WebsiteVoice

sábado, 13 de março de 2010

O EXECUTOR FINAL (1984)


Você já parou para pensar como o mundo seria triste caso o australiano George Miller não tivesse dirigido o clássico "Mad Max 2" em 1981? Primeiro, porque não teríamos esse FILMAÇO (um dos tantos na minha lista de melhores filmes de todos os tempos). Segundo, porque não teríamos todas aquelas maravilhosas e engraçadíssimas cópias trash de "Mad Max 2" feitas na Itália, como "Guerreiros do Futuro", de Enzo G. Castellari, e "O Guerreiro do Mundo Perdido", de David Worth (dois filmes que merecem seu espaço em breve aqui no FILMES PARA DOIDOS).

Nenhuma delas chega aos pés do original, é claro. Mas convenhamos que parecia relativamente fácil fazer clones de "Mad Max 2", pois não só os italianos, como também muitos norte-americanos e até outros australianos, investiram nas suas "versões genéricas". O visual pós-apocalíptico garantia até certa economia aos realizadores, já que poderiam usar cenários semi-desmontados e figurinos esfarrapados, além de veículos em cacarecos.


O EXECUTOR FINAL é uma destas inúmeras cópias trash italianas do clássico de George Miller. A diferença para as outras é que a trama, escrita por Roberto Leoni (de "A Cruz dos Executores"), não tem cara de clone de Mad Max e traz pouquíssimos elementos das aventuras pós-apocalípticas. A bem da verdade, o roteiro parece ter sido adaptado apenas para faturar em cima da onda, e as poucas cenas "pós-apocalípticas" destoam do resto do filme, como se tivessem sido incluídas de última hora no roteiro apenas para transformá-lo em mais uma aventura do gênero.

E é justamente isso que torna o filme hilário. O EXECUTOR FINAL já começa com a tradicional narração explicando como nosso mundo foi destruído por bombas nucleares - narração esta que se desenrola sobre o maior número de cenas de arquivo que os produtores conseguiram encontrar, de explosões atômicas a fotos de cidades devastadas na Segunda Guerra Mundial, e até a erupção de um vulcão! A coisa é tão bizarra que vale até postar aqui o vídeo do YouTube, para que vocês possam (re)ver e se emocionar:

O Apocalipse com cenas de arquivo


O narrador explica que a terra pós-apocalíptica acabou dividida em duas castas: uma com mais grana (claro!) vivendo nos subterrâneos, e outra lazarenta obrigada a viver na superfície, e contaminada pela radiação. Como uma forma de acabar com o problema dos humanos contaminados, explica o narrador, os ricaços lá do subterrâneo resolveram criar temporadas de caça. Você não leu errado: exóticos caçadores especializaram-se em subir à superfície para divertir-se caçando os humanos radioativos e acabando com a raça deles, para que não possam se reproduzir e continuar espalhando seus genes podres pela terra devastada.

Quando finalmente a história começa, encontramos o herói Alan Tanner, um cientista, sendo transportado do mundo subterrâneo à superfície. Alan é interpretado pelo austríaco William Mang, o mais próximo de um clone do Kurt Russell (em alta na época por causa dos filmes de John Carpenter) que os italianos conseguiram encontrar.

Descobriremos mais tarde que o herói é um cientista condenado injustamente a virar presa dos caçadores da superfície, assim como sua namorada (Cinzia Bonfantini). Ele descobriu que a contaminação terminou e que as pessoas da superfície não precisam mais ser exterminadas. Mas é claro que os fãs das caçadas humanas não querem que este "pequeno detalhe" chegue aos ouvidos do povo... Melhor mandar o cientista sabichão para a superfície como alvo!


Quando a trama sai do metrô para a superfície, o universo de "Mad Max 2" se mescla com o do clássico "The Most Dangerous Game", de 1932 (que influenciou, entre outros filmes, "O Alvo", de John Woo). Afinal, o herói e alguns outros humanos desafortunados servirão como caça para um grupo de exóticos caçadores vestindo o típico figurino pós-apocalíptico trash desse tipo de filme (muito couro preto, fitas na cabeça, adornos com pontas de metal...), ou mesmo as roupas que sobraram das obras anteriores da produtora (uma das moças usa um vestido que parece saído de algum épico sobre o Império Romano, por exemplo)

Os líderes dos caçadores são Edra (Marina Costa, no primeiro dos seus dois filmes) e Erasmus (Harrison Muller Jr.). Depois que os vilões cercam e exterminam um grupo de humanos, Alan e sua garota acabam capturados. Um dos caçadores estupra a moça, que depois é morta.


Já Alan foge e é atingido com um tiro, mas sobrevive e recupera-se nas mãos de um ex-policial chamado Sam (Woody Strode!). Pelos próximos 20 minutos, Sam dá uma de mestre Miyagi e treina Alan para a sua vingança. As cenas de treinamento, usando fogo e arame farpado, estão entre as melhores do filme.

Clássico da era de ouro do VHS no Brasil (saiu pela distribuidora Hipervídeo com uma capinha ridícula reaproveitada do pôster de "Assalto à 13ª DP", de Carpenter), O EXECUTOR FINAL é trash, absurdo, mal-dirigido e por isso mesmo engraçadíssimo. Embora não tenha a violência necessária, em comparação com outros clones italianos de "Mad Max 2", não faltam nudez e baixaria, com cenas de sexo, estupro e a nudez constante das estrelinhas Margit Evelyn Newton (que todos lembrarão de "Predadores da Noite", de Bruno Mattei) e Maria Romano (figurinha carimbada dos filmes italianos de mulheres na prisão).

O veterano Strode, nome conhecido dos western spaghetti (fez até "Era Uma Vez no Oeste"!), aparece em cena durante uns 15 minutos, e mesmo assim é a melhor coisa do filme.


Quando Strode não está, resta ao espectador rir das cenas de ação frouxas e da pobreza geral da produção. Por falar nisso, percebi grandes semelhanças entre os cenários, figurinos e instrumentos usados no filme (inclusive as armas de quatro ou cinco canos usadas pelos vilões) com aqueles que aparecem no clássico trash "Ratos", do Mattei, filmado no mesmo ano de 1984. Será que foram rodados simultaneamente, reaproveitando os mesmos elementos de cena? Eu apostaria 10 centavos que sim.

Vale destacar que todas as cenas com Woody Strode foram reutilizadas, cinco anos depois, em outra bagaceirice da Terra da Bota, "Bronx Executioner", dirigido por Vanio Amici em 1989. Cerca de 50% desse filme é formado pelas cenas de O EXECUTOR FINAL. Inclusive Strode nem precisou pisar no set nesta filmagem de cinco anos depois, e foi apenas redublado! O tipo de picaretagem que os italianos adoravam fazer...


Mais divertido no início do que quando descamba para a batida trama de vingança, O EXECUTOR FINAL tem alguns elementos que só confirmam a fama trash que recebeu desde o seu lançamento, como o péssimo e afetado vilão interpretado por Muller Jr.

Os realizadores até tentaram lhe dar alguma sofisticação: ele está sempre vestido de negro da cabeça aos pés, tem uma motocicleta estilosa, uma espada samurai e até aparece jogando xadrez consigo mesmo em certa cena. Mas não adianta: a suspeitíssima echarpe branca que o sujeito usa, e seus discursos medonhos (chamando os humanos contaminados de "animais"), afundam qualquer tentativa de criar um vilão sério.


Isso, mais a quantidade absurda de imbecilidades e bobagens ao longo da trama (incluindo uma cena de "condicionamento mental" à la "Laranja Mecânica"), transformam o que era para ser um filme pós-apocalíptico numa bizarra comédia involuntária. Principalmente por causa da noite em que o quartel-general dos vilões é invadido por Alan, que mata um deles. Ao encontrar o cadáver, o nosso amigo da echarpe branca ordena aos companheiros: "Alguém invadiu a casa. Vamos dormir e amanhã procuramos por ele!". Isso sim que é avaliar as prioridades...

Não dá para não perceber, ainda, o excesso de câmera lenta nas cenas de ação, à la Enzo Castellari. A menção do nome do mestre não é gratuita: acontece que o diretor de O EXECUTOR FINAL, Romolo Guerrieri, é tio de Enzo.

Pena que, ao contrário do sobrinho, Romolo utilize o recurso sem qualquer critério ou noção de estilo, colocando em câmera lenta até mesmo o que não precisa. Isso sem contar as exageradas piruetas feitas pelos dublês em meio às explosões - coisa de circo, como você pode ver na imagem abaixo!


Ruim em vários sentidos, divertido em outros tantos, e até bem-feitinho em alguns momentos, O EXECUTOR FINAL é aquele legítimo FILME PARA DOIDOS que sempre acaba encontrando o seu público, mesmo que esteja muito abaixo do padrão dos clones italianos de "Mad Max 2". Como eu escrevi lá no começo, parece uma historinha qualquer adaptada de última hora para o universo do filme de George Miller, e isso se percebe claramente.

O negócio é relaxar e rir muito com a quantidade de bobagens, deleitar-se com as belíssimas italianas de peitos de fora (principalmente Margit, uma musa esquecida) e surpreender-se com a precariedade da vingança do herói incompreendido Alan, já que quase todos os vilões de quem ele quer se vingar são mortos por outras pessoas que não ele!!! Bela vingança, hein?

Melhor sorte em "O Executor Final 2"!

Treinamento ninja em O EXECUTOR FINAL


*******************************************************
The Final Executioner/L'Ultimo
Guerriero (1984, Itália)

Direção: Romolo Guerrieri
Elenco: Woody Strode, William Mang,
Marina Costa, Harrison Muller Jr., Margit
Evelyn Newton e Maria Romano.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Um Oscarizado Dia Internacional da Mulher


Quer homenagem melhor para o Dia Internacional da Mulher (8 de março) do que Kathryn Bigelow faturando todos os grandes prêmios na entrega do Oscar 2010, com seu "Guerra ao Terror"? Eu cantei a pedra ainda no ano passado, ao escrever que o filme não podia ficar de fora da entrega do Oscar, mas confesso que não esperava tantas estatuetas e nem a vitória desta bela cineasta de 59 anos nada aparentes.

Fazia muito tempo que eu não assistia a cerimônia, mas alguma coisa me fez ficar ligado na Globo ontem até madrugada, apesar da atrocidade que era aquela tradução simultânea titubeante (por que não tem tecla SAP para ouvir o original em inglês nessas horas?). Creio que o que me motivou a suportar o Oscar 2010 foi o desejo ardente de que "Guerra ao Terror" faturasse pelo menos alguns prêmios que todo mundo julgava já nas mãos de "Avatar".

Aliás, nunca torci tanto CONTRA um filme como neste caso (nem quando "Pulp Fiction" concorreu com "Forrest Gump"). Eu estava torcendo para que "Guerra ao Terror", "Bastardos Inglórios" e até "Distrito 9" rapelassem todas as estatuetas que muitos apostavam que ficariam com os bichinhos azuis do espaço sideral, representando a vitória do baixo orçamento e das boas idéias contra as superproduções faraônicas e descartáveis - enfim, esse cinema fast-food tão bem representado por "Avatar".

Amigos e amigas, confesso que foi de lavar a alma ver Kathryn arrasar James Cameron ao vivo, faturando quase todas as estatuetas. E até soltei um grito de felicidade quando "Guerra ao Terror" foi anunciado como Melhor Filme. Parecia até torcedor comemorando gol. Afinal...

* AVATAR - 500 milhões de dólares
* GUERRA AO TERROR - 11 milhões de dólares
* Ver a cara de pastel do megalomaníaco James Cameron enquanto sua ex-mulher faturava todos os principais prêmios da noite com um filme que custou uma mixaria - NÃO TEM PREÇO!

E é até irônico que a primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Diretora esteja à frente de uma obra repleta de "filmes de menino", que nem parecem ter sido dirigidos por uma moça, como "Caçadores de Emoção", "Estranhos Prazeres" e o próprio "Guerra ao Terror" - aliás, a obra de Kathryn é digna de retrospecto.

(Só estou tentando entender como é que um longa quase que inteiramente feito por computador ganha o Oscar de Melhor Fotografia que deveria ficar no mínimo com "Bastardos Inglórios", mas assim é Hollywood!)

Pois bem, chega de Oscar. Fica aqui minha singela homenagem a outras mulheres que nunca receberam e provavelmente nunca receberão o Oscar (algumas por motivos óbvios). Se faltou alguma, podem me xingar através dos comentários.


AGNIESZKA HOLLAND
O Jardim Secreto (The Secret Garden, 1993, EUA)


AMY HECKERLING
Picardias Estudantis (Fast Times at
Ridgemont High, 1982, EUA)



AMY HOLDEN JONES
Slumber Party - O Massacre (The Slumber Party
Massacre, 1982, EUA)



BARBARA PETERS
Humanóides das Profundezas (Humanoids from
the Deep/Monster, 1980, EUA)



CARLA CAMURATI
Carlota Joaquina - Princesa do Brasil (idem, 1995, Brasil)


DEBORAH BROCK
Massacre 2 (Slumber Party Massacre 2, 1987, EUA)


JANE CAMPION
Fogo Sagrado (Holy Smoke!, 1999, EUA/Austrália)


JENNIFER CHAMBERS LYNCH
Encaixotando Helena (Boxing Helena, 1993, EUA)


JOAN MICKLIN SILVER
Loverboy - Garoto de Programa (Loverboy, 1989, EUA)


KRISTINE PETERSON
Criaturas 3 (Critters 3, 1991, EUA)


LENI RIEFENSTAHL
O Triunfo da Vontade (Triumph des
Willens, 1935, Alemanha)



LENI ALEXANDER
O Justiceiro - Em Zona de Guerra
(Punisher: War Zone, 2008, EUA)



LILIANA CAVANI
O Porteiro da Noite (Il Portiere di Notte, 1974, Itália)


LINA WERTMÜLLER
Por um Destino Insólito (Travolti da un Insolito
Destino Nell'azzurro Mare d'agosto, 1974, Itália)



MARLEEN GORRIS
A Excêntrica Família de Antonia (Antonia, 1995,
Holanda/Bélgica/Reino Unido)



MARY LAMBERT
Marcas de uma Paixão (Siesta, 1987, EUA)


PATRICIA ROZEMA
Quando a Noite Cai (When Night is Falling,
1995, Canadá)



PENELOPE SPHEERIS
Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne's World, 1992, EUA)


PENNY MARSHALL
Quero Ser Grande (Big, 1988, EUA)


RACHEL TALALAY
Tank Girl - Detonando o Futuro (Tank Girl, 1995, EUA)


RANDA HAINES
Os Filhos do Silêncio (Children of a Lesser God, 1986, EUA)


SALLY POTTER
Orlando - A Mulher Imortal (Orlando, 1992,
Reino Unido/Holanda/França/Itália/Rússia)



SOFIA COPPOLA
Encontros e Desencontros (Lost in Translation,
2003, EUA/Japão)



SUSAN SEIDELMAN
Procura-se Susan Desesperadamente
(Desperately Seeking Susan, 1985, EUA)



SUZANA AMARAL
A Hora da Estrela (idem, Brasil, 1985)



PS: Eu ia colocar o MICHAEL CIMINO na relação só de sacanagem, mas me garantiram que aquela história de que ele teria mudado de sexo para viver como mulher em Paris é apenas lenda urbana...

terça-feira, 2 de março de 2010

Uma chance para filmes boicotados - Final


Depois de duas semanas de folga (voltando a São Paulo, colocando as coisas em dia...), retorno às atualizações do FILMES PARA DOIDOS e ao prometido último capítulo da minha saga de sangue, suor e lágrimas desenterrando filmes outrora boicotados por motivos diversos.

Nesta terceira e última leva, deixarei minhas impressões sobre filmes mais antigos que eu nunca tive coragem de ver antes, sobre um novo cujas críticas me assustaram, e também sobre dois popularíssimos filmes nacionais que, mea culpa, eu nunca tive interesse nenhum em assistir - pelo menos não na íntegra.

E reitero o convite para que os nobres visitantes que comentam nos posts deixem também as suas próprias listas de filmes boicotados. É sempre interessante saber quais são as obras que os outros se recusam a assistir pelos motivos mais diversos.

Continuemos...



Vamos começar chutando cachorro morto: TUBARÃO 4 - A VINGANÇA (Jaws 87 - The Revenge, 1987, EUA. Dir: Joseph Sargent) é tão ruim quanto eu sempre ouvi dizer/li que era, se não mais. E olha que eu gosto até do "Tubarão 3-D"! Percebe-se claramente que os produtores estão espremendo o bagaço de um produto já esgotado, e que não há a mínima história para contar, mas mesmo assim o filme e o roteiro têm um clima pomposo e egocêntrico de tragédia grega - percebe-se claramente que TODOS estão levando a coisa mais a sério do que deveriam. E talvez justamente por isso "Tubarão 4" seja no mínimo engraçado! É tanta pretensão, seriedade e bons atores (como Michael Caine) pagando mico em papéis atrozes que não tem como não rir da desgraça alheia!

O roteiro de Michael De Guzman (quem?) traz de volta boa parte dos personagens do original. Roy Scheider não quis reprisar o papel que fez nas partes 1 e 2, por isso o roteirista matou seu personagem, mas resgatou a esposa, agora viúva (Lorraine Gary), colocando-a no papel de protagonista, junto com seus filhos. Provavelmente sob efeito de drogas, De Guzman também meteu no balaio um tubarão inteligente (WTF???) que quer se vingar da família Brody por ter matado seus colegas tubarões nos outros filmes da série. Não é invenção: durante o filme inteiro, o tal tubarão pensante faz de tudo para atacar APENAS os integrantes da família, inclusive segue-os quando eles vão viajar!!!

Bem, se você conseguiu segurar o riso na parte do tubarão inteligente, certamente não vai conseguir fazê-lo em cenas como a do tubarão atacando um avião (acredite se quiser), ou naquela em que Michael Caine cai na água e em três segundos já aparece sequinho. Mais perdido que cego em tiroteio, o diretor-produtor Sargent ainda fez um milhão de mudanças no filme após fiasquentas exibições-teste, inclusive deixando vivo o personagem de Mario Van Peebles na cena final - embora vejamos claramente o tubarão abocanhando e mastigando o sujeito minutos antes, pois originalmente ele deveria morrer!!! Enfim, mais uma daquelas pérolas para ver bêbado ou chapado, e que em breve deve ganhar uma merecida resenha mais longa aqui no FILMES PARA DOIDOS (acredite, esse se encaixa perfeitamente na descrição!).



Outro boicotado com louvor era ZOOLANDER (idem, 2001, EUA. Dir: Ben Stiller). O roteiro desta sátira ao mundo da moda já anunciava uma daquelas comédias bem estúpidas, com "piadas" que parecem divertir apenas os atores e produtores, tipo os filmes recentes do Will Ferrell (alguém REALMENTE viu alguma graça em "Os Aloprados"?). Bem, tarde de chuva na praia, nada melhor passando na TV a cabo, resolvo dar uma chance ao besteirol do Stiller apenas para comprovar o que eu já previa: as risadas surgem mais pelo constrangimento de se estar vendo uma coisa tão estúpida do que pelas piadas serem realmente engraçadas.

Não vou ser injusto, há algumas tiradas até divertidas sobre a estupidez dos modelos - todos com Q.I. inferior ao dos "Debi & Lóide". Uma delas mostra Owen Wilson espatifando um computador cheio de arquivos confidenciais e depois questionando: "Ué, mas onde estão os arquivos?". Sim, este é o nível das piadas... O roteiro também não se decide entre o besteirol ou o humor negro, mas alguns dos melhores momentos se encaixam nesta segunda categoria, como quando descobrimos que modelos estúpidos vêm sendo usados em crimes políticos há séculos, inclusive no assassinato de Abraham Lincoln!

No fim, o que realmente acaba mantendo a atenção até o final é o batalhão interminável de celebridades em participações especiais: Donald Trump, Christian Slater, Cuba Gooding Jr., Natalie Portman, Lenny Kravitz, Gwen Stefani, Winona Rider, Paris Hilton, David Bowie, David Duchovny, Jon Voight, Milla Jovovich, Claudia Schiffer, Stephen Dorff, Billy Zane e outros que pipocam na tela por um segundo, estilo "piscou, perdeu", e que acabam se tornando a grande atração de uma comédia pouco inspirada (como acontecia em filmes tipo "Quem Não Corre, Voa", outro desfile de celebridades).



CONSPIRAÇÃO TEQUILA (Tequila Sunrise, 1988, EUA. Dir: Robert Towne) não estava exatamente na minha lista de boicotados; apenas nunca tive curiosidade de vê-lo antes. Aproveitando aquela já famosa promoção na videolocadora da minha cidade, coloquei-o na pilha de DVDs por curiosidade, só para constatar que não perdi nada não tendo visto o filme antes.

Policial bem feitinho, com história bem amarradinha, mas não passa disso. É curioso ver Mel Gibson e Kurt Russell ainda novinhos e lado a lado num mesmo filme, ainda mais considerando que Kurt depois cairia para o segundo escalão, enquanto Mel virou super-astro e diretor influente, Para melhorar a coisa, eles interpretam personagens que são amigos, mas estão em lados opostos da lei (um é policial, o outro traficante de drogas), tipo as histórias que o John Woo adora filmar.

Fora isso, não há absolutamente nada de novo na trama ou no filme, nada de muito emocionante, intrigante ou novo acontece, e a melhor coisa é uma cena de sexo, ousadinha até, entre Mel Gibson e uma jovem e linda Michelle Pfeiffer. O resto é pura rotina e você esquece no momento em que tira o DVD do aparelho. Em tempo: não existe nenhuma "Conspiração Tequila" na história: ocorre que "tequila sunrise" é o nome de um drink, e o tradutor nacional não achou título mais interessante lá atrás nos anos 80...



Foram tantos comentários metendo o pau nos supostos ufanismo e revanchismo de O REINO (The Kingdom, 2007, EUA/Alemanha. Dir: Peter Berg) que eu quase o mantive mais um tempinho na lista de boicote, temendo por um novo "Falcão Negro em Perigo" (eca!). Mas não é para tanto, a não ser que você seja uma daquelas pessoas sensíveis que vê propaganda patriótica por toda parte.

Não que o filme de Berg não tenha a sua cota de "personagens americanos durões que querem salvar o mundo custe o que custar". Porém, ao tratar de um grupo de agentes do FBI que vai ao Oriente Médio investigar um sangrento atentado terrorista, "O Reino" parece mais interessado em narrar uma história de vingança pelas próprias mãos, tendo o conflito no Iraque como pano de fundo, do que propriamente ser uma história ufanista e patriótica sobre a guerra e sobre americanos querendo salvar o mundo, como aquele filmeco do Ridley Scott.

E mesmo que o filme inteiro esteja envolto com um ar de "seriedade" e um visual lembrando documentários, eu consegui desligar o cérebro e apreciá-lo como uma daquelas aventuras de guerra violentas e desmioladas, tipo "Comando 10 de Navarone" ou "Selvagens Cães de Guerra", em que há mais compromisso com a ação do que com a realidade. Se o que você espera é vilões árabes, tiroteios barulhentos, explosões e muita violência, o filme funciona perfeitamente; mas se o que você quer é ver um novo "Apocalyse Now", fique longe!

Mas eu diria que é injusto rebaixá-lo a propaganda ufanista/patriótica, ainda mais considerando que o personagem mais interessante, heróico e simpático do filme é um oficial ÁRABE, e não os personagens centrais norte-americanos...



Por último, mas não menos importante, os dois clássicos do cinema nacional que eu boicotei desde sempre. O primeiro foi DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (idem, 1976, Brasil. Dir: Bruno Barreto). Bem, o que dizer da maior bilheteria do cinema nacional de todos os tempos? Vou começar com uma única palavra: decepção.

Não, na verdade o filme até é bom, divertido e tudo mais. O problema é que nestes 30 anos de vida eu fui levado a acreditar que era bem diferente do que aquilo que na realidade se apresenta. Pelo título e pelas cenas famosas que eu conhecia, imaginei que o filme inteiro tratava da relação entre Dona Flor, seu novo marido e o primeiro esposo falecido, Vadinho, cujo fantasma aparece o tempo inteiro pelado. Afinal, não é disso que deveria se tratar uma obra chamada "Dona Flor e Seus Dois Maridos"?

Entendam, portanto, a minha decepção: o filme começa mostrando a morte de Vadinho, e depois temos uma hora (cronometrada) de flashback, mostrando a difícil relação de amor e ódio entre o falecido e Dona Flor. Aí vai mais meia hora de enrolação envolvendo o casamento da moça com seu novo marido, e quando você vê já passou 1h35min. Mas peraí, cadê o "Dona Flor e Seus Dois Maridos"?

Poisé, eis que nos últimos 25 minutos o fantasma peladão de Vadinho finalmente aparece para justificar o título. E quem, como eu, esperava que essa fosse a situação central do filme, provavelmente também vai ficar surpreso com o pouco tempo de desenvolvimento do episódio sobrenatural. Pouco tempo e pouca graça, inclusive. Seria melhor se tivessem limado uns 50 minutos da primeira parte, colocando o fantasma mais presente na trama, pois do jeito que está a situação dos "dois maridos" parece mais amostra grátis do que situação central.

No fim, Sônia Braga linda e peladona vale a olhada, bem como os cenários de cartão-postal e algumas poucas cenas engraçadas lá e cá. Mas é pouco, muito pouco, para o que eu esperava da "maior bilheteria do cinema nacional de todos os tempos". Resumindo: decepção total e título enganoso! Um daqueles que se deve assistir com expectativa zero para não quebrar a cara!



Já no caso de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (idem, 1963, Brasil. Dir: Glauber Rocha), o filme estava na minha lista de "Não vi, não gostei", como toda a obra de Glauber Rocha (o único que eu realmente vi do começo ao fim foi "Terra em Transe", que achei muito chato). É claro que eu conhecia algumas cenas mais famosas de "Deus e o Diabo...", e sabia do que se tratava o filme, mas sempre achei que era algo muito xarope para vê-lo por inteiro.

Mordi a língua: sim, é uma obra "difícil" e meio pretensiosa demais às vezes, MUITO silenciosa e reflexiva em outros momentos, mas um ótimo filme, certamente até acima do que eu esperava. Claro, é preciso fechar um olho para o excesso de alegorias, para o ritmo "introspectivo" e para as pretensões do Glauber (que eu continuo achando um chato de marca maior). Mas como ficar indiferente frente a cenas como a de Geraldo del Rey caminhando de joelhos e com uma pedra enorme na cabeça, enquanto "paga penitência" ao fanático religioso que segue obsessivamente?

E tem o saudoso Maurício do Valle em seu grande momento cinematográfico, o pistoleiro "matador de cangaceiros" Antônio das Mortes. E tem Othon Bastos excelente como Corisco, o único sobrevivente do bando de Lampião. E tem um punhado de cenas fortes e ao mesmo tempo lindas, fotografadas de maneira magistral.

Definitivamente, não é filme para todos os públicos, e nem era esta a sua proposta; definitivamente, também, é chato e pretensioso, mas não dá para negar que é um daqueles filmes obrigatórios, aos quais ninguém consegue ficar indiferente. Uma obra que não pode e nem deve ser definida nestas minhas poucas (e porcas) linhas, e que deve ser vista com os próprios olhos.

Ah, também tirei da lista de boicote (mais cedo do que eu esperava; culpa da minha mãe!) o tão comentado AVATAR, mas este vai ganhar seu post à parte. Adianto apenas que gostei do filme mais do que eu imaginava, mas que de "bom" não passa, e até agora estou tentando encontrar a "revolução do cinema" na interminável aventura dos Smurfs super-desenvolvidos...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Uma chance para filmes boicotados - Parte 2


Gostei do retorno que teve o primeiro post desta "trilogia": além de descobrir que outros leitores do FILMES PARA DOIDOS concordam comigo e boicotaram os mesmos filmes (tipo "O Guarda-Costas"), também serviu como pontapé inicial para que os visitantes pudessem confessar quais são os seus próprios títulos boicotados. É bom saber que você não é o único que se recusa a ver algum filme por fatores bem especificos e pessoais. Por outro lado, sempre há tempo de dar uma chance para estas obras que foram jogadas para escanteio.

Nesta segunda parte, veremos mais algumas produções recentes cujo boicote é plenamente justificável (tenho certeza que todos vocês vão concordar comigo), e outras mais antigas que eu só não vi antes por pura preguiça e fui deixando de lado até agora. Algumas se revelaram decepcionantes, como era esperado.

A elas:



Tem gente que gosta da série "A Múmia", iniciada por Stephen Sommers em 1999, que traz o bobalhão Brendan Fraser lutando contra brochantes efeitos de computação gráfica. Eu vi o original e a primeira seqüência, "O Retorno da Múmia", e sinceramente achei ambos muito ruins - trazem tudo o que há de péssimo nas aventuras recentes, do excesso de CGI à falta de seriedade (e criatividade) nos roteiros. Por mim, inclusive, o terceiro filme da série, A MÚMIA: TUMBA DO IMPERADOR DRAGÃO (The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor, 2008, EUA/Alemanha. Dir: Rob Cohen) ficaria boicotado para sempre. Mas quando você está na praia em um dia de chuva, qualquer porcaria que passa na TV a cabo acaba ganhando a sua atenção. Mea culpa.

Bem, digamos apenas que os dois filmes anteriores quase ficam bons perto da bobagem que é este terceiro. O vilão agora é a múmia de um imperador chinês interpretado por Jet Li, mas ainda não consegui descobrir qual é a vantagem de ter um ator famoso na folha de pagamento e usá-lo apenas durante 10 minutos (no restante do tempo, a múmia não passa de um boneco deformado feito por computador). E se seriedade nunca foi o forte da série, esta nova aventura trata o espectador por idiota completo: ressuscitar uma múmia é a coisa mais fácil de engolir do roteiro, que traz ainda um ataque de abomináveis homens das neves (!!!), a mítica cidade de Shangri-lá (!!!), guerreiras imortais (!!!) e uma múmia que se transforma, sem explicação, num dragão de três cabeças (!!!!!!!!!!!!!!!!!!).

Tudo acaba naquela tradicional grande batalha "épica" entre bonequinhos de CGI (os soldados de terracota do vilão contra um exército de esqueletos "bonzinhos"), praticamente uma cópia xerox do final de "O Retorno da Múmia". Não há uma única piada ou cena que preste, e é uma pena ver a competente Maria Bello totalmente perdida no lugar de Rachel Weisz, que (muito sabiamente) pulou fora dessa seqüência após ter pagado mico nos dois filmes anteriores. O pior é saber que filmes como este são o mais perto que Hollywood consegue chegar, hoje, das saudosas aventuras de Indiana Jones. Salve-se quem puder!



Outra bobagem indefensável é O VIDENTE (Next, 2007, EUA. Dir: Lee Tamahori). Esse eu já imaginava que era uma bomba, pelas resenhas da época do seu lançamento. Só não podia prever que era TÃO RUIM! Partindo de uma premissa curiosa (baseada em conto de Philip K. Dick), o filme traz Nicolas Cage como um homem capaz de prever o futuro - mas apenas dois minutos à frente. Ele não usa seu dom para proteger a humanidade, e sim para roubar uma graninha dos cassinos ao prever o resultado dos jogos. Mas a coisa muda de figura quando o vidente começa a ser caçado por terroristas e pelo FBI, por causa de uma bomba nuclear escondida em solo americano.

Embora traga algumas curiosas brincadeiras narrativas (como cenas inteiras que se revelam apenas premonições do herói, ou o momento em que ele se divide em vários "clones", representando suas muitas visões do futuro), "O Vidente" falha nos aspectos mais simplórios da construção de suspense e não consegue nem ao menos criar personagens parecidos com pessoa reais: os terroristas, por exemplo, parecem ter saído de uma sátira estilo "Todo Mundo em Pânico", Julianne Moore está ridícula como "agente durona" do FBI, e a ingenuidade da personagem de Jessica Biel, que dá carona e dorme com um completo estranho, é absurda.

Para piorar, o roteiro se acovarda e transforma a maior parte da trama NUMA VISÃO do protagonista. Aí não há saco que agüente, pois este é um dos truques mais revoltantes que um realizador pode utilizar para enganar o espectador (lembrou até minha frustração por "Femme Fatale", do Brian DePalma). E Lee Tamahori mostra ser um dos piores diretores em atividade hoje em Hollywood, anos-luz distante de seus primeiros filmes, como o ótimo "O Amor e a Fúria".



O INFORMANTE (The Insider, 1999, EUA. Dir: Michael Mann) é um daqueles casos atípicos na minha lista de boicote: eu só não tinha visto antes porque esqueci da sua existência. Mas antes tarde do que nunca, e como eu estou redescobrindo a filmografia de Mann (indiscutivelmente um dos melhores cineastas contemporâneos), chegou a hora de corrigir a injustiça.

E você sabe quando um diretor é bom quando ele consegue segurar a atenção do espectador contando uma história que, originalmente, não tem nada de surpreendente ou de tenso. O filme narra a luta do produtor do programa de TV "60 Minutos" (Al Pacino) para levar ao ar a entrevista com um executivo da indústria tabagista (Russel Crowe), contando que as empresas do ramo sabem que o cigarro faz mal à saúde, embora publicamente neguem. A alta cúpula da emissora acaba vetando a entrevista por interesses comerciais, e a vida do entrevistado sofre uma brutal reviravolta.

Tudo bem que as ameaças à vida do personagem de Russel Crowe não passam de "liberdade poética" para manter o espectador antenado, mas ainda assim Mann consegue a façanha de deixar qualquer um vidrado na tela apenas com o jogo de interesses nos bastidores. É uma trama difícil, sem heroísmos individuais ou finais felizes, mas transformada em um filmaço que faz questionar o papel da imprensa no mundo contemporâneo - sua exibição devia ser obrigatória em faculdades de comunicação. Eu só incluiria uma cena final mostrando o personagem de Pacino acendendo um cigarrinho após todos os problemas enfrentados. hehehe.



Se no capítulo anterior eu falei sobre minha "Sessão Dupla John Woo", chegou a hora de contar como foi a "Sessão Tripla Clint Eastwood", um outro diretor cuja obra eu estou aos poucos redescobrindo, principalmente após o excelente "Gran Torino". Vi de uma vez só três filmes recentes dirigidos e estrelados pelo veterano, e que antes não tinham me chamado a atenção. O primeiro foi justamente o mais fraco: DÍVIDA DE SANGUE (Blood Work, 2002, EUA. Dir: Clint Eastwood) traz o ator como uma versão envelhecida de seu Dirty Harry, um veterano agente do FBI chamado Terry McCaleb, que caça um serial killer obcecado por ele.

Após ter um infarto enquanto persegue o maníaco, o herói decide se aposentar e passar por um transplante de coração. Mas logo recebe a visita da irmã da doadora do órgão, que lhe pede para investigar o assassinato da moça. Sentindo-se em dívida com a "dona" do coração, McCaleb sai em busca do responsável pelo homicídio e descobre que é o mesmo serial killer que falhou em prender anos antes. E ele continua deixando uma pilha de corpos para provocar o herói.

O roteiro de Brian Helgeland começa bem, mas logo descamba para todos os clichês de "filmes de serial killers", desde o herói que encontra pistas de crimes acontecidos muito tempo antes (e que a policia, claro, nunca viu) até a tonelada de trilhas falsas seguidas pelo detetive, e que só existem para maquiar a identidade mais do que óbvia do vilão. Vale ressaltar que o serial killer se expõe tanto ao longo do filme que é um verdadeiro milagre não ter sido preso nos 15 minutos iniciais - e a revelação da sua identidade é tão inverossímil que quase provoca risadas, assim como o fato de o código do matador ser decifrado... por uma criança! Em todo caso, vale pelo talento de Clint como ator e diretor.



PODER ABSOLUTO (Absolute Power, 1997, EUA. Dir: Clint Eastwood) é melhorzinho, mas também fica aquém do seu potencial. O ponto de partida é absurdo, porém intrigante: Clint é um ladrão veterano que, numa noite de "trabalho", testemunha um assassinato cometido pelo próprio presidente dos Estados Unidos (Gene Hackman) e por dois agentes do Serviço Secreto (um deles é Scott Glenn, que quase rouba o filme). Ele foge e é caçado por homens acima de qualquer suspeita, envolvendo-se num jogo de gato e rato com o detetive que investiga o crime, interpretado por Ed Harris.

Eis um caso de filme que valeria apenas pelos atores (e se ver Clint, Hackman, Scott Glenn e Ed Harris dividindo a cena não é suficiente, tem ainda E.G. Marshall e Laura Linney). É uma pena, portanto, que o roteiro de William Goldman não aproveite a premissa interessante de um herói fora-da-lei caçado por pessoas que estão totalmente acima da lei: as situações de conflito entre eles são mínimas, e a trama logo descamba para o tradicional "vamos machucar a filha do protagonista para dar-lhe um motivo para se vingar".

A própria relação entre os personagens de Clint e Harris é menos desenvolvida do que poderia, e isso que o filme se estende por duas horas (podiam cortar um pouco da enrolação e do drama familiar envolvendo o ladrão e sua filha para criar mais situações de suspense). Mas é outro que vale só pelo astro, divertindo-se muito como um bandido boa-pinta e esperto, sempre um passo a frente dos seus perseguidores.



O melhor da "Sessão Tripla" acabou sendo CRIME VERDADEIRO (True Crime, 1999, EUA. Dir: Clint Eastwood). A trama também é meio absurda, mas funciona melhor que "Poder Absoluto": Clint é Steve Everett, um repórter encrenqueiro e mulherengo que, de última hora, é escalado para cobrir a execução de um assassino na câmara de gás. Mas Everett teima em achar que o acusado é inocente, e passa os 127 minutos do longa em busca das pistas para livrá-lo da iminente pena de morte.

A corrida contra o tempo desta vez é muito bem aproveitada pelo astro e diretor, principalmente na cena em que seu personagem é obrigado a fazer um "passeio-relâmpago" com a filha pelo zoológico para poder continuar suas investigações. Tudo bem, é difícil de engolir o fato de o protagonista descobrir fatos e pistas anos depois do crime ter acontecido, sendo que o caso foi investigado exaustivamente pela polícia. Assim, é preciso fechar um olho para a lógica e torcer para que o herói encontre as provas da inocência do acusado a tempo de impedir a execução.

"Crime Verdadeiro" também fica acima da média por mostrar com detalhes, paralelamente à investigação de Everett, a rotina de preparação do condenado para a pena de morte, sem demonizar a figura do diretor do presídio ou dos guardas responsáveis pelo trabalho ingrato. E Clint, novamente, está muito divertido como repórter durão e comedor, que aparece seduzindo moças 40 anos mais jovens do que ele. Suas cenas com James Woods, que interpreta o editor do jornal, são antológicas. Em resumo: toda a tensão e suspense que faltaram aos outros dois está neste filme, altamente recomendado para fãs do ator-diretor.



Fechamos esta segunda parte da minha lista de boicote com uma decepção: PECADOS DE GUERRA (Casualties of War, 1989, EUA. Dir: Brian DePalma), um dos trabalhos mais fracos e convencionais de um diretor cuja obra eu normalmente venero. Não vi o filme antes porque estava de saco cheio de histórias sobre a Guerra do Vietnã (já na época em que ele foi lançado havia uma overdose de filmes sobre este conflito). Mas vê-lo hoje parece ainda pior, já que ele envelheceu ainda mais.

A história, baseada em fatos reais, traz Michael J. Fox como um soldado certinho que testemunha o estupro e execução de uma jovem vietnamita pelo seu sargento (Sean Penn) e por homens do seu batalhão. Ele tenta de várias formas salvar a vida da moça, mas falha; passa, então, a ser perseguido pelos ex-colegas, que temem que ele revele o "segredo" e leve todos à corte marcial. Apesar da situação poder render um suspense tenso, a narrativa é convencional e desprovida de emoção.

A melhor cena acaba sendo a execução da jovem estuprada, filmada por DePalma com seu requinte habitual. Mas todo o resto parece um telefilme, com personagens exageradamente burros (interpretados por atores conhecidos como John C. Reilly, Ving Rhames e John Leguizamo), cenas de guerra nada empolgantes e uma resolução anti-climática - até a música de Ennio Morricone soa burocrática e nada memorável.

Na minha opinião, está entre os trabalhos mais fracos do diretor. E é irônico ver uma atuação afetada e exagerada de Sean Penn quando a gente sabe o excelente ator que ele se tornou depois. Veredicto: um pecado de DePalma, não da guerra.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Uma chance para filmes boicotados - Parte 1


Há alguns posts atrás, na parte dos comentários, eu tentei explicar meu critério para "boicotar" filmes como "Avatar", "Anticristo" e a trilogia "Jurassic Park". Mas a verdade verdadeira é que não existe um critério muito definido: eu simplesmente não tenho a menor vontade de assistir certos filmes por diferentes motivos, seja sua super-exposição na mídia, os "talentos" envolvidos ou o fato de alguns não fazerem qualquer diferença para mim como espectador. É basicamente por estas razões que nunca vi "Sociedade dos Poetas Mortos", que não engulo os filmes do famoso L.V.T., e que nem me dei ao trabalho de ver as seqüências de "X-Men" (por ter achado o original tão medíocre).

Aí chega este período mágico das férias, quando mesmo cheias de coisas para fazer, como eu, subitamente se encontram com muito tempo nas mãos. Isso, somado a uma vantajosa promoção na locadora da minha cidade para quem alugasse 10 DVDs por vez, fez com que eu engolisse meu orgulho (hã?!?) e desse uma chance a várias obras, conhecidas ou nem tanto, que eu havia boicotado no passado. O que quer dizer que, num futuro não muito distante, talvez eu dê uma nova chance também para os boicotados de agora, tipo "Avatar".

Bem, como eu já vi 43 filmes neste início de ano (muitos deles anteriormente na lista de "não vi e não gostei"), optei por castigá-los com um extenso relatório em três partes trazendo a minha avaliação de alguns deles, incluindo produções que passei anos (em alguns casos, até décadas!) sem ver. Eu não esperava nada da maioria, mas - quem diria - apareceram boas surpresas, enquanto outros bem que podiam ter continuado boicotados...

A eles:



A parte interessante desse início de ano foi que rolou uma "Sessão Dupla John Woo", em parte motivada pela interessante retrospectiva do trabalho do diretor publicada no blog O Dia da Fúria. Eu tinha boicotado a "fase norte-americana" de Woo a partir de "Missão Impossível 2", porque sentia que este cineasta, cuja obra eu muito admirava, vinha se repetindo, e seus maneirismos já se tornavam motivo de chacota, não de orgulho. Foi com certo receio, portanto, que comecei a ver CÓDIGOS DE GUERRA (Windtalkers, 2002, EUA. Dir: John Woo), mas ao final dos 134 minutos eu simplesmente não conseguia entender o motivo da fria recepção ao filme na época do seu lançamento - foi um fiasco de bilheteria que quase enterrou a carreira do diretor.

A historinha é a de sempre em se tratando de Woo, novamente trabalhando temas como amizade e honra, desta vez em plena brutalidade da Segunda Guerra, filmada com o habitual brilhantismo técnico do diretor - aqui voltando ao "ballet da violência" à la Sam Peckinpah que era a marca registrada dos seus grandes filmes de Hong-Kong.

O resultado parece um remake de "No Coração do Perigo", um dos meus filmes preferidos de Woo, sem poupar em sangue e perdas para os dois lados do confronto, remetendo diretamente ao cinema de Peckinpah (algumas cenas envolvendo corpos arremessados em arame farpado inclusive lembram muito "A Cruz de Ferro", o clássico de guerra do velho Sam). E Woo não faz feio na comparação, mesmo quando apela para clichês típicos do gênero. Veredicto: filmaço de guerra que quase ninguém viu, uma pena!



O mesmo não se pode dizer do segundo filme da Sessão Dupla, O PAGAMENTO (Paycheck, 2003, EUA. Dir: John Woo). A história (baseada em conto de Philip K. Dick) é intrigante o suficiente para manter a atenção do espectador, mas o resultado é burocrático e nada memorável. A relação de defeitos renderia um post inteiro: Ben Affleck não convence como herói de ação, Uma Thurman está feia e vive um romance patético com o protagonista, o vilão de Aaron Eckhart é ridículo, e o impagável Paul Giamatti é sumariamente desperdiçado como alívio cômico.

E se a trama é bastante curiosa (uma espécie de releitura de "O Vingador do Futuro", sobre memórias apagadas e perda de identidade), o maior problema talvez seja justamente a direção de Woo: você fica o tempo inteiro esperando cenas de ação mirabolantes no estilo do cineasta, mas estas nunca aparecem, com a exceção de uma perseguição envolvendo os heróis numa moto sendo caçados por carros e um helicóptero. Pouco, muito pouco, para suprir as expectativas de quem conhece o talento de Woo (até "Blackjack", aquele filme para a TV que ele fez com o Dolph Lundgren, tem mais ação!!!), e por isso um outro diretor talvez conseguisse um melhor resultado.

Não que o resultado seja ruim: passa como Sessão da Tarde, mas desaparece da mente horas depois - o que é irônico, considerando que perda de memória é justamente o tema do filme!



O GUARDA-COSTAS (The Bodyguard, 1992, EUA. Dir: Mick Jackson) foi um fenômeno pop no ano de seu lançamento, e é um dos filmes que minha mãe mais viu na vida (quarenta-e-poucas-vezes, desde a última vez que perguntei). Lá atrás, em 1992, era o "Titanic" do momento, e talvez por isso eu tenha perdido o interesse de vê-lo então. Nem vou explicar os motivos que me levaram a assisti-lo agora, quase 20 anos depois, porque isso também renderia um post a parte. Mas simplesmente não dá para entender os motivos para "isso" ter virado fenômeno pop.

OK, o filme é divertido e até vale como passatempo; tem algumas cenas legais e um Kevin Costner "cool", quase anti-herói, anos antes de virar um mala egocêntrico em tranqueiras ambiciosas como "O Mensageiro". Só que o conjunto da obra é lamentável: não passa de um suspense preguiçoso, com um romance que não convence e um par romântico impossível de engolir. Se eu fosse guarda-costas da Whitney Houston, não iria me esforçar muito para proteger a vida dela, pelo menos não da personagem chatíssima e arrogante que ela interpreta aqui.

Também não dá para entender como um cara do calibre de Lawrence Kasdan escreveu um roteiro tão insosso, daqueles que você adivinha nos primeiros 10 minutos quem é o "misterioso assassino" e o "misterioso mandante do crime", supostas revelações "surpreendentes" do último ato. Conclusão: uma Sessão da Tarde cuja fama não se justifica. E talvez minha mãe esteja necessitando de ajuda psiquiátrica...



Bem, quem acompanha o FILMES PARA DOIDOS sabe que tenho certo preconceito com "moderninhos queridinhos da crítica". O francês Michel Gondry é um deles, mas pelo menos neste caso o culto apaixonado a BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004, EUA. Dir: Michel Gondry) se justifica: o filme é bem legalzinho, diferente e muito criativo, e ainda traz Jim Carrey muito bem num papel um tanto "diferente" (já que passa a maior parte da trama revivendo suas próprias memórias enquanto elas desaparecem).

O que me fez "desgostar" um pouco da coisa toda é aquela desesperada tentativa de querer ser "moderninho", ou "culti" - como as cores de cabelo da Kate Winslet, algumas doideiras que só existem para justificar a fama de "maluco beleza" do roteirista Charlie Kaufman (outro queridinho da crítica que eu não engulo), e "rebeldias" tipo mostrar atores famosos (Mark Ruffalo, Elijah Wood e Kirsten Dunst) fumando maconha - oh céus, que horror!!!

Por essas e por outras, mesmo que o filme tenha ficado acima do que eu esperava, é obviamente mais um daqueles casos do tipo "Ame ou odeie", como "Encontros e Desencontros" (que eu particularmente amo). Não é que eu tenha odiado "Brilho Eterno...", só não morri de amores não.



Outra bela surpresa deste resgate de boicotados foi REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000, EUA/Canadá/Inglaterra/Alemanha. Dir: William Friedkin). Até porque qualquer filme em que um militar ordena o massacre de dezenas de inocentes no Iêmen, e é o HERÓI da história, merece um mínimo de consideração só pela coragem.

O que diferencia este de bobagens pró-militarismo estilo "Falcão Negro em Perigo" é o fato de Friedkin não estar endeusando o "heroísmo" do milico vivido por Samuel L. Jackson, e sim criticando o fato de ele ser um fantoche orgulhoso de ter "cumprido suas ordens", mesmo que isso envolva o tal massacre de inocentes. Friedkin é um mestre em cenas realistas de ação e violência, como demonstra nas cenas iniciais (no Vietnã) e no já citado massacre em frente à embaixada do Iêmen. O restante do filme se concentra no julgamento do protagonista, mas o diretor não deixa a peteca cair, manipulando cada espectador para tirar suas próprias conclusões sobre a inocência ou culpa do personagem de Jackson.

É uma pena, portanto, que o estúdio tenha forçado o cineasta a incluir uma cena (totalmente dispensável) que comprova a "verdade" sobre o ocorrido, tirando do espectador o veredicto final. Mesmo assim, no conjunto, eis outra gema perdida que eu demorei muito para ver e que, no geral, merecia mais reconhecimento - pelo menos muito mais do que o medíocre "Falcão Negro em Perigo".



Um caso que me deixou perplexo foi CINE MAJESTIC (The Majestic, 2001, EUA. Dir: Frank Darabont). O diretor vinha de dois sucessos ("Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre", e fez um filme bonitinho com um pouco de tudo que o público podia querer: Jim Carrey como astro, uma linda história de amor, uma situação edificante com lição de moral estilo Frank Kafka, belíssima reconstituição de época e todo aquele "blablabla" tradicional sobre a magia do cinema - parece até que a intenção era fazer um "Cinema Paradiso" falado em inglês.

Mas o resultado foi um fracasso de bilheteria que também quase acabou com a carreira do diretor (ele demorou seis anos para voltar com o excelente "O Nevoeiro"). Uma pena, pois "Cine Majestic" é um ótimo filme. Tudo bem, há defeitos evidentes, como os personagens bonzinhos demais para existirem fora do universo cinematográfico, ou o sentimentalismo empurrado goela abaixo do espectador (só faltam legendas do tipo "Hora de chorar" ou "Prepare-se, agora vai morrer Fulano"...).

Mesmo assim, achei o resultado positivo, nem que seja apenas pelas cenas que retratam a Hollywood dos anos 50, ou pelo falso filme "Sand Pirates of the Sahara" (roteirizado pelo personagem de Carrey), que traz Bruce Campbell como herói estilo Indiana Jones recuperando um ídolo dourado idêntico àquele visto no início de "Os Caçadores da Arca Perdida"! Fechando-se um olho para o excesso de água-com-açúcar, uma obra acima da média - e injustiçada!



Fechando esta primeira parte do resgate dos filmes boicotados, nada melhor do que relembrar o "Avatar" de cinco anos atrás, CAPITÃO SKY E O MUNDO DO AMANHÃ (Sky Captain and the World of Tomorrow, 2004, EUA. Dir: Kerry Conran). Permitam-me arejar vossas memórias: na época do seu lançamento, esta produção relativamente barata (custou 40 milhões de dólares) era saudada com comentários tipo "a revolução do cinema", graças à tecnologia que permitiu que cenários e personagens fossem inteiramente criados por computador, enquanto os atores de carne-e-osso atuavam diante de uma tela azul. Revistas especializadas deram capa e falaram maravilhas sobre a obra, e críticos tipo aquele que é piada em conversas de cinéfilo tascaram cinco estrelinhas, maravilhados com o que viram. Dá até uma sensação de déja-vu agora com "Avatar"...

Ironicamente, ao contrário do que está acontecendo com "Avatar", o público não se sensibilizou: mesmo com orçamento relativamente baixo, o filme acabou nem se pagando, e a "revolução do cinema" foi rapidamente esquecida. Nem é difícil entender o porquê: como parece ser o caso também agora com o filme de James Cameron, a única atração de "Capitão Sky..." são os efeitos digitais, que criam um "mundo novo" (com visual retrô dos anos 30-40), mas sem que exista uma história interessante ou minimamente diferente para prender o interesse do espectador, que logo cansa daquele gigantesco videogame não-interativo.

A intenção do diretor-roteirista de primeira e única viagem era criar um herói de ação com sua própria série, estilo Indiana Jones, mas o Capitão Sky de Jude Law não teve fôlego para justificar a realização de novas aventuras, perdido em cenas de ação frouxas e nitidamente falsas, personagens fracos e sem carisma e uma história inexistente que parece ter sido escrita às pressas. Assim não há visual fantástico que salve, e ainda que o filme tenha algumas qualidades (tipo os robôs, alguns cenários e a piada da cena final), serve mais como prova de que às vezes é cedo falar em "revolução do cinema", pois quem faz este julgamento de valor é o tempo.

Veremos se "Avatar" terá o mesmo destino do Capitão Sky...