WebsiteVoice

terça-feira, 8 de abril de 2014

O TERRÍVEL DR. ORLOFF (1961)


Eu nunca pensei que agradeceria à censura por alguma coisa, mas eis que esse dia chegou! Acontece que, se não fosse pelos censores espanhóis, O TERRÍVEL DR. ORLOFF, primeiro filme de horror dirigido por Jess Franco, provavelmente não existiria - e Jess Franco provavelmente não seria "o" Jess Franco que hoje conhecemos!

No começo dos anos 1960, o jovem Franco já tinha dirigido quatro filmes, sendo uma comédia ("Tenemos 18 Años", 1959), um policial ("Labios Rojos", 1960) e dois musicais ("La Reina del Tabarín" e "Vampiresas 1930", ambos de 1960). Os quatro filmes foram rodados na Espanha por um rapaz que - vejam só que ironia - pouco tempo antes havia sido expulso da faculdade de cinema!

Só que fazer cinema na Espanha estava cada vez mais difícil, pois se intensificava a ditadura imposta pelo General Francisco Franco (que durou entre 1939 e 1976). Jess já havia tido problemas com seu filme de estreia, "Tenemos 18 Años", quando a censura encrencou com uma cena envolvendo um prisioneiro fugitivo. Mas ele não podia imaginar o que viria a seguir.


Acontece que o jovem Jess Franco era um grande admirador de cineastas "de arte", como o francês Jean-Luc Gordard e o italiano Michelangelo Antonioni. Ainda em busca de um estilo próprio, almejava se tornar um diretor "sério" como seus ídolos. Por isso, seu próximo projeto seria uma adaptação do livro "La Rebelión de los Colgados", do escritor anarquista B. Traven (o mesmo autor de "O Tesouro de Sierra Madre", e cuja verdadeira identidade até hoje é um mistério).

O problema é que "La Rebelión de los Colgados" conta a história de trabalhadores escravizados numa fazenda do México que se rebelam contra seus patrões; ou seja, o tipo de trama incentivando o levante popular que o pessoal que estava no poder não queria que você contasse durante uma ditadura!


Cabeçudo como todo jovem cineasta, Jess levou o projeto adiante, mas esbarrou nos censores. Numa entrevista de 2009 ao blog El Franconomicon, ele relatou o que aconteceu: "Foi uma armadilha desde o início. O Ministério não me disse 'não' no início, apenas me trataram como se eu fosse um garotinho, perguntando se eu realmente queria me envolver com aquilo e coisas assim. No fim, o projeto foi aprovado. Eu tinha co-produção espanhola e francesa, um elenco já contratado, tudo parecia estar certo. Mas então, alguns dias antes do começo das filmagens, eu recebi uma notificação oficial dizendo que o filme estava proibido. Furioso, resolvi fazer outro filme imediatamente, um que não incomodasse tanto aqueles filhos da puta!".

Em busca de ideias para o tal novo filme, o diretor e os dois produtores franceses que bancariam o projeto (Marius e Daniel Lesoeur, da Eurociné) acabaram num cinema de Paris, em plena sessão de "Noivas do Vampiro" (1960), de Terence Fisher - um horror inglês produzido pela Hammer.


Durante a sessão, Franco teve um estalo: disfarçado num contexto de horror e fantasia, o filme inglês contava a história de pessoas comuns "oprimidas" por nobres em posição de privilégio (e vampiros, claro, mas isso não vem ao caso). "E os censores não poderiam dizer nada porque não havia política envolvida", lembrou, na mesma entrevista ao El Franconomicon.

Foi assim que ele resolveu fazer GRITOS EN LA NOCHE, que seria conhecido fora da Espanha como O TERRÍVEL DR. ORLOFF - "L'Horrible Dr. Orlof" na França e "The Awful Dr. Orloff" nos EUA, embora existam títulos alternativos bizarros como "The Demon Doctor" (na Inglaterra) e "Il Diabolico Dr. Sattana" (na Itália)!

(Talvez Jess não soubesse, talvez sim, mas o livro de B. Traven que ele pretendia filmar já tinha sido adaptado para o cinema em 1954, numa produção mexicana dirigida por Alfredo B. Crevenna e Emilio Fernández, que foi lançada no Brasil como "A Revolta dos Torturados".)


Como o projeto anterior que foi proibido estava em pré-produção, com os atores e equipe técnica já contratados, Franco e os produtores resolveram reaproveitá-los em O TERRÍVEL DR. ORLOFF, o que pode ajudar a explicar a sofisticação deste primeiro filme de horror do diretor, que seria a pedra fundamental de praticamente tudo que ele faria depois.

O próprio Jess escreveu o roteiro; mas, para dar um pouquinho mais de "sofisticação" à produção, usou pela primeira vez seu pseudônimo "David Khune", ao colocar um crédito falso no início informando que o filme é baseado num livro inexistente deste autor inexistente. Por ironia, alguns críticos da época, querendo posar de entendidos, escreveram em suas resenhas que o filme era "bastante fiel" ao livro de Khune! Como sempre, o peixe morre pela boca...


A cena inicial de O TERRÍVEL DR. ORLOFF já é puro Jess Franco: na (fictícia) cidadezinha francesa de Hartog do começo do século 20 (o ano é 1912, segundo algumas fontes), uma mulher embriagada cambaleia até sua casa numa noite escura, belissimamente fotografada em preto-e-branco, e ao som de uma trilha inspirada em jazz, uma das grandes paixões do diretor (aqui creditado com o nome americanizado de "Jess Frank").

Chegando ao seu quarto, ainda atrapalhada pelo torpor alcoólico, a garota se prepara para dormir; mas, quando abre a porta do guarda-roupa, se depara com um homem de olhos bizarros, que imediatamente salta de lá de dentro e a ataca. O homem é Morpho (Ricardo Valle), um assassino cego que está sendo controlado pelo terrível Dr. Orloff do título (Howard Vernon) para conseguir jovens cobaias para as suas experiências!


Orloff, que é uma mistura de médico e cientista louco, frequenta cabarés e inferninhos da cidade para escolher suas vítimas (selecionadas pela maciez da sua pele), seduzindo-as com falsas promessas românticas. Quando as moçoilas estão fisgadas, Morpho entra em ação e faz o serviço sujo.

Tudo porque uma experiência do passado conduzida pelo médico/cientista saiu errado e acabou desfigurando o rosto da sua própria filha, Melissa. A partir de então, o único objetivo de vida do amargurado Dr. Orloff é reconstituir o rosto da garota, através de enxertos de pele que retira - adivinhe? - das pobres garotas de vida fácil que seduz e mata!


Os misteriosos desaparecimentos em Hartog são investigados pelo Inspetor Tanner (Conrado San Martín), mas ele não tem muitas pistas além de descrições vagas tanto de Morpho quanto do Dr. Orloff. Até porque a maior parte da cidade não está dando a mínima para o desaparecimento daquelas garotas de "moral discutível" (no pouco de crítica social que Franco conseguiu incluir na história sem incomodar os censores).

O policial é noivo de Wanda (Diana Lorys), uma bailarina que está preocupada com o fato de as investigações do amado não chegarem a lugar nenhum. Ela resolve ajudá-lo, sem que ele saiba, disfarçando-se de dançarina de cabaré para tentar atrair o Dr. Orloff a uma armadilha. O problema é que a moça é muito parecida com Melissa (a mesma atriz interpreta as duas personagens), colocando-a no topo da lista de futuras vítimas do vilão.


O TERRÍVEL DR. ORLOFF confirma não apenas o talento de Jess Franco como diretor (para o horror dos seus críticos), mas também seu enorme conhecimento cinematográfico e de cultura popular, já que o filme é um verdadeiro caldeirão das referências mais diversas: dos clássicos de horror da Universal ao Expressionismo Alemão; dos thrillers de mistério de John Brahm aos horrores baratos de Roger Corman; das "pulp fictions" de Edgar Wallace às histórias em quadrinhos.

Uma das influências mais óbvias é o clássico francês "Olhos Sem Rosto" ("Les Yeux Sans Visage", 1960), de Georges Franju, que também tem um médico/cientista louco arrancando rostos de belas vítimas para tentar reconstruir a face da filha deformada.

Mas não pára por aí: o médico que controla um assassino cego para cometer crimes remete tanto ao livro "The Dark Eyes of London", de Edgar Wallace, quanto ao clássico alemão "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920), de Robert Wiene - Morpho inclusive lembra um pouco Cesare, o sonâmbulo controlado pelo Dr. Caligari.


Logo, o primeiro filme de horror de Franco também pode ser visto como um grande catálogo de imagens e situações clássicas do gênero, com velhos castelos e suas câmaras de tortura, onde garotas seminuas enfrentam horrores na tênue linha entre o que os censores da época permitiam ou não mostrar; cemitérios, covas abertas e caixões; belas moças sendo perseguidas por maníacos, e por aí vai.

Não falta nem a icônica imagem do "monstro" (Morpho) carregando nos braços o corpo desfalecido de uma de suas vítimas, ou o laboratório/sala de cirurgia repleto de reluzentes instrumentos cortantes - elementos que, sem demora, se tornariam lugar comum do gênero.


Quando escrevi que O TERRÍVEL DR. ORLOFF seria a pedra fundamental de tudo que Jess Franco faria depois, eu não estava exagerando: as bases sobre as quais o diretor construiria seus filmes posteriores já podem ser percebidas aqui, especialmente na maneira como ele junta horror e sensualidade, sexo e morte, beleza e repulsa.

A personagem principal é uma mulher forte e decidida (a bailarina Wanda acaba encontrando o Dr. Orloff, e não seu noivo investigador que está completamente perdido e não consegue ver as pistas debaixo do seu nariz); o vilão, um sádico e pervertido que ataca belas mulheres. Os demais personagens são garotas de má reputação, bêbados e boêmios, sendo que o representante da lei (o Inspetor Tanner) é a figura mais desinteressante do filme.


Franco revisitou O TERRÍVEL DR. ORLOFF várias vezes, seja em pseudo-continuações/refilmagens (como "El Secreto del Dr. Orloff, "The Sinister Eyes of Dr. Orloff" e "El Siniestro doctor Orloff"), seja reaproveitando o mesmo argumento - notoriamente em "Jack The Ripper" e "Sem Face", sendo que este último conta outra história de médico louco roubando rostos alheios, dessa vez com a violência quintuplicada.

Porém o caso mais curioso é "Revenge in the House of Usher" (1987): quando os produtores não gostaram da versão original de Franco (lançada em 1983), forçaram o diretor a usar cenas de O TERRÍVEL DR. ORLOFF como se fossem flashbacks do passado de Usher, já que o personagem também é interpretado por um envelhecido Howard Vernon! Picaretagem nível máximo!


Enfim, o Dr. Orloff transcendeu os limites deste seu filme de estreia, aparecendo inclusive em produções de outros diretores, como "El Enigma del Ataúd" (1967), de Santos Alcocer, e "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible / The Invisible Dead" (1970), de Pierre Chevalier, sempre interpretado por Howard Vernon.

Não é difícil de entender o porquê do sucesso: o Dr. Orloff é uma daquelas figuras macabras criadas sob medida para virar ícones do horror, embora ainda seja mais popular na Europa do que no restante do mundo, e nunca tenha atingido a mesma popularidade de outros "doutores" do gênero - tipo Caligari ou Phibes.

O sobrenome sonoro e marcante tem diferentes origens, dependendo de quem conta a história: há quem sustente que é uma corruptela do sobrenome do mito Boris Karloff; outros dizem que é uma homenagem ao Dr. Orloff interpretado por Bela Lugosi em "O Monstro Humano" (1939), filme inspirado em - ahá! - no livro "The Dark Eyes of London", de Edgar Wallace!


Howard Vernon, um ator que infelizmente nunca teve o devido reconhecimento e fez parte da trupe de Jess Franco até o final da vida, brilha como o desequilibrado médico/cientista que realmente acredita que não está fazendo nada de errado ao matar jovens mulheres "de vida fácil" para tentar dar um novo rosto à sua filha - e Vernon representa esse misto de loucura e maldade com certo charme e lucidez.

A apresentação do vilão é simbólica, com Vernon seduzindo uma nova vítima num camarote escuro, ela banhada por um facho de luz, ele encoberto pela escuridão, mas com seus olhos sinistros brilhando como os de um predador analisando sua presa!


Já Morpho, o assassino cego que o Dr. Orloff usa para cometer os crimes em seu lugar, foge um pouco do estereótipo do "criado demente" dos filmes da época, e é apresentado como uma figura quase trágica - apesar da maquiagem tosca dos seus olhos "vazados", cujo propósito até hoje eu não consegui entender, provocar algumas risadas involuntárias.

O fato de ele não enxergar rende algumas cenas bem tensas, quando Morpho localiza suas vítimas pela sua respiração ofegante. No restante do tempo, o Dr. Orloff guia seu assecla pelo som, batendo sua bengala no chão para que ele siga os ruídos.


Os ataques de Morpho às pobres vítimas são representados como um misto de vampiro (ele inclusive usa uma capa preta e, à primeira vista, parece morder o pescoço das moças) e maníaco sexual (numa cena cortada na edição espanhola do filme, Morpho arranca o vestido de uma garota em fuga e aperta os seus seios desnudos!).

Porém, por baixo do monstro se esconde um homem em busca da humanidade, que demonstra afeição primeiro com Arne (Perla Cristal), a criada de Orloff, e depois com a própria Wanda, quando ela é aprisionada pelo cientista.

Assim como aconteceu com o Dr. Orloff, capangas dementes chamados Morpho começariam a aparecer em diversos outros filmes de Franco, de "Vampyros Lesbos" a "Dracula Contra Frankenstein", assim como criaturas com olhos deformados (lembra do "monstro canibal" com bolinhas de pingue-pongue no lugar dos olhos de "Manhunter - O Sequestro"?).


Considerando que O TERRÍVEL DR. ORLOFF é apenas o quinto filme de Jess Franco, e o seu primeiro de horror, o jovem espanhol apresenta incrível domínio da narrativa e das fórmulas do gênero, tanto que brinca com as expectativas do espectador e o surpreende o tempo inteiro.

A história começa com uma impactante cena de horror (a descoberta de Morpho dentro do armário e seu ataque à primeira vítima devem ter provocado muitos sustos nas audiências da época), e depois vira uma tradicional história de mistério e investigação. Porém, quando o espectador já se sente confortável com aquela narrativa detetivesca que lhe é bem familiar, Franco volta a assombrá-lo com mais uma sequência de choques e momentos de puro horror totalmente originais, principalmente o ato final no castelo do Dr. Orloff.


O TERRÍVEL DR. ORLOFF também e pode e deve ser usado como "calaboca" instantâneo naqueles cinéfilos que rechaçam tudo que tem o nome "Jess Franco" por conhecerem apenas o pior da filmografia do diretor espanhol.

Isso porque o visual dos filmes desta fase clássica de Jess, fotografados em preto-e-branco pelo espanhol Godofredo Pacheco, é simplesmente fantástico (veja alguns exemplos nas imagens abaixo). Melhores, inclusive, que o de muitas produções "classe A" da mesma época.


Volta-e meia vaza alguma barbeiragem típica de um diretor que fazia tudo na corrida e muitas vezes sem repetir takes (como a sombra da câmera em destaque sobre os atores no momento em que o Dr. Orloff entra numa carruagem com uma das primeiras vítimas). Mas ninguém pode negar o capricho da fotografia e dos enquadramentos.

Além de apresentar ruas escuras com neblina e/ou chuva, calabouços iluminados por velas, cemitérios à noite e cabarés tomados pela fumaça de cigarros, Franco e Pacheco criam alguns belíssimos momentos de puro horror gótico, como quando Orloff e Morpho carregam o caixão com uma vítima desacordada em seu interior a caminho do castelo do vilão (abaixo). Mostre essas imagens para algum amigo cinéfilo xaropão, para ver se ele vai adivinhar de quem é o filme (aposto que "Jess Franco" é o último nome que ele vai chutar).


Um subterfúgio que se tornaria tradicional na obra do diretor é o fato de ele ter fillmado duas versões diferentes de O TERRÍVEL DR. ORLOFF, com mais ou menos putaria, temendo a censura em seu país. Consta que até a ambientação da trama na França foi para escapar da pentelhação dos censores, que talvez não gostassem de uma história de horror passada na Espanha - este é considerado o primeiro filme de terror espanhol de todos os tempos.

Felizmente, a versão internacional - produzida originalmente para o mercado francês, e com créditos e diálogos neste idioma - é a mais conhecida. Ela tem 10 minutos a menos que a edição espanhola, porque foram suprimidos vários trechos da parte "investigativa" da trama, dando mais ênfase ao horror e à ação (a relação completa do que foi cortado, com fotos, pode ser vista aqui). Em compensação, a versão internacional tem mulher pelada, ao contrário daquela mais longa exibida na Espanha.


As cenas alternativas mostram o já citado momento em que Morpho apalpa os seios desnudos de Wanda durante uma perseguição (foi usada uma dublê de corpo, ou de peitos, já que a atriz Diana Lorys recusou-se a aparecer pelada), e uma sequência curiosa em que o Dr. Orloff opera uma das vítimas (Mara Lasso), cortando-a com o bisturi entre os seios desnudos (abaixo).

Se chamo esta sequência de "curiosa", é porque até então o vilão usava apenas a pele do rosto das suas vítimas - ou seja, ele está obviamente cortando no lugar errado! Mas é lógico que a inclusão de tal momento de nudez gratuita demonstra que Franco conhecia o público melhor do que muitos outros diretores de horror da época. Em mais alguns anos, todo filme de terror barato seria praticamente obrigado a mostrar cenas de nudez parecidas e tão gratuitas quanto esta.


Enquanto o resto do mundo via a versão "sensual" de O TERRÍVEL DR. ORLOFF, na Espanha o público tinha um filme um pouquinho mais longo, que mostrava mais momentos da investigação do Inspetor Tanner - o que acaba se revelando redundante, já que é Wanda quem resolve sozinha o mistério!

E a polêmica cena da garota nua na mesa de operações não existe na versão espanhola, onde o Dr. Orloff corta a pele da vítima "no lugar certo" - ou seja, no rosto. Toda a cena é diferente, inclusive nos ângulos e movimentos de câmera: começa com o vilão anestesiando a vítima, e passa para um belo travelling que segue o reluzente bisturi do vilão até o rosto da vítima (abaixo).

Curiosamente, a conclusão da versão espanhola é um pouquinho mais longa e diferente: mostra o Inspetor Tanner encontrando Jeannot (Faustino Cornejo), um bêbado que lhe ajudou durante a investigação, e oferecendo-lhe um trabalho na polícia - que, obviamente, o esperto boêmio recusa!


O TERRÍVEL DR. ORLOFF foi um grande sucesso de público na época do seu lançamento, além de a primeira obra do diretor a ser lançada fora da Europa. Inclusive nos Estados Unidos, onde chegou apenas em 1964 e foi exibida num programa duplo (prática comum com filmes B na época) com a produção italiana "The Horrible Dr. Hichcock" (1962), de Riccardo Freda. Inclusive a grafia "Orloff", com dois Fs no final, começou nos EUA e se popularizou - originalmente, era "Orlof".

A crítica não foi tão generosa e condenou alguns dos excessos de Franco, que foram considerados "sadismo gratuito" do outro lado do oceano. Uma crítica publicada no New York Times na época da estreia norte-americana, naquele programa duplo com o filme de Freda, é hilária: "Finalmente os adjetivos usados nos títulos não são apenas descritivos, mas também apropriados" (se referindo às expressões "Terrível" e "Horrível" no nome dos filmes).


Mas Jess Franco não pôde se queixar, já que o sucesso de O TERRÍVEL DR. ORLOFF carimbou seu passaporte para novos voos. "Foi um sucesso incrível", lembrou o diretor, em entrevista ao site El Franconomicon. "A partir daquele momento, só me chamavam para fazer filmes de terror. É por isso que eu digo que não terem me deixado filmar '[La Rebelión de] Los Colgados' acabou determinando todo o resto da minha carreira".

Logo depois deste, Franco engatou uma sequência de três filmes de horror feitos praticamente um após o outro (uma prática que também se tornaria recorrente na sua filmografia), entre 1962 e 1965. A análise destes filmes comprova que Jess sabia exatamente o que estava fazendo, e que seu primeiro trabalho no gênero não foi apenas sorte de principiante: "O Sádico Barão Von Klaus" (1962) é fraquinho, mas atualmente não circula em versão completa; "El Secreto del Doctor Orloff" (1964) revisita as teorias do seu personagem mais famoso, e o fantástico "Miss Muerte" (1965) é outra evidência de um grande talento em formação.


Embora a fase mais lembrada do diretor seja aquela que mistura horror com surrealismo e erotismo - iniciada com "Necronomicon / Succubus", no final dos anos 1960 -, é sempre um prazer conhecer as origens de Jess e estes horrores classudos da sua fase clássica, que ficam muito acima da média do que se fazia no gênero naquele período, e podem até ser considerados visionários em diversos elementos.

E isso só não vê quem não quer - ou seja, aqueles que conhecem e julgam Jess Franco apenas por dois ou três filmes da sua pior fase, e acham que o seu nome é sinônimo de desleixo e picaretagem. Felizmente, O TERRÍVEL DR. ORLOFF continua por aí, eterno, para fazer muita gente morder a língua!

Por isso, mais uma vez: obrigado, senhores censores espanhóis! Se não fosse por vocês, talvez Jess Franco não tivesse se transformado neste diretor legal e sem vergonha na cara que fez experimentos em todos os gêneros! Pela primeira vez na história, a censura serviu para alguma coisa, afinal...


PS 1:
Uma jovem Marisa Paredes aparece em pequena participação, neste que é um dos seus primeiros créditos como atriz. Exatamente meio século depois, em 2011, já alçada à categoria de atriz-fetiche do diretor espanhol Pedro Almodovar, ela integrou o elenco de "A Pele que Habito", outra história sobre médicos loucos e experiências envolvendo transformações corporais - mas é claro que poucos críticos "profissionais" fizeram essa comparação...

PS 2: Um jovem Jess Franco faz ponta como pianista de cabaré, perto do final do filme (tente reconhecê-lo numa das imagens desta resenha, com o indefectível cigarrinho na boca...).


Trailer de O TERRÍVEL DR. ORLOFF



***********************************************************
Gritos en la Noche / L'Horrible Dr. Orlof
(1961, Espanha/França)

Direção: Jess Franco
Elenco: Howard Vernon, Conrado San Martín,
Diana Lorys, Ricardo Valle, Perla Cristal, Maria

Silva, Mara Lasso e Faustino Cornejo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

LA SOMBRA DEL JUDOKA CONTRA EL DOCTOR WONG (1984)


Nos anos 1980, de volta à Espanha após um exílio voluntário para escapar da ditadura do General Franco, Jess Franco iniciou uma parceria com a Golden Films International, para quem dirigiu - pelo menos até onde se sabe - 19 filmes dos mais diversos gêneros. Ele tinha total liberdade garantida pelo produtor Emilio Larraga (que não se importava com a história e nem com a qualidade dos filmes, desde que eles ficassem prontos para distribuição), mas orçamentos bem apertados e equipes cada vez mais reduzidas.

Os termos dessa parceria colocaram o velho Jess numa espécie de zona de conforto, fazendo com que ele perdesse o pouco de vergonha na cara que ainda tinha. E assim, para a Golden Films, o diretor realizou algumas das maiores picaretagens da sua numerosa filmografia, como aquela que atende pelo espalhafatoso título de LA SOMBRA DEL JUDOKA CONTRA EL DOCTOR WONG!!!


Infelizmente, LA SOMBRA DEL JUDOKA... é um daqueles títulos raros da filmografia de Jess. Nunca foi lançado em VHS (e muito menos em DVD/blu-ray) em nenhuma parte do mundo, e por isso hoje só circula numa cópia de baixíssima qualidade que foi gravada da TV espanhola sabe-se lá em que década, e em espanhol sem legendas. Para piorar, esta única cópia disponível parece ser a quinta ou sexta gravação feita a partir da fita original, e está quase inassistível (como você pode perceber pelas imagens desta resenha).

Fica difícil avaliar um filme nessas condições, pois é complicado até de enxergar o que se passa durante as cenas mais escuras. Mesmo assim, eu não queria deixar essa atrocidade de fora da MARATONA JESS FRANCO, considerando que é uma daquelas hilárias presepadas que só alguém muito cara-de-pau (como o Franco da década de 80) faria.


Em primeiro lugar, esta é única contribuição do cineasta espanhol para o ciclo "brucesploitation", aquelas produções vagabundas que exploravam o vazio deixado pela morte do astro Bruce Lee, e estreladas por imitadores que convenientemente se chamavam Bruce Le ou Bruce Li para tentar engambelar os espectadores desavisados (lembre-se que estamos falando de uma época sem IMDB e com pouquíssimas fontes de pesquisa sobre estas produções mais obscuras).

O problema é que Jess nunca foi um diretor conhecido pela sua habilidade para filmar cenas de ação. Ou pelo menos não ESSE tipo de ação, se é que vocês me entendem. Então como é que ele se saiu no comando de uma aventura de artes marciais "brucesploitation", mas rodada na Espanha ao invés de em Hong-Kong ou Taiwan?


Bem, é possível que o próprio Franco tivesse noção das suas limitações como diretor de ação. Por isso, em LA SOMBRA DEL JUDOKA... ele preferiu brincar de Godfrey Ho - aquele maluco que fazia filmes de ninjas a partir de cenas de outras produções sem ninjas, lembra?

Para não quebrar a cabeça pensando em como coreografar artes marciais, Jess simplesmente pegou um filme oriental já pronto ("Nu Ying Xiong Fei Che Duo Bao / Seven To One", de 1973), retirou umas cenas e as enxertou no "seu" filme. Simples, não?

Infelizmente, a tal aventura pronta (pôster original ao lado) era estrelada por uma garota (Lingfeng Shangguan), que, na trama, buscava vingança pelo assassinato do seu pai. Ou seja, Franco ainda precisava colocar um Bruce Lee na história para ser um legítimo "brucesploitation"!

A solução foi chamar para o papel principal um jovem ator espanhol, José Llamas, que já havia trabalhado em outros filmes de Jess. Llamas nem oriental era, mas mesmo assim ganhou um novo nome artístico somente para este filme: "Bruce Lyn"!!!

Só havia um "pequeno" problema: o Bruce Lyn de Jess não sabia porcaria nenhuma de artes marciais, e mal conseguia caminhar de forma convincente, quem dirá lutar! Mas tudo bem, o diretor nem se importou com isso e tocou o projeto do mesmo jeito, buscando salvá-lo com as cenas enxertadas do tal filme oriental, e torcendo para ninguém perceber. Deu certo? Ora, é claro que não - e isso talvez explique porque o negócio foi tão mal distribuído!


LA SOMBRA DEL JUDOKA... tem uma trama sem pé nem cabeça escrita pelo próprio Franco (que assina roteiro e direção com seu tradicional pseudônimo "Clifford Brown", em homenagem ao trompetista de jazz homônimo). E se não bastasse acumular tantas funções, Jess ainda reservou para si o papel de grande vilão, o Dr. Wong do título.

Como quase tudo que diz respeito à filmografia do diretor, o ano exato em que ocorreram as filmagens ainda é um mistério - até pela mania que Jess tinha de rodar diversas produções uma atrás da outra, ou ao mesmo tempo. As informações variam conforme a fonte, mas, pelo que pude apurar, o filme teria sido produzido em 1982 e lançado apenas em 1984 (segundo o livro "Obsession: The Films of Jess Franco") ou 1985 (segundo o IMDB).


Espécie de sátira do Fu Manchu (Jess dirigiu dois filmes com o personagem no final dos anos 60, "The Blood of Fu Manchu" e "The Castle of Fu Manchu", ambos estrelados por Christopher Lee), o Dr. Wong é um megalomaníaco gênio do crime que está traficando heroína de Hong-Kong para os Estados Unidos dentro de inocentes bonequinhas.

Para dar a entender que o personagem é oriental, Franco passa o filme inteiro com os olhos meio fechadinhos (!!!) e trocando o "R" pelo "L". Fica bem claro, desde sua primeira cena, que ele não está levando a coisa a sério, ao contrário dos outros atores.


A CIA e a Interpol estão de olho no tal gênio do crime e querem arruinar seu império da droga. Para isso, as duas agências enviam seus melhores homens a Hong-Kong (na verdade, as Ilhas Canárias, na Espanha!).

Por parte da Interpol, temos os agentes Philip Morris (será uma homenagem à famosa fabricante de cigarros, já que Franco era um fumante inveterado?), interpretado por Daniel Katz, e sua parceira Maggie (Lina Romay); já por parte dos ianques, temos o invencível Bruce (!!!), muito possivelmente o pior "clone de Bruce Lee" já inventado!

O que Wong e seus capangas não sabem é que Bruce treinou os segredos mais obscuros das artes marciais e tem o dom sobrenatural de dar vida à sua própria sombra (!!!), que não pode ser atingida e muito menos ferida pelos inimigos, mas ao mesmo tempo desfere golpes bem sólidos contra eles!


Sucedem-se perseguições de carro, traições, alguma sacanagem bem light e muito papo furado. Mas incrivelmente, para um filme que se pretende aventura de artes marciais (e legítimo "brucesploitation"), as lutas são poucas e muito mal dirigidas, de forma que LA SOMBRA DEL JUDOKA... será uma experiência realmente penosa para quem for assistir em busca de ação.

O quesito nudez feminina é garantido com as participações de Lina Romay e de María del Carmen Nieto, aqui usando o pseudônimo "Lia Kaplan" (e não seu tradicional "Mamie Kaplan"). Para quem não lembra, as duas moçoilas dividiram cenas também em "La Mansión de los Muertos Vivientes", entre outras produções dirigidas por Franco na época. María del Carmen interpreta uma assecla do Dr. Wong chamada "Ojos de Miel", que, obviamente, é enviada para seduzir o herói.


A melhor coisa de LA SOMBRA DEL JUDOKA..., e que garante algum interesse a esse filme tosquíssimo em todos os níveis, é a ideia do herói que pode usar a própria sombra para lutar em seu lugar.

Lá pelas tantas, aparecem uns flashbacks (que são cenas tiradas de um outro filme oriental, esse não-identificado) com um velho mestre ensinando Bruce a usar esse poder sobrenatural: "Com a meditação, você pode dominar a matéria com o poder da mente. Concentrando o seu espírito, você pode dar vida à sua sombra".


Não sei exatamente o que Jess havia tomado (ou fumado) quando inventou isso, mas é uma ideia absurdamente genial, principalmente pelo ridículo da coisa toda: ver "atores" adultos tentando bater numa sombra refletida na parede, e fingindo que apanham dela, é algo tão inacreditável quanto hilário!

Pena que o poder de Bruce seja sub-aproveitado. Um sujeito que consegue usar a sombra para bater nos inimigos seria virtualmente invencível (já que os rivais não conseguem "ferir" a sombra), mas o herói só utiliza este dom duas vezes ao longo do filme. E, quando não o faz, apanha que nem cachorro dos inimigos! Numa das cenas de arquivo tiradas de outro lugar, o tal mestre diz para Bruce usar seu poder apenas em último caso, e isso teoricamente justifica o seu uso esporádico. Então tá...


Como já foi dito (escrito), o "Bruce Lyn" de Franco não sabia lutar porcaria nenhuma, e portanto todas as cenas em que ele "luta" por conta própria, sem apelar para a sombra, são de chorar de tão ruins. Ciente das limitações, o diretor preferiu filmar lutas rápidas, que mal duram o som de um "Iááááá!" do verdadeiro Bruce Lee - ou, como li em uma resenha menos elegante em espanhol, "as lutas duram o som de um peido".

O problema é que, na pós-produção, Franco triplicou o tempo de duração dessas lutas rápidas ao colocá-las em câmera lentíssima, embora elas não sejam nem emocionantes, nem bem coreografadas para merecer esse tratamento! Vá entender...


Se o pobre José Llamas não luta nada, tampouco o fazem os figurantes que "interpretam" os capangas do Dr. Wong. Até porque, segundo algumas resenhas, estes figurantes teriam sido recrutados em restaurantes chineses da Espanha (!!!), e só estão no filme porque têm os olhinhos puxados, e não exatamente por seus dons como lutadores.

Os únicos momentos em que LA SOMBRA DEL JUDOKA... apresenta algo minimamente parecido com artes marciais são nas cenas dos filmes orientais pirateadas por Franco. O problema é que esta inserção foi feita sem muito critério: lá pelas tantas, atores orientais aparecem se espancando sem que se saiba quem são ou por que motivo estão brigando, e depois desaparecem da narrativa sem cerimônia, simplesmente porque fazem parte de outro filme (e tenho certeza que, lá neste outro filme, eles tinham algum bom motivo para lutar!).


A exemplo do que Godfrey Ho fazia em Hong-Kong, Jess pegou diversas cenas com a atriz Lingfeng Shangguan em "Seven to One" (acima) e transformou-a em "Tai Lin", suposto contato de Bruce em Hong-Kong na nova história que escreveu. Claro que os dois personagens nunca chegam a contracenar, pois obviamente não fazem parte do mesmo filme.

Mesmo assim, graças à magia da edição e da redublagem, Tai Lin aparece em vários momentos da trama "observando" Bruce ou lamentando a morte de uma outra personagem do filme de Franco! Como eu sempre digo também sobre os filmes de Godfrey Ho e Bruno Mattei, estas picaretagens todas deveriam ter exibição obrigatória em faculdades de cinema, para ensinar aos alunos o verdadeiro poder da edição.


Inclusive o momento mais escalafobético de LA SOMBRA DEL JUDOKA..., e o mais belo exemplo do citado poder da edição, ocorre quando Llamas, nas cenas gravadas por Franco, "luta" com um oriental anônimo em cenas tiradas de outro filme produzido lá em Hong-Kong!!!

É uma daquelas coisas que só vendo para crer (abaixo), porque Llamas "luta" desferindo golpes diretamente contra a câmera no plano, e então a edição corta para o contraplano do tal ator oriental de outro filme "levando" os golpes desferidos por alguém que nem está na mesma produção! Se isso não é o que chamam de "magia do cinema", eu sinceramente não sei o que é...


No fim, a melhor coisa de LA SOMBRA DEL JUDOKA... (além da ideia da sombra que luta no lugar do corpo físico do herói, claro) é a cara-de-pau do pôster de cinema, que traz um desenho do verdadeiro Bruce Lee vestindo seu lendário macacão amarelo dos tempos de "O Jogo da Morte"! Se eu tivesse visto esse pôster na porta de um cinema na época, não pensaria duas vezes em ver o filme.

O resto é muito ruim, mesmo para os (baixos) padrões de Franco nesta época. Ressalte-se, entretanto, que a cópia assistida é realmente sofrível e não permite avaliar decentemente o filme. Talvez ele pareça melhor com imagem e som decentes, como muito western spaghetti que eu vi em cópias ruins nos tempos do VHS e depois me surpreendi ao rever em versões decentes em DVD. Por isso, se um dia aparecer alguma cópia boa desta tranqueira, eu me comprometo a reassistir e rever meu veredicto.


Mas e quanto ao Dr. Wong? Bem, o vilão escapa na conclusão do filme sem sofrer um único arranhão, com direito a ameaça: "O mundo ainda ouvirá falar do Dr. Wong. E muito!". Sabe-se lá se Jess realmente tinha a intenção de fazer novas aventuras com ele ou se quis apenas usar o típico clichê do "vilão que promete voltar para a vingança".

Demorou um pouco, mas o vilão realmente voltou, e mais uma vez interpretado por Franco, no terrível em todos os sentidos "Dr. Wong's Virtual Hell", em 1999, uma das muitas porcarias que o diretor fez na sua fase vale-tudo, quando filmava direto em vídeo digital e sem orçamento. Triste fim para o pobre Dr. Wong...


Já José Llamas, ou "Bruce Lyn", não teve muito futuro como clone de Bruce Lee depois de LA SOMBRA DEL JUDOKA... Não sem motivo, este é o seu único trabalho como "lutador de artes marciais". Depois de mais alguns filmes "normais", Llamas acabou virando ator pornô, aparecendo inclusive em algumas obras para o público adulto dirigidas em parceria por Jess Franco e Lina Romay!

Adotando um novo nome artístico, Pepito Tiésez, o ator estrelou títulos como "Las Chuponas" e "El Ojete de Lulú" (sendo que "Ojete", para quem não sabe, é uma palavra de baixo calão em espanhol para o orifício anal). Depois de algum tempo fazendo essas produções adultas, Llamas sumiu do mapa. Somente muitos anos depois descobriu-se que ele tinha morrido por complicações decorrentes da Aids, em data desconhecida (provavelmente ainda no final dos anos 1980).

Triste fim para o Bruce Lee espanhol, que certamente foi mais convincente fazendo amor como "Pepito Tiésez" do que fazendo guerra como "Bruce Lyn"..



***********************************************************
La Sombra del Judoka Contra el Dr. Wong
(1984, Espanha)

Direção: Jess Franco (aka Clifford Brown)
Elenco: José Llamas (aka Bruce Lyn), Jess Franco,
Lina Romay, María del Carmen Nieto (aka Lia Kaplan)

e Lingfeng Shangguan (em cenas de outro filme).