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terça-feira, 22 de abril de 2014

PESADELOS NOTURNOS (1970)


Em 1970, Jess Franco fez seu nono e último filme com o produtor inglês Harry Alan Towers ("Eugenie... The Story of her Journey into Perversion"), e logo começou uma rápida parceria com o polonês radicado na Alemanha Artur Brauner, com quem filmaria as obras que transformaram Soledad Miranda numa musa eterna (entre elas, "Vampyros Lesbos" e "Ela Matou em Êxtase").

Jess teve alguns meses de descanso entre o rompimento com Towers e a nova sociedade com Brauner, mas, ao invés de tirar umas férias (já que vinha fazendo diversos filmes por ano desde 1967!), o incansável diretor espanhol arrumou tempo para rodar TRÊS obras baratíssimas em Liechtenstein, um minúsculo (e riquíssimo) país europeu encravado entre a Suíça e a Áustria.

Um dos títulos dessa rapidíssima "Fase Liechtenstein" é bem conhecido ("Eugenie De Sade"), enquanto os outros dois foram filmados, finalizados e depois "perdidos". Destes, um segue perdido até hoje, mas o outro foi resgatado do limbo depois de três décadas: "Les Cauchemars Naissent la Nuit" ("Os Pesadelos Nascem à Noite"), lançado em DVD no Brasil (duas vezes!) com o título genérico de PESADELOS NOTURNOS.


Bem longe de ser um dos trabalhos mais inspirados do diretor (apesar de várias resenhas rasgarem seda, dizendo que é "uma pedra preciosa que não foi polida"), PESADELOS NOTURNOS é um "filme Frankenstein", que Franco montou usando cenas filmadas para outro projeto e muito improviso - a inconsistência da coisa toda fica bem evidente desde as primeiras cenas.

Não por acaso, a produção foi realizada com uma equipe diminuta, pouquíssimos recursos e um dos menores orçamentos que o diretor teve na vida - durante muito tempo, ele até citava esse título quando lhe perguntavam qual tinha sido a sua produção mais barata!


Mesmo assim, é uma obra que merece certo lugar de destaque na filmografia Franquiana pelo seu valor histórico: conforme o pesquisador Lucas Balbo, um dos autores do livro "Obsession: The Films of Jess Franco", PESADELOS NOTURNOS é o primeiro thriller 100% erótico de Jess, em que a sacanagem rola solta sem medo da censura, e todas as desculpas possíveis e imagináveis são usadas para pelar as personagens - de cenas de banho ao hábito de dormir com um roupão de cetim totalmente aberto!

Até já havia safadeza e mulher pelada em obras anteriores do diretor, como "Necronomicon" (1967) e "Santuário Mortal" (1968). Mas é aqui que Franco chuta de vez o pau da barraca e escancara a nudez e o sexo (as transas ainda são tímidas, mas certamente bem fortes e ousadas para a época, até por envolverem lesbianismo).


PESADELOS NOTURNOS conta a história de Anna (Diana Lorys), uma mulher que está sofrendo com terríveis pesadelos recorrentes em que mata um amante desconhecido. Numa das manhãs em que acorda do seu sono agitado, ela constata que tem sangue nas próprias mãos, e que talvez aquele seu pesadelo possa ter algum fundo de verdade...

Cynthia (Colette Giacobine), a namorada de Anna, não acredita na história e acha que ela está ficando louca. Por isso, pede a ajuda de um psiquiatra, o Dr. Vicas (Paul Muller), para tentar controlar os pesadelos da garota.


Só que a situação não melhora. E, para complicar a história, um dia Anna conhece o homem que mata em seus sonhos (interpretado por Jack Taylor). Será que o pesadelo irá finalmente se tornar realidade?

Paralelamente, um casal de vizinhos espiona o casarão em que Anna e Cynthia vivem juntas. Trata-se de uma dupla de ladrões, interpretados por Andrés Monales e Soledad Miranda, que parecem matar tempo para reaver uma fortuna em diamantes roubados de uma joalheria. Mas qual a relação do casal de ladrões com o casal de lésbicas da casa ao lado, ou com os pesadelos de Anna?


Bem, oficialmente não existia relação nenhuma: acontece que essas cenas não foram originalmente filmadas para PESADELOS NOTURNOS, e sim para uma espécie de teste de elenco que Franco filmou em 1969, entre as gravações de "O Trono de Fogo" e "Conde Drácula", para convencer o produtor Harry Alan Towers a contratar a ainda desconhecida Soledad Miranda para integrar o elenco da sua adaptação de Drácula!

Assim, Jess aproveitou uma folguinha para filmar de 10 a 15 minutos de cenas meio aleatórias em que Soledad e Monales vigiam a "casa ao lado" com um binóculo, e provavelmente sem pensar numa trama específica para estas cenas. Funcionou, e Towers aprovou a contratação de Soledad para "Conde Drácula". Mas quem em sã consciência não o faria, depois de ver a belíssima espanhola vestindo apenas botas de cano longo e com a bundinha empinada?


O fato de as cenas com Soledad e Andrés Monales originalmente não terem nenhuma relação com a história de PESADELOS NOTURNOS também explica porque o casal de ladrões nunca interage com os demais personagens do filme (afinal, as cenas foram feitas um ano antes!), passando o tempo todo dos seus 10 a 15 minutos num único set, que tem a inscrição "Life is all shit!" riscada na parede!

Aí, numa tática digna do que depois fariam geniais picaretas como Bruno Mattei e Godfrey Ho, Franco apenas redublou os diálogos e filmou um único trechinho novo com dublês de corpo de Monales e Soledad para conseguir "inseri-los" na nova história e dar-lhes um destino condizente!


Uma evidência do truque é o fato de as cenas "antigas" (estas com o "casal de assaltantes") terem sido filmadas num formato de tela (1.66:1) e as "novas" em outro (1.33:1). Isso fica ainda mais perceptível no primeiro DVD de PESADELOS NOTURNOS, que foi lançado pela Shriek Show/Media Blasters em 2004: a maior parte do filme está em tela cheia, e apenas as cenas com Soledad e Monales aparecem no formato diferente. Recentemente, quando a obra foi relançada em blu-ray por outra empresa (Redemption), a distribuidora corrigiu o problema transformando o filme todo em 1.66:1 (cortando um pouquinho a parte de cima e de baixo da imagem nas cenas filmadas no outro formato).


PESADELOS NOTURNOS tem uma estrutura bastante informal e experimental, com pouquíssimos personagens (são seis atores no total, contando a "ponta" de Soledad e Monales) e duas ou três locações, a maior parte em internas. Por isso, o filme poderia ser facilmente transformado numa peça teatral.

Para alguns pesquisadores da filmografia de Jess, este trabalho modesto e "pequeno" seria uma forma de o diretor descansar a cabeça daquelas grandes produções que rodou com Harry Alan Towers, que tinham grandes orçamentos, atores famosos e dezenas de sets e figurantes - e, por isso mesmo, exigiam muito dele e restringiam sua criatividade e propensão a improvisos.


No final, o que parecia ser um thriller erótico constituído apenas de pesadelos e delírios da protagonista, e sem preocupar-se com explicações (como acontecia no anterior "Necronomicon"), dá uma grande virada, transformando-se em história policial.

Acontece que (SPOILERS) os pesadelos de Anna estão sendo induzidos pelo próprio Dr. Vicas através de hipnose, com o objetivo de enlouquecê-la, forçá-la a cometer suicídio e assim abafar o caso do roubo dos diamantes - tanto o psiquiatra quanto Cynthia estão de conluio com o casal de assaltantes da casa ao lado. (FIM DOS SPOILERS)

E se não parece fazer muito sentido, é porque realmente não faz!


Pesadelos eróticos e personagens que se tornam assassinos sob controle de terceiros são temas recorrentes na filmografia do diretor, que já apareceram antes e reapareceriam até com certa frequência depois. A mulher que é forçada a matar por influência de outras pessoas já tinha aparecido em "Miss Muerte" (1965) e "Necronomicon", e em ambos os filmes a protagonista também era dançarina, como Anna aqui.

Já a protagonista que está sendo assombrada por pesadelos, e que logo perde a noção entre sonho e realidade, vem de "Necronomicon", mas reapareceria depois em "A Virgin Among the Living Dead", "Vampyros Lesbos", "Macumba Sexual" (1981), e diversos outros filmes assinados por Franco.


O maior problema de PESADELOS NOTURNOS é que se percebe claramente que o filme todo nasceu de um improviso do diretor e dos atores (tem cara de ter sido gravado em poucos dias), e apenas para reaproveitar aquelas cenas de arquivo com a musa trágica de Jess, Soledad Miranda, morta num acidente de automóvel em 18 de agosto de 1970, aos 27 anos de idade.

Franco precisou enrolar bastante para conseguir fechar o tempo de um longa-metragem, e a tática adotada foi bem simples: além de repetir os pesadelos de Anna ad nauseam, ele também usou os vários encontros de Anna com o Dr. Vicas como desculpa para bombardear o espectador com flashbacks, quando a garota conta a história da sua vida para o psiquiatra!


Estes flashbacks são gigantescos e ocupam a maior parte da narrativa (no caso, os 45 minutos iniciais de um filme de oitenta e poucos minutos!), mostrando que Anna trabalhava como dançarina em um night club de Zagreb (na Iugoslávia) até conhecer Cynthia, começar a namorar e ser convidada para morar no casarão da loira - que, à época, já estava com "terceiras intenções" em relação à stripper.

Ainda nos flashbacks, Anna apresenta um número de striptease que é simplesmente interminável - segundo a narração da própria moça, seu patrão lhe pedia para "demorar bastante" de maneira a manter os clientes entretidos e consumindo, uma tática até hoje usada nos puteiros da vida real.

O problema é que tanto a personagem quanto o diretor exageram na dose: o tal striptease de Anna dura OITO MINUTOS (!!!), e se eu fosse um cliente do tal night club certamente pegaria no sono com a chatice do número (até porque a "stripper" passa a maior parte do seu "striptease" vestida e tentando sensualizar enquanto fuma um cigarro!).


E não acontece muito mais coisa ao longo do resto do filme, que se resume a Diana Lorys, Colette Giacobine e Soledad Miranda nuas, ou Diana e Colette rolando peladas pela cama simulando uma relação sexual, ou ainda Diana Lorys chorando as pitangas para o psiquiatra interpretado por Paul Muller.

Somente nos 20 minutos finais a história começa a engrenar, mas o caminho até chegar aí é realmente tortuoso (e arrastado), parecendo provocar o espectador para usar o botão Fast Foward. Até a trilha sonora do italiano Bruno Nicolai é genérica e nada memorável.


No fim, chega a ser curioso o fato de Soledad Miranda roubar o filme, e isso naqueles 10 ou 15 minutos de CENAS DE ARQUIVO sem nenhuma relação com a trama principal! A capinha do DVD da Media Blasters é uma bela picaretagem, e estampa uma imagem grandona da musa em destaque, como se ela fosse a atriz principal do filme.

No Brasil, PESADELOS NOTURNOS foi lançado duas vezes em DVD (pela Continental e pela Vinny Filmes), e aqui também repetiu-se a malandragem de dar destaque para Soledad nas capinhas, embora ela seja apenas figurante.


E é irônico que Diana Lorys apareça bem desinibida no filme, quase sempre pelada, considerando que ela havia arregado e pedido uma dublê de corpo para uma única ceninha de peitos de fora em "O Terrível Dr. Orloff" (1961)!

A atriz espanhola estava com 30 anos ao estrelar PESADELOS NOTURNOS, mas, embora não esteja exatamente feia, aparenta muito mais idade (envelheceu mal), e está bem diferente daquela gracinha que enfrentou o Dr. Orloff quase dez anos antes. Sua carreira não foi adiante, e ela abandonou o cinema em 1978. Menos sorte teve sua "namorada" na trama, Colette Giacobine (creditada como "Colette Jack"), que apareceu em apenas mais dois filmes.


PESADELOS NOTURNOS garante ainda um raro papel de destaque para o ator suíço Paul Muller (abaixo), que fez 16 filmes com Jess (começando com "Vênus em Fúria", em 1969), mas geralmente sem tanto tempo em cena. Seu Dr. Vicas (é o mesmo nome do médico interpretado por Howard Vernon em "Miss Muerte") aparece como um homem dividido entre o plano maquiavélico para enlouquecer Anna e o carinho que ele começa a sentir por sua "paciente".

Em uma de suas raras entrevistas, Muller comentou sobre esses projetos improvisados do diretor: "Não me incomodava que Franco rodasse vários filmes ao mesmo tempo, isso até me divertia. Mas é inegável que a qualidade do filme sofria muito com isso. E é uma pena, porque Franco tem um grande talento, mas sua forma de trabalhar não é a tradicional. Não há um roteiro definido, os diálogos são geralmente improvisados, e temos muito pouco tempo para decorá-los. E, com ele, você sempre precisa ter muito cuidado, pois com alguns takes de cá e de lá ele já te coloca num outro filme sem que você saiba!".


Mais interessante que a própria obra é a verdadeira odisseia por que ela passou até ser redescoberta. Franco filmou PESADELOS NOTURNOS em 1970, mas o filme só ganhou sua primeira exibição três anos depois, e NUMA ÚNICA SALA DE CINEMA na Bélgica (embora existam relatos nunca confirmados de exibições também em alguns cinemas da América do Norte).

Depois disso, esta única cópia exibida e os negativos originais desapareceram sem deixar rastros, e PESADELOS NOTURNOS tornou-se tão obscuro que até o ator Jack Taylor esqueceu que havia feito o filme!


Na década de 70, o roteirista e ator Alain Petit descobriu que os negativos acabaram com o produtor francês Robert de Nesle (que bancou diversos trabalhos de Franco, incluindo "La Comtesse Perverse"). Aparentemente, Jess colocou-o como "produtor associado" de PESADELOS NOTURNOS meio no trambique, mas de Nesle nunca conseguiu distribuir o filme oficialmente porque o diretor não tinha um certificado de origem ou qualquer documento atestando seus direitos sobre a obra!

Passaram-se mais alguns anos e, com a morte do produtor francês (em 1978), sua filha repassou todo o seu inventário para a Cinémathèque Française. No meio do material, estavam os rolos do raríssimo PESADELOS NOTURNOS!


Foi quando Petit entrou na história, descobriu o paradeiro do filme e contatou Daniel Lesoeur, da produtora francesa Eurociné, sugerindo que ele obtivesse os direitos para finalmente lançá-lo comercialmente - Lesoeur tinha uma pequeníssima participação na produção, pois uma das cenas do longa foi filmada na cozinha da casa de campo da sua família!

Demoraria mais alguns anos (ou décadas) para o imbróglio relacionado a direitos ser resolvido e PESADELOS NOTURNOS finalmente ver a luz do dia. Esta única cópia existente foi recuperada e lançada em DVD em 2004 (ganhando o título em inglês "Nightmares Come at Night"), 34 anos depois de ser filmado e três décadas depois da sua primeira (e única) exibição na Bélgica!

Pena que, para uma obra que ficou perdida por três décadas, e que chegou a ser considerada um verdadeiro "Santo Graal" pelos fãs de Jess Franco - ou "elo perdido" entre as produções caprichadas de Harry Alan Towers e o momento em que o diretor descambou para os filmes de mulher pelada e sacanagem produzidos por Artur Brauner -, PESADELOS NOTURNOS é bem frustrante.


Com o ressurgimento do filme, o novo "Santo Graal" dos fãs do diretor é o outro trabalho perdido da sua "Fase Liechtenstein", que também foi muito mal-lançado e cujo paradeiro atualmente é desconhecido. Trata-se de "Sex Charade" (pôster abaixo), que foi filmado logo depois de PESADELOS NOTURNOS e compartilha o mesmo elenco: Soledad Miranda, Jack Taylor, Diana Lorys e Paul Muller, mais Howard Vernon e Maria Rohm.

Pelo menos o resumo da trama de "Sex Charade" promete muito mais que PESADELOS NOTURNOS: é sobre um assassino psicopata que foge do manicômio e se refugia na casa de uma bela jovem, que é tomada como refém. Para passar o tempo, o maníaco pede que a garota lhe conte uma história, e ela narra uma versão alegórica daquela própria situação.

É claro que, como tudo relacionado a Jess Franco, não dá para confiar muito na sinopse, que pode ser apenas desculpa para muitas cenas de sonhos/delírios ou de mulher pelada. Mesmo assim, esperemos que "Sex Charade" veja a luz do dia em breve, assim como tantas outras obras nunca lançadas ou inacabadas do prolífico diretor...

PS: Além de PESADELOS NOTURNOS passar tranquilamente como refilmagem de "Necronomicon" (ou "reciclagem da trama"), Franco recontou a mesmíssima história, com pequenas alterações, pelo menos mais duas vezes. A primeira foi em "Los Ojos Siniestros del Doctor Orloff" (1973), em que a personagem de Montserrat Prous é atormentada por pesadelos nos quais comete crimes, e resolve chamar o Dr. Orloff (!!!) para ajudá-la. A segunda foi em "Mil Sexos Tiene la Noche" (1982), já da fase vale-tudo para a Golden Films na Espanha, e desta vez com Lina Romay tendo os pesadelos com assassinatos que ela pode ou não ter cometido na vida real.


Trailer de PESADELOS NOTURNOS



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Les Cauchemars Naissent la Nuit
(1970, Liechtenstein)

Direção: Jess Franco
Elenco: Diana Lorys, Paul Muller, Soledad Miranda,
Colette Giacobine, Andrés Monales e Jack Taylor.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

MACUMBA SEXUAL (1981)


Uma maneira bem simples de definir MACUMBA SEXUAL seria compará-lo ao clássico "Vampyros Lesbos" (1970), com a transsexual Ajita Wilson no lugar da musa Soledad Miranda, e feitiçaria no lugar do vampirismo. Mas, por mais correta que seja, esta definição não faz justiça ao filme - um dos trabalhos mais enigmáticos dirigidos por Jess Franco nos anos 1980, e infelizmente prejudicado pela insistência de travar a narrativa a cada cinco minutos para mostrar cenas de sexo no limite do explícito.

MACUMBA SEXUAL foi filmado nas Ilhas Canárias (Espanha), um dos cenários preferidos do diretor na época, pois a geografia local lhe permitia imitar diversas partes do mundo sem a necessidade de gastar dinheiro indo até elas, do Deserto do Saara (em "Oásis dos Zumbis") a Hong-Kong (em "La Sombra del Judoka Contra el Doctor Wong").

Trata-se de mais uma produção da Golden Films, aquela pequena empresa espanhola que deu a Jess liberdade total para filmar o que quisesse, desde que custasse bem pouco - neste filme em específico, há apenas cinco atores e outras três pessoas na equipe técnica além do próprio Franco!


Franco e uma pequena equipe foram para as Ilhas Canárias em 1981 rodar dois filmes back-to-back, reaproveitando inclusive alguns dos mesmos atores. MACUMBA SEXUAL foi filmado antes (embora tenha sido lançado apenas em 1983, segundo o nem sempre confiável IMDB), e logo depois o diretor fez "La Mansión de los Muertos Vivientes".

Estes dois trabalhos são bem parecidos, e não apenas por causa da locação e dos atores repetidos: ambos jogam elementos de horror (mortos-vivos lá, vodu aqui) numa narrativa típica de filme pornográfico, em que tudo o que acontece é apenas para justificar a próxima trepada, ou a próxima cena em que alguém aparece pelado.


Se em "Vampyros Lesbos" a loiraça Ewa Strömberg estava sendo assombrada por pesadelos recorrentes estrelando a Condessa Nadine Carody (uma vampira interpretada por Soledad Miranda), aqui é a corretora de imóveis Alice Brooks que está sendo visitada, nos seus pesadelos, por uma misteriosa feiticeira vodu (Ajita Wilson) que aparece sempre em meio às dunas, levando dois "escravos" andando de quatro e com coleiras no pescoço, como se fossem feras selvagens. Às vezes, nesses sonhos, Alice também vê esta mulher desfalecida na areia, com um misterioso ídolo (que lembra um pato mumificado, mas com uma vistosa ereção!) cobrindo sua genitália.


A "heroína" é interpretada pela musa e esposa do diretor Lina Romay, aqui "disfarçada" com sua tradicional peruca chanel loira e usando o pseudônimo "Candy Coster". Ela está de férias em Bahía Feliz, uma das ilhas das Canárias, com o marido novelista Peter (Antonio Mayans, creditado como "Robert Foster", as usual). Ele está preparando seu novo livro e precisa de paz e tranquilidade, embora invista mais tempo transando com a esposa tarada do que escrevendo!

Mas o clima romântico é interrompido pelo telefonema do patrão de Alice, que pede que ela vá discutir os detalhes da venda de uma propriedade em Atlantic City com uma cliente em potencial, a Princesa Tara Obongo, que vive reclusa numa ilha próxima. Com a promessa de uma grande comissão caso feche o negócio, a garota se manda no primeiro barco rumo à casa da compradora.


A exemplo do que aconteceu com Ewa Strömberg em "Vampyros Lesbos", Alice logo descobrirá que sua futura cliente é justamente a mulher que estão aparecendo nos seus sonhos/pesadelos recorrentes! Pior: a Princesa Obongo é uma sacerdotisa vodu que atrai suas vítimas até a ilha e as domina, transformando-as em escravas sexuais.

Depois de ser seduzida pela mulher e participar de um autêntico gang-bang com a princesa e seus dois escravos de coleira, a jovem acorda no dia seguinte e encontra sua anfitriã "morta", deitada na areia com aquele misterioso ídolo entre as pernas, como acontecia nos seus pesadelos. Apavorada, Alice foge e volta para perto do marido, mas já é tarde demais: Peter também está sob o poder hipnótico da princesa!


E o que a macumba tem a ver com a história, afinal?

Bom, para começo de conversa, os rituais filmados por Franco em MACUMBA SEXUAL têm pouco ou nada a ver com macumba, e lembram muito mais o vodu (que o diretor já havia enfocado no fraquinho "Voodoo Passion", de 1977). A Princesa Obongo vive rodeada de ídolos africanos que, segundo Jess, foram comprados de imigrantes senegaleses que viviam nas Ilhas Canárias.

O título inicial do filme era apenas "Macumba", mas o "Sexual" foi adicionado pelo distribuidor posteriormente para "agregar valor" à produção, mais ou menos como aconteceu com muitos filmes brasileiros realizados entre as décadas de 70 e 80 (que ganhavam títulos "pornográficos" para atrair mais espectadores).


É possível que a referência à macumba seja apenas uma citação a um filme de 1960 chamado "Macumba Love" (exibido nos cinemas brasileiros como "Mistério na Ilha de Vênus"), uma co-produção classe B entre EUA e Brasil, que foi dirigida por Douglas Fowley aqui no país! As histórias dos dois filmes inclusive têm semelhanças: em "Macumba Love" também há uma sacerdotisa vodu aprontando altas confusões com um casal em lua-de-mel.

O próprio Franco se atrapalha ao tentar explicar o que é macumba numa entrevista que faz parte dos extras do DVD importado do filme, confirmando que não entendia bulhufas da coisa e deve ter se inspirado no infame "Macumba Love", criando bizarros rituais saídos da sua cachola, como o curioso momento envolvendo um ídolo de marfim que é desenterrado do meio do deserto (e o formato fálico do negócio já dá uma bela ideia de para quê exatamente ele será utilizado mais tarde...).


A exemplo de "La Mansión de los Muertos Vivientes", e de outros filmes que o diretor começou a fazer ainda nos anos 1970, MACUMBA SEXUAL tem 15 minutos de história e 60 de sexo e safadeza.

Lina Romay, como de costume, aparece pelada frente e verso quase que o filme inteiro, e é até estranho vê-la VESTIDA em algumas poucas cenas. A cada 10 minutos, Franco dá um jeito de encaixar uma cena de sexo ou pelo menos de exibição gratuita das formas da sua estrelinha - que, quando não está transando com o marido, está sendo abusada pela Princesa Obongo e seus escravos.


Parece ser uma vingança do diretor contra a censura espanhola, que o manteve afastado do seu país-natal por quase 20 anos. Com a morte do General Francisco Franco e o fim da ditadura (em 1975), o cinema produzido no país pôde escancarar tudo aquilo que antes era proibido, e Jess levou isso ao pé da letra.

Inclusive falta muito pouco para MACUMBA SEXUAL entrar no território do pornô explícito, e algumas cenas rápidas ficam no limite do X-Rated - como quando Ajita Wilson enfia um dedo em certo orifício corporal de Lina Romay, ou quando o tal ídolo de marfim com formato fálico é parcialmente enfiado na vagina da própria Ajita!


O problema é que, passado o impacto inicial de vermos Lina Romay sempre pelada e transando avidamente com homens e mulheres (pense em alguém que gosta do que faz), MACUMBA SEXUAL começa a se tornar repetitivo. E como a história tinha bastante potencial, o espectador só pode lamentar que a narrativa não avance apenas porque Franco precisa cortar para mais uma cena de putaria ou de mulher pelada.

Parece até um disco de vinil riscado que fica tocando sempre a mesma música: talvez existam faixas bem melhores depois, mas você não tem acesso a elas e precisa ficar preso naquele repeteco. Da mesma forma, há ideias bem legais no filme que o diretor não se preocupa em desenvolver, preferindo ficar na zona de conforto da sacanagem seguida de mais sacanagem.


É uma pena, porque o filme ficaria bem melhor se investisse mais nos elementos de horror. Em alguns momentos, quando quer, Franco até consegue criar um clima genuinamente arrepiante.

Tal qual uma Freddy Krueger dos pobres (mas criada três anos ANTES que o personagem de Wes Craven), a Princesa Obongo fica assombrando Alice nos momentos mais inesperados, de maneira que o próprio espectador começa a ficar perdido entre pesadelo e realidade: numa hora ela está transando com o marido, e no minuto seguinte Peter é substituído pela "macumbeira"; numa hora Alice está se masturbando, e no minuto seguinte a princesa aparece magicamente tocando as partes da garota, e por aí vai. Ou seja, a personagem de Ajita Wilson é uma daquelas ameaças onipresentes e onipotentes, o que me lembrou filmes bem melhores sobre feitiçaria, como o assustador "Adoradores do Diabo" (1987), de John Schlesinger.


Além disso, os estranhos rituais realizados pela sacerdotisa - como quando ela usa o tal ídolo com formato fálico no bizarro "ritual de iniciação" de Alice - passam aquela sensação de que não há para onde fugir, e de que o casal de protagonistas não tem saída contra a poderosa magia da feiticeira. Como o já citado Freddy, ela está sempre no controle daquele mundo de delírios e pesadelos, onde os pobres mortais não têm vez.

E tem também aquela esquisitíssima criatura em forma de pato mumificado, que fica no limite entre o tosco e o inquietante. Suas repetidas aparições durante o filme ajudam a criar um clima de horror bem particular, uma coisa bem de pesadelo filmado. Só que ai começa a fodelança e...


Na resenha de "La Mansión de los Muertos Vivientes", eu comentei que Jess pode ter sido bastante influenciado por "O Iluminado" ao rodar estes dois filmes de horror ao mesmo tempo, já que lá havia um hotel isolado e abandonado assombrado por possíveis fantasmas, tipo um Overlook Hotel dos pobres.

Pois aqui em MACUMBA SEXUAL há uma cena que ajuda a confirmar a inspiração, quando o personagem de Mayans, sob efeito da magia da princesa, datilografa uma página inteira com seu nome, "Tara" - mais ou menos como o antológico "Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão", de "O Iluminado".


MACUMBA SEXUAL termina com aquele final circular que os italianos adoravam fazer, em que a falsa ilusão de segurança logo dá lugar ao reinício do pesadelo. E funciona. Por isso eu insisto que Franco poderia ter feito um belíssimo filme de horror, se não estivesse tão preocupado em fechar a cota de putaria e mulher pelada.

Aí acontece o seguinte: as partes sérias e sinistras ficam separadas não apenas por longas cenas de sexo, mas também por várias bobagens que transformam a coisa toda em comédia involuntária. Tipo as roupas curtíssimas que Alice sempre veste (abaixo), incluindo shortinhos atolados na bunda ou que mal cobrem as suas "carnes"; ou o momento em que a "heroína" atravessa um enorme deserto a pé, correndo, sem água e PELADA; ou, ainda, a peruca de Lina Romay se soltando e caindo numa cena em que ela está "montada" em Antonio Mayans (e Franco nem se preocupou em cortar, já que foi ele quem editou o filme!).


E embora a Princesa Obongo perca de goleada para a Condessa Carody de Soledad Miranda em "Vampyros Lesbos", a exótica Ajita Wilson tem uma presença realmente hipnótica, e por isso é uma pena que tenha feito tão poucos filmes do gênero - na entrevista nos extras do DVD, Jess chega a compará-la a Christopher Lee!

A molecada de hoje não vai lembrar, mas Ajita provocou muita polêmica (e ganhou muitas manchetes) entre o final dos anos 70 e metade da década de 80. Nascida "George Wilson", ela começou sua carreira artística como travesti, mas logo fez uma operação de mudança de sexo e tornou-se uma desejada musa transsexual.


Numa época em que mudança de sexo ainda era tabu (lembram que, por aqui, Roberta Close também vivia nas manchetes pelo mesmo motivo?), Ajita aproveitou os holofotes e estendeu seus 15 minutos de fama, exibindo o "novo" corpo em uma série de filmes com sexo softcore (principalmente WIPs, aquelas histórias de mulheres na cadeia) e até alguns pornôs. Foi um sucesso: muita gente até hoje duvida que aquela negra de corpo escultural nasceu homem!

Ela já tinha sido dirigida por Franco no filme de mulheres na prisão "Sadomania" (1980), em que interpretou a sádica diretora de um campo de prisioneiras, e também contracenou com Lina Romay antes no pornô "Apocalipsis Sexual" (1981), de Carlos Aured e Sergio Bergonzelli.

Mas a Princesa Obongo é o grande papel da sua carreira, com direito a um diálogo que parece referir-se à própria Ajita Wilson: "Eu sou tudo que é proibido, uma mulher negra de sexualidade indefinida, devassa e irresistível!". Infelizmente, Ajita morreu prematuramente, de complicações resultantes de um acidente de trânsito que sofreu em 1987.


Para os conhecedores da filmografia do velho Jess, MACUMBA SEXUAL também tem duas curiosas piadas internas. A primeira é a participação do próprio diretor, repetindo o papel que fez em "Vampyros Lesbos" (o funcionário esquisitão de um hotel).

Lá em 1970, o personagem se chamava Memeth; aqui, é Memé! Só que agora ele não é um assassino de mulheres, como em "Vampyros Lesbos", mas "apenas" um voyeur, que fica espionando Alice pelada em seu quarto (o que acontece com bastante frequência, diga-se; e, como é comum nos filmes do diretor, a moça nem se preocupa em cobrir a nudez ao perceber que está sendo observada por um completo desconhecido!).


A outra brincadeira é o pseudônimo usado nos créditos iniciais pela atriz Genoveva Ojeda, que "interpreta" uma das "cachorras" da Princesa Obongo: LORNA GREEN - que, para quem não lembra, era o nome da personagem de Janine Reynaud em "Necronomicon" (1967). Desde então, várias "Lornas Green" apareceram em filmes do diretor, seja como nomes de personagens, seja como pseudônimos de atrizes.


Apesar dos pesares, MACUMBA SEXUAL é um dos filmes mais bem filmados dessa fase picaretona do diretor, com belíssimo aproveitamento dos cenários naturais (as dunas das Ilhas Canárias realmente lembram um grande deserto, e lá pelas tantas aparece um barco que parece saído de uma velha aventura de piratas) e também da curiosa arquitetura da região (a mansão modernosa da princesa é um achado!)

É uma pena, portanto, que o filme siga pelo caminho fácil do erotismo softcore. E que a trama requentada de "Vampyros Lesbos" provoque uma sensação de déjà vu no espectador - mas é bom ressaltar que esta refilmagem disfarçada não chega a um dedinho do pé do sofisticadíssimo "Vampyros Lesbos"!


Do jeito que está, somente um tipo de espectador não se sentirá tentado a assistir MACUMBA SEXUAL fazendo uso da tecla Fast Foward: os fãs apaixonados de Lina Romay, que aqui, como já aconteceu em "A Maldição da Vampira" e "La Mansión de los Muertos Vivientes" (entre tantos outros), terão a oportunidade de estudar o corpão da musa espanhola nos seus mais mínimos detalhes.

Mas quem resistir bravamente à narrativa redundante se deparará com um filme bem estranho e hipnótico, às vezes incômodo pelos poucos diálogos, às vezes até assustador pelo excesso de cenas de pesadelo/delírio. Poderia ser bem melhor? Sim, poderia. Mas, a julgar pelas tranqueiras que Franco fazia nessa fase "liberdade total", também poderia ser bem pior!

Chuta que é macumba? Não necessariamente: fãs do cinema Franquiano irão se divertir com certeza; mas eu definitivamente não recomendaria para novatos na obra do diretor...




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Macumba Sexual (1981, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Lina Romay (aka Candy Coster), Ajita Wilson,
Antonio Mayans (aka Robert Foster), Genoveva Ojeda
(aka Lorna Green), José Ferro e Jess Franco.