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domingo, 6 de abril de 2014

O MASSACRE DOS BARBYS (1996)


A década de 1990 não foi das melhores para Jess Franco.

Por aqueles anos, vários dos seus antigos colaboradores começaram a morrer, incluindo seu ator-fetiche Howard Vernon, seu antigo produtor Karl Heinz Mannchen e os compositores Daniel J. White e Bruno Nicolai.

Houve também uma mudança de mercado: se antes os filmes classe Z que ele vinha dirigindo encontravam espaço em pequenos cinemas de bairro, a partir dos anos 90 essas obras não conseguiam mais exibição e começaram a sair direto em vídeo (algumas mal foram distribuídas fora da Europa).

Para piorar, na virada das décadas, Franco quebrou o pau com seus financiadores mais antigos (os irmãos Marius e Daniel Lesoeur, da produtora francesa Eurociné), durante a pós-produção do insosso drama de guerra "La Chute des Aigles / Fall of the Eagles" (1990), que se tornaria seu último trabalho para a empresa - e um dos mais fracos, apesar do curioso elenco que reunia Christopher Lee e Mark Hamill!

Assim, depois de mais dois filmes rodados a muito custo na Espanha e co-produzidos pelo próprio diretor, um deles nunca finalizado e nunca lançado ("La Jungla del Miedo", de 1994, inspirado no conto "O Escaravelho de Ouro", de Edgar Allan Poe), a carreira de Jess teve um hiato de dois anos sem trabalhar, entre 1994 e 1996 - algo inacreditável para alguém que, nos bons tempos, fazia de cinco a oito filmes POR ANO.

Parecia que o velho Jess Franco, então com 66 anos de idade, estava destinado a uma aposentadoria forçada...


É nesse ponto que entra na história uma banda punk espanhola chamada The Killer Barbies, fundada em 1994 (coincidentemente o ano em que Jess parou de filmar) por Silvia Superstar (Silvia García Pintos, na certidão de batismo) e Billy King (nome verdadeiro: Antonio Domínguez), respectivamente vocalista e baterista do grupo.

Seguindo uma proposta pouco original que já vinha sendo desenvolvida por bandas bem mais famosas (como Misfits e White Zombie), a The Killer Barbies se inspirava no cinema de horror classe B e na cultura trash dos filmes da Troma e de John Waters para fazer seus figurinos e músicas - que têm títulos como "They Come From Mars", "Family is Chainsaw" e "I Wanna Live in Tromaville".


Não se sabe exatamente como Jess Franco tomou conhecimento da existência da The Killer Barbies, já que ele não me parece um sujeito que teria afinidade com a cena punk independente espanhola da década de noventa.

Seja como for, o diretor ouviu o primeiro CD da banda ("Dressed to Kiss", 1995) e resolveu que iria encaixá-los no projeto que estava preparando justamente para sair da aposentadoria. Assim nasceu KILLER BARBYS, rebatizado O MASSACRE DOS BARBYS no Brasil. O nome da banda foi alterado apenas no título, de "Barbies" para "Barbys", para evitar problemas judiciais com a Mattel, a empresa fabricante da famosa boneca.


O roteiro que o próprio Franco já vinha preparando não tinha nada a ver com bandas de punk rock: era sobre turistas que erravam o caminho e iam parar no tradicional castelo sinistro. Quando a The Killer Barbies entrou na jogada, Jess adaptou a trama para encaixar a própria banda no lugar dos anônimos turistas.

Assim, os Barbies ganharam uma distinção normalmente reservada a bandas e cantores bem conhecidos (para citar alguns exemplos: Beatles, Kiss, Ramones, Roberto Carlos, Alice Cooper ou Spice Girls), que é a de estrelar um filme próprio "interpretando" eles mesmos!


Acabou sendo um bom negócio para ambos. Jess Franco conseguiu voltar ao mercado, pois a participação de uma banda razoavelmente conhecida na Espanha e países vizinhos atraiu um novo público que não estava interessado nas presepadas que ele vinha filmando nos últimos tempos.

Para os Barbies, foi não só a oportunidade de fazer um filme com um diretor cult que admiravam, mas ainda uma incrível auto-promoção, já que a banda aparece no palco e "atuando", e suas músicas tocam o filme inteiro. Uma delas, "Love Killer", chega a repetir cinco vezes, pelo menos enquanto eu ainda estava contando!


O MASSACRE DOS BARBYS começa com um show da banda, que aparece com dois de seus integrantes reais (Silvia e Billy) e outros três fictícios, o baixista Mario (Charlie S. Chaplin, que, segundo a lenda, seria parente distante de Charles Chaplin), o guitarrista Rafa (Carlos Subterfuge) e a go go dancer Sharon (Angie Barea).

A vocalista gracinha aparece cantando apenas de biquíni, e a banda toca duas músicas bem curtinhas (punk rock, sabe como é...), sendo que uma delas é a tal "Love Killer". Prepare-se para decorar a letra ("I love you / I love you / I gonna kill you tonight!") antes da metade do filme, de tanto que ela vai tocar pela próxima meia hora...


Depois do show, o grupo cai na estrada, em sua van personalizada, rumo a uma cidade próxima, onde farão apresentação no dia seguinte. Porém, como O MASSACRE DOS BARBYS é um filme de horror, é claro que os músicos vão pegar um atalho suspeito no meio da madrugada e acabar numa estrada deserta, onde eventualmente a van apresentará problemas.

É quando aparece um homem bem vestido e solícito chamado Arkan (o veterano Aldo Sambrell), que oferece comida e um teto para os Barbies (ou "Barbys") passarem a noite enquanto esperam a chegada do mecânico no dia seguinte.


A maior parte da banda aceita o convite - eles podem se declarar fãs de horror, mas pelo jeito não aprenderam nada nos filmes que viram! -, enquanto dois deles, Rafa e Sharon, preferem ficar na van transando sem parar.

Arkan leva os músicos restantes até um casarão típico de filme de terror, com muita neblina do lado de fora e diversos objetos de cena bem suspeitos do lado de dentro (incluindo quadros antigos e sinistros). Ali mora a misteriosa Condessa Von Fledermaus (palavra alemã para "morcego"), que, segundo Arkan, é uma mulher muito doente e vive acamada.


Pelo restante da noite, os músicos ficarão zanzando pelo interior do casarão falando e fazendo idiotices, enquanto Arkan e um excêntrico aliado, Baltasar (o ator-diretor cult Santiago Segura, de "O Dia da Besta" e da série "Torrente"), planejam o anunciado "Massacre dos Barbys" do título em português.

Acontece que a tal Condessa Von Fledermaus descobriu o segredo para a vida e juventude eternas: uma mistura de sangue e esperma retirados direto da fonte! E adivinhe quem serão os próximos "doadores"?


O resultado desta autêntica brincadeira musical é bastante irregular: O MASSACRE DOS BARBYS tem mais cara de ser um grande videoclipão ou music video em que alguém resolveu colocar uma história para enrolar entre uma música e outra - como se você pegasse o famoso clipe "Thriller", do Michael Jackson, e filmasse uma hora adicional com personagens fazendo e falando bobagem antes da música começar.

Sendo Jess Franco um grande fã de música, e ele mesmo um músico (tocava piano e trompete semi-profissionalmente), é bem vagabunda a forma como o som da The Killer Barbies é aproveitado no filme. Embora a própria banda apareça como protagonistas, raramente eles são vistos cantando ou tocando; a música simplesmente toca no fundo das cenas, de maneira repetitiva e sem muito critério.


Como se fosse um autêntico videoclipe, há um distanciamento muito grande (talvez proposital, talvez não) entre a banda e tudo que acontece com eles. Jess não parece muito inspirado e simplesmente vai jogando na tela os elementos e clichês mais diversos (vampirismo, vida eterna, slasher movies, casarão sinistro, canibalismo, direção de arte bizarra e até anões!), torcendo para o conjunto dar certo no final.

Mas não dá tão certo assim, já que não há um mínimo de tensão ou suspense, e o filme demora uma eternidade para começar a engrenar. Sem saber o que fazer com seus protagonistas, Franco precisa enrolar do jeito que dá: a interação entre os Barbies é mínima, e deles com os outros personagens menor ainda. Por isso, o espectador não consegue criar qualquer vínculo com os personagens ou se importar com o que vê. E há erros infantis dignos de Ed Wood, tipo noite que vira dia e vice-versa.


Chega um ponto em que O MASSACRE DOS BARBYS começa a se tornar arrastado e realmente estúpido. Por exemplo, há uma cena em que o casal que trepa na van é espionado por Baltasar e seus anões, mas eles não fazem nada além de espiar. Aí os namorados resolvem sair da van e caminhar até o casarão para encontrar os amigos. Finalmente, o mesmo casal volta para a van (de onde só saiu para esticar a história) e RECOMEÇA A TREPAR, quando finalmente são atacados e mortos por Baltasar e Arkan! É mole?

Aliás, considerando que o grande plano dos vilões é matar os jovens desde o começo para alimentar a Condessa, demora uma eternidade para que algo nesse sentido finalmente aconteça, pois Arkan prefere deixar os protagonistas à vontade para zanzar pela casarão, tomar banho, dormir, mexer na mobília, e até os convida para jantar! Mata logo enquanto eles estão separados, caramba!


Jess nunca foi considerado um cineasta "gore", e tem pouquíssimos filmes realmente sangrentos/violentos no seu currículo ("Jack The Ripper", "Bloody Moon" e "Sem Face" são os principais representantes da categoria).

O MASSACRE DOS BARBYS felizmente traz uma boa dose de violência explícita e efeitos de maquiagem, com cabeças cortadas, cérebros arrancados e corpos pendurados em ganchos de carne. Nem todos os efeitos são convincentes, mas já é alguma coisa.


Na época do lançamento de "Arraste-me para o Inferno" (2009), de Sam Raimi, muito foi dito sobre uma cena em que a fantasma é atingida na cabeça por uma bigorna, e como isso remetia ao clima absurdo dos desenhos animados. Houve até quem chamasse Raimi de "gênio" por causa da cena, embora eu ache o filme bem meia-boca.

Pois O MASSACRE DOS BARBYS já traz uma brincadeira semelhante com o universo dos desenhos animados mais de dez anos antes de Raimi e sua bigorna, que é quando Billy King mata um dos vilões atropelando-o com... um rolo compressor?!? E não me pergunte onde foi que o sujeito encontrou um rolo compressor, o que importa é que Franco mostra até o cadáver achatado e ensanguentado da vítima depois do atropelamento, como se fosse uma versão da Troma para um desenho dos Looney Tunes!


Além da violência, Jess não perde a oportunidade de pelar a mulherada. Só a estrelinha Silvia Superstar aparentemente não quis fazer cenas de nudez - o que é irônico, já que ela posa o tempo todo de liberal e sex symbol. Mas o diretor compensa colocando-a sempre com as roupas mais curtas possíveis, e ela também passa toda a metade final correndo pra lá e pra lá apenas de calcinha vermelha e blusa cortada em cima do umbigo.

As outras duas mulheres do elenco não regulam: a go go dancer interpretada por Angie Barea inclusive protagoniza uma das grandes cenas do filme, quando é perseguida por Baltasar e Arkan e precisa correr completamente pelada pela floresta, vestindo apenas botas prateadas!


A grande surpresa é a nudez da terceira representante feminina de O MASSACRE DOS BARBYS, que é a própria Condessa Von Fledermaus, interpretada por... Mariangela Giordano! Caso não tenha caído a ficha, Mariangela é uma veterana atriz italiana que já havia mostrado o corpão em clássicos do cine-podreira dos anos 70-80 como "Patrick Vive Ancora", de Mario Landi, e principalmente "Burial Ground", de Andrea Bianchi, em que protagoniza uma famosíssima cena em que tem o seio arrancado a dentadas pelo próprio filho zumbificado!

À época das filmagens, a atriz já estava com 59 anos. Porém, sem nenhuma frescura, Mariangela comprova que continua em forma e aparece peladona frente e verso, dando um banho nas duas "molequinhas" com quem divide os créditos. Se a tal poção da juventude eterna utilizada pela Condessa do filme realmente existe, então Mariangela Giordano certamente a conhece!


No fim, O MASSACRE DOS BARBYS passa longe de ser um grande filme (e mesmo de um memorável), mas acho que vale simplesmente por reunir tanta gente boa e diferente num mesmo projeto - Franco, os Barbies, Sambrell, Santiago Segura e, claro, a deusa Mariangela Giordano. Definitivamente, não é o tipo de coisa que se vê todos os dias.

Também é legal ver os músicos entrando no espírito da coisa, se sujando de sangue falso e até aparecendo com pouca roupa. Isso me lembrou a hilária participação da banda punk Offspring em "A Mão Assassina" (1999), quando o vocalista Dexter Holland tem seu escalpo arrancado pela dita cuja.


Apesar de ter recebido um lançamento limitado nos cinemas (foi o último filme de Franco na telona até 2013 e "Al Pereira Vs. the Alligator Ladies"), o resultado não chegou a dar o esperado upgrade na carreira de Jess. Inclusive este foi um dos últimos filmes que ele rodou em película, junto com o posterior "Tender Flesh", de 1997.

A partir de 1998, Franco começaria a sua fase mais fraquinha (que durou até sua morte, em 2013), quando gravou mais de 20 filmes em vídeo digital, com produção paupérrima, para lançamento direto em DVD. Pouco ou nada de bom saiu dali, e o diretor abandonou a narrativa convencional para entregar-se a produções mais experimentais e pouco memoráveis.


Jess e os Barbies voltariam a trabalhar juntos nessa fase negra, em "Killer Barbys vs. Dracula", filmado em 2002. Se O MASSACRE DOS BARBYS já tinha cara de music video, este segundo trabalho assume-se como um: simplesmente mostra cenas de um show da banda enquanto um ator vestido como Drácula fica zanzando pelo cenário. Sem contar que todas as cenas foram filmadas de dia e depois "escurecidas" através de um efeito digital vagabundo. O único mérito de "Killer Barbys vs. Dracula" é trazer no elenco outro veterano do cinema italiano, Peter Martell (nome de batismo: Pietro Martellanza), que era astro nos tempos do western spaghetti e estava completamente esquecido. Ele faleceu em 2010.


Embora passe longe de ser um filme bom, O MASSACRE DOS BARBYS é, provavelmente, o último trabalho assistível de Jess Franco, antes da sua prolixa fase experimental e de bombas tipo "Lust for Frankenstein" (1998) e "Dr. Wong's Virtual Hell" (1999). Visto com pouca ou nenhuma expectativa, pode divertir e até surpreender.

Se não pela história cheia de clichês e lugares comuns, pelo menos pela presença da The Killer Barbies, sua vocalista gracinha e seu "punk rock pop" divertido e grudento. É realmente muito difícil não sair cantarolando "Love Killer" depois das inúmeras vezes que a música toca, e o refrão "I love you / I love you / I gonna kill you tonight!" acaba sendo mais memorável que o próprio filme!

PS: Lina Romay, esposa e musa do diretor, assina a edição.


Trailer de O MASSACRE DOS BARBYS



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Killer Barbys (1996, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: The Killer Barbies, Aldo Sambrell, Santiago
Segura, Mariangela Giordano, Pepa López, Alberto
Martínez, Carlos Subterfuge e Angie Barea.

sábado, 5 de abril de 2014

CARTES SUR TABLE (1966)


Das ironias do mundo do cinema: no começo dos anos 1960, quando Harry Saltzman e Albert R. Broccoli decidiram adaptar para o cinema as aventuras de James Bond escritas por Ian Fleming, ouviram um "não" de dezenas de estúdios, diretores e atores. Mas foi só o "O Satânico Dr. No" (1962) sair, e revelar-se um grande sucesso de bilheteria, para que todo mundo começasse a correr atrás do atraso, tentando faturar em cima da febre.

Após o sucesso de "007 Contra Goldfinger" (1964), produtores italianos, espanhóis e franceses (principalmente estes) deram início à realização em escala industrial de cópias das aventuras de James Bond, num ciclo que ficou conhecido como "Eurospy". E tome agentes secretos com códigos numéricos: "A 001, Operazione Giamaica" (1965, dir: Ernst R. von Theumer), "Agent 077 - From the Orient with Fury" (1965, dir: Sergio Grieco), "A 008, Operation Sterminio" (1965, dir: Umberto Lenzi), "Agente X 1-7: Operazione Oceano" (1965, dir: Tanio Boccia), "Agente 3S3: Passaporto per l'inferno" (1965, dir: Sergio Sollima), as diversas aventuras francesas do agente OSS 117 (que é ANTERIOR ao "O Satânico Dr. No"), e por aí afora.


E o que Jess Franco tem a ver com o pastel?

Bem, inicialmente ele foi uma vítima da febre, já que um thriller de espionagem que dirigiu em 1962, chamado "La Morte Silba un Blues" e sem nenhuma relação com James Bond, acabou sendo lançado pelos distribuidores franceses com o título "Agent 077: Opération Jamaïque" (veja abaixo).

Até o ator principal deste filme, Conrado San Martín, ganhou um nome artístico americanizado, "Sean Martin", remetendo tanto a Sean Connery quanto a Dean Martin (que, na mesma época, interpretava Matt Helm, outro espião famoso adaptado para o cinema).

Repare na "pequena alteração" nos cartazes e no nome do astro!

Em 1965, que provavelmente foi o ano do pico da produção dos Eurospies, Jess também ganhou uns trocos para reescrever seu roteiro de "La Morte Silba un Blues" como uma aventura de espiões mais popular, que se transformou na aventura ítalo-franco-espanhola "Da 077: Intrigo a Lisbona", dirigida por Tulio Demicheli.

No ano seguinte, foi a vez do próprio Franco aventurar-se pelo ciclo. Numa tacada só, rodou três filmes de espionagem em tom de farsa, que não se levavam muito a sério, e ao mesmo tempo reciclavam e parodiavam clichês das aventuras de James Bond, Matt Helm, Derek Flint e suas imitações. O primeiro, que nos interessa no momento, foi CARTES SUR TABLE (1966), e os demais são "Residencia para Espías" e "Lucky, El Intrepido" (estes lançados em 1967). Nos anos seguintes, ele ainda faria mais algumas produções nessa linha.


Tanto CARTES SUR TABLE ("Cartas na Mesa", em tradução literal) quanto "Residencia para Espías" foram estrelados pelo norte-americano Eddie Constantine (1913-1993), que, na época, era um super-astro na França. Constantine já era um cantor bastante popular quando estreou no cinema, e caiu nas graças do público francês ao estrelar aventuras do detetive Lemmy Caution, um personagem criado pelo escritor inglês Peter Cheyney.

Seu primeiro filme no papel do herói foi "Brotinho Venenoso" ("La Môme Vert de Gris", 1953), e depois Constantine faria mais 12 filmes e dois episódios de série de TV interpretando Lemmy Caution, sendo que dois deles eram "filmes de arte" dirigidos por Jean-Luc Godard ("Alphaville", de 1965, e "Allemagne 90 Neuf Zéro", de 1991).


Em CARTES SUR TABLE, Constantine interpreta o espião Al Pereira, criação do próprio Franco - cujo nome é uma homenagem ao diretor de arte de Hollywood Hal Pereira, que trabalhou em clássicos como "Os Brutos Também Amam", "A Guerra dos Mundos" e diversos filmes de Alfred Hitchcock. Vale lembrar que, no áudio original francês, o sobrenome é pronunciado como "Pehehá" (para facilitar, o nome foi alterado para "Al Peterson" na dublagem em inglês).

A história começa com vários assassinatos de líderes religiosos e políticos ao redor do mundo, sempre cometidos por meio de ataques praticamente suicidas realizados por misteriosos matadores de pele acobreada e usando óculos. Quando um deles é preso pela polícia, não fala coisa com coisa; ao recolocar os óculos, entretanto, torna-se agressivo e tenta fugir, sendo baleado e morto.


É quando a Scotland Yard descobre que o homem havia desaparecido dois anos antes em Alicante, na Espanha. E, assim como outras pessoas que sumiram sem deixar pistas naquela mesma região, tem um fator sanguíneo bastante raro chamado "Rhesus Zero", o equivalente a O positivo e negativo ao mesmo tempo!

(Não precisa ser formado em Medicina para saber que não existe tal coisa, mas os roteiristas precisavam de alguma anomalia científica para justificar a escolha dos candidatos a matador, conforme veremos mais adiante. Saiba, portanto, que é preciso fechar um olho para o fator realismo ao encarar o filme, se é que alguém realmente espera realismo em uma aventura dessas...)


Acreditando que todos esses fatores têm uma relação, a Scotland Yard resolve recrutar o único de seus espiões que tem o tal sangue raro, para investigar o que acontece em Alicante.

O candidato em questão é Al Pereira; só que, sem que ele saiba, seus superiores resolvem mandá-lo para a Espanha numa missão falsa, esperando que ele seja sequestrado, como os demais desaparecidos, enquanto outros agentes secretos mais habilidosos seguem a pista dos vilões! Sacanagem, não?


Sem desconfiar de nada, Pereira pega seus gadgets à la James Bond e parte para a Espanha, onde descobrirá, quase sem querer, que os tais assassinos são pessoas comuns transformadas em autômatos, controlados por sinais de rádio enviados pelos óculos que usam. O responsável por isso é o típico cientista louco de filmes do 007, Sir Percy (Fernando Rey), e somente quem tem o raríssimo fator "Rhesus Zero" pode passar pelo processo de transformação (ah, bom...).

Para complicar um pouquinho a história, Pereira também é recrutado "à força" por uma quadrilha de chineses, liderada por Lee Wee (Vicente Roca), que tem grande interesse no tal sistema de controle cerebral. Como todo bom agente secreto, o herói também se envolverá com todo tipo de femme fatales, incluindo a dançarina Cynthia Lewis (a francesa Sophie Hardy), que pode ser um agente duplo.


Como a maioria dos trabalhos da "fase clássica" de Jess Franco, CARTES SUR TABLE pode ser surpreendente para quem só conhece as tranqueiras que ele fez de 1980 em diante. Afinal, a narrativa é mais "comportada" e o visual é deslumbrante, com belissima fotografia de Antonio Macasoli (dê uma espiada nas imagens abaixo), sem nem sinal do excesso de "zooms" e câmera esquizofrênica que os detratores do diretor apontam como grandes defeitos dos ses trabalhos posteriores.

Também ajuda o fato de o roteiro ter sido escrito em parceria com Jean-Claude Carrière, que já havia assinado o anterior e excelente "Miss Muerte". Ele é mais conhecido como roteirista dos clássicos de Luis Buñuel, tipo "O Fantasma da Liberdade" e "O Discreto Charme da Burguesia". Por isso, muito fã de cinema de arte certamente vai surtar ao descobrir que o homem também trabalhou com o "maldito" Jess Franco!


O roteiro de Franco e Carrière é bastante fiel ao clima de "pulp fiction" das aventuras de espionagem da época, com sucessivas traições, perseguições, tiroteios, mulheres fatais e até bandidos orientais (coisa muito em voga na ficção de gênero da época), mais a bem-vinda inclusão de toques de ficção científica, com os autômatos controlados por ondas de rádio (um detalhe que já havia sido enfocado por ambos no anterior "Miss Muerte").

O melhor é que a dupla também parece não estar levando a coisa tão a sério, ou menos a sério do que as aventuras de James Bond e muitos de seus imitadores. Lá pelas tantas, aparece até um agente mirim (interpretado por Lemmy Constantine, filho do astro), que usa seu carrinho de brinquedo como walkie-talkie!


Numa cena genial, Pereira recebe seus gadgets - coisas como luvas eletrificadas e um charuto que solta gás venenoso - e questiona seus superiores quanto ao fato de aqueles equipamentos oferecerem perigo também a ele mesmo. Afinal, uma das armas é um guarda-chuva que, quando aberto, explode!
- E eu vou ter que andar com isso pela Espanha? - ironiza Pereira.
- Somente em dias de chuva.
- Mas, se chover, eu não posso abri-lo!
- Claro que não, porque aí ele explode!


Outro momento fantástico em que CARTES SUR TABLE investe no humor acontece quando dois grupos distintos de vilões (os chineses e os autômatos de Sir Percy) resolvem armar uma emboscada para Pereira em seu quarto de hotel NA MESMA HORA. Acaba explodindo a maior briga entre os bandidos, com um grupo matando o outro.

Para piorar, quando o herói volta ao quarto, precisa esconder os cadáveres espalhados por toda parte para que eles não atrapalhem a noite de amor que terá com a dançarina Cynthia! Uma cena genial, que você definitivamente não verá num filme de James Bond!


Por falar em Bond, embora Al Pereira tenha sido construído a partir das mesmas bases de Sean Connery em "O Satânico Dr. No" e aventuras seguintes (ele é apresentado usando smoking e jogando num cassino, tem gadgets, pega a mulherada, fuma um cigarro atrás do outro), ao mesmo tempo ele é radicalmente diferente do seu colega 007.

Por exemplo, Pereira não é tão seguro de si e nem se diverte tanto quanto Bond em suas missões; pelo contrário, o herói aqui parece de saco cheio da vida de espião e louco para abandonar tudo. Ele também não toma nenhum "martini batido, mas não mexido", e aparenta estar em tratamento de alcoolismo (em certo momento, até aparece bebendo Coca-Cola!).

Tampouco tem o mesmo glamour em matéria de veículos: ao invés de um Aston Martini para dar rolê e pegar as gatinhas, o espião encara um busão lotado e caindo aos pedaços na sua chegada em Alicante - mas mesmo assim joga charme para cima da Bond Girl, ou "Pereira Girl"! Só esses toques cômicos já valem o filme.


Constantine está muito bem como agente secreto, e vendo o filme hoje dá para entender porque ele era tão popular na Europa da época: o ator tem um quê de Humprey Bogart, intercalando charme cínico, simpatia e bom humor. Numa realidade alternativa, talvez até fizesse um ótimo James Bond francês, e não inglês.

Inclusive o próprio Franco deve ter adorado trabalhar com o ator, já que, em várias entrevistas da época, Jess dizia que seus diretores preferidos eram Godard e John Ford, e Constantine havia recém saído de "Alphaville", que foi dirigido por Godard. Devem ter rolado várias conversas entre diretor e astro nos bastidores.


O único ponto fraco de CARTES SUR TABLE, em comparação com as aventuras de James Bond que homenageia/cita/satiriza, é a falta de um vilão mais expressivo. O ótimo Fernando Rey até impõe algum respeito como Sir Percy, o fabricante de autômatos. E vive num enorme esconderijo cheio de maquinário de alta tecnologia (para a época) e capangas armados, como convém a um adversário do gênero. Infelizmente, o personagem aparece muito pouco e não faz nada de memorável nestas poucas aparições. Assim, quem acaba brilhando em seu lugar é o braço direito de Percy, Lady Cecilia (Françoise Brion), que tenta seduzir o herói duas vezes e entra naquela categoria "capanga sedutora do vilão", elemento tão comum nos filmes de 007.


Há um enigma que persiste até hoje envolvendo CARTES SUR TABLE: embora todas as cópias existentes sejam em preto-e-branco, alguns pesquisadores defendem que Franco rodou as cenas usando filme colorido, mas o laboratório converteu tudo para preto-e-branco na pós-produção a mando dos produtores, que queriam aproveitar que os "filmes noir" estavam na moda graças ao já citado "Alphaville".

Tem dois bons argumentos para embasar essa teoria. Primeiro, o fato de o segundo filme de Jess com Constantine, "Residencia para Espías", filmado logo em seguida, ser colorido. E em segundo lugar, um elemento importante da própria trama: os autômatos de pele acobreada "desbotam" ao morrer e ficam com o rosto pálido, mas obviamente tal mudança de coloração aparece de maneira bem sutil na fotografia em preto-e-branco (em cores se notaria muito mais facilmente).


Embora esta seja a única vez que Eddie Constantine interpretou Al Pereira, Franco continuou escrevendo e dirigindo novas aventuras do personagem nos anos seguintes. De agente secreto ele foi virando detetive particular e até explorador da selva, conforme a necessidade.

No lugar de Constantine, Howard Vernon, Olivier Mathot, o próprio Franco e Antonio Mayans assumiram o papel. O espanhol Mayans foi quem mais vezes encarou Al Pereira (seis ao todo), incluindo os dois últimos filmes dirigidos por Jess Franco, "Al Pereira vs. the Alligator Ladies" (2012) e "Revenge of the Alligator Ladies" (2013).

Na sua fase mais "vale-tudo", na década de 80, Jess fez uma refilmagem "disfarçada" deste filme, chamada "Viaje a Bangkok, Ataúd Incluido" (1985), com a mesma história dos assassinatos políticos cometidos por autômatos controlados à distância (nesta versão, eles inclusive são cegos!). Mas tal reboot não é nem de longe tão divertido quanto o "original".


Além de uma bela contribuição "Franquiana" para o ciclo dos Eurospies, e de um veículo perfeito para o cultuado Eddie Constantine brilhar entre seus fãs franceses (o filme foi muito mal lançado no resto do mundo), CARTES SUR TABLE também é um belíssimo argumento para você esfregar na cara daquele seu amigo cinéfilo chato que vive falando que Jess Franco não entende porra nenhuma de cinema.

Afinal, o filme não apenas é bem produzido, bem filmado, bem interpretado e BEM DIVERTIDO, mas também tem um ator cult que trabalhou com Godard no papel principal e um roteirista que trabalhou com Buñuel - uma combinação pra cinéfilo chato nenhum botar defeito!

PS: Numa cena em que Cynthia se apresenta no palco de uma boate, o pianista da banda de jazz que está se apresentando é o próprio Jess Franco (ele pode ser visto numa das imagens desta resenha).


Trailer de CARTES SUR TABLE



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Cartes sur Table / Attack of the Robots
(1966, Espanha/França)

Direção: Jess Franco
Elenco: Eddie Constantine, Françoise Brion, Sophie
Hardy, Fernando Rey, Alfredo Mayo, Vicente Roca,
Ricardo Palacios, Dina Loy e Mara Lasso.