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segunda-feira, 14 de abril de 2014

DIAMONDS OF KILIMANDJARO (1983)


Há alguns anos, eu comprei DVDs daqueles velhos filmes do Tarzan estrelados por Johnny Weissmuller, produzidos entre as décadas de 1930 e 40, a pedido de meu pai, que queria recordar sua infância e o seu grande herói das matinês. Até fiquei com medo de que o coroa pudesse terminar frustrado, por causa da pobreza de recursos dessas aventuras antigas. Para minha surpresa, ele gargalhava toda vez que Weissmuller aparecia lutando contra um crocodilo de plástico ou um leão empalhado, e dizia que essa era justamente a graça dos filmes!

Pois "El Tesoro de la Diosa Blanca" (O Tesouro da Deusa Branca), uma aventura pobretona dirigida por Jess Franco em 1983 (e conhecida no resto do mundo pelo título em inglês DIAMONDS OF KILIMANDJARO), tem esse mesmo espírito. E eu não sei se houve qualquer pretensão de seriedade por parte dos realizadores na época das filmagens, mas o negócio é tão capenga que só pode ser assistido e avaliado como comédia involuntária.


DIAMONDS OF KILIMANDJARO é mais um filme da fase "vale-tudo" do diretor espanhol, e foi produzido por seus parceiros de longa data, os franceses Marius e Daniel Lesoeur (pai e filho), da Eurociné.

À época, esta pequena produtora de Paris estava atirando para todo lado, rodando até filmes de terror com canibais e zumbis (que estavam na moda), mas sempre com valores de produção abaixo da média. Só para dar uma ideia, foram eles que produziram o tenebroso "Zombie Lake", de Jean Rollin! Assunto encerrado.


É óbvio que nada muito empolgante poderia sair de uma "aventura na selva" produzida pela Eurociné, e é óbvio que as filmagens aconteceram bem longe do Kilimanjaro, aquele vulcão que é o ponto mais alto da África, e que aqui só é citado no título (e grafado errado, com um "D" a mais!). O cenário do filme parece ser um parque qualquer, que a montagem tenta fazer passar pela África com a inclusão de velhas cenas de arquivo mostrando animais selvagens.

O problema é que são velhas cenas de arquivo MESMO, tipo material filmado nos primórdios do cinema colorido para documentários, e facilmente identificáveis pelas imagens granuladas e cheias de defeitos (riscos no negativo, por exemplo). Mas era uma prática habitual dos realizadores picaretas da época para baratear custos - vide "Predadores da Noite" (1980), do italiano Bruno Mattei, que reaproveitou cenas de um velho documentário sobre a Nova Guiné!


DIAMONDS OF KILIMANDJARO pode ser definido como uma versão feminina (e sexploitation) de Tarzan, e foi lançada num momento em que houve um revival do velho personagem criado por Edgar Edgar Rice Burroughs, e que havia sido "ressuscitado" em superproduções para o cinema como "Tarzan Nota 10" (1981), de John Derek, e "Greystoke, A Lenda de Tarzan" (1984), de Hugh Hudson.

Versões femininas de Tarzan não eram exatamente uma novidade, já que, fazendo filmes com "garotas das selvas", os realizadores não precisavam pagar direitos autorais aos herdeiros de Burroughs. Produtores italianos (sempre eles!) até já haviam feito uma versão feminina escancarada do herói em 1969, chamada "Tarzana" (!!!), com direção de Guido Malatesta.


Houve uma febre de produções com "garotas das selvas" entre as décadas de 40 e 60. Começou naqueles velhos seriados exibidos nas matinês, com as aventuras de "A Mulher Tigre" (1944), dirigidas por Spencer Gordon Bennet e Wallace Grissell. Seguiram-se filmes como o norte-americano "A Deusa das Selvas" (1948), de Lewis D. Collins, o alemão "Lana, Rainha das Amazonas" (1964), de Cyl Farney e Géza von Cziffra (filmado no Brasil e com o Trapalhão Dedé Santana no elenco!), e o italiano "Eva, A Vênus Selvagem" (1968), de Roberto Mauri, entre outros.

Em praticamente todas essas produções, a história é mais ou menos a mesma (e ligeiramente "adaptada" da origem de Tarzan): uma menina sobrevive a um desastre aéreo na selva e é adotada por alguma tribo indígena, que passa a venerá-la como se fosse uma deusa; aí ela cresce e se torna uma espécie de heroína selvagem, mas chega o dia em que precisa confrontar os homens "civilizados".


DIAMONDS OF KILIMANDJARO não tenta inventar muito e segue pelo mesmo caminho: o pequeno avião que leva o milionário De Winter (interpretado por Daniel J. White, compositor francês que trabalha com Jess desde os anos 60) e sua filha Diana cai no meio da selva, em algum lugar da "África" (hehehe), e eles são acolhidos como deuses que vieram do céu por uma violenta tribo de caçadores de cabeça, os Mabutos.

O filme já começa dando uma bela ideia do que vem pela frente. Além da inserção de várias daquelas velhas cenas de arquivo com tomadas aéreas de rios e florestas (tipo: Daniel White aparece olhando para fora do avião, que nem voando está, e então a montagem corta para uma dessas cenas aéreas antiquíssimas), a simulação do acidente aéreo é de chorar de rir, com um corte brusco do aviãozinho voando para uma imagem mostrando fogo e fumaça no horizonte (e nem é exatamente o mesmo lugar do take anterior!).


Os anos se passam e pai e filha nunca são resgatados, passando a viver entre os nativos como "deuses". A diferença é que enquanto o velho continua usando sua roupa de escocês (e parece não envelhecer sequer um dia), sua filhinha cresce e se transforma numa bela adolescente peladona.

Logo, uma expedição que procura diamantes naquela região é aprisionada por guerreiros Mabutos, liderados por uma garota negra chamada Noba (Aline Mess, que também apareceu em "Manhunter - O Sequestro"). Apesar de viver entre índios selvagens no meio da África, a moça tem sobrancelhas fininhas de quem acabou de sair de um salão de beleza. Quando os exploradores estão para perder suas cabeças, surge Diana, a Deusa Branca, de topless e pagando cofrinho, para exigir que os brancos sejam libertados.


Diana é interpretada pela ninfeta Katja Bienert, que nasceu em Berlim em 1º de setembro de 1966, e por isso tinha entre 16 e 17 anos quando filmou DIAMONDS OF KILIMANDJARO. Mesmo assim, a menina passa o filme inteiro seminua, de topless e bunda de fora, para a alegria dos pedófilos.

E nem foi a primeira vez que ela mostrou-se bem desinibida no cinema: essa espécie de Brooke Shields alemã (ou Luciana Vendramini alemã, se preferirem) já aparecia pelada em filmes desde a comédia alemã "Die Schulmädchen vom Treffpunkt Zoo, de 1979 - quando, segundo a calculadora, tinha apenas 13 ANOS!

Katja também pode ser vista nua frente e verso (e menor de idade) em produções anteriores dirigidas pelo próprio Franco - "Eugenie" (1980), "Linda" (1981) e "El Lago de las Vírgenes" (1982) -, e logo depois em "Lilian, La Virgen Pervertida (1984). Aposto que todos são filmes de cabeceira do Roman Polanski e do Woody Allen...


Mas chega de falar de pedofilia e voltemos ao filme: quando os caçadores de diamantes retornam à Inglaterra e começam a falar sobre a tal Deusa Branca, a história chega aos ouvidos da velha Hermine De Winter (Lina Romay, com maquiagem para parecer idosa), a mãe da menina, que já tinha desistido de encontrá-la com vida.

Pois a moribunda milionária pretende reencontrar a filha antes de morrer (ao mesmo tempo em que aparentemente esquece do maridão, que sumiu naquele mesmo acidente aéreo), e para isso resolve financiar uma nova expedição para trazê-la de volta à civilização. De preferência antes de bater as botas, já que a menina é a herdeira direta da sua fortuna.


Para isso, Hermine contrata dois experientes guias que passarão o restante do filme se bicando: um é Fred (Albino Graziani, de "Oásis dos Zumbis"), um veterano de guerra; o outro é o herói Al Pereira (Antonio Mayans), personagem originalmente criado por Franco para seu thriller de espionagem "Cartes sur Table" (1966), e que desde então foi promovido de espião a detetive particular e, agora, explorador da selva, sempre conforme a necessidade!

O único problema é que tem gente torcendo para que a menina da selva nunca mais volte para a civilização. Trata-se de Matthew, o irmão da milionária (interpretado por Olivier Mathot), e que será o único herdeiro da fortuna caso a filha perdida continue perdida. Com medo de que a expedição de resgate seja bem-sucedida, ele e sua esposa Lita (Mari Carmen Nieto, aqui creditada como "Ana Stern") resolvem fazer parte do grupo para dar um fim em Diana assim que ela for encontrada.


É quando DIAMONDS OF KILIMANDJARO volta para a selva e Franco despeja para cima do espectador todo clichê possível e imaginável das aventuras do gênero: a expedição de resgate enfrenta animais selvagens, ataques de índios, cabeças cortadas, travessia de rio em jangada e até a rivalidade entre eles mesmos (além da cobiça de alguns dos seus integrantes).

Mas como este também é um legítimo filme de Jess Franco, o diretor garante uma razoável quantidade de mulher pelada e putaria entre uma cena de aventura e outra, seja com a ninfetinha Katja desfilando sempre de topless, seja com a safadinha Mari Carmen (de "La Mansión de los Muertos Vivientes") seduzindo o guia Al sempre que o marido alcoólatra marca bobeira, seja com a "nativa" Aline Mess de peitos de fora e fazendo dancinhas eróticas para o resto da tribo.


Mais do que um aventura com toques de erotismo, DIAMONDS OF KILIMANDJARO é uma autêntica comédia trash. A tal expedição de resgate é o retrato de uma produção sem dinheiro, com meia dúzia de sujeitos carregando umas caixas visivelmente vazias e até... um barril de vinho?
Sem contar que os aventureiros enfrentam as provações da floresta vestidos como se estivessem indo para o bar tomar umas cervejas. O destaque vai novamente para Mari Carmen Nieto e sua Lita, que encara a selva africana vestindo shortinho jeans atolado na bunda, blusinha decotada para ir na balada e botinhas de salto alto cor rosa-choque (abaixo), que certamente não ajudam nem no quesito conforto, nem no quesito camuflagem!


O velho Jess não teve muito trabalho no set, considerando que a maioria das cenas de "perigo" foi feita através do reaproveitamento das já citadas cenas de arquivo de 200 anos atrás. Tipo quando Lita vai tomar banho de rio (pelada, óbvio, em plena África) e atrai crocodilos famintos em sua direção.

Pois mesmo o espectador mais bobo e menos entendido de montagem cinematográfica vai perceber na mesma hora que os takes da moça no rio gritando apavorada e os takes cheios de riscos e rasuras dos crocodilos não foram feitos no mesmo espaço e muito menos no mesmo tempo! Ah, a magia do cinema...


Outro momento engraçadíssimo envolvendo estas cenas de arquivo acontece quando os jipes que conduzem a expedição ao coração da selva acabam cruzando com um rinoceronte em disparada, que os persegue por um pequeno trecho, mas obviamente só existe em stock footage.

Só que quando vemos o bichão correndo atrás de um dos jipes, num take filmado por algum documentarista décadas antes, eis que de repente vaza para dentro da imagem um sujeito se mijando de rir QUE NÃO APARECE NAS CENAS DO FILME (acima), mas estava lá quando a filmagem original do rinoceronte foi feita, e o editor nem se deu ao trabalho de cortar! É mole?


Nos poucos momentos em que não apela para as cenas de arquivo, DIAMONDS OF KILIMANDJARO nem é tão ruim quanto outras aventuras na selva do diretor. Embora os valores de produção sejam nulos (a aldeia dos Mabutos é composta por apenas duas cabanas!), Franco consegue criar pelo menos uma caracterização um pouquinho mais convincente para os seus índios, que aqui aparecem usando ameaçadoras máscaras em forma de caveira - o oposto daqueles risíveis canibais com cara pintada de tinta guache colorida que ele mesmo mostrou nos anteriores "Mondo Cannibale / White Cannibal Queen" e "Manhunter - O Sequestro".


Fãs da filmografia de Franco podem perceber algumas semelhanças entre este filme e o anterior "White Cannibal Queen": em ambos, uma menina é adotada por uma tribo de índios como "Deusa Branca", só que anos depois uma expedição vai à sua procura, para levá-la de volta à civilização.

Entretanto, a principal fonte de inspiração do velho Jess foram aqueles filmes antigos do subgênero "garotas selvagens". Principalmente dois deles: o norte-americano "Ticoora, A Rainha das Selvas" ("Daughter of the Jungle", 1949), de George Blair, e o alemão "Liane, A Selvagem" ("Liane, Das Mädchen aus dem Urwald", 1956), dirigido por Eduard von Borsody.


O primeiro já trazia pai e filha que sobreviveram à queda do seu avião vivendo entre índios, e também já enfocava a menina como herdeira de uma fortuna caso voltasse à civilização, como acontece aqui. No segundo, outra menina rica sobrevivente de desastre aéreo é venerada como deusa por uma tribo africana, até ser encontrada por uma expedição e levada de volta para Hamburgo, na Alemanha. Aí o seu próprio tio, que seria o herdeiro da fortuna da família caso ela continuasse sumida, tenta dar um fim na sobrinha - o que também acontece no filme de Franco.

As semelhanças com "Liane, A Selvagem" se estendem até ao nome das personagens (Liane no filme alemão, Diana aqui). E o filme de 1956 também provocou certa polêmica na época por mostrar uma ninfeta (Marion Michael, de apenas 16 anos) com os peitinhos de fora. Até as famosas cenas em que Liane balançava agarrada num cipó, como uma versão feminina e de topless do Tarzan, foram repetidas por Jess em DIAMONDS OF KILIMANDJARO, denunciando a inspiração.


Como era comum nas produções da Eurociné, existem diferentes versões do filme para diferentes países. Infelizmente, o corte original feito por Jess para o público espanhol nunca foi exibido ou lançado fora da Espanha. Esta versão tem 83 minutos e, entre diversas mudanças, um começo e um final diferentes (segundo o pesquisador Robert Monnel, do blog I'm in a Jess Franco State of Mind).

A versão lançada no resto do mundo, e analisada para esta resenha, é o corte francês realizado pelos próprios produtores, e chamado "Les Diamants du Kilimandjaro" (daí o título em inglês). Esta versão é mais longa, com 95 minutos; os 12 minutos a mais foram filmados pelo ator Olivier Mathot a pedido da Eurociné. Por não aceitar a versão mais longa, Franco pediu para substituírem seu nome por "C. Plaut" na montagem internacional.


Infelizmente, ninguém nunca fez uma comparação entre as duas versões, e nem a edição espanhola está disponível para baixar nos torrents da vida. Mas eu não me espantaria se aquelas presepadas envolvendo velhas cenas de arquivo fossem coisa de Mathot, e não de Jess. A gravação de cenas adicionais também pode explicar a quantidade de erros de continuidade, como a misteriosa transformação de uma garrafa de uísque entre um take e outro (abaixo).

Mas é claro que pode ser tudo desleixo do próprio Franco, e a verdade só aparecerá quando a versão espanhol finalmente aparecer para análise (eu já me prontifico a fazer a comparação e atualizar esta resenha se um dia o corte original ficar disponível).


Assim como outras "novinhas" do cinema (tipo suas contemporâneas Brooke Shields e Nastassja Kinski, ou as mais recentes Dominique Swain e Thora Birch), a alemãzinha Katja Bienert também sumiu do mapa assim que ficou "de maior", e principalmente depois que envelheceu.

Após anos longe das telas, aparecendo apenas em trabalhos feitos para a televisão alemã, ela foi convidada por Jess Franco para uma participação especial no péssimo "Killer Barbys vs. Dracula", de 2002. Mas praticamente ninguém percebeu o retorno da musa precoce. Mais uma prova de que quem nasceu para Lolita não rende como Mrs. Robinson...


Logicamente, DIAMONDS OF KILIMANDJARO não tem um pingo da qualidade e da criatividade demonstradas pelo cineasta espanhol durante sua melhor fase (entre os anos 1960-70), e é um mero trabalho sob encomenda para faturar o dinheiro do aluguel.

Ao mesmo tempo em que eu venho cobrando uma revisão urgente de algumas obra-primas injustamente esquecidas da filmografia de Jess, como "Miss Muerte" e "Vampyros Lesbos", não posso recomendar tranqueiras como esta, a não ser para aquele público que também gosta de cinema trash, tosco e assumidamente ruim.

Por isso, esteja avisado: só encare esta aventura idiota, pobretona e demente, repleta de mulheres peladas e toneladas de stock footage, se você se diverte com o trabalho de diretores tipo Bruno Mattei, Alfonso Brescia, Godfrey Ho ou Ed Wood.

Caso contrário, passe longe e assista "Sheena, A Rainha das Selvas" (1984), que é melhor produzido e tal - embora tão divertido em sua ruindade quanto esse aqui, que custou bem menos!


Trailer de DIAMONDS OF KILIMANDJARO



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Les Diamants du Kilimandjaro /
El Tesoro de la Diosa Blanca (1983, Espanha)

Direção: Jess Franco e Olivier Mathot
Elenco: Antonio Mayans (aka Robert Foster), Katja
Bienert, Mari Carmen Nieto (aka Ana Stern), Olivier
Mathot, Albino Graziani e Daniel J. White.

domingo, 13 de abril de 2014

VAMPYROS LESBOS (1970)


"Corava levemente, fitava meu rosto com os olhos lânguidos e ardentes, a respiração tão ofegante que seu vestido subia e descia. Era como o ardor de um amante, e isso me constrangia; era uma sensação odiosa e no entanto arrebatadora. Com o olhar triunfante, ela me puxava, e seus lábios quentes passeavam em beijos pelo meu rosto. Então sussurrava: 'Você é minha, você será minha, você e eu seremos uma só para sempre'."

O trecho acima é do livro "Carmilla", escrito pelo irlandês Joseph Sheridan Le Fanu, que conta a história de uma vampira lésbica e seu amor por uma bela garota (que narra a história). Como o livro foi publicado antes mesmo do "Drácula" de Bram Stoker (em 1871 ou 1872, dependendo da fonte), isso dá uma bela ideia de como a dobradinha lesbianismo + vampirismo definitivamente não é coisa recente.


No cinema, vampirinhas apaixonadas por mortais do mesmo sexo aparecem desde a década de 1930. "A Filha de Drácula" (1936), produzido pela Universal, toca bem levemente no assunto porque o tema ainda era tabu na época, mas a censura fechava um olho se você o abordasse num contexto fantástico, tipo uma história de vampiros.

Os primeiros a escancarar o negócio foram os franceses. Primeiro Roger Vadim, com seu "Rosas de Sangue" ("Et Mourir de Plaisir", 1960; pôster ao lado), que é uma adaptação bem livre de "Carmilla" - e até hoje considerado o primeiro filme "oficial" com vampiras lésbicas. Depois veio Jean Rollin, que transformou o tema praticamente num subgênero, dirigindo inúmeros filmes com vampiras nuas e apaixonadas entre o final da década de 60 e o começo dos anos 1980, entre eles "Le Viol du Vampire" (1969) e "La Vampire Nue" (1970).

Não demorou para o estúdio inglês Hammer, que vinha fazendo sucesso com aquelas adaptações de "Drácula" estreladas por Christopher Lee, resolver se "modernizar" e investir neste filão de mercado: entre 1969-1971, a Hammer lançou a chamada "Trilogia Karnstein", também baseada no livro de Le Fanu, e formada por "Os Vampiros Amantes" (1970), "Luxúria de Vampiros" (1971) e "As Filhas de Drácula" (1971). Esses filmes ficaram famosos pela quantidade de nudez e cenas de sexo, incluindo vampiras mordendo garotas nos peitos!


No meio de tudo isso, o espanhol Jess Franco resolveu dar a sua própria contribuição à dobradinha lesbianismo + vampirismo, fazendo um filme cujo título é auto-explicativo e vai direto ao assunto: VAMPYROS LESBOS!

Embora tenha abordado o assunto (mas sem vampirismo) no passado - seu "Necronomicon", de 1967, já trazia cenas românticas entre mulheres -, este é o título mais conhecido e lembrado quando se fala em lesbianismo na obra de Franco. Provavelmente também é o filme definitivo sobre vampiras lésbicas, ou pelo menos um dos melhores.

Não se deixe levar pelo título: trata-se de uma das grandes obras-primas da extensa filmografia de Franco. Nunca vulgar ou gratuito, apesar do que o título "Vampiras Lésbicas" possa sugerir, o filme na verdade é uma mistura classuda de cinema fantástico com romance/erotismo leve, e até alguns toques de "cinema de arte".


VAMPYROS LESBOS surgiu num momento pós-"Necronomicon" (o filme em que Franco começou a fazer suas primeiras experiências com surrealismo/experimentalismo), e logo depois da parceria com o produtor inglês Harry Alan Towers - uma curta fase que havia garantido ao diretor alguns dos seus maiores orçamentos e a possibilidade de trabalhar com atores famosos como Christopher Lee, Jack Palance e Herbert Lom.

De volta aos filmes baratos, o diretor passou a investir cada vez mais na mistura de horror e erotismo, criando um estilo próprio que seria apelidado de "horrotica", ou "horroerotica". Os roteiros mais "clássicos" de seus primeiros trabalhos (tipo "O Terrível Dr. Orloff") tornaram-se secundários; a partir dessa época (1970 em diante), seu trabalho foi ficando cada vez mais experimental e visual, inclusive com pouquíssimos diálogos entre os personagens.


Escrito pelo próprio Franco, VAMPYROS LESBOS percorre território conhecido: no ano anterior, o espanhol já tinha dirigido uma adaptação do livro de Bram Stoker produzida pelo inglês Towers, "Conde Drácula" (1969).

Aqui, ele pegou a base da obra de Stoker e subverteu-a: os personagens principais Jonathan Harker e Drácula foram transformados em mulheres, e no lugar dos castelos escuros e criptas sinistras, aqui temos casas modernas e praias ensolaradas como cenários!

(Algumas fontes, incluindo o livro "Obsession: The Films of Jess Franco", alegam que ele teria se baseado não em "Drácula", e sim numa história curta e posterior de Bram Stoker chamada "O Convidado de Drácula". Mas não encontrei muitos pontos em comum entre filme e conto, enquanto vários elementos do livro "Drácula" aparecem, conforme veremos ao longo da resenha.)


VAMPYROS LESBOS foi o primeiro de uma série de filmes baratos que Jess fez para o produtor polonês radicado na Alemanha Artur Brauner. Conta a história de Linda Westinghouse (a bela e voluptuosa Ewa Strömberg), uma jovem que trabalha para um escritório de advocacia de Istambul e está enfrentando problemas conjugais: ela não se sente mais atraída sexualmente pelo namorado Omar (Andrés Monales), ao mesmo tempo em que tem sonhos eróticos recorrentes com uma exótica dançarina.

Linda não recebe grande ajuda do seu psiquiatra, o Dr. Steiner (Paul Muller, figurinha carimbada nos filmes dessa fase do diretor), já que o espertalhão fica fazendo desenhos no seu bloquinho enquanto a paciente abre o coração no divã. A única recomendação do "especialista" é a seguinte: "Arrume um amante!".


Certo dia, a empresa envia a advogada para uma ilha fictícia chamada Kalidados, onde ela deve discutir os pormenores de um processo de herança com uma jovem nobre que vive isolada no local, a Condessa Nadine Carody (Soledad Miranda).

Chegando ao local, Linda descobre que a condessa é a mesma dançarina que vem povoando seus sonhos eróticos. E, claro, também é uma vampira. À noite, é seduzida pela mulher misteriosa e se entrega com paixão fervorosa. A transa entre as garotas termina com a vampira mordendo o pescoço da advogada, que "apaga".


Dias depois, a pobre moça recupera os sentidos na clínica do Dr. Seward (Dennis Miller, de "Dracula Contra Frankenstein"), onde está internada desde que foi encontrada vagando desmemoriada. O médico é especialista em ocultismo e estuda a existência de vampiros há décadas, portanto fica impressionado com as histórias da garota sobre a Condessa Carody.

Logo descobriremos que a vampira encontrou em Linda o seu grande amor, depois de séculos de uma existência solitária como morta-viva. Ela atrai a garota telepaticamente para um segundo encontro, quando a transforma numa espécie de "pré-vampira". Agora, a única chance de a jovem escapar da maldição da eternidade é a destruição da Condessa Carody, missão que fica a cargo do namorado Omar, do Dr. Seward e do psiquiatra Dr. Steiner - o núcleo masculino do filme.


Caso o resumo da trama não tenha deixado clara a inspiração de Franco em "Drácula" ao escrever VAMPYROS LESBOS, é bom esclarecer que toda a primeira parte do filme é baseada nos primeiros capítulos do livro de Bram Stoker, quando Harker (Linda aqui) viajava até o castelo do Conde Drácula (Condessa Carody aqui), também a trabalho.

Inclusive tem um momento em que, como acontecia no livro, Linda acorda de manhã cedo e encontra a mansão da vampira deserta. Na obra de Bram Stoker, Harker descia até uma cripta e encontrava Drácula adormecido em seu caixão; aqui, Linda vai até a área externa da casa e encontra a condessa dentro da piscina, "adormecida" como Drácula, mas em plena luz do sol (que, aqui, não tem qualquer efeito nos vampiros!).


VAMPYROS LESBOS tem ainda um Dr. Seward, que, no livro, era o proprietário da clínica onde estava internado um maluco influenciado por Drácula, Reinfield, que não conseguia controlar sua compulsão por devorar insetos (de quem roubava a "energia vital", como o vampiro fazia ao chupar sangue).

No filme de Franco, o Dr. Seward também tem uma clínica e o seu próprio Reinfield, mas aqui em versão feminina (abaixo). Trata-se de Agra (Heidrun Kussin), que no passado foi vítima da Condessa Carody e continua ligada telepaticamente à vampira - e, ao que parece, continua apaixonada por ela.


E o Dr. Seward de Jess foi fundido com o Van Helsing de "Drácula". Aparentemente o diretor espanhol não gostava muito de Van Helsing, pois juntaria os dois personagens outra vez (mantendo o nome Seward) no posterior "Dracula Contra Frankenstein". Talvez ele quisesse manter-se bem distante dos clichês perpetuados pelas produções da Hammer, onde o herói era quase sempre o Van Helsing interpretado por Peter Cushing.

Não seria surpresa, considerando que Franco falou que não gostava dos filmes da Hammer em mais de uma oportunidade. Por isso, ele também jogou no lixo todas as "regrinhas" sobre vampirismo vistas nestas produções populares, preferindo criar sua própria mitologia.


Pois 40 anos antes de "Crepúsculo" e seus vampirinhos boiolas que brilham à luz do sol, VAMPYROS LESBOS já traz uma vampira que não é afetada pelo astro-rei, e que mora numa ilha ensolarada ao invés de na tétrica Transilvânia (e ainda passa as manhãs e tardes tomando banho de sol à beira da piscina ou nadando nua na praia!).

Franco também alterou o sistema de matar vampiros: estacas no coração não funcionam aqui, é preciso fazer como no caso dos zumbis e destruir o cérebro, seja com uma bela machadada, seja enfiando uma ponta de metal através do olho (essa regra reaparece depois em "Dracula Contra Frankenstein")!


Já o misto de Dr. Seward e Van Helsing mostrado aqui não é um incansável caçador/matador de vampiros, como os heróis interpretados por Peter Cushing nos filmes da Hammer, mas sim um mero mortal que sonha com a vida eterna e investiga o vampirismo apenas porque também quer se tornar um deles!

Essas liberdades poéticas garantem uma bela dose de surpresas mesmo para quem já viu cem outros filmes do gênero. VAMPYROS LESBOS pode até se passar em território bem conhecido para quem leu "Drácula" ou já viu alguma das suas diversas adaptações; mesmo assim, Franco foge de uma adaptação fiel (coisa que tentou fazer no anterior "Conde Drácula", e também não conseguiu) para criar algo novo e original.


Felizmente, ele escapou da armadilha de fazer uma mera "sátira erótica" de Drácula, como outros realizadores do período. VAMPYROS LESBOS é uma história levada a sério, mas tampouco pode ser considerado um filme de horror "tradicional", em que os ataques dos vampiros gerem medo ou repulsa.

A abordagem é mais realista, com uma vampira que nunca exibe seus caninos pontiagudos (talvez sequer os tenha) e nem se transforma em morcego; inclusive eu ia jurar que se trata de uma humana psicótica que apenas acredita ser vampira (tipo o que George A. Romero faria alguns anos depois em "Martin"), se não houvesse uma cena que comprova o caráter sobrenatural da personagem, quando ela atravessa uma porta trancada como se fosse fantasma.


Descontando esse detalhe, o diretor evita qualquer exagero que faça a história descambar para os clichês do gênero. Até mesmo Morpho, o fiel criado da vampira, foge do estereótipo e é representado como um cara normal, e até bonitão (nada de corcunda ou cicatriz ocupando meio rosto, como é de praxe).

E as cenas que mostram a Condessa Carody "se alimentando" são melancolicamente poéticas: a imagem da maravilhosa Soledad Miranda deixando escapar um filete de sangue babado depois de morder uma vítima é aquele tipo de coisa ao mesmo tempo horrível (porque sugere violência e morte) e inexplicavelmente erótica!


O mais curioso é que, sem querer, Jess Franco provavelmente inventou as "adaptações românticas" do livro de Bram Stoker, pois antes de VAMPYROS LESBOS os vampiros eram apresentados como monstros sanguinários pouco sedutores ou afeitos a paixonites. Aqui, por outro lado, a Condessa Carody realmente se apaixona por Linda e vice-versa, e essa última precisa escolher se vai sacrificar sua metade humana para passar a eternidade com a vampira ou ajudar a destruí-la.

E o diretor continua prestando tributo a seus filmes anteriores, em interessantes auto-referências que tornam a (re)descoberta da sua obra ainda mais interessante. Por exemplo, a Condessa Carody tem um escravo chamado Morpho (mesmo nome do assassino escravizado pelo Dr. Orloff em "O Terrível Dr. Orloff"), e apresenta um número de dança visualmente idêntico ao da dançarina de "Miss Muerte", inclusive usando um manequim no palco - aqui "representado" por uma garota verdadeira.


Se VAMPYROS LESBOS tivesse que ser resumido em apenas duas palavras, estas seriam "Soledad Miranda". A primeira grande musa de Jess Franco merece integrar qualquer galeria das melhores vampiras da história do cinema, e o filme todo é construído em torno dela. A espanhola com sangue cigano era dona de uma daquelas belezas exóticas e hipnotizantes; sua presença em cena era tão magnética que torna-se impossível desviar os olhos da moça.

Soledad já tinha aparecido rapidamente como vampira em outro filme do diretor (ela foi vampirizada por Christopher Lee no "Conde Drácula" de 1969), mas é aqui que tem a chance de brilhar pela primeira vez, ganhando o espetáculo todo para si, embora apareça creditada com seu habitual pseudônimo "Susann Korda" (criado pelo próprio Franco, numa junção dos sobrenomes da autora de "O Vale das Bonecas", Jacqueline Susann, e do produtor de "O Ladrão de Bagdá", Alexander Korda).


Hoje, numa época de mulheres construídas a bisturi, a beleza natural da espanhola fica ainda mais evidente. Para quem quiser entender o motivo do culto à atriz até hoje, recomendo ver só a cena do seu número de dança aqui em VAMPYROS LESBOS: Soledad aparece linda e deslumbrante num palco escuro, vestindo apenas lingerie preta e uma inseparável echarpe vermelha, diante de um espelho, um candelabro e uma atriz interpretando um manequim. É dinamite pura!

Embora não seja exatamente lembrada como uma ótima atriz, a moça tem pelo menos uma cena em que pode demonstrar que sabia uma ou duas coisas sobre interpretação: deitada num vistoso divã vermelho e preto, com o silencioso Morpho fazendo o papel de psiquiatra, a condessa relata como foi atacada e estuprada quando ainda era humana, centenas de anos antes, e então salva pelo próprio Drácula, que matou seus agressores e a transformou em vampira. Desde então, ela odeia os homens e nunca se apaixonou por ninguém até conhecer Linda. Soledad recita o monólogo da vampira com tristeza e amargura, mas também com a doçura de uma mulher apaixonada. É, provavelmente, um dos melhores momentos da sua curta trajetória.


Um mês depois deste trabalho, Franco já se reencontrava com a musa para rodar outros dois filmes: o sensacional "Ela Matou em Êxtase", que é uma refilmagem não declarada de "Miss Muerte" (e a segunda obra-prima da parceria Franco-Miranda), e o thriller de espionagem "Der Teufek Kam aus Akasava", todos eles produzidos pelo mesmo Artur Brauner de VAMPYROS LESBOS.

Mas a atriz nem chegaria a ver esses trabalhos prontos, já que morreu num trágico acidente de carro em Portugal, em 18 de agosto de 1970, duas semanas depois da bem-sucedida estreia de VAMPYROS LESBOS em Berlim. Ela tinha apenas 27 anos. Sua carreira foi breve, mas marcante - e eternizada por Jess Franco!


Além da eterna musa, os destaques do elenco são a igualmente maravilhosa Ewa Strömberg, bem convincente como a garota inocente dividida entre o amor e a eternidade, e Dennis Price, aqui menos mamado do que de costume - à época, o ator inglês bebia compulsivamente para esquecer que sua carreira tinha ido para o vinagre. Soledad e Ewa voltariam como "par romântico" em "Ela Matou em Êxtase".

Embora VAMPYROS LESBOS tenha altas doses de nudez e sexo, Franco filma todas essas cenas de uma forma mais artística e romântica do que pornográfica; o erotismo não é tão explícito ou gráfico como em produções posteriores do diretor ("A Maldição da Vampira", por exemplo, que inclusive tem argumento parecido, mas uma vampira bem mais sexualmente ativa interpretada por Lina Romay).


Ao mesmo tempo, típicas "Franquices", como super-zooms aparentemente aleatórios de insetos, aqui cumprem o papel de simbolismos bem caracterizados. Takes de uma mariposa se debatendo numa rede de pesca aparecem com insistência quando Linda chega à casa da condessa, como se ela fosse o inseto que cai na teia da aranha; ao mesmo tempo, takes de um escorpião zanzando pelo quintal reforçam o aspecto predador da vampira.

E tem uma pipa vermelha dançando ao vento que pode simbolizar tanto a tensão sexual entre as duas protagonistas como uma alternativa simbólica para aquela transformação de vampiro em morcego vista nos filmes "normais" do gênero. Para reforçar essa ultima hipótese, tem até um momento em que o take da pipa fica sobreposto ao da condessa (abaixo), comprovando essa analogia.


Também merece aplausos a deslumbrante direção de arte, que usa e abusa dos tons de vermelho, cor que aqui representa tanto sangue quanto sedução - as duas molas-mestras de VAMPYROS LESBOS.

Eu sempre fiquei encantado com a quantidade de elementos de vermelho na cenografia do fantástico "Inverno de Sangue em Veneza", de Nicolas Roeg, mas a verdade é que o filme de Franco não fica muito atrás: a cor vermelha é onipresente (veja imagens abaixo), aparecendo em móveis, cenários (paredes e escadas), elementos decorativos (quadros, velas, cortinas), roupas, e no sangue, claro.

A Condessa Carody veste sempre uma longa echarpe vermelha (mesmo quando está nua, a echarpe nunca sai do seu pescoço!), que lembra um jato de sangue fluindo permanentemente do seu pescoço. Não por acaso, na cena em que a vampira está nua dentro da piscina usando apenas a echarpe, esta lembra o sangue que jorra de um pescoço cortado.


Talvez para cumprir a cota de "horror" que o filme precisava para ser melhor distribuído, Franco deu um jeito de incluir um psicótico na trama, Memeth (interpretado por ele mesmo!), que é porteiro do hotel onde Linda fica na véspera de embarcar para a ilha. O misterioso personagem primeiro tenta alertar a garota para os perigos do local, mas não demora para revelar-se um demente que sequestra e tortura mulheres no porão do hotel.

Mais tarde, descobriremos que o degenerado Memeth era marido de Agra, aquela antiga vítima da condessa que está internada na clínica do Dr. Seward. A perda da amada deixou-o maluco, e agora ele se vinga matando todas as mulheres que possam interessar à vampira - e é claro que Linda acabará entrando no rol de vítimas em potencial. O personagem não se encaixa tão bem na narrativa, mas tampouco incomoda. E sempre é curioso ver Jess em papel de psicótico.


Outra característica marcante de VAMPYROS LESBOS é a sua trilha sonora, que aqui tem papel fundamental para conduzir o filme e cobrir as imagens, já que os diálogos são poucos. Composta por Manfred Hubler e Siegfried Schwab, a trilha ficou bem diferente do jazz característico dos filmes do diretor, e é uma maluquice psicodélica quase inclassificável: mistura pop rock do final dos anos 60, jazz e funk, mais vozes e gritinhos modificados com efeitos eletrônicos!

Somada à direção de arte, a trilha doidona deixa no ar um permanente clima de sonho/delírio (ou de chapadeira, se preferir). Uma prova de como a música continua moderna é o fato de ter sido lançada na Inglaterra em CD mais de 20 anos depois, na década de 1990, e mesmo assim virar hit das baladinhas eletrônicas sem precisar de versão remix! Quentin Tarantino, fã declarado do cinema de Franco, até reutilizou uma música da trilha (chamada "The Lions and the Cucumber") em seu "Jackie Brown" (1997).


Por tudo isso, eu não hesito e nem penso duas vezes em chamar VAMPYROS LESBOS de obra-prima. E isso não apenas considerando a filmografia de Jess Franco, mas como cinema em geral. Inclusive acho o filme muito mais sensual e elegante do que o super-hypado "Fome de Viver" (1983), de Tony Scott, que também trata de vampiras lésbicas com trilha sonora moderninha, mas (pelo menos para mim) sem o mesmo charme - e sem Soledad Miranda, embora Catherine Deneuve não seja de se jogar fora...

E se hoje a dobradinha vampirismo + lesbianismo está mais do que batida (pior: gerando bobagens tipo "Matadores de Vampiras Lésbicas"!), VAMPYROS LESBOS certamente continuará fascinante, moderno, classudo, erótico sem ser vulgar, estranho, apaixonante, surreal e poético pelas próximas décadas, podendo ser exibido tanto em cinemas comuns, para um público safadinho em busca de sacanagem e mulher pelada, quanto em cinematecas e mostras de arte, como genuína obra de arte avant-garde.


Jess continuou filmando histórias de sexo envolvendo belas vampiras em "Le Fille de Dracula" (1972), "A Maldição da Vampira" (1973) e "Doriana Grey" (1976); em "O Massacre dos Barbys" (1996) também aparece uma condessa meio vampira que se alimenta de sangue para manter a juventude eterna, à la Elizabeth Bathory.

Mas o diretor nunca mais conseguiu chegar nem perto do clima dessa sua obra-prima, que só não é mais conhecida/respeitada/incensada hoje porque seu título sensacionalista pode passar a ideia errada de que é apenas um pornô softcore rasteiro. E embora não seja o primeiro filme sobre vampiras lésbicas, provavelmente é o mais representativo de todos.

Enquanto isso, como autênticos vampiros, tanto VAMPYROS LESBOS quanto a precocemente falecida (e portanto eternizada na juventude) Soledad Miranda não envelheceram um único ano desde o lançamento do filme em 1970...

PS: Franco dirigiu uma "nova versão" do filme em 1981, chamada "Macumba Sexual", praticamente apenas trocando vampirismo por feitiçaria (e sem a mesma qualidade, óbvio).


Trailer de VAMPYROS LESBOS



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Vampyros Lesbos (1970, Alemanha/Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Soledad Miranda, Ewa Strömberg, Dennis
Price, Heidrun Kussin, Paul Muller, Andrés Monales,
José Martínez Blanco e Jess Franco.