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segunda-feira, 1 de abril de 2013

DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS (1971)


Você já percebe o nível de ruindade de DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS somente pelos primeiros dois minutos do filme, que mostram o ataque de uma quadrilha de bandidos mexicanos a uma pequena cidade. Aos 30 segundos cravados, um sujeito leva um tiro de winchester e "interpreta", da forma mais exagerada possível, aquela rotina da pessoa atingida por um tiro que ainda fica de pé por alguns minutos antes de tombar; o problema é que um pobre figurante que passava pelo cenário pára, espera o "baleado" cair estatelado, e então volta a caminhar e segue seu rumo como se nada tivesse acontecido - sem prestar socorro ao baleado, ou ao menos sair correndo para não se tornar a próxima vítima! Depois, um "morto" caído no chão levanta a cabeça sem nenhuma discrição, talvez assustado com o movimento das patas de um cavalo que passa muito próximo, e a abaixa rapidamente ao perceber que a câmera ainda está rodando!

Sim, amiguinhos, dois erros grosseiros em dois minutos, e não pense que eles serão os únicos até o final dos 89 minutos deste sofrível "sotto-Django": temos ainda buracos gigantescos no roteiro, uma história inconsistente e cenografia e figurinos mais pobres que muito teatro de 5ª série, entre outras "qualidades" que fazem dessa bagaça aqui um legítimo FILME PARA DOIDOS.


Nada de muito surpreendente quando você dá uma olhada no nome do diretor nos créditos iniciais. Trata-se de ninguém menos que "Paolo Solvay" - ou melhor, Luigi Batzella (1924-2008), usando o mais comum dos seus diversos pseudônimos. Quem conhece um mínimo da filmografia do homem já sabe que não dá para esperar nada além de um trashão daqueles. Afinal, estamos falando do mesmo responsável por hilárias tranqueiras como o nazisploitation "La Bestia in Calore" (com sua impagável criatura que devora pêlos pubianos femininos!) e o inacreditável "Nuda per Satana".

Batzella (ou "Solvay") comandou DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS quando o interesse pelas imitações de "Django" já era mínimo ou inexistente. Afinal, no ano anterior o famigerado Demofilo Fidani banalizou as aventuras não-oficiais do personagem ao dirigir dois Djangos de quinta categoria num curtíssimo espaço de tempo. Não bastasse isso, o público queria coisas novas, como as aventuras mais absurdas de personagens tipo Sartana, ou os westerns cômicos da dupla Terence Hill e Bud Spencer.


Não é por nada que DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS é um dos mais fracos entre os "Sotto-Djangos", no mesmo nível de bobagens como "O Filho de Django" ou a (ironicamente) única sequência oficial do filme de Sergio Corbucci, "Django, A Volta do Vingador".

A bem da verdade, o que temos aqui é mais um faroeste barato e genérico onde o nome do personagem não influi em nada no resultado, pois se trocarmos o nome do herói de "Django" para "Maria das Dores" não fará a menor diferença - ou seja, os realizadores sequer tentaram copiar as características que fizeram do "Django" original um sucesso.


Como já foi dito/escrito, nossa história começa com uma quadrilha de bandidos mexicanos atacando a pequena cidade de Silver City. Trata-se do bando dos Cortez, quatro irmãos que se vestem como mariachis e são liderados pelo sinistro Ramon (Edilio Kim, exagerando nas caras e bocas maléficas). Eles matam metade da cidade e fogem levando uma fortuna em ouro do banco e uma linda refém, interpretada por Dominique Badou (de "Blindman").

Pouco depois disso (e dos créditos iniciais), um misterioso pistoleiro chega a uma cidade próxima, na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Trata-se, claro, do nosso querido Django, nesta encarnação interpretado por Jeff Cameron (nome de batismo: Giovanni "Nino" Scarciofolo). Ocorre que Django está justamente perseguindo os Irmãos Cortez, por motivos pessoais e ignorados que só serão revelados no final (mas o FILMES PARA DOIDOS irá revelar daqui a alguns parágrafos, assim você não precisará esperar).


Para conseguir chegar até os perigosos bandidos, nosso herói une forças com dois esquisitos parceiros: o jogador de cartas Fulton (Gengher Gatti), que na verdade é um investigador do banco de Silver City enviado para recuperar o ouro roubado, e o brutamontes Pickwick (John Desmont), que quer recuperar a sela que herdou do falecido pai e que foi roubada (pelos Irmãos Cortez, claro!), surrando praticamente todo o elenco no processo.

Django também aproveita um raro momento de folga para seduzir a bela dona do saloon/pousada onde boa parte da história se desenrola, interpretada por Angela Portaluri (foto abaixo).


Se eu tivesse que resumir DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS em uma única palavra, esta seria "bagunça". Há um fio narrativo mínimo no roteiro escrito a seis mãos (cof, cof, cof!) por Mario De Rosa, Gaetano Dell'Era e pelo diretor Batzella, mas este não se sustenta por 90 minutos.

Assim, o pobre Batzella foi obrigado a enrolar do jeito que dava. Isso inclui inúmeros takes dos personagens cavalgando, além de cenas de ação e pancadaria completamente gratuitas, que não acrescentam nada ao filme.


Por exemplo, quando Django entra no saloon da cidadezinha pela primeira vez, encontra Pickwick surrando todos os clientes do local numa pancadaria interminável em estilo pastelão, como se fosse uma espécie de Bud Spencer dos pobres. Uma das vítimas atingida por um sopapo do grandalhão vai parar na viga de sustentação do teto, o que dá uma ideia das proporções do quebra-quebra...

Pickwick passará o filme inteiro distribuindo pancadas no elenco, e lá pelas tantas chega a brigar com o próprio Django, que até então era seu companheiro de aventuras, sem nenhuma explicação plausível além da necessidade do diretor de enrolar para ter um longa-metragem nas mãos!


Mais adiante ainda, Django encontrará um assassino chamado Pedro Ramirez, com quem tentará unir forças, já que ele é um dissidente da quadrilha dos Irmãos Cortez e sabe onde eles se escondem. Porém esse "sub-plot" não levará a lugar algum, já que Pedro tentará matar o herói quase imediatamente e acabará comendo capim pela raiz, fazendo o espectador questionar qual seria a utilidade da sua existência na trama (e dos quase 15 minutos em que ele fica em cena).

Claro, a presença do personagem ganha outro status quando descobrimos que este é um dos raros trabalhos na frente das câmeras de Gianfranco Clerici, usando o pseudônimo americanizado "Mark Davis". Se você não reconheceu o nome, então o cinema fantástico italiano não deve ser sua praia: Clerici foi o roteirista de clássicos do horror como "Cannibal Holocaust", de Ruggero Deodato, e "The New York Ripper", de Lucio Fulci!


Além de não acrescentar nada de novo a um subgênero que estava bem próximo do seu canto de cisne, DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS soa mais como um reaproveitamento tardio de elementos da "Trilogia do Dólar", de Sergio Leone, do que como uma imitação do "Django" de Corbucci.

Não bastasse o trio de personagens abertamente copiado de "Três Homens em Conflito" (onde Django seria Clint Eastwood, Pickwick seria Eli Wallach e Fulton, Lee Van Cleef), a cena final é uma cópia grosseira do início de "Por um Punhado de Dólares", quando, como Eastwood fez anos antes, Django pede que um coveiro prepare quatro caixões para os inimigos que pretende matar. E Batzella não perde nem a oportunidade de mostrar o "vilão final" sendo abatido a tiros e caindo dentro de um dos caixões, é claro!


Por mais descartável que seja (e é!), DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS acaba se transformando rapidamente em comédia involuntária, graças à completa inépcia de Batzella como diretor. Além de todos os problemas já citados envolvendo a pobreza da produção, até os objetos de cena são de um improviso mambembe: quando o herói abre um velho relógio, por exemplo, seu nome está escrito no interior no que parece ser CANETA HIDROCOR PRETA, ao invés de gravado na própria peça!

A falta de cuidado se estende até ao corte de cabelo dos personagens principais e figurantes: enquanto o herói usa um penteado que parece meio comprido demais (e "hippie" demais) para os padrões do Velho Oeste, é difícil não dar risada ao ver o cabelo estilo afro usado por Gianfranco Clerici, com direito a longas e grossas costeletas dignas de Elvis Presley em sua fase "barrigudo em Las Vegas"!


As duas "revelações" da parte final do filme também ajudam a transformar tudo em comédia trash. Primeiro, descobrimos que um dos quatro Irmãos Cortez é, na verdade, uma irmã, Pilar, interpretada pela brasileira Esmeralda Barros (em papel de relativo destaque inclusive, diferente de sua participação especial em outro "Sotto-Django", o posterior "Um Homem Chamado Django"). O caso é que basta bater o olho na moça, mesmo travestida de homem, para perceber que se trata de uma mulher (confira na foto abaixo), mas o filme trata como grande surpresa o momento em que a "Irmã Cortez" é desmascarada!

A segunda reviravolta é aquela que citei lá em cima: bem no finalzinho, descobrimos que a linda garota anônima raptada pelos mexicanos é noiva de Django (!!!), justificando, assim, a caçada do herói - até então, todos pensavam que ele era um caçador de recompensas de olho no preço oferecido pela cabeça dos Cortez. Porém essa "revelação" não justifica a safadeza do nosso herói, que, mesmo com a noiva sequestrada e em perigo, passa a pistola na mexicana dona do saloon sem pensar duas vezes...


Para completar a patacoada, temos o Django qualquer nota de Jeff Cameron, que em nada lembra o personagem criado por Corbucci e foge de qualquer característica do original - ele também é arrumadinho demais para os padrões de Franco Nero ou mesmo de seus melhores seguidores, como Gianni Garko e Terence Hill. O herói é simpático, falastrão e pegador, mas não tem tiradas muito inspiradas nem protagoniza grandes feitos, tornando-se, portanto, um "Sotto-Django" nada memorável.

Falecido em 1985, Cameron (que, visualmente, lembra um Christopher Lambert jovem e não-vesgo) teve uma longa carreira nas aventuras italianas de gladiadores e, claro, nos westerns spaghetti. Embora tenha interpretado Django esta única vez, ele também foi Sartana em duas aventuras não-oficiais do personagem, "Sou Sartana... Venham em Quatro para Morrer" e "Sartana - A Sombra da Morte", ambas dirigidas por Demofilo Fidani.


Repleto de equívocos, e burocrático e convencional enquanto imitação de Django e western, DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS só vale mesmo pela própria ruindade, tornando-se um daqueles hilários programas para os débeis mentais que, como eu, se divertem vendo cinema ruim e mal-feito.

Ou seja: quem gosta dos westerns de quinta categoria de diretores como Demofilo Fidani e Bruno Mattei certamente irá dar boas gargalhadas com esse também; quem não gosta, deve passar longe.


Na conclusão, uma ironia: Django anuncia que "O pior terminou e o melhor está apenas começando". Ele bem que pode estar se referindo ao próprio filme na parte do "O pior terminou". Mas considerando que este é apenas o primeiro dos três westerns dirigidos por Luigi Batzella, e o menos ruim e mais assistível da trinca, a parte do "O melhor está apenas começando" não se justifica!

PS 1: O título original italiano, em tradução literal, significa "Até para Django os Cadáveres Têm Preço".

PS 2: A exemplo de Demofilo Fidani, que costumava fazer dois ou três filmes com as cenas que filmou para um único, o malandrão Batzella depois reaproveitou diversas cenas desse filme num dos seus westerns posteriores, "O Colt Era Seu Deus" (1972), também estrelado por Jeff Cameron.


Trailer de DJANGO CONTRA 4 IRMÃOS



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Anche per Django le Carogne Hanno un Prezzo /
Django's Cut Price Corpses (1971, Itália)

Direção: Luigi Batzella (aka Paolo Solvay)
Elenco: Jeff Cameron, John Desmont, Gengher Gatti,
Esmeralda Barros, Edilio Kim, Dominique Badou, Franco
Daddi, Gianfranco Clerici e William Mayor.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL (1970)


DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é o último dos três "crossovers" produzidos na Itália no começo dos anos 1970 para tentar atrair fãs destes dois mitos do western spaghetti. E se os dois filmes anteriores não passavam de trasheiras que desperdiçavam a presença dos famosões ("Django Desafia Sartana" e "Django e Sartana no Dia da Vingança", ambos dirigidos pelo famigerado Demofilo Fidani), este aqui surpreende por ser uma aventura bem decente.

Além disso, ao contrário daquelas duas produções dirigidas por Fidani, em que Django e Sartana dividiam poucas cenas, e sem mostrar nenhum duelo entre os personagens, aqui ambos aparecem juntos na maior parte do tempo. E, sim, finalmente vemos um confronto entre os heróis, embora a peleja termine empatada - provavelmente para não enfurecer os fãs de um ou de outro personagem.


O filme foi escrito e dirigido por Pasquale Squitieri (com o pseudônimo "William Redford"), e este é o primeiro dos dois únicos westerns assinados por ele. Injustamente esquecido hoje, Squitieri dirigiu vários filmes policiais/políticos entre as décadas de 70 e 80, como "Camorra" (1972), "L'Ambizioso" (1975) e "O Prefeito de Ferro" (1977), com Giuliano Gemma, este último reprisado inúmeras vezes pelo SBT na Sessão das Dez de tempos longínquos.

O cineasta também detém a distinção de ter dirigido a musa Claudia Cardinale nove vezes, além de (dizem as fofocas) ter sido o responsável direto pelo fim do casamento dela com o produtor de cinema Franco Cristaldi em 1975, já que os dois vivem juntos desde então! Conversas de comadres à parte, Squitieri tem uma filmografia muito interessante que merece ser (re)descoberta, especialmente suas obras sobre a máfia napolitana.


Nas resenhas de "O Iluminado", muitos críticos reclamaram que Stanley Kubrick era muito "cerebral" para fazer horror. Bem, o mesmo se aplica a Pasquale Squitieri, que também pode ser considerado muito cerebral para fazer western spaghetti. Por isso, DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL foge um pouco daquele tipo de aventura rápida e simplória produzida na Itália da época, preferindo buscar enquadramentos diferentes, com uma fotografia deslumbrante e longos momentos de silêncio.

Pois é justamente aí que reside o charme do filme: enquanto diversos dos "Sotto-Djangos" (Sub-Djangos) eram produções meia-boca, produzidas e dirigidas de qualquer jeito por cineastas de quinta categoria, com o objetivo único de faturar com o nome do personagem no título, este aqui foi realizado com esmero e cuidado, como se Squitieri tivesse esquecido que dirigia uma aventura não-oficial de Django e Sartana e realmente quisesse mostrar serviço e fazer algo "diferente".


Na trama, Django (nesta encarnação interpretado por Tony Kendall) vive na cidade de Tombstone com seu irmão Steve (John Alvar). Peraí... irmão? Sim, desta vez Django tem um irmão, e este irmão sequer tem um nome tão sofisticado quanto o do herói. Mas não se esqueçam que, num outro "Sotto-Django", ele também teve irmã (isso aconteceu em "Django Não Espera... Mata").

Steve trabalha no banco local, dirigido por Singer (Bernard Farber, de "O Dólar Furado"). E justamente no dia em que Django está fora da cidade, ajudando o xerife e seus homens a caçar uma perigosa quadrilha de bandidos, aparece o misterioso Sartana (George Ardisson), que tem fama de criminoso e ladrão de bancos - embora não seja nem um, nem outro, mas apenas um anti-herói silencioso e meio assustador.


Preocupado com a segurança do dinheiro guardado em seus cofres, Singer convence Steve a oferecer uma propina de alguns milhares de dólares para que Sartana deixe a cidade sem assaltar o banco. Mas, como já sabemos, Sartana não é nenhum assaltante; portanto, ele desdenha da proposta do rapaz e devolve o dinheiro.

Pois eis que no dia seguinte o banco realmente é assaltado, e no processo Singer acaba sendo morto pelo criminoso. A população revoltada procura por um culpado, mas Sartana não está mais na cidade. Sobra para o pobre Steve, que é encontrado no bordel local, nos braços de uma dançarina, e ainda com a grana da propina que tinha recebido do diretor do banco na véspera. Furiosos, os moradores o acusam de ser cúmplice de Sartana. E, sem pensar nas consequências dos seus atos, lincham e enforcam o pobre bancário!


É claro que seu irmão Django não vai gostar nada disso. Principalmente quando volta à cidade e encontra Steve ainda pendurado pelo pescoço, balançando na chuva (uma bela cena, por sinal). Quando os assustados moradores lhe explicam a história toda, Django decide limpar o nome do irmão caçando e matando Sartana, que considera o grande culpado. E o encontra. E tenta matá-lo. E os dois se enfrentam numa pancadaria épica (especialmente para quem esperava algo do gênero nos dois "crossovers" dirigidos por Fidani, e ficou chupando o dedo).

Mas, depois de muitas porradas, os heróis resolvem esfriar a cabeça e pensar um pouco. Sartana explica que não tem nada a ver com o entrevero, e Django começa a desconfiar que alguém arquitetou um ousado plano para transformar Steve em bode expiatório do roubo ao banco. Juntas, as duas lendas do western spaghetti começam a investigar o caso - e coitado do verdadeiro responsável pelo crime!


Apesar desse toque de mistério policial (a investigação do verdadeiro criminoso, embora seja algo meio previsível porque não existem tantos personagens na trama), a melhor parte de DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é, obviamente, o tal "duelo mortal" entre os dois personagens, que na verdade não chega a ser "mortal" como anuncia o título brasileiro, mas é bem decente (nada de propaganda enganosa dessa vez!).

Primeiro, Django e Sartana esporeiam seus cavalos em direção um do outro, e então finalmente trocando golpes com suas winchesters, como se fossem espadas, até caírem ambos das selas! Para o leitor ter uma ideia melhor de como isso é épico, imagine a luta final entre Tom Cruise e Dougray Scott em "Missão Impossível 2", só que trocando as motocicletas velozes por cavalos!


Depois, a dupla rola assustadoramente por um barranco de altura considerável (o que certamente deve ter deixado os dublês com arranhões até nos tímpanos!), e aí decidem deixar os revólveres de lado para sair no braço. Fãs de Django, de Sartana ou dos dois juntos certamente vão curtir muito a troca de sopapos, filmada com violência e ódio, como se os dois protagonistas realmente estivessem se surrando de verdade!

E embora a conclusão do "duelo mortal" seja com o esperado empate técnico, ao invés do óbito de uma das partes, esta pancadaria é o mais perto que Django e Sartana chegaram de um duelo em seus três encontros cinematográficos, o que torna DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL um filme obrigatório para os fãs dos personagens.


Assim que identificam o verdadeiro autor do crime (e o responsável direto pela morte do irmão de Django), os heróis partem para a fortaleza do vilão, acompanhados por um amigo mudo de Django (José Torres), e iniciam um duelo infernal, com larga contagem de cadáveres e muitas cenas legais - digamos apenas que Django começa a punir o grande vilão dando-lhe um tiro na orelha, o que talvez seja uma citação à famosa cena da orelha arrancada no "Django" de Corbucci!

DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é apenas o segundo filme de Squitieri, que no ano anterior (1969) havia dirigido um dramalhão chamado "Io e Dio". Quem o convidou para estrear no western spaghetti foi o produtor Roberto Bessi, que nos anos 80 se associaria à Empire Pictures de Charles Band, ajudando a produzir famosos filmes de horror daquela década, como "Do Além", de Stuart Gordon, e "Perversão Assassina", de David Schmoeller.


Há relatos de que o processo de filmagem desta aventura foi tão violento quanto a briga de socos entre Django e Sartana. Em seu primeiro western, Squitieri quis fazer algo longo e épico, com muitos tempos-mortos e momentos reflexivos. Em entrevista reproduzida no livro "Dizionario del Western all'italiana", de Marco Giusti, o produtor Bressi explicou o caso: "Squitieri estava tentando fazer um faroeste como os de Sam Peckinpah, e filmou cenas demais. Mas quando entregamos o material a um editor experiente (Amedeo Giomini), ele o deixou muito curto, com apenas uma hora de duração".

Diante da recusa do diretor de filmar mais cenas adicionais para fechar um longa-metragem, Bressi teria chamado Sergio Garrone (diretor de "Django, O Bastardo") para rodar cenas adicionais, o que talvez justifique uma certa indefinição da obra entre a seriedade e o humor em alguns momentos.


De qualquer forma, hoje ninguém sabe dizer o que foi filmado por Squitieri e o que foi refeito por Garrone, e nem mesmo o IMDB traz a informação de que o segundo teria participado da equipe como diretor não-creditado. Na dúvida, deixo a hipótese em aberto: acredita no produtor quem quiser! O autor Marco Giusti também falhou em resolver o mistério: em entrevistas que conduziu, um dos astros do filme, Kendall, confirmou que Garrone esteve no set, enquanto o outro, Ardisson, garantiu que foi Squitieri quem filmou tudo.

O próprio Squitieri não tem boas recordações da época, e disse, em entrevista ao mesmo livro, que só fez seus dois westerns spaghetti "pelo dinheiro e para ganhar experiência, porque nunca frequentei uma escola de cinema". Mas releve a opinião ranzinza do sujeito, porque tanto DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL, quando o seu faroeste posterior - "A Vingança é um Prato que Se Serve Frio" (1971) - são dois belos filmes, recomendadíssimos para fãs do gênero.


Os dois atores principais não são figuras tão comuns no gênero (ao contrário de, por exemplo, Gianni Garko em "10.000 Dólares para Django" ou Anthony Steffen em "Django, O Bastardo"), o que torna a coisa toda ainda mais curiosa. O italiano Tony Kendall (nome de batismo: Luciano Stella) era mais conhecido na época por ter interpretado o personagem de romances policiais 'Kommissar X" em sete co-produções ítalo-alemãs. Anos depois, ele faria o papel principal em "O Retorno dos Mortos-Vivos" (1973), do espanhol Amando de Ossorio.

Embora diversos outros atores já tivessem interpretado o personagem até então, Kendall consegue compor um Django só seu, menos calado e violento, e mais humano e emotivo (talvez seguindo os passos de Gianni Garko em "10.000 Dólares para Django"). A bem da verdade, pouco ou nada nele lembra o Django de Franco Nero, nem sequer as roupas, já que aqui o herói tem preferência por trajes mais claros e menos soturnos, e no início usa até um poncho!


Aliás, é incrível como Kendall está idêntico ao Armand Assante neste filme, e no ano seguinte (1971), graças ao "milagre" das redublagens em outros países, voltou a interpretar "Django" em "Sartana - Uma Pistola e 100 Cruzes", de Carlo Croccolo. Na verdade, seu personagem originalmente chamava-se "Santana", mas em alguns países ele foi rebatizado como Django, e em outros (tipo o Brasil) como Sartana!

Por falar nele, George Ardisson (nome de batismo: Giorgio Ardisson) interpreta um Sartana bem parecido com o personagem oficial de Gianni Garko. Bem, pelo menos no figurino. Seu comportamento, entretanto, se assemelha mais ao Django de Sergio Corbucci, fazendo aquele tipo calado e perigoso, ao contrário do Sartana fanfarrão da série oficial.


Antes de Sartana, Ardisson já tinha interpretado Zorro numa série de aventuras não-oficiais do personagem (como "Zorro, O Justiceiro Mascarado", de Guido Zurli), e também uma cópia italiana de James Bond, o agente 3S3, em duas produções baratas dirigidas por Sergio Sollima.

Além do elenco, o que realmente diferencia esta obra de tantos outros "Sotto-Djangos" produzidos no período é o cuidado visual e os ângulos de câmera inusitados buscados por Squitieri e por seu diretor de fotografia Eugenio Bentivoglio (com quem o cineasta trabalharia quase sempre a partir de então).


É um contraste muito grande quando você compara o filme com outras aventuras picaretas de Django dirigidas por Edoardo Mulargia ou Demofilo Fidani; eu até diria que este aqui é sofisticado demais para ser apenas uma aventura picareta de Django, e que com certeza o diretor tinha maiores pretensões do que apenas fazer um produto descartável para consumo rápido.

Por exemplo, a montagem faz belo uso de "freeze frames" em momentos importantes, como a chegada de Sartana na cidade e o linchamento de Steve, além de curiosas associações entre cenas diferentes: quando o grande vilão é molhado pelo vinho que vaza de um barril furado a tiros por Django, a montagem imediatamente alterna este momento com a cena anterior do cadáver enforcado de Steve balançando na chuva!


DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL também tem um belo elenco feminino, composto pela péssima atriz, mas gracinha Adler Gray, como a moça boazinha, e por Mirella Pamphili ("Boot Hill") como a malvada assecla do vilão. Esta última tem direito a uma cena pavorosa, quando morre pisoteada por cavalos, mas percebe-se claramente que as patas dos animais estão a metros de distância da atriz enquanto ela se contorce exageradamente pelo chão!

Falando em cavalos, uma curiosidade dos bastidores é que a produção economizou uma graninha alugando cavalos NÃO-ADESTRADOS para os atores, o que nem sempre funcionou bem. Isso é perceptível em várias cenas, mas principalmente naquela em que os dois heróis se encaram antes da sua luta, pois o animal cavalgado por Django simplesmente não pára quieto!


Outra curiosidade é que a trilha sonora de Piero Umiliani reaproveita algumas (se não todas) as músicas compostas por ele para outro "Sotto-Django", o ruinzinho "O Filho de Django", incluindo a música-tema deste, o que simplesmente não faz sentido. Afinal, a letra da canção cita diretamente a morte de Django e a busca de vingança de seu filho ("They call him Django / A coward gun him down / I won't rest easy / Until that coward is found. / I kill for Django / And for his memory / He was my father / A man of high degree"), mas aqui Django não morre e sequer tem filho (e a letra da música nunca cita Sartana)!

Ao lado de filmaços como "Viva Django!" e "10.000 Dólares para Django", DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é a prova de que você pode demonstrar esmero e sofisticação mesmo numa aventura não-oficial (picareta, dirão alguns) de um personagem famoso, entregando um produto final que se sobressaia e que pode ser visto como um ótimo filme independente da inevitável comparação com o original. Não por acaso, eu o colocaria tranquilamente num Top 5 dos "Sotto-Djangos".


Infelizmente, outros realizadores não pensavam da mesma forma e nem seguiram este exemplo, optando por continuar fazendo aventuras medíocres apenas para faturar uns trocos com o nome do famoso personagem, conforme veremos nos capítulos finais da MARATONA VIVA DJANGO!.

E se você acha que juntar Django e Sartana numa mesma aventura foi o auge da picaretagem da italianada, saiba que em 1963 um certo Umberto Lenzi (aquele mesmo dos filmes sobre canibais) dirigiu "Zorro Contra Maciste", um absurdo "crossover" que reúne personagens DE ÉPOCAS DIFERENTES (Maciste é dos tempos dos gladiadores, Zorro do século 19!). Perto disso, Django x Sartana é fichinha, e podiam até colocar o Trinity e o Ringo no bolo também!

PS: Este filme foi vítima da dança dos títulos, bastante comum aqui no Brasil. Embora ele tenha sido lançado em VHS como "Django x Sartana - Duelo Mortal" (e optei por este para a resenha), nos cinemas e em DVD o nome adotado foi "Django Desafia Sartana", uma tradução literal do original italiano. O problema é que este foi o mesmo título dado para "Quel Maledetto Giorno d'inverno... Django e Sartana all'ultimo Sangue", de Fidani, em VHS e DVD (embora nos cinemas o filme tenha sido lançado com uma tradução mais apropriada, "Django e Sartana - Até o Último Sangue").


Trailer de DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL



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Django Sfida Sartana (1970, Itália)
Direção: Pasquale Squitieri
Elenco: Tony Kendall, George Ardisson, José Torres,
Bernard Farber, Adler Gray, Mirella Pamphili, John Alvar,
Teodoro Corrà e Fulvio Mingozzi.