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terça-feira, 5 de novembro de 2013

ALIEN 2 (1980)


Você já viu a continuação do clássico "Alien, O Oitavo Passageiro"? Então certamente lembra da cena da menina na praia, chorando, com o rosto arrebentado. Ou daquela em que o verme alienígena sai pelo olho da garota dentro da caverna. E como esquecer da cena do alpinista pendurado de ponta-cabeça, se debatendo enquanto um verme devora seu pescoço, até a cabeça soltar-se e cair?

A estas alturas, muitos leitores devem estar pensando que eu tomei chá de cogumelo. Afinal, não existe nenhuma cena parecida com estas na continuação de "Alien", aquela dirigida por James Cameron em 1986. Ora, mas é claro que eu não estou falando de "Aliens, O Resgate"! Estas cenas todas que citei estão na sequência “não-oficial” (pra não dizer pirata, ou picareta, ou sem-vergonha), realizada seis anos antes, em 1980, por produtores italianos, e com um título pra lá de falso: ALIEN 2 - SULLA TERRA, ou simplesmente ALIEN 2 nos cinemas brasileiros.


Mas é claro que, apesar do nome digno de processo judicial, o filme italiano não tem absolutamente nada em comum com o "Alien" de Ridley Scott, além, é claro, da presença de alienígenas. Como o subtítulo já anuncia ("Sulla Terra" = Na Terra), a trama nem mesmo acontece no espaço, já que a produção obviamente não tinha dinheiro para pagar efeitos especiais à altura daqueles do filme de Scott. A solução foi jogar os personagens nas profundezas de uma gigantesca caverna - pois ali, como no espaço, é escuro, isolado e silencioso, pelo menos na cabeça-de-bagre dos produtores!

Os italianos nem ao menos tentaram copiar os elementos que deram certo em "Alien", como os ovos extraterrestres (que seriam melhor aproveitadas em outra imitação macarrônica do filme de Scott, o "Alien Contamination" de Luigi Cozzi) ou os monstros que saem pelo estômago das vítimas. Assim, nesta suposta "sequência", o monstro alienígena não tem uma forma definida e passa o tempo inteiro no escuro, os ovos de alien são pedras vindas do espaço sideral, e, se não há explosão estomacal, pelo menos temos a rápida cena de um alien saindo do ROSTO (isso mesmo) de uma vítima!


O responsável por este atentado ao bom gosto é um italiano chamado Ciro Ippolito, que escreveu, produziu e dirigiu a bagaça usando o pseudônimo americanizado "Sam Cromwell". Você provavelmente nunca ouviu falar dele, e nem deveria: o cara ficou famoso mundialmente por ter dirigido ALIEN 2, e quase ninguém viu ALIEN 2.

Antes, ele tinha trabalhado como ator e também foi produtor de uma série de policiais baratos sobre a Camorra, a Máfia napolitana, dirigidos por Alfonso Brescia, um dos muitos candidatos a "Ed Wood italiano". Talvez Ippolito tenha "aprendido" a dirigir com Brescia, o que explica muita coisa (não por acaso, o diretor de fotografia de ALIEN 2 é Silvio Fraschetti, colaborador habitual do velho Brescia).


Originalmente, Ciro iria apenas escrever e produzir o filme, que seria dirigido por Biagio Proietti (que roteirizou "The Black Cat" para Lucio Fulci). Num daqueles mistérios do mundo da sétima arte, Proietti demitiu-se ou foi demitido após algumas diárias (seu nome ainda é citado como diretor não-creditado no IMDB), e o então ainda produtor Ippolito convidou ninguém menos que Mario Bava (!!!) para assumir a cadeira de diretor. O veterano recusou polidamente o que poderia ser o último filme da sua carreira (ele morreu alguns meses depois), e sugeriu que o próprio Ciro dirigisse.

Foi o que aconteceu. E, como era comum na época, Ippolito conseguiu um acordo de distribuição de ALIEN 2 no mercado estrangeiro antes mesmo que qualquer cena fosse filmada, somente pelo título e pelo pôster, faturando uma bela fortuna. Mas ao invés de investir esse dinheiro no filme (daria cerca de 200 mil euros, em valores atuais), Ciro preferiu torrá-lo comprando um Jaguar para ele e uma Mercedes para o distribuidor! O cara-de-pau contou o episódio em uma entrevista recente.


Logo, sem dinheiro, sem talento e sem condições técnicas, mas na obrigação de entregar uma cópia vagabunda de "Alien" cujos direitos de exibição já estavam vendidos para diversos países, Ippolito resolveu fazer o filme da forma mais barata possível. Entre as táticas para economizar, ele aproveitou muitas cenas de arquivo (mostrando operações espaciais verdadeiras da Nasa), todas desbotadas, granuladas e por isso facilmente identificáveis, como você pode ver nas imagens acima.

ALIEN 2 inclusive começa com uma sequência destas cenas, que Ippolito deve ter tirado de algum noticiário sobre alguma missão espacial. As imagens mostram técnicos olhando para terminais de computador, um astronauta flutuando dentro de uma cápsula espacial, tomadas feitas do espaço e takes de navios e helicópteros militares fazendo o resgate de uma nave. Depois, à la Ed Wood, bastou costurar estas imagens reais com uma narração em off para criar a "trama": ao que parece, uma nave espacial norte-americana acabou de retornar de uma missão espacial, mas os astronautas que deveriam estar no seu interior simplesmente desapareceram!


No que terminam as imagens de arquivo, finalmente nosso amigo Ciro mostra a que veio. Primeiro, ele nos brinda com uma longa cena em que a heroína Thelma (a americana Belinda Mayne, filha do ator Ferdy Mayne) e seu namorado Roy (Mark Bodin) dirigem até o estúdio de uma emissora de TV, onde Thelma, uma famosa exploradora de cavernas, vai participar de uma entrevista ao vivo.

Enquanto fala ao repórter sobre sua interessantíssima vida de exploradora de cavernas, Thelma tem uma premonição de que algo horrível está para acontecer, justamente no momento em que o pessoal da Nasa está resgatando a cápsula que acabou de retornar da tal missão espacial. Detalhe: o diretor do programa de TV é o próprio Ciro Ippolito, em "participação especial"!

Acontece que a moça tem poderes telepáticos, conforme demonstrará várias outras vezes ao longo do filme (menos quando eles são REALMENTE necessários), e que variam desde um "sexto sentido" diante do perigo iminente - mais ou menos como o “Sentido de Aranha” do Homem-Aranha - até o poder de explodir cabeças à la "Scanners"! Sabe como é, poderes mentais estavam na moda graças a "Carrie" e "A Fúria", e Ippolito tentou faturar em cima do interesse nisso também...


Com sua entrevista encerrada, Thelma e Roy vão até um boliche encontrar seus amigos Burt (um tal de "Mychael Shaw", que na verdade é o futuro cineasta Michele Soavi!), Jill (Judy Perrin) e alguns outros cujo nome não interessa porque são apenas carne de abate. No total, e isso é o que interessa no final das contas, são oito pessoas, e todos fazem parte da mesma equipe de exploradores de cavernas.

A turma gasta mais um tempo precioso papeando, jogando boliche, etc etc, antes de partir para o que realmente interessa: no dia seguinte, o grupo sai para explorar uma gigantesca caverna, e é só aí que o filme “começa a começar” (embora Ciro já tenha queimado uns 25 minutos em inutilidades até então!).


Na última parada antes da expedição caverna adentro, em um armazém onde compram mantimentos, Burt vai tirar a água do joelho e encontra uma pedra brilhante do lado de fora da loja. Curioso, ele a recolhe e mostra aos amigos, que também ficam inexplicavelmente fascinados por uma rocha bem comum até. E Thelma, sabe-se lá porque, resolve colocar a tal pedra em sua mochila e levá-la junto na expedição.

Aí você pode até pensar: "Mas o que essa mané vai fazer com uma pedra no interior de uma caverna? O peso não vai atrapalhar?”. Bem, caro leitor, acredite se quiser, mas a pedra na mochila é o menos ridículo, considerando que o personagem de Soavi leva uma pesada MÁQUINA DE DATILOGRAFIA dentro da sua mochila até as profundezas da caverna, somente para poder escrever suas memórias à luz de velas! Não sei porque, mas neste momento lembrei daquelas cenas de filmes sobre expedições em que o guia sempre diz: "Levem apenas o que for estritamente necessário!".


Depois que o grupo entra na tal caverna, são mais uns 15 minutos de enrolação, um
caminha pra lá, caminha pra cá, escala ali, desce com corda aqui, tudo na maior escuridão. No auge da pouca-vergonha, doido para matar mais tempo de projeção, Ciro filma, um por um, os oito exploradores descendo um paredão com cordas, do começo até o fim do percurso!

Mas, justiça seja feita, o diretor consegue uma cena bonita quando o grupo liga as luzes dos capacetes na escuridão da caverna - essas luzes parecem estrelas no Cosmos, e isso ironicamente é o mais perto que o filme consegue chegar do espaço...


Após mais um monte de escalada e conversa fiada, e de uma rápida cena de topless de nossa heroína, a coisa finalmente começa a ficar interessante - e já passaram 35 minutos de filme! Durante uma das intermináveis caminhadas pelos escuros corredores, Jill percebe que a tal pedra misteriosa, que Thelma ainda leva na sua mochila, está pulsando e brilhando. Ela põe a fuça bem pertinho para investigar e uma coisa salta de dentro da pedra em sua direção.

Jill cai dura e fica inconsciente. E enquanto seus amigos fazem de tudo para medicá-la, aquele monstro que antes estava dentro da pedra sai da cabeça da garota pela órbita de um dos seus olhos, rasgando o rosto da vítima sem dó nem piedade, num efeito tosco, mas repelente. Com essa cópia fajuta da chocante morte de John Hurt em "Alien, O Oitavo Passageiro", as coisas finalmente começam a engrenar em ALIEN 2.


Outras mortes terríveis se sucedem - como a do sujeito pendurado de ponta-cabeça enquanto o verme alienígena devora sua garganta, fazendo com que, lentamente, a cabeça do cara se solte e caia -, até que os sobreviventes resolvem se separar para procurar a saída da caverna.

Só que aí o alien já cresceu até ficar do tamanho de um gigantesco monstrengo devorador de pessoas (nunca mostrado em cena, por incrível que pareça), e que vai devorando todo mundo até restar apenas - oh, que surpresa! - o casal Thelma e Roy. Eles até conseguem sair da caverna e voltar à civilização, mas digamos que o mundo não é mais o mesmo desde que eles partiram para o subterrâneo horas antes...


Numa época em que não existia internet e as informações sobre cinema não se espalhavam com a rapidez de hoje, o ALIEN 2 carcamano enganou muita gente ao se passar como continuação verdadeira do filme de Ridley Scott (lançado no ano anterior, 1979). Tanto que quando a pirataria italiana chegou aos cinemas brasileiros, em 15 de junho de 1981, o repórter da Folha de São Paulo comprou gato por lebre e a divulgou como "sequência oficial".

Menos mal que a equipe da Folha foi ver o filme e, já na edição do dia seguinte (16/06/1981), corrigiu a própria "barriga": "Não se engane, não é a continuação de 'Alien', da Fox, exibido aqui no ano passado, mas apenas uma apropriação, provavelmente indébita, do monstro americano". Dois dias depois, o jornal publicou crítica assinada por Luciano Ramos esculhambando o filme (veja reprodução deste material abaixo; clique nas imagens para ampliar).

Folha caiu na 'Pegadinha do Mallandro' em 15/06/1981...

...e depois detonou o filme em 18/06/1981

Enfim, o ALIEN 2 genérico conseguiu fazer uma carreira tão popular pelos cinemas do mundo afora que, diz a lenda, a continuação oficial, aquela dirigida por James Cameron em 1986, só se chama "Aliens" porque seus produtores não queriam que um novo ALIEN 2 rivalizasse as atenções com a cópia pirata italiana nas prateleiras das locadoras!

Segundo o IMDB, a 20th Century Fox (que detinha os direitos do filme de Ridley Scott) até tentou processar Ciro Ippolito em 10 milhões de dólares pelo uso picareta do título do filme "Alien", mas um advogado espertinho livrou a cara do realizador italiano dizendo que ele teria se baseado em um livro de 1930 que também se chamava "Alien"! Pode?

Curiosamente, a base do filme inteiro, mais do que o próprio "Alien", parece ter sido a série inglesa "Quatermass". A ideia da sonda espacial que volta à Terra sem seus ocupantes, por exemplo, foi "emprestada" de "Terror que Mata" ("The Quatermass Experiment", 1955), enquanto os aliens escondidos em rochas vêm diretamente de "Quatermass 2" (1957), em que meteoritos traziam extraterrestres em forma gasosa no seu interior.


Fato é que, até pouco tempo atrás, essa trasheira era bem difícil de achar - aquele típico filme que todo mundo sabe que existe, mas ninguém realmente assistiu, como o "Star Wars Turco". Lembro que a primeira cópia que encontrei para assistir, cerca de 10 anos atrás, era gravada da TV italiana, e a imagem estava péssima - praticamente não se enxergava nada durante as cenas no interior da caverna escura.

Assim, foi um verdadeiro milagre quando uma distribuidora norte-americana lançou ALIEN 2 em BLU-RAY (!!!) há alguns anos, e fez um trabalho incrível na recuperação do filme, agora disponível pela primeira vez com imagem cristalina e remasterizada (menos aquelas cenas de arquivo no início, essas continuam ruins e granuladas). Só conferindo esse relançamento em blu-ray para perceber como a fotografia é linda, mesmo num troço barato e mal-feito como esse.


Por sinal, a locação é uma atração à parte: a caverna onde a história se passa é a Grotte di Castellana, que fica na província de Bari, em Puglia, Itália (saiba mais acessando o site oficial). O lugar é belíssimo e ficou muito bem representado no filme, dando aquele ar de claustrofobia buscado pelos realizadores que não tinham grana suficiente para simular uma nave ou o espaço, como Ridley Scott.

A surpresa vem quando você descobre que boa parte dos sinistros corredores e paredões de pedra do interior da caverna foram recriados em estúdio pelos designers Angelo Mattei e Mario Molli. Pois assistindo o filme você não diz que a coisa é de mentirinha, o que não deixa de ser um ponto positivo da produção (ou seja, nem sempre a falta de dinheiro significa desleixo).


Pena que, como já escrevi, Ciro Ippolito é um grande relaxado e preguiçoso, que provavelmente sabia que o título enganoso por si só já atrairia o público aos cinemas, e portanto não precisava caprichar no filme. Existem inúmeros tempos-mortos em ALIEN 2 que são um teste à paciência de qualquer espectador.

Sabe nos filmes do Godard ou do Tarkovsky, quando tem uma cena de cinco minutos só com o personagem acordando e levantando da cama? Os críticos chamam isso de "introspecção", "reflexão" e outros termos bonitos, mas para mim é só encheção de linguiça mesmo. De qualquer forma, Ippolito entrega incontáveis momentos arrastados de "introspecção", daqueles que nos fazem acender uma vela para o inventor da tecla Fast Foward.


Digamos apenas que ALIEN 2 não tem nenhuma pressa para contar sua historieta. O filme tem 92 minutos, mas os primeiros 40 são completamente dispensáveis, loooooooongos takes em que parece que Ciro esqueceu a câmera ligada acidentalmente e o editor mandou ver assim mesmo. Quando Thelma e Roy saem de casa para a entrevista da garota na TV, a câmera acompanha todo o trajeto do carro saindo da garagem e manobrando para entrar na rua, depois continua acompanhando a porta da garagem até fechar; como se já não fosse suficiente, ainda vemos todo o trajeto da casa deles até a emissora.

Mais tarde ainda, quando Thelma vai procurar seu psiquiatra, Peter (Donald Hodson), para falar sobre suas visões, é óbvio que seria muito fácil cortar diretamente para a moça deitada no divã do doutor. Ciro, por outro lado, prefere a "introspecção": ele mostra Thelma dirigindo até a praia, saindo do carro, caminhando até a beira do mar, observando um barco no horizonte, de onde desce o tal psiquiatra num bote, rema até a praia (durante longos minutos, já que precisamos ver todo o trajeto do bote até a margem), sai do bote e enfim começa a conversar com sua paciente. Um dia descobriremos que Ciro Ippolito era um gênio incompreendido e ele queria apenas representar "a forma como as pessoas nadam contra as ondas para resolver os problemas do próximo", ou algo do gênero. Seja como for, o tal psiquiatra passa cinco minutos remando até sua paciente e 30 segundos conversando com ela. Bela ajuda!


E quando os personagens entram na caverna, as coisas não melhoram muito. Pelo contrário: se você não for um fã confesso de maravilhas da natureza e/ou entusiasta da exploração de cavernas, provavelmente pegará no sono em alguma das incontáveis cenas dos jovens zanzando para lá e para cá entre túneis e estalagmites.

Sério, Ciro é tão ruim e sem-noção como diretor, e seu editor (Carlo Broglio) tão incompetente, que até a grande cena do filme - o alienígena saindo pela primeira vez de uma vítima - acaba se tornando demorada e intragável: a câmera se desloca, lentamente, dos pés de um dos rapazes pelo chão, percorrendo o corpo deitado da vítima da ponta dos pés até a cabeça, num take interminável e sem cortes! Bendito seja o Fast Foward! (Para masoquistas, existe uma versão ainda mais longa dessa cena como extra no blu-ray gringo!)


Menos mal que os ataques do monstro e cenas sangrentas (que representam, no máximo, uns 15 minutos do longa!) funcionam razoavelmente bem. Eu gosto bastante de uma cena envolvendo uma menininha na praia, que se aproxima de uma das pedras alienígenas enquanto ela está pulsando. Momentos depois, quando sua irmã (ou babá, ou mãe) vai procurá-la, encontra a pobre criança ajoelhada na areia e chorando, de costas. Quando a menina finalmente se vira, descobrimos que está com o rosto todo arrebentado! Brrrrr...

Outra cena bem legal, mas esta pelo fator trash, acontece no fim, quando Thelma e Roy voltam para a cidade e, ao invés de correrem direto para a delegacia, hospital ou quartel mais próximo, acabam seguindo direto para... aquele boliche onde eles estavam com os amigos no começo do filme! Ali, Thelma é perseguida pelo agora gigantesco monstro alienígena. E como Ciro não tinha dinheiro para construir um monstrão, filmou a cena do "ponto de vista do monstro", simplesmente colando pedaços de carne na lente da câmera (abaixo)! É impossível não rolar de rir.


E embora eu seja o primeiro a assumir que ALIEN 2 é ruim de lascar, confesso que tenho um carinho especial pelo filme porque ele já traz ideias e situações que veríamos em produções posteriores muito melhores. Por exemplo: a trama com os exploradores sendo atacados por monstros numa caverna viraria um filmaço 25 anos depois nas mãos do inglês Neil Marshall, em "Abismo do Medo" (2005).

Já algumas imagens violentas, como a cabeça se desgrudando do corpo, ou os tentáculos saindo pelo pescoço de uma vítima, me lembram as dolorosas mutações vistas posteriormente em "O Enigma do Outro Mundo" (1982), de John Carpenter.

E tem também um momento absurdo em que o monstro alienígena está escondido no corpo de um dos exploradores e Thelma usa seus poderes telecinéticos para explodir a cabeça da vítima, forçando o alien a se revelar - outra imagem que veríamos de maneira muito mais eficiente depois, em "Scanners" (1981), de David Cronenberg. (Embora seja covardia comparar a sangrenta explosão cabeçal de "Scanners" com a máscara de gesso inexpressiva que explode em ALIEN 2...)


Por tudo isso, é uma pena que ALIEN 2 seja tão ruim. Um diretor decente poderia tirar pelo menos um filme divertido dessa bagunça. Porque, do jeito que está, lembra até aqueles tempos pré-MP3, quando por duas ou três músicas boas você era obrigado a comprar um álbum inteiro em LP ou CD. Quer ver todas as cenas boas de ALIEN 2? Então assista ao trailer. O que não está no trailer é pura enrolação para fechar o tempo de um longa.

Ciro poderia também ter dado uma revisada no seu roteiro, repleto de problemas absurdos. Por que a equipe leva a pedra-alienígena para dentro da caverna ao invés de simplesmente encontrá-la por lá mesmo, por exemplo? Qual é exatamente o plano dos aliens, além de sair de pedras para o corpo dos humanos e depois de dentro deles para lugar nenhum? E por que Thelma não usa seus poderes de "scanner" para destruir o monstrão alienígena, considerando que eles são bem eficientes quando precisou explodir a cabeça de um dos seus amigos "possuídos" pelo extraterrestre?


Embora tenha chegado a alguns poucos cinemas no Brasil, ALIEN 2 nunca foi lançado em vídeo ou DVD por aqui. Mesmo lá fora, o filme só reapareceu recentemente no belíssimo blu-ray da Midnight Legacy Collection que eu mencionei. Antes, era raridade total.

Pois na minha ideia de um mundo ideal, edições de colecionador de todas as cópias vagabundas de "Alien" (incluindo este e "Alien Contamination") seriam lançadas num gigantesco "Ultimate Box Set" junto com a série "Alien" oficial. Nem que fosse para mostrar como muitas dessas cópias ainda são mais divertidas que os filmes originais, tipo "Alien 3" ou "Alien x Predador".

PS: Ciro Ippolito continua vivo e, em 2010, lançou uma auto-biografia chamada "Un Napoletano a Hollywood", sobre sua carreira como cineasta e produtor. Quem já leu disse que o livro é engraçadíssimo.


Trailer de ALIEN 2



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Alien 2 - Sulla Terra (1980, Itália)
Direção: Ciro Ippolito (aka Sam Cromwell)
Elenco: Belinda Mayne, Mark Bodin, Judy Perrin,
Michele Soavi (aka Mychael Shaw), Roberto Barrese,
Benedetta Fantoli e Claudio Falanga.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

HALLOWEEN III - A NOITE DAS BRUXAS (1982)


HALLOWEEN III - A NOITE DAS BRUXAS é um filme que boa parte da humanidade aprendeu a odiar somente pelo título, que remete à série iniciada por John Carpenter em 1978, mas não tem absolutamente nenhuma relação com este ou com a sua primeira sequência, "Halloween 2" (1981). Porém, por causa do número 3 no título, muitos fãs de horror foram aos cinemas esperando rever os personagens dos dois filmes anteriores, principalmente o icônico vilão Michael Myers, e saíram decepcionados ao deparar-se com uma história original.

Pois a mim essa mudança de rumo nunca incomodou. Até porque eu dei a sorte de assistir HALLOWEEN III antes dos dois episódios anteriores da franquia, e assim não me decepcionei com a ausência de Jamie Lee Curtis ou do mascarado Myers. E por isso, neste Halloween, o FILMES PARA DOIDOS propõe um novo olhar sobre este filmaço injustiçado.


A gênese de HALLOWEEN III vem, claro, da maneira como o anterior "Halloween 2" terminava. Era aquele tipo de conclusão definitiva que não permitia mais continuar, já que mostrava o vilão Michael Myers morrendo após uma explosão provocada pelo seu psiquiatra e arquiinimigo Dr. Loomis (Donald Pleasence), que se sacrificava no processo. Antes, o psicopata mascarado tomou tiros nos olhos que o deixaram permanentemente cego, e um último take mostrava seu corpo e máscara queimando, para não deixar dúvidas de que estava mortinho da silva.

Ressuscitar Myers literalmente das cinzas nunca esteve nos planos de Carpenter, que àquela altura era produtor da série junto com Debra Hill. "Não havia mais história para contar, e só o que podíamos fazer era imitar 'Sexta-feira 13' e apenas repetir as cenas de ação e fazê-las mais sangrentas", disse ele, em entrevista ao livro "John Carpenter: Prince of Darkness".


Só que Carpenter e Debra tiveram uma ideia ambiciosa para que a franquia não acabasse ali: por que não continuar fazendo novos "Halloween", só que contando histórias independentes que envolvessem o Dia das Bruxas, ao invés de voltar àquela mesma trama do assassino mascarado perseguindo jovens na data fatídica? Dessa maneira, eles teriam um "Halloween" diferente todo ano, com bilheteria garantida graças ao peso do já consagrado título.

Irwin Yablans e Moustapha Akkad, que produziram os dois episódios anteriores, gostaram da ideia e investiram 2,5 milhões de dólares para o orçamento da Parte 3. E dois nomes de peso se juntaram ao projeto: Joe Dante, recém-saído do set de "Grito de Horror", seria o diretor, enquanto o inglês Nigel Kneale (criador do seriado de TV "Quatermass") foi convidado pelo seu fã declarado Carpenter para escrever um roteiro original cuja ideia foi sugerida pela produtora Debra: feitiçaria nos tempos da informática. Não tinha como dar errado.


Mas não demoraram para aparecer os problemas. Primeiro foi Dante que pulou fora do projeto. Para ocupar seu lugar, Carpenter convidou um amigo de longa data, Tommy Lee Wallace, que iria fazer sua estreia na função, mas já era "prata da casa" (foi ele que editou "Halloween" e "A Bruma Assassina"). Ironicamente, Wallace tinha sido convidado para dirigir "Halloween 2" no ano anterior, mas recusou e preferiu escrever o roteiro de "Amityville 2 - A Posessão", de Damiano Damiani.

Depois, Kneale não gostou das alterações que Carpenter e Wallace fizeram em seu roteiro e também deixou o projeto. Embora Wallace sustente que 60% do que se vê em HALLOWEEN III tenha sido escrito pelo inglês, sabe-se que ele abandonou a produção por não concordar com a inclusão de mais cenas de morte e de nojeira explícita criadas pela dupla, e inclusive exigiu a retirada do seu nome dos créditos (o único roteirista creditado na versão final foi Tommy Lee Wallace).


HALLOWEEN III começa com um homem correndo desesperado numa noite escura. Estará fugindo de Michael Myers? Não, mané; a história aqui é outra, esqueceu? Na verdade, o homem está tentando fugir de misteriosos e silenciosos adversários que se vestem como executivos, com terninho, gravata e cabelo engomado, mas que por baixo dessa aparência civilizada se comportam como verdadeiros Michael Myers - ou seja, são assassinos impiedosos, mudos e inexpressivos!

O homem consegue escapar, depois de esmagar um dos seus perseguidores entre dois carros, e pede ajuda num posto de gasolina. Dai, é levado ao pronto-socorro com olhar enlouquecido, segurando uma máscara de Dia das Bruxas numa das mãos e repetindo frases como "Eles vão matar todos nós!". 


Só que a polícia não tem muito tempo para interrogá-lo e saber quem vai matar todos nós, pois na mesma noite o sujeito é brutalmente assassinado em seu quarto (número 13, claro), por outro daqueles homens misteriosos de terno e gravata. O assassino depois comete suicídio no próprio estacionamento do hospital, ao incendiar e explodir o seu carro.

Preocupado com as duas mortes violentas ocorridas em seu hospital na mesma noite, o médico Dan Challis (Tom Atkins), resolve bancar o detetive. Ele se alia a Ellie Grimbridge (a gracinha Stacey Nelkin), filha do homem assassinado, para investigarem os últimos dias da vítima, e logo descobrem que alguma coisa aconteceu durante uma viagem que ele fez à pequena cidade de Santa Mira.


Pois é em Santa Mira que fica a gigantesca fábrica da Silver Shamrock (Trevo Prateado), responsável pelas máscaras de Halloween mais populares dos Estados Unidos, e que está prometendo "uma grande surpresa" para a noite do Dia das Bruxas. Claro que o Dr. Challis resolve esquecer quaisquer outros pacientes que precisem de seus cuidados para embarcar com Ellie numa viagem à cidadezinha em busca de novas pistas.

Não demora para eles descobrirem que há algo de muito errado por lá. A cidade e seus habitantes são controlados por câmeras e escutas telefônicas, e há até um toque de recolher à noite exigindo que todos saiam das ruas. O responsável pela vigilância é Conal Cochran (Dan O'Herlihy), o proprietário da Silver Shamrock. E o sujeito vive rodeado por aqueles homens de terno, que executam suas ordens fielmente - quaisquer que sejam as ordens.


É somente no último ato que o Dr. Challis descobrirá o terrível plano de Cochran para o Halloween: todas as máscaras da Silver Shamrock (que, como já se sabe, são as mais vendidas do país) estão programadas para matar seus usuários no momento em que eles assistirem ao comercial com a "grande surpresa" que será exibido em rede nacional na noite do Dia das Bruxas. O objetivo do maléfico fabricante de máscaras é resgatar o clima do Samhain, a festa pagã que deu origem ao moderno Halloween, e que supostamente envolvia feitiçaria e sacrifícios humanos.

Começa, então, uma tensa corrida contra o relógio, já que o médico-detetive precisa não apenas escapar de Cochran e seus asseclas de terno, mas também impedir a exibição do comercial da Silver Shamrock e o genocídio de milhões de crianças e de seus familiares por todo o país às nove em ponto!


Como se percebe, HALLOWEEN III dispensa o conforto do "mais do mesmo" e foge da armadilha de recontar pela terceira vez a história de Michael Myers perseguindo vítimas inocentes na noite do Dia das Bruxas, e o faz em prol de uma trama "de investigação", em que o mistério vai se resolvendo aos poucos. Afinal, ninguém teria saco para ver mais um round de matanças perpetradas pelo psicopata da máscara branca, certo?

Bem, acontece que a resposta dos espectadores foi justamente o CONTRÁRIO! O público se sentiu enganado ao pagar para ver um filme chamado HALLOWEEN III que não tinha nem Jamie Lee Curtis, nem o vilão Michael Myers, e essas críticas se espalharam na propaganda de boca em boca (na época não havia internet, mas notícia ruim se propagava com a mesma rapidez). Assim, a bilheteria ficou bem aquém do esperado, e é uma das mais baixas da série - "apenas" 15 milhões de dólares, sendo que "Sexta-feira 13 Parte 3", lançado no mesmo ano e justamente um "mais do mesmo" como o que os produtores da série "Halloween" queriam evitar, arrecadou mais que o dobro disso.


A bilheteria aquém do esperado decretou o fim dos planos de Carpenter e Debra Hill de lançar um "Halloween" original por ano com histórias independentes. Mais do que isso, o fracasso de HALLOWEEN III provocou o desligamento total dos dois produtores da série. "O público odiou e todo mundo ficou puto comigo porque achavam que eu tinha destruído a franquia", lembrou Carpenter no livro "John Carpenter: Prince of Darkness", completando: "Eles tiraram a série das minhas mãos e começaram a lançar novos 'Halloween' de tempos em tempos, mas apenas xerocando a mesma fórmula".

Porque como as histórias independentes de Dia das Bruxas aparentemente não funcionaram, Michael Myers foi absurdamente ressuscitado seis anos depois em "Halloween 4" (1988), dirigido por Dwight H. Little, e a partir de então não morreu mais, voltando, tal qual um Jason ou Freddy Krueger, em mais quatro filmes e dois remakes, todos oscilando entre o fraquinho e o muito ruim.


O diretor Wallace sempre achou que parte da culpa pelo fracasso do filme foi do Universal Studios, que distribuiu HALLOWEEN III, mas não soube fazer uma campanha de marketing que vendesse a obra como uma produção não-relacionada aos dois capítulos anteriores. Porque embora Michael Myers não apareça no trailer, na época você só assistia trailers de filmes caso fosse ao cinema (e não a qualquer momento no YouTube, como acontece hoje).

"Muitas coisas poderiam ter sido feitas para preparar o público, mas tudo que a Universal fez foi colocar uma pequena tarja no canto do pôster dizendo 'All New!' (Totalmente Novo!), como se fosse um anúncio de pasta de dente. 'All New', o que isso significa?", questionou Wallace, em recente entrevista a um site.


O injusto da coisa toda é que não há muito a se criticar em HALLOWEEN III além da tão comentada ausência de Michael Myers ou dos personagens de Jamie Lee Curtis e Donald Pleasence, pois o que temos aqui é um ótimo filme de horror à moda antiga, com trama mirabolante, mortes escabrosas e várias surpresas. Além do mais, eu sempre achei ótima a ideia de matar Myers definitivamente no final de "Halloween 2" e tentar partir para histórias independentes.

Talvez o erro tenha sido manter o título "Halloween", o que muitos espectadores consideraram propaganda enganosa. Por outro lado, ninguém nunca reclamou quando outras séries de horror, tipo "Natal Sangrento" e "Prom Night", partiram para histórias independentes (principalmente esta última, em que cada um dos quatro filmes traz uma trama completamente nova e sem relação com as outras!).


No meu caso, não sei se foi por ter assistido HALLOWEEN III antes dos "originais", ou por ter gostado bastante da história, mas nunca me importei com o fato de ele tentar seguir por outro caminho. Inclusive prefiro essa solução a fazer continuações ruins com a mesma trama e os mesmos personagens do original, tipo os terríveis "O Massacre da Serra Elétrica 2" (1986) ou "O Exorcista 2".

Em todo caso, a franquia concorrente "Sexta-feira 13" também quebrou a cara ao tentar seguir novos rumos: como o vilão Jason Voorhees havia morrido "pra valer" no final de "Sexta-feira 13 Parte 4" (1984), os produtores da série transformaram o quinto filme num "whodunit?", em que o assassino não era Jason, mas sim um imitador usando sua máscara, e cuja identidade era revelada na última hora. Só que também não colou, e por isso os produtores tiveram que ressuscitar Jason na Parte 6 - e isso que "Sexta-feira 13 Parte 5" não muda a história tão radicalmente quanto HALLOWEEN III, sendo, basicamente, um "mais do mesmo" com outro matador no lugar de Jason.


O que eu gosto mais em HALLOWEEN III é sua coragem de  fugir dos clichês dos slasher movies que "Halloween" ajudou a popularizar, mas que já estavam batidos lá em 1982 exatamente por causa das muitas imitações do filme de Carpenter. Não há nenhum adolescente ou babysitter na trama, e a personagem principal mais jovem é a de Stacey Nelkin, mesmo assim já na faixa dos vinte-e-poucos anos. Já o "herói" é um adulto, distanciando este terceiro filme do tom dos dois anteriores e de franquias tipo "Sexta-feira 13". Ainda bem, diga-se de passagem: eu sinceramente não consigo imaginar o mesmo roteiro com adolescentes no lugar dos adultos...

Ao mesmo tempo em que busca fugir das armadilhas típicas dos slasher movies, Wallace aproxima o filme do clássico "Vampiros de Almas" (1956), de Don Siegel, primeira das quatro adaptações do livro "Invasores de Corpos". Veja só: ambas as tramas se passam na fictícia cidade de Santa Mira, em ambos há seres humanos "replicados" e sem emoções (alienígenas em "Vampiros de Almas", robôs que se passam por humanos aqui), e ambos terminam com um close desesperado no rosto do protagonista tentando inutilmente alertar o resto da humanidade sobre a tragédia prestes a se desenrolar!


A tragédia em questão representa o ponto alto de HALLOWEEN III, quando Cochran dá uma de vilão de filme do James Bond e explica todo o seu plano para o aprisionado Dr. Challis, inclusive realizando uma pequena demonstração da "brincadeira de Dia das Bruxas" que preparou. Ocorre que o vilão conseguiu mesclar a feitiçaria do passado com a tecnologia da informática ao adicionar fragmentos de uma das pedras de Stonehenge (sim, aquele antiquíssimo círculo de pedras na Inglaterra) num microchip escondido sob a etiqueta da sua empresa e colado nas máscaras.

Na demonstração, uma pobre família inocente é morta quando o filho pequeno assiste à transmissão da Silver Shamrock usando uma das máscaras, sua cabeça inteira derrete e de dentro dela saem insetos, aranhas e serpentes venenosas, que atacam os pais! Você não leu errado: não apenas uma criancinha foi morta (verdadeiro tabu em filmes de horror), como ainda foi morta da forma mais cruel e tenebrosa possível! Quem viu essa cena quando moleque deve tê-la gravada na retina até hoje.


E só de imaginar isso acontecendo em escala global, a cena final de HALLOWEEN III é verdadeiramente desesperadora, (SPOILERS) com o Dr. Challis tentando impedir a exibição dos comerciais mortíferos da Silver Shamrock em cima da hora. Seu grito desesperado ao telefone ("Stop it!") encerra o filme e deixa a conclusão em aberto: será que a ameaça foi detida a tempo? Opto pelo final trágico, e só de imaginar a quantidade de crianças mortas pelo macabro plano de Cochran, já fico surpreso com a coragem dos realizadores de fugir de uma conclusão mais "agradável". (FIM DOS SPOILERS)

O curioso é que eu assisti HALLOWEEN III pouco antes de "Halloween 4" ser lançado no Brasil, e fiquei animadíssimo imaginando que o quarto filme começaria mostrando o que, afinal, aconteceu após a cena final do terceiro. Desnecessário dizer que HALLOWEEN III foi completamente ignorado no quarto episódio, o que não deixou de ser frustrante para o moleque aqui em busca de respostas...


Não bastasse a tenebrosa cena da cabeça do moleque derretendo, o filme ainda entrega outros impressionantes momentos de violência explícita, estes protagonizados pelos robóticos assassinos de terno comandados por Cochran. A morte do homem no hospital me dá um arrepio até hoje, já que o assassino enfia seus dedos nos olhos da vítima e quebra seu crânio com um movimento brusco!

Outras cenas bonitas incluem uma mulher atingida por um "disparo acidental" das máscaras, e de cujo rosto explodido saem aranhas, e a cabeça de um mendigo sendo torcida e arrancada sem o menor esforço pelos assassinos robóticos. Ou seja, Michael Myers e sua faca de açougueiro não fazem a menor falta aqui.


Mesmo os maiores críticos de HALLOWEEN III irão concordar que "herói" e vilão do filme entregam grandes e antológicas performances. O Dr. Challis é interpretado por Tom Atkins, à época um habitué dos filmes de John Carpenter (estrelou "A Bruma Assassina" e fez uma ponta em "Fuga de Nova York"), e um daqueles raros atores que são "cool" sem fazer o menor esforço, tipo Bruce Campbell ou Christopher Lambert.

Aqui, num lance involuntariamente cômico, Atkins interpreta O PIOR MÉDICO DA HISTÓRIA DO CINEMA, já que aparece o tempo inteiro fumando ou bebendo álcool, e a cada cinco minutos dispara um "Preciso de um drink". Ao embarcar com Ellie na viagem a Santa Mira, Challis não leva nenhuma mala com roupas, e sim um six-pack de cerveja! Relaxado que só, ele veste a mesma roupa durante três dias seguidos, e sequer usa cueca! Por fim, o doutor transa com Ellie, que tem mais da metade da sua idade, sem se preocupar com possíveis acusações de pedofilia.


Já o Cochran de Dan O'Herlihy (1919-2005) é aquele típico velhinho aparentemente simpático que esconde suas más intenções atrás de sorrisos sinistros. Sua origem e verdadeira identidade nunca ficam bem claras (rumores indicam que, no roteiro original de Nigel Kneale, ele seria um demônio com 3.000 anos de idade), mas torna-se óbvio que Cochran não é "deste mundo", até porque fala dos rituais de Samhain e dos antigos celtas como se tivesse vivido entre eles.

O curioso é que O'Herlihy não se envolve diretamente em nenhuma cena de violência ou morte, preferindo deixar o serviço sujo para seus capangas autômatos, e mesmo assim consegue compor um vilão legitimamente assustador. Numa entrevista à revista Starlog nos anos 1980, o ator disse que se divertiu muito com o personagem, pois também tem ascendência irlandesa, mas confessou que não gostou do filme.


Obviamente, HALLOWEEN III está longe de ser uma obra-prima. Aquele tipo de público que gosta de um mínimo de lógica mesmo em filmes de horror vai ficar puto com a maior parte da trama. Mas é curioso perceber que a trama já enfoca a morte vinda pela tela da televisão um ano antes de "Videodrome - A Síndrome do Vídeo" (1983) e 16 anos antes de "Ringu" (1998).

Há um momento particularmente divertido em que Cochran comenta, sobre a pedra roubada de Stonehenge e levada para a sua fábrica em Santa Mira: "Deu o maior trabalhão trazê-la para cá. Você não acreditaria em como fizemos". De fato, o público dificilmente iria acreditar que uma pedra de cinco toneladas pudesse ser levada da Europa para o interior dos EUA sem ninguém perceber, e por isso o roteiro preferiu nem tentar inventar uma explicação para isso, o que ficou muito engraçado!


Alguns críticos também reclamam que o plano de Cochran dificilmente iria funcionar pelo fato de os Estados Unidos terem diferentes faixas de horário, e portanto em alguns Estados o relógio só marcaria nove da noite uma hora depois que nos demais. Em defesa do filme, afirmo que em nenhum momento é anunciado que o comercial da Silver Shamrock será exibido às nove da noite EM TODOS OS ESTADOS UNIDOS (é possível que tenha sido marcado para outros horários em alguns dos Estados, a fim de manter o ataque simultâneo).

O único furo de roteiro que REALMENTE me incomoda é o fato de (SPOILERS) a Ellie transformada em robô não tentar impedir o Dr. Challis quando ele destrói a fábrica de máscaras no final, rebelando-se contra o herói apenas quando já estão longe de Santa Mira. Por sinal, a revelação de que a moça foi transformada em autômato é uma bela surpresa, e de certa maneira também uma ironia, já que a atriz Stacey Nelkin quase interpretou uma das Replicantes de "Blade Runner" no mesmo ano, mas sua personagem foi cortada da versão final do roteiro. (FIM DOS SPOILERS)


Mesmo saindo da "zona de conforto" das Partes 1 e 2, HALLOWEEN III traz várias referências cruzadas com os episódios anteriores, como se todos fizessem parte de um universo único.

Há citações escancaradas, como o comercial de TV anunciando a exibição de "Halloween 1" na noite de Dia das Bruxas, e também a participação especial de atores dos filmes anteriores, como Jamie Lee Curtis (que aqui empresta sua voz para a telefonista de Santa Mira), Nancy Keyes (esposa do diretor Tommy Lee Wallace e intérprete de Annie em "Halloween" 1 e 2, que aqui aparece como ex-esposa do Dr. Challis) e o dublê Dick Warlock (Michael Myers em "Halloween 2" e um dos homens de terno aqui).


O fato de os sinistros "homens de terno" serem robôs criados por Cochran e programados para matar também aproxima esses personagens de Michael Myers e a forma como ele se comporta em "Halloween"; ou seja, um verdadeiro autômato sem expressão, que caminha lentamente atrás de suas vítimas, mas sempre destruindo tudo o que vem pela frente e sem parar até alcançar seu objetivo. Curiosamente, os robôs de HALLOWEEN III lembram o pistoleiro robótico interpretado por Yul Brynner no clássico "Westworld - Onde Ninguém Tem Alma", e John Carpenter já declarou que este mesmo personagem foi a fonte de inspiração para o próprio Michael Myers!

Ainda no campo das semelhanças, a cena em que o Dr. Challis persegue o assassino que caminha lentamente pelos corredores desertos do hospital lembra a ambientação de "Halloween 2", os assassinos robóticos às vezes surgem da escuridão por trás dos personagens como Michael Myers nos outros filmes da série, e há até uma cena em que uma máscara jogada na lente de uma câmera de segurança cria um efeito muito parecido com a "visão em primeira pessoa" do jovem Michael na antológica sequência inicial de "Halloween"! 


Por último, mas não menos importante, vale destacar a fantástica trilha sonora composta pelo próprio John Carpenter em parceria com Alan Howarth. A música não deve em nada para o clássico tema composto para o "Halloween" original, dessa vez substituindo o piano do tema clássico de 1978 por sintetizadores. Inclusive é uma daquelas trilhas tão boas e climáticas que a gente até lamenta que só tenha sido usada uma vez...

Outros momentos sinistros envolvem o efeito sonoro tipicamente Carpenteriano (aquele "éééééééóóóóóónnnnn") sempre que um dos robôs de Cochran aparece de repente. Isso era garantia de diversos pulos de susto na minha infância, e certamente devem funcionar até hoje com quem for encarar HALLOWEEN III pela primeira vez.


Claro que não se pode falar sobre a música de HALLOWEEN III sem citar o inesquecível jingle da Silver Shamrock, repetido tantas vezes ao longo do filme que provoca uma verdadeira lavagem cerebral pela vida inteira. Composto em cima do ritmo de uma velha canção infantil chamada "London Bridge is Falling Down" (se não conhece, clique aqui), o jingle faz uma contagem regressiva para o Halloween, tipo "Two more days to Halloween / Halloween, Halloween / Two more days to Halloween / Silver Shamrock".

Publicitários do mundo inteiro deveriam estudar esse comercial fictício para aprender uma coisa ou outra, já que a música gruda na cabeça da vítim... ou melhor, espectador... durante décadas. (O diretor Wallace emprestou sua voz ao locutor do comercial, na parte em que ele anuncia: "It's almost time, kids").

"Eight more days to Halloween..."



E o que dizer das belas máscaras da Silver Shamrock? Aposto que todo mundo que viu o filme ainda criança sonhou em ter uma delas. São três modelos (uma bruxa, um esqueleto e a tradicional abóbora de Halloween, conhecida como "Jack O'Lantern" na gringa), todos eles produzidos pelo artista Don Post. A do crânio e a da bruxa já existiam e foram apenas adaptadas para o filme; somente a máscara da abóbora foi produzida especialmente para HALLOWEEN III. Nos EUA, essas máscaras chegaram a ser fabricadas em larga escala e vendidas na época de lançamento do filme, e inclusive vinham com o logotipo da Silver Shamrock! Acima, o leitor pode conferir um anúncio das máscaras numa velha edição da revista Fangoria de 1982. Hoje, alguns exemplares dessas máscaras ainda podem ser encontrados no E-Bay, ao preço médio de 50 dólares.

Concluindo, eu sempre achei HALLOWEEN III um filmaço injustiçado. Alguns críticos argumentam que ele seria melhor recebido se fosse lançado apenas com seu subtítulo "Season of the Witch" (no Brasil, "A Noite das Bruxas"), mas jura que você vai condenar uma produção inteira apenas pelo número no título? Dá um tempo, pô!

De minha parte, pelo menos, sempre defendi o filme, e lembro de ter comprado várias brigas por causa disso nos tempos das comunidades de cinema de horror no (quase finado) Orkut. Inclusive criei nessa rede social, só de birra, uma comunidade chamada "Eu Gosto de Halloween III", lá no longínquo ano de 2004. Nesta semana, quando fui checar, ainda havia 135 participantes no grupo!


A péssima recepção lá em 1982 representou um baque irrecuperável na carreira ascendente de Wallace. Tanto que ele ficou anos sem dirigir novamente, perdeu-se em produções para a TV e depois passou a assinar continuações fracas tipo "A Hora do Espanto 2" e "Vampiros 2 - Os Mortos" (sendo que esse último também é sequência de um filme de John Carpenter). Seu trabalho mais memorável, além deste terceiro "Halloween", é a minissérie de TV "It – Uma Obra-Prima do Medo" (1990), baseada no livro "A Coisa", de Stephen King.

Recentemente, HALLOWEEN III tem sido resgatado e reavaliado com outros olhos por uma nova geração, que, graças à internet, não compra mais gato por lebre e sabe que vai ver uma história independente sem Michael Myers. Tanto que há alguns anos, em 2010, o filme teve uma sessão especial em Los Angeles com a presença de Wallace, que ficou surpreendido com a quantidade de fãs da sua obra.


Até mesmo pesquisadores sérios têm se debruçado sobre a outrora maldita sequência e enxergado coisas que ninguém nunca viu antes. O historiador Nicholas Rogers, por exemplo, escreveu um livro chamado "Halloween: From Pagan Ritual to Party Night", onde defende HALLOWEEN III como um libelo anti-capitalista, já que a trama enfoca um homem de negócios bem-sucedido como vilão.

Nessa mesma pegada, o pesquisador Martin Harris apontou várias outras críticas ao sistema empresarial em seu artigo "You Can’t Kill the Boogeyman: Halloween III and the Modern Horror Franchise", como o fato de a Silver Shamrock ser uma megacorporação estrangeira (suas raízes são irlandesas) que se estabelece numa pequena cidade norte-americana, mas não emprega mão-de-obra local, e sim seus robôs importados com forma humana (que seriam uma metáfora à automatização do operário de fábrica, à la Charles Chaplin em "Tempos Modernos"). É mole?


Particularmente, eu acho uma pena que HALLOWEEN III tenha sido tão mal recebido lá atrás, na época do seu lançamento. Pois se esse aqui envolvia o genocídio de crianças através de máscaras de Dia das Bruxas, vocês já pararam para imaginar o que mais poderia sair das mentes de John Carpenter e Debra Hill nos próximos "Halloween" com histórias independentes que eles planejavam?

Não dá nem para imaginar, mas acredito que seriam histórias muito melhores do que o "mais do mesmo" que tomou conta da franquia. E certamente seríamos poupados de coisas como Michael Myers emo-chorão ("Halloween 5"), conspiração druida ("Halloween 6"), "Halloween" para a Geração "Pânico" ("H20") e Big Brother de Halloween ("Halloween, A Ressurreição").

PS: "A Colheita Maldita 3" (1995) plagiou vergonhosamente o plano de extermínio global da Silver Shamrock, apenas substituindo as máscaras de Dia das Bruxas por uma nova variedade de milho - mas com os mesmos "efeitos colaterais". Talvez o velho Cochran devesse mandar um dos seus advogados-robôs para conversar com esse pessoal aí...


Trailer de HALLOWEEN III



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Halloween III: Season of the Witch
(1982, EUA)

Direção: Tommy Lee Wallace
Elenco: Tom Atkins, Stacey Nelkin, Dan O'Herlihy,
Michael Currie, Ralph Strait, Jadeen Barbor, Nancy
Kyes, Jonathan Terry e Dick Warlock.