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quarta-feira, 16 de abril de 2014

NECRONOMICON (1967)


Os primeiros anos da carreira do diretor espanhol Jess Franco foram marcados por projetos que nasceram de frustrações. Tanto "O Terrível Dr. Orloff" (1961), seu primeiro filme de horror, quanto "Miss Muerte" (1965), seu primeiro flerte com um cinema mais moderno, surgiram de roteiros diferentes que foram proibidos pelos censores espanhóis, obrigando-o a fazer outras coisas. Portanto, nada mais natural que NECRONOMICON, a obra que marcou a grande virada na sua carreira, também tenha nascido de dificuldades e de um projeto cancelado.

Pela primeira vez em sua longa filmografia, Franco abandona a narrativa tradicional para fazer um filme mais preocupado com o visual, sem contar uma historinha com começo, meio e fim. Isso seria uma constante na sua obra, repleta de trabalhos em que 15 minutos de trama são alongados para 90 minutos de filme graças ao uso recorrente de sequências delirantes e surreais, e por isso a carreira de Jess pode ser dividida em AN-DN (Antes e Depois de NECRONOMICON).


Mas esta obra de ruptura foi concebida originalmente como um filme de horror de baixo orçamento, na linha de "O Terrível Dr. Orloff" e "O Sádico Barão Von Klaus", e que marcaria o retorno de Franco ao gênero depois de três thrillers de espionagem feitos praticamente um depois do outro - "Cartas Sur Table" (1966), "Residencia para Espías" e "Lucky, El Intrepido" (ambos de 1967).

O título inicial do novo filme era "Green Eyes of the Devil". Em 1967, Jess visitou o produtor alemão Karl-Heinz Mannchen e mostrou-lhe um argumento de oito páginas. Mannchen gostou e entrou no projeto, mas contatou um amigo, o ator Adrian Hoven, para procurar por outros produtores associados que tivessem interesse em financiar a obra.


Foi quando começou uma daquelas histórias inacreditáveis de bastidores que são tão ou mais interessantes que o próprio filme, e que foi narrada em detalhes no livro "Immoral Tales: European Sex and Horror Movies", de Cathal Tohill e Pete Tombs.

Acontece que Mannchen só adiantou dinheiro suficiente para alguns poucos dias de filmagem, enquanto esperavam que um outro produtor mais endinheirado entrasse na jogada. Mas Franco não quis esperar, pegou essa grana do adiantamento e se mandou para Lisboa com uma pequena equipe para abrir os trabalhos - este foi seu primeiro trabalho rodado totalmente fora da Espanha e sem produtores espanhóis.

O filme, que ainda se chamava "Green Eyes of the Devil", era estrelado pela atriz francesa Janine Reynaud (à época com 37 anos), e ela levou de arrasto seu marido, o ator e diretor Michel Lemoine, que acabou integrando o elenco. Lemoine queria o papel de par romântico da própria esposa, mas este personagem ficou com o ator norte-americano Jack Taylor.


Dez dias depois, quando as filmagens seguiam a toda em Lisboa, Franco recebeu a notícia de que o sujeito que Hoven e Mannchen tinham convidado para entrar como produtor associado pulou fora. Aí bateu o desespero: aquele pouco dinheiro adiantado pelo alemão estava terminando, mas as filmagens ainda estavam longe do fim!

Foi Adrian Hoven quem teve a ideia para salvar o projeto: ele telefonou para um amigo ricaço que não entendia muito de cinema, mas estava começando a fazer seus primeiros investimentos na área; escondeu o "pequeno detalhe" de estarem com a grana terminando, e convidou este amigo para visitar o set em Lisboa, para ver se teria interesse em entrar como produtor associado.


O tal milionário, Pier A. Caminnecci, voou até Portugal sem levar muita fé no negócio. Mas no que bateu os olhos na estrela Janine Reynaud, ficou perdidamente apaixonado! E foi isso que salvou o projeto do cancelamento: Caminnecci e Janine iniciaram um caso por baixo dos panos, Lemoine ficou quietinho porque somente assim terminariam o filme, e todo mundo ficou feliz - principalmente Jess Franco!

"Ele [Caminnecci] não estava interessado no filme, mas na estrela. E quando eles começaram a ter um caso, eu consegui dinheiro não só para terminar as filmagens, mas também para lançar e promover o filme nos Estados Unidos", lembrou o diretor, numa entrevista ao livro "Perverse Titillation: The Exploitation Cinema of Italy, Spain and France", de Danny Shipka.


Depois que Caminnecci assumiu a produção e injetou bastante dinheiro, tudo ficou maior e melhor do que como estava originalmente concebido, incluindo os figurinos (agora assinados pelo famosíssimo estilista alemão Karl Lagerfeld!) e a trilha sonora (agora composta e executada por um famoso pianista clássico da época, o austríaco Friedrich Gulda). Foi possível até filmar algumas cenas em Berlim, que nem estavam no cronograma oficial!

Assim, "Green Eyes of the Devil" foi para o saco e o projeto de horror convencional que Franco pretendia fazer tornou-se NECRONOMICON, um filme completamente diferente, moderno, não-linear e com toques de surrealismo à la Luis Buñuel, que mistura sonhos, alucinações e delírios, tudo isso ligado por um mínimo fio condutor que faz pouco ou nenhum sentido. Enfim, aquela mistura de "filme de arte cabeça" com erotismo e perversão que costumava confundir - e ao mesmo tempo atrair - os públicos da época.


O início inclui uma bela sequência de créditos que já dá uma ideia da proposta mais classuda da coisa: os nomes dos atores e equipe técnica aparecem sobre imagens de pinturas renascentistas e barrocas (obrigado aos amigos de Facebook que tentaram me ajudar a identificar as obras!), ao som de uma trilha que começa como música clássica e depois se transforma num jazz típico do período.

Em seguida, confirmando o clima de ruptura, o tom de NECRONOMICON muda completamente das pinturas clássicas para uma exibição de sadomasoquismo (!!!). Na primeira cena do filme, estamos numa sala escura com dois prisioneiros vestindo farrapos, um homem e uma garota, ambos acorrentados em cruzes de madeira. Pelos seus ferimentos ensanguentados, ambos vêm sendo torturados há um bom tempo.


É quando entra em cena a estrela do filme, a ruiva Janine Reynaud, vestida com figurino militar decotado, longas botas de couro e segurando um chicotinho numa das mãos, já antecipando sádicas personagens femininas como a Ilsa de Dyanne Thorne - que apareceu em "Ilsa, A Guardiã Perversa da SS" (1975), de Don Edmonds, quase 10 anos DEPOIS!

A torturadora começa a fazer seu trabalho, machucando os dois prisioneiros, até que pinta um clima erótico com o homem amarrado. Ela se insinua, baixa as calças dele, começa a roçar seu corpo no dele, lambe o sangue que sai de um ferimento, abre (mais) a própria blusa e, quando parece que vai se entregar sexualmente ao rapaz, o ritual termina com a torturadora puxando um punhal e matando o prisioneiro.


Aí pessoas aplaudem, as luzes se acendem, e descobrimos que essa longa introdução era apenas um bizarro show de S&M realizado no palco de um clube para ricaços degenerados (ah, os anos 60...). Ninguém sofreu nem morreu de verdade, como vemos quando o ator que interpreta o prisioneiro assassinado levanta a cabeça e agradece os aplausos. (Franco faria uma cena idêntica em "O Exorcista Diabólico", de 1974.)

A torturadora de mentirinha é uma atriz chamada Lorna Green, que está saindo com seu empresário e diretor do espetáculo, Bill Mulligan (Jack Taylor, em sua primeira parceria com Franco). Na "vida real", Lorna não é muito diferente da personagem que interpreta nos palcos, e também se revela um furacão sexual aberta às mais variadas experiências.


Já seu companheiro não parece tão interessado quanto antes, e inclusive deixa a garota na mão mesmo depois que ela se insinua com um longo striptease na volta para casa. Isso acaba levando Lorna a uma série de aventuras sexuais pela cidade, e encontros e desencontros com misteriosos personagens (homens e mulheres), em cenas que podem ou não ser apenas sonhos e/ou delírios da protagonista - e o filme não se preocupa em explicar direitinho onde começa e termina a "realidade".

Primeiro, diante da recusa de sexo por parte de Bill, vemos Lorna vestir um deslumbrante vestido vermelho hiper-ultra-mega decotado e sair pelas ruas desertas de Lisboa, chegando a um bar muito suspeito onde os garçons atendem os clientes completamente nus! Ali está o Almirante Kapp (Howard Vernon), que logo é seduzido pela moça. Quando eles estão na cama prestes a transar, Lorna mata o amante enfiando uma longa agulha no seu olho!


No dia seguinte, a garota acorda na cama ao lado de Bill, certa de que foi tudo um pesadelo. Só que a primeira coisa que o casal encontra ao sair na rua é o velório de uma importante figura pública, um estimado almirante que foi assassinado na noite anterior. Curiosa, Lorna tira o véu que cobre o finado no caixão e reconhece o homem que matou no "pesadelo" da noite anterior - a longa agulha ainda enfiado no seu olho!

A partir daqui, NECRONOMICON se desenvolve de maneira caótica, seguindo este fiapo narrativo (Lorna assombrada por pesadelos e alucinações que talvez sejam reais), mas sempre deixando o espectador com muito mais perguntas do que respostas.


Franco e os diretores de fotografia Jorge Herrero e Franz Xaver Lederle dão apenas algumas pistas de quando Lorna está sonhando ou vivenciando uma alucinação: as cenas "oníricas" foram filmadas com um visual diferente, através de filtros, como se a lente da câmera estivesse embaçada (passando a ideia de imagem borrada, como num sonho).

Só que à medida que a trama vai ficando mais e mais episódica e surreal, o espectador se sente tão perdido quanto a própria Lorna, e já não consegue identificar com tanta facilidade quando a personagem está sonhando ou acordada. Até porque, mesmo tratando de sonhos e pesadelos, a maior parte do filme se passa em plena luz do dia.


Por exemplo, quando Lorna e Bill vão a uma festinha de artistas e intelectuais (um deles interpretado pelo produtor Caminnecci), e todos tomam LSD, segue-se uma sequência de bizarrias que parece até um dos pesadelos/delírios da garota, mas é assustadoramente "real" - incluindo um anão vestido de cachorro, uma lagartixa caminhando pelas costas nuas de uma garota, um cãozinho de brinquedo "latindo" e um princípio de sexo grupal com Lorna!

Mais adiante, a protagonista leva uma bela loira para um castelo à beira-mar. As duas acabam numa sala cheia de manequins que, subitamente, adquirem vida (!!!) e atacam a loira, antes de a própria Lorna matá-la a punhaladas. É uma imagem perturbadora, e filmada dez anos antes do clássico com manequins assassinos "Armadilha para Turistas", de David Schmoeller!


Por tudo isso, eu até entendo porque um amigo que viu NECRONOMICON após minha insistência comentou, impressionado: "Parece até um filme do David Lynch". Ele só esqueceu que Franco fez o filme pelo menos 25 anos antes de esse "estilo Lynch de cinema" sequer existir, ou virar moda!

E acredite: o meu resumo da trama do filme faz muito mais sentido do que o próprio filme em si! A narrativa é muito desconjuntada para que o espectador identifique um fio narrativo na primeira assistida; inclusive eu lembro de ter olhado para o display do DVD, quando vi NECRONOMICON pela primeira vez, e percebi que meia hora já tinha passado e eu ainda não fazia nenhuma ideia de sobre o quê exatamente era aquele filme!


No fim, o espectador fica cheio de perguntas sem respostas: Seria Lorna uma súcubo, demônio que assume a forma feminina para seduzir e matar homens? Ou uma artista tão boa que deixou-se afetar pelo seu número sadomasoquista, e começou a perder a noção entre real e imaginário (tipo um "Cisne Negro" feito 40 anos antes)? Ou é simplesmente uma esquizofrênica, que leva vida dupla? Ou será que ela é manipulada/controlada por alguém, seja hipnoticamente ou de forma sobrenatural? Ou quem sabe é tudo um plano de Bill para enlouquecer a namorada, com objetivos nunca bem esclarecidos? E por que tantos personagens surgem subitamente dizendo que conheceram Lorna "antes", mas ela não se lembra deles?

A única certeza é que tudo parece ter relação com um homem misterioso que aparentemente controla Lorna de alguma maneira (telepaticamente?). Este sujeito ou entidade (será o Diabo?) é interpretado, ironicamente, pelo marido traído Michel Lemoine, cuja imagem, em algumas cenas, aparece sobreposta à da garota, acentuando o seu domínio sobre Lorna.


(SPOILERS) Uma das principais pistas que o filme dá para a resolução dos seus próprios mistérios, e para a relação entre Lorna e o tal homem misterioso, é quando Bill conta à garota a lenda sobre uma súcubo que assumiu a forma humana, mas acabou se esquecendo da sua verdadeira origem. Assim, ela se casa com um príncipe e manda construir um castelo cujo projeto tem na memória, mas não lembra onde o viu. Quando a construção fica pronta, ela mata o príncipe sem nenhum motivo, como se estivesse possuída, e então lembra onde tinha visto um castelo parecido antes: era o Castelo de Lúcifer, no Inferno! O fato de o passado de Lorna também ser um mistério parece indicar que ela própria é um súcubo, ou quem sabe até a garota da lenda contada por Bill! (FIM DOS SPOILERS)


A coisa fica tão no ar ao final que, quando NECRONOMICON estreou na Itália (com o título alterado para "Delirium"), um conhecido nosso chamado Bruno Mattei foi chamado pelo distribuidor italiano para reeditar o filme e até rodar uma nova cena final que desse algum tipo de conclusão à história. Assim, os italianos inventaram um desfecho em que se assume que Lorna é uma espécie de demônio!

Este final alternativo é até bem impactante, mas não tem absolutamente nada a ver com Franco: uma dublê de Janine Reynaud vira para a câmera, diz "Agora eu sei quem sou" e revela a imagem de uma caveira pintada sobre a sua verdadeira face; logo depois, comete suicídio atirando-se de um penhasco (imagens abaixo), e aparece uma citação de Balzac.


Desconsiderando essa conclusão alternativa italiana, é inútil pensar muito nos "mistérios" ou elaborar complicadas teorias para respondê-los. Primeiro porque não faz diferença, e o filme funciona muito bem sem entregar essas respostas. E depois porque o próprio Jess assumiu que NECRONOMICON foi filmado sem roteiro, e o pequeno argumento que ele tinha elaborado para o velho "Green Eyes of the Devil" foi sendo gradativamente abandonado ao longo das filmagens.

O processo era mais ou menos assim: toda manhã, Franco encontrava o astro Jack Taylor no café da manhã do hotel e lhe entregava uma nova página de diálogos que tinha escrito durante a noite para filmar naquele dia (!!!), e Taylor então traduzia as anotações para o inglês! O produtor Caminnecci também deu vários pitacos e, no fim, acabou ganhando sozinho o crédito pelo roteiro (o que passa longe da realidade).


Franco já vinha fugindo da estrutura mais clássica dos seus primeiros filmes desde "Miss Muerte", mas NECRONOMICON é completamente diferente de tudo que ele fez antes. A narrativa não-linear lembra uma longa viagem de ácido da protagonista, com pouquíssimos diálogos e praticamente sem nenhum roteiro.

"Demorou um tempo para eu perceber que estava livre, porque eu não costumava ser livre", disse Jess numa entrevista, referindo-se à sua trajetória como cineasta censurado na Espanha. "Quando eu tomei consciência dessa liberdade, decidi adotar uma nova abordagem, diferente do terror tradicional. NECRONOMICON foi a primeira oportunidade que eu tive de fazer um filme do jeito que eu queria".


Inclusive a narrativa não-linear do filme lembra muito os diretores preferidos de Franco à época, Jean-Luc Godard e Michelangelo Antonioni. Dá até para fazer uma comparação entre NECRONOMICON e "Blow Up - Depois Daquele Beijo", dirigido por Antonioni no ano anterior (1966), que também estava menos preocupado em contar uma história de mistério e mais em retratar o cenário da contra-cultura na Londres da época.

É o mesmo que Jess faz aqui, ao retratar uma Europa semi-decadente em que a burguesia se diverte em clubes de S&M e festinhas de adultos regadas a drogas, inclusive citando abertamente nomes de artistas (músicos, cineastas...), entre cenas de sexo representando tabus ainda pouco vistos no cinema comercial, principalmente a representação de sadomasoquismo.


Os diálogos seguem essa linha e, ao invés de explicar quem são os personagens e suas motivações, apenas desfilam as principais referências do diretor ao escrever e dirigir o filme, de certa forma fazendo um registro do cenário cultural da época (alguns nomes eu tive até que pesquisar no Google para saber quem eram!)

Numa das cenas, o personagem de Howard Vernon diz uma palavra e Lorna responde com a primeira coisa que lhe vem à mente:
- "Justine"?
- Amor.
- Amor?
- Carne.
- Passado?
- Marquês de Sade.
- Religião?
- Gomorra. Carne. Sade.
- Kafka?
- Portão do castelo.
- Hitchcock?
- Olho.
- Caldwell?
- Assassinato.



Depois, quando Bill conversa com uma garota num clube, o diálogo analisa artistas da época e o quanto o que parecia moderno na semana anterior já é considerado "demodê" por um público ávido por novidades:
- Stockhausen?
- Ultrapassado.
- Calder?
- Ultrapassado.
- Pop art?
- Ainda mais ultrapassado.
- Rolling Stones?
- Datado, quase ultrapassado.
- E o que não é ultrapassado?
- Palestrina, Goethe, Ahmad Jamal, The Four Tops, Cortázar, Hohlbein...
- Muito bem. E quanto a filmes, que você vê depois que foram filmados?
- Buñuel, Fritz Lang ou Godard não estão datados. Ontem, eles fizeram filmes para amanhã, e a cada dia nós os entendemos melhor.



Mas é possível encarar NECRONOMICON mesmo sem estar consciente dessa batelada de referências? Com certeza! E nem é preciso assisti-lo com uma enciclopédia de arte (ou a janelinha do Google aberta) do lado com medo de perder alguma coisa importante, pois o que vale, no final, é o clima de delírio e de bizarrice que Franco consegue criar - mais ou menos como os últimos filmes de David Lynch pós-"Cidade dos Sonhos".

Inclusive é possível que este seja um dos trabalhos mais lindos que Jess filmou, graças à produção mais caprichada do que a sua média de baixíssimo orçamento. Tem uma fantástica cena de sexo filmada com um aquário bem na frente da câmera, e o casal de amantes ao fundo lentamente entrando no foco. As ruas de Lisboa também aparecem ameaçadoramente desertas, enquanto a bela Torre de Belém (construída às margens do Rio Tejo no século 15, e hoje um importante ponto turístico da cidade) assume o papel do castelo dos sonhos de Lorna.


E o que o "Necronomicon" tem a ver com o filme, afinal? Bem, os fãs de H.P. Lovecraft certamente ficarão desapontados ao descobrir que não há nenhuma menção a este famoso livro místico fictício inventado por ele, e que aparece em diversos contos do autor.

A justificativa para o título inclusive é surreal: Franco jura que, durante uma festinha na casa de Caminnecci, encontrou uma cópia do VERDADEIRO Necronomicon na estante do milionário! Ele inclusive teria folheado o livro proibido e tirado várias ideias de imagens bizarras para o filme, ou pelo menos assim reza a lenda. O certo, no entanto, é que o título não significa porcaria nenhuma para a trama.


No fim, Caminnecci voltou para os Estados Unidos como o principal "dono" do filme (dada a quantidade de dinheiro que investiu nele), levando a montagem original de Franco debaixo do braço.

Esta versão estreou nos cinemas de Berlim em 1968; depois, o produtor reeditou-a do seu jeito, cortando algumas partes que não gostava, para o lançamento nos cinemas norte-americanos (que aconteceu no simbólico ano de 1969!).


Ele alterou o título para "Succubus" (comprovando que a personagem de Lorna seria o tal demônio feminino), e elaborou uma esperta campanha de marketing que mirava não nos fãs de horror que por ventura tinham visto algum dos trabalhos anteriores de Jess Franco, mas sim no público "cabeça" que curtia filmes de arte - inclusive comparando a obra com sucessos europeus tipo "A Doce Vida" e "Boccaccio '70"!

Sem essa campanha, NECRONOMICON provavelmente não teria sido o sucesso que foi, já que nem Franco nem Mannchen tinham grana para bancar um lançamento decente e com tamanha publicidade.

Esperto, Caminnecci criou diversos gimmicks para promover a obra, como divulgar um número de telefone para o espectador ligar se quisesse saber o que era um súcubo (veja anúncio da época ao lado)!

As principais revistas masculinas ianques foram na onda e publicaram reportagens de página inteira sobre o filme, dizendo que ele fazia produções eróticas polêmicas da época parecerem produções da Disney.


Também divulgaram bastante a estrela que enlouqueceu o produtor, Janine Reynaud. Apesar disso, a carreira da atriz não decolou, e ela sumiu do mapa em seguida (fez um pequeno papel em "Blindman" (1971) de Ferdinando Baldi.

O problema é que NECRONOMICON enfocava vários temas bem fortes, mesmo para tempos de revolução sexual, tipo sadomasoquismo e lesbianismo. Além disso, a mistura de "filme cabeça" com horror sexploitation confundiu os censores, que não conseguiam definir se era arte mesmo ou apenas pornografia barata. Acabou que eles tascaram uma certificação X nos Estados Unidos (a mesma dos pornôs, embora o filme não tenha cenas de sexo explícito), devido ao que classificaram como "forte teor sexual".


Numa entrevista ao livro "Obsession: The Films of Jess Franco", o astro Jack Taylor lembra a polêmica provocada por NECRONOMICON na época do lançamento: "Hoje parece filme infantil, mas na época foi um escândalo, principalmente nos Estados Unidos! Eu lembro que eles não podiam fazer publicidade do filme nos jornais, e até o denunciaram em igrejas como sendo imoral, algo absolutamente ridículo. E ele nunca foi exibido [nos cinemas] na Espanha".

Mesmo assim, a obra teve grande repercussão e até hoje é considerada um dos maiores sucessos de bilheteria da filmografia do diretor. Mesmo com os problemas financeiros, o suporte de Caminnecci também tornou NECRONOMICON a produção mais cara que Franco dirigiu até 1987 (20 anos depois!!!), quando ele finalmente obteve um orçamento maior para dirigir "Sem Face".


Graças ao produtor, também, NECRONOMICON ganhou uma exibição especial fora de competição no Festival de Berlim de 1968. E foi ali que um grande diretor de cinema chamado Fritz Lang (sim, "aquele" Fritz Lang) assistiu o filme, declarando depois que era uma obra-prima do cinema erótico, ou pelo menos assim reza a lenda.

Por outro lado, o ator Howard Vernon contou uma outra versão em entrevista ao livro "Obsession: The Films of Jess Franco": "Fritz Lang tornou-se um amigo próximo depois que eu trabalhei com ele em 'Os Mil Olhos do Dr. Mabuse' (1960). Ele me falou que viu no jornal o anúncio de um novo filme comigo no elenco, e por isso foi assistir. Era NECRONOMICON, e depois ele me disse que, já nos primeiros minutos, quando percebeu que era um filme erótico, ficou chocado, porque ele odiava filmes eróticos. Mesmo assim, pediu que eu falasse a Franco que ele não apenas tinha assistido até o final, mas também tinha gostado muito, porque a nudez não era mostrada como um passeio pelo açougue, e sim tratada com erotismo e significado. Claro que quando eu disse isso a Jess, ele ficou sem palavras de tanta felicidade!".


De qualquer maneira, seja real ou inventada mais essa história sobre NECRONOMICON, o certo é que a obra representa um divisor de águas na carreira de Jess Franco, e todos os seus filmes a partir daqui teriam esse visual meio doidão, como se o diretor estivesse filmando seus próprios delírios e sonhos (ou pesadelos).

As histórias começaram a ficar cada vez mais simplórias (ou mesmo inexistentes), e narradas através das imagens e da música, e não dos diálogos. Sem NECRONOMICON, coisas como "A Virgin Among the Living Dead" e "Vampyros Lesbos" dificilmente existiriam. Não por acaso, personagens femininas chamadas "Lorna" reapareceriam com frequência nos filmes do diretor a partir daqui.


Assim, se você quiser descobrir como surgiu aquele Jess Franco que ficou popular, o diretor amado e odiado por seus filmes doidões cheios de erotismo e imagens bizarras, não deixe de ver NECRONOMICON. Ainda que a mistura de surrealismo com erotismo leve (o diretor faria coisa bem pior depois) não seja para todos os públicos, é uma bela maneira de se iniciar nesta fase mais artístico-experimental da obra de Franco.

E, ao final, nem interessa se as várias perguntas deixadas pela odisseia de Lorna ficaram sem respostas, ou se o filme como um todo não faz sentido, já que cenas como a da festinha regada a drogas e a do ataque dos manequins assassinos continuarão assombrando o espectador durante muito tempo.


Com o sucesso do filme, e a moral adquirida com a suposta declaração elogiosa de Fritz Lang, o trio Franco, Hoven e Caminnacci embarcaram em um novo projeto juntos, rodando dois thrillers de espionagem filmados ao mesmo tempo: "Sadisterotica" e "Bésame Monstruo", que não foram tão bem-sucedidos. A parceria se desfez.

Foi quando o produtor britânico Harry Alan Towers, que adorou NECRONOMICON, propôs uma parceria que acabou se mostrando bastante vantajosa para Jess: pelos próximos dois anos, entre 1968 e 1970, ele dirigiu nove filmes para Towers, com orçamentos muito melhores do que aqueles que tinha na Espanha, e a possibilidade de contratar atores famosos, como Jack Palance, Christopher Lee e  Klaus Kinski.

Mas essa é uma outra história...

PS: Franco filmou uma história muito parecida, sobre uma dançarina atormentada por pesadelos que se tornam realidade, no posterior "Pesadelos Noturnos" (1970).


Trailer de NECRONOMICON



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Necronomicon / Succubus (1967, Alemanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Janine Reynaud, Jack Taylor, Howard Vernon,
Michel Lemoine, Nathalie Nord, Pier A. Caminnacci,
Adrian Hoven e Américo Coimbra.

terça-feira, 15 de abril de 2014

LA COMTESSE PERVERSE (1973)


"The Most Dangerous Game" (ou "The Hounds of Zaroff") é uma história curta de Richard Connell, publicada pela primeira vez em 1924. Conta as desventuras de um grande caçador de Nova York que, a caminho do Rio de Janeiro (onde pretendia caçar um jaguar), acaba numa isolada ilha do Caribe. Ali vive um misterioso aristocrata cossaco, o General Zaroff, que também adora caçar, só que um outro tipo de presa: seres humanos. Assim, numa inversão de papéis, o pobre caçador nova-iorquino acaba se tornando a caça, e precisa fugir de Zaroff num safári bem particular.

Mas não havia sexo e nenhuma mulher pelada no conto de Connell. Ou pelo menos não até Jess Franco resolver adaptá-lo para o cinema em LA COMTESSE PERVERSE, um dos seus grandes filmes dos anos 70 (no caso, 1973), e repleto de tudo aquilo que "The Most Dangerous Game" não tem - incluindo lesbianismo e canibalismo!


Antes e depois do diretor espanhol, o conto foi adaptado inúmeras vezes para o cinema, e das maneiras mais diversas. Uma das raras adaptações "oficiais", e que inclusive usa como título original o nome do conto, é "Zaroff, O Caçador de Vidas" (1932), dirigida por Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack para a RKO Pictures e com Leslie Banks no papel de Zaroff (além de Joel McCrea e Fay Wray como as possíveis vítimas).

Nos anos seguintes, a caçada humana que era o cerne da obra de Connell apareceria em produções tão diferentes quanto "Fera Humana" (1945), de Robert Wise; "A Caçada do Futuro" (1982), de Brian Trenchard-Smith; "Rebelião nas Galáxias" (1987), de Ken Dixon; "Deadly Prey" (1987), de David A. Prior; "O Alvo" (1993), de John Woo, e "Sobrevivendo ao Jogo" (1994), de Ernest R. Dickerson - só para citar as que me vèm à memória no momento, mas a história foi tão readaptada e reinterpretada que ficaria até difícil enumerar todas as suas versões para o cinema.


Mesmo assim, Franco conseguiu a façanha de fazer uma versão da história que se distingue facilmente de todas as outras, transformando os dois personagens masculinos de "The Most Dangerous Game" em mulheres (claro!), e criando uma relação entre sexo e morte típica da sua obra (aqui ele assina com seu pseudônimo "Clifford Brown").

Isso porque a Condessa Zaroff, de LA COMTESSE PERVERSE, é uma predadora em todos os sentidos, incluindo o sexual (ela tem o hábito de seduz suas vítimas como "ritual" pré-caçada); e, além de caçar e matar sua presa, ela também se alimenta da sua carne ao final, como os animais selvagens!


LA COMTESSE PERVERSE foi rodado com baixíssimo orçamento e equipe reduzida em 1973, um dos anos mais ocupados da trajetória do diretor espanhol, quando ele filmou, ou concluiu, ou começou e abandonou no meio, pelo menos 13 projetos - este, "Los Ojos Siniestros del Doctor Orloff", "Plaisir à Trois", "Al Otro Lado del Espejo", "Maciste Contre la Reine des Amazones", "Les Exploits Érotiques de Maciste dans L'Atlantide", "La Noche de los Asesinos", "A Maldição da Vampira", "Tango au Clair de Lune", "Des Frissons sur la Peau" e "Mais Qui Donc a Violé Linda?", mais os inacabados "Relax Baby" e "Le Manoir du Pandu". Ufa!

Alguns deles foram produzidos pelo próprio Jess, através da sua recém-fundada (no ano anterior, 1972) companhia, a Manacoa Films, que tinha sede em Madrid. Diversos pesquisadores da obra do diretor alegam que ele se tornou workaholic nesta fase da sua carreira para superar a trágica perda da sua musa Soledad Miranda em 1970.


O filme começa com uma jovem nua (Kali Hansa, cujo nome verdadeiro seria Marisol Hernández) sendo encontrada na beira da praia pelo casal Bob (Robert Woods; sim, "aquele" Robert Woods) e Moira (Tania Busselier). Ela é levada para a casa dos dois, e, quando acorda, narra a terrível aventura vivida numa ilha misteriosa perto dali, para onde foi à procura de sua irmã gêmea desaparecida.

Na ilha, a mulher chamada Kali encontrou os Zaroff, Ivanna e Rabor, um casal de aristocratas decadentes (interpretados por Howard Vernon e Alice Arno) que vive numa mansão modernosa. Foi convidada para jantar e para passar a noite no lugar, sem imaginar os momentos de terror que se seguiriam.


Seu sono foi interrompido pela chegada do Conde e da Condessa, que a seduziram e violentaram. No dia seguinte, Kali ficou sabendo que faria o papel de caça numa caçada humana realizada pela Condessa - a história básica de "The Most Dangerous Game", em suma -, mas conseguiu escapar e nadou até o litoral, desfalecendo pelo cansaço.

O único problema é que Bob e Moira, esse casal simpático que a acolheu, está na lista de pagamento dos Zaroff, e sua missão é justamente conseguir as jovens e belas garotas para as orgias, caçadas e jantares (nessa ordem) do Conde e da Condessa! Resolvido o problema com a indesejável testemunha, Bob resolve que a próxima "presa" dos Zaroff será a inocente Silvia (Lina Romay), uma jovem amiga dele e da sua esposa.


Não há muita história para contar em LA COMTESSE PERVERSE, e nem o próprio Franco parece preocupado em ficar enrolando o espectador. O filme tem apenas 78 minutos, a maior parte ocupada por cenas de sexo softcore, e principalmente lésbico - entre a Condessa e a sua primeira vítima, entre Moira e Silvia e finalmente entre a Condessa e Silvia.

A derradeira caçada do casal Zaroff fica para os 15 ou 20 minutos finais, quando Silvia é forçada a fugir pela ilha e então perseguida pela Condessa armada com arco e flecha. Detalhe: tanto caça quanto caçadora estão COMPLETAMENTE NUAS, descontando um par de calçados para ajudá-las a correr (e que simplesmente desaparecem em alguns takes) e alguns adornos, tipo braceletes, no caso da Condessa.


Há um mínimo de tensão ou suspense nessa longa cena da caçada, que basicamente apenas intercala takes de Lina Romay fugindo com outros que mostram Alice Arno perseguindo-a. Mas há algo de simplesmente hipnótico na imagem de duas lindas mulheres em pêlo (bastante pêlo no caso; lembre-se que o filme é da década de 70) brincando de pega-pega numa ilha deserta.

Para tornar tudo ainda mais incrível, a trilha sonora lisérgica de Olivier Bernard e Jean-Bernard Raiteux, que toca durante praticamente todos os 20 minutos da caçada, acentua o clima de tragédia iminente e vai ficando progressivamente mais acelerada e barulhenta à medida que a Condessa Zaroff se aproxima da sua presa! Quem vive? Quem morre? Veja LA COMTESSE PERVERSE e descubra - até porque o filme foge do desfecho simplista de outras adaptações do conto de Richard Connell.


Além do lesbianismo e da overdose de mulheres nuas, que obviamente não existiam em "The Most Dangerous Game", a grande contribuição de Franco (também autor do roteiro) para a história foi ter transformado os Zaroff em canibais, o que dá todo um novo sentido à caçada humana, como uma espécie de ritual para obter seu valioso banquete antropofágico, e não apenas mais um troféu de caça.

As belas garotas "caçadas" pela Condessa são esquartejadas e preparadas para o jantar do dia seguinte, sendo servidas em formas de bife pelo Conde - e os bifes são comidos praticamente crus, para acentuar a analogia entre os Zaroff e predadores naturais, como leões e tigres. Ironicamente, as futuras vítimas também são convidadas para jantar e, inconscientemente, tornam-se cúmplices dos canibais, devorando seres humanos sem saber!


Howard Vernon (o Dr. Orloff em pessoa) faz muito pouco como Conde Zaroff, já que a ação do filme fica reservada para sua esposa no ato final. Mas ele acrescenta um tom perfeito de insanidade e ironia ao brincar com as futuras vítimas convidadas para jantar enquanto elas comem os restos da vítima anterior.

O Conde doidão também protagoniza uma inesperada reviravolta na última cena do filme, quando, sem querer estragar a surpresa para quem não viu, dá um sentido completamente diferente à expressão "Ele só quer te comer"...


Já Robert Woods é uma escolha no mínimo curiosa para o papel. O ator norte-americano ficou marcado pelos heróicos cowboys que interpretou em filmes de faroeste rodados na Itália, incluindo sucessos como "Meu Nome é Pecos" (1967), "Quatro Dólares de Vingança para Ringo" e "Starblack" (ambos de 1968). Na década de 70, quando o western spaghetti estava morrendo, Woods resolveu partir para outra e acabou trabalhando com Jess Franco não em um, mas em SEIS filmes.

Pois é no mínimo divertido ver o ex-astro de western spaghetti num papel meio hippie, e certamente bastante liberal - ele divide sua esposa com outras garotas, que também seduz em animados ménage a trois. Ou seja: depois de estrelar vários westerns como cowboy durão, aqui Woods acaba usando um outro tipo de pistola!


LA COMTESSE PERVERSE também é uma das raras oportunidades para, digamos, ver a "outra pistola" do velho Pecos, numa cena em que ele, Moira e Silvia tomam banho de mar pelados (claro!) e depois se esparramam na areia.

Eu costumo evitar exibições penianas aqui no blog, mas dada a quantidade absurda de imagens de mulher pelada reproduzidas ao longo dessa MARATONA JESS FRANCO, e o número crescente de meninas e rapazes que gostam de rapazes entre os leitores, vou abrir uma exceção: eis aí embaixo a pistola de Robert Woods! (Mas não se acostumem...)


E se Lina Romay, a eterna esposa e musa de Franco, certamente é um colírio para os olhos, aqui ainda bem novinha e quase sempre pelada (este é um dos seus primeiros filmes com o diretor e futuro marido), o grande destaque de LA COMTESSE PERVERSE é a personagem-título, interpretada pela voluptuosa francesinha Alice Arno (nome de batismo: Marie-France Broquet).

Esta loira que parece um desenho do Milo Manara nasceu numa família de nudistas (!!!) e foi modelo de revistas masculinas antes de estrear no cinema. Apesar de ter feito 12 filmes com Franco (sendo que a Condessa Zaroff é provavelmente o seu grande papel), Alice geralmente é esquecida na galeria de grandes musas do diretor, obscurecida por nomes como Soledad Miranda, Maria Rohm e a própria Lina. Pura injustiça: sua performance como predadora/caçadora aqui lembra uma fera selvagem, tipo uma pantera, e ela transpira erotismo e sex-appeal em todas as suas cenas.


Felizmente para quem gosta de putaria e mulher pelada, a Condessa Zaroff faz aquele tipo que gosta de "brincar com a comida", e cumpre religiosamente o ritual de seduzir suas vítimas na noite anterior às caçadas - uma mera desculpa para as três ou quatro cenas de lesbianismo softcore do filme.

No fim, LA COMTESSE PERVERSE se revela um curioso híbrido de sexploitation com horror, mas este último elemento é beeeeeeem tímido, resumindo-se às menções de canibalismo e a uma cena bem curtinha em que Silvia flagra o Casal Zaroff preparando a refeição do dia seguinte - ou seja, esquartejando o corpo da vítima anterior. Não dá pra negar, entretanto, que o Conde e a Condessa são vilões bem perversos e dementes, uma espécie de versão sofisticada e aristocrática da família caipira e canibal de "O Massacre da Serra Elétrica" (que por coincidência chegaria aos cinemas no ano seguinte).


A curta duração do filme não se justifica apenas pela falta de história para contar; afinal, Franco era um mestre da enrolação, e poderia facilmente ter fechado duas horas com este mesmo argumento. Acontece que, na época, o espanhol estava dirigindo para o produtor francês Robert De Nesle, que exigia que Jess fizesse filmes mais curtos para depois poder lançar duas versões: a normal, com sacanagem leve, e a X-Rated, com cenas de sexo explícito adicionadas à montagem!

Assim, enquanto LA COMTESSE PERVERSE era exibido nos cinemas "normais", algum tempo depois as salas "adults only" recebiam a versão pornô do filme, rebatizada "Sexy Nature" (cartaz ao lado), e que é mais longa que a anterior, com 95 minutos. (De Nesle ficou famoso no underground por, segundo reza a lenda, produzir esses filmes pornográficos sem o conhecimento da esposa, e ainda fazendo o popular "teste do sofá" com as atrizes!)

As cenas adicionais, filmadas pelo próprio Franco, incluem dublês de corpo de Robert Woods e Alice Arno em cenas explícitas, a própria Alice Arno se roçando com duas garotas, e Lina Romay protagonizando sexo oral explícito com uma garota e um homem, supostamente outros prisioneiros dos Zaroff que ela encontra amarrados num quarto - vá lá que não se pode exigir lógica em história de filme pornô, mas por que a moça começaria a transar com os dois prisioneiros ao invés de libertá-los (imagens abaixo)?

Nesses momentos X-Rated, aparecem os "convidados especiais" Pierre Taylou, Pamela Stanford e Monica Swinn, que não estão em nenhuma cena do filme "oficial".


Outra diferença entre as duas versões é que, em "Sexy Nature", existe a personagem de Carole (Caroline Rivière, abaixo), uma escritora de histórias de mistério que é amiga (e aparentemente "ficante") de Silvia. As garotas aparecem juntas em pelo menos quatro cenas num quarto de hotel, quase sempre peladas; quando Silvia diz que vai passar o final de semana numa ilha com Bob, Moira e um casal de ricaços, Carole a adverte: "Ilhas são perigosas. Você nunca ouviu falar da Ilha do Dr. Moreau?".

O mais engraçado é que Carole e Silvia também protagonizam um bizarro final alternativo, em que se revela (SPOILER) que toda a caçada humana envolvendo a garota e seu trágico destino foram delírios saídos da imaginação da sua amiga, pois Silvia reaparece viva na conclusão e diz que desistiu de ir até a ilha na última hora!!! (FIM DO SPOILER)


Obviamente, a versão pornográfica "Sexy Nature" só vale mesmo pela curiosidade, pois as cenas de sexo explícito nem são tão inspiradas assim, e apenas tornam a narrativa ainda mais lenta e arrastada. Sem contar que são momentos sem pé nem cabeça, que sequer se encaixam na história, já que não faz sentido os Zaroff terem mais prisioneiros à disposição (como escravos sexuais, neste caso) e ainda precisarem trazer novas vítimas do continente para as suas caçadas.

Assim como não há nenhuma lógica o fato de Silvia transar com o casal de prisioneiros à noite e logo depois agir como se nada tivesse acontecido! (Enxertos desse tipo, transformando filmes "normais" em pornôs, se tornariam bastante comuns no Brasil da década de 1980, rendendo pérolas como "Sexo Erótico na Ilha do Gavião".)


O lance é esquecer de "Sexy Nature" e descolar uma cópia de LA COMDESSE PERVERSE, que vai direto ao assunto e não ofende a inteligência do espectador. Sem contar que as cenas implícitas são muito mais excitantes do que a putaria escancarada, e há mulheres peladas em número suficiente para ninguém ter motivo de procurar a versão X-Rated (é até meio estúpido que um produtor peça uma montagem com AINDA MAIS sacanagem de um filme onde originalmente todo mundo já aparece sem roupa e fazendo sexo a cada dez minutos!!!).

Apesar de tocar em temas pesados como canibalismo e assassinato, a ênfase do filme é na beleza - seja das mulheres, seja dos cenários. O exterior da fantástica casa dos Zaroff é a famosa mansão Xanadú, construída em Alicante, na Espanha, e projetada pelo famoso arquiteto cubista Ricardo Bofill em 1967. A mansão já tinha aparecido como casa de praia de Soledad Miranda em "Ela Matou em Êxtase".


Em mais de uma oportunidade, os personagens também aparecem descendo as belas escadarias vermelhas conhecidas como "La Muralla Roja", uma estrutura labiríntica também projetada por Bofill, e que na "vida real" fica do outro lado da rua da mansão Xanadú. No filme, este seria o acesso principal ao casarão dos Zaroff.

O uso dessas maravilhas arquitetônicas como cenários é mais uma prova de que Jess não era um picareta desleixado, como apregoam muitos dos seus detratores, e sim um diretor minimamente consciente e preocupado com o visual dos seus filmes.

(E para quem quiser ver como estão os dois cenários de LA COMTESSE PERVERSE hoje, basta clicar neste link e girar a câmera para fazer um passeio virtual por Xanadú e pelas escadas da Muralla Roja sem precisar ir até Alicante!)


LA COMTESSE PERVERSE não é um dos trabalhos mais lembrados de Jess Franco, e raramente aparece em listas dos melhores títulos da sua extensa filmografia.

Mas eu confesso que gosto muito dele, e acho impressionante a maneira como o diretor trabalha com pouquíssimos elementos, atores (na versão "oficial", são apenas seis!!!) e recursos, e mesmo assim o resultado é um filme que parece ter custado o triplo.


Não apenas por causa do ar luxuoso dos cenários e das construções verdadeiras utilizadas para as externas, mas também porque o filme traz alguns dos planos mais bonitos já filmados por Jess (com uma mãozinha do diretor de fotografia francês Gérard Brisseau, claro). Ele não abusa do seu popular super-zoom, e cria enquadramentos tão caprichados que você percebe que não foram feitos no improviso, mas sim estudados e preparados com um mínimo de esmero. E isso num ano em que teve bastante trabalho e pouquíssimo tempo entre um filme e outro!

Tem algo de surreal e absurdo na coisa toda - clima reforçado pelo uso da lente "olho-de-peixe", que distorce as imagens e lhes dá um ar de sonho, ou pesadelo. É como se o filme não se passasse no "mundo real", mas sim naquele universo alternativo e bem particular de história em quadrinhos típico dos bons filmes de Jess - um delírio erótico que parece ter saído daqueles velhos gibizinhos de sacanagem.


LA COMTESSE PERVERSE definitivamente não é um filme assustador e muito menos sanguinolento, apesar de enfocar temas bem escabrosos. Também não é um filme de ação, e mesmo a grande cena da caçada da "heroína" não acrescenta muito neste quesito. Está mais um misto de drama psicodélico e thriller erótico - enfim, aquele tipo de misturança tresloucada que o velho Jess adorava fazer, e sabia fazer como poucos.

E mesmo que você não curta o clima, ou o rumo que a história toma, sempre poderá apreciar a beleza da escultural Alice Arno peladona perseguindo a musa Lina Romay peladona.

Afinal, este pode até não ser "O Jogo Mais Perigoso de Todos", para relembrar o título original do conto que deu origem ao filme; mas certamente é o mais erotizado de todos!

PS: Franco também fez uma refilmagem disfarçada deste filme mais tarde, chamada "Tender Flesh" (1997).




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La Comtesse Perverse (1973, França)
Direção: Jess Franco (aka Clifford Brown)
Elenco: Alice Arno, Howard Vernon, Lina Romay,
Robert Woods, Marisol Hernandez (aka Kali Hansa),
e Tania Busselier.