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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO (1986)


(Esta foi uma das primeiras postagens do FILMES PARA DOIDOS, publicada originalmente há cinco anos, em 11/10/2008. Como ela ainda estava no formato antigo - muito texto e alguns vídeos, sem fotos -, e pensando em quem está chegando agora e não conhece as postagens antigas, resolvi republicá-la em versão revisada e ilustrada. Dedico esta republicação ao amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, já que eu fui o culpado por convertê-lo em fã de Paco Queruak!)

Quando eu era mais novo (não que hoje seja TÃO velho, é claro), KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO era uma espécie de "clássico de infância", que eu adorava ver e rever toda vez que o SBT reprisava na Sessão das Dez ou no Cinema em Casa. Todo mundo tem esses clássicos só seus, às vezes filmes horrorosos, mas que para nós têm certo charme especial. E eu gostava tanto deste que me ressentia de não ter um espaço para escrever um texto sobre ele, que todo mundo pudesse ler - à época, quem poderia imaginar que um dia teríamos a Internet para poder expressar as ideias ao mundo inteiro?


De tão viciado na fita, comecei a usar o pseudônimo do diretor italiano Sergio Martino - que assina este e vários outros filmes como "Martin Dolman" - como se fosse o meu próprio pseudônimo, para escrever contos e postar em fóruns e chats. Até hoje tenho contas de e-mail com este nome, e até hoje continuo fã declarado desta tralha trash.

Assim como eu, muita gente viu o filme nas intermináveis reprises proporcionadas pelo SBT. E, assim como eu, muitos viraram fã desta aventura pobre e divertida. É claro que, revendo hoje, todos temos um olhar mais crítico, e algumas coisas não são mais tão legais quanto eram na infância (quando até cenas de queda-de-braço eram o máximo!). Mas, surpreendentemente, KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO continua uma ótima diversão, na linha "guilty pleasure" (aqueles filmes ruins que adoramos).


Com um excelente elenco de figurinhas carimbadas das produções italianas da época, a participação de John Saxon como o malvadão e muita ação e tiros, além dos tradicionais exageros do cinema italiano, trata-se de um programa obrigatório para quem gosta desse estilo muito peculiar de "arte".

O roteiro, escrito a dez mãos (!!!) por Martino/Dolman, Elisa Briganti, Lewis E. Ciannelli, Ernesto Gastaldi e Dardano Sacchetti, é praticamente uma mistura no liquificador de tudo que se fazia no cinema americano de ação da época (anos 1980), conforme veremos ao longo dessa resenha.


Lançado em 1986, o filme se chama "Mani di Pietra" (Mãos de Pedra) na Itália e "Hands of Steel" (Mãos de Aço) nos EUA - ou seja: muda o país, muda o material das mãos do cara! No Brasil, o título envolvendo a palavra "Exterminador" é uma mera referência ao sucesso de "O Exterminador do Futuro", com Schwarzenegger, dirigido em 1984 pelo americano James Cameron. Entretanto, se fosse seguir a lógica de materiais duros (pedra, aço...) usados nos títulos italiano e americano, KERUAK deveria ser rebatizado como "Mãos de Diamante", "Mãos de Granito" ou "Mãos de Adamantium" por aqui...

Depois, nos sucessivos lançamentos e relançamentos ao redor do mundo, a obra foi ganhando outros nomes cada vez mais estrambólicos, como "Vendetta dal Futuro" (Vingança do Futuro), "Atomic Cyborg" (O Cyborg... pfffff! Atômico!!!) e até "Return of the Terminator", para forçar mesmo uma relação com "O Exterminador do Futuro"!!! Mas vamos à trama.


O forçudo Paco Queruak (e não "Keruak", como foi utilizado no título nacional, talvez porque o tradutor era fã do escritor Jack Kerouac) é um cyborg que um dia foi humano, mas sofreu um acidente e teve que ser reconstruído ciberneticamente. Restou-lhe apenas 30% de humanidade no corpo; os outros 70% foram reconstruídos mecanicamente.

Paco é "interpretado" pelo americano Daniel Greene, basicamente numa imitação do Exterminador de Schwarzenegger, e a trama se passa num "futuro" não muito distante e nunca identificado (1997, segundo algumas fontes), quando a natureza e o meio ambiente foram arruinados pela poluição - isso é apresentado principalmente nos créditos iniciais, com imagens de fábricas despejando fumaça no ambiente e mendigos dormindo na rua, e numa cena posterior em que o herói atravessa uma zona de chuva ácida como se fosse a coisa mais comum do mundo.


Condicionado para ser um "exterminador" (desculpem o trocadilho), Paco foi contratado por uma ambiciosa organização, chefiada pelo maléfico Francis Turner (John Saxon, em pequena participação onde quase sempre aparece ao telefone). A missão: eliminar (ou "exterminar") o líder de um grupo de chatíssimos ecologistas, o reverendo Arthur Mosely (Franco Fantasia, um veterano do western spaghetti).

Pouco antes de cumprir sua missão, o cyborg verifica o horário para ver se está "dentro do cronograma" e o diretor Martino nos brinda com um plano de detalhe do seu fantástico "relógio-futurista" - que, na verdade, é apenas um daqueles velhos relógios digitais de camelô que vinha com calculadora junto (abaixo), que era o máximo de tecnologia lá na década de 80!


Quando está para exterminar (hehehe) o alvo, algo no cérebro do robô assassino (lembranças de quando era humano, talvez?) faz com que ele não atinja o Reverendo mortalmente, apenas apunhale-o no peito com a própria mão (ele é um cyborg com mãos de pedra/aço, esqueceu?). Depois, Paco escapa do edifício cheio de seguranças e policiais, passando por um túnel de alta tensão, até chegar a um também estiloso "carrão futurista", que é basicamente um calhambeque qualquer com um cano prateado colado em cima. Usando este possante carrão, o cyborg foge enfrentando até a tal tempestade de chuva ácida (!!!), que corrói o veículo.

A polícia e o FBI imediatamente iniciam a perseguição ao assassino, mas não estarão sozinhos na jornada. Acontece que a organização que programou o cyborg sabe que se ele cair nas mãos da lei, pode acabar revelando alguma coisa sobre os podres de Turner. Por isso, o figurão envia alguns de seus homens em busca de Queruak no lugar onde ele nasceu - a pequena cidadezinha de Page, no desértico Arizona.


Neste momento, o cyborg vai parar em um bar/motel de beira de estrada chefiado por Linda (Janet Agren, de "Pânico"). Ele decide ficar por lá trabalhando para Linda e protegendo-a dos valentões que aparecem, mais ou menos como uma versão anabolizada do Shane, o pistoleiro do clássico "Os Brutos Também Amam". E olha que valentões não faltam! O pior deles é o caminhoneiro Raul Morales, interpretado pelo "Antropophagous" em pessoa, George Eastman, dublado com um ridículo sotaque mexicano de dar dó (o dublador parece estar imitando o Tony Montana de Al Pacino em "Scarface"!).

O grandalhão Morales se enfurece com a presença de Queruak desde o começo. Bêbado, insiste para que o herói repita a frase "Raul Morales is the strongest", ou "Raul Morales é o mais forte" (e não tem como não rolar de rir com a dublagem desta cena; eu, pelo menos, me divirto até hoje). Com seu olhar intimidador de cyborg (aliás, o único olhar que demonstra o filme inteiro), Paco responde: "You're a looser!" ("Você é um perdedor!"). Pronto, cutucou a onça com vara curta!


Eis que o bar de Linda promove competições de queda de braço (no que eu até pensei que fosse uma referência a "Falcão - O Campeão dos Campeões", aquela bomba estrelada por Stallone, mas este foi feito no ano posterior, em 1987). Raul se acha o mais fortão da região e desafia Paco para uma queda-de-braço. Mas, claro, acaba perdendo uma fortuna quando o cyborg torce seu braço, e aí também entra no time que quer dar o troco no herói.

E como nada está tão ruim que não possa piorar, um assassino profissional europeu infalível chamado Peter Hallo (Claudio Cassinelli, um dos atores preferidos de Martino, que havia estrelado "A Ilha dos Homens-Peixe") é contratado por Turner para dar cabo do robô com mãos de pedra/aço. Será o fim do nosso herói cibernético?


A partir de então, KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO se desenvolve com ação incessante, deixando pouco tempo para o espectador pensar na imbecilidade e na pobreza da coisa toda. Há perseguições de carro, de caminhão, de helicóptero, muitos tiroteios, lutas e mortes. Lá pelas tantas aparece até uma segunda cyborg usada pela organização de Turner, uma loirinha histérica e furiosa que sai na porrada com Queruak mais ou menos como a Pris de "Blade Runner", naquela que definitivamente é a melhor cena do filme (acima).

O final traz um grande duelo como convém a um filme do gênero, numa fábrica abandonada, onde Queruak é cercado por diversos homens de Turner, todos eles vestidos de preto e usando capacetes de motoqueiro (lembrando os vilões de "Fuga do Bronx", de Enzo G. Castellari). Claro que eles não são páreo para o cyborg e acabam sendo exterminados violentamente, em cenas que mostram os efeitos especiais do especialista Sergio Stivaletti - com direito a soco que arrebenta o visor do capacete e o rosto de um dos homens.


KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO é um filme muito divertido e engraçado - desde que se entre no espírito da coisa, claro. Daniel Greene é um péssimo ator (o que ajuda na sua interpretação de cyborg), que parece ter sido escolhido apenas por ser uma montanha de músculos igual a Schwarzenegger (Lou Ferrigno provavelmente era a segunda opção). E a mão do cara é enorme mesmo, o que ajuda o espectador a acreditar no fato de que o cyborg tem as tais "mãos de aço".

Até hoje lembro de cor da frase na capinha da fita lançada no Brasil pela América Vídeo: "Sou o resultado do projeto HOS 1. 70% do meu corpo foi reconstruído. Nível de eficiência: máximo. Características negativas: nenhuma. Poder: MÃOS DE AÇO". E o desenho da capa mostra o musculoso Paco com uma espécie de "Raio-X" de seus braços, mostrando que são cibernéticos - algo que nunca é plenamente exibido em nenhuma cena, talvez devido ao baixíssimo orçamento.

A propósito: como "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", a indústria de brinquedos Gulliver roubou a arte da capinha do filme para ilustrar as cartelas da sua coleção de bonecos "S.O.S. Commandos", no final dos anos 1980 (veja abaixo a prova do crime).

Participação especial de Keruak nos S.O.S. Commandos!

Embora seja mais conhecido pelos clássicos filmes "giallo" que dirigiu na década de 70, como "Torso" ou "A Cauda do Escorpião", Sergio Martino também é um bom diretor de filmes de aventura feitos com pouca grana (quem viu "A Montanha dos Canibais" e "A Ilha dos Homens-Peixe" sabe disso). Mas um filme como KERUAK realmente precisaria de um cineasta como Enzo G. Castellari para ficar ainda mais divertido e histérico.

Embora Martino até encene alguns momentos em slow motion, à la Castellari, ele na verdade fica completamente perdido ao filmar as cenas de luta. Com uma coreografia pobre (em pelo menos um momento fica evidente que Daniel Greene erra um dos socos cenográficos e seu golpe fica "no vácuo", talvez porque ele e o outro ator não tenham ensaiado o suficiente), e a câmera muito próxima dos atores, as cenas de pauleira são qualquer-nota e pouco memoráveis.


A investigação policial sobre o atentado ao Reverendo lá no começo do filme, comandada por um policial negro e por uma técnica forense chamada Dra. Peckinpah (?!?), também é completamente dispensável e apenas deixa o filme em ponto-morto, atrasando as cenas de ação. E rende um momento simplesmente ridículo, quando o ferimento no peito da vítima é "escaneado" por computador e a máquina revela as possíveis armas utilizadas na agressão: "escultura" (?), "barra de ferro", "peso de papel" (?) e... "MÃO"!

Para compensar estes pontos baixos, o diretor recheia o filme com momentos divertidos pela sua total insanidade, como quando o cyborg disputa uma queda-de-braço com um forçudão chamado Blanco (Darwyn Swalve) em estilo "roleta-russa": o competidor que perder terá sua mão picada por uma cobra cascavel!


A própria pobreza de recursos, dos carros "futuristas" e dos cenários conspira para transformar KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO numa divertida comédia involuntária. É difícil segurar o riso quando John Saxon tenta enfrentar seu cyborg usando um "canhão-laser" que não passa de um tubo preto de plástico com um velho flash de câmera fotográfica colado em cima!

Outros momentos de pobreza constrangedora envolvem o patético laboratório do cientista que criou Queruak (interpretado por Donald O'Brien), e que se resume a meia dúzia de canos prateados e umas luzes coloridas, e a "tecnologia de Atari" (abaixo) do "detector de calor" usado pelo matador Hallo para identificar quantas pessoas estão no interior de um local.


Felizmente, a pobreza não se estende à belíssima trilha sonora do músico nascido no Brasil Claudio Simonetti (aquele mesmo da banda Goblin, que fez as trilhas de "Dawn of the Dead", "Suspiria" e tantos outros clássicos). Pelo contrário, sua trilha poderia muito bem estar num filme melhorzinho, sublinha perfeitamente os momentos de ação e suspense, e é puro anos 80 (ou seja, sintetizadores na potência máxima).

Tanto que na edição 2013 do Fantaspoa (Festival de Cinema Fantástico realizado em Porto Alegre), um dos convidados de honra era o simpaticíssimo Simonetti, que fez seu primeiro concerto no Brasil tocando as trilhas mais famosas do seu repertório. Acompanhando-o na passagem de som, falei do meu apreço pelo seu trabalho em KERUAK e ele improvisou um trechinho da música-tema no teclado (como você pode ver aos 1min40s deste vídeo).


Infelizmente, KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO também marca a despedida definitiva do ator Claudio Cassinelli. Durante as filmagens, ele estava a bordo de um helicóptero que perdeu o controle, chocando-se contra uma ponte e explodindo ao atingir o chão. O ator, que estava com 47 anos, morreu junto com o piloto, antes de concluir sua participação no filme.

E como não havia nenhuma maneira de filmar as cenas restantes de Cassinelli como Peter Hallo, a solução foi matá-lo também no filme! Assim, na versão final improvisada, Turner acusa Hallo de ser fraco por ter falhado em sua missão de matar Queruak, e manda outro de seus capangas atirar num vulto que se aproxima do seu helicóptero - e que, obviamente, não é Cassinelli. Ouvem-se alguns tiros e um grito off-screen, fazendo-nos acreditar que o Hallo foi baleado e morto para poder ser retirado da narrativa (sequência de fotos abaixo).


Claro que o acidente marcou Martino para sempre. Na faixa de comentário do DVD importado de "A Montanha dos Canibais", o diretor comenta o caso: "Um crítico da época escreveu que o filme era tão ruim que não valia a vida de Claudio. Ora, nenhum filme vale a vida de um ator!".

Quem deve respirar aliviado até hoje é John Saxon, já que ele se recusou a filmar qualquer cena nos Estados Unidos e gravou toda a sua participação na Itália. Caso contrário, seguindo o roteiro original, ele estaria junto com Cassinelli no helicóptero naquele dia fatídico!


No fim, em meio à ação, o roteiro de KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO acaba não desenvolvendo sua melhor ideia, e que o posterior "Robocop" (1987) trabalhou de forma muito mais eficiente: quem é Paco Queruak? Será ele uma pessoa reconstruída mecanicamente, ou apenas um cyborg 100% mecânico que foi criado para pensar que é humano?

Durante todo o filme, o espectador é levado a acreditar que apenas os membros do cyborg são biônicos, mas o restante é humano e tem "alma". Só que o final é mais frio e pessimista (e bem interessante, também), embora a história encerre sem explicar o que acontece com o personagem - apenas entra um letreiro absurdo dizendo: "Em algum lugar do nosso futuro próximo, a Era do Cyborg começará". Bleargh!!!


Uma última curiosidade: numa cena (acima), Queruak dá uma conferida nos mecanismos cibernéticos do seu braço, e vemos um plano do ator Daniel Greene olhando para baixo e então um outro plano mostrando um braço parcialmente aberto, exibindo a estrutura mecânica que movimenta a mão e os dedos.

Bem, há quem jure que este último plano não foi filmado pelos italianos: os produtores simplesmente teriam comprado alguns takes filmados por James Cameron para a cena em que Schwarzenegger se "auto-conserta" no banheiro de um motel vagabundo em "O Exterminador do Futuro", e que não foram aproveitados na edição final! Nunca consegui confirmar a informação, mas o nível dos efeitos de maquiagem neste take do braço aberto é realmente muito superior a qualquer outra coisa da produção italiana. Portanto...

PS: Depois de uma curta e fracassada trajetória como herói de ação, o brucutu Daniel Greene acabou se rendendo à comédia. Ele fez uma inesperada parceria com os Irmãos Farrelly (aqueles que dirigiram "Debi & Lóide"!!!), e já apareceu em sete comédias da dupla, incluindo uma participação maior como vilão em "Eu, Eu Mesmo e Irene". Quem diria que Paco Queruak acabaria virando piada MESMO?


Trailer de KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO



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Mani di Pietra / Hands of Steel (1986, Itália)
Direção: Martin Dolman (aka Sergio Martino)
Elenco: Daniel Greene, Janet Agren, John Saxon,
Claudio Cassinelli, Donald O'Brien, Amy Werba,
Robert Ben e Pat Monti.

domingo, 13 de outubro de 2013

4D MAN (1959)


(Este artigo foi originalmente escrito para o site Boca do Inferno em 2007, mas eu acho que hoje ele se encaixa muito melhor aqui no FILMES PARA DOIDOS. Portanto, ei-lo republicado em versão revisada.)

Eu tinha 14 anos quando vi 4D MAN pela primeira vez (numa sessão do saudoso Cinema em Casa do SBT). À época, já era fascinado por filmes de horror como "Evil Dead" e "O Massacre da Serra Elétrica". Mesmo assim, a imagem relativamente simples e desprovida de sangue/violência de uma mão agonizante saindo de uma parede metálica, exibida no clímax do filme, ainda é uma das primeiras coisas que me vêm na cabeça quando lembro dos filmes de horror que mais me marcaram na infância.

Para começo de conversa, peço licença aos nobres leitores para usar o título original, 4D MAN, muito mais direto e marcante, do que os dois nomes brasileiros. O mais popular é "Quarta Dimensão", com o qual foi reprisado incontáveis vezes na TV brasileira. Mas em seu lançamento nos cinemas brasileiros, em 1962, a obra ganhou um título pomposo e inadequado, "Demônio Enfurecido" (veja anúncio da época acima), que remete mais ao horror sobrenatural do que à ficção científica esperta que realmente é. Ainda acho que a melhor tradução possível seria "O Homem da 4ª Dimensão", mas 4D MAN é legal demais para não usar no original!

E o que é a tal da quarta dimensão? Sem querer me estender na lição de física, sabe-se que existem três: comprimento (ou profundidade), largura e altura. A quarta dimensão, para alguns teóricos, seria simplesmente o tempo (ou dimensão temporal); já outros acreditam que existiria uma quarta dimensão espacial.


Exemplificando de maneira bem simples e direta: nós, seres tridimensionais, enxergamos o mundo em duas dimensões. Se existisse um homem quadridimensional, ele enxergaria tudo em três dimensões. Ao olhar para um cubo, por exemplo, ele veria simultaneamente as suas seis faces e também o que está DENTRO dele. Logo, um observador quadridimensional poderia, literalmente, enxergar a estrutura interna de objetos sólidos. Parece complicado, mas não é...

O assunto é riquíssimo e já deu muito pano para manga na ficção científica. Também rendeu curiosas histórias reais: em 1877, em Londres, um médium chamado Henry Slade foi a júri após declarar que possuía o poder de manipular objetos na quarta dimensão. Acabou sendo acusado de retirar dinheiro de dentro de um cofre fechado sem deixar qualquer sinal. Claro que a existência da quarta dimensão só existe na teoria. Mesmo assim, o físico francês Henri Poincaré (1854-1912) dizia: "Não quebrem a cabeça com a questão da quarta dimensão. É absolutamente impossível imaginá-la, mas mesmo assim ela existe".


Mas chega de física e voltemos ao mundo do cinema...

Na segunda metade dos anos 50, o americano Jack H. Harris, que até então produzia peças de teatro, resolveu investir em filmes. Para dirigi-los, ele contratou um pastor da Igreja Presbiteriana (!!!) que vivia na zona rural da Pennsylvania. Seu nome era Irwin Shortess Yeaworth Jr., um visionário que resolveu espalhar a palavra de Deus através do cinema.

O produtor Harris descobriu, praticamente por acaso, que Yeaworth Jr. e sua turma tinham criado um pólo de produção de filmes religiosos baratos em 35 mm, e percebeu que naquela cidadezinha, usando cenários interioranos e o talento do cineasta/pastor, ele poderia realizar filmes por uma fração do preço das produções de Hollywood.


Resumidamente, foi assim que um ministro da Igreja Presbiteriana foi contratado para fazer filmes de horror/ficção científica a toque de caixa, porque era esse tipo de produção que dava dinheiro na época. Reza a lenda que Yeaworth Jr. só aceitou filmar os projetos de Harris porque queria juntar dinheiro para continuar dirigindo suas próprias produções religiosas (o que lembra a forma como Ed Wood enganou a Igreja Batista para conseguir dinheiro para filmar seu "Plan 9 From Outer Space"!).

Naqueles milagres que acontecem volta-e-meia, produtor e cineasta de primeira viagem acertaram logo na estreia: o filme inaugural da parceria da dupla foi o clássico "A Bolha" (1958), que custou 240 mil dólares, rendeu milhões e transformou um jovem Steve McQueen em astro. Harris vendeu sua obra barata para um grande estúdio e faturou uma bolada para continuar produzindo.


Assim, já no ano seguinte, a dupla voltou com 4D MAN, outro filme relativamente barato, cujo orçamento estimado foi de 240 mil dólares (para comparação, "The Tingler", de William Castle, lançado no mesmo ano, custou 250 mil). O final do contrato entre a dupla foi marcado por "Dinosaurus!" (1960), uma aventura pré-histórica repleta de monstros em stop-motion.

Depois, Yeaworth Jr. abandonou o cinema comercial e partiu para seus filmes religiosos. Desnecessário dizer que ele simplesmente desapareceu do mapa e nunca mais falou-se do sujeito até sua morte, num acidente de carro em 2004. E embora o seu filme mais lembrado seja "A Bolha" (renegado até o fim pelo diretor, que não gostou do resultado), 4D MAN é, de longe, mais interessante e bem-feito.


O roteiro foi assinado por Theodore Simonson e Cy Chermak, baseados numa ideia do próprio produtor Harris, e reciclando ideias da história "O Homem Invisível", de H.G. Wells. Assim como Jack Griffin, o cientista que usava em si mesmo a fórmula da invisibilidade, o homem da quarta dimensão no filme de Yeaworth Jr. fica malvado ao descobrir que seus fantásticos poderes deram-lhe liberdade para fazer tudo o que sempre sonhou e até o que nunca imaginou fazer.

4D MAN começa com a tétrica narração de um locutor e seu "alerta" sobre os perigos da ciência. Como nos filmes de Ed Wood, o narrador anuncia até aquilo que o espectador está vendo e, teoricamente, não precisaria narrar (a chamada "narração para cegos")! Enquanto as cenas mostram um homem sentado num laboratório, por exemplo, o locutor diz: "Um homem, uma ideia, o equipamento, um lugar para trabalhar em segredo... Todos os ingredientes estão aqui".


O homem, que logo descobriremos ser o jovem cientista Tony Nelson (James Congdon, um inexpressivo ator de TV), está operando uma máquina esquisita e tentando atravessar um lápis num bloco de metal. Novamente, o narrador entra em cena com sua voz tenebrosa: "O trabalho de passar um lápis por um bloco de metal está sendo realizado por um homem que sabe que isso não pode ser feito. Mas talvez possa esta noite... O que ele não sabe é que sua obsessão irá transformar um homem em um monstro!".

Enquanto faz sua experiência, Tony não consegue de forma alguma atravessar o lápis no metal. Consegue, entretanto, fazer o equipamento todo explodir, provocando um incêndio em todo o laboratório - na verdade, uma maquete das mais fajutas.


O rapaz é demitido e expulso da cidade. Mas, cabeça-dura como todos os cientistas do cinema, muda-se para a Pennsylvania e vai procurar emprego num gigantesco laboratório de pesquisas, o Fairview Research Center, onde trabalha seu irmão, o dr. Scott Nelson (Robert Lansing). Juntamente com uma equipe que inclui a bela Linda Davis (Lee Meriwether, que foi a Mulher-Gato naquele velho filme do Batman de 1966), Scott está trabalhando no projeto de um material virtualmente indestrutível e impenetrável para a indústria armamentista, chamado "cargonite".

E é ele quem acabará se transformando no "Homem da 4ª Dimensão". Descontente com o trabalho (o chefe assume o crédito por todas as suas descobertas) e desprezado pela mulher que ama, Linda (que acabou se apaixonando pelo seu irmão!), o pobre cientista ainda foi bombardeado por excesso de radiação durante as pesquisas com a cargonite. Quando ele resolve refazer a experiência de Tony com o lápis e o bloco de metal, sua mão inteira atravessa a superfície sólida!


Feliz da vida por ter triunfado onde o irmão tantas vezes falhou, Scott curte a ideia de ter superpoderes e resolve aproveitar seu "dom" - e isso inclui atravessar uma caixa de correio com a mão e puxar uma carta lá de dentro, além de entrar no cofre de um banco para roubar milhares de dólares. E se o diretor do filme não fosse um pastor religioso, talvez também tivéssemos algumas cenas com Scott entrando em vestiários femininos para ver adolescentes tomando banho! Pense como seria uma versão deste filme dirigida pelo Paul Verhoeven ou pelo Eli Roth...

Após uma noite abusando do seu poder de atravessar paredes, o "Homem da 4ª Dimensão" amanhece com o cabelo grisalho e o rosto cheio de rugas, como se tivesse envelhecido 15 anos da noite para o dia. Este é o efeito colateral dos seus superpoderes, mas ele logo contornará o pequeno problema "roubando o tempo" de outras pessoas - ou seja, atravessando-as com seu corpo etéreo e matando-as no processo! É chegada a hora da vingança...


Na minha humilde opinião, uma das piores coisas quando você assiste filmes dos anos 1950 ou anteriores é que, salvo algumas exceções, eles são muito ingênuos. A maioria dos produtores e diretores tinha medo de chocar o espectador, por isso quase tudo que acontecia de "ruim" era mostrado fora do ângulo da câmera, ou off-screen.

4D MAN é um típico filme ingênuo dos anos 50, com todos os defeitos pertinentes às produções da época. Mas a história é tão boa e interessante que os pequenos defeitos não incomodam. Embora a narrativa seja exageradamente lenta para os padrões atuais (Scott só começa a demonstrar seus fantásticos poderes após 50 minutos de tempo rolando!), o filme nunca fica chato, conseguindo prender a atenção do espectador até a última - e marcante - cena.


Claro, cenas como as do romance de Tony e Linda, com seus beijinhos inocentes e até um piquenique romântico com direito a brincadeiras num parquinho infantil, hoje são inofensivas e de certa forma hilárias, incluindo diálogos risíveis - quando Tony recusa uma dança com Linda, por exemplo, ela responde: "Quer que eu me sinta velha e feia?".

Mas descontando esse detalhe, e um tema musical à base de jazz que soa um tanto deslocado, 4D MAN tem muito mais qualidades do que defeitos. Surpreende, inclusive, que o filme tenha sido dirigido por um pregador religioso, mas não fala em Deus nem em religião a todo momento, nem seus personagens tentam passar mensagens edificantes e/ou religiosas - não há nada sequer parecido com o tom excessivamente carola do "Guerra dos Mundos" de 1953, só para comparar com outra produção do período.


O roteiro também não busca soluções fáceis. Seria muito simples, por exemplo, regenerar Scott no final, já que ele é um personagem relativamente simpático aos olhos do público antes de se transformar no "4D Man". Entretanto, o roteiro prefere seguir por uma trilha mais tortuosa, mostrando lentamente a transformação de um cara gentil e legal num homicida megalomaníaco e com planos de dominação mundial.

Se em "O Homem Invisível" o cientista Jack Griffin passava para o "lado negro" simplesmente porque podia, e porque seus poderes permitiam, Scott aqui é um autêntico personagem de tragédia grega, eternamente em choque com a figura do próprio irmão. Tony não só rouba o interesse romântico de Scott (coisa que já havia feito no passado!), como ainda surge com uma experiência de atravessar superfícies sólidas justamente no momento em que seu irmão mais velho acabou de desenvolver um novo metal supostamente invulnerável, a cargonite! Logo, Scott Nelson tem motivos mais do que suficientes para se transformar num criminoso com sede de poder e de vingança. O falecido Robert Lansing (aqui em sua estreia no cinema!) consegue compor um vilão de respeito, sem apelar para caretas ou gargalhadas sinistras.


Mas se há algo que brilha em 4D MAN são os efeitos especiais, criados por Bart Sloane (que só trabalhou neste filme e no anterior "A Bolha"). Pode até soar estranho elogiar os efeitos especiais de um filme barato dos anos 50, quando os diretores preferiam cortar a cena no meio e deixar tudo na imaginação do espectador a tentar reproduzir façanhas mirabolantes com os efeitos jurássicos que tinham em mãos.

O caso aqui é complicado, já que Scott utiliza seus poderes diversas vezes ao longo do filme, fugindo através de paredes, tornando-se "transparente" para que balas lhe atravessem e passando por cercas eletrificadas como se elas não existissem. Todas essas trucagens são muito bem realizadas, numa mistura de técnicas fotográficas simples (tipo a mão do ator passando POR TRÁS do objeto, e não PELO MEIO DELE, mas com a câmera posicionada de forma a não permitir que o espectador perceba) com alguns efeitos mais elaborados em chroma-key (esses utilizados com economia). E se algumas destas cenas continuam legais até hoje, fico imaginando a surpresa dos espectadores na época em que o filme foi lançado nos cinemas ("passar pela porta" ganha um novo sentido, rendendo até uma inspirada piadinha).


Inteligentemente, os roteiristas Simonson e Chermak incluíram uma cena que mostra ao espectador que Scott pode controlar seus poderes de quarta dimensão, conseguindo ficar "sólido" para abrir uma maçaneta ao invés de simplesmente atravessá-la com a mão. Essa única cena de 10 segundos corrige o que poderia ser um grande furo do roteiro: no estado de quarta dimensão, Scott teoricamente não poderia nem caminhar, pois atravessaria a Terra de um pólo a outro sem existir em "forma sólida"!

Além de Lansing e de Lee Meriwether, que virou "cult" depois de interpretar a Mulher-Gato no filme "Batman - O Homem Morcego" (vale lembrar que quem fazia o papel no seriado era Julie Newmar), 4D MAN tem outra celebridade no elenco: uma jovem Patty Duke, em pequena participação como uma das vítimas de Scott. Três anos depois, com apenas 16 anos de idade, ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Milagre de Anne Sullivan" (1962).


Há algum tempo, num daqueles longos bate-bocas que acontecem em fóruns de discussão, alguém comentou que não conseguia entender como as pessoas ainda conseguem assistir filmes antigos nos dias de hoje. Eu queria muito ver a reação desse sujeito a 4D MAN, um filme "antigo" que, guardadas as devidas proporções, não foi tão afetado pela idade avançada. Aliás, descontando cortes de cabelos, roupas e algumas frescuras típicas daqueles tempos, a obra de Yeaworth Jr. continua tão boa e impressionante quanto na época em que foi lançada - ao contrário dos dois outros filmes do cineasta, que envelheceram mal.

Inclusive eu lamento que a parceria entre o diretor Yeaworth Jr. e o produtor Harris tenha encerrado prematuramente com apenas três filmes. Fico imaginando o que viria numa quarta produção conjunta dos dois, depois de uma bolha assassina do espaço sideral, um homem que atravessa paredes e rouba tempo das pessoas e uma aventura pré-histórica com dinossauros em stop-motion...


Infelizmente, o chamado religioso levou embora um criativo e pouco conhecido cineasta do mundo da fantasia. Talvez Yeaworth Jr. tenha sido mais feliz dirigindo seus filmes evangélicos dos quais ninguém nunca ouviu falar. Mas o cinema de horror e ficção científica, definitivamente, perdeu um nome com bastante potencial.

E num mundo atual onde produtores inescrupulosos estão refilmando até produções feitas no ano anterior, confesso que gostaria de ver uma versão moderna de 4D MAN. Com os efeitos maravilhosos dos tempos atuais, o Homem da Quarta Dimensão poderia realizar façanhas ainda mais estrambólicas do que aquelas dos anos 50 - tipo fugir a pé por uma rodovia simplesmente atravessando pelo meio dos carros!

Com um nome digno na direção, e não o videoclipeiro desempregado do momento, poderia sair algo muito legal disso. Mas, claro, incluindo sangue, sexo e mulher pelada desta vez, já que os tempos, para o bem e para o mal, são outros!


Trailer de 4D MAN (em alemão!)



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4D Man (1959, EUA)
Direção: Irvin S. Yeaworth Jr.
Elenco: Robert Lansing, Lee Meriwether, Patty

Duke, James Congdon, Robert Strauss, 
Edgar Stehli e George Karas.