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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES (1976)


Em determinado momento de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, o proprietário do estabelecimento citado no título, que é interpretado por José Mojica Marins, diz para uma de suas funcionárias: "As emoções não fazem sentido". Confesso que não entendi o que o personagem quis dizer no contexto da cena, mas ele bem que poderia estar se referindo ao próprio filme.

Afinal, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES não faz o menor sentido - e me refiro tanto à história quanto ao fato de um negócio como esse existir em primeiro lugar! Curto e grosso, o filme é desconexo, arrastado e redundante, e passa a impressão de ser um curta-metragem esticado para longa só para poder passar nos cinemas.

Mesmo assim, o resultado é uma daquelas maluquices estranhamente hipnóticas que, por mais que esteja odiando, o espectador não consegue parar de ver. E muito disso advém da criatividade do nosso "Zé do Caixão" para filmar com um mínimo de recursos e ainda assim conseguir tirar algo minimamente original de quase nada.


A história por trás de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES já é bem conhecida: em 1975, quando enfrentava problemas financeiros e familiares, Mojica entregou o projeto para que um integrante da sua trupe, Marcelo Motta, dirigisse em seu lugar. O "discípulo" já fazia parte do seu grupo de colaboradores habituais desde 1969, e havia inclusive trabalhado como assistente de direção em seu longa anterior, "Exorcismo Negro" (1974).

A princípio, Mojica iria aparecer apenas como ator. Porém, lá pelas tantas, ele foi obrigado a assumir o controle sobre o filme, mexendo na edição e filmando novas cenas para o que acabou sendo a montagem final. Pesquisadores da obra do diretor são unânimes em afirmar que o resultado parece mais coisa dele do que de Marcelo Motta - e duvido que o próprio Mojica saiba dizer, hoje, quem filmou o quê, embora alguns momentos claramente "mojiquianos" sejam facilmente identificáveis.


Ninguém sabe ao certo, também, porque Mojica precisou assumir a cadeira de diretor que pertencia ao discípulo para terminar o filme. A versão mais comum indica a falta de experiência de Motta como motivo principal, já que o material filmado por ele estaria repleto de erros de continuidade e cenas fora de foco, acarretando em atrasos e custos desnecessários com refilmagens (e se um cara barateiro como o Mojica optou por refilmar cenas, é porque o negócio estava brabo MESMO!).

A outra versão (repetida pelo próprio Mojica numa entrevista que fiz com ele em São Paulo no ano passado) é um pouquinho mais complicada: na época das filmagens, Marcelo Motta estaria enfrentando problemas amorosos com uma namorada prestes a deixá-lo e isso se refletiu no trabalho, forçando Mojica a assumir o comando para que o filme não ficasse inacabado. A obra foi finalmente finalizada e lançada em 1976.


Seja como for, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES marca uma espécie de fase de transição na carreira do popular Zé: ele tinha acabado de sair da sua primeira "superprodução" - "Exorcismo Negro", de 1974, bancada pelo todo-poderoso Aníbal Massaini Neto e sua Cinedistri -, onde pôde pela primeira vez trabalhar com um orçamento decente e atores mais famosos, tipo Joffre Soares.

Mas, a partir de então, Mojica despencaria de volta para os filmes de baixo ou nenhum orçamento, engatando uma sequência de obras inexpressivas que, assim como A ESTRANHA HOSPEDARIA..., ficariam muito melhores como curtas-metragens. E, caso fossem reeditados e transformados em episódios de meia hora, poderiam até compor uma coletânea estilo "O Estranho Mundo de Zé do Caixão Parte 2", e funcionar bem melhor.


A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES também marca o surgimento da própria companhia de Mojica, a Produções Cinematográficas Zé do Caixão. Só que esta primeira produção da empresa era tão barata que apenas ele, a editora Nilcemar Leyart e o diretor de fotografia Giorgio Attili eram técnicos profissionais; todos os demais, incluindo o diretor Motta e diversos dos atores, eram integrantes da trupe de Mojica ou alunos de sua escola de atores, que ajudaram a bancar o filme comprando cotas dele!

O roteiro é de Rubens Francisco Lucchetti e, segundo algumas fontes, teria sido adaptado de um dos episódios do velho seriado de horror apresentado por Mojica - só não se sabe se de "Além, Muito Além", exibido pela Bandeirantes entre 1967-68, ou de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", exibido pela Tupi entre julho e novembro de 1968. Inclusive o personagem do dono da hospedaria, aqui assumido pelo Zé, teria sido interpretado por Juca de Oliveira no episódio original do seriado.


A trama é bastante simples e poderia muito bem ser resumida num curtinha de 20 minutos ou até menos: Mojica é o misterioso proprietário da "Hospedaria dos Prazeres", que fica num local ermo, mas mesmo assim recebe dezenas de clientes numa noite de sexta-feira, 13 de agosto - e uma noite de tempestade, claro!

Apesar de o personagem a priori não ter nada a ver com Zé do Caixão, a única diferença entre eles é que aqui o ator usa um chapéu-coco no lugar de cartola; o resto, das divagações sem sentido às unhas compridas e olhos arregalados em close, é exatamente igual. Mas sempre é engraçado ver Mojica tentando interpretar um sujeito mais dócil e "refinado", bem diferente do sádico e fiasquento Zé do Caixão.


Os hóspedes - doze, no total - são um casal de noivos que passa o filme inteiro trepando (interpretados por Caçador Guerreiro e pela linda Marizeth Baumgartem), um grupo de motoqueiros/hippies, industriais preparando alguma negociata secreta, jogadores de pôquer, um sujeito (José Peres Ortega) que seduz coroas ricas para roubar-lhes o dinheiro, uma mulher desmemoriada, um suicida em potencial (Tomé Francisco) e até uma quadrilha de ladrões de joalherias!

Todos esses dementes chegam à Hospedaria dos Prazeres na mesma noite, com um curto intervalo de tempo entre um e outro.


A partir daí, não acontece muita coisa nem há qualquer tipo de conflito entre os personagens: confinados em seus respectivos quartos, o casal de noivos trepa; os hippies fazem uma suruba e ficam cantando "Tá todo mundo nu, oba!"; os jogadores de pôquer jogam pôquer e fumam muito; os industriais ficam assinando contratos; a mulher desmemoriada fica se perguntando "Quem sou eu? Onde estou?"; a quadrilha de ladrões fica dividindo o produto do roubo, e assim por diante.

Depois de uns bons 50 minutos simplesmente pulando de um quarto para outro até encher o saco, já que nada de muito emocionante acontece, finalmente surge a reviravolta, quando o espectador descobre que o dono do local na verdade é a própria Morte, e todos os seus hóspedes "desencarnaram" momentos antes de aparecer na hospedaria: os bandidos foram mortos num tiroteio com a polícia, o suicida explodiu os próprios miolos, o sedutor de coroas tomou um pipoco de uma amante enciumada, os hippies despencaram com suas motos de um barranco...


Assim, a Hospedaria dos Prazeres seria uma sucursal do Além, uma espécie de sala de espera para as almas dos falecidos antes que elas sejam encaminhadas ao seu destino final. Ou, talvez, o inferno particular de cada finado - e convenhamos que não seria nada mal um inferno particular onde você passasse a eternidade numa suruba de hippies, ou numa cama transando com a Marizeth Baumgartem!

Enfim, o filme não se preocupa em explicar o que exatamente é a hospedaria além de um local de concentração de almas desencarnadas, e cada um fica livre para imaginar o que quiser: se dali eles partirão para um local melhor/pior, ou se estão condenados a ficar presos em seus quartos pela eternidade sem saber que morreram.


Antes que me acusem de soltar spoilers sobre a "surpresa final" de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES... Bem, digamos que o próprio roteiro não é lá muito eficiente em tentar esconder essa "reviravolta", jogando pistas o tempo todo para que até o espectador mais burro e desatento consiga enxergar o "final-surpresa" pelo menos uma hora antes de ele aparecer.

Por exemplo: a Hospedaria dos Prazeres tem um relógio-cuco na parede, mas ele não tem ponteiros; ao mesmo tempo, os relógios de cada hóspede pararam numa hora diferente (a hora da morte de cada um deles... dã!).

O fato de o nome dos hóspedes já estar anotado no livro de registro no momento em que eles chegam ao local, e de o proprietário da hospedaria ficar largando frases como "Sempre existirá vaga para quem voluntariamente ou involuntariamente for indicado à minha casa", ou "Os hóspedes querem descansar", também não ajudam muito a esconder a "surpresa".


Logo fica claro que, com um conceito simplório como esse, não há muita história para contar (e o fato de a montagem simplesmente alternar cenas dentro de um quarto ou outro durante a maior parte do filme comprova a falta de assunto).

Aí entram pelo menos duas sequências (aparentemente rodadas pelo próprio Mojica) que só estão no filme para encher linguiça e fechar o tempo de um longa-metragem, ambas no início, de maneira que o espectador impaciente pode pulá-las sem medo de perder algo importante para a trama principal.


A primeira dessas descartáveis cenas introdutórias mostra dançarinas de baby-doll colorido rebolando ao som de batuques num cenário surreal, que é formado por tendinhas feitas com lençóis e uma floresta mambembe habitada por criaturas bizarras.

As tais criaturas são de uma pobreza franciscana (figurantes vestindo máscaras de Carnaval e peitos e bundas de plástico, provavelmente comprados na 25 de Março), mas a visão delas incomoda - eu definitivamente não queria viver no mesmo universo ou dimensão que essas criaturas bizarras!


E depois de uns bons sete ou oito minutos da Dancinha do Baby-Doll entrecortada com as criaturas com máscara da 25 gritando, eis que a tampa de um caixão posicionado no meio do cenário se abre, e de dentro sai ninguém menos que... Zé do Caixão (Mojica reprisando seu famoso personagem, mas só para introduzir a história, já que o dono da hospedaria, como vimos, não tem nada a ver com o Zé).

Olhando diretamente para a câmera e para o espectador, dublada com uma voz grossa (e diferente daquela usada no restante do filme, que pertence a João Paulo Ramalho), a entidade diabólica de capa e cartola faz mais um dos seus tradicionais discursos escalafobéticos, que até vale a pena transcrever aqui:

"Viver para morrer ou morrer para viver? Existe a resposta certa? Não! Somente dúvidas. Somente deduções. Só a certeza do vazio. Da solidão. Da desesperada procura do tudo ou do nada. Da vastidão das trevas. Pois o desvendar desse enigma seria o fim do mistério, o fim do segredo da Eternidade, o apogeu da alegria diante de uma missão cumprida. Pois o homem estaria frente a frente com a sua maior conquista: o despertar da própria origem."


Quando o discurso se encerra (com direito a sujeira no negativo criando belos efeitos, como você pode ver acima), o espectador percebe que essa "introdução" já comeu uns bons 10 minutos de tempo corrido, e ela não tem absolutamente nenhuma relação com a história do filme, num verdadeiro teste de paciência para os espectadores que ainda não estão acostumados às doideiras (e malandragens) de José Mojica Marins.

Aí entram mais três minutos de créditos iniciais, desenhados sobre fotografias reais de um cemitério, com os nomes dos atores e técnicos pintados sobre lápides e túmulos, criando um belo (ainda que mórbido) efeito. E apesar de Mojica ter assumido a bronca, o único diretor creditado é Marcelo Motta.


Parece que o filme finalmente vai começar de verdade, certo? Errado!

Aparentemente, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES tinha tão pouca história que Mojica foi obrigado a filmar uma SEGUNDA INTRODUÇÃO, dessa vez mostrando imagens do "Cosmos" (bolinhas de isopor penduradas por fios de nylon visíveis, em frente a imagens do espaço), ilustrando um novo discurso sem pé nem cabeça de Mojica, dessa vez em off, e que também vale a pena transcrever:

"Perguntar qual é o tamanho do Universo é o mesmo que perguntar qual é o término da Eternidade. Qual é a verdadeira forma de Deus? Quantas estrelas? Quantos planetas? Quantas galáxias existem na vastidão do Universo? São perguntas sem respostas, para além existe uma dimensão inferior. Por que o término? Por que você não aceita a extinção? Por que o medo, o vazio da sua presença, se você é superior? O que lhe espera quando o manto mortífero descer sobre você? Só a sua imaginação lhe dirá. É o fim? É o início? O nada? O tudo? Sim. Você teme o materialismo. Você teme a si mesmo. Contempla o Cosmos. Dá vazão a uma fantasia mental. A ilusão das ilusões, em busca de uma verdade real. É um clarão na escuridão. É a magia da luz que desponta. São brisas do sopro divino que lhe acariciam o seio. É a alegria incontida que envolve sua mente. É uma palavra como em moto-contínuo, que se repete e se repete. Mas não despreze o quanto é majestoso o seu significado. A luz da existência. A camuflagem da morte é o despertar da vida."


Óbvio que este novo monólogo de Mojica também não faz o menor sentido e nem tem o menor valor para a trama do filme; é tão prolixo e desconexo quanto o discurso de Zé do Caixão na "primeira" introdução, e absurdamente redundante!

Mas o bla-bla-bla sobre as "imagens do Cosmos" come mais uns seis minutos do filme, e é então que a trama principal de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES finalmente começa... depois de exatos 15min46s de asneiras e encheção de linguiça! Fico até imaginando a cara dos espectadores que viram a estreia disso nos cinemas na época, já que parece que o filme não vai começar nunca!


Para fechar a longa lista de problemas da obra, o roteiro de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES é tão caótico que em vários momentos afronta a sua própria lógica (ou falta de lógica). Talvez isso tenha acontecido no processo de esticar a historinha simples para virar longa, mas o fato é que há furos monstruosos numa trama que, na essência, deveria ser bem simples.

Acompanhe: no momento em que descobrimos que a hospedaria é uma sucursal do Além, e que seus hóspedes estão todos mortos sem saber disso, é impossível não lembrar que, durante a narrativa, várias outras pessoas tentaram se abrigar no local para escapar da mesma tempestade, mas foram enxotadas pelo personagem de Mojica porque não havia "vaga" para elas - ou seja, essas pessoas ainda estavam vivas.


Mas ora bolas, se elas estavam vivas, teoricamente nem deveriam enxergar a "Hospedaria do Além" em primeiro lugar, não concordam? Isso parece ser apenas uma desculpa para a previsível cena de revelação no final, quando, na manhã seguinte aos acontecimentos mostrados, um dos clientes "vivos" enxotados volta à pensão com a polícia e encontra... um cemitério no lugar onde ficava a hospedaria!

A revelação do final também torna absurda a primeira cena do filme (não aquelas introduções fuleiras, me refiro à primeira cena do filme MESMO), que mostra um anúncio de jornal pedindo empregados para trabalhar na pensão. Vários interessados se oferecem, mas Mojica escolhe apenas dois que "já foram recomendados" (ou seja, provavelmente estão mortos, ou em breve estarão).

Bem, se Mojica é a Morte, e a hospedaria uma sala de espera para o Além, por que diabos ele precisou colocar anúncio no jornal, se os seus empregados-vítimas chegariam até ali de qualquer forma?


O caso é que talvez seja inútil procurar alguma lógica em A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, já que, conforme o próprio hospedeiro anuncia, "as emoções não fazem sentido". E nem dá para esperar nada muito diferente de uma obra filmada nas condições em que esta foi filmada, pois a pobreza e o improviso são mais do que perceptíveis.

Era tão pouco dinheiro para fazer o filme que Mojica economizou uns trocados na dublagem reaproveitando músicas e efeitos sonoros de obras anteriores, tipo os sons esquisitos de "O Despertar da Besta", e até a cantoria dos hippies (o antológico "Tá todo mundo nu, oba!") de "Finis Hominis - O Fim do Homem"!


Mesmo assim, há momentos muito criativos como recompensa para quem resistir à repetição excessiva de takes e situações. Como na cena em que o suicida explode os miolos com um tiro, e uma cachoeira de sangue desce sobre a lente da câmera (acima). Ou quando, para simular um "milagre", uma fina folha de filme plástico é incendiada em frente à câmera, criando algo bem próximo a "estrelinhas" por apenas alguns centavos!

Ou, ainda, quando um coração batendo (cena provavelmente retirada de alguma filmagem real de cirurgia) é exibido em sobreposição à imagem do relógio sem ponteiros. A revelação da "verdadeira face" do dono da hospedaria também é fantástica, e eu não duvido que várias dessas belas imagens - se não todas - saíram da cachola do próprio Mojica, acostumado a se virar com o pouco que tinha.


Já outros improvisos não ficaram tão bons, tipo uma cena em que, para representar a periculosidade do dono da hospedaria, vários animais são mortos instantaneamente apenas com um olhar do vilão.

Para demonstrar esse efeito na prática, ratinhos brancos foram colocados sobre uma chapa metálica e eletrocutados para morrerem de verdade na hora da filmagem, numa trucagem que, além de não convencer, ainda pode ser considerada de péssimo gosto.


E vale destacar que a ideia dos mortos que não sabem que estão mortos ainda era relativamente nova na época, mesmo já tendo aparecido em filmes tão díspares quanto "Um Passo Além da Vida" (1944) e "Contos do Além" (1972), e em toda uma variedade de contos e histórias em quadrinhos de horror. Mais recentemente, o tema seria abordado ad nauseam até transformar-se num clichê pra lá de batido, graças aos "finais-surpresa" de filmes tipo "Alucinações do Passado" (1990), "O Sexto Sentido" (1999) e "Rota da Morte" (2003), entre tantos outros.

Mesmo assim, A ESTRANHA HOSPEDARIA... passou batido na época e está entre as obras menos comentadas e/ou conhecidas do diretor. Um dos poucos a enxergar pontos positivos - talvez mais até do que realmente existem - foi o mítico Jairo Ferreira, que escreveu uma engraçada crítica para a Folha de São Paulo de 28 de janeiro de 1977 (abaixo), mais uma vez comparando Mojica a Buñuel!

Jairo Ferreira achou o filme "bastante bom"

Mesmo que eu concorde com quase todas as críticas negativas ao filme, principalmente aquelas que reclamam do ritmo arrastado, da repetição de cenas e do fato de praticamente nada acontecer até a revelação final, confesso que tenho certa admiração por A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES. Quem sabe até pela sua extrema ruindade, ou talvez pelo seu título fenomenal somado ao cartaz fora de série (desenhado pelo mestre Benício), uma obra de arte que eu adoraria ter na minha coleção.

Ou, quem sabe, pela presença da belíssima Marizeth Baumgartem (abaixo), uma promessa de estrelinha da Boca do Lixo que não vingou e sumiu do mapa logo depois (antes ela tinha feito pequenas participações em pornochanchadas, como "Cada Um Dá o que Tem" e "Pesadelo Sexual de um Virgem", mas seu papel de maior destaque foi aqui).


E se Marcelo Motta foi escanteado por Mojica nessa sua estreia como diretor, depois ele pôde demonstrar plenamente o seu "talento" na pornochanchada "Chapeuzinho Vermelho - A Gula do Sexo" (em que novamente dirigiu seu mestre Mojica numa ponta, como Zé do Caixão!) e no pornô "O Império do Sexo Explícito".

Este, por sinal, parece ter sido o seu último trabalho como diretor, e depois Motta também sumiu do mapa. A informação que rolava era que ele trabalhava bem longe do mundo do cinema, como integrante da diretoria do Jockey Club de São Paulo, mas parece que o Marcelo Motta em questão é apenas um homônimo. Assim, o "original" permanece sumido. Quem tiver informações sobre o seu paradeiro, escreva para o FILMES PARA DOIDOS!


A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES circulou durante anos no universo da pirataria em cópias ripadas do velho VHS da América Vídeo, que foi lançado no Brasil nos anos 1990, naquela época em que Mojica tinha virado "cult" nos Estados Unidos e nossas distribuidoras começaram a correr atrás do atraso.

Recentemente, a Focus Filmes relançou o filme numa desastrosa edição em DVD, com qualidade de imagem muito pior que a do velho VHS, incluindo um "falso widescreen" que corta o topo e a parte de baixo da imagem. Essa versão é tão escura que algumas cenas ficaram simplesmente incompreensíveis, e não vale nem os R$ 12,90 que a distribuidora está pedindo - é melhor ficar com o VHS-Rip mesmo, por incrível que pareça!


Depois de A ESTRANHA HOSPEDARIA..., Mojica dirigiu uma série de filmes bem fracos, e tão baratos quanto este, que também passam a ideia de serem curtas desnecessariamente esticados para longas. São eles, na ordem, "Inferno Carnal", "Perversão" e "Mundo - Mercado do Sexo".

Também lançou "Delírios de um Anormal", que é mais uma montagem dos melhores momentos de seus outros filmes do que uma trama independente. Dessa série toda de produções inexpressivas, acho que A ESTRANHA HOSPEDARIA... ainda é o meu preferido - mesmo, repito, com todos os seus defeitos.


Depois de "Delírios de um Anormal", Mojica teve que abandonar à força o cinema de horror por "exigências de mercado", e mergulhou fundo no universo do cinema pornô, dirigindo produções asquerosas como "A Quinta Dimensão do Sexo" e "48 Horas de Sexo Alucinante" - onde filmou algumas cenas mais horripilantes do que as dos seus filmes de horror OFICIAIS!

Em 1987, após mais um pornô hoje considerado perdido ("Dr. Frank na Clínica das Taras"), o velho Zé do Caixão retirou-se para um exílio forçado longe da cadeira de diretor, que durou até 2008, quando ele comandou sua segunda (e provavelmente última) superprodução, "Encarnação do Demônio".

"As emoções não fazem sentido", nos lembra o dono da Hospedaria dos Prazeres. Mas tudo bem: para aproveitar a deixa, tampouco faz sentido o que aconteceu com a carreira e a filmografia de José Mojica Marins a partir desse filme...


Trailer de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES



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A Estranha Hospedaria dos Prazeres 

(1976, Brasil)
Direção: Marcelo Motta (e José Mojica Marins)
Elenco: Mojica, Marizeth Baumgartem, Caçador
Guerreiro,  Luzia Zaracausca, David Hungaro,
Francisco Tomé e José Peres Ortega.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

APERTEM OS CINTOS... O PILOTO SUMIU! 2ª PARTE (1982)


"Ted, eu tenho a estranha sensação de que já passamos por isso tudo antes", diz Elaine Dickinson, a aeromoça interpretada por Julie Hagerty, lá pela metade de APERTEM OS CINTOS... O PILOTO SUMIU! 2ª PARTE, quando seu eterno par romântico Ted Striker (Robert Hays) é obrigado a assumir o posto de piloto de uma aeronave depois da morte da tripulação - mais ou menos como já havia acontecido em "Apertem os Cintos... Parte 1"!

É possível que tenha sido apenas mais uma piada dos realizadores dessa sequência, filmada e lançada apenas dois anos depois do sucesso do original. Mas o diálogo de Elaine/Julie também pode ser encarado como uma honesta auto-crítica, como se os realizadores e intérpretes da continuação tivessem noção de que não estão fazendo nada de diferente além de trocar um avião por um ônibus espacial, mas repetindo as situações (e piadas) do primeiro filme.


Inicialmente, roteiro e direção de APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE (subtitulado, no original, "The Sequel", ou "A Sequência") foram oferecidos aos mesmos responsáveis pelo primeiro, o famoso Trio ZAZ - formado por Jim Abrahams e pelos irmãos David e Jerry Zucker. Mas eles recusaram a proposta, alegando que já tinham esgotado todas as piadas com cinema-catástrofe e aeronaves em perigo no primeiro filme, e não teriam nada de novo para mostrar (ou com que brincar).

Assim, o estúdio responsável por "Apertem os Cintos..." (Paramount) resolveu contratar um diretor-roteirista genérico qualquer para imitar o Trio ZAZ, acreditando que uma sequência ainda teria potencial para arrecadar alguns milhões de dólares nas bilheterias. O escolhido foi o canadense Ken Finkleman, um nome de pouca expressão que, até aquele momento, havia escrito o roteiro de uma outra continuação, "Grease 2".


Sabendo que tinha uma batata quente nas mãos, já que o primeiro "Apertem os Cintos..." tinha sido um grande sucesso de público E de crítica, Finkleman se acomodou numa zona de conforto e resolveu não inventar muito, basicamente apenas reciclando as piadas que já tinham funcionado no original, e até resgatando a maioria dos seus personagens, já que "em time que está ganhando não se mexe".

A tática nem sempre funciona, e a sensação é de se estar ouvindo a mesma piada pela segunda vez, só que agora contada por alguém que não sabe contar piadas direito. E embora continue explorando os clichês dos filmes-catástrofe tipo "Aeroporto", APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE muda o alvo da sátira para outra direção: os filmes de ficção científica.


No início, um letreiro que "sobe" pela tela, da mesma maneira que os letreiros iniciais da série "Star Wars", explica que estamos no futuro, que a humanidade começou a colonizar a Lua e prepara o primeiro lançamento de um voo comercial para o satélite natural da Terra - o ônibus espacial Mayflower I.

Não demora para a história contada pelo letreiro se transformar numa narrativa pornográfica barata, que é interrompida quando o próprio ônibus espacial cruza a tela e despedaça o letreiro como se tivesse atravessado uma placa de vidro. Engraçadinho...


A partir de então, desenrola-se a sequência de créditos iniciais ao som da clássica música-tema de Elmer Bernstein, bombardeando o espectador com uma verdadeira saraivada de piadas diversas, como acontecia no original: tem aparelho de raio-X do aeroporto que mostra mulheres sem roupa, uma mãe que despacha seu bebê de colo para o compartimento de bagagens da aeronave, e até uma mulher que vai ao balcão de informações do aeroporto perguntar se deve fingir os seus orgasmos!

Finkleman está tão ansioso em mostrar serviço que brinca até com a morte de diversos inocentes, quando uma turma de estudantes vai visitar a torre de comando do aeroporto e um moleque confunde o computador que ajuda um ônibus espacial a aterrissar com um videogame, explodindo a nave em pleno ar!


Logo o espectador descobre que Ted Striker, o herói do primeiro filme, foi promovido a piloto de testes do tal ônibus espacial que vai para a Lua, mas sofreu um novo colapso nervoso depois de uma aterrissagem que deu errado. Ted alegava problemas com o equipamento da nave, mas foi julgado e condenado a internação num manicômio cujo nome é uma "homenagem" ao ex-presidente norte-americano Ronald Reagan.

Já sua amada, a aeromoça Elaine, foi promovida a técnica de computadores e encontrou um novo amor no piloto espacial almofadinha Simon (Chad Everett), com quem fará a viagem lunar. Ambos já estão com o casamento agendado para a volta.


É claro que Striker tinha razão sobre os problemas técnicos do Mayflower. E, ao saber que a aeronave fará sua viagem inaugural para o espaço, ele resolve fugir do hospício e arrumar um lugarzinho no voo, para poder estar por perto caso algo aconteça - as passagens já estão esgotadas, mas Ted consegue a sua facilmente com um cambista no próprio aeroporto!

Do time original, também volta o Capitão Oveur (Peter Graves), agora promovido a piloto de ônibus espacial, talvez numa brincadeira com o personagem de George Kennedy na série "Aeroporto", que sempre era promovido de um filme para o outro, conforme a necessidade de ele aparecer. Oveur continua com uma atração irresistível por garotinhos, e faz aquelas mesmas perguntinhas impertinentes a um garoto que visita o cockpit da nave, como acontecia em "Apertem os Cintos...".


Vários passageiros do filme original retornam para uma nova viagem fadada ao desastre, e interpretados pelos mesmos atores. Alguns reprisam seus papéis apenas na cena do julgamento de Striker, quando são chamados a testemunhar sobre os eventos ocorridos em "Apertem os Cintos..." - tipo a mulher histérica que precisa ser contida a tabefes (Lee Bryant), algo que se repete em pleno tribunal, e o negro que só fala por meio de gírias incompreensíveis (Al White).

Os hare-krishnas que estavam no avião no filme original também reaparecem, mas não chegam a participar da "tragédia" dessa vez: eles ficam em terra, no balcão da sua nova empresa aérea chamada "Transcedental Air"!

Como passageiros do voo em perigo, temos uma família em que o marido está fugindo acusado de estupro, e que viaja com a esposa, o filho pequeno e o cachorrinho de estimação; um padre sem-vergonha; uma ninfomaníaca que usa a tragédia iminente como desculpa para transar com todos os demais passageiros, e um casal de velhotes que já tinha aparecido no primeiro filme.


Quando o Mayflower entra em órbita, a suspeita de Striker se confirma: o computador de bordo, ROK 9000 (provavelmente um parente distante do HAL 9000, de "2001 - Uma Odisseia no Espaço", e que fala com a voz do próprio diretor Finkleman), enlouquece e assume o controle da nave, mudando o curso para enviá-la diretamente para o Sol. Os tripulantes tentam deter a ameaça computadorizada, mas ROK se livra dos humanos fazendo com que sejam sugados para o espaço, ou então envenenando-os com gás tóxico.

Aí sobra para Ted Striker o desafio de salvar a pátria mais uma vez. Para isso, ele precisa não apenas lutar contra o computador e retomar o controle da nave, mas também lidar com uma ameaça de bomba, já que um dos passageiros, Joe Seluchi (interpretado por Sonny Bono), pretende explodir o ônibus espacial no ar para que sua esposa ganhe o dinheiro do seguro (uma citação direta a "Aeroporto", inclusive repetindo alguns dos diálogos daquele filme).


No momento em que a nave perde sua tripulação, retornam também os controladores de voo de "Apertem os Cintos...", Steve McCroskey (Lloyd Bridges) e o hilário Johnny (Stephen Stucker), aqui inexplicavelmente rebatizado como Jacobs - e em papel-duplo, já que ele também aparece na cena do tribunal como um personagem diferente.

Só que a "jurisdição" da equipe acaba na Terra, e eles logo passam a bola para o comandante da base lunar de Alfa Beta, Buck Murdock (William Shatner!!!), que voou com Striker na trágica missão de guerra em Macho Grande (!!!). Murdock precisa esquecer o rancor para ajudá-lo a pousar a nave, e é uma cópia mal-disfarçada do Rex Kramer interpretado por Robert Stack no original, já que o veterano ator provavelmente recusou-se a voltar na sequência.


Quem melhor definiu APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE foi o crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, ao dizer que em nenhum momento realmente importa o fato de o filme se passar num espaçonave, pois todas as situações envolvendo tripulantes e passageiros são idênticas às de um avião comercial - e, neste caso, idênticas àquelas já mostradas em "Apertem os Cintos... Parte 1".

Parece até que o diretor-roteirista Finkleman não estava à vontade para tentar criar algo novo, repetindo a maioria das piadas, como as coisas jogadas para fora do quadro que são atiradas de volta, o "drinking problem" de Striker e até a cena em que ele conta uma história do seu passado para uma velhinha e ela aparece morta no final da narrativa - detalhe: é a MESMA ATRIZ (Ann Nelson) que se suicida após ouvir a história do protagonista na Parte 1!


Finkleman também cai na mesma armadilha que muitos imitadores do Trio ZAZ caem até hoje: piadas com outros filmes que só fazem sentido caso o espectador tenha visto estes filmes. A brincadeira com E.T. ligando para casa até que é fácil de entender, mas e quando Striker foge do manicômio escondido num caminhão carregado com vagens gigantes, numa citação a "Vampiros de Almas" (1956)?

E se a aparição de Shatner como comandante da base lunar é uma óbvia referência a "Jornada nas Estrelas" (a nave Enterprise até faz uma participação especial!), pouquíssima gente vai pescar a mesma homenagem a "Battlestar Galactica" - a trilha sonora da série toca no filme, e o navegador da Mayflower é interpretado por Kent McCord, o Capitão Troy do seriado "Galactica 1980". Ou a participação de Raymond Burr como juiz (só a turma das antigas vai reconhecer o ator que fazia o famoso advogado Perry Manson, no seriado dos anos 1950-60).


Abrahams e os Zuckers também brincaram com filmes de sucesso em "Apertem os Cintos...", mas a diferença lá era que você não precisava saber de onde vinham as citações para rir da piada. Quando eles bagunçaram a cena da discoteca de "Os Embalos de Sábado à Noite", por exemplo, muita gente riu porque entendeu a referência e tinha visto o filme do Travolta, mas outros tantos riram apenas porque Robert Hays dançava de um jeito engraçado (eu inclusive, pois só fui ver "Os Embalos de Sábado à Noite" recentemente).

Já Finkleman, como muitos outros "diretores de sátiras" que viriam depois (tipo os Irmãos Wayans, da série "Todo Mundo em Pânico"), condicionam a graça das brincadeiras a conhecer/ter visto os filmes satirizados. Eis o problema: ninguém vai abrir sequer um sorriso amarelo com o computador ROK 9000 caso não tenha visto "2001", por exemplo.

(Menos mal que ele foi visionário e colocou, no fundo de uma cena, o pôster de cinema de "Rocky 38", com a imagem de um lutador bem velhinho. Aposto que ninguém na época imaginou que Stallone faria "Rocky Balboa" aos 60 anos!)


O diretor-roteirista sai-se bem melhor quando esquece as referências específicas e brinca com os clichês do cinema de ficção científica em geral, e aí até se aproxima um pouco do que o Trio ZAZ fez no original. Uma piada que me provoca risadas a cada revisão é a das portas acionadas por voz da estação de Alfa Beta: os personagens simplesmente fazem "shhhh" para abrir as portas, já que esse é o som que elas emitem no processo de abrir e fechar!

Outra piada genial é aquela em que um dos técnicos da equipe de Murdock informa que eles ainda não descobriram qual é a utilidade de um aparelho enorme com luzes vermelhas piscantes. O comandante dá um esporro: "Deve ter alguma função! O Governo não gastaria milhões numa luz vermelha que vai e volta! Continuem trabalhando nisso". Pois o tal aparelho era um objeto de cena bastante popular em seriados de TV e filmes de ficção científica da época, e apareceu inclusive em "Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan" e "O Último Guerreiro das Estrelas", sem que sua função fosse explicada em nenhum deles!


Como já acontecia em "Apertem os Cintos...", várias piadas desta sequência envolvem trocadilhos intraduzíveis, que só serão compreendidos por quem tem uma mínima noção de inglês. Quem se guiar pelas legendas em português do DVD (ou mesmo pela velha dublagem da TV) nunca vai entender porque Murdock pede a "ficha pessoal" de Striker e recebe um disco gravado por ele (em inglês, a palavra "record" pode ser tanto a ficha da pessoa quanto gravação, ou disco).

Eu mesmo nunca entendi porque, quando Murdock diz que o ônibus espacial precisa pousar em segurança, aparece um cofre caindo do céu no fundo da cena, até rever o filme recentemente e perceber que Murdock usa a expressão "down safe" - e, em inglês, "safe" não significa apenas "em segurança", mas também "cofre", numa gag visual extremamente débil-mental!


Também se perde na tradução a piada em que Striker passa por uma porta no interior da Mayflower que diz "Danger: Vacuum". Obviamente, a placa parece estar se referindo ao vácuo espacial; mas, quando Striker abre a porta, é atacado por um aspirador de pó, que em inglês se chama "vacuum cleaner"!

Por fim, entre diversos outros trocadilhos, a pequena participação (sem ironia) do anão Hervé Villechaize (o Tattoo do velho seriado "Ilha da Fantasia") fica sem sentido nas legendas/dublagem, pois ele surge depois que uma das aeromoças diz "I sure can use a little breather". A tradução literal é "Preciso parar para respirar um pouco", mas claro que, neste caso, a expressão em inglês "little breather" também pode se referir ao anão, mas fica impossível adaptá-la para o português (só se fizessem um trocadilho besta tipo "ah não"!).


Além dessas gags de duplo sentido, há uma cacetada de diálogos intraduzíveis, na linha daquela conversa entre tripulantes chamados Oveur, Roger e Victor no original. Um deles envolve, novamente, uma conversa entre os pilotos da Mayflower, cujos sobrenomes são Oveur, Dunn e Unger. Só que trocadilhos como "Dunn was under Oveur and I was under Dunn" e "You were under Oveur and over Unger" não fazem sentido na tradução - tanto que o responsável pelas legendas/dublagem nem se preocupou em fazer a mínima adaptação e deixou rolar de qualquer jeito.


O mesmo acontece com o diálogo entre o promotor e uma testemunha no julgamento de Striker, que também perde completamente a graça em outro idioma. Isso porque a testemunha usa algumas palavras em inglês e o promotor retruca citando nomes de pessoas cuja pronúncia é parecida com a das palavras, dessa forma:
- But he couldn't handle it.
- "Buddy" (But he) couldn't handle it? Was Buddy one of your crew?
- Right. Buddy was the bombardier. But it was Striker who couldn't handle it, and he went to pieces.
- "Andy" (And he) went to pieces?
- No. Andy was the navigator. He was all right. Buddy went to pieces. It was awful how he came unglued.
- "Howie" (How he) came unglued?

Por isso, como já havia acontecido em "Apertem os Cintos... Parte 1", este filme deve ter sido um verdadeiro pesadelo para o pessoal que fez a tradução para o português, ou qualquer outro idioma!


Embora seja ligeiramente inferior ao original, APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE continua bastante divertido, principalmente em comparação com as comédias "nonsense" atuais, já que essas não têm graça alguma. Sem contar que é muito legal ver personagens fantásticos como Ted Striker, Elaine e o Capitão Oveur juntos novamente, mesmo que eles tenham poucas piadas novas para contar.

É uma pena que Robert Stack e Leslie Nielsen não tenham voltado junto com o resto da trupe. Finkleman até tentou criar alguns novos personagens para compensar, tipo o "Sargento" interpretado por Chuck Connors, mas sem sucesso. No fim, a melhor "novidade" de APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE é o personagem de William Shatner, parodiando seu famoso Capitão Kirk.

Também é uma pena que o estressado McCroskey de Lloyd Bridges tenha uma participação bem pequena aqui. Numa cena que foi excluída, descobrimos que McCroskey estava internado num hospício (talvez por ter cheirado muita cola no final de "Apertem os Cintos... Parte 1"), porque começou a pensar que era... Lloyd Bridges!


APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE não teve a mesma repercussão do original e nem fez o mesmo sucesso, faturando 27 milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas contra os mais de 80 milhões do original. Ken Finkleman só dirigiu mais um filme ("Executivos em Apuros", 1985) e escreveu o roteiro de "Quem é Essa Garota?" para Madonna em 1987. Depois, bandeou-se para a TV, onde está até hoje como diretor, roteirista e ator de seriados tipo "Good Dog" e "The Newsroom".

O Trio ZAZ garantiu, na faixa de comentários do DVD do primeiro filme, que nenhum deles jamais se interessou em ver a continuação, e que teriam até protestado quando o projeto foi anunciado. Já as críticas foram praticamente todas negativas, abortando os planos de realização de um "Airplane 3" pela Paramount!


O curioso é que, depois dos créditos finais dessa Parte 2, aparece até uma chamada anunciando o terceiro filme (acima), seguida de uma cena em que William Shatner, citando Robert Stack no original, diz: "That's exactly what they'll be expecting us to do!".

Eu sempre imaginei que era apenas mais uma piada dos realizadores, tipo Mel Brooks anunciando "A História do Mundo Parte 2" no final da Parte 1, mas a Paramount realmente tinha planos de fazer "Apertem os Cintos... Parte 3"!


Bem, eles poderiam ter economizado dinheiro e relançado "Aeroporto 80 - O Concorde" nos cinemas, apenas trocando o título para "Apertem os Cintos... Parte 3 - O Concorde". Aposto que ninguém perceberia a diferença, e as risadas seriam garantidas - já que as "piadas", neste caso, não são repetidas, e são tão engraçadas quanto as tiradas do Trio ZAZ!

PS 1: As musas do cinema classe B dos anos 80 Laurene Landon, Sandahl Bergman e Monique Gabrielle fazem pequenas participações (essa última mostrando os belos peitos na cena do raio-X do aeroporto, como de costume).

PS 2: Não deixe de ver o divertidíssimo trailer do filme abaixo, que faz piadas citando os atores que NÃO estão no filme e até o uso de óculos 3-D, já que naquela época (começo dos anos 1980) as produções filmadas em três dimensões estavam voltando à moda.


Trailer de APERTEM OS CINTOS... 2ª PARTE



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Airplane II: The Sequel (1982, EUA)
Direção: Ken Finkleman
Elenco: Robert Hayes, Julie Hagerty, Lloyd Bridges,
Peter Graves, Wiliam Shatner, Chuck Connors, Rip Torn,
Chad Everett, Raymond Burr e John Vernon.