WebsiteVoice

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A MALDIÇÃO DA VAMPIRA (1973)


A morte da atriz espanhola Soledad Miranda aos 27 anos de idade, num acidente de carro em 18 de agosto de 1970, foi um duro golpe no diretor Jess Franco, que perdeu sua grande musa de maneira repentina. Para tentar esquecer a tragédia, ele atirou-se num ritmo insano de trabalho.

Foi quando um colaborador habitual, o ator e fotógrafo Raymond Hardy (nome de batismo: Ramón Ardid), apresentou-lhe sua esposa, uma jovem atriz de teatro de Barcelona chamada Rosa María Almirall Martínez. Franco bateu o olho na moça e viu nela a beleza e a espontaneidade da finada Soledad. Nascia uma nova musa: Lina Romay, que logo também se tornaria companheira de Franco pelos próximos 40 anos (o pseudônimo foi inspirado na nova-iorquina Lina Romay, que era a principal voz feminina da banda do "Rei do Mambo" Xavier Cugat nos anos 1940, e também apareceu em alguns filmes).


A Lina Romay espanhola não apenas era bonita e espontânea, mas também uma exibicionista confessa, que, ao contrário de Soledad, não tinha problemas em aparecer nua o filme inteiro, ou mesmo filmar cenas de sexo explícito. Seu primeiro trabalho com Franco foi uma pequena participação em "La Maldición de Frankenstein" (1972), mas suas cenas aparecem apenas na edição espanhola do longa.

Após mais alguns pequenos papéis em outros filmes, Jess resolveu assumir a moça como "reencarnação de Soledad Miranda" e apresentá-la ao mundo como protagonista de "La Comtesse Noire", obra lançada em DVD no resto do mundo como "Female Vampire" e no Brasil como A MALDIÇÃO DA VAMPIRA.


Rosa Maria/Lina Romay tinha 18 para 19 anos ao encarar o papel principal da Condessa Irina von Karlstein, uma vampira com séculos de existência que não se alimenta de sangue, como os vampiros tradicionais, mas da "energia vital" dos seres humanos - sugada não a partir do pescoço das vítimas, mas a partir de... seus genitais?

Tirando esse "pequeno detalhe", A MALDIÇÃO DA VAMPIRA é uma verdadeira coleção de elementos já vistos em outros filmes de Jess, pegando emprestadas muitas ideias de "Vampyros Lesbos" - tipo a vampira safadinha sem caninos pontiagudos, que tem reflexo no espelho e não é afetada pela luz solar, e portanto pode até tomar banho de sol à beira da piscina -, mas também de "Necronomicon" (a representação de práticas sadomasoquistas) e de "O Terrível Dr. Orloff" (há um personagem batizado com o sobrenome do famoso personagem, e ele ironicamente é cego, assim como Morpho, o criado do Dr. Orloff no filme de 1961!).


Em A MALDIÇÃO DA VAMPIRA, a silenciosa Condessa Irina (ela é muda) retorna à terra-natal dos seus antepassados - a Ilha de Madeira, em Portugal -, acompanhada de um igualmente silencioso criado que obedece cegamente às suas ordens (Luis Barboo). A vampira mantém sua juventude eterna sugando a energia vital de homens e mulheres, e a polícia fica sem pistas quando os cadáveres "drenados" começam a se multiplicar na região.

O médico-legista Dr. Roberts (interpretado pelo próprio Jess Franco!) desconfia que há um vampiro à solta, mas é óbvio que os investigadores não acreditam na sua "teoria". Assim, ele consulta um colega cego e especialista em parapsicologia, o Dr. Orloff (Jean-Pierre Bouyxou), que confirma a hipótese, e os dois homens juntam forças para tentar deter a ameaça.

Ao mesmo tempo, o poeta bon-vivant Barão Von Rathony (Jack Taylor, de "Necronomicon") se apaixona por Irina, e vice-versa. Poderá este amor vencer a maldição da eternidade da vampira, ou o pobre escritor está destinado a ser sua próxima vítima?


Descrevendo assim, A MALDIÇÃO DA VAMPIRA parece até contar uma história linear e redondinha; mas acredite, foi muito difícil escrever esses três parágrafos sobre o filme, já que basicamente NADA acontece ao longo dos 101 minutos de projeção além de Lina Romay em atividade sexual, sozinha ou acompanhada, E NUA DURANTE 99% DO TEMPO!!!

Longe de mim querer reclamar da quantidade de mulher pelada em um filme, mas Franco exagerou na dose aqui: quando não aparece transando com algum homem ou mulher, Lina é mostrada completamente nua na cama, se masturbando, rolando de um lado para o outro como quem está no cio, ou chupando o dedo lascivamente. Não demora para a nudez da atriz ficar repetitiva, bem como os seus inúmeros encontros sexuais, e então a "história" trava.


Alguns fãs e pesquisadores da obra de Jess consideram este um dos seus títulos fundamentais, mas eu confesso que não achei grande coisa. Do jeito que está, A MALDIÇÃO DA VAMPIRA é menos um filme e mais um veículo para o exibicionismo da nova musa do diretor, que, com a câmera, percorre cada palmo do belo corpo da moça (com direito a inúmeros super-zooms da sua vagina!).

A primeira cena do filme já dá o tom do que se verá em seguida: uma Lina Romay completamente pelada (veste apenas capa preta, cinto de couro e botas de cano longo) "sai" da neblina e caminha lentamente em direção da câmera, enquanto o diretor dá zooms no seu rosto, peitos e pêlos púbicos. Ela continua caminhando até literalmente bater com o rosto na lente da câmera, e Franco devia estar tão fascinado com a beleza de Lina que nem se preocupou em cortar isso!


O restante de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA não passa muito de a-) Lina pelada (a não ser pela capa, cinto e botas) atacando suas vítimas e "sugando-as" pela genitália, b-) diversas cenas de sexo softcore no limite do pornográfico, e com bastante insinuação de sexo oral, ou c-) Lina rolando pelada em sua cama e sensualizando para a câmera do diretor.

Para piorar, o fato de a Condessa Irina ser muda limita bastante a quantidade de diálogos entre os personagens. Chega a ser cômica a cena em que uma jornalista, Ana (a esquisita Anna Watican), tenta "entrevistar" a vampira (exato: Jess Franco filmando "Entrevista com um Vampiro" 20 anos antes do filme, e curiosamente o livro de Anne Rice foi publicado no mesmo ano de 1973!). Irina responde as perguntas apenas fazendo "sim" ou "não" com a cabeça, e eu fico imaginando como é que a jornalista iria publicar esta "entrevista"...


É curioso perceber como Jess mais uma vez mostra-se à frente do seu tempo, antecipando personagens e situações que veríamos bem depois. A Condessa Irina lembra tanto a vampira muda e peladona interpretada por Mathilda May em "Força Sinistra" (1985), de Tobe Hooper, que também suga a força vital de suas vítimas (mas através de efeitos especiais, e não de sexo oral), quanto Mara Tara, a personagem criada por Angeli para sua saudosa revista Chiclete com Banana, que também mata suas vítimas através de boquetes mortíferos!


Infelizmente, esta ideia interessante do roteiro (o "roubo" da energia vital durante o sexo) é mostrada em excesso até tornar-se repetitiva, enquanto um conflito que poderia ser bem melhor aprofundado (a paixão da vampira pelo poeta "mortal") é sub-aproveitado, e isso numa época em que os "vampiros apaixonadinhos" ainda não estavam na moda. Os caçadores de vampiros interpretados por Franco e Jean-Pierre Bouyxoy também acabam sendo desperdiçados.

Isso porque a narrativa lembra muito a de um filme pornô, apenas pulando de uma (longa e demorada) cena de foda para outra, e comprometendo as ideias mais originais do roteiro. Personagens entram em cena, transam com a vampira, morrem e saem de cena, sem nenhuma contribuição para a trama. Lá pelas tantas, por exemplo, a condessa vampira acaba na mansão da "Princesa de Rochefort" (Monica Swinn), que é adepta do sadomasoquismo, e apenas a desculpa que Jess precisava para uma loooooonga sequência envolvendo submissão, sadismo, sexo e morte, que trava completamente o filme.


Embora eu não morra de amores por A MALDIÇÃO DA VAMPIRA, é impressionante como Franco consegue colocar algumas imagens fascinantes mesmo num trabalho mais fraco, como este. A cena inicial da vampira peladona caminhando numa floresta tomada pela neblina é muito bonita, assim como o literal "banho de sangue" da condessa, numa banheira repleta do líquido vermelho-escuro - ao som de uma trilha melancólica, e hipnotizante, composta pelo francês Daniel J. White (depois reutilizada no péssimo "Zombie Lake", de Jean Rollin).

Porém, na maior parte do tempo, o que se percebe é certo desleixo do diretor, com um excesso do uso de zoom (para baratear custos de produção e acelerar o ritmo das filmagens) e de cenas fora de foco.


Isso é compreensível pelo fato de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA ser um daqueles projetos personalíssimos em que o espanhol hiperativo fez praticamente tudo: não apenas dirigiu e escreveu o roteiro (com o pseudônimo "J.P. Johnson", em homenagem ao famoso pianista de jazz James P. Johnson), mas também filmou, quase sempre com a câmera no ombro (usando outro pseudônimo, "Joan Vincent"), e editou, assumindo um terceiro nome falso ("P. Querut") para a equipe técnica parecer maior do que realmente era!

Segundo a atriz Monica Swinn, aqui em seu primeiro trabalho com Jess (ela era namorada do ator e crítico Bouyxou à época, e foi convidada para aparecer como a princesa adepta de S&M), a equipe de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA era praticamente inexistente: "Não havia 'equipe', era apenas Jess, Ramón, o ex-marido de Lina, que era uma espécie de faz-tudo, e [o assistente de direção] Rick de Connick".


Tem até uma lenda, espalhada por Lina Romay, de que Jess teria feito o filme com dinheiro do próprio bolso, depois que ganhou um prêmio considerável na loteria (!!!). Mais tarde, ele vendeu os direitos de distribuição para o parceiro de longa data Marius Lesoeur, da Eurociné, para conseguir bancar a pós-produção.

Não satisfeito em fazer praticamente tudo, Franco ainda rodou nada menos de TRÊS VERSÕES de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA, tornando-o um daqueles autênticos pesadelos para pesquisadores da obra do diretor! No passado, ele até já havia feito algumas cenas diferentes (com roupa e sem roupa) para produções tipo "O Terrível Dr. Orloff"; mas esta é a primeira vez que Jess rodou versões diferentes de um mesmo filme (algo que se tornaria comum a partir daqui).


A versão mais conhecida (e também a que foi lançada em DVD no Brasil, e avaliada para esta resenha) é a "montagem softcore" da história, em que vemos Lina Romay sempre pelada e sugando a energia vital de suas vítimas por via genital. Esta versão tem cerca de 1h40min.

Mas também existe uma versão pornográfica chamada "Les Aveleuses" ("Aquelas que Engolem", em tradução literal), em que a própria Lina aparece "com a boca na butija", fazendo cenas de sexo oral explícitas para complementar aquelas que eram apenas insinuadas na outra montagem. Esta edição tem quase 8 minutos a mais, e traz dublês de pinto para atores como Jack Taylor, que não participaram das cenas de sexo explícito.

Por fim, a terceira e mais interessante versão chama-se "Erotikill" (capinha ao lado), ou "The Bare-Breasted Countess", dependendo da parte do mundo em que foi lançada. Este corte tem quase meia hora A MENOS e dâ ênfase no horror, usando takes alternativos em que a vampira aparece quase sempre vestida e atacando suas vítimas da forma "tradicional" - ou seja, mordendo o pescoço. Toda a ideia da força vital sendo sugada pelos órgãos sexuais foi excluída, e a quantidade de sexo e mulher pelada é mantida no mínimo necessário.


Se já parece complicado descrever as três versões de um mesmo fime, imagine o maluco do Jess Franco FILMANDO isso tudo ao mesmo tempo! Afinal, praticamente sem dinheiro e com uma equipe técnica reduzida, ele tinha que rodar três versões de uma mesma cena (veja alguns exemplos nas imagens abaixo).

Tomemos como exemplo o primeiro ataque da Condessa Irina, que é a um granjeiro da região. Franco filmou uma versão desta cena com Lina Romay "vestida" (a capa preta cobre sua nudez) seduzindo o rapaz e então mordendo seu pescoço, como um vampiro tradicional. Depois, o diretor repetiu o take com Lina pelada (fora, capa!) seduzindo o rapaz e praticando sexo oral apenas sugerido, por onde rouba sua "energia vital". Finalmente, Franco rodou alguns takes a mais com closes da atriz realmente chupando um pinto (que pode ser do ator ou de um dublê para as cenas explícitas), para a versão pornográfica. Ou seja: no tempo que um diretor "normal" provavelmente filmaria três takes da mesma cena, para ter opções de material para editar depois, Franco filmou três versões DIFERENTES da mesma cena para três cortes DIFERENTES do mesmo filme! Gênio ou louco?

Peitos cobertos e mordida no pescoço nos takes para "Erotikill"...

...e peitos de fora + sexo oral na versão "A Maldição da Vampira"


Vampira chupa o sangue da jornalista em cena de "Erotikill"...

...e chupa outra coisa na cena de "A Maldição da Vampira"!


Em "Erotikill", o ataque é no pescoço da Princesa de Rochefort...

...mas em "A Maldição da Vampira" é em outro lugar!


O Dr. Orloff examina marcas no pescoço em "Erotikill"...

...e uma área mais embaixo em "A Maldição da Vampira".


E quando eu digo que essa tática é um pesadelo para pesquisadores da obra do diretor, é porque cada uma das três versões diferentes de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA tem cenas que as outras não têm - e depois as três ainda ganhariam "sub-versões" feitas para determinados mercados, dependendo da censura de cada país!

Por exemplo: enquanto na versão "terror" chamada "Erotikill" vemos a Condessa Irina mordendo o pescoço das vítimas (com direito a várias imagens da vampira com a boca ensanguentada que não estão nas outras duas versões), aquela longa cena envolvendo a prática de sadomasoquismo, com as atrizes Monica Swinn, Alice Arno ("La Comtesse Perverse") e Gilda Arancio, NÃO aparece em "Erotikill" - mas é mostrada, com mais ou menos sacanagem, nas montagens softcore e hardcore! Logo, para ver TUDO que Franco rodou para este filme, só mesmo catando as três versões! (Em futuras edições da MARATONA JESS FRANCO, prometo fazer uma resenha apenas de "Erotikill", que acaba sendo um filme completamente diferente de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA.)


O grande problema é que o sem-noção do Jess Franco fez essa lambança toda sem avisar a maioria dos atores! Uma das primeiras a perceber que havia algo de muito estranho na maneira de ele filmar "takes alternativos" das cenas foi Monica Swinn.

"Eu costumava olhar para ele [Franco] e pensar: 'Mas quantos filmes eu estou fazendo afinal?'. Começava a lembrar das cenas que gravamos antes e pensava comigo mesmo: 'Não pode ser a mesma personagem!'. E era muito difícil saber o que estava acontecendo, mas às vezes ele ficava tão satisfeito com o que estava fazendo que confessava: 'Adivinhe? Estamos gravando três fimes ao mesmo tempo!'", lembrou Monica, numa entrevista ao livro "Obsession: The Films of Jess Franco".


Outros não ficaram tão animados ao saber que estavam fazendo três filmes diferentes pelo preço de um, ou por preço nenhum, como aconteceu com o pobre Jack Taylor: o ator norte-americano ficou furioso ao saber que existia uma versão X-Rated do filme ("Les Aveleuses"), em que a montagem insinuava que ele protagonizava uma cena de sexo explícito, graças à inserção do tradicional "dublê de pinto" nos takes filmados em close.

"Eu fiz esse filme na Ilha de Madeira, que nunca terminamos de filmar e nunca me pagaram um centavo. Alguns anos depois, um amigo me disse: 'Não sabia que você fazia pornô', e eu também não sabia! Foi então que eu descobri que Jess transformou o filme num pornô, que eu nunca fiz e pelo qual nunca fui pago. Trabalhar com Jess era divertido, mas também podia ser terrivelmente frustrante às vezes", observou Taylor, também em entrevista ao livro "Obsession".


De qualquer jeito, A MALDIÇÃO DA VAMPIRA marcou o início de uma relação não apenas profissional entre Franco e Lina - cuja paixão fica mais que evidente pela maneira como a câmera do diretor "namora" o corpo da atriz ao longo do filme.

A união de cineasta e musa acabou com o casamento de ambos: Jess estava casado com a francesa Nicole Guettard, com quem tinha uma filha, e o marido de Lina, Raymond/Ramón, até aparece no filme como um massagista bonitão que acaba se tornando vítima da vampira. Menos mal que marido e esposa abandonados levaram a "troca" na esportiva e continuaram trabalhando com Jess e Lina até os anos 1990. Os dois pombinhos ficaram juntos até o final: Lina morreu em 2012, Jess em 2013.


Mesmo que seja considerada uma obra superior do diretor por muitos dos seus fãs, eu já acho que A MALDIÇÃO DA VAMPIRA passa longe da sofisticação e daquele erotismo mais refinado de "Vampyros Lesbos", que foi realizado apenas três anos antes. Aqui, Jess abandona qualquer sutileza e escancara tudo (literalmente, no caso da montagem X-Rated), mas a quantidade gigantesca de sexo e nudez logo se torna redundante e enfadonha.

Inclusive o espectador pode avançar a maior parte do filme sem pena com o Fast Foward, pois há pouquíssimos diálogos, e quase nada se perde depois da primeira ou da segunda looooooonga cena de vampirismo sexual.

Isso aproxima A MALDIÇÃO DA VAMPIRA de um filme pornô (mesmo que você esteja vendo a versão softcore), daqueles que, por causa de duas ou três cenas legais, te obrigam a ver o negócio inteiro no FF até chegar nas partes boas.

Mas certamente será um deleite para os fãs de Lina Romay.


Trailer de A MALDIÇÃO DA VAMPIRA



*******************************************************
La Comtesse Noire / Female Vampire
(1973, França / Bélgica)

Direção: Jess Franco (aka J.P. Johnson)
Elenco: Lina Romay, Jack Taylor, Monica Swinn,
Alice Arno, Jess Franco, Luis Barboo, Gilda Arancio,
Jean-Pierre Bouyxou e Raymond Hardy.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

WHITE CANNIBAL QUEEN (1980)


Em 1972, um filme de baixo orçamento chamado "O País do Sexo Selvagem" ("Il Paese del Sesso Selvaggio / The Man From the Deep River"), dirigido pelo italiano Umberto Lenzi, lançou as bases de um dos ciclos mais infames do cinema classe B produzido na Itália: as aventuras envolvendo ataques de canibais. Enquanto a de Lenzi não passava de uma mistura do western "Um Homem Chamado Cavalo" (1970), de Elliot Silverstein, com o clima do documentário sensacionalista "Mundo Cão" (1962), de Paolo Cavara, Franco Prosperi e Gualtiero Jacopetti, o que veio depois era tão sangrento e apelativo que já entrava no território do cinema de horror, com direito a cenas reais de animais sendo mortos e esquartejados diante da câmera!

Ao longo da década de 1970, e até o começo dos anos 1980, vários diretores se aventuraram por este subgênero: Ruggero Deodato (com seus clássicos "O Último Mundo dos Canibais" e principalmente "Cannibal Holocaust"), Sergio Martino ("A Montanha dos Canibais"), Joe D'Amato ("Emanuelle and the Last Cannibals" e "Papaya dei Caraibi"), e o próprio Lenzi (de volta à carga com "Os Vivos Serão Devorados" e "Cannibal Ferox"), entre outros menos expressivos.


Enquanto isso, o cineasta espanhol Jess Franco estava fazendo filmes sob encomenda para a Eurociné, uma pequena produtora de cinema de Paris que pertencia aos seus mais antigos colaboradores, Marius e Daniel Lesoeur. E não via nada de bom no tal ciclo italiano de filmes sobre canibais. Mesmo assim, quis o destino (ou a falta de opção melhor) que pai e filho Lesoeur contratassem justamente o pobre Jess para rodar não um, mas DOIS filmes sobre o tema!

O primeiro deles foi "Mondo Cannibale", mais conhecido pelos títulos em inglês "The Cannibals" e principalmente WHITE CANNIBAL QUEEN. O outro, "Manhunter - O Sequestro", foi rodado alguns meses depois e é bem melhor, principalmente por ser menos "canibais x homens brancos" e mais filme de monstro. Ambos foram estrelados por Pier Luigi Conti, cujo nome artístico é "Al Cliver".


Sobre os tais filmes italianos de canibais que estavam no auge do sucesso na época (foi o ano da estreia de "Cannibal Holocaust"), Jess disse o seguinte, em entrevista para o DVD norte-americano de WHITE CANNIBAL QUEEN: "Eu vi alguns deles e não gostei, eram repulsivos. Vi um ou dois, e não quis ver mais nenhum. Estes filmes tentavam ser realistas, mas eram o oposto, falsos e baratos".

Entretanto, segundo ele, havia pelo menos três coisas boas a tirar de um filme do gênero quando você era contratado para filmar um: "Eles são exóticos, têm ação, aventura e horror, e o único tipo de drama é que às vezes você precisa fazer um close de alguém comendo um pedaço de carne crua com sangue falso". 


WHITE CANNIBAL QUEEN foi co-produzido pelo italiano Franco Prosperi (um dos diretores de "Mundo Cão") e rodado em Alicante, na Espanha, numa floresta de coqueiros que ficava a apenas 10 quilômetros da cidade. Praticamente ao mesmo tempo, uma outra produção sobre canibais da Eurociné era filmada nos mesmos cenários e com os mesmos atores, figurantes e equipe técnica para economizar - trata-se do infame "Cannibal Terror", de Alain Deruelle.

É até engraçado assistir aos dois em sequência, porque você percebe direitinho as semelhanças entre eles, e quase consegue imaginar Franco fazendo um intervalo para o cigarrinho e Deruelle assumindo a câmera para rodar as cenas do outro filme - que, só para registrar, é ainda pior que essa tranqueira aqui do velho Jess!


No roteiro escrito pelo próprio Franco (com uma mãozinha de um não-creditado Jean Rollin, segundo algumas fontes), Cliver interpreta o Dr. Jeremy Taylor, um antropólogo que está viajando de barco pela "Amazônia" - mas as cenas foram todas filmadas no litoral da Espanha, que em nada se parece com a Amazônia, como você pode ver pelas imagens acima (lá pelas tantas, aparece até um belo jacaré de plástico!).

Com ele viajam a esposa Manuella (Pamela Stanford, atriz francesa que, à época, já era veterana nos filmes de Franco) e a filha pequena Lena (interpretada por Anouchka Lesoeur, filha do produtor Daniel). Digamos apenas que não é uma boa ideia você levar sua família para uma perigosa expedição em pleno território canibal...


Aí dá a lógica: um grupo de selvagens invade o barco, mata o capitão e ataca Manuella, que é lentamente devorada viva diante dos olhos do marido - e considerando que a atriz Pamela Stanford fez várias cenas safadas em filmes anteriores do diretor, é impossível não visualizar o ataque dos quatro ou cinco canibais ao mesmo tempo como um gang-bang!

Taylor não consegue salvar a esposa e ainda é aprisionado pelos índios, enquanto sua filha fica escondida no porão. O barco sem rumo naufraga (off-screen, pois não havia dinheiro suficiente para filmar o desastre), e a pequena Lena só sobrevive porque fica presa em alguns galhos na margem do rio.


Enquanto isso, seu pai é levado à aldeia e tem o braço decepado e devorado pelos gulosos canibais (um pobre manequim visivelmente perdeu seu braço de plástico para poupar o ator de tal sacrifício). Taylor só escapa de ser completamente comido (opa!) porque o chefe da tribo (que lembra muito o Renato Aragão dos anos 1980!) encontra Lena desacordada na margem do rio e a leva até a aldeia para ser venerada como "Deusa Branca" (no estilo do que acontecerá com Katja Bienert no posterior "Diamonds of Kilimandjaro", também dirigido por Franco).


Aqui, é necessário fazer uma pausa na narração da história para comentar uma ou duas coisinhas sobre o nível de tranqueira de WHITE CANNIBAL QUEEN, baseado apenas nesses 10 ou 15 minutos iniciais...

Primeiro que os tais "índios canibais" de Franco são ainda mais falsos que os sujeitos bronzeados com perucas gigantes que Umberto Lenzi usou em "Cannibal Ferox". Cara-de-pau que só ele, o espanhol convocou CIGANOS para fazer o papel de canibais, e nem se preocupou em arranjar perucas para a galera, que circula tranquilamente com barrigões de cerveja, bigodões ao estilo mexicano e até costeletas e topetes tipo os do Elvis Presley!


Para piorar, a "maquiagem" dos ciganos canibais é de chorar de rir. Acontece que aquela tribo completamente selvagem no coração da "Amazônia" (pffff...) parece ter acesso a tintas guache multi-coloridas, que os "índios" usam para pintar seus rostos como se fossem uma grande banda cover do Kiss!

Outro detalhe legal na caracterização da "tribo selvagem" é que os índios não apenas vestem retalhos de toalha de mesa ou de banho ao invés de peles de animais, mas também circulam pela floresta usando sandálias de couro para não machucar os pés - e, volta-e-meia, canibais calçando tênis e botas também vazam acidentelmente no quadro!


Já as cenas de pessoas sendo devoradas foram filmadas da maneira mais esdrúxula possível: ao invés de intercalar takes bem curtos e editá-los com cortes rápidos, para não denunciar os efeitos precários que tinha à disposição, o diretor filmou super-closes dos "índios" arrancando pedaços de carne das vítimas e depois mastigando-os em câmera lenta - e os takes são tão fechados que nem dá para distinguir que tipo de naco de carne está sendo arrancado de qual parte do corpo!

Isso faz cada ataque dos canibais durar de cinco a oito intermináveis minutos, com direito a sons exagerados de pessoas mastigando como "trilha sonora"! Em outras palavras, os ataques dos "índios" em WHITE CANNIBAL QUEEN são tão chatos e longos (a vítima aparentemente morre de tédio) que este deve ser o único filme de canibais em que o espectador torce para que ninguém seja devorado!


Mas voltando ao filme: quando Didi Mocó, o chefe da tribo, aparece com a menina desacordada, e fala algo do tipo "Uga Buga Uga Buga, White Goddess!" (sim, porque os canibais de Franco misturam "uga-buguês indígena" com inglês tranquilamente), o agora maneta Taylor aproveita para sair à francesa, cruzar meia floresta a pé SEM MORRER POR HEMORRAGIA (lembra que ele teve o braço cortado?) e só então desmaiar em choque, apenas para ser encontrado por dois caçadores que "passeavam" por ali e o resgatam.

Aí rola um mal-explicado salto no tempo de pelo menos uma década, porque a pequena Lena já é uma adolescente quando aparece novamente. Taylor passou esse tempo todo internado num hospital (?!?) em Nova York, sem braço e sem memória. Fisicamente, a única mudança perceptível nesses 10 anos é que antes ele não tinha barba, e agora tem. O caso do antropólogo está sendo acompanhado pela Dra. Ana (interpretada por Lina Romay, creditada com seu pseudônimo de peruca loira chanel "Candy Coster", embora aqui ela esteja com o cabelo natural).


Por conveniências de roteiro, Taylor subitamente recupera a memória, lembra que tem uma filha perdida em plena "Amazônia" e procura os diretores da Fundação Shelton, os mesmos que financiaram sua primeira viagem, para bancar uma expedição de resgate. Mas é claro que os gananciosos executivos do grupo, Barbara (Shirley Knight) e Charles (Olivier Mathot, de "Diamonds of Kilimandjaro"), o expulsam do escritório, provavelmente em virtude do fracasso da PRIMEIRA expedição.

Nosso herói decide ir até a "Amazônia" por conta própria (?!?), acompanhado apenas pela sua médica - que, aparentemente, não tem outros pacientes para cuidar além dele; ou isso, ou o plano de saúde do cara é muito bom!

Chegando lá, o casal tenta contatar um guia português, Manuel (o próprio Jess Franco, em participação especial!); depois, encontram Barbara e Charles, que pensaram melhor e resolveram financiar a tal expedição de resgate, desde que possam levar junto seus amigos riquinhos e esnobes, que querem ter a experiência de uma aventura na selva - e sim, eu juro que isso é sério!


Novamente, acontece o óbvio: assim que a ridícula expedição formada por bunda-moles adentra o "território selvagem", seus integrantes começam a morrer um após o outro. Pelo menos Franco nos poupa temporariamente daquelas cenas de banquete canibal em câmera lenta, e as vítimas são mortas com simples flechadas e dardos envenenados, ou então esquartejadas "off-screen". Mas não comemore: ainda acontecem um ou dois banquetes canibais em câmera lenta até o final!

E quando Taylor reencontra sua filha, agora crescida e interpretada pela italianinha Sabrina Siani, descobre que ela não apenas é a "Deusa Branca" da aldeia, mas também foi prometida em casamento para o jovem chefe dos canibais, Yakaké (Antonio Mayans, que aparece em quase todos os filmes da fase oitentista do diretor). Logo, não será nada fácil levá-la de volta à civilização!


WHITE CANNIBAL QUEEN é uma daqueles filmes tão ruins e tão cheios de erros e de defeitos que definem perfeitamente a expressão "filme trash". Franco dirigiu visivelmente de má vontade e apenas para faturar o cheque da família Lesoeur, e não há um único momento visualmente inspirado que lembre, mesmo de longe, aquele cineasta que fez obras-primas como "Vampyros Lesbos" apenas dez anos antes!

Pelo menos a ruindade geral da produção torna a coisa toda muito engraçada. Se era para os canibais parecerem ameaçadores, Franco falhou miseravelmente: é difícil não rolar de rir toda vez que aparecem aqueles tiozinhos com barrigão de cerveja ou a cara pintada como se estivessem num baile de Carnaval. E vários deles ainda ficam olhando para a câmera o tempo inteiro (como se quisessem ter certeza de que Franco está filmando) ou então rindo no meio da cena (provavelmente do próprio mico).


Um detalhe que sempre acho bem engraçado é o fato de o chefe interpretado por Antonio Mayans ostentar sempre a mesma pintura no rosto, lembrando uma espécie de caveira estilizada.

Fico até imaginando o pobre coitado do índio acordando todo dia de manhã e perdendo duas horas do dia para refazer aquela maquiagem. Ou quem sabe ele vai dormir sempre daquele jeito e nunca lava o rosto. Seja como for, simplesmente não vale o trabalho - e é óbvio que esas pinturas esdrúxulas são apenas um subterfúgio para disfarçar os atores brancos interpretando índios!


Na entrevista que rola como extra do DVD norte-americano de WHITE CANNIBAL QUEEN, o próprio diretor se diverte muito ao lembrar da pobreza da produção: "Não filmamos um único segundo em Nova York. Aquelas cenas [que mostram externas da cidade] foram tiradas de um documentário que eu peguei na biblioteca de Madrid".

Sobre os "efeitos especiais", Franco também foi bem humorado: "Nós só tínhamos dois ou três pedaços de carne preparados para as cenas de gore, sangue para esguichar no rosto dos atores, e era basicamente isso". Nos créditos, Michael Nizza aparece como o responsável pelos efeitos (seu outro único crédito é o abominável "Zombie Lake", de Jean Rollin!).

Curiosamente, há uma cena em que restos esquartejados de um cameraman aparecem ao lado de sua câmera (abaixo). Pode ser só coincidência, mas me pareceu uma citação ou brincadeira com "Cannibal Holocaust".


WHITE CANNIBAL QUEEN também tem erros grosseiros de continuidade e uma risível tática para simular o braço cortado do personagem de Al Cliver (já que o ator obviamente tem os dois braços na vida real): o pobre coitado teve que passar o resto do filme com o membro "cortado" dobrado e amarrado nas costas, e isso é perceptível quase que o tempo inteiro!

No quesito sacanagem, o filme é bem mais comportado que outras produções do diretor, e até a musa Lina Romay aparece mais vestida do que de costume (só aparece de peitos de fora quando é atacada pelos canibais). Menos mal que uma ainda adolescente Sabrina Siani, com 17 anos na época das filmagens, garante a cota de peladice.


Por sinal, a declaração de Jess sobre a pobre atriz italiana corresponde ao momento mais engraçado da sua entrevista no DVD de WHITE CANNIBAL QUEEN: "Sabrina Siani foi a atriz mais estúpida com quem eu já trabalhei... Não, não vou exagerar, porque tive duas ou três que eram as rainhas da estupidez. Mas Sabrina certamente era uma delas. Ela era muito bonita, tinha um corpo muito bonito, mas era completamente estúpida! Completamente! E isso que eu não pedi que ela decorasse diálogos de [James] Joyce, era só coisa simples!"

Esse é um dos primeiros filmes da moça, que acabaria se tornando uma daquelas estrelinhas sempre peladas do cinema classe B italiano, mostrando o corpitcho em produções como "Conquest", de Lucio Fulci, e "A Espada de Fogo", de Michele Massimo Tarantini. Inclusive eu lembro que, no tempo das videolocadoras, o nome "Sabrina Siani" na capinha da fita era certeza de que o filme teria mulher pelada!


Como a "Rainha Branca dos Canibais" do título em inglês, Sabrina realmente está inexpressiva. Mas, para compensar, ela aparece em todas as suas cenas com os peitos de fora e a bunda quase de fora, "coberta" apenas por um barbantinho enfiado no rego (que devia incomodar bastante).

Ainda na entrevista do DVD, Franco sugere que a moça só conseguiu seguir adiante na carreira de "atriz" porque tirava a roupa nos filmes: "Sabrina Siani só conseguiu fazer outros filmes porque os italianos eram piores do que eu. Eles diziam: 'Ah, ela é uma idiota, mas veja só que rabo!'."


Trocando em miúdos, WHITE CANNIBAL QUEEN é mais uma daquelas terríveis comédias involuntárias que Jess fez unicamente por dinheiro nos anos 80 (filmes ainda piores viriam depois, marcando uma das fases menos inspiradas do diretor). Mas pelo menos é uma bomba razoavelmente divertida, e bem mais fácil de suportar do que as terríveis produções que ele gravou direto em vídeo do ano 2000 em diante.

Eu até sugiro reunir toda a galera na sala para uma sessão do filme (pode ser até uma sessão dupla com "Cannibal Terror", para comprovar como quase tudo foi reaproveitado no outro filme de outro diretor). Com direito a "drinking games", tipo um shot de tequila ou golão de cerveja toda vez que aparecer um "canibal" de tênis, ou cada vez que o braço do Al Cliver que deveria estar cortado vazar no quadro. Prepare-se para a ressaca no dia seguinte!


Franco conseguiria um resultado mais interessante na sua segunda e última aventura com canibais, o já citado "Manhunter - O Sequestro", que é igualmente ruim, mas muito mais divertido e engraçado, com um monstro canibal usando bolinhas de pingue-pongue no lugar dos olhos, Al Cliver repetindo o papel de herói fodão (dessa vez com os dois braços) e uma gostosa peladona bem melhor que Sabrina Siani, a alemã e coelhinha da Playboy Ursula Buchfellner.

A julgar por WHITE CANNIBAL QUEEN, a única contribuição de Jess Franco para o ciclo de filmes de canibais foi comprovar como produções do gênero podem sair assustadoramente ruins quando realizadas por diretores sem nenhuma afinidade e/ou interesse pelo material.

Mas pelo jeito os italianos não aprenderam nada, e tentaram espremer o suco do bagaço até a última gota, lançando alguns filmes ainda piores (porque se levavam a sério) ao longo da década, como "Amazonia: The Catherine Miles Story" (1985), de Mario Gariazzo, e "The Green Inferno" (1988), de Antonio Climati.

Digamos que os do Franco pelo menos fazem rir. Já esses outros...


Trailer de WHITE CANNIBAL QUEEN



*******************************************************
Mondo Cannibale / The Cannibals /
White Cannibal Queen (1980, França)

Direção: Jess Franco (aka Clifford Brown)
Elenco: Al Cliver, Sabrina Siani, Antonio Mayans,
Lina Romay, Olivier Mathot, Shirley Night, Pamela
Stanford, Anouchka Lesoeur e Jess Franco.