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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

POLICE STORY (1985)


Nascido em 1954 e fazendo filmes desde criança, Jackie Chan era um dos nomes mais populares do cinema de ação oriental no final da década de 70 (graças, principalmente, ao sucesso de "O Mestre Invencível", de 1978), mas seu sonho sempre foi ser um ídolo de Hollywood. Ele tentou chegar lá duas vezes. A primeira foi com "O Grande Lutador" (1980), quando a Warner Bros., então em busca do "novo Bruce Lee", colocou boa parte da equipe de "Operação Dragão" (incluindo o diretor Robert Clouse) para apresentar Chan oficialmente ao público ocidental. Não funcionou, o filme foi um fiasco de bilheteria e relegou o astro a pequenas participações em comédias como "Quem Não Corre, Voa".

Cinco anos depois, Chan tentou novamente ao estrelar o policial "A Fúria do Protetor", de James Glickenhaus, mas o resultado não só foi negativo em termos de bilheteria, como ainda deixou Jackie puto com as oportunidades que recebia no cinema norte-americano. Só que há males que vêm para bem: se não fosse pelo fracasso de "A Fúria do Protetor", não teríamos um filmaço como o projeto seguinte do astro, POLICE STORY, que ele estrelou e dirigiu em Hong-Kong.


"Eu queria mostrar ao meu chefe que eu podia fazer melhor que 'A Fúria do Protetor'", declarou Jackie, com todas as letras, numa entrevista que faz parte dos extras da edição especial gringa de POLICE STORY. E ele continua: "Era o roteiro errado na hora errada. Eu não devia ser um policial chinês em Nova York! Então eu escrevi meu próprio roteiro e mostrei a ele: 'Veja, é isso que eu quero fazer'. E foi um sucesso!".

Chan tem uma filmografia que já ultrapassou os 100 filmes, e é claro que eu não consegui ver todos eles - pelo contrário, lamento ter visto menos obras dele do que deveria (e gostaria). Mesmo assim, de tudo que eu vi até hoje, achei POLICE STORY disparado o seu melhor filme. O próprio astro concorda, já que, em sua autobiografia, declarou que era seu trabalho preferido. E mais: eu o recomendo como uma síntese do cinema de Jackie Chan para quem nunca viu um trabalho do mito e quer começar por algum lugar.


O título genérico ("História Policial", em português literal) teria sido uma estratégia do ator-diretor para evitar imitações. Acontece que seus filmes eram tão populares na Ásia naquela época que bastava o nome da obra vazar para choverem imitadores.

Por exemplo, o sucesso de "O Mestre Invencível" (no original, "Drunken Master") deu origem a uma série de "drunken masters" falsos feitos apenas para lucrar nas costas de Jackie, incluindo "Revenge of the Drunken Master", do mestre da picaretagem Godfrey Ho. Mas com um título que não deixava maiores referências, como "História Policial", ficava meio difícil copiar a temática.


POLICE STORY bebe da fonte do cinema policial/de ação de Hollywood, com menos coreografias de artes marciais (Jackie diz que preferiu usar algo próximo da briga de rua) e mais tiros e perseguições automobilísticas. Mas sempre com aquele toque pessoal que os produtores norte-americanos se recusavam a "importar": a ação aliada ao humor ingênuo, com herói e vilões envolvendo-se em lutas violentas, porém marcadas por certo toque de comédia, já que o protagonista usa tudo ao seu redor como arma.

E, claro, o fato de Jackie protagonizar todas as cenas de ação dispensando dublê, por mais perigosas e amalucadas que sejam - tipo pular de grandes alturas, atravessar vidro cenográfico ou ficar pendurado do lado de fora de um ônibus em alta velocidade, tudo sem aqueles cabos ou fios que permitem voos e acrobacias impossíveis.


As cenas de ação dos velhos filmes de Chan são espetaculares porque ele fazia estas acrobacias no limite do impossível, como se a cada filme quisesse bater o próprio recorde de maluquice. Não poucas vezes ele se machucava feio no processo, inclusive quebrando ossos.

Por isso, mesmo tendo sido feito há praticamente 30 anos, POLICE STORY continua dando um banho na maioria dos filmes de ação recentes. Afinal, não tem nada daquelas trucagens ou da computação gráfica que infesta o cinema moderno: quando o herói se atira do terceiro andar, ele realmente está se atirando do terceiro andar; quando três dublês caem do topo de um ônibus e batem a cabeça no asfalto, eles realmente devem ter ficado com um galo enorme durante semanas!


Escrito pelo próprio Jackie em parceria com Edward Tang (um de seus colaboradores habituais), o filme não perde tempo e apresenta heróis e vilões durante o planejamento de uma mega-operação das forças especiais da polícia de Hong-Kong. O objetivo é prender Chu Tao (Yuen Chor), um poderoso traficante de drogas que se esconde sob a fachada de um rico empresário.

Jackie é Chan Ka Kui (rebatizado "Kevin Chan" e até "Jackie Chan" mesmo nas versões dubladas em inglês para o mercado ocidental!), um super-tira que acabou de ser transferido para aquele distrito e logo se vê no meio da perigosa missão. Os policiais pretendem melar uma negociação de drogas que acontecerá numa favela no subúrbio da cidade, mas a batida dá errado e termina num tiroteio dos diabos, com policiais, bandidos e moradores da favela no meio do fogo cruzado.


Esta cena, que ocorre logo nos primeiros 10 minutos, já dá o tom de POLICE STORY: balas são disparadas para todos os lados enquanto policiais e bandidos correm completamente desorientados pelas ruelas apertadas da favela. A situação é tão estressante que um dos policiais surta e dispara a esmo, apavorado; depois, mija nas próprias calças de pânico!

E nada pode preparar o espectador desavisado para o desfecho desta cena, quando os bandidões correm para seus carros, percebem que a estrada foi bloqueada pela polícia e chegam à conclusão de que a única saída é descer o morro em linha reta, bem pelo meio da favela! O resultado é uma das mais absurdas cenas de perseguição automobilística já filmadas. Uma verdadeira loucura, com carros velozes atravessando barracos, entre explosões e pessoas correndo em frente aos carros, desviando de serem atropeladas por poucos centímetros! Enfim, algo que só vendo para acreditar - e até hoje me espanta o fato de ninguém ter morrido durante as filmagens desse negócio!


A tresloucada perseguição termina com Chu Tao e seus capangas sequestrando um ônibus, e Chan tendo que se pendurar na janelinha traseira do veículo em movimento usando apenas um guarda-chuva (e percebe-se claramente que é o próprio Jackie pendurado, e não um dublê), até finalmente conseguir fazer o ônibus frear bruscamente - e os bandidos voarem pela janela e se estatelarem de cabeça no asfalto!

Todos são presos e o policial vira ídolo da noite para o dia, aparecendo em anúncios institucionais da polícia e reportagens de TV. Mas a missão ainda não está concluída: a polícia conta com o testemunho da secretária do vilão, Selina Fong (a gracinha Brigitte Lin), para manter Tao atrás das grades. Sabendo que os homens do vilão farão de tudo para eliminar a testemunha, Chan é escalado para protegê-la nos dias que antecedem o julgamento.


Só que ambos se odeiam desde o início (afinal, foi ele o responsável por prender a moça). Para piorar a situação, Selina não tem a menor intenção de testemunhar contra seu patrão e foge na véspera do julgamento, deixando o herói na mão; Ele é ridicularizado no júri e o vilão é absolvido por falta de provas e por um advogado muito astuto, que todos os políticos brasileiros envolvidos em escândalos adorariam contratar.

Só que Chu Tao não é flor que se cheire e resolve se vingar do responsável por sua prisão, forjando provas para acusá-lo de um assassinato. Assim, o super-policial Chan precisa fugir da lei e procurar o vilão para um ajuste de contas.


O clímax de POLICE STORY é uma luta explosiva, e que vale o filme inteiro, num shopping-center lotado, onde Chu Tao e seus homens perseguem Selina, que leva uma pasta repleta de provas contra os bandidos. É quando Chan (o herói e o astro), em desvantagem numérica contra os capangas do vilão, conta apenas com suas loucuras e malabarismos para reverter a situação.

Alternando cenas em alta velocidade com outras em câmera lenta, a luta no shoppng é a epítome do exagero e da criatividade do cinema de ação oriental, com pessoas atravessando vidraças como se fosse a coisa mais comum do mundo (e tantas vidraças que o filme foi apelidado de "Glass Story" durante as gravações) e dublês sendo atirados de maneira violenta contra escadas, balcões e espelhos, levando o espectador a se retorcer na poltrona como se tivesse levado ele próprio o golpe!


E o melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista) sobra para o próprio Jackie Chan, que, sem dublê, se atira de alturas consideráveis, quebra vidraças com o próprio rosto e não é atropelado por uma moto por questão de milímetros (aquela típica cena suicida que o astro adorava filmar, e que ao menor erro de sincronia poderia ter acabado em acidente grave). Por isso, quando vemos o herói com vários hematomas e cortes ensanguentados no rosto nesta cena final, fica até a dúvida sobre o que é maquiagem e o que são machucados reais, tal o realismo das cenas!

No auge da maluquice, Jackie escorrega três andares segurando-se a um poste metálico enfeitado com luzinhas de Natal, e aterrissando sobre o teto de madeira de uma banca. É o "stunt" mais arriscado do filme e o próprio Jackie realizou a façanha, por isso filmou-a num único take e com 15 câmeras espalhadas em diferentes ângulos - ao menos é o que o astro contou na entrevista, mas apenas três ângulos aparecem no filme e outros dois nas cenas excluídas.


Jackie Chan fazendo pole dance



Claro que esse é o tipo de doideira que ninguém em sã consciência faria além do kamikaze Jackie Chan: o próprio astro ficou paralisado de medo momentos antes de realizar a proeza, e, na descida, ganhou queimaduras de segundo grau nas mãos (por causa das luzinhas ligadas) e ainda deslocou duas vértebras no final da queda, escapando por muito pouco de ficar paralítico!

Em outro malabarismo ousado, na cena que despenca sobre o teto de outra banca, o astro chegou a sofrer uma parada respiratória - as cenas dos bastidores, com os primeiros socorros ao astro, são exibidas durante os créditos finais do filme. Isso comprova que poucos heróis de ação são tão sem-noção quanto Jackie Chan, e é por isso que sempre dou gargalhada quando um grande astro de Hollywood, tipo Tom Cruise, se vangloria por ter feito "algumas cenas sem dublê" em seus filmes. Vai chupar um prego, Cruise!


Sendo um legítimo filme de Jackie Chan, nem tudo é ação e pancadaria em POLICE STORY. Pelo contrário, a história tem um viés cômico bastante evidente e explorado. Algumas cenas são bem bobinhas e destoam do clima, o que pode ter soado estranho principalmente para o público ocidental (tipo o herói fazendo um "moon walk" improvisado depois de pisar em cocô, ou os sucessivos momentos engraçadinhos envolvendo "tortadas" na cara).

Já outras piadas são geniais, e aliam a comicidade às habilidades do astro como lutador e acrobata, com destaque para o momento em que ele se vê sozinho na delegacia e precisa atender quatro telefones ao mesmo tempo enquanto prepara seu almoço. É comédia física da melhor qualidade.


(SPOILER) Um detalhe curioso é que POLICE STORY acaba bruscamente, com uma imagem congelada em meio à ação, deixando a impressão de que o roteirista Edward Tang não sabia como concluir a história. A verdade é outra: originalmente o final era outro, com o herói pagando caro por ter tomado a justiça nas próprias mãos e sendo preso junto com o vilão. Isso vai de encontro às crenças pessoais do próprio Jackie, que acreditava que, se o herói infringisse a lei, deveria sofrer as consequências.

Só que a cena foi considerada muito pessimista para o público ocidental, e o distribuidor achou melhor cortar e substituir pelo freeze frame do momento imediatamente anterior à prisão. Posteriormente, quando o sucesso do filme originou a primeira continuação ("Police Story 2", em 1988), o herói já aparece livre e não há nenhuma menção à sua prisão, portanto aquele final pessimista acabou sendo retirado também das cópias orientais. (FIM DO SPOILER)


E a conclusão não foi o único corte feito para tornar o filme mais "palatável" para as plateias ocidentais: como era bastante comum na época (e até hoje), os distribuidores estrangeiros mexeram na montagem e tiraram 11 minutos da edição original. Infelizmente, esta é a versão que foi lançada também no Brasil (em VHS e DVD, com o subtítulo "A Guerra das Drogas").

Entre as diferenças na comparação "versão ocidental x oriental", a cena inicial é bem mais longa na edição de Hong-Kong, e mostra o personagem de Jackie sendo transferido para seu novo distrito, quando aproveita para apresentar personagens que o espectador ocidental acaba conhecendo apenas mais tarde e ao longo do filme - tipo o policial que se acovarda na hora do tiroteio e um colega do herói que tenta assustar Selina fazendo-se passar por capanga do vilão.


Com cortes ou sem, POLICE STORY foi um sucesso estrondoso primeiro em Hong-Kong (onde ganhou o prêmio de Melhor Filme no Hong Kong Film Awards de 1986), depois no Ocidente, onde Jackie Chan acabou virando o ídolo de astros como Burt Reynolds e Sylvester Stallone. E a ação desenfreada provocou um impacto tão grande no cinema de ação ocidental que cenas inteiras foram e continuam sendo copiadas na cara-dura.

Por exemplo, a cena em que Chan força um ônibus a parar, impulsionando seus ocupantes através do pára-brisa, foi reproduzida fielmente em "Tango & Cash - Os Vingadores" (1989), quando Stallone faz a mesmíssima coisa com um caminhão. Mais recentemente, em "Bad Boys 2" (2003), Michael Bay colocou seus heróis e vilões para atravessarem uma favela de carro, numa "citação" sem a menor sutileza e que pouquíssimos críticos pegaram.


Isso só demonstra como POLICE STORY é um filme tão à frente do seu tempo que serve de modelo e referência até os dias atuais. Aliás, mantém-se ainda hoje como um dos melhores e mais bem finalizados filmes de Jackie Chan. Todos os elementos que abriram as portas para o sucesso do astro em Hollywood estão presentes aqui e seriam reproduzidos depois à exaustão, inclusive nas quatro sequências que a aventura teve (a última, "New Police Story", é de 2004 e foi lançada no Brasil como "A Hora do Acerto").

E é uma coisa linda ver Jackie em ação à moda antiga. Os malabarismos improváveis realizados por ele e seus dublês são a prova irrefutável de como o moderno cinema de ação está estagnado, com muito barulho, explosões e efeitos especiais, mas poucas cenas realmente criativas e emocionantes, em que o espectador chega a temer pela integridade física de heróis e vilões. Não por acaso, o último filme de ação que eu realmente aplaudi de pé era oriental: o delirante "The Raid" (2011), de Gareth Evans, lançado no Brasil como "Operação Invasão", e que também mescla uma trama policial em alta velocidade com artes marciais, a exemplo do que Jackie Chan fez 30 anos atrás.


Apesar do sucesso no Ocidente, ainda não foi POLICE STORY o filme que finalmente abriu as portas para que Jackie se tornasse astro em Hollywood. Ele continuou fazendo suas doideiras no Oriente até dar a sorte grande com "Arrebentando em Nova York", co-produção Canadá/Hong-Kong dirigida por Stanley Tong e produzida dez anos depois, em 1995.

Daí foi um pulo para que o baixinho kamikaze ganhasse papéis de respeito como "sidekick" nas comédias "A Hora do Rush" (1998) e "Bater ou Correr" (2000). Tá, tecnicamente Chan era o astro desses filmes, mas sempre havia um ator ocidental metido a besta para fazer dupla com ele (Chris Tucker em um, Owen Wilson no outro), pois os produtores provavelmente pensavam que Jackie não tinha cacife para segurar um filme inteiro sozinho.


Os filmes solo nos EUA só começaram a chegar a partir de "O Terno de Dois Bilhões de Dólares", em 2002, e o homem está na ativa até hoje, agora como grande astro, com nome em destaque no pôster e estrelando superproduções. Pena que são bobagens anos-luz distante de POLICE STORY, como os infantilóides "Missão Quase Impossível" (em que precisa, vejam só que original, bancar a babá de crianças malcriadas!!!), e o já citado "O Terno de Dois Bilhões de Dólares", que é praticamente impossível de assistir.

Para quem conhece o verdadeiro cinema de Jackie Chan, e seus filmaços como POLICE STORY, as superproduções que ele estrela nos EUA não passam de grandes desperdícios do potencial do astro, calcadas em efeitos especiais e em piadinhas bobas para um público infantil. Chegam a ser ofensivas, até. Menos mal que, entre um blockbuster imbecil e outro, ele dá uma escapadinha para fazer um filme em Hong-Kong, e é quando podemos testemunhar lampejos do velho e bom Jackie, ainda que agora envelhecido e às voltas com papéis mais sérios.


Mas é uma pena que "O Grande Lutador" e "A Fúria do Protetor" não tenham dado certo na época em que foram produzidos, lá atrás nos anos 80. Fico só imaginando o impacto que o jovem Jackie Chan provocaria no cinema de ação ocidental caso Hollywood não tivesse fechado as portas para ele tão prematuramente. Se tivesse sido devidamente "importado" para os EUA já em 1985, provavelmente não teríamos Van Dammes, Seagals e outros; Chan reinaria absoluto durante décadas, e sem imitadores porque ninguém seria tão maluco quanto ele!

Enfim, POLICE STORY pode até não ser o melhor filme de Jackie (como já escrevi, não vi todos eles para julgar), mas com certeza é um dos títulos essenciais da filmografia do ídolo, e uma belíssima apresentação do que ele pode fazer, como ator, como diretor e como seu próprio dublê.

PS: Durante os créditos finais, são exibidos erros de gravação e cenas dos bastidores das gravações (quando se percebe claramente que astro e dublês se machucaram DE VERDADE em vários momentos das filmagens). Foi algo que Chan aprendeu com o diretor, ator e dublê Hal Needham em "Quem Não Corre, Voa", e que repetiu em seus próprios filmes desde então.


Trailer de POLICE STORY



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Police Story / Ging Chat Goo Si (1985, Hong-Kong)
Direção: Jackie Chan
Elenco: Jackie Chan, Maggie Cheung, Brigitte Lin,
Kwok-Hung Lam, Bill Tung, Yuen Chor, Charlie Cho,
Chi-Wing Lau e Hark-On Fung.

sábado, 7 de setembro de 2013

SHOCKING DARK (1989)


(Há alguns dias, um leitor comentou a ausência do mestre do trash italiano Bruno Mattei num blog com o nome "Filmes para Doidos". Esta resenha é uma maneira de tentar corrigir a injustiça. Espero que gostem, e em breve teremos mais Mattei por aqui!)

Oficialmente, James Cameron lançou seu blockbuster "Terminator 2" (no Brasil, "O Exterminador do Futuro 2") no ano de 1991. Foi um sucesso estrondoso, revolucionou a tecnologia dos efeitos especiais da época, e tal. O que Cameron provavelmente não sabe é que, dois anos antes, um bando de italianos picaretas lançou seu próprio "Terminator 2" - mas, com medinho de processo judicial, só o distribuiu com este título bem pouco honesto em alguns países da Europa, utilizando o mais genérico SHOCKING DARK para outros mercados fora do continente, como o Brasil.

E se James Cameron já teria motivos mais do que suficientes para processar os realizadores só pelo uso desonesto do título, fico imaginando qual seria a reação do cineasta caso ele tivesse assistido ao filme italiano - o que, provavelmente, nunca fez. Isso porque SHOCKING DARK nada mais é do que uma refilmagem disfarçada (ou bem pouco disfarçada, para ser sincero) de "Aliens, O Resgate", filme anterior do próprio Cameron, com os aliens sendo substituídos por monstros mutantes, e mais um cyborg assassino acrescentado à mistura apenas para justificar o título "Terminator 2"!


Lobby card do filme ainda com seu título picareta

Sim, amiguinhos, é muita picaretagem para um filme só, e portanto somente uma pessoa poderia estar por trás disso tudo: o único, o lendário, o mítico, o inesquecível, o insuperável, o mestre da sem-vergonhice, o rei da picaretagem, o primeiro e único... BRUNO MATTEI! Acredito que este seja um nome que dispensa apresentações, ainda mais para os leitores de um blog chamado "Filmes para Doidos", mas vou usar um parágrafo para fazer um rápido resumo da carreira do sujeito, para quem está chegando agora.

Bruno Mattei (1931-2007) foi um cineasta reconhecido popularmente como "Ed Wood italiano", e isso num país que já tinha diversos notórios realizadores de cinema trash, como Demofilo Fidani e Alfonso Brescia. Não tem comparação: o velho Bruno foi, fácil fácil, o pior dos piores. Seus filmes não apenas trazem problemas graves de roteiro, continuidade e erros grosseiros que deixariam até o próprio Ed Wood envergonhado, eles também são caracterizados pela completa falta de vergonha na cara, copiando roteiros, cenas, personagens e diálogos de grandes filmes de Hollywood sem nenhum pudor.


Sabe-se que os italianos adoravam copiar o que fazia sucesso fora do seu país. Quando "Mad Max" começou a ganhar dinheiro, a italianada produziu diversos clones, assim como versões macarrônicas de "Tubarão", "Star Wars", "Conan", "Rambo", "O Exorcista", filmes de zumbis, e etc. Mattei levava essa picaretagem um nível adiante: ele não apenas fazia produções parecidas com essas que faziam sucesso lá fora, ele as REFILMAVA com atores e equipe italiana!

É o caso desse "Terminator 2": o roteiro de Claudio Fragasso (usando seu tradicional pseudônimo "Clyde Anderson") é uma cópia tão cuspida e escarrada da trama de "Aliens, O Resgate" que parece até que ele pegou o roteiro original de Cameron e apenas mudou os nomes e a ambientação do espaço para a Itália - afinal, ali era mais fácil e mais barato de filmar.



SHOCKING DARK faz parte de uma das fases mais barateiras da carreira de Mattei, quando ele estava sendo produzido pela Flora Films, de Franco Gaudenzio, e fazia vários filmes por ano, mas com orçamentos que parecem ter diminuído do pouco habitual para o praticamente nada. São dessa mesma época presepadas como "Zombie 3" (1988), em que Mattei foi chamado às pressas para substituir um enfurecido Lucio Fulci e concluir o filme, e "Robowar - A Caminho do Inferno" (também de 1988), uma refilmagem disfarçada de "Predador", trocando apenas o alienígena por um cyborg assassino!

Bem, quero deixar bem claro que, a partir de agora, vou praticamente contar o filme inteiro. É impossível escrever sobre uma obra de Bruno Mattei sem destrinchá-la de cabo a rabo, mas acredito que saber de antemão o que vem pela frente apenas tornará mais divertida a experiência de assistir o filme, para aqueles que ainda não o conhecem.


SHOCKING DARK começa com cenas de soldados armados e usando máscaras anti-radiação marchando em frente a uma placa que diz "Limite da cidade de Veneza". Em seguida, enquanto rolam cenas de prédios em escombros, um narrador nos informa que, em algum momento depois do ano 2000, uma nuvem tóxica de poluição destruiu completamente a cidade italiana de Veneza, matando todos os seus habitantes e transformando-a em um local inabitável. "Veneza, agora, é uma cidade morta", declara.

Nesse mundo do futuro, uma poderosa empresa chamada Tubular Corporation (uma espécie de versão pobre da Weyland/Yutani, da série "Alien") construiu um enorme túnel subterrâneo que liga a cidade-fantasma de Veneza ao restante da civilização. Ali, cientistas da companhia fazem experiências e buscam uma forma de despoluir a cidade arrasada, para torná-la novamente habitável. Todas essas informações são passadas ao espectador na forma de diálogos expositivos didáticos, quando os personagens praticamente param a ação para explicar as coisas tintim por tintim.


A ação começa na central operacional do túnel subterrâneo (uma grande sala cheia de monitores, botões coloridos que piscam e sujeitos zanzando de um lado para o outro sem fazer nada de muito útil). Chega uma mensagem de S.O.S. vinda do laboratório que faz as experiências em Veneza: pelas câmeras e via sinais de rádio, soldados e cientistas aparecem gritando por socorro antes de serem mortos por estranhas criaturas. Finalmente, uma gravação do cientista que chefiava as pesquisas, o dr. Henry Raphelson (Al McFarland, único filme), resume tudo: "Estamos condenados à morte!".

Para investigar o que está acontecendo, e resgatar cientistas e material de pesquisa do laboratório, é designada uma equipe de bem-treinados mercenários que se auto-denominam "Mega Force" (dã!). Na verdade, não passam de uns manés usando capacetes de motoboy e jaquetinhas afrescalhadas que não oferecem nenhuma proteção em caso de combate, levando como armamento apenas umas espingardas ao invés de metralhadoras, fuzis ou, sei lá, armas laser - a história se passa no futuro, não é?!?


Para tornar tudo mais engraçado, o tal Esquadrão Mega Force é uma cópia xerox e macarrônica dos soldados do filme "Aliens, O Resgate": o comandante Dalton Bond (Mark Steinborn) é o comandante Hicks, que foi interpretado por Michael Biehn no filme de James Cameron; Koster (Geretta Geretta, de "Demons" e "Ratos") é uma soldado machorra idêntica a Vasquez (Jenette Goldstein) em "Aliens"; a cientista Sarah Drumbull (Haven Tyler, que só fez este filme) é a versão italiana da tenente Ripley interpretada por Sigourney Weaver (e o que lhe falta em talento, lhe sobra em semelhança física com a atriz nova-iorquina, único motivo pela qual ela deve ter sido escalada).

Finalmente, a missão de resgate também conta com um representante da Tubular Corporation, interpretado por Christopher Ahrens, e que logo se revela o vilão da trama, exatamente como Carter Burke (interpretado por Paul Reiser), o representante da Weyland/Yutani em "Aliens"! Segurem o riso, mas o nome do personagem de Ahrens é Samuel Fuller (!!!), provavelmente numa duvidosa homenagem ao cineasta cult responsável por filmaços como "Paixões que Alucinam" e "Agonia e Glória". Tenho certeza que o verdadeiro Fuller deve ter adorado a "citação"...


Ahrens interpreta seu Samuel Fuller sem mover um único músculo da face ou mudar de expressão, e geralmente isso seria algo comum nos filmes de Bruno Mattei - já que direção de atores não era exatamente o forte do mestre. Aqui, entretanto, a interpretação robótica do ator tem outro propósito (o filme se chama "Terminator 2", lembra?).

Pois Samuel Fuller é um cyborg infiltrado no grupo para resgatar informações confidenciais do laboratório da Tubular Corporation, em algo que remete tanto à série "Alien" (lembra dos personagens andróides Ash e Bishop, nos dois filmes lançados até então?) quanto a "O Exterminador do Futuro". Afinal, não deve ser coincidência o fato de a protagonista se chamar Sarah, como a Sarah Connor de Linda Hamilton no filme de James Cameron...


Voltando ao filme, este excêntrico grupo de personagens passa o resto do tempo percorrendo o enorme e escuro túnel subterrâneo em sua "missão de resgate", e o cenário é sempre igual, não importa o quanto nossos heróis caminhem. Os produtores certamente economizaram uma boa graninha na direção de arte, já que os atores parecem estar vagando pelo mesmo trecho de uma fábrica abandonada qualquer.

Não demora para que eles comecem a ser atacados por criaturas monstruosas e pessimamente confeccionadas, que parecem um cruzamento entre os monstros dos filmes "A Ilha dos Homens-Peixe", "Humanoids from the Deep" e "O Monstro do Pântano". A fantasia inexpressiva inclui uma bocarra enorme de onde sempre escorre baba (mais uma "citação" a "Aliens"?) e olhos vermelhos que não se movem. Mattei sabia que os efeitos eram precários, e por isso prefere filmar apenas detalhes dos monstros, ou então seus vultos na escuridão, evitando mostrá-los de corpo inteiro e na luz para não passar (ainda mais) vergonha!



A partir do primeiro ataque dos monstros, SHOCKING DARK passa a seguir "Aliens" tão fielmente que devia ter sido originalmente batizado como "Aliens, O Regresso" ao invés de "Terminator 2". (A bem da verdade, no Japão ele foi distribuído com o título "Aliennators" justamente por causa dessa suspeita semelhança com o filme de Cameron!)

E se você duvida que o plágio possa ser assim tão desavergonhado, confira:

* Não demora para os soldados encontrarem a única sobrevivente da equipe de cientistas, uma garotinha chamada Samantha (Dominica Coulson, versão italiana da garotinha Newt, interpretada por Carrie Henn em "Aliens"), que é adotada por Sarah como parceira e "filha" (o que também acontecia em "Aliens").


* Há um plágio constrangedor da cena com o detector de movimento em "Aliens", quando o equipamento acusa vários alienígenas aproximando-se do local onde os heróis estão. A cena foi reproduzida praticamente do mesmo jeito, com um soldado segurando o detector e gritando apavorado: "Eles estão se aproximando a 10 metros, 9, 8 metros, 7, 6, 5 metros!!! Meu Deus! Eles estão em cima de nós!!!". A diferença é que, no filme de Cameron, os monstros aparecem de repente atravessando o piso, enquanto aqui as criaturas mutantes simplesmente pipocam de lugar nenhum, mesmo que um plano geral anterior mostrasse claramente que não havia nenhum monstrengo escondido ali.

* Outro plágio constrangedor: Sarah e Samantha são trancadas em uma sala por Fuller na companhia de um dos monstros. O vilão então desliga a câmera de vigilância do local para que ninguém possa socorrê-las (Burke fez a mesma coisa com Ripley em "Aliens"!).


Claro que SHOCKING DARK não se baseia apenas no plágio puro e simples, caso contrário não seria uma típica produção da dupla Mattei-Fragasso. Eis que, lá pelas tantas, o arremedo de roteiro perde completamente a coerência e entrega, de bandeja, uma bobagem atrás da outra.

Uma cena maravilhosa envolve dois dos fuzileiros fazendo uma ronda por um corredor escuro, de onde as criaturas mutantes podem pipocar de uma hora para a outra. Subitamente, sem aviso prévio, a soldada machorra Koster pára, abre a blusa, tira uma fotografia que aparentemente guardava no meio dos peitos e mostra para o parceiro, comentando algo do tipo: "Veja, assim era a antiga Veneza. Pode ficar para você, eu tenho outras cópias" (e se essa estava no meio dos peitos, fico imaginando onde ela guarda as cópias). Troca de fotos concluída, ela diz: "Ok, agora vamos continuar nossa ronda". Uma cena que evoca certo drama e nostalgia, mas que não poderia ter sido incluída em lugar pior e no momento mais equivocado!


Outra pérola: os "heróis" ficam presos numa sala escura e são cercados pelos monstros. Sarah corre até a porta de saída, onde há um painel com dois botões amarelos, um do lado do outro. Ela começa a apertar repetidas vezes o primeiro botão, mas a porta não abre. Desesperada, ela chora, grita e continua apertando o maldito botão e socando o painel, enquanto seus colegas lutam ferozmente contra os monstros.

Cerca de cinco minutos depois, quando quase todo mundo já morreu pelo menos umas 15 vezes, Fuller grita para Sarah: "É o botão errado! Aperte o botão do lado!". Dito e feito: como se estivesse enxergando pela primeira vez o segundo botão, que fica IMEDIATAMENTE AO LADO daquele que ela apertava repetidamente até então, a pouco inteligente mocinha (que calha de ser uma cientista, vejam só...) finalmente resolve testar o segundo botão, e aí a porta finalmente abre e todos conseguem fugir! E não, eu não estou brincando!



Mas nem tanta ruindade pode preparar o espectador para as "reviravoltas" no roteiro de Fragasso. Perto do final, os heróis que sobrevivem aos ataques das criaturas finalmente chegam ao seu destino, o tal laboratório de pesquisas. Lá, uma mensagem gravada mostra uma moça bem humorada "entregando o ouro para o bandido", como se diz popularmente, explicando como a Tubular Corporation envenenou propositalmente Veneza para que pudesse resgatar seus bens e riquezas anos mais tarde! A gravação termina com a moça pedindo "sigilo absoluto" para quem quer que a tivesse assistido. Uma atitude muito inteligente essa de deixar gravada a sua confissão de culpa num caso de extermínio em massa, para que qualquer um possa encontra e escutar, não é mesmo?

E ainda tem a "revelação" sobre os monstros, que não são alienígenas, como as criaturas de "Aliens, O Resgate", mas sim o resultado de uma bizarra experiência genética conduzida pela Tubular. Aparentemente, os cientistas criaram um vírus que se espalha pelo ar e precisa de hospedeiros humanos; uma vez dentro do organismo, ele "transforma" pessoas em novas criaturas - os tais monstros. Fuller explica isso primeiro naquele linguajar "científico-enrolation" típico dos filmes de ficção científica de quinta categoria: "É uma enzina similar ao DNA, completamente redesenhada por computador. Uma obra-prima da engenheria genética, a cibernética aplicada à biologia molecular!". Depois, simplifica: "É como um disquete, você insere no computador e ele toma vida". "Mas que computador?", questiona Sarah, e o macabro agente da Tubular Corporation responde: "Nós!".


No momento em que toda a "verdade" é descoberta, SHOCKING DARK finalmente deixa de plagiar "Aliens" e vai buscar "inspiração" em "O Exterminador do Futuro", para assim justificar seu título picareta. É quando Samuel Fuller finalmente se revela um cyborg indestrutível, incluindo o tradicional discurso prepotente: "Eu sou a criação mais perfeita da Tubular Corporation", anuncia, antes de começar a matar todo o restante do elenco. Só me foge à compreensão porque ele não matou todos ANTES que descobrissem a verdade!

Mattei faz questão de incluir uma cena onde Sarah atinge o rosto de Fuller com uma garrafa quebrada, só para poder mostrar o cyborg com metade da cara robótica, tipo Schwarzenegger no final de "O Exterminador do Futuro". Mas é óbvio que os efeitos de maquiagem não chegam nem perto da produção norte-americana. Pior: todos os tiros e pancadas que o cyborg levou até então não lhe provocaram o menor arranhão, mas uma simples garrafa quebrada consegue arrancar-lhe metade do rosto! Pena que Sarah Connor nunca descobriu esse ponto fraco dos Terminators na série oficial...


E quando você acha que a coisa não pode ficar mais tosca e imbecil, o roteiro dá um jeito de encaixar uma máquina do tempo na trama. Exato: uma máquina do tempo! E se a tal Tubular Corporation tem tecnologia tão avançada para construir algo assim, fico imaginando qual a lógica de envenenar Veneza para poder saqueá-la anos depois, quando poderiam simplesmente voltar no tempo e saquear os tesouros dos faraós, por exemplo.

Ah, desculpem pelo engano: na verdade, a Tubular Corporation não tem uma, mas DUAS cápsulas do tempo. Acontece que Sarah e Samantha entram na primeira para fugir do cyborg indestrutível, indo parar na Veneza do passado, antes da contaminação. Mas aí Fuller aparece subitamente na mesma data para continuar a persegui-las, e ainda justifica: "Havia duas cápsulas, eu entrei na outra". Só não me perguntem como ele sabia o local e data exata para onde as moças viajaram!


Com tanta doideira, confesso que chego a vislumbrar o "processo de criação" de um roteiro de Claudio Fragasso: simplesmente adicionar numa mesma história todos os elementos que faziam sucesso nos filmes daquela época, tipo os soldados de "Aliens", o cyborg assassino de "Terminator", a máquina do tempo de "De Volta para o Futuro", o grito dos humanos replicados em "Invasores de Corpos" (numa cena que, aqui, não faz o menor sentido!)...

Mas, aparentemente, SHOCKING DARK foi a gota d'água, marcando a última parceria do roteirista com seu diretor mais contumaz, Mattei, que havia começado em 1980 (com "A Monja de Veneza" e "Predadores da Noite") e se mantido durante 15 filmes. A partir de então, eles se separaram e cada um seguiu seu caminho. Fragasso não melhorou muito, já que abandonou a parceria com Mattei para escrever e dirigir suas próprias bombas, como "A Terceira Porta do Inferno" (1989) e aquele que é considerado um dos piores filmes de todos os tempos, "Troll 2" (1990) - outra produção que, a exemplo de SHOCKING DARK, é sequência apenas no título.


Não sei qual foi o motivo para o fim do casament... ops, parceria entre Mattei e Fragasso, mas este é, disparado, um dos piores filmes realizados pela dupla (ou melhores, dependendo do ponto de vista). A direção do velho Bruno revela-se inepta como sempre, e ele assina o filme com seu tradicional pseudônimo "Vincent Dawn", duvidosa homenagem a George A. Romero e "Dawn of the Dead" que ele adotava em seus filmes de ficção científica e horror.

O curioso é que o diretor assina também a edição (ele começou sua carreira como editor, e continuou exercendo a função em quase todos os seus filmes), mas o faz com um segundo pseudônimo, "J.B. Matthews", talvez para que a equipe técnica de SHOCKING DARK parece maior do que realmente é!


Com Mattei em dose dupla (dirigindo e editando), o resultado é duas vezes mais bobagens! Numa cena em que vários monstros atacam os heróis, por exemplo, o velho Bruno reutilizou as mesmas cenas das criaturas levando tiros para dar a idéia de que existem "dezenas" delas, e não duas ou três. Só o take em que um dos monstros leva um tiro e bate contra uma parede é repetida pelo menos CINCO vezes, como se fossem criaturas diferentes! Mattei também reaproveitou vários takes de explosões de um de seus filmes anteriores ("Double Target", 1987) para economizar uns trocos na cena do túnel explodindo. Chega a ser engraçado que a explosão aconteça num túnel subterrâneo, mas o filme mostre uma base ao ar livre explodindo!!!

SHOCKING DARK também está repleto de erros grosseiros de continuidade, como numa cena em que Fuller e Sarah conversam. No plano aberto, percebemos que Fuller está à esquerda e Sarah à sua direita. Porém, nos takes mais fechados que mostram apenas Sarah falando, ela aparece virada tanto para a esquerda quanto para a direita! Como se percebe, o título de "Ed Wood italiano" foi conquistado por mérito, e não num sorteio!


Como picaretagem pouca é bobagem, lá pelas tantas você começa a pensar que já ouviu a trilha sonora do filme em algum lugar. Os créditos informam que a música foi composta por Carlo Maria Cordio, mas os realizadores também aproveitaram trechos de músicas do famoso músico grego Vangelis (aquele mesmo que compôs músicas usadas nas trilhas de filmaços como "Blade Runner"), sem pagar sequer um trocado pelos direitos autorais!

Resumindo, SHOCKING DARK é um daqueles filmes impagáveis que poderiam rivalizar com "Plan 9 From Outer Space" pelo título de "pior de todos os tempos" - aliás, para ser honesto, "Plan 9" parece "Cidadão Kane" perto de tosqueiras como esta. Ainda que não esteja entre as obras mais divertidas de Mattei ("Ratos" e "Predadores da Noite" são muito "melhores"), trata-se de uma tralha esdrúxula e muito engraçada para os iniciados nesse tipo de cinema, que certamente vão se divertir muito identificando as "referências" (maldosos chamarão de plágio).


Infelizmente, o título original de "Terminator 2" e o cartaz que imita vergonhosamente o cyborg de Schwarzenegger em "O Exterminador do Futuro" (sendo que não há sequer cena parecida no filme) limitaram bastante a carreira da obra mundo afora, graças ao medo de processo por excesso de malandragem. Consta que o filme nunca foi devidamente lançado nos Estados Unidos. Mesmo no restante do mundo é um tanto difícil de ser encontrado: SHOCKING DARK foi filmado em 1988, finalizado em 1989, mas lançado comercialmente apenas em 1990. No Brasil, saiu em vídeo pela distribuidora Condor, sem chamar muito a atenção (e com crítica demolidora no Guia de Vídeos Nova Cultural).

Hoje, não existem cópias decentes em circulação, e o mais perto disso é um LD lançado no Japão, com imagem escura e legendas fixas. Como a fotografia originalmente já era bem escura, o espectador é obrigado a forçar a vista para tentar enxergar alguma coisa - sem sucesso, na maior parte do tempo. E só podemos sonhar com uma versão decente e remasterizada da obra, que até hoje não saiu sequer em DVD!


O irônico é que SHOCKING DARK também marca o canto de cisne da indústria italiana da picaretagem, já que, a partir dos anos 90, começou a ficar cada vez mais difícil produzir esse tipo de filme no país, e os diretores de cinema fantástico tiveram que ou se aposentar, ou trabalhar na TV italiana (fazendo dramas históricos e aventuras inofensivas, bem diferentes do que se produzia até então).

O heróico Mattei continuou na ativa, e nos anos 2000 até tentou liderar um revival do cinema exploitation italiano: com produção de Giovanni Paolucci e sua La Perla Nera Productions, o diretor fez mais de 15 filmes de gênero num curto espaço de tempo, todos filmados em vídeo digital e com um orçamento ainda menor do que aqueles que tinha nos anos 1980.

"A Tubular Corporation aprova esta resenha."

Ele até tentou ressuscitar filões bem-sucedidos do passado, como filmes de zumbis ("L'isola dei Morti Viventi" e "Zombies - The Beginning", respectivamente em 2006 e 2007), de canibais ("Land of Death" e "Mondo Cannibale", em 2003 e 2004) e até de mulheres na prisão ("The Jail: The Women's Hell", 2006), mas os tempos eram outros, mais frescos, e a estratégia não deu muito certo.

Bruno Mattei, o Ed Wood italiano, morreu em 21 de maio de 2007, vitimado por um tumor cerebral. E o mundo tornou-se um lugar muito menos divertido desde então.


Trailer de SHOCKING DARK



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Shocking Dark / Terminator 2 (1989, Itália)
Direção: Vincent Dawn (Bruno Mattei)
Elenco: Haven Tyler, Christopher Ahrens, Geretta
Geretta, Fausto Lombardi, Mark Steinborn, Clive
Riche, Dominica Coulson e Massimo Vanni.