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sábado, 12 de abril de 2014

BLOODY MOON (1981)


Em 1978, o ainda pouco conhecido John Carpenter dirigiu e co-escreveu um pequeno filme de horror independente chamado "Halloween", que se tornaria um dos grandes ícones do gênero. Mais do que isso, este pequeno filme de horror independente sobre um assassino de babás daria origem a um lucrativo subgênero: os filmes slasher, sobre psicopatas (geralmente) mascarados perseguindo e matando brutalmente grupos de adolescentes com os hormônios em ebulição.

Alguns dos elementos típicos do cinema slasher já haviam aparecido antes em "Banho de Sangue" (1971), de Mario Bava, e "Noite do Terror" (1974), de Bob Clark, só para citar dois exemplos bem famosos. Mas "Halloween" foi bem-sucedido ao juntar todas essas ideias e características antes espalhadas por diferentes obras num único filme, tornando-se a inspiração principal de tudo o que seria feito a partir de então nesse estilo, de "Sexta-feira 13" a "Pânico".


Enquanto isso, no começo dos anos 1980, o espanhol Jess Franco trabalhava praticamente como diretor de aluguel, contratado por produtores de diferentes países europeus para filmar obras baratas de acordo com o que estava fazendo sucesso no momento.

Foi assim que ele acabou assinando filmes de zumbis, canibais e até um slasher, este para uma dupla de produtores alemães (Otto Retzer e Wolf C. Hartwig) que queria garantir sua fatia da gorda bilheteria que obras semelhantes vinham faturando - além de "Halloween", o primeiro "Sexta-feira 13" tinha custado US$ 500 mil e faturado quase 40 milhões de dólares só nos cinemas dos Estados Unidos!


O único slasher dirigido por Franco chama-se "Die Säge des Todes" no original (tradução: "A Serra da Morte", numa referência à grande cena do filme). Mas o filme é mais conhecido pelo título internacional, BLOODY MOON ("Lua Sangrenta", em português). Foi rodado em 1980 e lançado nos cinemas no início de 1981, um dos melhores anos para fãs de filmes slasher, quando saíram belos títulos como "Dia dos Namorados Macabro" e "Chamas da Morte".

Numa divertida entrevista que acompanha o DVD do filme, lançado nos Estados Unidos há alguns anos pelo selo Severin, o diretor espanhol conta que foi ludibriado pelos tais produtores alemães, que lhe prometeram um grande técnico de efeitos especiais de Hollywood (Tom Savini?) para fazer as cenas de morte e uma trilha sonora composta pela banda de rock Pink Floyd (!!!).


Em troca, Jess deveria dirigir um filme com "50 cenas assustadoras" - sim, esse foi o pedido expresso dos produtores. E eu confesso que nunca assisti BLOODY MOON contando as tais cenas assustadoras, mas vamos combinar que é um pedido no mínimo curioso.

Não sei se foi o próprio Franco ou o roteirista "Rayo Casablanca" (pseudônimo do gerente de produção Erich Tomek), mas alguém aí fez a lição de casa direitinho: BLOODY MOON é bem parecido com "Halloween", visualmente e narrativamente, além de pegar algumas ideias daqueles precursores dos filmes slashers que eu citei antes.


E já começa "adaptando" a famosa cena inicial de "Halloween", aquela em que a câmera assume o ponto de vista do assassino para ficar stalkeando sua próxima vítima, imitando até o momento em que ele coloca uma máscara e o espectador passa a "enxergar" pelos buracos dos olhos da dita cuja (o problema é que a câmera só "vê" por um único buraco, como se o assassino fosse caolho!!!).

A diferença é que não estamos em Haddonfield, aquela cidadezinha dos Estados Unidos, mas em Alicante, na Espanha; não na noite de Halloween, mas em meio a uma animada festa (batizada "Festival da Lua"), realizada num resort para turistas. E ao invés de Michael Myers, o assassino aqui é o jovem Miguel (o austríaco Alexander Waechter). Caso você não tenha percebido a referência, "Miguel" é o equivalente em espanhol para Michael!


Ao contrário de sua versão norte-americana em "Halloween", o Miguel de BLOODY MOON não é uma criança precoce prestes a cometer seu primeiro assassinato matando a própria irmã, mas sim um adolescente que tem o rosto deformado, e por isso sofre bullying e é tratado como esquisitão por todos os hóspedes do tal resort.

Durante a festa, ele surrupia uma máscara de Mickey Mouse e a utiliza não apenas para cobrir o rosto deformado, mas também para se passar por um outro rapaz e seduzir uma gostosona. Só que na hora H, quando eles já estão na cama, a máscara é retirada bruscamente e revela o rosto de Miguel. A moça tem um ataque de pânico, começa a gritar e o rapaz se vinga matando-a brutalmente a tesouradas. Detalhe: o assassinato acontece no bangalô de número... adivinha?... 13!!!


A exemplo da sua contraparte norte-americana, Miguel é internado numa instituição para doentes mentais e tratado pelo seu próprio Dr. Loomis, aqui chamado Dr. Domingo Aunous (e, na falta de Donald Pleasence, o próprio Franco interpreta o papel). Cinco anos se passaram e o homicida está para ser libertado sob a guarda da irmã, Manuela (a linda Nadja Gerganoff, em seu único filme).

Mas o próprio médico alerta que Miguel pode não estar "totalmente curado", e por isso não deve ter nenhum contato com qualquer coisa que lhe faça recordar da noite do assassinato. E não é que Manuela, muito atenciosa, leva o irmão de volta para o mesmo resort onde ele cometeu aquele crime brutal, agora transformado numa escola de espanhol para turistas norte-americanas?


Como este é um filme de Jess Franco, a tal escola (chamada International Youth-club Boarding School of Languages) é povoada apenas por garotas gostosas e com fogo no rabo, que passam 0,5% do seu tempo aprendendo espanhol (que deveria ser o objetivo principal da escola) e os 99,5% restantes falando sobre sexo ou fazendo sexo!

A exceção, claro, é Angela (a alemã Olivia Pascal, na sua melhor imitação de Jamie Lee Curtis), uma doce e virginal estudante da tal escola, por quem o ex-psicopata Miguel (será "ex" mesmo?) ficará encantado - ou obcecado, como preferir. À medida que a trama se desenrola, várias colegas e amigas da moça irão desaparecer, mortas brutalmente por um assassino mascarado. Mas quem é ele, e qual a motivação por trás dos crimes?


BLOODY MOON é considerado um dos trabalhos mais impessoais do velho Jess, e percebe-se claramente que ele está dirigindo no piloto automático. Isso não quer dizer que o filme seja ruim, ou mal-feito; pelo contrário, a produção é caprichada, e embora o tal maquiador de efeitos de Hollywood nunca tenha aparecido, o espanhol Juan Ramón Molina (até hoje trabalhando em filmes como "Dagon", de Stuart Gordon, e "Las Brujas de Zugarramurdi", de Álex de la Iglesia) deu conta do recado com criatividade.

Franco nunca foi um diretor "gore", mas aqui ele teve a oportunidade de exercer certo sadismo filmando as mortes mais exageradas e brutais para as suas personagens. Tem de tudo um pouco, incluindo uma garota que é apunhalada pelas costas e a ponta da faca atravessa seu corpo e sai pelo bico do seio (uma cena que Lucio Fulci e Dario Argento certamente lamentaram por não ter filmado antes), e a tal cena mais famosa que está até no pôster, em que outra menina é imbecil o suficiente para deixar um possível amante amarrá-la debaixo de uma gigantesca serra circular - e paga caro pelo erro.


Como escrevi lá em cima, o roteiro de BLOODY MOON não bebe apenas da fonte de "Halloween" e "Sexta-feira 13" (dois filmes ainda bem recentes na época), mas também de precursores do filão. De Mario Bava e seu "Banho de Sangue", por exemplo, Franco e cia. pegaram emprestado o fato de os assassinatos não serem aleatórios, mas sim motivados pela cobiça.

Acontece que a proprietária da área em que fica a escola é uma milionária megera, a Condessa Maria Gonzales (María Rubio), uma óbvia referência à condessa dona da baía em "Banho de Sangue" (ambas inclusive estão em cadeiras-de-rodas)! Como lá no filme do Bava, o desejo de possuir a fortuna da velha é a mola propulsora dos assassinatos também aqui. A Condessa é tia dos irmãos Manuela e Miguel, e adivinhe quem vai herdar tudo se a velha bater as botas?


Já de "Noite do Terror", BLOODY MOON pega o detalhe de o assassino passar o filme inteiro aterrorizando a mocinha Angela com gravações e telefonemas, como fazia o vilão daquele filme - e de vários outros slashers da mesma época, como "Quando um Estranho Chama" (1979) e "A Morte Convida para Dançar" (1980), embora a molecada que nasceu ontem jure que quem inventou tudo isso foram os recentes "Pânico" e "Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado"...

Por fim, uma cena envolvendo a descoberta de um cadáver numa cadeira-de-rodas foi filmada de maneira muito similar à famosíssima cena final do clássico "Psicose", de Alfred Hitchcock, e eu realmente não acredito que seja apenas uma coincidência.


Lina Romay, esposa e musa de Franco, não aparece no filme, mas foi creditada como assistente do diretor (com o pseudônimo "Rosa Almirail"). Já o diretor de fotografia é o espanhol Juan Soler, que se tornaria um colaborador habitual do incansável Jess ao longo da década.

E apesar de a produção ser melhor do que muitas tranqueiras que Franco dirigiu no mesmo período, o resultado final não está livre de muitas gargalhadas involuntárias, geralmente provocadas por burradas do diretor (tipo gritantes erros de continuidade), ou por forçadas de barra do roteiro.

A tal escola de idiomas, por exemplo, é uma comédia. Descontando Angela, que é a "mocinha" (a final girl típica dos slashers), todas as outras garotas que estudam no local têm merda na cabeça e consideram "status social" ter transado com Antonio, o instrutor de tênis - aquelas que não abriram as pernas para ele são inclusive ridicularizadas pelas amigas.


Tem até um momento patético em que uma das moças fica pulando na própria cama e gemendo para fingir que está transando com Antonio, mas é logo desmascarada pelas amigas e vira motivo de chacota! E você pensando que as meninas da série "Sexta-feira 13" eram superficiais, né? Em BLOODY MOON, todas as personagens são tão estúpidas que você até torce pelo assassino, e comemora quando elas têm mortes horríveis (talvez fosse exatamente esse o objetivo do malucão Jess).

Isso sem contar que o lugar em que a história se passa é supostamente uma escola, mas mantém o estilo de resort chique: as garotas residem em bangalôs (e é claro que Angela vai acabar naquele de número 13), se divertem numa discoteca (era o finzinho da Febre Disco, e tem até uma patinadora na pista de dança!) e tomam banho de piscina de topless, tudo no intervalo das aulas e sem qualquer constrangimento, apesar de ter professores homens, um jardineiro demente (interpretado por um dos produtores, Retzer) e o próprio Miguel circulando por lá o tempo inteiro. Aula, que é bom, só quando sobra tempo! Quem mandou a gente estudar em escola pública, onde não tinha dessas putarias?


Como se trata de um filme dirigido por Jess Franco, é claro que existe bastante tensão sexual entre os personagens. E não fica só no oba-oba das meninas em cima do tal professor de tênis: a misteriosa Manuela cumpre um ritual noturno de mostrar os peitos para a lua (?!?), e se relaciona ao mesmo tempo com o escroque diretor da escola, Alvaro (Christoph Moosbrugger), e com o próprio irmão Miguel, com quem mantém uma relação incestuosa!

Curioso é ver Olivia Pascal posando de heroína inocente, virginal e sempre vestida, pois àquela altura ela já era bem conhecida (e o seu corpo nu também, frente e verso) por ter aparecido em vários filmes de erotismo softcore, como "Vanessa" (1977) e "Atrás dos Muros do Convento" (1978). Segundo o diretor, a primeira coisa que Olivia lhe disse ao chegar no set era que tinha se casado e (pelo menos) dessa vez não queria tirar a roupa. Desejo concedido - infelizmente.


Tirando os crimes violentos e as besteiras, o restante de BLOODY MOON é o tradicional feijão-com-arroz do subgênero: Angela passa o filme inteiro ou escapando dos atentados do assassino - que tenta matá-la até com uma gigantesca pedra, obviamente feita de isopor, numa cena de rolar de rir -, ou encontrando os cadáveres das suas amigas, ao mesmo tempo em que tenta, inutilmente, convencer os outros de que há um matador à solta.

Lá atrás, no começo dos anos 1980, muitos desses elementos ainda eram novidade (embora já estivessem aparecendo em diferentes filmes de horror desde a década de 60!). Hoje, entretanto, estão mais do que batidos, e quem for ver BLOODY MOON provavelmente vai adivinhar desde cedo quem vive, quem morre, quem é o assassino e até quando um gato vai pular "do nada" para dar um susto falso na mocinha.


Pelo menos o velho Jess tenta injetar alguns lances diferentes lá e cá, talvez para cumprir aquela cota de "50 sustos" exigida pelos produtores. Um momento bem criativo visualmente é aquele em que Angela sente-se ameaçada pela sombra do que parece ser um homem refletida na porta da frente do seu bangalô; ao abrir a porte, porém, ela constata que é apenas um garotinho, e que a sombra maior projetada através da porta não passava de uma ilusão de ótica (abaixo).

Mais adiante, numa cena que deve arrepiar os protetores de animais até hoje, uma cobra de verdade é morta sem cerimônia apenas pelo choque gratuito: a serpente desce de uma árvore e se aproxima ameaçadoramente de Angela, que está distraída, mas um colega parte para o salvamento cortando a cabeça do bicho com uma enorme tesoura de jardinagem! A questão é que tal cena não acrescenta absolutamente nada ao filme, e poderia facilmente ter sido cortada (a cena, não a cabeça da pobre cobra!).


Como aconteceu com muitos outros filmes slasher do período, o único interesse que BLOODY MOON pode ter hoje é pelas cenas de morte. Menos mal que este é um dos poucos trabalhos do diretor em que o departamento de efeitos especiais estava bem representado: as trucagens criadas por Molina podem até ser baratas, mas o resultado na tela é bem eficiente (e consideravelmente gráfico).

Cenas como a da serra circular decepando a cabeça da garota são mostradas sem nenhuma sutileza, com direito a generosos takes do pescoço da vítima sendo serrado até que a cabeça se solte do corpo e role pelo chão! O filme também é sem-noção o suficiente para mostrar o assassino atropelando e matando uma criança que testemunhou um dos seus crimes - o tipo de cena que você não vai ver nas produções norte-americanas.


Por isso, não surpreende o fato de o slasher de Jess Franco ter entrado na lista dos “Video Nasties” no Reino Unido - aquela temida relação que incluía filmes considerados extremamente violentos para uma época em que se discutia os limites da violência no cinema, e que ficaram proibidos naquela parte do mundo durante décadas (ou então circularam em versões mutiladas).

Vale lembrar que o pobre Franco teve a "distinção" de contar com TRÊS filmes seus na lista dos Video Nasties: este, "Women Behind Bars" e "Manhunter - O Sequestro" - embora os dois últimos sejam mais toscos e engraçados do que propriamente violentos, e certamente não mereciam estar numa relação de filmes banidos ao lado de "Cannibal Holocaust" e "Aniversário Macabro".


Até porque tem coisa muito mais terrível em BLOODY MOON do que as cenas de violência: a trilha sonora assinada por Gerhard Heinz é daquelas que dão vontade de furar os tímpanos!

Na falta do prometido Pink Floyd, apareceu o tal Heinz com uma música inexpressiva e equivocada, repleta de solos de guitarra, e que o próprio Jess assumiu que odiou (na entrevista para o DVD da Severin, ele falou que a trilha é a pior coisa do filme, mas mesmo assim foi obrigado a usar pelos produtores).

Embora não chegue aos pés dos melhores filmes do diretor, principalmente daqueles produzidos na sua fase mais inspirada (entre os anos 60-70), BLOODY MOON pelo menos é bem melhor do que muitos filmes slasher daquele período (a safra de 1980-81). E dá de dez a zero em muita coisa que veio depois, como aquelas assexuadas (e sem sangue) imitações de "Pânico" feitas entre as décadas de 1990 e 2000.


Pois mesmo dirigindo no piloto automático e entregando um trabalho sob encomenda, Jess consegue enfocar seus temas preferidos (sexo e morte) daquele seu jeitinho especial.

O resultado é bem melhor que algumas sequências de "Sexta-feira 13" e "Halloween", os filmes que o espanhol está visivelmente tentando imitar aqui.

E muito mais divertido também. Mesmo quando é involuntariamente.

PS: Cinéfilos metidos a besta certamente vão se contorcer de raiva ao saber que um tal de Pedro Almodovar (sim, "aquele" Pedro Almodovar) homenageou Franco ao colocar diversas cenas deste filme no início do seu "Matador" (1986), quando o protagonista se masturba assistindo a uma série de momentos violentos na TV (tirados de BLOODY MOON e também de "Blood and Black Lace", de Mario Bava). Obrigado ao Carlos Primati pela lembrança!


Trailer de BLOODY MOON



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Die Säge des Todes / Bloody Moon 

(1981, Alemanha/Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Olivia Pascal, Christoph Moosbrugger, Nadja

Gerganoff, Alexander Waechter, Jasmin Losensky, 
Corinna Drews, Ann-Beate Engelke e María Rubio.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

JACK THE RIPPER (1976)


Em 1975, Jess Franco estava sem produtor e sem dinheiro, e bem no meio das filmagens de um WIP (aqueles filmes de sacanagem sobre mulheres na cadeia). Desesperado, foi choramingar com o produtor suíço Erwin C. Dietrich, que na época estava financiando (e às vezes até dirigindo) tranqueiras sexploitation como "The Erotic Adventures of Robin Hood" (1969) e "The Three Musketeers and Their Sexual Adventures" (1971).

Dietrich caiu na lábia do espanhol e topou bancar o que faltava de grana para que ele terminasse o tal filme, chamado "Frauengefängnis" (mais conhecido pelo título em inglês "Barbed Wire Dolls"). Ao ver o filme pronto, o coitado ficou horrorizado: Franco tinha filmado da forma mais desleixada possível, com luz natural, câmera no ombro e várias cenas fora de foco, o completo oposto do mínimo de qualidade que o produtor exigia mesmo nas podreiras que financiava. Mais uma vez, o velho Jess venceu-o na lábia, dizendo que aquele era o futuro do cinema: filmes com uma cara mais amadora e realista (ou seja, de certa forma ele já antecipava o Dogma 95!!!).

Porém nada poderia preparar o pobre Dietrich para o capítulo seguinte desta novela: enquanto preparava os contratos de distribuição do tal "Barbed Wire Dolls", ele descobriu que estava chegando aos cinemas uma co-produção italiana chamada "Women Behind Bars", e as imagens e nomes de atrizes no pôster deste filme lhe eram estranhamente familiares.

Acontece que Franco havia rodado também este segundo filme de mulheres na cadeia ao mesmo tempo em que filmava "Barbed Wire Dolls", nos mesmos cenários, com o mesmo elenco e usando o equipamento de Dietrich (ao lado, o pôster dos dois filmes)!

Algo do tipo "take 1 vai para 'Barbed Wire Dolls', take 2 vai para 'Women Behind Bars'", porque ele tinha pegado dinheiro de produtores italianos para um outro projeto que não saiu do papel, mas continuava devendo um filme para eles! Dá pra acreditar?

Esta introdução foi apenas para explicar porque o produtor suíço montou uma verdadeira operação de guerra para impedir que Franco lhe engambelasse novamente no filme seguinte que fizeram juntos, JACK THE RIPPER (1976), mais uma adaptação para o cinema dos lendários assassinatos de Jack, O Estripador.


Para evitar que Jess filmasse qualquer outra coisa nos intervalos da produção "oficial", Dietrich forçou-o a transferir as locações de Portugal, onde ele pretendia rodar o filme originalmente, para Zurique, uma das cidades mais luxuosas da Suíça, onde o produtor podia acompanhar os trabalhos de perto. E ainda colocou um dos seus homens de confiança, Edouard A. Stöckli, como gerente de produção, para impedir qualquer picaretagem do espanhol malandrão.

A operação até funcionou no sentido de resultar em um trabalho de mais qualidade. Mas Franco foi picareta de qualquer jeito: ao invés de fazer um filme sobre Jack, O Estripador, como Dietrich queria, ele simplesmente refilmou seu clássico "O Terrível Dr. Orloff" (1961) praticamente cena a cena, com pequeníssimas alterações!


Na vida real, o assassino desconhecido identificado apenas como Jack, O Estripador aterrorizou o bairro pobre de Whitechapel, em Londres, no final do século 19. Ele matou e esquartejou cinco prostitutas entre as madrugadas de 31 de agosto e 9 de novembro de 1888. Outros crimes foram atribuídos a ele, bem como cartas ameaçadoras enviadas a jornais, mas nunca se confirmou nada.

As cinco vítimas "oficiais" foram Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowes e Mary Jane Kelly, e as sangrentas cenas dos crimes variavam de pescoços cortados e peitos abertos até seios e úteros arrancados e órgãos internos removidos, levando a polícia a acreditar que o Estripador seria alguém com conhecimento do que fazia, tipo um cirurgião ou açougueiro.

Tão misteriosamente quanto surgiu, o misterioso Jack desapareceu sem deixar rastros, e sem que sua identidade fosse descoberta - até hoje existem diversas teorias sobre o caso, que acabam rendendo vasto material para novos livros e documentários do Discovery Channel a cada par de anos.


Quando Jess foi contratado para dirigir o "seu" JACK THE RIPPER, o terrível Estripador já tinha aparecido em mais de 30 filmes, sendo que o primeiro deles foi o clássico do expressionismo alemão "O Gabinete das Figuras de Cera", dirigido por Paul Leni e Leo Birinsky em 1924. De lá para cá, atores tão díspares quanto Anthony Perkins, Udo Kier, Ian Holm e até Tor Johnson (sim, o gigantesco "muso" do Ed Wood!) interpretaram o famoso serial killer londrino em produções bem diversas.

Para a sua adaptação, o diretor contou com um dos atores mais problemáticos da época, uma figura que tinha fama de louco furioso e psicopata NA VIDA REAL, e portanto a pessoa mais apropriada para interpretar Jack, O Estripador: ninguém menos que o alemão Klaus Kinski, o terror dos diretores e produtores, que já havia trabalhado com Franco anteriormente em "Conde Drácula", "Santuário Mortal" e "Venus em Fúria".


Kinski interpreta um médico chamado Denis Orloff (sacou?), um respeitado membro da sociedade e um filantropo durante o dia (ele chega a atender pessoas carentes de graça em seu consultório), mas um monstro à noite, quando sai para as ruas e assume a identidade de Jack, O Estripador para matar e retalhar as pobres garotas de vida fácil que encontra em seu caminho.

À medida que a contagem de cadáveres aumenta, e a polícia começa a sofrer pressão popular para prender o assassino, o Inspetor Anthony Selby (Andreas Mannkopff), melhor investigador da Scotland Yard, é recrutado para trabalhar no caso.


Selby tem uma namorada dançarina, Cynthia (Josephine Chaplin), que, para ajudar o amado, resolve investigar os crimes por conta própria, inclusive vestindo-se de prostituta e circulando sozinha por Whitechappel à noite, tentando atrair o Estripador para uma armadilha.

O problema é que o Dr. Orloff mata prostitutas por causa de um trauma de infância (sua própria mãe trabalhava nessa profissão), e a pobre Cynthia é muito parecida fisicamente com a Sra. Orloff. Ou seja: passa imediatamente para o topo da lista de futuras vítimas de Jack, O Estripador!


O que mais chama a atenção em JACK THE RIPPER é a total falta de comprometimento de Jess com os fatos históricos relacionados ao Estripador real. Apenas o uso do nome "Jack, O Estripador", a ambientação numa falsa Londres e a existência de um assassino de prostitutas lembram os assassinatos acontecidos em 1888; todo o resto é invenção do diretor-roteirista, a partir de seu clássico "O Terrível Dr. Orloff".

A história é praticamente a mesma: Jack tem até uma ajudante (como Orloff tinha Morpho), uma mulher demente chamada Frieda (Nikola Weisse), que é vigia no Jardim Botânico de Londres, para onde o psicopata leva suas vítimas para poder retalhá-las em paz.

A tal ajudante parece ter sido operada e lobotomizada pelo médico louco para virar sua serva leal (ao menos uma cicatriz na cabeça da mulher é mostrada em destaque), o que a aproximaria ainda mais do velho Morpho. E ela se refere às vítimas do assassino como "bonecas", talvez por perceber a satisfação com que seu mestre "brinca" com elas.


E não pára por aí: Jack coloca suas vítimas num barco a remo para transportá-las até o Jardim Botânico pelo Rio Tâmisa (como Orloff e Morpho faziam com suas vítimas em "O Terrível Dr. Orloff, para conduzi-las da cidade até o castelo do cientista), e depois descarta os cadáveres mutilados no próprio rio.

Enquanto em "O Terrível Dr. Orloff" um pescador encontrava o colar de uma das vítimas, que havia caído do barco durante o transporte, aqui um outro pescador encontra a mão decepada de uma das vítimas. Todo o episódio envolvendo o Inspetor Selby e sua namorada que resolve investigar os crimes por conta própria também foram tirados do filme de 1961, em que o mesmo acontecia com o Inspetor Tanner e sua namorada (também bailarina!) Wanda.


Os dois filmes ainda têm cenas inteiras em comum, refilmadas por Jess com ângulos de câmera praticamente idênticos. Uma é aquela em que o investigador reúne todas as potenciais testemunhas - incluindo um vendedor de flores cego! - para elaborar um retrato falado do criminoso, baseado nos pequenos fragmentos de informação que cada uma delas lembra.

A outra é aquela em que o Estripador passa pela carruagem onde Cynthia está e fica olhando assustadoramente para a garota. Em "O Terrível Dr. Orloff", o vilão reconhecia em Wanda a sua filha; aqui, o Estripador acha a moça muito parecida com sua falecida mãe. Em ambos os filmes, a moça grita e seu namorado chega a perseguir um vulto que se afasta, mas que não é o vilão!


A prova de que Franco não tem nenhum compromisso com os fatos históricos é que, além de mudar a quantidade de vítimas e os seus nomes - nada de Mary Ann, Annie, Elizabeth, Catherine ou Mary Jane aqui; as vítimas de Jess se chamam Sally Brown, Jeanny e Marika! -, o espanhol não pensa duas vezes em reescrever a história e, na conclusão, (SPOILERS) mostra a polícia encontrando, identificando e prendendo Jack, O Estripador! Como nada nem perto disso aconteceu na vida real, e o verdadeiro serial killer simplesmente desapareceu sem deixar vestígios, no mínimo Jess podia ter incluído um diálogo do tipo "Vamos manter isso em segredo, nunca saberão quem é o Estripador", para ficar menos fuleiro! (FIM DOS SPOILERS)
 

Quando o produtor Dietrich percebeu que Franco tinha refilmado "O Terrível Dr. Orloff" como JACK THE RIPPER, já era tarde demais. O que deu para fazer foi modificar a dublagem do filme, eliminando qualquer referência ao nome verdadeiro do Estripador como sendo "Dr. Orloff" e transformando-o num médico anônimo (embora "Dr. Dennis Orloff" ainda apareça nas dublagens em alguns idiomas).

Mas a malandragem do diretor espanhol acabou passando em brancas nuvens para os espectadores da época, e mesmo a análise de JACK THE RIPPER no livro "Obsession: The Fims of Jess Franco", que foi publicado em 1993, não faz qualquer menção ao fato de as duas obras serem cara de uma, focinho da outra. Só mais recentemente, com a possibilidade de revisar ambos os filmes primeiro em vídeo e depois em DVD/blu-ray, é que as pessoas começaram a constatar a malandragem.


Se o espectador conseguir descontar a picaretagem (como refilmagem colorida de "O Terrível Dr. Orloff", este novo filme é bem mais fraco que o original) e a falta de fidelidade histórica do roteiro, JACK THE RIPPER poderá ser apreciado como uma das produções mais bem cuidadas que Franco dirigiu naquele período.

Seus famosos excessos com zoom nos filmes da época, e cenas gravadas com câmera no ombro, foram podados por Dietrich e seu gerente de produção linha-dura, e o filme todo foi fotografado em estilo clássico, com becos escuros repletos de nevoeiro, lembrando muito o visual dos velhos filmes da Hammer - parece até que o Conde Drácula vai saltar de algum beco escuro a qualquer momento, ao invés de Jack, O Estripador!


O diretor de fotografia foi Peter Baumgartner, que conseguiu capturar com bastante estilo as ruas escuras e desertas (às vezes MUITO desertas, talvez por falta de figurantes) de Zurique. Graças à inserção de diversas cenas de arquivo (do Big Ben, por exemplo), a cidade suíça até acaba enganando como a Londres da Época Vitoriana.

Mas JACK THE RIPPER vale mesmo como mais uma tour-de-force do doidão Klaus Kinski. Não podia haver ator melhor para representar o serial killer, já que o alemão gela o sangue das suas vítimas só com o olhar (e o diretor faz questão de mostrar os olhos do ator em close o tempo inteiro).


O incrível é que sua performance aqui está até contida, já que Klaus tentou passar a ideia de que Orloff era um homem dividido entre duas personalidades: a de médico bonzinho e a de psicopata descontrolado.

É uma abordagem curiosa, que lembra mais Jekyll e Hyde - as duas metades da mesma pessoa no livro "O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson - do que propriamente Jack, O Estripador. Kinski representa o contraste entre estas duas personalidades diferentes sem exageros, mas a verdade é que não tem muita graça ver o ator "interpretando" um louco, pois parece que está apenas sendo ele mesmo!


Com fama de difícil nos bastidores, o alemão não teria dado muito trabalho em JACK THE RIPPER, segundo Franco e o produtor Dietrich. Nem por isso guardou boas recordações da produção, que foi filmada às pressas e com pouco dinheiro. "Eu filmei aquela merda em apenas oito dias", resumiu o ator, numa entrevista posterior.

Dietrich confirmou que ele gravou todas as suas cenas em oito dias numa entrevista ao livro "Obsession: The Films of Jess Franco", mas lembrou que as filmagens com ele eram quase sempre noturnas - algo bem desgastante, principalmente porque duravam várias horas seguidas entre o anoitecer e o amanhecer. Mesmo assim, o "difícil" Kinski não teria reclamado - quem sabe por saber que passaria essas oito noites insones rodeado de belas mulheres nuas em quase todas as suas cenas!


Obviamente, um filme sobre Jack, O Estripador precisa envolver certa dose de violência, considerando o estrago que o verdadeiro serial killer inflingia em suas vítimas.  Este é o único aspecto em que JACK THE RIPPER consegue acrescentar algo a "O Terrível Dr. Orloff", pois aqui há sangue aos borbotões em cada ataque do vilão.

O problema é que as mutilações são encenadas com efeitos tosquíssimos, no nível das obras de Herschell Gordon Lewis (tipo "Banquete de Sangue"). Ou seja: "bonecos" absurdamente falsos são desmembrados e cortados em close, com aquele sangue vermelhão dos filmes dos anos 70 jorrando dos ferimentos, em cenas que muitas vezes soam mais engraçadas (até pelo exagero) do que chocantes - repare nos "seios" arrancados nas imagens abaixo.


JACK THE RIPPER também tem uma cena tosquíssima em que o Estripador, nos seus dias "normais" como Dr. Orloff, arranca "a seco" (sem qualquer tipo de anestesia ou mesmo assepsia) a pústula que um paciente pobretão tinha na perna - e que não passa de uma visível bolinha de látex com sangue falso por baixo.

Embora o propósito desta cena seja comprovar que o alter-ego "normal" de Jack (o bom doutor) está gradativamente perdendo o controle, sendo violento até com seus pacientes, Franco podia ter mostrado isso de outra maneira, sem aquele close que deixa a "maquiagem" ainda mais evidente. Detalhe: o doutor depois libera seu paciente sem no mínimo enfaixar o ferimento ou fazer um curativo! Assim fica fácil (e barato) fazer caridade atendendo pacientes pobres de graça!


No fim, o produtor ficou bem contente com o resultado, pois Franco se comportou, não foi tão desleixado quanto de costume durante as filmagens e ainda entregou o nível de putaria que se esperava dele (Dietrich confirmou que só o contratou para o projeto pela sua habilidade em mesclar sexo e violência em filmes rodados em pouco tempo e com pouquíssimo dinheiro).

Todas as vítimas do Estripador aparecem nuas, incluindo a "mocinha" Josephine Chaplin no final. Lina Romay, esposa e musa do diretor, aparece como Marika, uma das vítimas, numa cena que depois seria repetida à exaustão em filmes tipo os da série "Sexta-feira 13": ela tenta fugir de Orloff/Jack por uma floresta escura à noite, naquele que talvez seja o momento mais climático do filme.


Embora frustrante para quem espera um filme minimamente fiel à história verídica de Jack, O Estripador (e ainda mais frustrante quando se percebe que é só uma cópia disfarçada de "O Terrível Dr. Orloff"), JACK THE RIPPER vale a assistida por pelo menos dois motivos: constatar como Jess consegue "fingir" uma produção classuda mesmo com pouquíssimo dinheiro, e conferir o finado Klaus Kinski como astro do espetáculo.

Fora isso, não há nenhum mistério para o espectador desvendar (Kinski É Jack, O Estripador desde o começo, e a investigação realizada pela polícia nunca empolga) e pouquíssimas cenas de suspense ou tensão, já que sempre que o vilão cruza com alguma garota, você sabe que ela será morta violentamente mais cedo ou mais tarde.


Mesmo assim, é no mínimo interessante ver dois mitos (Jess Franco e Klaus Kinski) em ação. Principalmente porque, quase quatro décadas depois, ainda não aprendemos a fazer um filme decente sobre Jack, O Estripador!

Uma rara exceção é o quase desconhecido "À Beira da Loucura" (1989), de Gérard Kikoïne, que traz o eterno Norman Bates, Anthony Perkins, numa reinterpretação da história muito parecida com o que Kinski tentou fazer aqui: um cruzamento entre o serial killer real e "O Médico e o Monstro"! Neste filme, Perkins interpreta um Dr. Jekyll da Londres Vitoriana, que se transforma em Jack, O Estripador ao servir de cobaia para a sua fórmula!

Até vale uma sessão dupla com ambos os filmes, para comparar como dois excelentes atores interpretaram, cada um à sua maneira, o mais famoso (e misterioso) de todos os serial killers...


Trailer de JACK THE RIPPER



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Jack The Ripper (1976, Suíça/Alemanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Klaus Kinski, Josephine Chaplin, Andreas
Mannkopff, Herbert Fux, Lina Romay, Olga Gebhard,
Friedrich Schönfelder e Francine Custer.