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terça-feira, 20 de março de 2012

A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO (1984)


Sexta-feira passada (16/03/2012) estreou nos cinemas brasileiros a comédia "Projeto X - Uma Festa Fora de Controle", sobre uma festa de adolescentes que, como o título já diz, sai "um pouquinho" do controle e se transforma num autêntico caos. O trailer é muito divertido, mas enquanto não vou aos cinemas conferir, prefiro relembrar com os leitores do FILMES PARA DOIDOS uma outra festinha fora de controle, esta realizada há quase 30 anos.

Trata-se de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO, um clássico da TV aberta e uma daquelas comédias apelativas como o cinema norte-americano parece ter desaprendido a fazer nestes tempos modernos.

E o mais curioso: se "Projeto X" é sobre adolescentes e as doideiras típicas da faixa etária, A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO retrata personagens ADULTOS que perdem completamente a compostura e portam-se de maneira pior que muito moleque por aí.


Como o título original (bem mais apropriado) já anuncia, o filme é sobre uma bachelor party - a tradicional despedida de solteiro. No caso, a despedida de Rick Gassko (Tom Hanks, em seu segundo filme como protagonista), irresponsável motorista de ônibus escolar que recusa-se a crescer, mesmo estando com o casamento marcado com a gata Debbie (Tawny Kitaen, de "Execução Sumária").

A notícia de que Rick vai "se enforcar" pega seus amigos de surpresa, já que todos são solteirões convictos, ainda mais irresponsáveis e imaturos do que ele. Mas os safadões vêem no casório a oportunidade de liberar geral com uma despedida de solteiro de arromba, cheia de, como um dos rapazes anuncia, "garotas, armas, fogos de artifício, prostitutas, drogas e álcool, tudo aquilo que faz a vida valer a pena!".


A exemplo do que acontece no recente "Projeto X", a despedida de solteiro de Rick acabará saindo do controle: a festa acontece num hotel de luxo, decorado com balões feitos com camisinhas e tudo mais, e a barulheira no quarto (tem até uma banda tocando ao vivo!!!) acaba atraindo outros hóspedes. Não demora para que a pequena e particular bachelor party se transforme na festa mais animada da cidade!

Mas não fica só nisso, e o roteiro escrito por Pat Proft e pelos irmãos Bob e Neal Israel (este último também diretor) é incrível pela quantidade de personagens e situações paralelas que consegue criar. Além da despedida de solteiro em si, Rick enfrentará o ódio do sogro Ed Thompson (George Grizzard), um ricaço que não aprova o casório; a marcação cerrada da própria noiva e de suas amigas, desconfiadas do que está acontecendo na festinha, e até um ex-namorado ciumento e possessivo de Debby, o playboy Cole (Robert Prescott), que quer matar Rick para ter sua amada de volta!


A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO mereceria um prêmio só pela quantidade de frases de efeito (que lá fora chamam de one-liners) disparadas por todos os personagens, mas principalmente por Hanks, que solta piadinha atrás de piadinha e nunca parece falar sério.

E outro prêmio pela coragem de baixar o nível até o limite do bom gosto, coisa que a maioria das comédias recentes parece ter medo de fazer (a exceção é o ótimo "Se Beber Não Case", e que mesmo assim parece bem inofensivo perto desse filme aqui).


Impossível não citar alguns dos momentos antológicos da película, como a participação do canastrão Brett Clark ("Delta Force Commando") no papel de um stripper super-dotado que tem a sugestiva alcunha de "Nick The Dick" (alguém lembra como era o nome na versão nacional???).

Pois o pinto extralarge do Sr. The Dick é usado como recheio de cachorro-quente numa sacanagem armada por Rick e sua turma durante o chá-de-panela da noiva Debby. E se só a reação de Hanks e seus amigos ao tamanho do "dick" de Nick já é hilária (fotos abaixo), o desfecho da piada provocaria risos até no meio de um velório!


Nesses tempos lazarentos em que se busca o "politicamente correto" a todo custo, e não dá mais para brincar com certas coisas, é ótimo ver uma comédia de uma época em que sexo com prostitutas e consumo de doses cavalares de drogas são atitudes comuns e até mesmo incentivadas, sem qualquer juízo de valor. Praticamente todos os personagens do filme transam com as profissionais em algum momento da festa, e há até um "buffet" de entorpecentes para o uso dos convivas!

Acredite ou não, o roteiro foi inspirado nos acontecimentos registrados na despedida de solteiro do próprio co-roteirista e produtor Bob Israel, o que dá uma bela ideia das maluquices que esses sujeitos aprontavam também na vida real...


Mas o mais interessante de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO é a química entre os atores que interpretam os amigos de Tom Hanks: você realmente acredita que aqueles caras todos são parceiros há anos. Eu gosto muito de algumas cenas simples que demonstram essa afinidade entre eles, como quando um dos rapazes joga batatas-fritas nos outros para chamar a atenção durante uma discussão.

É muito difícil que um filme consiga passar a ideia de que os atores REALMENTE são amigos de longa data, e não completos estranhos interpretando amigos de longa data. Esse aqui é um dos melhores exemplos de como fazer isso de forma convincente.


Por sinal, o jovem Hanks, ainda no árduo caminho para o estrelato (ele só estouraria mesmo em "Quero Ser Grande", de 1988), pode até ser o protagonista, mas também é o personagem mais xarope do filme: seu Rick Gassko só é imaturo e "adultescente" ATÉ que começa a despedida de solteiro, pois nesse momento revela-se um completo mala, aquele típico cara legal e certinho que não pretende passar dos limites e nem curtir as últimas horas de solteirice com uma puladinha de cerca.

Esse moralismo exagerado e empurrado goela abaixo no espectador ficou ainda mais evidente nas comédias recentes, como o pavoroso "Passe Livre". Mas A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO já traz uma cena um tanto difícil de engolir: por mais que sua noiva e futura esposa Debby seja uma gata, dá vontade de matar o Tom Hanks por recusar a lindíssima Monique Gabrielle, que, no papel de uma ex-namorada ainda apaixonada, oferece-se a ele completamente pelada!


Se Hanks faz o tipo certinho, pelo menos os seus parceiros de folia estão entre os sujeitos mais irresponsáveis já vistos numa comédia - e o fato de serem todos adultos, e não adolescentes com hormônios em ebulição, torna tudo mais divertido!

O rol de doidos conta com O'Neill (Adrian Zmed), um fotógrafo que, na sua primeira cena no filme, faz de tudo para enquadrar os seios fartos de uma pobre mãe solteira que leva seu filho pequeno para ser fotografado; o médico e irmão mais velho de Rick, Stan Gassko (William Tepper), louco para afogar as mágoas do casamento infeliz com as prostitutas da festa; o agenciador de shows Gary (Gary Grossman), que protagoniza uma das melhores cenas do filme ao apaixonar-se perdidamente por um travesti; o junkie Brad (Bradford Bancroft), que passa a festa toda tentando cometer suicídio e é o mais chato dos personagens principais; o garçom Ryko e o mecânico tarado Rudy.


Algumas palavrinhas sobre estes últimos dois: Ryko é interpretado por um jovem Michael Dudikoff, o próprio "American Ninja", ainda antes da fama. Ele viraria astro no ano seguinte, 1985, graças à aventura de artes marciais da Cannon Films.

Já Rudy, o mecânico tarado e alucinado interpretado por Barry Diamond (de "A Reunião dos Alunos Loucos"), rouba o filme toda vez que aparece. Seu personagem porco e grosseirão lembra muito John Belushi em "Clube dos Cajafestes", o que nos leva à informação de que...

...o roteirista e diretor Neal Israel reviu diversas vezes a clássica comédia de John Landis para tentar aprender como reconstruir aquele clima caótico, repleto de piadas soltas e personagens engraçados.


Pois algumas cenas de Rudy são tão parecidas com comportamentos de Belushi em "Clube dos Cafajestes" que provavelmente o próprio Belushi teria sido convidado para A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO caso não tivesse morrido de overdose alguns anos antes. Vejam, por exemplo, o momento em que Rudy come vários doces em um mercadinho sem pagar, semelhante ao antológico momento alimentar de John Belushi em "Clube dos Cafajestes"; ou a cena em que Rudy cospe cerveja inesperadamente na cara de uma garota, comportamento que se esperaria de Belushi no filme de Landis; ou, ainda, Rudy quebrando uma garrafa de uísque na própria cabeça, outro comportamento tipicamente belushiano.

Há um outro momento hilário "emprestado" diretamente de "Clube dos Cafajestes", envolvendo um jumento morto no elevador do hotel em que acontece a festa de Rick - uma citação confessa ao cavalo morto na sala do diretor da escola, no filme de Landis.


Acontece que, numa das cenas mais divertidas e ultrajantes de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO, uma stripper (Toni Alessandrini, que era stripper também na vida real) é levada até o quarto de hotel para um show de zoofilia com um jumento!!! Mas, enquanto a moça dança e tira a roupa, o pobre quadrúpede começa a comer anfetaminas e cheirar linhas de cocaína dispostas sobre a mesa para os convidados da festa, morrendo logo depois de overdose e sendo "descartado" no elevador do hotel!

(Esta cena engraçadíssima da overdose do jumento foi cortada em quase todas as exibições do filme na TV aberta, e portanto a morte do animal ficava meio inexplicada, como se tivesse acontecido por ataque cardíaco ou algo do gênero!)


E por falar em TV aberta, é interessante destacar que a dublagem nacional de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO subvertia o sentido de diversos diálogos para eliminar o incentivo à promiscuidade e ao uso de drogas que o filme originalmente fazia! Bem que alguém que tem o filme gravado da TV poderia colocar as cenas dubladas no YouTube para melhor comparação, mas, de memória, eis os piores momentos da versão em português:

No início do filme, quando Rick transporta um grupo de alunos de uma escola de freiras, há uma cena em que uns garotos jogam pôquer com apostas em dinheiro no chão do ônibus. Para diminuir um pouco a exibição de menores praticando jogo ilegal, a Globo dublou uma das crianças falando algo como "Olha, tem dinheiro aqui no chão!".


Em outra cena, o personagem do junkie oferece drogas a Hanks. Na dublagem nacional, ele dava uma de bom rapaz e dizia: "Eu não vou tomar essa porcaria com você!". No diálogo original, Hanks dispensava a oferta simplesmente dizendo que era falta de educação dividir drogas!

Finalmente, no auge da despedida de solteiro, um dos rapazes abre a porta e dá as boas-vindas a mais pessoas não-convidadas, anunciando, na versão dublada: "Gatinhas à esquerda, rapazes à direita". Na versão original, a divisão era bem diferente: "Drugs to the right, hookers to the left"!!!


A única parte fraca de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO é a conclusão. O filme bem que poderia terminar com o desfecho da festa propriamente dita, mas há uma última cena de ação e perseguição, quando Cole sequestra Debby e Rick o persegue em seu ônibus escolar. O conflito termina com uma luta num cinema 3-D (que exibe cenas de "Mercenários das Galáxias", produzido por Roger Corman).

Essa conclusão com uma grande perseguição ou cena de ação é uma infeliz característica dos roteiros de Neal Israel, que fez a mesma coisa em "Loucademia de Polícia", "Academia de Gênios" e "Trânsito Muito Louco" (este ele também dirigiu). Eu particularmente acho esta "ação final" dispensável, e quebra o clima de comédia burlesca construído até então.


Por sinal, A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO é provavelmente o grande filme de Israel, que foi trabalhar na TV depois do fracasso de seus projetos dos anos 90 (como o insuportável "Surfistas Ninjas", com Rob Schneider e Leslie Nielsen). Um triste fim para o cara que fez comédias simpáticas como "Trânsito Muito Louco" e "Loucademia de Combate".

Outro que não sobreviveu à ação do tempo foi Adrian Zmed, cujo personagem tem bastante destaque neste filme e, aparentemente, estava sendo talhado para também virar astro de cinema - na época, ele estrelava o popular seriado de TV "T.J. Hooker", ao lado de William Shatner! Mas, apesar do cara mandar bem, não deu certo e, graças a escolhas erradas nos anos seguintes, a promessa de astro virou um esquecido coadjuvante de luxo.


Eu escrevi várias vezes, ao longo dessa resenha, que as comédias de hoje ficaram afrescalhadas, e seus realizadores parecem ter medinho de pegar mais pesado - como era regra lá atrás, nos anos 80. Uma bela forma de constatar isso na prática é fazer uma sessão dupla deste filme aqui com o recente "American Pie 3 - O Casamento" (2003), que também retrata uma despedida de solteiro e também tenta "pegar pesado", mas parece até produção da Disney perto do que Tom Hanks e sua turma aprontaram lá em 1984...

Ainda engraçadíssimo mesmo depois de 30 anos e pelo menos umas trinta reassistidas (de minha parte), A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO só tem um grande defeito: deixa todo mundo com a maior vontade de participar de uma despedida de solteiro como aquela de Rick Gassko e seus amigos.

Infelizmente, todos os meus amigos que cometeram a imbecilidade de casar também cometeram a dupla imbecilidade de não fazer qualquer festa de despedida de solteiro, muito menos algo animado e selvagem no nível dessa do filme. É de chorar...


PS 1: Em 2008, Neal Israel, Bob Israel e Pat Proft comprovaram que estão no fundo do poço ao assinarem o roteiro de "A Última Festa de Solteiro 2 - Tentação Final", uma abominável sequência de seu famoso sucesso, dirigida pelo novato James Ryan. Nenhum dos atores do original deu as caras, a continuação não tem graça nenhuma e ainda demonstra como o politicamente correto tomou conta das comédias modernas, já que não há nenhuma piada no nível da overdose do jumento ou de Nick The Dick.

PS 2: A cena do jumento foi "homenageada" com uma piada patética no igualmente abominável "O Balconista 2" (2006), de Kevin Smith, outra prova incontestável de como os ianques desaprenderam a fazer comédias divertidas.


ATUALIZAÇÃO: Numa incrível coincidência, A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO foi exibido num Corujão da Globo apenas dois dias após a publicação desta resenha. Dei uma conferida para ver se pegava outros casos de tradução porca. Além de todos os já citados (com a correção de que "Drugs to the right, hookers to the left" na verdade é "Quem gosta pra esquerda, quem não gosta pra direita"), praticamente todos os "hookers" foram substituídos por "gatinhas". "Nick The Dick" é "Nick, O Gostosão" na versão brasileira, e dê uma checada nas seguintes traduções puritanas: "Um brinde às grandes mulheres do mundo" (para "To girls with big tits!"), ‎"Parece que foi ontem que eu te ensinei a namorar, menina" (para "Seems like yesterday I showed you how to give a blowjob", tornando sem sentido a reação de surpresa das pessoas ao redor), e "Rapaz, olha só o rosto daquela mulher ali!" (para "Look at the cans on that bimbo!").

Trailer de A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO



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Bachelor Party (1984, EUA)
Direção: Neal Israel
Elenco: Tom Hanks, Tawny Kitaen, Adrian Zmed, George
Grizzard, Robert Prescott, William Tepper, Barry Diamond,
Michael Dudikoff e Monique Gabrielle.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SATAN'S LUST (1971)


Satanismo era assunto da moda entre o final dos anos 60 e início da década de 70. Afinal, nesse período havia um grande interesse pelo ocultismo graças às experiências com drogas e sexo livre promovidas pela geração dos hippies, aos cruéis assassinatos cometidos pela "família" de Charles Manson (supostamente sob influência demoníaca) e à fundação da Igreja de Satã (Church of Satan) pelo "bruxo" Anton LaVey, promovendo "cerimônias satânicas" regadas a sexo que atraíram até celebridades de Hollywood, como a atriz Jayne Mansfield.

Esse interesse pelo tema logo chegou ao cinema. Se até então Hollywood tinha produzido poucos filmes sobre satanismo, algo mais comum a produções europeias (como o clássico "Night of the Demon" e as produções da Hammer), a partir de 1968, com "O Bebê de Rosemary", o Diabo e seus seguidores ganharam uma nova cara: os satanistas não viviam mais em algum período obscuro do passado, mas em plena Nova York contemporânea. "O Exorcista" (1973) e "A Profecia" (1976) fecharam aquela que alguns pesquisadores consideram "a grande trilogia sobre Satã no cinema".


Um fenômeno curioso e ainda não decentemente pesquisado daquela mesma época é que o satanismo também chegou aos filmes pornográficos explícitos. Afinal, dentro daquele velho conceito da Igreja Católica de que sexo era pecado, nada mais natural do que associá-lo de uma vez ao Diabo, certo?

Realizadas nos anos 70, produções X-Rated como "Satan's Sex Slaves" (1971), "The Devil in Miss Jones", "Sons of Satan" (ambos de 1973), "Nuda per Satana" (1974), "Devil's Ecstasy" e "The Devil Inside Her" (ambos de 1977), entre outras, mostravam com muita imaginação os tormentos do inferno ou a libertinagem dos cultos satânicos, e sempre com bastante sacanagem, é claro - como o Diabo gosta!


SATAN'S LUST é uma obra desse período bizarro, e um legítimo pornô hardcore sobre satanistas tarados. O que torna esse filme um tantinho mais curioso do que os anteriormente citados é o fato de ele trazer, no elenco, um jovem George "Buck" Flower mandando ver em cenas explícitas.

Se não caiu a ficha, George "Buck" Flower é aquele eterno figurante gordinho, barbudo e com jeitão de mendigo e bebum (veja a foto ao lado).

Não por acaso, ele geralmente aparecia nos papéis de mendigo, bebum ou ambos em filmes como "De Volta Para o Futuro", "Eles Vivem" e "Fuga de Nova York".

O que pouca gente sabe é que, antes da "fama" como figurante de luxo, "Buck" era ator pornô em produções com títulos sugestivos como "Suckula" e esse SATAN'S LUST!

Produzido apenas dois anos depois dos famigerados crimes da família Manson, e portanto no auge do interesse dos norte-americanos pelo satanismo, SATAN'S LUST é um daqueles filmes extremamente obscuros que só sobreviveram ao esquecimento por verdadeiro milagre (ou, nesse caso, diabrura), e numa cópia bem ruim e danificada pela ação do tempo.


Entretanto, não restaram muitas informações sobre a equipe técnica da película, de maneira que não se sabe quem produziu, quem escreveu e nem mesmo quem dirigiu o negócio. Mesmo sobre o elenco sabe-se muito pouco, e o próprio "Buck" Flower já morreu e não pôde dar mais informações sobre os créditos da equipe técnica.

Sem créditos iniciais ou finais, SATAN'S LUST conta a história de um culto satânico (óbvio) liderado por um bruxo chamado Manheim Jarkoff (!!!), interpretado, é claro, pelo nosso amigo "Buck" Flower, ainda jovem e sem barba nem barriga, mas já feio pra cacete (foto abaixo). "Jarkoff", caso você não tenha percebido, é uma corruptela de "jerk off", expressão em inglês para masturbação. Por aí já se percebe o nível da coisa.


Pois Jarkoff é proprietário de um pequeno estúdio de cinema de Hollywood chamado... hã... Satanic Films (!!!), com o qual atrai incautas candidatas a estrelas para usá-las em orgias satânicas e logo depois sacrificá-las para o Coisa Ruim. Seus asseclas são Boris (Ron Darby, que fez vários pornôs hardcore e softcore no período) e Edith (atriz não-identificada), uma bruxa com 200 anos de idade, mas corpinho de vinte e poucos.

Quando o filme começa, o trio de satanistas sacrifica Carla (atriz não-identificada), que é violentada e queimada viva. Para não levantar suspeitas, é encenada a sua morte num acidente de carro. Mas uma colega de escola da vítima, Pamela Goodright (Judy Angel), começa a desconfiar do caso porque Carla nunca havia aprendido a dirigir, e portanto não poderia morrer num acidente de automóvel. Faz sentido.


Pamela reencontra um ex-namorado dos tempos de colégio, Wayne (Rob Santos, muito parecido com Robert "Cannibal Holocaust" Kerman, que também era ator pornô), e o convence a ajudá-la a investigar a morte misteriosa da amiga em comum. Isso depois da trepadinha básica de reencontro, é claro.

O casal acaba chegando rapidamente à Satanic Films, porque isso aqui é filme pornô e a história precisa se desenrolar dinamicamente para dar tempo para as trepadas. Quando Jarkoff e seu culto vêem-se ameaçados com a possibilidade dos pombinhos procurarem a polícia, resolvem agir: Edith seduz Wayne enquanto Pamela é eleita para ser sacrificada na próxima orgia satânica do clã!


Parte filme de horror, parte pornozão e trash por completo, SATAN'S LUST tem tudo para agradar a admiradores dos três estilos.

No tocante ao terror, temos trilha sonora satânica, ruídos típicos do gênero (como trovões, uivos e gritos de desespero, lembrando até os créditos iniciais de "O Despertar da Besta", de José Mojica Marins), violência moderada, rituais satânicos com velas pretas, esqueletos e chicotadas e até uma participação especial do próprio Satã!


No tocante ao pornô, até que o rósqui-fósqui é bem animado: se as orgias satânicas são brochantes a ponto de amolecer até pinto de vítima de priapismo, especialmente pela participação do folclórico "Buck" Flower, as transas entre a linda Judy Angel e o bigodudo Rob Santos valem uma olhada. Em momento impagável, a moça diz ao amante que não vai sair de casa "sem tomar café da manhã"; o garanhão entende e enfia o pinto na boca da loira para um boquete, até sair o aguardado "leitinho".

Judy já não era mais nenhuma garotinha na época das filmagens (aparentava ter passado dos 30), e isso dá um charme especial à sua participação. Afinal, ao contrário dos pornôs atuais, que dão destaque às ninfetinhas, na época era comum filmar mulheres mais maduras "em ação".


Um ano antes, a loira havia integrado o elenco de "Mona, The Virgin Nymph" (1970), que alguns pesquisadores alegam ser a primeira produção X-Rated a ser exibida comercialmente nos cinemas (título que, para outros pesquisadores, pertence a "Garganta Profunda", de 1972). Sua carreira no hardcore não foi muito mais adiante, e, segundo o IMDB, seu último crédito foi "New Girl in Town", pornô de 1972 com John Holmes. Seu paradeiro, como o de muita gente dos primórdios do X-Rated, é desconhecido.

Finalmente, no tocante ao trash... Bem, digamos que é impossível chegar ao final de SATAN'S LUST sem ter gargalhado muito e inúmeras vezes. Uma das coisas mais impressionantes é a trilha sonora deslocadíssima, que inclui até versões instrumentais de sucessos dos Beatles (não, eu duvido que eles pagaram direitos autorais).


E quero ver você segurar o riso quando tocar "I Want To Hold Your Hand" exatamente no momento em que a câmera dá um close no dedinho de "Buck" Flower passando vaselina no orifício anal de Judy Angel (o que dá um sentido totalmente novo à parte da música que diz "And when I touch you I feel happy inside"!!!).

Outra cena de embasbacar é aquela em que a bruxa Edith, apaixonada por Wayne, vai até o rapaz em busca de sexo. Mas ele demonstra sofrer de ejaculação precoce, acaba muito rápido e deixa a garota na mão. Sem se abalar, ela pega uma vela e começa a se masturbar enfiando a dita cuja na vagina. Nesse momento, é inexplicavelmente punida pelo mestre Jarkoff e morre, transformando-se num esqueleto... ainda com a vela enfiada naquele lugar!!!


No final, a polícia chega na hora H ao estúdio da Satanic Films e evita o sacrifício de Pamela. Jarkoff e Boris tentam fugir, mas seu carro cai de um precipício (o acidente não é mostrado porque a produção não tinha grana para tanto). Um policial (ator não-identificado) explica que encontraram o corpo de Boris, mas não o de Jarkoff. Entretanto, salienta, "nenhum ser humano poderia ter sobrevivido ao acidente", dando uma pista sobre a verdadeira identidade do líder dos satanistas. E quando Pamela acusa um repentino enjoo de gestante, a conclusão deixa escancarada a homenagem a "O Bebê de Rosemary".

Numa época em que os pornôs ainda eram rodados em película de 35mm (ou 16mm, como parece ser o caso aqui), e com umas câmeras enormes que não permitiam a mesma agilidade das handycams digitais de hoje, SATAN'S LUST surpreende com alguns elaborados e inusitados ângulos de câmera, filmados de baixo para cima e de cima para baixo, somados a efeitos com filtros coloridos e lente olho-de-peixe.


Em alguns momentos, até me senti vendo um filme antigo do Zé do Caixão - aliás, alguns enquadramentos esquisitos me lembraram o já citado "O Despertar da Besta", o grande clássico do mestre Mojica. Por isso é uma pena que não se saiba quem é o diretor do filme. Terá sido o próprio Coisa Ruim?

Seja por isso, seja pela curiosidade de se ver um X-Rated com ares de horror e aquele charme típicos dos pornôs pioneiros dos anos 70, seja pela presença trash de George "Buck" Flower mandando brasa em cenas explícitas, SATAN'S LUST é mais um "filme para doidos" com louvor, recomendadíssimo para todos os amantes de curiosidades e podreiras cinematográficas.

E, pela presença do próprio, pode-se dizer até que é um trashão como o Diabo gosta!


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Satan's Lust (1971, EUA)
Direção: ???
Elenco: Judy Angel, George "Buck"' Flower, 

Rob Santos, Ron Darby e algumas 
atrizes não-identificadas.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Glauber, o mau perdedor


É muito fácil odiar Glauber Rocha, considerando os filmes chatos e super-estimadíssimos que ele dirigiu, mas principalmente a quantidade de asneiras que falou durante sua curta vida. Como todo gênio de araque, o cineasta baiano teve uma trajetória meteórica: da ascensão ainda jovem (graças ao sucesso de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de 1964, dirigido quando ele tinha apenas 24 anos) à queda com o retumbante fracasso de "A Idade da Terra" (1980), foram apenas 16 anos.

Antes da queda definitiva, sua carreira já vinha capenga há alguns anos, mais precisamente desde que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes com "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", em 1969. Depois desse filme, Glauber faria uma série de produções desconexas e insuportáveis que ninguém quis ver, como "O Leão de Sete Cabeças", "Câncer" e "Cabeças Cortadas".

Mas "A Idade da Terra" era o seu projeto dos sonhos. Glauber pensava nele como uma superprodução a ser filmada em quatro continentes (África, Ásia, América e Europa), ao custo de muitos milhões de dólares e com Jack Nicholson no elenco. Muitos problemas e brigas depois, acabou rodando seu épico no Brasil mesmo, em diversos Estados, com grana da Embrafilme e um elenco de caras conhecidas (Jece Valadão, Norma Bengell, Tarcísio Meira...).

O resultado é um escalafobético e insuportável "épico" com intermináveis 140 minutos (o diretor sonhava com uma versão final de cinco horas, então ainda precisamos comemorar essas malditas 2h20min!). É inútil tentar seguir ou sequer entender a história, pois não há narrativa, apenas uma colagem de imagens. Glauber até sugeria que os rolos fossem exibidos em ordem aleatória!

"A Idade da Terra" foi um merecido fiasco de bilheteria e público, com uns poucos puxa-sacos ficando do lado de Glauber e defendendo essa bomba. O baiano morreria anos depois sem dirigir mais nada.

Quando seu sonhado épico estreou no Festival de Veneza, em 1980, e não ganhou nenhum prêmio, o chato metido a gênio subiu nas tamancas e fez um protesto contra os jurados do evento, esbravejando pérolas da idiotice como "Aqui, privilegiada é gente como Anghelopulos, um convencional que não chega aos pés de Cacoyannis, e Fassbinder, que faz um cinema neonazista. Esses filmes que ganharam o Leão de Ouro merecem um Leão de m...", ou ainda "Este júri foi pago pela Colúmbia, pela Gaumont e pela RAI para premiar diretores de segunda classe como (Louis) Malle e (John) Cassavetes. Esta premiação é uma vergonha. Vergonha para a Bienal de Veneza, vergonha para o Partido Comunista, o Partido Socialista e a intelectualidade italiana!".

Ou seja: além de mala, além de chato, além de arrogante, além de fanfarrão a quem chamaram de gênio e infelizmente ele acreditou, Glauber Rocha também era um mau perdedor! O que segue é um texto escrito pelo próprio pós-Festival de Veneza e enviado aos jornais brasileiros. É de rolar de rir com a petulância do infeliz.


"UM AVISO AOS INTELECTUAIS
'A Idade da Terra', que estreará no Rio e em São Paulo brevemente, entrará em choque com várias camadas de público, despertando seguramente contundentes polêmicas, dando curso ao escândalo do Festival de Veneza, quando enfrentei 1.600 telejornalistas mundiais e platéias corrompidas pelo cinema comercial de Hollywood, da Gaumont e de outras multinacionais do 'audyo vyzual'. Antes da 'batalha', quero solicitar, sobretudo aos yntelektuais que serão implacáveis, condições para que o combate se desenrole democraticamente, alimentando mesmo com vômitos e diarréias o fértil deserto de nossas 'aberturas fygueyrediztas'.

Condições:
1) Que o público e críticos, assim como os funcionários da Embrafylme, fiscalizem a projeção nos cinemas Caruso (Rio) e Top-Center. 'A Idade da Terra' possui ymagem e som de excepcional qualidade técnyka – já estados nos projetores de Veneza. Acontece que no Brazyl, forças 'ocultas' (?) sabotam freqüentemente projeções de filmes nacionais. Lentes dos projetores são desfocadas. O som é deformado para alto ou baixo. Bobinas são projetadas fora de ordem. Para que o públiko veja e ouça bem, é necessário que as projeções sejam perfeitas na medida do possível. Somente assim o públiko poderá curtir o extazextetyko (polytyko) de 'A Idade da Terra'. Espero que mesmo o eleytorado inimigo exerça esta patrulhagem junto a todos os cinemas do Brazyl, onde 'A Idade' e outros filmes brasileiros sejam exibidos: exigir qualidade na projeção da Ymagem e do som, procurando identificar as 'forças ocultas' interessadas em impedir o curso ascendente do cinema Nacyonal popular.

2) Espero que o filme seja criticado pelos intelectuais com o mínimo de preconceitos que existem em torno, sub e sobre 'Glauber Rocha'. São legendas alimentadas por Deus e pelo Diabo que proclamam aos 4 ventos minhas virtudes e males. Aos 41 anos me vejo mytyfykado – o que é tragipoetyko – porque o myto sofre do mal de ser odiado ou amado não pelo cerne vital (ou medula sexual) mas pelas várias e diferentes versões que a sociedade constrói e divulga a seu respeito. Lamento que apenas uma centena de yntelektuais brasileiros tenham consciência da importância revolucionária de minha obrakynematographyka.

A imprensa, via artigos de jornalistas teleguiados, procura me pintar como louko, marginal, fracassado, corrupto fascista e todos estes adjetivos tentam esconder a criatividade de meus filmes. A minoria de jornalistas que revela a realidade sobre Glauber Rocha é acusada de escrever sob pressão dos 'meus ferrões', expressão usada por meu dileto Alberto Dines em Pasquim, malhando a cobertura de Pedro Del Picchia nesta Folha e Albino Castro ('O Globo') que presenciaram a 'Batalha de Veneza' e elogiando a cobertura de Veja e outros jornais que não enviaram correspondentes. Com este gesto paranóico, porque travestido de 'honesto', o doce Alberto Dines, ataca o certo e defende o errado, estabelecendo condições subjetivas para condenar o réu.

E assim por diante: Pasquim, Movimento, Istoé e outros publicam calúnias a meu respeito – não hesitando em pedir minha cabeça no prato de Salomé. Para os redatores de Istoé – numa reportagem sobre os 'Idolos do Brazyl' – 'A Idade da Terra' é um ponto baixo na minha vida. Inédito no Brazyl, transforma-se no filme mais discutido do mundo, projetando-se como a superstar de Veneza, e os intelectuais de Mino Carta resolvem queimar 'A Idade da Terra' ainda no Berço. Além do mais, o gráfico desconhece a metade de minha obra, subverte declarações, tudo num estilo constrangedor para uma revista que se quer de primeira classe. A estes exemplos recentes poderia juntar outros passados e prever futuros 'golpes baixos' que pretendem me destruir.

Para ver e ouvir 'A Idade da Terra' são necessários 'olhos abertos e ouvidos purificados'.

Estabelecidas estas 2 condições – uma teknyka (a qualidade da projeção) e outra polytyka (despi-vos dos preconceitos) – adianto algumas informações sobre 'A Idade da Terra' e seu explosivo lançamento internacional em Veneza.

Este é o meu décimo-quinto filme e foi co-produzido por minha 'Glauber Rocha Comunicações Artísticas' e a Embrafilme. Custou 20 milhões de cruzeiros, mais ou menos 300 mil dólares, que é o preço de 'Bye Bye Brazyl', 'Gaijin' ou 'Pixote'. Assim, os patrulheiros não poderão dizer que gastei fortunas da Embrafilme. Trabalhei como qualquer proletário da Kynobraz, recebendo salário inferior ao de Lula que, espero, encontre tempo para ir ao Cine Top Center ver e ouvir 'A Idade da Terra'.

A superprodução que aparece nas telas foi tecida com unhas e dentes durante 2 anos e meio de obsessiva luta contra o subdesenvolvimento. Contei com a colaboração do diretor geral da Embrafilme, Celso Amorim, que participou da finalização do filme com o máximo de interesse criativo, desmentindo recentes declarações do meu querido Zé Celso Martinez, segundo as quais 'a Embrafilme tinha se convertido no substituto da censura'. Afirmo que nenhuma empresa do mundo, estadual ou privada, produziria um filme como 'A Idade da Terra', concedendo ao diretor absolutas liberdades autorais dentro dos limites financeiros e técnicos do atual estágio da indústria cinematográfica latinamerikana.

Também não fui motivado pela censura governamental, nem pela autocensura, e muito menos pela tendência 'populista-comercial' de 'atingir o público'. Isto são desculpas de artistas inseguros ou corrompidos. 'A Idade da Terra' é o resultado fílmico de Glauber Rocha aos 41 anos. Encerra o Ciclo do Jovem Glauber, expressão cara àqueles que curtem 'o jovem Marx'. Este ciclo começa com 'Pátio' (58) e se desenvolve revolucionariamente em 'Barravento' (62), 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' (64), 'Amazonas, Amazonas' (65), 'Maranhã 66' (66), 'Terra em Transe' (67), 'Câncer' (68), 'O Leão de 7 Cabeças' (Áfrika, 70), 'Cabeças Cortadas' (Espanha, 70), 'História do Brazyl' (Cuba, 72, com Marcos Medeiros), 'Claro' (Itália, 75), 'Di Cavalcanti' (77) para, à maneira das cúpulas barrokas, concluir a kathedral com 'A Idade da Terra'.

Kathedral, monumento, paynel cineterceyromundista que, modesta e humildemente (como o Aleyjadinho) significam a luta de um brasyleyro de 41 anos pela criação de uma sociedade redimida da nossa tragédya kolonyal.

Para quem conhece minha trajetória ficcional, resumo que, em 'A Idade da Terra', 'o cangaceiro mata Antonyo das Mortes (o ymperialysmo polyvalente) e o povo triunfa na utopya'.

Intelectuais me acusam de 'alegórico' e 'metafórico'. Ignorantes do significado poétyko das 'alegorias' e das 'metáforas' – simbólicos signos gerados exclusivamente por grandes artistas como Maiakovzky, Meyerhold, Eisensteyn, Joyce, Pound, Proust, Jorge de Lima, Portinari, Di, Villa Lobos ou Jorge Amado – estes defensores do 'realismo comercial' contribuem com a censura e com o ymperyalyzmo cultural que castra as elites brasileiras as reduzindo ao estado de impotência que as impede de lutar pela libertação econômica do Brazyl e do Terceiro Mundo. O cinema teatral e romanesco é o que se vê em todas telas do mundo. Histórias mentirosas contadas segundo as regrinhas dramáticas das multinacionais. A recuperação estética dos anos 70, consagrou cine-astas restauradores e neo-acadêmicos como Bernardo Bertolucci, Nagisa Oshima, Louis Malle ou este telenoveleiro revisionista que é o polaco Zanussi, literatos investidos de um poder cinematográfico defendido por críticos submetidos ao processo de destruição do discurso poético revolucionário. A exceção de Godard, do argentino Fernando Solanas ('A Hora dos Fornos' e 'Os Filhos de Ferro'), de outro argentino Fernando Birri, do yank Robert Kramer ('Milestones', 'Guns'), dos alemães Werner Schroeter e H. Sylberberg ('Hitler'), do cinema novo Brazyleyro, do soviético Andrey Tarkovsky ('Solaris', 'Stalker'), do cubano Thomaz Gutierrez Alea ('Memórias Del Subdesarollo'), do espanhol Carlos Saura, do italiano Carmelo Bene e pouquíssimos outros cineastas – tudo que se produz hoje no cinema é lixo teatral romanesco.

Isto denunciei em Veneza. O escândalo repercutiu. A crítica revolucionária mundial consagrou 'A Idade da Terra'. A crítica conformista, desinformada e policial o atacou. Foi o mesmo com 'Terra em Transe', 1967, quando os mais famosos críticos deram bola-preta ao filme que os converteria anos depois.

Estou aberto ao debate mas venham preparados. Agradeço à equipe técnica e aos atores que me ajudaram a fazer 'A Idade da Terra'. FYM."



Agora, diz aí: será que alguém REALMENTE tem saudade do Glauber Rocha?