por cima de tudo e de todos para assegurar que o monstrengo viva tempo suficiente para ser transformado em arma de guerra lembra bastante a revelação final de “Alien – O Oitavo Passageiro” e o próprio “Aliens – O Resgate”, lançado quatro anos depois de PARASITE.

E, como todo bom filme B oitentista, este obviamente encerra com uma puta explosão de verdade e um dublê verdadeiro pegando fogo de verdade, pois não havia o conforto da computação gráfica!




No ano seguinte (1983), Charles Band fundou sua própria produtora e distribuidora: a mítica Empire Pictures, que realizou obras-primas como “Reanimator” e “Do Além” (ambos dirigidos por Stuart Gordon). PARASITE ainda era um sucesso que o produtor lembrava com carinho, portanto soa lógico o anúncio de que um dos primeiros projetos da novíssima Empire seria justamente... PARASITE 2!!!

Um anúncio de página inteira publicado na Variety (ao lado) anunciava o projeto e garantia que as filmagens começariam em agosto daquele ano, o que nunca aconteceu. Nenhum diretor estava creditado ao projeto, mas já era anunciado o retorno de Robert Glaudini como protagonista, e aparentemente o mesmo trio de roteiristas do primeiro filme iria trabalhar na sequência. Demi Moore, àquela altura, já era carta fora do baralho.

O mais curioso é a frase em destaque no anúncio (“27 floors of living, creeping, shocking 3-D”), dando uma pista de que a sequência se passaria na cidade grande, e não num cu de mundo como o original. Talvez o Dr. Dean voltasse aos laboratórios da sinistra Xyrex para destruir o que restou dos parasitas (afinal, nesse tipo de filme sempre resta algum para ameaçar o mundo). E embora a ideia de monstros à solta num arranha-céu possa remeter a algo como “Duro de Matar” (feito anos DEPOIS), é bom lembrar que o já citado “Calafrios”, do Cronenberg, era exatamente sobre parasitas atacando num edifício.

O que quer que Band e sua trupe estivessem preparando para esta sequência ficou no limbo dos projetos nunca realizados – e sabe-se que Charles Band teve muitos.

Rodeada por um elenco em geral inexpressivo (embora inegavelmente colorido e curioso), é a jovem Demi Moore quem mais brilha em PARASITE – além dos óbvios efeitos sangrentos em 3-D, claro. Sua personagem é absurda (uma menina meio riponga que se revela valentona quando necessário), mas lhe deu a oportunidade de apontar e disparar armas, levar e desferir socos, além de salvar a pele do fragilizado “herói” mais de uma vez. Curiosamente, a personagem tinha sido escrita com outra atriz em mente (Patrice Townsend).



Demi saiu rapidinho do universo do cinema B, ganhando uma personagem fixa no seriado (novelão, para alguns) “General Hospital”, um grande sucesso da TV norte-americana. E dali partiu para produções maiores: quase ficou com o papel principal de “Flashdance” em 1983 (que acabou com a hoje esquecida Jennifer Beals), e finalmente mostrou sua versatilidade em obras como o hilário “Feitiço do Rio” (1984, de Stanley Donen) e o drama “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” (1985, de Joel Schumacher), que catapultou sua carreira para o topo.

Em 2019 ela lançou sua autobiografia, chamada “Inside Out: A Memoir”, e confesso que tive curiosidade de ler pelo menos o comecinho, só para ver se ela conta algo sobre estas suas primeiras experiências no cinema com Charles Band.

O que se sabe com certeza é que a atriz não tem lá muito orgulho deste seu primeiro grande crédito: no mesmo ano de 2019, ao ser entrevistada sobre o lançamento do livro no programa The Late Late Show with James Corden, Demi respondeu, sem titubear, que PARASITE era o pior filme que tinha feito na vida (e sim, estamos falando de alguém que apareceu em bombas como “Striptease”, “Nada Além de Problemas” e “Proposta Indecente”).



E embora oficialmente PARASITE seja sua única associação com Charles Band e suas picaretagens, existe uma lenda urbana que sugere outra – e bizarra – parceria entre os dois, que nunca chegou a ser devidamente confirmada (e me pergunto se ela fala disso em sua autobiografia): a de que Band teria fotografado e utilizado a figura da atriz, de costas e seminua, no antológico pôster do rape-and-revenge “I Spit on Your Grave” (1978), de Meir Zarchi, que ele distribuiu em VHS (confira aqui e tente reconhecer se é mesmo a bunda da Demi Moore).

Seria lindo se fosse verdade. Afinal, quem diria que a mesma Demi Moore que esculpiu vasos de cerâmica com Patrick Swayze, no inofensivo clássico da Sessão da Tarde “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, estaria associada de alguma forma com um dos filmes mais apelativos já produzidos?



Trailer de PARASITE


7 comentários:

Daniel I. Dutra disse...

Segundo Band (tá, ele não é uma fonte muito confiável) o roteiro de Ghoulies foi escrito antes de Gremlins.

Parasite teria tudo para ser um clássico se caísse nas mãos de um diretor mais talentoso, porque a ideia era muito promissora.

Essa é uma constante na carreira de Band: filmes promissores (Robot jox, Parasite, laserblast, etc) que ficam abaixo do que poderiam ter sido.

spektro 72 disse...

Quem nunca começou á sua carreira vitoriosa no cinema sem ter feito uma produção B ou ate mesmo Z dependendo do conteúdo do filme em questão,hein ?
Demi Moore tambem fez o piloto da serie estrelada por Lee Van Cleef " O Mestre" em 1984 pouco tempo depois a carreira dela alavancou .. mas eu nunca achei ela uma grande atriz ,sempre achei á suas performances de seus filmes bem limitada ,ela chama mas atenção pela á beleza do que talento diante das telas .. muito boa essa resenha ,parabéns!
Um abraço de Spektro 72.

Alexandre Carvalho disse...

O homem está on fire!
As resenhas anteriores ainda nem esfriaram!

Leonardo Peixoto disse...

Parece que Demi Moore realmente é a mulher que aparece no cartaz de “I Spit on Your Grave” .

Anônimo disse...

Por qual motivo quando comento com minha conta do Google não aparece aqui? Fui o primeiro a comentar assim que saiu teu post...

Ótimo texto,baita filme! Não vou repetir todo texto aqui, mas ótimo você ter voltado pilhado!

Abraços do Lucius Ramone!

Anônimo disse...

Eu acho que o Parasita está comendo meu cérebro porque parece que está encolhendo.

@jb1969cinema disse...

Ótimo texto, como sempre, Felipe! Meu trash movie vimeo.com/324407596