WebsiteVoice

sábado, 22 de fevereiro de 2014

ROBO VAMPIRE (1988)


Tem algo de podre no reino da Dinamarca quando o cineasta brasileiro José Padilha, conhecido por dois filmes violentos como "Tropa de Elite" 1 e 2, vai para a gringa dirigir o remake de "Robocop" e transforma um dos melhores filmes de ação dos anos 1980 (corrigindo: um dos melhores FILMES dos anos 1980 PONTO!) numa aventura infanto-juvenil quase censura livre. E, para piorar, ainda troca o homem transformado em máquina que era o herói do original por um Jiban pós-moderno.

Esqueçamos, portanto, do "Robocó" do Padilha, que merece o boicote e o esquecimento, e nos concentremos numa outra tentativa de faturar em cima do "Robocop" de Paul Verhoeven. Uma tentativa feita na Ásia, bem longe da Hollywood de Verhoeven e Padilha, com muitos milhões de dólares a menos (ou TODOS os milhões de dólares a menos) e sem um pingo de glamour.


É claro que estou falando do absurdamente hilário ROBO VAMPIRE, um daqueles filmes que redefinem o sentido da palavra "ruim". E que, justamente por isso, é divertidíssimo e inesquecível no mesmo nível de um "Star Wars Turco" ou "As Aventuras de Sergio Mallandro", e continuará sendo comentado e discutido muito tempo depois da refilmagem do Padilha cair no esquecimento.

Produzido às pressas e lançado em 1988 (ou assim diz a lenda) para pegar carona no sucesso da obra de Verhoeven (que é de 1987), ROBO VAMPIRE é mais um daqueles esquizofrênicos "filmes de colagem" realizados por picaretas de Hong-Kong para faturar uma graninha no mercado ocidental de vídeo, que estava bombando naquela época e aceitava todo tipo de produção de fundo de quintal, sem nenhum preconceito.


No começo da década de 80, dois espertalhões chamados Joseph Lai e Tomas Tang descobriram que podiam fazer uma boa grana adquirindo os direitos de velhos e obscuros filmes chineses, taiwaneses, tailandeses, filipinos e sul-coreanos para remontá-los e redublá-los especialmente para o mercado norte-americano.

Aventuras de artes marciais com ninjas estavam na moda no Ocidente graças ao sucesso de "Ninja - A Máquina Assassina". Assim, esses malucos filmavam de 15 a 30 minutos de cenas novas com ninjas e as inseriam nessas obras já prontas, dando origem a "filmes-Frankenstein" que geralmente encontravam o seu público graças a títulos escalafobéticos como "Diamond Ninja Force". E os caras eram tão malandros que chegaram a transformar até velhos dramalhões sobre doença terminal na família em aventuras com ninjas!


Apesar de usarem as mesmas táticas picaretas de produção cinematográfica, Lai e Tang começaram como sócios e depois se tornaram rivais: o primeiro fundou a IFD Films and Arts e produziu aquelas insanas aventuras de ninjas dirigidas pelo Ed Wood asiático, Godfrey Ho (saiba mais lendo as resenhas de "Ninja Thunderbolt" e "Ninja - O Protetor").

Já Tang abriu sua própria empresa, a Filmark International, e estava tão metido em negócios "suspeitos" que até hoje as informações sobre as produções da empresa e sobre o próprio Tang são bastante nebulosas e incompletas! Digamos apenas que a maioria dos filmes produzidos pela Filmark sequer tem registro no Internet Movie DataBase, e alguns deles saíram em vídeo apenas em pequenos países, sendo resgatados e redescobertos somente agora graças aos sites de compartilhamento de filmes.


O próprio ROBO VAMPIRE é um verdadeiro enigma, e isso mais de 25 anos depois de seu lançamento: a direção do negócio, assinada com o pseudônimo "Joe Livingstone", até hoje é atribuída ao pobre Godfrey Ho, que já jurou de pés juntos que nunca trabalhou para a Filmark (até o IMDB caiu na conversa). Acredita-se que quem "dirigiu" ROBO VAMPIRE foi o próprio Tang, pelo menos até segunda ordem.

(Aliás, vale ressaltar que muita gente jura que Ho e Tang são a mesma pessoa, uma lenda urbana que já foi desmentida, mas que ainda gera todo tipo de teorias conspiratórias.)

E enquanto a IFD de Lai e Ho faturava seu ganha-pão com essa malandragem de inserir cenas com ninjas em dramalhões e policiais baratos já prontos, Tang resolveu dar um tempo nos guerreiros mascarados para investir num outro filão de sucesso na época: os filmes sobre "jiangshi", os vampiros chineses.


Completamente diferentes daquela nossa noção clássica de vampiros (à la Drácula de Bela Lugosi ou Christopher Lee), os "jiangshi" se caracterizam principalmente pela forma de locomoção, que é feita aos pulinhos, como coelhos, e com os braços esticados para a frente, como sonâmbulos, coisa que os torna monstros mais risíveis do que propriamente ameaçadores!

Mesmo assim, as criaturas estavam na moda no cinema asiático de então graças à comédia de horror "Mr. Vampire" (1985), dirigida por Ricky Lau e produzida por Sammo Hung, que deu origem a diversas sequências entre 1986-1992 e, claro, várias imitações. Por isso, Tang achou melhor investir nos vampiros saltitantes para se diferenciar da companhia rival e seus ninjas de uniforme colorido. Mas "Robocop" também estava na moda, então...


ROBO VAMPIRE começa com dois soldados ocidentais (calçando All Stars ao invés de botas ou coturnos!) escoltando um prisioneiro oriental pela selva. Sem nenhuma explicação lógica, o trio acaba no meio de um cemitério e resolve abrir os caixões - que, também sem nenhuma explicação lógica, não estão enterrados, mas dispostos tranquilamente por toda parte!

De dentro de um deles pulam apenas cobras (e "pulam" mesmo, atiradas por algum contra-regra no interior do caixão!), mas do outro sai um dos terríveis vampiros saltitantes, que mata os dois soldados - o primeiro é estrangulado de maneira caricatural, e o segundo tem um naco de carne crua arrancado do pescoço com uma dentada, no único momento em que os vampiros do filme agem como os vampiros que conhecemos!


Corta para o título do filme e os créditos iniciais, um festival de nomes em inglês que, na verdade, são pseudônimos (tem até uma "Nian Watts" que deve ser parente distante da Naomi Watts!). Se fizer uma rápida pesquisa no IMDB, você descobre que nenhum desses "nomes em inglês" aparece em outro filme além de ROBO VAMPIRE - ou talvez até apareceram, mas com outro pseudônimo.

O diretor, conforme já vimos, está creditado como "Joe Livingstone", e o roteirista como "William Palmer", mas não duvide se ambos forem o famigerado Tomas Tang, escondido atrás de pseudônimos diferentes para fazer parecer que sua equipe é muito maior do que realmente era!


Quando o filme recomeça ficamos sabendo, através de diálogos expositivos, que um agente da Narcóticos chamado Tom (interpretado por ator ocidental não-identificado) está dando grandes dores de cabeça a uma quadrilha internacional de traficantes de drogas - ele é o "Alex Murphy" da história. Por isso, o chefão resolve que a melhor maneira de se livrar do herói é treinando vampiros para liquidá-lo.

Opa, peraí... Como é que é? Sim, eu sei que parece ridículo lendo assim, e é! Tanto que, nesse momento, dois capangas olham um para o outro com aquela expressão de "Que porra é essa?" (ou "WTF?") que o próprio espectador deve estar manifestando na mesma hora. Mas ninguém questiona as ordens do chefão, claro! O negócio agora é arrumar os vampiros, por mais esdrúxulo que isso soe!


Digamos apenas que nem é uma tarefa tão difícil: os traficantes contratam um Monge Taoísta (Suen Kwok-Ming) para criar e "controlar" os vampiros-coelhinhos, de maneira a usá-los contra seus inimigos. É óbvio que crucifixos e água benta não funcionam contra vampiros orientais, que têm uma mitologia completamente diferente: colar um papel com um encantamento escrito sobre os olhos das criaturas é o suficiente para dominá-las, por exemplo!

Por outro lado, os vampirinhos saltitantes têm várias cartas na manga que os tornam mais letais do que os Dráculas e Nosferatus que conhecemos, tipo as habilidades em artes marciais e o poder de teletransporte (sem virar morcego!), de cuspir gás venenoso (!!!) e de disparar mísseis pelas mãos (sim, é sério!).


Aí as coisas começam a ficar (mais) esquisitas, para não dizer insanas. Primeiro, o tal Monge Taoísta cria uma nova espécie de vampiro, um "Super Vampiro" chamado... Peter (?!?!), que na verdade é apenas um sujeito com uma máscara de gorila! O problema é que o finado Peter que foi trazido de volta à vida pelo vilão era o amado de Christine, uma Bruxa Malvada (?!?!), que está furiosa por ter perdido seu amor pelo resto da eternidade.

Felizmente, o Monge resolve o problema celebrando o "casamento" (?!?!) do seu Super Vampiro Símio com a Bruxa Malvada (que veste uma roupa transparente que revela suas peitolas). Desde que, claro, o casal obedeça às suas ordens. Sei lá, não parece muito justo para mim. E sequer tem a menor lógica. Mas não se esforce muito para entender, a coisa só piora a partir daqui!


E onde entra o "Robocop" ou coisa que o valha nessa história toda? Calma, querido leitor... A coisa só se encaminha para o plágio do filme do Verhoeven lá pelos 25 minutos do primeiro tempo, quando, durante uma batida, o herói Tom (usando um ridículo lencinho vermelho amarrado no pescoço!) e seus homens são obrigados a enfrentar os capangas vampiros pela primeira vez.

Todos os homens são mortos e o próprio Tom é atingido por uma das rajadas explosivas disparadas pelos vampiros. O ator é substituído na hora H por um boneco bastante convincente, como você pode conferir nas imagens abaixo, numa trucagem tão realista que por breves instantes eu temi pela integridade física do ator!


E apesar do boneco ser claramente explodido em pedacinhos, no take seguinte vemos Tom caindo estatelado no chão, com um sanguinho pouco convincente jogado na cara (nem tiveram o trabalho de chamuscar a roupa do cara!)

Levado para o hospital, o nobre herói morre, provavelmente pelas condições indigentes da sala de cirurgia, que mais parece uma garagem ou depósito. Ou talvez por causa dos equipamentos utilizados na operação, como um trombolho com símbolos de "mais" e "menos" piscando que é o máximo de tecnologia que vemos no "laboratório" ("mais" provavelmente significa que o paciente está melhorando, e "menos" significa que está indo para o beleléu, mas também pode ser o contrário!).


É quando um cientista barbudo e anônimo, o Miguel Ferrer de ROBO VAMPIRE, resolve transformar Murphy... Err... Tom em cyborg. Segue-se um diálogo hilário do cientista com seu comandante:

- Já que Tom está morto, pretendo usar seu corpo para criar um robô-andróide, Sr. Glen. Eu gostaria muito que você aprovasse o meu pedido.
- Você tem certeza que será bem-sucedido?
- Aham.
- Certo, seu pedido está aprovado.


(Ah, como seria bom se todas as coisas importantes fossem resolvidas/decididas assim, sem nenhuma burocracia, também na vida real...)


Depois de uma montagem de cenas de "cirurgia" que dura, quando muito, uns 20 segundos, o Robocop... Err... "Robo Warrior" está prontinho e completamente funcional! Mas, visualmente, parece mais um espantalho inspirado no visual do Robocop do que um robô-andróide, cyborg ou coisa que o valha: Tang e sua trupe só tinham dinheiro para colocar um pobre-coitado andando para lá e para cá com uma roupa de nylon pintada de spray prateado, um capacete de plástico com uma velha antena de rádio acoplada e óculos de mergulhador (ou soldador), numa fantasia tão vagabunda que provocaria gargalhadas até num baile de carnaval infantil!


E não basta apenas a roupa ser pobre, os acabamentos também são grosseiros, com remendos e costuras visíveis num traje que deveria ser de metal ou aço. Já o "capacete" é preso à cabeça do ator com uma fivela por baixo do queixo, e não com parafusos direto no crânio, como acontecia com o pobre Murphy em "Robocop"!

Felizmente, os exagerados efeitos sonoros simulam os "sons metálicos" emitidos por um robô, e isso, somado aos movimentos "duros" do ator que interpreta o Robo Warrior, passa pelo menos uma mínima ideia de que aquela espantalho ambulante com roupa de nylon é um ser biônico! Aí o Robo Warrior ganha uma metranca de tamanho descomunal e está pronto para o batismo de fogo e para se vingar dos traficantes e vampiros que provocaram sua morte, certo? Bem... Mais ou menos!

Acontece que Tang tinha que misturar cenas de um filme antigo já pronto para economizar dinheiro, lembra? Ao invés de simplificar e escolher uma produção que tivesse algo a ver com robôs e vampiros, Tang optou por uma velha aventura tailandesa chamada "ผ่าโลกันต์" (sem título ocidental; veja o pôster ao lado), estrelada pelo "Stallone tailandês" Sorapong Chatri - um super-astro praticamente desconhecido no Ocidente, mas que lá por aquelas bandas já apareceu em mais de 500 filmes!!!

Mas como inserir essas cenas antigas na aventura nova? Bem, Tang simplesmente inventou uma trama paralela em que Sophie, uma agente da Narcóticos, é capturada por outra quadrilha de traficantes e levada para o meio da selva, e Ray, o personagem de Sorapong Chatri, é convocado para detonar os vilões e resgatá-la (imagens abaixo). Óbvio que o Robo Warrior seria muito mais eficiente nesta missão, mas não se esqueça de que estamos falando de cenas de filmes diferentes, e por isso seus personagens não podem se cruzar!


A partir de então, ROBO VAMPIRE se divide entre essas cenas da velha aventura tailandesa (que são razoavelmente bem feitas e garantem a cota de tiros e explosões que Tang não tinha dinheiro para filmar por conta própria) e as "cenas novas", que mostram o Robo Warrior enfrentando os vampiros comandados pelos traficantes.

O problema básico disso, além das duas narrativas que correm em paralelo e nunca se "encontram" (algo que já acontecia nas aventuras de ninjas de Lai e Ho), é que não faz o menor sentido colocar um robô indestrutível para enfrentar vampiros que também são indestrutíveis às armas "convencionais" utilizadas pelo herói, ao invés de traficantes e bandidos "humanos"! Isso é tão inútil quanto querer filmar um duelo de armas de fogo entre o Super-Homem e o Incrível Hulk, já que ambos são totalmente imunes aos tiros!


Assim, eu não sei exatamente o que o roteirista tinha na cabeça quando bolou esse enredo insano, mas como o robô não pode ser vampirizado ou sequer arranhado pelas garras e presas dos vampiros, e nem estes podem ser afetados pelos tiros disparados às centenas pelo herói, os esforços de herói e vilões são completamente inúteis!

(Claro que, no final, os tiros do Robo Warrior misteriosamente começam a fazer efeito e destruir os vampiros, algo que o filme nunca se preocupa em justificar, mas que lembra aqueles velhos jogos de videogame em que você tinha que atingir o chefão da fase 10 ou 20 vezes para conseguir destruí-lo!)


ROBO VAMPIRE é uma daquelas atrocidades que só podem ser curtidas e analisadas como comédias involuntárias. Nesse caso, até mesmo as cenas que não são responsabilidade direta de Tang, aquelas reaproveitadas do filme tailandês, têm sua cota de podreira, incluindo um boi verdadeiro sendo cortado para a colocação de pacotes de cocaína no seu interior, e a cândida cena em que o astro Sorapong Chatri espia uma garota tomando banho e solta a pérola: "Que bela visão! Você devia se banhar com mais frequência!". (Detalhe: ele pega a moça com esse papinho, então talvez valha a pena tentar na vida real.)

Num dos momentos mais engraçados dessas cenas reaproveitadas, uma garota se atira pela janela de uma cabana e, no take seguinte, é substituída por um dublê homem mais do que perceptível, até porque usa uma inexplicável peruca cinza (a atriz que o dublê deveria estar substituindo é loira)!!!


E se não bastasse o Robocop de quinta categoria provocar risadas toda vez que aparece, graças à pobreza do figurino e aos exagerados efeitos sonoros "robóticos", Tang nunca consegue aproveitar seu herói de forma convincente, já que ele não consegue lutar debaixo daquela roupa tosca e nem tem muito a fazer disparando tiros contra vampiros que são imunes a eles!

Felizmente, na cena final, o Robo Warrior subitamente se lembra que sua metranca também funciona como lança-chamas (hein?), e usa o fogo para destruir o Super Vampiro Símio Peter - que, por limitações orçamentárias, neste momento é substituído por uma simples camisa (sem ninguém dentro, nem mesmo um boneco!) em chamas, e presa por um fio que também acaba pegando fogo e ficando visível, levando o espectador às lágrimas de tanto rir (em algo que lembra o impagável duelo final da aventura turca "Death Warrior").


Tudo considerado, ROBO VAMPIRE não faz sentido algum, e é aí que reside grande parte da sua graça. No seu esdrúxulo micro-cosmo, traficantes podem contratar um monge para ressuscitar vampiros que são usados como capangas, enquanto um agente morto pode ser transformado em robô indestrutível em questão de segundos - e o fato de terem esperado que o herói morresse para criar o "Robo Warrior", ao invés de reaproveitar outro dos diversos agentes assassinados até então, é uma simples formalidade nunca justificada.

ROBO VAMPIRE é, principalmente, uma aventura imbecil, em que herói e vilões são praticamente indestrutíveis e podem ficar brigando eternamente sem que o conflito tenha fim - a não ser quando o diretor decide que está na hora de terminar o filme. Obviamente, não há nenhum espaço para abordar a "desumanização" do herói, como Verhoeven fez, e nem mesmo a ironia do confronto "ciência x sobrenatural" entre robôs e vampiros. O que importa, aqui, é empilhar as cenas de pancadaria, tiroteios e explosões que o público das videolocadoras esperava ao ver a capinha da fita, mesmo que o resultado seja completamente nonsense, como você pode conferir no vídeo abaixo:

Robo Warrior vs. Vampiros




Por sinal, algumas cenas de ação são até passáveis (muito mais que as lutas entre ninjas da produtora concorrente), principalmente quando os vampiros demonstram suas habilidades em artes marciais naquele velho esquema "atores pendurados por fios". Outras são simplesmente psicodélicas, como o confronto entre o Robo Warrior e Christine, a Bruxa Malvada - não é todo dia que você vê um Robocop genérico tomando porrada de uma bruxa voadora!

Já as cenas de tiros e explosões filmadas por Tang (não as do filme tailandês reaproveitado por ele) são bem precárias, com armas visivelmente falsas (parecem até de brinquedo!) e tiros de festim pouco convincentes, além do já citado uso de bonecos toscos entre takes. Lá pelas tantas, quando o Robo Warrior é atingido por tiro de bazuca, novamente o ator é substituído pelo que parece um espantalho envolto em papel laminado (abaixo)! Eu já vi produções semi-amadoras, filmadas na garagem da casa do cara, com efeitos e trucagens melhores do que essas de ROBO VAMPIRE!


Embora seja inacreditavelmente ruim (não tenha nenhuma dúvida sobre isso), ROBO VAMPIRE ainda consegue se manter um degrau acima de outras "colagens" feitas pela IDF e pela Filmark, principalmente pelo inusitado da sua mistura de temas e gêneros. Lembre-se que o que temos aqui é uma aventura de ficção científica e horror que joga no mesmo balaio um cyborg, traficantes de drogas, vampiros, um Super Vampiro com cara de gorila, uma Bruxa apaixonada por ele e ainda soldados "humanos" enfrentando traficantes na selva (nas cenas reaproveitadas do filme tailandês), e até dois alívios cômicos, interpretados por Sun Chien e Donald Kong To. Esperar um mínimo de coerência ou mesmo de sentido desse avacalhado coquetel de situações seria esperar demais, e tudo que o espectador pode fazer é sentar no sofá, desligar o cérebro e praticamente sentir seus neurônios sendo destruídos por Tang e sua obra.


Infelizmente, ROBO VAMPIRE não conquistou a mesma popularidade que outras tosquices do gênero, como o já citado "Star Wars Turco", e é uma pérola obscura mais conhecida de nome - principalmente graças ao seu impagável pôster, que traz a figura do Robocop "oficial" sem nenhum medo de processo! - do que propriamente vista ou analisada (e isso que chegou a sair em VHS no Brasil, pela saudosa Poderosa Filmes).

Tang até tentou reaproveitar seu Robo Warrior em um outro filme, o ainda mais inacreditável "Counter Destroyer" (1989), mas ali o robô faz apenas uma participação especial (o diretor deve ter encontrado a fantasia numa caixa na sua garagem e resolveu usar de novo).


É uma pena, porque o personagem tinha potencial. Afinal, depois de enfrentar traficantes de drogas e vampiros na sua aventura de estreia, o céu é o limite quando pensamos em futuras aventuras. Em "Robo Vampire 2", o herói poderia lutar contra terroristas iranianos que na verdade são lobisomens à procura da cidade perdida de Atlântida povoada por marcianos.

Ou tudo isso trocado. No fim, não faz nenhuma diferença mesmo...

PS: Como eu disse nos parágrafos iniciais, a vida de Tomas Tang é um completo mistério, bem como seu paradeiro. Nos anos 1990, saiu a notícia de que o produtor havia morrido no incêndio do prédio da sua produtora, mas há quem argumente que Tang estava atolado em problemas legais até o pescoço e simplesmente simulou a própria morte, a exemplo do que fez recentemente o brasileiro Sady Baby. Enfim, sua biografia é tão cheia de lacunas que certos pesquisadores defendem que nunca existiu um "Tomas Tang" de verdade: este seria o nome usado por diferentes cineastas para assinar produções vagabundas da qual não tinham nenhum orgulho, tipo um "Alan Smithee" asiático. Confesso que já nem sei mais em qual versão acreditar, mas a obscura trajetória do misterioso Tomas Tang certamente renderia um belo livro, ou pelo menos um documentário tão doido quanto os filmes que ele produzia!


Veja ROBO VAMPIRE na íntegra!



*******************************************************
Robo Vampire (1988, Hong-Kong)
Direção: Tomas Tang (provavelmente)
Elenco: Um monte de desconhecidos escondidos por trás
de pseudônimos em inglês, o que torna sua identificação
muito difícil mais de 25 anos depois!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Entrevista com Dedé Santana - Parte 1


Há alguns meses, quando eu soube que o ex-Trapalhão Dedé Santana estaria de passagem pela minha cidade-natal como atração principal do Circo Mix, decidi que não perderia a chance de entrevistar o meu segundo preferido do quarteto (depois, claro, do Mussum).

Nascido em 1936, descendente de ciganos e filho de artistas de circo, Dedé sempre viveu nos picadeiros (consta que apareceu em seu primeiro espetáculo circense quando tinha apenas alguns meses de vida!). Não demorou para ele levar esse humor circense para a TV e para o cinema, primeiro com a dupla humorística Maloca e Bonitão (com o falecido irmão Dino Santana), e depois na famosa parceria com Renato Aragão que daria origem aos imortais Trapalhões.

Várias entrevistas com Dedé Santana já foram feitas, mas eu queria abordar um aspecto que geralmente meus colegas jornalistas deixam de fora: o diretor de cinema Dedé Santana. Porque hoje pouca gente lembra, mas ele assinou quatro filmes da fase de ouro do quarteto ("Os Trapalhões e o Mágico de Oróz", "A Filha dos Trapalhões", "Os Trapalhões no Reino da Fantasia" e "Os Trapalhões no Rabo do Cometa"), mais um quinto sem Renato, "Atrapalhando a Suate", dos tempos em que os Trapalhões estavam separados.


Inicialmente, o contato com o pessoal do circo em que ele iria se apresentar foi complicado, já que dias e horários para a entrevista eram marcados e desmarcados (depois descobri que o astro teve queda de pressão num dos dias e precisou passar algumas horas no hospital em observação). Mas não desisti: numa das noites em que o circo se apresentaria, fui acompanhar o show normalmente como espectador, e, ao final, quando Dedé distribuía autógrafos, aproveitei para me infiltrar entre os vários fãs e o abordei:

"Sr. Manfried Sant'Anna?" - este é o nome de batismo do Trapalhão.

Ao ouvir seu nome completo, Dedé fez uma daquelas suas típicas caretas de Trapalhão e respondeu fingindo medo: "Rapaz, para me chamar por este nome, só pode ser encrenca!". Estava quebrado o gelo. Mesmo sendo um dos artistas mais populares do Brasil, que teve sua cara associada a programas de TV, filmes, discos, camisetas, produtos diversos e até revistas em quadrinhos, Dedé Santana é uma pessoa simpaticíssima e humilde!

Ao mestre, com carinho: presenteando Dedé com o DVD de um dos meus filmes, "Canibais & Solidão" (que presente de grego!)

Comentei sobre minha intenção de entrevistá-lo e ele ficou animadíssimo; especialmente quando disse que não iria lhe questionar sobre Renato Aragão ou Os Trapalhões, como já é costume entre os colegas de profissão. Não demorou para Dedé revelar-se um verdadeiro apaixonado pelo trabalho atrás das câmeras, que inclusive ficou feliz por ser entrevistado como cineasta, e não como ex-Trapalhão pela milionésima vez.

Infelizmente, Dedé Santana continua um astro com agenda cheia. Eu só tive direito a uns 40 minutos com ele, no intervalo entre uma apresentação e outra. O resultado o leitor acompanha a seguir. Percebam que usei "Parte 1" no título dessa postagem, justamente porque essa entrevista não foi concluída - ela foi interrompida quando estava mais ou menos na metade!

Mas Dedé percebeu meu interesse e garantiu que no futuro me concederia mais tempo para uma possível segunda parte. Enquanto isso, vejamos o que o carismático Manfried Sant'Anna comentou sobre amazonas alemãs, macacos, as lições que aprendeu com Ary Fernandes, J.B. Tanko e Adriano Stuart, a influência dos musicais de Hollywood nos seus filmes, e muito mais...



FILMES PARA DOIDOS: Dedé, você estreou como diretor no "Atrapalhando a Suate"...
DEDÉ SANTANA (interrompendo): Na realidade, o primeiro filme que eu fiz se chamava "Os Desempregados", em preto-e-branco e tal. Esse foi o primeiro que escrevi e dirigi, e também é conhecido como "Os Irmãos Sem Coragem". Naquela época eu não podia colocar meu nome como diretor porque não tinha carteira.

FPD: Quem assinou a direção foi...?
DS: Foi o [Antonio Bonacin] Thomé, que era só o diretor de fotografia. Mas como eu não podia assinar como diretor, eu falei: "Olha, assina você, Thomé. Eu assino só como roteirista". Isso foi em mil novecentos e antigamente, eu nem lembro o ano mais! [Nota: o filme foi lançado em 1972]

FPD: E era um filme do Maloca e Bonitão.
DS: Isso, e quem fazia o Bonitão era meu irmão. Com esses personagens nós fizemos... Deixa eu ver... Esse "Os Desempregados", "Deu a Louca no Cangaço", "2000 Anos de Confusão" (ambos de 1969)...

FPD: E uma participação no "Se Meu Dólar Falasse" (1970), lembra?
DS: Isso, isso. Eu fazia várias participações nessa época, fiz até para filme estrangeiro.

FPD: O alemão aquele, "Lana, Rainha das Amazonas" (1964)!
DS (arregalando os olhos): Você já viu "Lana, Rainha das Amazonas"?

FPD: Sim pô, eu gosto muito desse filme! (risos)
DS: Por sinal, consegui uma cópia dele só agora, eu não tinha. Aí fui assistir e pensei comigo mesmo: "Belo canastrão esse cara!". (risos)


FPD: Já que estamos falando nele, o que você acha de "Lana, Rainha das Amazonas"?
DS: Rapaz, para a época ele foi muito bem. Na Alemanha, todo filme que tratava de amazonas e essas coisas fazia sucesso, tanto é que esse filme estourou lá fora. Na Alemanha, fiquei sabendo que chegou a ter filas na porta dos cinemas para ver "Lana, Rainha das Amazonas"! (risos) Inclusive aquela menina... A loira... Uns dois anos depois ela trocou de nome e ficou muito famosa. Ela trocou para Maria Schell, e, pode ver, fez até filmes famosos. Mas naquela época ela ainda não era a Maria Schell. (risos)

[Nota: Dedé na verdade fez confusão, já que a atriz de "Lana, Rainha das Amazonas", chamada Catherine Schell, não tem nada a ver com Maria Schell, que é uma outra atriz. Em todo caso, Catherine também apareceu em filmes famosos, como "O Prisioneiro de Zenda" e "007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade".]

FPD: Também nesse filme o vilão é o Átila Iorio, que teve presença marcante na sua vida, já que foi seu sogro durante muitos anos e você até batizou um filho com o nome dele (Attila Iorio Santana, mais conhecido como Dedé Santana Jr.).
DS: Isso aí. Pô, o cara sabe tudo de mim! (risos) Eu não vou te dar meu livro! Você já sabe tudo, por que quer o meu livro?

Átila Iorio (esq.) e um jovem Dedé em "Lana, Rainha das Amazonas"

[Nesse momento, Dedé pega uma sacola que estava do lado do sofá e tira dois exemplares do livro "Eu e Meus Amigos Trapalhões", que escreveu sobre sua carreira e vida religiosa, e deu de presente para mim e para meu irmão Rodrigo, que estava presente filmando a entrevista.]

FPD: Eu nem sabia que existia esse livro. É novo?
DS: Na verdade saiu agora, eu fiz ele mais para venda interna. Mas fala de todos os filmes, dos meus grandes amigos, tipo... Olha aqui... (mostra fotografia de Carlos Alberto de Nóbrega) O grande Carlos Alberto... E olha essa aqui... (pára numa foto dele com Renato Aragão, ambos jovens nos anos 1960) Olha só como era Dedé e Didi no começo! O Dedé tinha o corpo que o Didi tem hoje, e o Didi era ainda mais magro!

FPD: E o Didi tinha cabelo...
DS (apontando para a foto): Pô, olha só que cabelão! (passa para outra foto com Renato e Roberto Guilherme, o Sargento Pincel, nos anos 90) Essa aqui é em Portugal. Muita gente não sabe, mas quando pensavam que eu estava fora da televisão, na verdade eu estava em Portugal. O Didi continuou fazendo o Criança Esperança, mas eu saí. Pensavam que eu estava desempregado, mas na verdade estava em Portugal. Ficamos três para quatro anos em primeiro lugar de audiência lá, três anos batendo o primeiro lugar, e depois, lá pelos três anos e meio, caiu um pouco, mas ainda era uma audiência muito alta.


Abertura do programa "Os Trapalhões em Portugal"
 


FPD: Foi boa essa experiência em Portugal?
DS: Olha, foi a primeira vez que eu me senti artista na vida. (abre um sorrisão)

FPD: É mesmo?
DS: Foi. porque o tratamento lá era fora de série. Eu tinha o meu próprio camarim, meu próprio camareiro, meu próprio maquiador. Aí pensei: "Pô, agora sim tou me sentindo um artista!". Mas menos de um ano depois, a Globo já tinha mais estrutura que eles. Hoje a Globo... Rapaz, eu tenho muito orgulho de trabalhar com eles. Você vê, eu moro em Itajaí (Santa Catarina). Quando eles me contrataram, eu falei que queria continuar em Itajaí. Disseram que não tinha problema, e hoje me dão passagem de avião, hotel, carro à disposição e tudo mais quando tem gravação! Mas claro que nunca vou esquecer de outras emissoras que mataram a minha fome, como a Record, onde fiquei dois anos com "A Escolinha do Barulho", e o SBT, onde fiz "Dedé e o Comando Maluco" por quatro anos.

FPD: Voltando ao "Lana, Rainha das Amazonas", acho que foi um dos seus raros papéis sérios, não foi?
DS: Na verdade meu papel era meio comédia, porque o cara batia palmas para uma cobra e ela saía correndo! (risos)

Capanga dos vilões, Dedé atira num montão de índios e acaba levando flechada nas costas em "Lana, Rainha das Amazonas"!

FPD: Ah, mas você é da turma dos bandidos, mata um montão de índios e até toma uma flechada nas costas!
DS: É mesmo, levo uma flechada! (risadas sonoras) Na realidade mesmo, eu me assustei quando fui no cinema na época. Não com a versão alemã, mas com a versão brasileira...

FPD: Por causa da quantidade de mulher pelada? (risos)
DS: Não, porque... Bom, para a época isso aí também foi uma coisa chocante. E o filme deu bilheteria no Brasil, talvez até por causa disso. (risos) Naquela época ainda era muito difícil ver mulher pelada no cinema. Mas o que aconteceu foi o seguinte: estou lá eu olhando o letreiro (créditos iniciais) do filme e aparece Christian Wolff, que era tipo o Kirk Douglas da Alemanha, depois Átila Iorio, depois o nome da menina, e depois Dedé Santana sozinho na tela, bem grande! Eu, no cinema, pensei: "Meu Deus do Céu, o que é isso?". Porque eu esperava meu nome bem pequeno. Já na versão alemã não, lá meu nome aparecia bem pequeno.

FPD: Como foi que você começou a dirigir?
DS: Rapaz, eu sempre tive o sonho de dirigir! Inclusive estudei para isso, fiz um curso com o Ary Fernandes (ao lado), que você sabe que foi o Vigilante Rodoviário. O Ary fazia um verdadeiro milagre naquela época porque se encarregava de tudo: ele escrevia, dirigia, montava... Ele fazia tudo! E o filme, na época, demorava uns dois ou três dias para ver depois que você filmava, mas mesmo assim ele conseguia fazer um episódio do Vigilante Rodoviário a cada 10 dias! E com cachorro! É muito difícil trabalhar com criança e qualquer animal, porque você não consegue dirigir, falar "Vai ali" e fazer ele ir. Enfim, fiz um curso com o Ary e, no primeiro dia, perguntei quanto ele iria me cobrar. Ele respondeu: "Olha Dedé, não vou te cobrar nada, mas você tem que vir lá em casa". Então eu acordava às quatro, cinco horas da manhã e ia para a casa dele. Geralmente, acabava tomando café na casa dele, oito da manhã, porque ele só saía de casa pelas onze. E o Ary se interessou tanto por mim que às vezes passava do horário. Tipo, "Te dou mais uma horinha", mas passávamos duas horas ali discutindo roteiro. Eu aprendi muito com ele, principalmente em matéria de enquadramentos. Outro grande professor meu foi o J.B. Tanko. Ele era um grande diretor, mas o que mais aprendi com ele foi como construir um roteiro. Começou assim: uma vez eu tive uma ideia de fazer um filme baseado em "O Planeta dos Macacos".

FPD: "O Trapalhão no Planalto dos Macacos" (1976)!
DS: Isso, "O Planalto dos Macacos". Eu vi o filme original no cinema e pensei: "Pô, a gente podia fazer uma sátira disso!". Um dia nós estávamos filmando numa gruta, não lembro para qual filme, e eu falei: "Seu Tanko, tive uma ideia para um filme que vai estourar na bilheteria! Vamos fazer uma sátira do Planeta dos Macacos". E ele: "Mas o quê? Pára com isso! Vamos continuar a filmagem!". Depois, na hora do almoço, ele me puxou para o lado e disse: "Dedê, vem aqui almoçar comigo e me fala mais desses macacos". Porque era assim que ele me chamava por causa do sotaque, de “Dedê”. [Nota: Tanko era originário da antiga Iugoslávia]. Aí o Tanko me levou para Muriqui, onde ele tinha uma casa de praia, e falou: "Dedê, te convidei para passar uns dias aqui comigo, mas quero que você faça aquele roteiro sobre o qual me falou". Respondi: "Mas como, Seu Tanko?". E ele repetiu: "Faça o roteiro". Eu insisti: "Mas como assim 'faça o roteiro'?". Aí ele me explicou: "Olha, os diálogos não precisa, você apenas construa o roteiro, faça uma sinopse". Depois disso eu não demorei, fiz praticamente de um dia para o outro, e entreguei. Ele leu, leu, e falou: "Não, não, tudo errado!". (risos)


FPD: Qual era o problema?
DS: O próprio Tanko me explicou: "Você entra num ambiente fechado e não sai mais. Não é assim! O povo precisa respirar! Se você começar fechado, você abre depois, deixa o povo respirar! Acho melhor você fazer outro roteiro". Aí ele me deu mais alguma dicas, eu reescrevi tudo, o Tanko leu e falou: "Tá ótimo!". Tanto é que você vê, em "O Planato dos Macacos", o crédito "Colaboração no roteiro: Dedé Santana". Não só nesse, mas em outros também. E eu aprendi isso com ele. Agora, sobre humor no cinema, eu aprendi muito com o Adriano Stuart.

FPD: Adriano Stuart, grande mestre!
DS: Ele era ligeiro, inteligentíssimo, sabia tudo! Aí de repente ele mudava tudo, falava: "Olha, ao invés de abrir aqui, você abre ali. Aí o Didi vem por ali, você tropeça nele e cai aqui". Ele inventava tudo na hora! E o Adriano era um mestre mesmo, porque o pai dele era um mestre do humor, o Walter Stuart. Ele criou o primeiro circo de televisão, o Cirquinho Bombril. [Nota: Walter Stuart foi o idealizador e apresentador do programa semanal "Circo Bombril", da TV Tupi, em que artistas circenses se apresentavam ao vivo.] Eu aprendi muito com esses dois caras, o Tanko e o Adriano Stuart. Agora, o Tanko era muito corajoso... Eu dava muito palpite, até me chamava de palpiteiro. Teve uma vez que ele me chamou a atenção: "Ô Dedê, deixa eu fazer o meu filme? No dia que você fizer o seu filme pode falar, mas agora eu estou fazendo o meu!". Mas eu realmente dava muito palpite, chegava nele e dizia: "Ô Tanko, você não acha que essa cena devia ser de tal jeito?". Aí tinha uma coisa engraçada... Às vezes eu dizia "E se o senhor fizesse assim, assim e assim", e ele me cortava: "Dedê, faz favor! Me deixa trabalhar!". Aí quando ele começava a gravar, pensava um pouco e perguntava: "Ô Dedê, como você falou mesmo para fazer a cena?". (risos) Aí eu dizia: "Olha, Seu Tanko, eu faria assim, assim e assim". E ele: "Isso! Isso! Vamos fazer assim!". Acabava fazendo muita coisa do jeito que eu sugeria para ele. Na verdade, eu tinha mais prática em circo, em humor, em como cair. Tanto que em todos os filmes do Tanko, todas as lutas que você viu foram marcadas por mim, às vezes eu até dirigia.

Foi Dedé quem sugeriu a aventura no "Planalto dos Macacos"

FPD: E nos primeiros filmes vocês mesmos faziam tudo, sem dublês.
DS: Isso. Hoje ficou fácil, hoje tem dublês e trazem até gente dos Estados Unidos para marcar as lutas. É tudo muito bem feito, claro, mas naquela época não tinha, e aí quem se defendia nesse setor era o "Dedê"! (risos) Mas voltando ao "Planalto dos Macacos": quando eu expliquei minha ideia para o Tanko, ele achou que as máscaras dos macacos seriam um problema. E realmente, na época, isso ficaria muito caro, porque o ator só podia usar uma vez, no fim da cena arrancava tudo e precisava construir outra depois. Então ele disse: "Olha Dedê, a tua ideia é boa, mas é impossível". Eu perguntei: "Mas, Seu Tanko, e se eu fizer a máscara?". Ele respondeu: "Bom, se você fizer a máscara, esse vai ser o nosso próximo filme!". (risos) Então eu comprei uma máscara de macaco, que na época estavam vendendo por causa do sucesso de "O Planeta dos Macacos", recortei ela toda e deixei só a parte do nariz e da boca. Colei ela, fiz uma maquiagem no resto do rosto e filmei com uma câmera Super 8, porque o Tanko queria ver na tela. Quando ele viu, ficou surpreso: "Mas como você consegue isso? Se eu chamar uma maquiadora, você explica tudo?". Aí ele chamou a melhor maquiadora do Rio e compramos uma outra máscara melhor, de borracha. A maquiadora viu e disse: "É possível, mas vamos ter que usar uma maquiagem especial para enrugar o resto do rosto que fica fora da máscara". Aí fizemos o filme, e foi um sucesso de bilheteria!

FPD: Você quase morreu durante as filmagens, né? [Dedé sofreu um acidente grave ao bater a motocicleta que pilotava contra um poste, onde bateu a cabeça. Precisou ficar internado durante um tempo e inclusive se submeter a cirurgia plástica no rosto antes de retornar ao set do filme].
DS: Deus me livre! E não só isso: eu inventei sarna para me coçar com aquela história de me transformar em macaco. Porque eu não gosto de dublê, nunca usei nos meus filmes...

FPD: Coisa de artista de circo.
DS: É... E o Tanko tinha me avisado para usar um dublê quando eu me transformava em macaco, mas eu insisti: "Não, Seu Tanko, quero fazer eu mesmo". E foi a maior mancada que eu dei! (risos) Eu botava a maquiagem às seis da manhã e tinha que ficar daquele jeito até a última cena! Na hora de comer, não tinha comida: era vitamina tomada com canudinho! Me arrependi e hoje acho que devia ter usado dublê mesmo, porque eu sabia que era eu ali, mas o público só vê um macaco!

Dedé como "macaco": era ele mesmo por baixo da máscara!

FPD: Podia ser qualquer um!
DS: Sim! E "O Planalto dos Macacos" foi um filme que me deu muita alegria, mas também muito cansaço. Quando a gente bateu em 30 dias de filmagens eu já estava até meio traumatizado, rapaz! Já estava me dando pânico, não queria mais colocar aquela máscara! Fiquei num mau humor que eu mesmo não me aguentava, só de saber que tinha que colocar a máscara toda hora! Meu Deus do Céu! Mas no final deu tudo certo.

FPD: E por que você não dirigiu mais nada até "Atrapalhando a Suate" (1983)?
DS: Para falar a verdade, eu dirigi todas aquelas cenas de "Os Saltimbancos Trabalhões" (1981) nos Estados Unidos, no Universal Studios, com o tubarão e tal. E dirigi nos Estados Unidos sem falar inglês, eu tinha um intérprete, e acabou que me saí bem. O engraçado é que eu recebi uns três palpites muito bons lá, e me lembrei de quando eu fazia isso com o Tanko. (risos) Acontece que eles lá (se referindo à equipe norte-americana) são muito éticos para falar com o diretor, para eles o diretor é um deus e eles me tratavam como tal. Mas eu era muito popular, brincava com todo mundo, brincava de falar inglês e eles morriam de rir, e tal. E me lembro muito bem que eu fiz uma cena em que o Didi vinha lá de trás, no cenário do "Guerra nas Estrelas", e coloquei a câmera para pegar metade do boneco do "Guerra nas Estrelas" vindo por cima dele. Aí eu senti uma espécie de mal-estar na equipe... Não exatamente um mal-estar, um clima esquisito. Perguntei para o intérprete o que estava acontecendo, e ele disse: "Sabe o que é, aqui eles não dão nenhum palpite, mas o diretor de fotografia tem uma ideia e queria transmitir pra você". Eu pedi para ele contar sua ideia, e o cara me explicou que se eu colocasse a câmera embaixo, nos pés, o Didi apareceria pequeninho no fundo, mas conforme chegasse perto ele ia crescendo cada vez mais, e aí eu abria a câmera e ele apareceria bem no ombro do boneco. Na mesma hora eu disse: "Ótimo, vamos fazer assim!".

Dedé filmou as cenas na Universal de "Os Saltimbancos Trapalhões"

FPD: Mas o pessoal estava com vergonha de sugerir para o diretor. (risos)
DS: Pois é, eles não queriam falar. Mas rapaz, esse diretor de fotografia acabou ficando meu melhor amigo lá, só porque eu aceitei a ideia dele. Outro palpite foi numa cena em que a gente saía correndo de dentro de um foguete. Eu gravei várias cenas e já ia terminar a filmagem, porque era quatro e meia da manhã e estava um frio danado. De novo, ele pediu para falar comigo, me deu uma dica para posicionar a câmera, e aquilo me salvou a sequência inteira!

FPD: A sua volta como diretor, em "Atrapalhando a Suate", foi por causa daquela separação do Renato dos demais Trapalhões...
DS (interrompendo): Na verdade não foram os Trapalhões que brigaram, foram as empresas, a Renato Aragão Produções e a Demuza. O irmão do Renato [Francisco Paulo Aragão] me ligou avisando que eles iam fazer um filme sem a gente, aquele do dinossauro Papangu ["O Trapalhão na Arca de Noé"]. E quando ele falou que iam fazer o filme sem a gente, na verdade eles já estavam até filmando! O Renato não quis se meter muito, era uma briga de empresas, e um dia o Mussum ligou para a minha casa e disse: "Ô compadre, você não falou que era diretor de cinema? Então vamos fazer o nosso filme!". Aí nós nos reunimos e foi quando surgiu a ideia do "Atrapalhando a Suate", porque tinha aquele seriado "SWAT" no ar, na Globo, e fazia muito sucesso.

[Nota: Aqui Dedé tentou suavizar um pouco a história, já que, na época, houve uma briga dos três Trapalhões com Renato Aragão - ou seja, não foi apenas uma separação de "empresas". A reportagem abaixo, publicada pela Folha de São Paulo na época da produção de "Atrapalhando a Suate", traz inclusive declarações magoadas dos três Trapalhões contra seu então ex-líder Renato Aragão.]

Reportagem sobre "Atrapalhando a Suate" na Folha de 09/10/83

FDP: Foi muito difícil escrever um roteiro para os três Trapalhões sem o Didi?
DS: Não, no dia seguinte eu já tinha toda a história do filme. Eu queria fazer uma cena meio trágica, com os heróis sendo expulsos da Suate e agindo por conta própria. [Nota: É bem possível que seja uma referência à "expulsão" do trio do novo filme de Renato Aragão na época.] Aí eu falei: "Mussum, vou precisar de umas músicas específicas para o filme, porque quero fazer várias cenas musicais no meio". E o Mussum disse: "A música pode deixar comigo!". E logo ele veio com aquela letra (cantarolando) "Tã-na-nam que a Suate chegou". Foi ele e alguns sambistas amigos dele, agora não me recordo o nome, mas eram famosos pra caramba! [Nota: Um dos compositores da trilha do filme foi Jorge Aragão.] Ele levou os caras na casa dele e fizeram tudo. Outra coisa sobre a trilha sonora é que o Mussum, certa vez, me contou uma história da infância dele sobre uma babá, e eu pedi para ele fazer uma outra música em homenagem às babás. Também tive a ajuda de um grande amigo meu, o Victor [Lustosa] que fez todos os filmes dos Trapalhões e é meu compadre, sou padrinho da filha dele. A gente era muito amigo e eu o convidei, o Victor arriscou a carreira e largou tudo para ficar comigo!

FPD: Ele também ajudou você a dirigir, não foi?
DS: Ajudou, tanto no "Suate" quanto no "Mágico de Oróz" (1984).

FPD: Que foram os únicos dois filmes que ele dirigiu...
DS: Não, ele fez... (pensando) É, acho que foram só esses dois mesmo! Mas ele escreveu muitos filmes para a gente, e nesse momento inclusive está escrevendo um roteiro para mim. Eu tenho que levar ele para Santa Catarina, porque a gente trabalha muito rápido eu e ele. É uma coisa incrível, cara! Eu visualizo a cena e conto para ele representando, e ele vai anotando e assimila muito bem. Ele é ótimo! Há pouco tempo ele fez um roteiro para um filme sobre uma mulher muito famosa de Santa Catarina, não lembro o nome, mas é um fato histórico bem conhecido. E o projeto só não foi aprovado porque uns caras passaram na frente e fizeram um documentário sobre o mesmo assunto. Eu ia aparecer no filme, ia fazer um papel lindo, de marinheiro, acho que seria meu primeiro papel sério de verdade no cinema, mas não deu.


FPD: E o que você acha do "Atrapalhando a Suate", Dedé?
DS: Olha... Bom, você sabe que todo filme pertence à sua época, e para aquela época ele foi muito bem feito. A gente não tinha recursos, usamos uma câmera só, e eu cismava em fazer umas cenas difíceis. Dizia pro Victor: "Quero fazer um cara andando num cabo de aço com uma moto!". E ele: "Não dá, não temos trucagens". Aí eu respondia: "Mas tem um número de circo que o cara faz isso, eu vou buscá-lo!". O cara que fazia o macaco também era de circo, todo mundo jura que é um macaco de verdade, mas não é. Fui catar esse cara também. E eu tinha um sonho, quando era pequeno queria ser escoteiro, e o Zacarias parece que até foi escoteiro. Então aproveitei e coloquei isso no filme, aquele final com os escoteiros bombardeando os vilões com farinha, e a minha sorte é que foi tudo aprovado pelo Mussum e pelo Zacarias. Acho que deu muito certo, graças a Deus. A parte musical ficou lindíssima, e teve uma música que, mais tarde, nós gravamos com todos os Trapalhões, e foi a única música do quarteto que tocou no rádio direto. Sabe aquela (cantarolando) "Todo mundo deve entrar na dança...".

FPD: Caso as empresas não tivessem voltado, a Demuza tinha outros projetos em vista? Vocês chegaram a falar sobre futuros filmes sem o Didi, ou não deu tempo?
DS: Na realidade, eu não queria! Eu fui muito contra isso porque esperava... Eu queria voltar. Não adianta... O Boni inclusive me falou naquela época... Minto, foi o Roberto Marinho quem falou, ele nos chamou e disse: "Vocês são a galinha dos ovos de ouro, por que vão matar a galinha? Vocês têm que voltar". E eu provoquei muito essa volta através de um grande amigo, o Beto Carrero, que era meu amigo de infância. Eu o conheci com 17 anos de idade. Ele apareceu no circo do meu pai querendo ser artista, dizia: "Eu quero ser o Cowboy Brasileiro!". E meu pai brincava: "Olha, se for cowboy não é brasileiro! Para ser brasileiro, você precisa ser vaqueiro, boiadeiro...". (risos) Mas não adiantou, ele ficou nessa de "Cowboy Brasileiro" e foi! Anos depois, eu convidei o Beto para fazer um dos meus filmes, aquele com a Xuxa...

Renato Aragão e Xuxa no "Reino da Fantasia"

FPD: "Os Trapalhões no Reino da Fantasia" (1985).
DS: Sim, que foi um filme muito difícil para filmar, porque era difícil de reunir todo mundo naquela época. Então eu tive que fazer muito plano fechado dos atores sozinhos e depois, na montagem, intercalar para parecer que eles estavam todos juntos conversando, quando na verdade foi tudo filmado separado!

FPD: Sei como é, eu faço muito dessas malandragens... (risos) Mas depois do "Atrapalhando a Suate" os Trapalhões voltaram e você virou o diretor oficial dos filmes do quarteto durante alguns anos. Era muito difícil dirigir o Renato?
DS: Na verdade, eu sempre digo que os Trapalhões não são dirigidos, eles são marcados. Como é que você vai dirigir os Trapalhões? Era meio difícil... Então funcionava mais na base de dicas, uma coisa que eu aprendi com o Tanko. Por exemplo, eu tenho esse ambiente aqui. O que eu preciso filmar aqui? (Gesticulando) Bom, o Mussum vem dali, o Didi surge pelo teto e cai aqui, eu venho por baixo e o Zacarias vem de lá... Então eu não dirigia, eu explicava a cena e cada um fazia do seu jeito. Eu não ia mandar em como o Mussum tinha que falar, tipo "Chega aqui e fala 'tranquilis'", ou "Didi, você fala 'psit'". Não, eu apenas indicava a cena. Como na Renato Aragão Produções eu tinha mais recursos, várias vezes trabalhei com duas câmeras: uma ficava no geral e a outra cercando os atores, o que era muito bom. Eu dizia para esse segundo câmera: "Fica na cara do Renato, porque ele é muito imprevisível. Agora fica no Mussum". Inclusive no "Reino da Fantasia" teve cenas que filmei com três câmeras para não precisar refilmar: coloquei uma no plano geral, outra em plano médio e a terceira só em detalhes. O pessoal me dizia: "Mas Dedé, você não vai conseguir montar isso depois". Mas eu consegui fazer! Todas aquelas cenas de teatro do "Reino da Fantasia" foram feitas numa batida só, e depois eu mesmo montei na moviola, olhava as cenas e dizia: "Peraí, eu sei que tem um plano fechado disso que dá para aproveitar". Hoje é tudo no computador, mas naquela época era na moviola, filminho por filminho. (pausa) Dos filmes que eu dirigi, você sabe qual é a minha menina dos olhos?

FPD: "A Filha dos Trapalhões" (1984).
DS: "A Filha dos Trapalhões"! Eu adoro esse filme! Agora, "O Mágico de Oróz" acho que foi um filme que eu fiz muito bem, consegui transmitir bem até na figuração, e isso eu agradeço ao meu compadre Victor, porque ele me ajudou muito a escolher os figurantes. As cenas musicais também são lindas. Bom, você viu que todo filme meu tem musical, né?

FPD: Por falar nisso, Dedé, quais são as suas influências cinematográficas?
DS: Eu via muito filme musical americano. Posso até te dizer: "Sete Noivas para Sete Irmãos" (1954), se contar, acho que vi umas 12 vezes...

FPD: Por isso que depois vocês fizeram "O Casamento dos Trapalhões" (1988)?
DS: Isso mesmo. E "Amor, Sublime Amor" (1961) eu perdi as contas de quantas vezes vi. (começa a cantarolar a música-tema do filme).


E foi justamente nesse momento que a equipe do circo interrompeu a entrevista, dizendo que Dedé precisava se preparar para a apresentação. Após uma rápida sessão de autógrafos - no meu pôster de “Atrapalhando a Suate” e na capa do LP de “Os Trapalhões na Serra Pelada” do meu irmão -, e de um elogio recebido do eterno Trapalhão pela minha curiosidade sobre a sua carreira de diretor, me despeço com a promessa de voltar a incomodá-lo num futuro próximo, para a já anunciada Parte 2 dessa entrevista.

Esperemos, portanto, que o reencontro seja breve, pois Dedé Santana é um artista com muitas histórias para contar, e que infelizmente poucos jornalistas e pesquisadores parecem dispostos a ouvir, já que sempre lhe perguntam as mesmas coisas de novo, de novo, de novo e de novo...

Eu e meu irmão Rodrigo com Dedé no picadeiro do circo!