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quinta-feira, 10 de abril de 2014

MISS MUERTE (1965)


Como vimos na resenha de "O Terrível Dr. Orloff", Jess Franco se tornou um diretor de filmes de horror por puro acidente, depois que o projeto "socialmente engajado" que ele ia começar a rodar foi proibido pelos censores espanhóis. Mesmo assim, ele saiu-se muito bem em sua estreia no gênero e acabou fazendo quatro filmes de terror entre 1961 (o ano de "Dr. Orloff") e 1965, o ano de uma pequena obra-prima chamada MISS MUERTE - o grande filme da fase clássica de Franco, aquela que começa com sua estreia no cinema, em 1959, e termina com "Necronomicon" em 1967.

Se fizermos uma analogia entre os três terrores anteriores de Jess ("O Terrível Dr. Orloff", "O Sádico Barão Von Klaus" e "El Secreto del Dr. Orloff") e os primeiros filmes de James Bond - já que as aventuras de 007 estavam sendo produzidas no mesmo período -, MISS MUERTE seria uma espécie de "007 Contra Goldfinger". Enquanto os primeiros apresentaram o repertório de personagens, vilões e truques do realizador, este novo, o "Goldfinger" do terror clássico de Franco, tornou tudo mais estilizado e divertido.


Por coincidência, como já havia acontecido com "O Terrível Dr. Oloff", MISS MUERTE foi um projeto criado no improviso por causa dos censores espanhóis - e por isso, mais uma vez, me vejo obrigado a agradecer à Censura!

À época, Franco estava prestes a filmar um roteiro chamado "Al Otro Lado del Espejo", escrito em parceria com um francês chamado Jean-Claude Carrière (que havia roteirizado "O Diário de uma Camareira", de Luis Buñuel, em 1964, e assinaria vários outros filmes dele nos anos seguintes). Esta co-produção francesa contaria a história de uma garota que, traumatizada pelo suicídio do pai, começa a matar todos os homens com quem se relaciona, motivada pelo fantasma do falecido.


O problema é que os cisudos censores espanhóis não gostaram da ideia de uma protagonista seduzindo e matando diversos homens, e sugeriram uma série de cortes e adaptações para liberar o projeto. Como essas mudanças acabariam com o filme, Franco preferiu adiar "Al Outro Lado del Espejo" (que acabaria filmando do seu jeito em 1973) para fazer outra coisa. Assim, MISS MUERTE, como "O Terrível Dr. Orloff", nasceu de uma frustração do diretor.

"MISS MUERTE não deveria existir", comentou Jess, numa entrevista de 1991. "A Censura estava pedindo mudanças nesse outro roteiro. Eles não me proibiram de filmá-lo, mas impuseram uma série de modificações. Aí eu me neguei a fazer o que queriam e disse a eles: 'Ao invés disso, vou fazer outro filme de horror. Tipo esses que vocês acham estúpidos, esses que vocês ficam rindo porque mostram castelos misteriosos e gatos pretos. Mas já que não me deixam mostrar nem um peito, então vou fazer outro desses!".


Mantendo a parceria com Jean-Claude Carrière (com quem depois escreveria também a aventura de espionagem "Cartes sur Table", de 1966), Jess resolveu fazer de MISS MUERTE uma espécie de prolongamento e/ou continuação dos temas, personagens e ideias que já tinha enfocado nos três filmes de horror anteriores.

Porque mesmo que essas suas outras obras tivessem diversas ideias à frente do seu tempo, elas ainda estavam muito presas a um conceito de passado, principalmente aqueles filmes de horror gótico que Franco cresceu assistindo. MISS MUERTE, por outro lado, moderniza esses elementos e inclui bem-vindos toques de ficção científica, surrealismo e arte moderna na mistura. O resultado é algo único.


A história começa em Holfen, uma cidadezinha dos alpes austríacos, onde o perigoso criminoso Franz Bergen (Guy Mairesse), conhecido como "O Estrangulador de Woodside", escapa de um presídio de segurança máxima na véspera de sua execução.

Numa das primeiras boas surpresas do roteiro, o assassino fugitivo ganha grande destaque nesta cena inicial, com ênfase na sua periculosidade, e tudo leva a crer que será o grande vilão da história. Mas ele logo deixa de ser uma ameaça para tornar-se a primeira vítima, antes mesmo dos créditos iniciais aparecerem! Tudo porque, em meio à fuga, Bergen busca refúgio no laboratório do misterioso Dr. Zimmer (Antonio Jiménez Escribano, que está em vários dos primeiros filmes de Franco).


Embora não seja exatamente malvado (no fundo é bem-intencionado, como todo cientista de filme de horror), Zimmer resolve usar o assassino como cobaia de uma experiência que pretende neutralizar o lado "malvado" da personalidade humana, através de agulhas enfiadas no cérebro (!!!) que emitem ondas de rádio ou coisa que o valha, e que são chamadas de "Raios-Z" pelo cientista.

A experiência funciona e o bandidão fica doce como um cordeirinho, embora transformado num escravo sem vontade própria - praticamente um autômato, que obedece cegamente as ordens do cientista que o "criou".


Feliz com os resultados, o Dr. Zimmer resolve apresentar seus estudos num Congresso de Neurologia que, por coincidência, está sendo realizado na mesma cidade, reunindo a nata dos médicos e pesquisadores desta área.

Só que seus colegas não recebem tais experiências com o mesmo entusiasmo: Zimmer é publicamente humilhado, chamado de charlatão e proibido de continuar as pesquisas. Com o choque, o cientista sofre um infarto fulminante e morre diante da junta médica; antes, porém, pede para que sua filha Irma (a argentina Mabel Karr), que também é médica, leve adiante as suas experiências "na surdina".


A partir daí, desenvolve-se uma história de vingança fora do comum: Irma decide simular a própria morte num acidente de carro (usando o cadáver de uma caroneira que ela mesma matou nos limites da cidade), e depois muda-se para o casarão da família em Hartog, na França, levando consigo o fiel escravo Bergen e a assistente Barbara (Lucía Prado), que foi igualmente lobotomizada pelos Raios-Z.

Na nova cidade, com um novo laboratório montado e pronto para o trabalho, Irma prepara sua vingança contra os três médicos que humilharam e provocaram a morte do seu pai: os doutores Vicas (Howard Vernon), Moroni (Marcelo Arroita-Jáuregui) e Kallman (Cris Huerta). Para chegar até eles e assassiná-los sem levantar suspeitas, a cientista utiliza uma sensual dançarina chamada Nadia (Estella Blain), que realiza um famoso número de dança chamado "Miss Morte" (daí o nome original do filme).


Nadia/Miss Muerte é atraída com a promessa de virar estrela em Hollywood e aprisionada por Irma. Depois de submetida ao mesmo processo com os Raios-Z, sua vontade é anulada e ela passa a obedecer as ordens da vilã - tornando-se, literalmente, a "Miss Morte" do seu número.

E como a dançarina usa longas unhas pontiagudas, que faziam parte da sua personagem no show, a cientista doida resolve adaptá-las para que se transformem em sua arma de vingança, envenenando-as com curare!


O problema é que a bela Nadia tinha um amante, o Dr. Philippe Fraser (Fernando Montés). Ele também é médico, também estava no Congresso em que o Dr. Zimmer morreu e, vejam só que coincidência, também teve um caso recente com Irma. Quando as duas mulheres de sua vida desaparecem ao mesmo tempo em que seus colegas médicos começam a morrer misteriosamente, Fraser desconfia que esses eventos possam estar conectados.

Ao mesmo tempo, uma dupla de policiais começa a investigar os acontecimentos. Eles são os inspetores Tanner e Green (abaixo), interpretados respectivamente pelo próprio Jess Franco e pelo músico francês Daniel J. White, responsável pela trilha sonora do filme, que se tornaria colaborador fiel do diretor pelas próximas três décadas!

Franco não só tem um papel de destaque como ainda funciona como alívio còmico, já que seu investigador passa o filme inteiro meio sonâmbulo: ele não consegue dormir porque sua esposa acabou de dar à luz a trigêmeos!


É curioso que os censores espanhóis que encrencaram com "Al Otro Lado del Espejo" tenham deixado MISS MUERTE passar batido, já que os temas dos filmes até que são bem parecidos. Se no roteiro recusado uma garota assombrada pelo suicídio do pai começa a seduzir e matar os homens com quem se relaciona, aqui temos Irma, a filha cientista assombrada pela morte do pai, usando uma dançarina sensual como arma de vingança para seduzir e matar os homens que julga responsáveis pelo ocorrido. Franco e Carrière mudaram as motivações, mas mantiveram a essência do roteiro recusado - e ninguém percebeu!


Mais do que uma simples história de vingança, MISS MUERTE é um incrível coquetel de referências à cultura pop, em que cada frame exala um clima de filmes B, histórias em quadrinhos ou livros de ficção barata ("pulp fiction"). Apesar de original, o roteiro não esconde sua inspiração no livro "A Noiva Estava de Preto", de Cornell Woolrich, sobre uma garota que se vinga dos homens que considera responsáveis pela morte do seu noivo.

O mesmo livro ganharia uma adaptação oficial e homônima para o cinema três anos depois (1968), dirigida por François Truffaut, e também foi uma das inspirações declaradas de Quentin Tarantino ao escrever "Kill Bill".


Cinéfilos de carteirinha, Jess e Carrière se divertiram muito ao encher o filme de citações e brincadeiras que podem até passar batidas na primeira assistida, como quando um certo "Bresson" telefona para o Dr. Zimmer para contar-lhe sobre a fuga de Bergen da cadeia. O telefonema é atendido por Irma, e, ao passar a mensagem para o pai, ela diz: "Un condamné à mort s'est échappé" (Um condenado à morte escapou). Trata-se de uma referência ao filme "Um Condenado à Morte Escapou" (no original, justamente "Un Condamné à Mort s'est Échappé"), que foi dirigido em 1956 por, adivinhem?, Robert Bresson!


MISS MUERTE também está repleto de citações aos três filmes de terror anteriores de Jess, naquele tipo de auto-referência que a molecada de hoje acha que foi o Tarantino quem inventou. Quando apresenta suas teorias no Congresso de Neurologia, por exemplo, o Dr. Zimmer diz que se inspirou no trabalho do desacreditado Dr. Orloff!

Estas mesmas teorias já haviam sido usadas por outro cientista, o Dr. Fisherman, em "El Secreto del Dr. Orloff". E Howard Vernon, que interpretou o Dr. Orloff em pessoa no filme original de 1961, reaparece aqui no papel de um outro médico - embora dessa vez, ironicamente, como vítima!


As experiências de controle do corpo e da mente para gerar "escravos zumbis" que seguem as ordens de cientistas malvados também já foram vistas antes nestes dois mesmos filmes (e voltariam a aparecer em outros posteriores, como "Cartes sur Table"). Já o fato de o assassino Franz Bergen ser transformado em escravo mudo e obediente de Zimmer e sua filha remetem diretamente a Morpho, o capanga do vilão em "O Terrível Dr. Orloff".

Além disso, a trama se passa em Hartog e Holfen, as duas cidades fictícias criadas por Jess para ambientar "O Terrível Dr. Orloff" (Hartog) e "O Sádico Barão Von Klaus" e "El Secreto del Dr. Orloff" (Holfen). E, caso você não tenha reparado, o policial que investiga os crimes em Hartog provavelmente é o mesmo Inspetor Tanner que foi interpretado por Conrado San Martín em "O Terrível Dr. Orloff", só que agora vivido pelo próprio Franco!


Até mesmo os nomes de duas das vítimas da Miss Muerte são reincidentes na obra do diretor: já existiam Kalmans em "Labios Rojos" (1960) e "O Sádico Barão Von Klaus", e Moronis em "Labios Rojos" e "La Morte Silba un Blues" (1962), além de, posteriormente, em vários outros filmes.

Novamente, também, Franco usou a piadinha do "baseado em livro de David Khune" (um dos seus pseudônimos) nos créditos iniciais, mas obviamente tal livro nunca existiu. E o detalhe de o policial interpretado por ele ter trigêmeos é visto como uma referência aos três filmes de horror que ele dirigiu entre 1961 e 1964, e que seriam os seus "filhos".


Embora ainda traga alguns elementos que remetem ao horror das antigas, tipo o velho castelo para onde Irma e sua trupe se mudam, ou o laboratório cheio de tubos de ensaio soltando fumaça, tudo em MISS MUERTE é modernoso e contemporâneo. Principalmente as aparelhagens usadas pelo Dr. Zimmer (depois herdada pela filha), que não passam de uma caricatura do que se imaginava em matéria de "alta tecnologia" na época.

Um belo exemplo é a máquina que imobiliza as cobaias com dois braços mecânicos, semelhantes a uma aranha gigante, ou ao Dr. Octopus dos gibis do Homem-Aranha. O próprio Jess criou o visual da geringonça, inspirado nas pinças dos caranguejos, e os braços mecânicos eram operados manualmente por pessoas que ficavam fora do frame, numa trucagem bem convincente.


MISS MUERTE foi o filme com maior orçamento que Jess dirigiu até então, o que é perceptível na qualidade (e principalmente na quantidade) dos cenários, nos efeitos melhorzinhos e na quantidade de personagens e de figurantes (nas cenas do congresso médico, por exemplo).

Apesar do título original em espanhol ser curto e eficiente, as cópias para o mercado externo foram rebatizadas como "O Diabólico Dr. Z" (ao lado, o belo pôster norte-americano), para seguir o estilo dos títulos estrangeiros dos outros filmes de terror do diretor, que sempre traziam o nome do grande vilão antecedido por um artigo tipo "Terrível", "Sádico" e, agora, "Diabólico".

O problema é que o "Dr. Z" (no caso, o Dr. Zimmer) mal aparece, e a verdadeira razão de ser da trama é exatamente a Miss Muerte (vai entender porque não usaram "A Diabólica Miss Muerte"!).

A trama criada por Franco e Carrière também presta tributo (mais uma vez) ao filme francês "Os Olhos Sem Rosto" (1960), de Georges Franju, que já havia inspirado "O Terrível Dr. Orloff" quatro anos antes. A exemplo do "horror cirúrgico" de Franju, aqui também há todo um repertório de imagens escabrosas que remetem a procedimentos médicos, como bisturis cortando pele (e o respectivo sangue saindo do ferimento) e agulhas sendo enfiadas no crânio e nas costas das vítimas, sem desviar a câmera ou dar um fade-in para poupar o público mais sensível - e ainda não acostumado a esse tipo de cena mais gráfica.


Porém logo fica claro que o foco do filme não é no segmento "cientista louco" prometido pelas cenas iniciais (e pelo título internacional), e sim na sensual vingadora representada por Nadia/Miss Muerte.

Ela é simplesmente uma das melhores personagens femininas já criadas por Jess Franco, e a maneira como o filme a apresenta é digna de figurar entre os grandes momentos da obra do diretor: o número de dança "moderna" envolve um cenário escuro, uma teia de aranha pintada no chão e a garota se oferecendo sensualmente para um manequim antes de "matá-lo" com suas unhas pontiagudas - depois, ela fará o mesmo com suas vítimas humanas!


Um autêntico fetiche ambulante, Nadia usa uma roupa colante da cor da pele, dando a impressão de que está sempre nua sem estar (para o horror dos temíveis censores espanhóis, que não podiam exigir o corte das suas cenas), e com o desenho de uma gigantesca aranha negra que começa na sua cintura (!!!) e se espalha pelo resto do corpo. Enfim, um visual incrível de vilã de história em quadrinhos, e que já nasceu clássico.

Nadia/Miss Muerte é interpretada pela curvelínea Estella Blain, que está fantástica no papel, representando Nadia como uma autêntica gata selvagem. Inclusive há uma cena que simboliza isso perfeitamente, quando Irma usa uma cadeira para "domá-la" como se fosse um animal selvagem no circo. Infelizmente, a carreira de Estella não deslanchou e teve um fim trágico: na virada do ano de 1981, nos primeiros minutos de 1º de janeiro de 1982, ela suicidou-se com um tiro na cabeça em uma praia francesa. Tinha 51 anos de idade.


Anda que inspirado diretamente nos outros filmes de horror do diretor, MISS MUERTE se tornaria uma referência bastante presente no que ele faria depois - e inclusive traz a primeira referência a lesbianismo (ainda que bem leve) de toda a sua filmografia.

Jess filmou uma nova versão da mesma história no posterior (e superior) "Ela Matou em Êxtase" (1970), eliminando os elementos de ficção científica e colocando Soledad Miranda como a viúva que seduz e mata os colegas do seu falecido marido médico, e que ela considera responsáveis pelo seu suicídio (inclusive Howard Vernon reaparece para tomar o troco pela segunda vez!).


Já a figura da dançarina exótica que é forçada a matar por influências externas reapareceria em vários outros filmes de Franco, como "Pesadelos Noturnos" (1970) e "Necronomicon" (1967).

Neste último, o número de dança apresentado por Janyne Reunald até reutiliza a mesma música do número da Miss Muerte aqui, que também inspirou a performance artística de Soledad Miranda com um manequim em "Vampyros Lesbos" (1970)!


Outro aspecto que se tornaria ainda mais forte nos trabalhos seguintes do diretor é o destaque para as mulheres, que aqui ganham todos os holofotes (e inclusive os dois principais créditos). Não só existe a vilã que é uma verdadeira "Dra. Orloff" (Irma, a cientista malvada), mas ainda a personagem-título, que usa o corpo como arma para matar homens bem mais fortes do que ela - numa das grandes representações do dueto sexo e morte, a partir daqui cada vez mais frequente na filmografia de Jess franco.

Todos os personagens masculinos são ou vítimas, ou figuras secundárias e desinteressantes - incluindo Fraser, o namorado de Nadia que é promovido a detetive por causa da burrice da polícia. No belíssimo final aberto, (SPOILERS) ele recebe um carinho da sua amada de unhas envenenadas, mas o filme termina subitamente, deixando a critério do espectador decidir se Miss Muerte realmente estava sendo carinhosa ou se apenas estava se preparando para arranhá-lo, somando mais uma vítima à sua lista de crimes! (FIM DOS SPOILERS)


Entre diversas curiosidades dos bastidores, a pequena participação não-creditada da atriz espanhola Ana Castor, como a caroneira que é morta por Irma no começo do filme, merece ser explicada: originalmente, Ana havia sido contratada justamente para o papel de Irma, a filha do Dr. Zimmer!

Porém, ao ler o roteiro e descobrir que teria que passar boa parte do filme com pesada maquiagem para simular o rosto deformado (porque a personagem sofre queimaduras na face quando simula a própria morte), a extremamente vaidosa atriz recusou o papel. Para se vingar, Franco colocou Mabel Karr no papel de Irma, e não só deu a Ana uma ponta sem crédito como ainda a "matou" violentamente nos 20 primeiros minutos do filme - e, a partir daqui, a carreira da coitada não foi muito mais longe.


A exemplo de "O Sádico Barão Von Klaus" e diversas outras obras do diretor que não circulam em versões completas, MISS MUERTE também tem uma cena hoje considerada perdida: a tortura do Dr. Moroni. Na versão existente, o médico aparece sendo morto (aparentemente) por gás venenoso no banco de trás de um táxi.

Só que a existência de stills e lobby cards (como este aí abaixo) que mostram Moroni amarrado e amordaçado numa cadeira, e com Miss Muerte se aproximando ameaçadoramente com um punhal na mão, levam a crer que a cena da sua morte seja mais longa, e que o médico tenha sido apenas adormecido pelo gás e então conduzido para uma sessão de tortura!

Pode até ser uma mera foto de divulgação, mas o fato de haver uma cena semelhante de tortura em "Ela Matou em Êxtase", a refilmagem disfarçada de MISS MUERTE, é outra evidência de que talvez exista mais uma cena perdida na filmografia de Jess Franco!


Independente de tal cena perdida, MISS MUERTE é, disparado, o grande trabalho da fase clássica de Franco - não apenas lindo visualmente, mas também muito mais sofisticado e moderno que os anteriores. O próprio diretor, que se referia a todos os seus trabalhos desta fase como "velharias", assumiu que é o seu filme preferido do período.

Visto hoje, ele se assume ainda mais como uma grande brincadeira de cinéfilo, uma história que se passa num universo alternativo e absurdo de cinema (ou quadrinhos, ou "pulp fiction"), com femmes fatales que matam usando longas unhas envenenadas, cientistas loucos que usam agulhas para controlar o cérebro humano e policiais bobalhões que não investigam nada.


Colaboram bastante para criar este clima a impecável direção de arte de Antonio Cortés (que já havia trabalhado no igualmente estiloso "O Sádico Barão Von Klaus") e a fotografia em preto-e-branco de Alejandro Ulloa, que só fez este filme com Jess Franco, mas deixou sua marca num dos filmes mais belos do espanhol.

MISS MUERTE é mais um daqueles trabalhos que mesmo os maiores críticos de Franco podem assistir sem medo, pois em nada lembram o que ele faria a partir dos anos 1970 - e, principalmente, das décadas de 80 em diante (sua fase mais "improvisada").

Também pode ser encarado como um "adeus" do diretor ao passado, ao clima antiquado dos seus três filmes de horror anteriores. É como se eles tivessem sido um treino para este aqui, já que tudo em MISS MUERTE parece renovado e melhorado, mais atual, futurista e original (incluindo aquelas ideias velhas que foram recicladas pelos roteiristas e ganharam uma nova roupagem).


Neste aspecto, o tão criticado diretor espanhol foi visionário, já que outros "fazedores de horror" demoraram mais alguns anos para trazer seus monstros para a modernidade.

Tipo a Hammer, que nos anos 70 colocaria Drácula em histórias contemporâneas e modernosas (como "Drácula no Mundo da Minissaia", de 1972), aposentando os velhos castelos e aquelas histórias que se passavam séculos atrás.

Ou mesmo o clássico "O Abominável Dr. Phibes" (1971), de Robert Fuest, em que Vincent Price também se vinga dos médicos que considera responsáveis pela morte da sua esposa, e com a ajuda de uma sensual ajudante chamada Vulnavia.

Jess Franco, mais uma vez, estava pensando à frente do seu tempo...


Trailer de MISS MUERTE



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Miss Muerte / The Diabolical Dr. Z
(Espanha/França, 1965)

Direção: Jess Franco
Elenco: Estella Blain, Mabel Karr, Fernando Montés,
Howard Vernon, Chris Huerta, Guy Mairesse, Lucía
Prado, Marcelo Arroita-Jáuregui e Jess Franco.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O SÁDICO BARÃO VON KLAUS (1962)


No livro "Guida al Cinema Giallo e Thrilling Made in Italy", os autores Antonio Bruschini e Antonio Tentori enumeram os elementos que compõem o legítimo "giallo" (termo usado para definir aqueles ultra-estilizados filmes de mistério feitos na Terra da Bota): um assassino com luvas negras à solta matando belas garotas de forma violenta; o elemento whodunit?, ou seja, a investigação da identidade do matador, e geralmente por uma pessoa "comum" (não um detetive ou policial); o vilão movido por algum distúrbio psicológico; trabalho de câmera e trilha sonora mais artísticos e exagerados e menos realistas; e, finalmente, ter sido produzido na Itália, é claro!

Assim, Bruschini e Tentori confirmam a opinião praticamente unânime de que "La Ragazza che Sapeva Troppo / The Girl Who Knew To Much" (1963), de Mario Bava, seria o primeiro giallo oficial. Porém, se não fosse por uma das atribuições desta lista dos autores (a de o filme ter sido obrigatoriamente produzido na Itália), um espanhol chamado Jess Franco seria o verdadeiro pioneiro do giallo, graças ao seu filme O SÁDICO BARÃO VON KLAUS!


O SÁDICO BARÃO VON KLAUS foi lançado em 1962, alguns meses antes do filme de Bava chegar aos cinemas de Roma (o que aconteceria apenas em 10 de fevereiro de 1963). Mas já traz todos esses elementos que aparecem em "La Ragazza che Sapeva Troppo", além de outros que só veríamos em filmes posteriores do próprio Mario Bava - como "The Whip and the Body" (1963) e "Blood and Black Lace / Sei Donne per L'Assassino" (1964)! É mole?

Originalmente intitulado "La Mano de un Hombre Muerto", este segundo filme de horror de Franco (novamente assinando como "Jess Frank") é uma óbvia tentativa de capitalizar em cima do sucesso do anterior "O Terrível Dr. Orloff". Inclusive o título internacional, "Le Sadique Baron Von Klaus / The Sadistic Baron Von Klaus", parece ter sido escolhido para não deixar dúvidas de que esta é uma obra do mesmo responsável por "Dr. Orloff".


A exemplo do seu terror anterior, o próprio Jess assinou o roteiro de O SÁDICO BARÃO VON KLAUS, e novamente usou o pseudônimo "David Khunne" e a brincadeira de que o filme teria sido baseado num livro de mentirinha deste autor fictício, chamado "La Main d'un Homme Mort" - sim, Franco sempre foi um verdadeiro fanfarrão!

A trama se passa em Holfen, que supostamente fica nos alpes austríacos, mas é apenas mais uma cidadezinha fictícia criada pelo diretor (assim como a Hartog de "O Terrível Dr. Orloff"). Seus moradores vivem aterrorizados por uma velha maldição, rogada 500 anos antes pelo finado Barão Von Klaus, de que a cada noite de lua cheia seu fantasma despertaria para torturar e matar jovens mulheres do vilarejo - da mesma forma que o libertino aristocrata costumava fazer quando vivo.


Com o tempo, a maldição do "sádico Barão Von Klaus" acabou se transformando numa lenda urbana contada sem muita convicção aos estrangeiros que chegam a Holfen. Inclusive o filme começa com dois caçadores, Angel e Theo (respectivamente Serafin Vázquez e Manuel Alexandre), narrando a história para um visitante, o Dr. Kalman (Angel Menéndez), e para o próprio espectador.

Por ironias do destino, no dia seguinte os próprios Angel e Theo acabam encontrando o cadáver mutilado de uma garota, e é claro que atribuem o assassinato à maldição do Barão Von Klaus! Isso atrai até a cidade um investigador da cidade grande, o Inspetor Borowsky (Georges Rollin), e também o jornalista Karl Steiner (Fernando Delgado).


As suspeitas recaem sobre a família Von Klaus, que ainda vive num velho castelo nas margens da cidade. Ali, o descendente direto do barão maldito, Max Von Klaus (Howard Vernon), cuida da irmã moribunda, Elisa (Maria Francés). Logo também aparecem seu jovem sobrinho, Ludwig (Hugo Blanco), acompanhado pela noiva Karine (Paula Martel), já que a velha Elisa está prestes a bater as botas.

Nos próximos dias, o corpo de uma segunda jovem, que estava desaparecida, é encontrado igualmente mutilado no pântano; e Ludwig recebe da tia à beira da morte a chave que abre uma porta fechada há centenas de anos no calabouço do castelo, e que dá acesso à velha câmara de tortura de Barão Von Klaus (afinal, onde já se viu um velho castelo de filme de horror sem câmara de tortura?).

Qual a relação entre esses acontecimentos? E quem será o misterioso assassino de chapéu, roupa preta e luvas negras que passa a dizimar o elenco feminino noite após noite?


Fotografado em belíssimo preto-e-branco pelo mesmo Godofredo Pacheco de "O Terrível Dr. Orloff" (um dos melhores diretores de fotografia com quem Franco trabalhou em sua longa carreira), O SÁDICO BARÃO VON KLAUS se desenvolve como um típico giallo, apesar de - repetindo - não ser uma produção italiana.

Enquanto o misterioso maníaco sexual ataca e mata belas garotas (usando como arma uma bela adaga com centenas de anos de idade), e o representante oficial da lei, que é o Inspetor Borowsky, se perde no emaranhado de pistas falsas e múltiplos suspeitos, caberá ao jornalista Steiner a responsabilidade de descobrir "por fora" a identidade do matador, como é frequente nos thrillers italianos.


Jess desfila um amplo repertório de imagens já conhecidas e referências a filmes e livros de mistério, da silhueta do assassino aparecendo na janela de uma vítima em potencial a ambientações tipo velhos castelos com câmara de tortura (tem até um esqueleto de plástico pendurado na parede!), cemitérios, as ruas desertas do vilarejo à noite e pântanos.

Mas é interessante constatar que, a exemplo de "O Terrível Dr. Orloff", O SÁDICO BARÃO VON KLAUS está numa fase de transição entre o horror gótico/clássico dos velhos filmes da Universal (e suas imitações), que abusavam dos castelos, cemitérios e teias de aranha, e um horror mais moderno, entre o macabro de "Psicose" (1960) e a escatalogia de "Banquete de Sangue" (1963). Afinal, o vilão aqui não é um vampiro, lobisomem e nem um cientista louco, como o Dr. Orloff, e sim um monstro bem humano, porém degenerado, que mata suas vítimas com requintes de crueldade.


Também a exemplo do que fez em "O Terrível Dr. Orloff", o diretor parece disposto a provocar a rígida censura espanhola do período, ao ultrapassar os limites do que era permitido mostrar na telona.

Um ano antes do clássico de Mario Bava "The Whip and the Body" (1963), em que Christopher Lee aparecia chicoteando uma seminua Daliah Lavi, O SÁDICO BARÃO VON KLAUS já tem cena semelhante evocando sexo e sadomasoquismo, mas consideravelmente mais forte, e talvez por isso reservada para o ato final do filme.


Esta cena inclusive é o ponto alto, e foi cortada das cópias exibidas na Espanha por motivos óbvios (que atendem pelo nome de General Francisco Franco). Primeiro, o assassino arrasta uma jovem vítima (interpretada pela argentina Gogó Rojo) para a masmorra do castelo dos Von Klaus, onde aproveita o fato de ela estar desacordada para despi-la. Ela então volta a si, mas o vilão a tranquiliza... praticando sexo oral na moça!!!

É isso aí, você não leu errado: em pleno ano de 1962, num filme de horror e não-pornográfico, é representada uma cena de sexo oral deixando bem pouco para a imaginação do espectador, com direito à jovem atriz com os seios de fora e até um plano fechado da sua expressão de prazer ao atingir o orgasmo! Por muito menos que isso (uma cena de banho que não mostra praticamente nada), "Psicose" criou a maior polêmica apenas dois anos antes!


Terminada a putaria, ao invés de acender um cigarrinho ou virar pro lado e dormir, o vilão é dominado pelos seus impulsos violentos e começa a chicotear sua vítima violentamente. Finalmente, arrasta a desfalecida garota e a acorrenta, ainda seminua, ao teto da masmorra, agora para torturá-la usando um ferro em brasa!

Ainda que o desfecho desta cena (a tortura com a ferramenta incandescente) seja off-camera, vamos lembrar, mais uma vez, em que época O SÁDICO BARÃO VON KLAUS foi filmado: imagine o impacto provocado no público quando aquele filme de mistério chatinho de repente se transforma num show de sadismo (quase) sem censura, com uma garota seminua sendo chupada, chicoteada e torturada durante longos minutos! Transgressor, para dizer o mínimo!


Esta também pode ser considerada uma das primeiras investidas de Jess no terreno das fantasias sadomasoquistas do Marquês de Sade, um autor que reapareceria inúmeras vezes em sua filmografia, principalmente a partir do final da década de 70 - começando com citações em "Necronomicon" e finalmente uma adaptação oficial de obra do autor, "Santuário Mortal", em 1968.

O próprio Barão Von KIaus parece ter sido inspirado no próprio Sade, já que um diário escrito por ele, e encontrado na câmara de torturas pelo seu jovem descendente Ludwig, revela seus devaneios sádico-eróticos que lembram muito a filosofia do Marquês: "Espero que essas memórias sejam usadas pelos meus descendentes como um guia, uma iniciação em um mundo apaixonante de sensações raras e desconhecidas, um mundo sedutor e trágico construído de dor e de sangue, do trágico erotismo de todos os sentidos, que finalmente termina em morte". 


Obviamente, a cena gerou polêmica no lançamento e foi extirpada de várias montagens: a versão lançada na Espanha, por exemplo, não continha nem sexo oral, nem chicoteamento, nem tortura (tudo isso acontecia off-screen). E quando o cadáver da moça torturada era encontrado na masmorra por Steiner, uma camisa cobria os seios nus da atriz, no tipo de take alternativo que Franco acostumou-se a gravar para não ter problemas com os censores.

A versão completa do filme foi considerada perdida até meados dos anos 2000, quando a Image lançou nos Estados Unidos o DVD com uma edição quase completa. Infelizmente, ainda falta uma cena inicial pré-créditos que, segundo relatos de pesquisadores, traz elementos que antecedem tanto o Bava de "Blood and Black Lace" e "Banho de Sangue" (1971) quanto os filmes slasher da década de 1980 ("Sexta-feira 13" e outros).

(Mas, antes que digam que Bava plagiou Franco, é bom lembrar que O SÁDICO BARÃO VON KLAUS só estreou nos cinemas italianos em 1966, com o título "Sinfonia per un Sadico".)



Tal cena pré-créditos, que é considerada um autêntico Santo Graal para os fãs da fase clássica de Jess Franco, mostraria o assassino observando e atacando duas garotas à margem de um lago, numa situação que lembra bastante os slashers pós-"Sexta-feira 13" - até porque, ao contrário do que acontece no restante do filme, desta vez o vilão também aparece mascarado!

Por sinal, estas duas moças são aquelas cujos cadáveres aparecem mais adiante no filme, então o prólogo explica quem são e como foram mortas. Agora é torcer para que esta cena reapareça ainda nesse século...


Sem este prólogo, o que resta em O SÁDICO BARÃO VON KLAUS é um filme de mistério tecnicamente e visualmente competente, mas bem chatinho e enrolado, com mais cenas investigativas do que "horroríficas".

O grande momento é a cena sadomasoquista na masmorra, que só acontece no final, então o restante do tempo é preenchido com looooooongos interrogatórios do Inspetor Borowsky e inúmeras pistas falsas que não fazem a menor diferença, já que a verdadeira identidade do assassino pode ser facilmente adivinhada, até pelo espectador mais distraído, ainda na meia hora inicial do filme.


Dando um desconto para a história fraquinha, o que resta é mais um filme caprichado da fase clássica de Franco, sem os excessos e barbeiragens que ele demonstraria ao longo da sua carreira, e com momentos de deixar qualquer cinéfilo de bom gosto com o queixo caído - como a cena em que Steiner persegue o assassino em fuga por becos escuros cheios de sombras até um macabro cemitério fotografado à noite.

O diretor faz ótimo uso da fotografia em Cinemascope, compondo quadros cheios de elementos nas laterais, incluindo sombras ameaçadoras que crescem como uma ameaça invisível sobre os personagens. O preto-e-branco também cria um clima onírico, já que as cenas ficam incrivelmente brancas à luz do dia (por causa da neve que recobre a cidade) e opressivamente escuras durante a noite.


Mesmo assim, ele não deixa de cometer algumas das suas tradicionais barbeiragens, rendendo momentos involuntariamente engraçados, como aquele em que um personagem caminha durante uma tempestade de neve no plano médio, mas alguns segundos antes e alguns segundos depois, quando a edição corta para o plano geral, não aparece um único floquinho de neve caindo do céu! A nevasca provavelmente começou e terminou enquanto Franco fazia os planos mais fechados do ator, e ele achou bonito e resolveu usar de qualquer jeito, mesmo não havendo tempestade de neve nos outros takes da mesma cena (abaixo)!!!


Entre os pontos fracos, além do ritmo titubeante, está a principal personagem feminina, interpretada por Paula Martel, que é bem fraquinha e não chega aos pés de Wanda em "O Terrível Dr. Orloff". Até porque não foge do estereótipo de mocinha frágil em perigo, sempre gritando ou parecendo mortalmente aterrorizada (e a atriz exagera um pouco nas caras e bocas).

Como uma espécie de precursora das futuras garotas imbecis da série "Sexta-feira 13", a "heroína" também protagoniza um momento em que foge do assassino pela floresta e fica tropeçando e caindo o tempo inteiro, para dar chance de o vilão conseguir se aproximar dela! E com quilômetros de floresta para fugir, ela prefere "se esconder" atrás de uma árvore e virar alvo fácil para o assassino, comprovando que, pelos próximos 20 ou 30 anos, personagens femininas em filmes slasher não aprenderam absolutamente nada!


Geralmente um grande ator nos filmes do amigo Jess, até Howard Vernon aparece apagado aqui: interpretando o grande suspeito dos crimes, Max Von Klaus, Vernon passa o tempo todo agindo de maneira suspeita e fazendo cara de louco, esquecendo que sua interpretação como Dr. Orloff era eficiente justamente porque não caía nesse tipo de caricatura e estereótipo.

(SPOILERS) Felizmente, Franco não foi estúpido o suficiente de colocar Howard Vernon pela segunda vez como vilão, e é claro que a presença do ator aqui é apenas para tentar engambelar o espectador e afastar suas suspeitas do verdadeiro assassino - embora, como eu já tenha dito, é muito fácil identificar a identidade do verdadeiro autor dos crimes. (FIM DOS SPOILERS)


Depois de dois filmes de espionagem ("La Morte Silba un Blues" e "Rififi en la Ciudad", respectivamente em 1962 e 1963) e de um "quase western" ("El Llanero", de 1963), Jess voltaria ao território do horror, e do seu filme mais famoso, em "El Secreto del Doctor Orloff", de 1964. Mas ao invés de cair na armadilha de ressuscitar o personagem, Franco usa seu nome apenas no título, pois o filme enfoca as teorias do Dr. Orloff, e não o próprio em carne e osso.

Por fim, antes de dar um tempo no gênero para dedicar-se a outros projetos mais popularescos, Jess assinou o fantástico "Miss Muerte" (1965), conhecido nos EUA como "The Diabolical Dr. Z", que é praticamente um apanhado de tudo o que ele fez no campo do horror/suspense desde 1961 e "O Terrível Dr. Orloff", fechando com chave de ouro a chamada "fase clássica" do diretor.


E mesmo que este O SÁDICO BARÃO VON KLAUS seja o mais fraquinho da leva, pode funcionar para quem curte o ritmo mais lento - e focado no visual e no clima - dos filmes de horror de antigamente.

Também é interessante para fãs do cinema de horror italiano, que podem constatar como Franco foi visionário ao antever diversas ideias (narrativas e visuais) que o cinema giallo abordaria ao longo das décadas de 60 e 70.


No fim, Jess Franco pode até não ter inventado o giallo; este mérito é do mestre Mario Bava, e com muita justiça. Mesmo assim, o espanhol comprovava desde esses seus primeiros filmes que era um cineasta bem à frente do seu tempo. Já está valendo.



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La Mano de un Hombre Muerto /
Le Sadique Baron Von Klaus
(Espanha, 1962)

Direção: Jess Franco
Elenco: Hugo Blanco, Paula Martel, Fernando
Delgado, Howard Vernon, Gogó Rojo, Georges
Rollin, Ana Castor e Turla Nelson.