WebsiteVoice

sexta-feira, 4 de abril de 2014

DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN (1971)


No começo dos anos 1970, Drácula e Frankenstein figuravam entre os monstros clássicos mais adaptados para o cinema: o vampirão já tinha cinco filmes produzidos pela Universal nos Estados Unidos e mais cinco pela Hammer na Inglaterra, enquanto a criatura ressuscitada pelo Dr. Frankenstein aparecera em sete filmes da Universal e outros seis da Hammer. Isso sem contar produções baratas feitas "por fora", tipo o mexicano "Santo en El Tesoro de Dracula" (1969) e o italiano "Lady Frankenstein" (1971).

O próprio Jess Franco já tinha feito uma versão de Drácula em 1969, estrelada por Christopher Lee ("O Conde Drácula", considerado uma das adaptações mais fiéis do livro de Bram Stoker!), quando resolveu juntar as duas criaturas num único filme, DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN, de 1971.


Não era algo exatamente original, considerando que a Universal estava filmando "crossovers" entre seus monstros mais famosos desde a década de 40, e no mesmo ano de 1971 o norte-americano Al Adamson lançou uma famosa tranqueira com título e proposta muito semelhantes, "Dracula Vs. Frankenstein"!

Mas, ora bolas, estamos falando de Jesus Franco! Mesmo que a ideia não seja original, é claro que uma versão "Franquiana" para o suposto duelo entre Drácula e Frankenstein será algo... hã... no mínimo diferente - para o bem ou para o mal. E embora DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN não seja um dos títulos mais famosos da fase setentista do diretor espanhol, certamente é uma obra bem curiosa e que merece ser conhecida.


Numa época em que os filmes de vampiros produzidos pela Hammer ainda eram bastante populares, com sua alta carga de erotismo e violência, Franco seguiu pelo caminho inverso e puxou o freio de mão no quesito "sexo e sangue". E olha que o território não era desconhecido para o espanhol: além de "O Conde Drácula", ele já havia feito a obra-prima "Vampyros Lesbos", repleta de nudez e erotismo!

O motivo para o velho Jess se conter em DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN é que sua proposta era outra: ao contrário do que faziam os filmes da Hammer, ele queria homenagear os clássicos da Universal, tipo o "Drácula" ou o "Frankenstein" de 1931. Não por acaso, seu monstro de Frankenstein é uma cópia cuspida e escarrada da criatura interpretada por Boris Karloff no filme de James Whale - embora aqui numa versão sem orçamento nenhum, é claro.


Além disso, naqueles tempos em que a Hammer conquistava o público com filmes cheios de efeitos especiais e mulher pelada, Franco preferiu fazer um filme mais introspectivo e praticamente sem diálogos: em 78 minutos, conta-se pouco mais de uma dúzia de diálogos, e a maioria deles em "off" (ou seja, foram inseridos na pós-produção).

Como os atores não falam, ou falam muito pouco, eram obrigados a interpretar com a expressão corporal e principalmente com os olhos, que são mostrados em close o tempo inteiro pela câmera de Franco. Isso aproxima DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN de uma versão colorizada dos velhos clássicos com vampiros do cinema mudo, tipo "Nosferatu" e "Vampyr" (por mais herético que possa parecer comparar Jess Franco com Murnau e Dreyer).


O roteiro do próprio Franco começa com uma citação do seu escritor fictício preferido, "David H. Klunne" (que vem a ser o próprio Jess). Depois, o Conde Drácula (interpretado por Howard Vernon) ataca uma garota que se preparava para dormir (Anne Libert), numa pequena vila europeia que parece ter parado em algum ponto do século 19.

É quando o médico do povoado, Dr. Jonathan Seward (o argentino Alberto Dalbés), resolve dar um fim na ameaça: antes que anoiteça, ele vai sozinho ao castelo de Drácula, encontra seu caixão numa cripta e enfia uma estaca de madeira em seu coração. Ao invés de virar pó, como todo mundo espera, o finado vampiro regride ao aspecto de morcego! Só não se sabe que fim levou suas roupas...


Parece que temos um final feliz, mas na verdade o filme mal começou: eis que chega à vila o Dr. Frankenstein (interpretado pelo inglês Dennis Price), acompanhado pelo seu fiel ajudante demente Morpho (Luis Barboo). Em mais uma auto-citação de Franco, "Morpho" também era o nome do ajudante do Dr. Orloff em seu clássico "O Terrível Dr. Orloff", de 1961.

Se até então parecia que a história se passava no século 19 - pelo aspecto do vilarejo, pelas roupas e pelo fato de o Dr. Seward deslocar-se numa carruagem -, a chegada de Frankenstein num automóvel provoca uma ruptura, entregando a ambientação contemporânea da trama.


O cientista se muda para o agora desabitado castelo de Drácula, onde monta seu novo laboratório. Pelo pouco que o roteiro sem diálogos entrega, àquela altura ele já criou o seu famoso monstro, e agora pretende dominar o mundo com a ajuda de Drácula.

Afinal, vamos combinar que daria muito trabalho montar novos monstros feitos com partes de cadáveres, enquanto que com um vampiro ao seu serviço ele pode facilmente gerar novos sanguessugas ambulantes para o seu "exército das trevas"!


O primeiro passo do Dr. Frankenstein é ressuscitar o Conde. Morpho vai à cidade e sequestra uma dançarina de cabaré (Josiane Gilbert), que depois tem seu sangue drenado para reviver o vampirão.

A cena é ao mesmo tempo hilária e perturbadora: um morcego vivo (e real!) é mostrado dentro de um jarro de vidro, sendo banhado com sangue falso até praticamente se afogar; num corte rápido, o Drácula de Howard Vernon aparece inteirinho (e com roupas!) no lugar do morcego. Só não se sabe onde foi parar o jarro de vidro, mas é melhor nem perguntar para não parecer uma pegadinha tipo aquela do bambu...


Também não fica muito claro, mas parece que o Dr. Frankenstein arrumou uma forma de controlar o ressuscitado Drácula, e este passa a seguir fielmente as suas ordens, atacando novos inocentes no povoado para a criação do tal exército das trevas.

Quem não gosta muito dessa história é a noiva de Drácula (a portuguesa Britt Nichols, cujo verdadeiro nome é Cármen Yazalde). Ela dormia tranquilamente num caixão próximo sem ser importunada - nem o Dr. Seward, nem o Dr. Frankenstein repararam que havia outros caixões na cripta além do de Drácula! Quietinha no seu canto, a vampirona resolve esperar pelo momento certo para dar o troco no cientista malvado e libertar o amado conde da sua escravidão.


DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN está repleto do melhor e do pior de Jess Franco, incluindo aqueles "zooms" mirabolantes em gatinhos, pássaros e detalhes de prédios até a imagem sair do foco, mas sem que isso tenha relação alguma com a trama. E as loooooongas cenas que só existem para encher linguiça e fechar o tempo de um longa, como as intermináveis viagens de carruagem do Dr. Seward até o castelo de Drácula.

Como praticamente não há diálogos e nem conversas entre os personagens, estas cenas longas e arrastadas, somadas ao silêncio da narrativa "introspectiva", acabam se transformando num convite ao sono. Quem não conseguir resistir aos primeiros 20 minutos dificilmente vai aguentar até o final, já que o primeiro diálogo do filme só é ouvido depois de 15 minutos! (Lembro que quando Paul Thomas Anderson fez isso recentemente, em "Sangue Negro", todo mundo achou genial.)


Também há muito para rir na atmosfera pobretona do filme, especialmente na caracterização dos seus dois monstros. O Drácula de Vernon é um dos piores da história do cinema, e isso que o ator geralmente é muito bom (vide sua interpretação no clássico "O Terrível Dr. Orloff", por exemplo).

Aqui, entretanto, ele aparece o tempo todo com os olhos arregalados e a boca aberta, para mostrar os caninos pontiagudos. Sem falar uma única palavra o filme inteiro, Vernon "interpreta" um vampiro patético e nada ameaçador, e cenas como aquela em que mostra a boca suja de sangue após atacar uma vítima só pioram a situação - pois fica parecendo que o ator passou batom vermelho nos lábios!


Mas o monstro de Frankenstein "interpretado" por Fernando Bilbao não é muito melhor: embora roupas, corte de cabelo e até parafusos no pescoço remetam ao monstro que Karloff imortalizou em 1931, a maquiagem aqui é de uma pobreza franciscana, com as "cicatrizes" no rosto costurado da criatura riscadas com caneta no rosto do próprio ator!

E há uma cena digna de Ed Wood quando Morpho é atacado pela vampira em forma de morcego. Inicialmente, vemos o ator segurando o morcego de borracha próximo ao pescoço. Aí parece que o diretor deu um grito alertando que o bicho estava muito parado, e Barboo começa a mexer as "asinhas" dele com os dedos, mas sem sequer se preocupar em disfarçar! Só essa parte já vale o filme, para quem gosta de momentos "quanto pior, melhor".


Por fim, o título DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN é uma enganação, já que em nenhum momento o filme mostra Drácula lutando contra os Frankensteins, seja o criador ou a criatura. Os títulos em inglês e francês, que significam "Drácula, Prisioneiro de Frankenstein" em tradução literal, são muito mais condizentes com a trama.

Até porque quem REALMENTE luta contra o monstro de Frankenstein não é Dracula, mas sim um... LOBISOMEM?!? Exato: eis que lá pelas tantas, sem nenhum anúncio, um homem-lobo igualmente mambembe (e interpretado por um anônimo identificado apenas como "Brandy"!!!) aparece lutando pelo lado do Bem, enviado por um grupo de ciganos para ajudar o Dr. Seward no combate aos vilões. É o mais perto de uma luta de monstros que Franco mostra - remetendo ao clássico da Universal "Frankenstein Meets the Wolfman", de 1943.


Assim, com vampiros, Frankensteins (criador e criatura), homem-lobo, um ajudante demente e necrófilo (Morpho aparece abusando rapidamente do cadáver da dançarina) e até uma feiticeira cigana (interpretada por Geniève Deloir), tudo isso no mesmo filme, DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN lembra menos os filmes da Universal que Jess tentou homenagear e mais as maluquices do cinema mexicano, que, em aventuras absurdas como "Santo y Blue Demon vs Drácula y el Hombre Lobo" (1973), costumava reunir todo tipo de monstros e personagens exóticos. O clima de vale-tudo aqui é o mesmo, e até parece que algum "luchador" mascarado vai invadir o filme de Franco a qualquer momento!


O lado bom do filme é que Jess não deixa o clima de improviso da obra afetar sua criatividade. O roteiro pode até não fazer sentido algum, mas há elementos bem fiéis à mitologia dos monstros apresentados e outros originais inventados pelo próprio diretor-roteirista.

O Dr. Seward, por exemplo, aqui assume o papel de Van Helsing como nêmesis de Drácula. O personagem já existia no livro de Bram Stoker, onde era o chefe da clínica em que o maluco Reinfield estava internado. Aqui, Seward também chefia uma clínica e cuida de uma jovem paciente, Maria (Paca Gabaldón), que é praticamente uma versão feminina de Reinfield (só não come insetos).


Franco não deixa de criar sua própria mitologia. Além do seu Drácula andar normalmente à luz do sol sem se desintegrar, há uma cena muito interessante em que o Dr. Seward é chamado para examinar uma das vítimas do vampiro. Usando uma lente de aumento, ele enxerga a figura de um morcego na retina da morta (!!!), e neste momento entende que ela está condenada a se transformar numa criatura idêntica. Para destruí-la, ao invés da tradicional estaca no coração, o médico usa um prego enfiado no olho - a mesma maneira de destruir vampiros já apresentada por Jess em "Vampyros Lesbos", onde é a destruição do cérebro, e não do coração, que mata os sugadores de sangue! Fãs xiitas de vampiros certamente vão reclamar, mas eu confesso que achei essa ideia bem legal, e inclusive aproxima vampiros de zumbis, pelo menos na maneira de matá-los (e não são todos mortos-vivos, afinal?).


A trilha sonora de DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN poderá soar familiar para fãs da obra de Jess. Isso porque o diretor reaproveitou uma música composta por Bruno Nicolai para o anterior "Santuário Mortal" (1969), aquela que toca nas cenas em que o Marquês de Sade, interpretado por Klaus Kinski, aparece na prisão.

O curioso é que a referida música funciona muito melhor aqui do que no outro filme, então sua reutilização não soa tão ruim. Outras partes da trilha foram compostas pelo colaborador habitual Daniel J. White (que também aparece numa ponta como o dono do cabaré).


Se os monstros principais aparecem mal-caracterizados, pelo menos Franco contou com dois ótimos atores para fazer os médicos em lados opostos, Dalbés como o bonzinho Dr. Seward e Price como o malvado Dr. Frankenstein. Infelizmente, faltou um confronto entre eles. Eu até desconfio que suas cenas foram filmadas em locais e épocas diferentes, já que Dalbés e Price nunca dividem o mesmo take.

No caso de Price, vale ressaltar que o ator estava em fim de carreira e cada vez mais entregue ao alcoolismo. É visível, em todas as suas aparições, que ele mal consegue ficar de pé e precisa se apoiar em paredes ou objetos de cena. Achei que fosse por problemas de idade, mas o próprio Franco disse, numa entrevista, que Price começava a tomar brandy logo que acordava, às seis da manha, e ao meio-dia já estava se arrastando, completamente mamado!


DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN foi filmado parte na Espanha, parte em Portugal. Nesse último foram usadas belíssimas locações históricas, com o Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, em Cascais, virando a clínica do Dr. Seward, e o velho Castelo dos Mouros, em Sintra, se transformando na morada de Drácula.

Quando viajei para Portugal, alguns anos atrás, passei por estas duas cidades e vi os cenários in loco. Felizmente, não encontrei nem Drácula e nem Frankenstein por lá; infelizmente, não encontrei nem a Britt Nichols!

O Castelo de Drácula no filme e o dos Mouros em 2009

A clínica do Dr. Seward e a fonte do museu em Cascais

Por falar em Britt Nichols, muitos fãs da atriz (e do cinema safado de Franco) ficarão decepcionados com o fato de ela não aparecer nua aqui, embora faça isso com frequência em outros filmes do diretor. A bem da verdade, não há uma única cena de nudez no filme inteiro, e o máximo de safadeza é um número de dança no cabaré - mas também sem mostrar nada!

Pela curta duração do filme (78 minutos), muitos pesquisadores argumentam que deve existir alguma versão de DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN com cenas de nudez e/ou sexo, que teriam sido cortadas na montagem atualmente em circulação.

O fato de o filme ser co-produzido por Robert de Nesle, que adorava enxertar cenas de sexo (até explícito!) nas obras de Jess que bancou, reforça essa possibilidade. Esperemos, portanto, que qualquer dia apareça uma versão alternativa em que as vítimas de Drácula e a prórpia Britt estejam nuas.


Hoje, a única versão diferente existente é a norte-americana, em que foram inseridos vários diálogos em off nas cenas originalmente silenciosas, para tentar explicar melhor a história - e, quem sabe, quebrar aquele climão introspectivo do original.

O mais engraçado dessa montagem ianque é que os caras chegaram a incluir um letreiro narrado, NO MEIO DO FILME, como se fosse um trecho do diário do Dr. Frankenstein, recapitulando tudo que aconteceu na trama até então (imagem abaixo)! Este trecho aparece como extra no DVD importado do filme.


No ano seguinte (1972), Jess lançaria mais dois filmes envolvendo Drácula e Frankenstein. São eles "La Fille de Dracula" e "La Maldición de Frankenstein" (também conhecido como "Les Expériences Érotiques de Frankenstein"!!!).

O fato de quase todos os atores deste aqui reaparecerem em um deles ou em ambos - Britt Nichols, Anne Libert, Alberto Dalbes, Fernando Bilbao, Howard Vernon, Luis Barboo e até Dennis Price, novamente como Dr. Frankenstein! - pode sinalizar que eles foram feitos às pressas (ou improvisados) durante ou logo depois das filmagens de DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN!


Este aqui, entretanto, é o melhor da "trilogia", mesmo com seus diversos problemas. Sem a putaria habitual de Franco, e com menos das suas doidices estéticas e narrativas, também é um dos seus trabalhos mais fáceis de acompanhar, principalmente para quem não é muito chegado no estilo do diretor - desde que sobreviva ao clima lento e quietão do filme.

Mas, obviamente, a "homenagem aos clássicos da Universal" não foi bem recebida na época do seu lançamento, quando eram os vampiros e Frankensteins da Hammer que ditavam as tendências. Bastante criticado na época, DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN só começou a ser reavaliado mais recentemente, e há até quem considere uma contribuição bem decente à filmografia destes personagens.

Digamos que, em tempos de "Crepúsculo" e "Frankenstein: Entre Anjos e Demônios", os monstros à moda antiga de Jess Franco nunca pareceram tão bons - por mais pobretões e mambembes que sejam!


DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN em 2 minutos!



***********************************************************
Dracula Contra Frankenstein/ 

Dracula, Prisoner of Frankenstein
(1971, Espanha/França/Portugal/Liechtenstein)

Direção: Jess Franco
Elenco: Dennis Price, Alberto Dalbés, Howard Vernon,
Britt Nichols, Paca Gabaldón (aka Mary Francis), 

Geniève Deloir, Luis Barboo e Fernando Bilbao.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES (1982)


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES (nos EUA, "The Mansion of the Living Dead") é uma grande traquinagem de Jess Franco: apesar do título, não existe nenhuma "mansão" (a história se passa num hotel e num velho mosteiro) e nem um único morto-vivo (as criaturas que aparecem lá pelas tantas estão mais para fantasmas do que para zumbis na sua definição clássica, e elas sequer se alimentam de carne humana).

Para compensar, e isso não está no título, tem cinco mulheres gostosas que passam praticamente o filme inteiro peladas e/ou atracadas em inúmeras cenas de sexo lésbico softcore. Ok, Jesus, com essa você está até perdoado pelo título enganoso!


Em seu retorno à Espanha, depois de quase uma década morando na França por causa da ditadura do General Francisco Franco, Jess rodou diversos filmes nas Ilhas Canárias, praticamente um após o outro: "Oásis dos Zumbis", "Macumba Sexual" (uma refilmagem disfarçada do seu clássico "Vampyros Lesbos", com a transexual Ajita Wilson no lugar da musa Soledad Miranda), e este aqui, entre outros que vieram depois.

Segundo o livro "Obsession: The Films of Jess Franco", "Macumba Sexual" e LA MANSIÓN... foram rodados ao mesmo tempo em 1981. O primeiro ficou pronto no mesmo ano, enquanto o outro foi concluído logo depois, em 1982. Já o IMDB data os dois filmes, respectivamente, como sendo de 1983 e 1985. É possível que estas sejam as datas que eles chegaram aos cinemas, mas, na dúvida, fico com a informação do livro "Obsession" (um letreiro de agradecimento que aparece no começo de LA MANSIÓN... também traz a data 1982).


Apesar de ter filmado um horror com mortos-vivos antes ("Oásis dos Zumbis"), Franco já manifestou publicamente sua antipatia pelas criaturas (que considerava "estúpidas") e até pelos clássicos do gênero dirigidos por George A. Romero (que considerava um diretor "primitivo"). Logo, não é surpresa que os mortos-vivos aqui sejam radicalmente diferentes daqueles com os quais o público estava acostumado no começo dos anos 1980.

Ao invés daqueles cadáveres redivivos, apodrecidos e cambaleantes que se multiplicavam às centenas nos filmes da época - graças às cópias italianas dos filmes de Romero -, os zumbis de LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES estão mais para os Cavaleiros Templários ressuscitados da clássica série dos Mortos Cegos, dirigida pelo espanhol Amando de Ossório na década de 70.


Portanto, o que temos aqui não são exatamente mortos-vivos, como o título anuncia, mas monges fantasmagóricos representados em pelo menos três diferentes estilos: alguns são humanos "normais", outros têm usam uma máscara imóvel de caveira, e outros ainda uma maquiagem tão tosca representando "podridão" que mais parece que eles esfregaram pasta de dente no rosto!

Na entrevista que acompanha o DVD do filme, lançado nos EUA pela Severin, Franco inclusive confessou sua inspiração nos Mortos Cegos do compatriota Ossorio: "Gosto bastante do primeiro ("La Noche del Terror Ciego", 1972). As imagens, aquele trem à noite, com os mortos aparecendo, são muito criativas. Não se parece em nada com os outros filmes de mortos-vivos que eu vi".


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES conta a história de quatro turistas alemãs safadinhas (garçonetes ou strippers, dependendo da fonte pesquisada), que viajam para as Ilhas Canárias em busca de férias inesquecíveis e de homens viris para satisfazerem seus desejos sexuais - embora também joguem no outro time e transem umas com as outras conforme a necessidade. Enfim, as típicas garotas liberais de uma época pré-Aids.

A mocinha Candy é interpretada por Lina Romay, esposa e musa de Jess. Como na época ela já tinha aparecido em dezenas de filmes do maridão, o casal resolveu criar um "disfarce" e um nome falso para a atriz, que, em algumas ocasiões, se fazia passar por "Candice Coster" (o nome foi depois abreviado para Candy), usando uma peruca chanel loira para mudar o visual (abaixo). Em tempos pré-internet e com poucas fontes de pesquisa, ainda mais de produções obscuras como essa, muita gente deve ter acreditado que se tratavam realmente de duas atrizes diferentes.


Já as amigas safadinhas são Mabel (Mabel Escaño), Lea (Mari Carmen Nieto, creditada como "Mamie Kaplan") e Caty (Elisa Vega, creditada como "Jasmina Bell"). Todas as três já haviam trabalhado com Franco antes ou depois, em diversos outros filmes.

Quando as quatro garotas com fogo no rabo chegam ao luxuoso hotel para suas tão sonhadas férias, encontram o local completamente deserto - apesar de o suspeito gerente Carlo Savonarola (Antonio Mayans, outro colaborador habitual de Franco) garantir que todos os quartos estão ocupados e que só restaram dois, um para cada casal de amigas, em lados completamente opostos do edifício.


As inocentes moçoilas não desconfiam de nada. Afinal, imaginam elas, os outros hóspedes estão na praia curtindo suas férias. Entregam-se, então, aos prazeres da carne entre elas mesmas, no momento em que chegam aos seus quartos. Mas quando resolvem descer até a praia, encontram o local tão deserto quanto o hotel. Além do gerente Carlo e de um misterioso jardineiro (Albino Graziani), parece não haver viv'alma nas redondezas!

As confusões começam no momento em que as moças resolvem se separar para zanzar pelas redondezas. Perto do hotel, existe um velho mosteiro abandonado com uma trágica história do passado, que será explicada em determinado momento da trama. E seus habitantes não são exatamente humanos, mas sim fantasmagóricos monges que querem punir os "pecadores" justamente praticando o pecado - nesse caso, estuprando e matando suas vítimas!


Apesar de o título anunciar outro filme comum de zumbis devoradores de carne humana, e da inspiração confessa de Jess na série dos Mortos Cegos, LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES tem muito mais elementos em comum com - pasmem - "O Iluminado", de Stanley Kubrick.

É impossível não lembrar de uma espécie de Overlook tropical nas inúmeras cenas com as garotas perambulando sozinhas pelos corredores escuros e desertos do hotel, assim como as súbitas aparições de Carlo, do jardineiro e até de uma misteriosa mulher acorrentada em um dos quartos (interpretada por Eva León) lembram os fantasmas do clássico de Kubrick baseado em Stephen King!


Pode até ser que esta seja uma leitura muito ambiciosa do filme, já que, ao invés de Jack Nicholson com cara de psicopata, o que temos aqui são quatro garotas seminuas desfilando pelo hotel deserto. Mas é possível que Jess tenha se inspirado inconscientemente em "O Iluminado" na hora de escrever o roteiro - embora o hotel em questão seja menos assombrado que o velho mosteiro vizinho.

Ele consegue até criar um climão depressivo de solidão e isolamento com as imagens daquele hotel "abandonado" à beira mar, numa paradisíaca paisagem ensolarada que torna o "vazio" do local ainda mais melancólico - o extremo oposto do Overloook, de "O Iluminado", que estava isolado por causa do inverno e das tempestades de neve! Nesse aspecto, a aparição das quatro moças espavitadas e cheias de vida, usando roupas coloridas ou nenhuma roupa, cria um curioso contraste com o cenário deserto.


Mas é bom não conjecturar muito nesse sentido, pois é possível que a ambientação no hotel vazio seja uma simples solução improvisada para contornar custos de produção (como a contratação de figurantes para interpretarem os demais hóspedes). Nunca há uma explicação satisfatória para o fato de o local estar deserto, e, no fim, o espectador também nem se preocupa com isso.

Acontece que esta é uma daquelas produções tão baratas que o velho Franco teve que fazer praticamente tudo para economizar. Embora os créditos iniciais apresentem diversos nomes, como se a equipe técnica fosse bem variada, a maioria deles é o próprio Jess usando pseudônimos diferentes: ele assinou a direção de fotografia como "Joan Almirall" e repetiu a velha piadinha do roteiro baseado em livro de "David Kuhne", autor inexistente que aparece nos créditos desde os seus primeiros filmes! Franco assinou ainda o roteiro e a edição, e, se bobear, também serviu a marmita nos intervalos para almoço!

(Algumas fontes informam que ele também fez a trilha sonora com o pseudônimo "Pablo Villa", embora este nome falso também seja usado pelo músico francês Daniel J. White - que, segundo o livro "Obsession", foi o verdadeiro compositor aqui.)


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES foi produzido num momento interessante, em que a Espanha já vivia um gradual processo de reabertura depois da morte do ditador General Franco (em 1975). Se antes era proibido mostrar um simples peitinho de fora nos filmes espanhóis, agora os diretores já podiam escancarar tudo - e o espectador espanhol inclusive esperava por isso para "tirar o atraso"! Algo não muito diferente da época pós-Ditadura aqui no Brasil, também no começo da década de 1980.

Isso justifica a quantidade de mulher pelada e putaria no filme. Se essas cenas fossem estirpadas por um censor rancoroso, o longa-metragem de 97 minutos seria reduzido a um curta com no máximo 15, pois todo o restante do tempo é ocupado por imagens das garotas peladas ou se comendo (ou sendo comidas)!


Inclusive fica bem claro, desde o começo, que a trama não se passa num universo real e crível, mas sim no mirabolante universo "Franquiano" de história em quadrinhos de sacanagem, em que todo mundo se insinua e transa com todo mundo, e as garotas circulam peladonas sem a menor inibição, mesmo quando é para checar sons estranhos nos corredores do hotel (caso encontrem algum desconhecido, elas conversam normalmente, sem se preocupar em cobrir a nudez!).

Tem até uma cena engraçadíssima em que Candy, a personagem de Lina, sai do seu quarto e fica desfilando pelo hotel completamente nua, "vestindo" apenas um par de sapatos de salto agulha, completamente despreocupada com a possibilidade de alguém aparecer e flagrá-la daquele jeito (imagens abaixo)!

O calçado fetichista, aliás, é de uso obrigatório por todas as garotas do filme (imagino que não tenha sido muito confortável para as atrizes), mesmo quando elas vão à praia de biquíni ou saem para passear com minúsculos shortinhos enfiados na bunda!


As cenas de sexo não são explícitas (embora mostrem mais que o suficiente, sem deixar nadinha para a imaginação do espectador), porém em alguns momentos quase chegam lá. E o roteiro tosco de Franco tem um climão geral de filme pornô, com situações forçadas e diálogos simplesmente inacreditáveis para conduzir às trepadas entre os personagens.

Por exemplo: quando Candy e uma amiga decidem dormir juntas, preocupadas que estão com o desaparecimento das outras duas, não demora muito para esquecerem do medo e caírem de boca uma na outra. "Se eu não transar, não consigo dormir", justifica Candy. Depois de alguns momentos de "lambeção", ela interrompe a sessão de sexo oral para tirar um pêlo pubiano que ficou na sua língua, e a parceira sugere: "Assopre e faça um desejo, pode dar sorte!".


Embora não esteja entre os trabalhos mais memoráveis de Jess, e perca feio na comparação com suas grandes obras dos anos 1960-70, LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES é razoavelmente divertido e eficiente, desde que - e isso deve ser ressaltado - o espectador embarque no espírito da coisa!

Quem espera um filme de zumbis tradicional vai quebrar a cara, já que eles fazem apenas participação especial. Na maior parte do filme, inclusive, parece que a maior ameaça à integridade física das garotas é o misterioso gerente Carlo, que faz as vezes de um Norman Bates mais safadinho.


Quem espera um filme de horror tradicional também vai quebrar a cara, pois Franco está mais preocupado com a putaria do que com a parte "assustadora" da história, que é bem desleixada (tem até refletor aparecendo no quadro!). A narrativa bipolar começa em clima de comédia erótica, tipo uma pornochanchada brasileira, descambando para o "horror" apenas lá pelos 45 ou 50 minutos (mais ou menos como Eli Roth faria, duas décadas depois, em "Hostel", para citar um exemplo contemporâneo).

Mas é claro que, quando falo em "horror", estou sendo bem generoso, pois não há violência nem sustos, e a tensão é mantida num nível mínimo. Os efeitos de maquiagem também são mambembes e improvisados: os monges com cara de caveira são figurantes usando máscaras de plástico das mais vagabundas, daquelas que você compra na 25 de Março em época de Halloween - o completo oposto dos maravilhosos Templários Zumbis dos filmes de Amando de Ossorio!


Tudo considerado, passe longe de LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES principalmente se a sua ideia de diversão não envolve uma overdose de cenas com mulheres nuas e/ou se comendo, pois são mais raros os momentos em que as atrizes estão VESTIDAS.

A personagem de Eva León fica pelada o filme todo, e confesso que eu até estranhava quando Lina Romay aparecia com alguma roupa, de tanto que ela se pela ao longo dos noventa e poucos minutos!


Vendo a entrevista com o diretor no DVD da Severin, percebe-se que os monges fantasmagóricos estão na trama não apenas para justificar minimamente o título enganoso, mas também como um comentário crítico de Franco sobre a Inquisição Espanhola - afinal, os amaldiçoados religiosos buscam a punição dos "pecadores" cometendo atos tão ou mais horríveis do que aqueles que tentam combater!

Mas é uma leitura muito simplória para se tirar da meia dúzia de monges com máscara de carnaval que aparecem estuprando e matando garotas peladonas em LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES. O negócio é deixar de lado qualquer pretensão e entrar no clima de porra-louquice da coisa toda.


Assim, este não é o filme que eu indicaria para quem está começando a conhecer a obra de Jess Franco e quer entender porque o homem é tão cultuado. Fãs e conhecedores do trabalho do diretor já estão vacinados para vários dos elementos que aparecem aqui, como o ritmo lento e a ênfase no sexo e na nudez.

Mas os marinheiros de primeira viagem podem não curtir a proposta. A não ser que você encare de cabeça aberta e sabendo de antemão que não verá apenas mais um filme de zumbis como as outras dezenas (ou centenas) que já viu.

Pense numa mistura de "O Iluminado" com "La Noche del Terror Ciego", estrelada por lésbicas que raramente aparecem com roupas, e divirta-se - se puder.



***********************************************************
La Mansión de los Muertos Vivientes /
The Mansion of the Living Dead (1982, Espanha)

Direção: Jess Franco
Elenco: Lina Romay (aka Candy Coster), Antonio Mayans
(aka Robert Foster), Mabel Escaño, Elisa Vega (aka Jasmina
Bell) e Mari Carmen Nieto (aka Mamie Kaplan).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

MARATONA JESS FRANCO


Hoje (2 de abril de 2014) faz exatamente um ano que o mundo do cinema perdeu um dos seus nomes mais atuantes: o mítico Jess Franco. Nascido Jesus Franco Manera em Madrid, Espanha, em 1930, ele teria dirigido, segundo o IMDB, 201 filmes, mas o número pode ser muito maior devido à quantidade de versões existentes de um mesmo filme (versão do diretor, versão do produtor, versão com sexo explícito enxertado) e também pelo expressivo total de projetos não-concluídos ou nunca lançados por problemas diversos.

Jess Franco iniciou-se artisticamente com música (foi trompetista e pianista) e teatro (foi ator e diretor), mas não demorou para encontrar sua vocação no cinema, primeiro como compositor, depois como assistente de outros cineastas, e finalmente como diretor, roteirista e compositor da trilha (ufa!) do seu primeiro filme, "Tenemos 18 Años" (1959).

A essa altura, ele estava com 29 anos e, por motivos até hoje desconhecidos, havia sido expulso do Instituto de Investigaciones y Experiencias Cinematográicas (IIEC), após apenas dois anos de curso. O fato de ter se tornado um dos diretores de maior filmografia da história certamente foi um belo tapa na cara dos antigos mestres...

Ironicamente, Jess trazia no seu próprio nome o de dois personagens que não lhe foram muito simpáticos durante sua longa trajetória: Jesus, para alguém que o Vaticano chamou de "o diretor mais perigoso do mundo" (junto com Luis Buñuel), e Franco, sendo que ele foi perseguido e censurado durante a ditadura do General Francisco Franco na Espanha (entre 1939 e 1975), e teve que abandonar o próprio país em que nascera para poder trabalhar em paz.


Jess, o homem que viveu e respirou cinema: "Me aposentar? Eu não vou me aposentar! Eu vou me aposentar no dia em que eu morrer", prometeu em entrevista a site norte-americano em 2009. Dito e feito: "Revenge of the Alligator Ladies", seu último filme, foi lançado seis meses depois de sua morte, em outubro de 2013!


Ao longo das próximas cinco décadas, o incansável Jess desbravou a Europa dirigindo filmes de baixíssimo orçamento, mas com um apuro visual e narrativo que se tornaria sua marca registrada. Trabalhou com praticamente todos os gêneros, dos filmes de horror ao pornô, muitas vezes mesclando ambos num mesmo trabalho (no que alguns pesquisadores chamam de "horrotica"), e sempre emendando uma produção na outra. Em alguns anos, chegou a dirigir mais de 10 filmes!

Neste meio século de trajetória, Jess só não fez faroestes. Em compensação, dirigiu cenas adicionais para um filme do Zorro assinado por Marius Lesoeur em 1975, e também escreveu roteiros para dois filmes de El Coyote dirigidos por Joaquín Luis Romero Merchant nos anos 50. Logo, nem mesmo nesse gênero ele deixou de se aventurar!

Se Jess Franco hoje é "cult", até uns 15 anos atrás a história era diferente: confessar-se fã do diretor em um grupo de cinéfilos era o mesmo que dizer que você estava com AIDS, lepra e tuberculose AO MESMO TEMPO. Geralmente, todos davam aquele sorrisinho amarelo, meio sem jeito, e te deixavam de lado, fora da conversa.

Eu mesmo já senti este preconceito ao confessar publicamente que Jess Franco era um dos meus diretores preferidos numa comunidade de cinema dos tempos do Orkut. A partir de então, alguns usuários passaram a descartar imediatamente qualquer opinião minha sobre qualquer filme justificando com algo do tipo "Ah, mas você gosta até dos filmes do Jess Franco".


Franco (centro) em ação: "Eu fiz alguns filmes interessantes, ou mais ou menos bonitos. Mas nunca fiz nada grande o suficiente, do meu ponto de vista. Grande como John Ford ou algo assim".


Felizmente, o tempo fez justiça à obra do espanhol, principalmente quando diretores consagrados como Quentin Tarantino (lá fora) e Carlos Reichenbach (aqui) começaram a falar bem de Jess Franco, forçando aquela mesma geração que antes o condenava apenas pela "fama" a procurar seus filmes para ver o que havia de tão especial (ou não) neles. Muito crítico de cinema metido também acabou dando a mão à palmatória.

Tarantino inclusive usou uma música de "Vampyros Lesbos" (1970), uma das obras-primas de Jess, em "Jackie Brown" (1997), e numa entrevista declarou que Franco e Pedro Almodóvar eram seus diretores espanhóis preferidos!

Mas Jess Franco nem precisaria de defensores como Tarantino ou Reichenbach. No passado, grandes mestres do cinema como Fritz Lang, Orson Welles e o espanhol Juan Antonio Bardem já haviam ficado igualmente impressionados com a sua obra. Os dois últimos inclusive chamaram aquele jovem hiperativo para ser assistente de direção (Franco teve a honra de trabalhar com Welles em seu lendário e nunca finalizado "Don Quixote" nos anos 50!).

Vá lá que os detratores da obra de Jesus têm argumentos risíveis. Por exemplo: aqueles que só viram um ou dois filmes de Franco (e geralmente os piores) alegam que ele não sabe usar a câmera e abusa do zoom até as cenas saírem do foco. Sim, não nego que tem muito disso na obra de Jess. Mas mostre um filme como "Miss Muerte" ou "Venus em Fúria" para esses moleques e eles ficarão completamente sem palavras.


Sexo e morte, temas comuns no trabalho do diretor. "Eu acho que sexo e morte andam juntos. Se você fizer um filme sobre sexo de uma forma divertida, é diferente. Mas se você for levar o tema a sério, aí a morte está sempre por perto", justificou Franco.


Jess continuou fazendo filmes até morrer, ainda que seus últimos trabalhos sejam produções (ainda mais) capengas gravadas direto em vídeo digital no apartamento do diretor, e com equipes minúsculas que não chegavam a 10 pessoas (resenhei um dos últimos, "Paula-Paula", na época do lançamento, em 2010. A esposa e musa Lina Romay também participou ativamente de sua obra até o fim, e morreu um ano antes do marido, em fevereiro de 2012.

Em fevereiro de 2009, Jess Franco recebeu uma distinção especialíssima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha (o equivalente ao Oscar por lá): um prêmio Goya especial pelo conjunto da sua obra. Era o "cala-boca" que faltava para os seus detratores, já que a distinção o colocou definitivamente no rol dos cineastas "respeitáveis" e imortais.

Meu primeiro contato com a obra de Jess Franco foi sem saber: no começo dos anos 1990, aluguei a fita brasileira do seu filme "The Devil Hunter" (chamado "Manhunter - O Sequestro" por aqui) sem nenhuma referência. Numa época pré-internet e pré-IMDB, você tinha que confiar nas informações dos créditos iniciais, da capinha da fita e do Guia de Filmes Nova Cultural, e nos três lugares dizia que o diretor deste filme se chamava "Clifford Brown" - um dos inúmeros pseudônimos usados por Jess durante sua longa carreira.

Ainda que, à época, eu tenha achado o filme muito ruim, algo ali me marcou para sempre e me fez ser fã dele até hoje (fiz questão de comprar o DVD recentemente lançado pela Severin nos EUA): a podreira tinha um estilo difícil de explicar, a tosquice generalizada era muito engraçada, e a nudez era constante. O que mais um pré-adolescente em busca de 90 minutos de diversão poderia querer?


Franco interpretando um padre exorcista. Sobre ser considerado um dos diretores mais perigosos do mundo pelo Vaticano, ele respondeu: "Eu não sou católico, então não ligo para isso.
Mas, de qualquer jeito, é muito estúpido. Posso citar
umas 200 pessoas que são piores do que eu!"


Depois fui tendo contato com outras obras mais conhecidas de Jess, como "Santuário Mortal" (1968) e sua adaptação de "Conde Drácula" (1969) com Christopher Lee. Já mais velho, percebi que existia uma grande qualidade nesses trabalhos, mesmo com a ausência de grandes orçamentos, e mesmo com as piadinhas feitas pelos cinéfilos "de arte" na época (que, hoje, devem estar correndo atrás do prejuízo e assistindo o maior número possível de filmes do diretor para não passar vergonha).

Aí chegou a época do DVD, e todos esses filmes passaram a ser remasterizados e lançados no seu formato original, quando toda uma geração redescobriu o trabalho de Franco e pôde perceber que a fotografia não era tosca como parecia nos tempos do vídeo. Pelo contrário, Jess Franco sabia exatamente o que estava fazendo; e, quando queria, fazia muito bem.

Ele obviamente dirigiu vários filmes bem ruins, e não dá para esperar outra coisa de alguém que chegava a fazer cinco ou seis POR ANO. Mas sejamos justos: como esperar qualidade constante numa filmografia com mais de 200 títulos? Tem diretor hoje que só fez 10 filmes, com muito mais dinheiro e recursos, e pelo menos cinco deles são intragáveis!!

Pete Tombs, famoso pesquisador de cinema "alternativo" e dono do selo Mondo Macabro (que lançou diversos dos clássicos de Jess em DVD), foi quem melhor definiu este estranho fascínio que a obra do espanhol provoca no espectador: "Franco sempre foi alguém que seguiu seu próprio caminho. Às vezes funcionava, às vezes não, mas geralmente sempre tem algo memorável ali, mesmo no pior dos seus filmes. Pode ser uma única cena, ou apenas o clima e a atmosfera".


Com Lina Romay, sua eterna musa. "Eu não acho que tenha um filme definitivo. Mas se tivesse que salvar filmes meus de um incêndio, eles seriam 'Necronomicon', 'Venus in Furs' e
'Miss Muerte'. Esses são os mais sinceros. Mas não vou dizer
que eu os amo, porque não os amo"
, declarou.

Porém, mesmo com as facilidades dessa nossa Era Internética, catalogar e descobrir a obra de Jess Franco continua sendo uma tarefa difícil. Inúmeras vezes ele filmou cenas alternativas para lançar um mesmo filme em países diferentes; em outras oportunidades, produtores e distribuidores arruinaram as versões originais inserindo cenas filmadas por outros.

É comum que a cópia lançada em um país tenha cenas de nudez, enquanto a de outro tem cenas com os atores vestidos; às vezes, atores diferentes interpretam os mesmos personagens em diferentes montagens de um mesmo filme para diferentes países, e por aí vai. Isso sem contar as versões pornô de alguns filmes que, originalmente, não eram!

Logo, qualquer cinéfilo que queira realmente se debruçar sobre a obra de Jess Franco e estudá-la terá um longo caminho pela frente - até porque faltam fontes e análises mais aprofundadas sobre a maior parte dos seus filmes. Os poucos livros dedicados à obra do diretor, como o fora de catálogo "Obsession", são mais uma coletânea de pequenas resenhas do que algo completo e definitivo.

O legal é que esse trabalho de (re)descobrir a obra de Jess pode reservar muitas surpresas. Tipo a minha satisfação ao perceber que o DVD de "The Devil Hunter" trazia várias cenas não-existentes na cópia lançada em vídeo aqui no Brasil, e que eu já conhecia praticamente de cor. Ou as cenas "alternativas" dos filmes clássicos do diretor, que volta-e-meia aparecem, dando uma nova cara a produções já conhecidas.


"Eu não me importo em ser lembrado. Não sou um grande escritor ou algo assim. Isso deveria ser reservado para quem fez algo realmente grande. Acho que um bom diretor de cinema faz filmes para divertir as pessoas, mas não deve ser considerado um Cervantes, sabe? Um filme é um filme, algo para te divertir durante algumas horas, e não para ser considerado como se fosse Shakespeare!", declarou o inesquecível Jess.


Esta MARATONA JESS FRANCO é uma singela tentativa de homenagear o primeiro aniversário de um mundo sem Jesus Franco. Por isso, resolvi fazer de abril um autêntico "Mês Franco", com atualizações diárias aqui no blog trazendo uma pequena parte da sua enorme filmografia. A relação dos filmes está aí embaixo. Foram escolhidos sem critério específico, apenas porque eram as obras sobre as quais eu queria escrever (ou já tinha resenhas prontas aqui). Para ficar mais divertido, as atualizações não seguirão esta ordem cronológica:

- O TERRÍVEL DR. ORLOFF (Gritos en la Noche / L'Horrible Docteur Orlof, 1961)
- O SÁDICO BARÃO VON KLAUS (La Mano de un Hombre Muerto /
Le Sadique Baron Von Klaus
, 1962)
- MISS MUERTE / THE DIABOLICAL DR. Z (1965
- CARTES SUR TABLE (1966)
- NECRONOMICON (1967)
- SANTUÁRIO MORTAL (Marquis de Sade's Justine / Deadly Sanctuary, 1968)
- VÊNUS EM FÚRIA (Venus in Furs, 1969)
- CONDE DRÁCULA (Bram Stoker's Count Dracula, 1969)
- PESADELOS NOTURNOS (Les Cauchemars Naissent la Nuit, 1970)
- VAMPYROS LESBOS (1970)
- ELA MATOU EM ÊXTASE (She Killed in Ecstasy / Sie tötete in Ekstase, 1970)
- DRACULA CONTRA FRANKENSTEIN / DRACULA, PRISONER OF FRANKENSTEIN (1971)
- LA COMTESSE PERVERSE (1973)
- A MALDIÇÃO DA VAMPIRA (La Comtesse Noir / Female Vampire, 1973)
- A VIRGIN AMONG THE LIVING DEAD (1973)
- JACK THE RIPPER (1976)
- MONDO CANNIBALE / WHITE CANNIBAL QUEEN (1980)
- MANHUNTER - O SEQUESTRO (The Devil Hunter / El Caníbal, 1980)
- SADOMANIA (1981)
- OÁSIS DOS ZUMBIS (Oasis of the Zombies, 1981)
- BLOODY MOON (1981)
- MACUMBA SEXUAL (1981)
- LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES (1982)
- A QUEDA DA CASA DE USHER (El Hundimiento de la Casa Usher / Revenge in the House of Usher (1983-1987)
- DIAMONDS OF KILIMANDJARO (1983)
- LA SOMBRA DEL JUDOKA CONTRA EL DOCTOR WONG (1984)
- SEM FACE (Faceless / Les Prédateurs de la Nuit, 1987)
- O MASSACRE DOS BARBYS (Killer Barbys, 1996)
- PAULA-PAULA (2010)


A partir deste ano, decreto também que todo mês de abril será "Mês Franco" no FILMES PARA DOIDOS, então podem esperar novas edições desta Maratona em 2015, 2016, 2017 e até quando existirem filmes de Jess para serem assistidos. O que, convenhamos, garantirá material para estas maratonas durante bastante tempo!

E se existir um "Outro Lado", espero que Jess Franco esteja se divertindo muito por lá, produzindo mais algumas centenas de filmes com todos os seus colaboradores que também já partiram (Soledad Miranda, Lina Romay, Howard Vernon, Dennis Price...). Isso seria o equivalente à minha noção de Paraíso...

Divirtam-se sem moderação!

PS: As frases de Franco reproduzidas nesta postagem foram retiradas de uma mesma entrevista feita pelo site de entretenimento The A.V. Club em 2009. Ela pode ser lida na íntegra neste link!