WebsiteVoice

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA (1970)


Em minha resenha sobre "Django Desafia Sartana", apresentei aos nobres leitores do FILMES PARA DOIDOS o diretor italiano Demofilo Fidani (1914-1994), um profissional tão picareta que faz com que outros notórios picaretas do mundo do cinema, como Al Adamson, Bruno Mattei e Godfrey Ho, pareçam cineastas de verdade. Mas se "Django Desafia Sartana" era uma produção mais normalzinha do homem, agora chegou a hora de pegar pesado e falar/escrever sobre DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, uma obra que pode tanto provocar ataques histéricos de riso quanto incontroláveis rompantes de fúria em cinéfilos mais "sérios".

Por isso, o filme é uma ótima maneira de conhecer o cinema Fidaniano, visto que está repleto do "melhor" e do pior do homem. Sua gênese é, por si só, uma piada pronta: reza a lenda que Fidani estava dirigindo outro western ("Homens Mortos não Fazem Sombra"), quando percebeu que acabaria o serviço e ainda sobrariam algumas diárias com o elenco principal (Jack Betts, Franco Borelli e Gordon Mitchell). Por isso, resolveu rodar um segundo filme, às pressas e de qualquer jeito, sem dinheiro e (praticamente) sem roteiro, reaproveitando o elenco ocioso do outro projeto e também os figurinos, cenários e cavalos!


Devido a questões burocráticas (um único profissional não podia dirigir dois filmes ao mesmo tempo, ou coisa que o valha), Fidani fez com que seu gerente de produção Diego Spataro assinasse como diretor, utilizando o impagável pseudônimo "Dick Spitfire" (que cairia como uma luva para um astro de filmes pornográficos). Mas todos os pesquisadores do gênero concordam que Spataro só colocou seu nomezinho ali: quem dirigiu toda a bagaça foi Fidani, conforme é perceptível pela falta de qualidade geral do negócio.

Àquela altura, o diretor já tinha lançado um "crossover" anterior entre os dois famosões do western spaghetti, Django e Sartana, que foi o já comentado "Django Desafia Sartana", filmado em 1969 e lançado nos cinemas italianos em 1970.


Não há informações sobre a recepção de "Django Desafia Sartana" na época, mas os espectadores devem ter saído putos do cinema ao constatar que "Sartana" na verdade era um outro personagem chamado "Jack Ronson", que somente aos 45 do segundo tempo se identifica uma única vez como Sartana! (Não duvide que esse diálogo foi adicionado de última hora num roteiro SEM Sartana para subitamente transformá-lo num filme COM Sartana...)

Enfim, com DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA Fidani resolveu corrigir este lamentável equívoco e realmente fazer uma aventura estrelada por Django e Sartana, conforme anuncia o título. Ou pelo menos tentou. Bem, vamos aos fatos e vocês entenderão melhor o que eu quero dizer - e também saberão porque o diretor recebeu a alcunha de "Ed Wood do Western Spaghetti".


O "roteiro" escrito por Fidani e por sua esposa Mila Vitelli Valenza começa no covil da quadrilha liderada pelo bandidão Burt Kelly (Gordon Mitchell). Eles acabaram de roubar o ouro do pagamento das tropas de Fort Bellamy, e Burt quer garantir uma travessia tranquila para o México com a fortuna. E como ninguém sugere alguma ideia melhor, ele manda seus homens sequestrarem a bela Jessica Brewster (Simonetta Vitelli), filha de um rico fazendeiro da região, para mantê-la como refém e garantir o salvo-conduto até cruzar a fronteira.

Só que o tiro sai pela culatra: a população da cidade resolve contratar dois famosos caçadores de recompensas para caçar Burt e seus homens. E é claro que estamos falando de Django (interpretado pelo norte-americano Jack Betts, com o nome artístico "Hunt Powers") e de Sartana (Franco Borelli, assinando com o pseudônimo "Chet Davis"). Ao saber da chegada da dupla à cidade, Burt manda seus capangas para resolver a situação, e aí começam as pancadarias e tiroteios de praxe.


E é só isso! O filme se resume a este argumento de meia dúzia de páginas, que deve ter sido rabiscado em poucas horas, e que basicamente funciona como mera desculpa para que incontáveis figurantes tentem matar Django ou Sartana antes de acabar comendo capim pela raiz! Não duvido que os diálogos tenham sido improvisados no momento da filmagem, e tudo relacionado à parte técnica da produção é simplesmente sofrível.

Mas quer saber? Por isso mesmo, DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA é simplesmente divertidíssimo! Claro, se você assistir sozinho em casa, num sábado à noite, esperando por algo mais elaborado, provavelmente vai cuspir fogo de raiva e quebrar o DVD em vinte pedaços. Porém experimente reunir uma turma de amigos na sala e colocar o filme para rodar: em menos de 10 minutos, todos estarão rolando de rir com as incontáveis bobagens do filme!


Fidani realmente se superou aqui, e a picaretagem começa já pelos créditos iniciais, que "reaproveitam" a trilha sonora composta por Coriolano Gori para o filme "Execução" (1968), de Domenico Paolella. A seguir, percebe-se desde as primeiras cenas que o roteiro desconjuntado é uma simples desculpa para uma sequência de cenas de ação, e que tentar seguir a "trama", por mais mixuruca que ela seja, é pura perda de tempo.

A produção é tão furreca que a história toda se desenrola em apenas dois ou três cenários, e sempre nas mesmas externas, onde, lá pelas tantas, podemos ver o que parece ser um grande cactus falso (imagem abaixo) para simular uma paisagem do Velho Oeste. Quer dizer, talvez até seja uma planta verdadeira mais feia que a média, mas, conhecendo Fidani, eu não duvidaria nada da probabilidade do cactus falso...


Visivelmente sem dinheiro e filmando "no improviso", Fidani nunca mostra o tal roubo ao ouro de Fort Bellamy cometido por Burt Kelly e seus homens (o crime é apenas comentado entre os bandidos), nem tenta criar reviravoltas ou situações que façam a "história" andar. Quando digo que DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA se resume a uma sequência de tiroteios envolvendo Django, Sartana e vários figurantes que interpretam os bandidos da quadrilha de Burt, acreditem, não estou sendo injusto nem exagerado.

A coisa funciona mais ou menos assim: vemos Django entrando num saloon e sendo ameaçado por homens de Burt Kelly. Ele toma uns sopapos, dá outros de volta, e termina matando todo mundo. Corta para Sartana em qualquer outro lugar sendo igualmente ameaçado por outros homens de Burt Kelly. Ele toma uns sopapos, dá outros de volta, até finalmente terminar matando todo mundo. E assim sucessivamente até cansar...


O mais hilário é que Django e Sartana nunca se encontram NO MESMO TAKE antes da cena final. Em duas situações diferentes ao longo do filme, um salva o outro das garras dos pistoleiros de Burt. Mas estas cenas são filmadas da seguinte forma: vemos um dos heróis na mira do revólver inimigo, corta para um take dos bandidos caindo fuzilados, corta para um take do herói em perigo olhando para cima ou para o lado, corta para um take do outro herói acenando, tipo "Salvei tua pele!", e então ele vai embora cavalgando, e aí corta de volta para o herói resgatado dando um sorrisinho tipo "Ah, esse Django (ou Sartana), que cara legal!".

A mesma sequência de takes acontece duas vezes: primeiro, Sartana salva Django; depois, Django salva Sartana. Mas os dois personagens só aparecem JUNTOS, dividindo finalmente um mesmo take, no minuto final, quando começam a negociar quais vilões mortos levarão para trocar pelo dinheiro da recompensa. Enfim, é algo inacreditável de tão tosco!


Outros momentos de rolar de rir em DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA envolvem cenas aleatórias adicionadas na montagem apenas para o filme ficar com a duração de um longa-metragem. Isso envolve INCONTÁVEIS takes com os personages cavalgando, filmados para dar a ideia de que a história está andando e algo está acontecendo (não está, nos dois casos). Se um editor decente limasse todas estas cenas de cavalgadas, a duração do filme cairia tranquilamente para uns 45 minutos!

Mantendo o "padrão de qualidade" de outras produções de Fidani, esta também não tem um mínimo de cuidado nem com a mais básica continuidade: o sobrenome do vilão, por exemplo, é "Kelly". Mas em dois momentos, aparece com grafias diferentes: "Kelly" no bilhete escrito após o sequestro da filha do fazendeiro, e "Keller" num cartaz de recompensa!


Já as cenas de apresentação dos dois personagens principais são tão gratuitas, e tão visivelmente filmadas apenas para enrolar, que muitos espectadores provavelmente desistirão do filme ainda nos primeiros 15 minutos.

Django, por exemplo, aparece visitando uma cidade-fantasma. Ele desce do cavalo, pega um alforje e um cantil, e começa a caminhar pelas ruas centrais da vila abandonada, como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa. Encontra um sujeito vestindo farrapos e tenta conversar com ele: "Ninguém mais vive aqui?". Não recebe nenhuma resposta, e decide ir embora. A cena não tem qualquer nexo: nunca sabemos o que Django procurava na cidade-fantasma, quem esperava encontrar, ou que diabos de cidade era aquela; mas a "visita" rendeu a Fidani cinco minutos no tempo de duração do filme!


O mesmo acontece na cena de apresentação de Sartana. Contrariando totalmente as características do personagem imortalizado por Gianni Garko na série oficial (iniciada em 1968, e com quatro filmes), Fidani apresenta Sartana como o grande herói e defensor de um vilarejo de mineradores. Por quê? Boa pergunta, que Fidani não se preocupa em responder - a situação toda é apenas uma desculpa para ganhar mais cinco minutos de tempo corrido na narrativa! Ele até inventou um brilhante diálogo entre dois personagens secundários, que de certa forma sintetiza a inexistência de tudo no filme (principalmente motivações para os personagens):

- Quem é aquele?
- Aquele é Sartana. Nós devemos tudo a ele. Durante anos, a vila era pobre e o nosso povo passava fome. Ele nos mostrou como trabalhar nesta mina abandonada. Nós devemos tudo a Sartana.
- Mas por quê?
- Por quê? Porque ele é Sartana!




E a cereja do bolo é a inacreditável performance de Gordon Mitchell como o psicótico vilão Burt Kelly. Eu não duvidaria se alguém me dissesse que Mitchell filmou todas as suas cenas sob efeito de álcool, ou mesmo drogas pesadas. Num autêntico "one-man show" digno dos melhores momentos de Klaus Kinski, o ator grita, recita frases sem sentido, brinca colocando copos sobre os olhos para simular um binóculo DURANTE UM DIÁLOGO SÉRIO com seus homens, e ri exageradamente como se estivesse numa comédia da série "Austin Powers".

Por tudo isso, o vilão é a melhor coisa do filme e rouba a cena dos apagados heróis toda vez que aparece. Digamos apenas que Burt Kelly é tão doido que joga pôquer e conversa com SEU PRÓPRIO REFLEXO NO ESPELHO - e ainda o acusa de estar trapaceando! É como se o personagem tivesse fugido de uma comédia de Mel Brooks, caindo bem no meio do set de filmagem de um western de quinta categoria!


Se Sartana não tem absolutamente nada em comum com o personagem da série oficial, o Django de Jack Betts sofre do mesmo problema, mais uma vez sendo representado como um caçador de recompensas (a exemplo do anterior "Django Desafia Sartana"). Mas pelo menos ele veste roupas parecidas com as do Django de Franco Nero, enquanto o Sartana de Franco Borelli passa longe disso e parece um pistoleiro genérico qualquer. E tudo bem que o Django de Sergio Corbucci não era exatamente um cavalheiro em relação às mulheres, mas o personagem de Betts exagera no tratamento do sexo oposto, e lá pelas tantas joga uma bacia de água suja no rosto de uma prostituta que está lhe "incomodando"!

Além do elenco reaproveitado de "Homens Mortos Não Fazem Sombra", vários outros atores habituais do cinema Fidaniano dão as caras na narrativa episódica de DJANGO E A SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, entre eles o brasileiro Celso Faria, que na época era figurinha carimbada nos westerns de baixo orçamento feitos na Itália. Também é possível rever a linda Simonetta, filha de Fidani na vida real, e mais uma vez creditada como "Simone Blondell".


Na parte técnica, vale destacar a direção de fotografia do notório (e ainda desconhecido à época) Aristide Massaccesi. Alguns anos depois, já usando o pseudônimo "Joe D'Amato", ele se tornaria um dos grandes nomes do exploitation italiano, dirigindo produções polêmicas como "Emanuelle na América", "Buio Omega" e "Anthropophagus", além de uma cacetada de filmes pornográficos.

Este aqui foi um dos seus primeiros trabalhos como diretor de fotografia, e ele repetiria a dose em outros filmes posteriores de Fidani, como "Por um Caixão Cheio de Dólares" e o próprio "Homens Mortos Não Fazem Sombra". O início de carreira ao lado do "Ed Wood do Western Spaghetti" certamente deve ter sido uma grande escola para Massaccesi/D'Amato, que depois dirigiria ele mesmo diversas produções rápidas e baratas no estilo de Fidani!


Muito mais poderia ser dito/escrito sobre a ruindade de DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, mas esse é o tipo de clássico trash que deve ser visto, e não discutido (ou pelo menos não discutido longe de uma mesa de bar e diante de várias garrafas de cerveja). Tenho certeza que o público médio fã de westerns não encontrou um único defeito entre os inúmeros existentes na produção, até porque a contagem de cadáveres é mantida nas alturas, com tiroteios a cada 10 ou 15 minutos.

Mas, para cinéfilos mais experientes e/ou fãs de podreiras, é impossível não gargalhar com a trama episódica que não leva a lugar nenhum, com as interpretações afetadas, com a péssima direção e com as tentativas desesperadas de Fidani de esticar o tempo de duração, incluindo um interminável jogo de pôquer que dura uns 10 minutos, e que é um convite ao uso do botão Fast Foward - até porque termina com Django passando fogo nos colegas trapaceiros de mesa e pegando para si todo o dinheiro das apostas!


Este é o segundo de três "crossovers" envolvendo a famosa dupla de personagens. Dois anos depois, em 1972, o cada vez mais picareta Fidani lançou um filme chamado "Uma Balada para Django", que não passa dos "melhores momentos" (cof, cof, cof!) de "Django Desafia Sartana" e DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA colados numa outra trama com apenas 20 minutos de cenas novas. Como se vê, não havia limites para a cara-de-pau para o diretor...

É claro que DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA não pode ser visto como um bom filme, sequer como um bom western spaghetti. Fidani e sua trupe não estão tentando criar nada de novo ou de original, regurgitando velhos clichês e até velhos personagens já conhecidos do público, e sem esconder que o fazem unicamente em busca de dinheiro fácil - sem nada de artístico ou relevante, digamos.


Por isso mesmo, a obra é pura diversão para quem gosta de cinema ruim, com tantos erros, defeitos e problemas por minuto que é impossível não se pegar rindo, ou pelo menos com muita vergonha alheia de todos os envolvidos nessa bagaça. É o "Sotto-Django" perfeito para assistir embalado por boas doses de álcool e/ou rodeado pelos amigos fãs de trash - além de uma bela introdução para o cinema sem-noção e absurdamente ruim do "mestre" Demofilo Fidani.

PS 1: Como havia acontecido com o filme anterior de Fidani, que no Brasil ganhou o título "Django Desafia Sartana" mesmo que não exista nenhum desafio ou duelo entre os personagens, este aqui também recebeu títulos enganosos nos EUA, como "Final Conflict... Django Against Sartana" e "Django and Sartana's Showdown in the West", levando o espectador a acreditar que verá um grande duelo entre Django e Sartana, quando na verdade eles são "amigos" na história.

PS 2: O IMDB trocou as bolas e creditou Jack Betts como Sartana e Franco Borelli como Django, quando na verdade é o contrário.


Trailer de DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA



*******************************************************
Arrivano Django e Sartana... È la Fine
(1970, Itália)

Direção: Demofilo Fidani
Elenco: Jack Betts, Franco Borelli, Gordon Mitchell,
Simonetta Vitelli, Attilio Dottesio, Benito Pacifico,
Krista Nell, Ettore Manni e Celso Faria.

sábado, 26 de janeiro de 2013

DJANGO DESAFIA SARTANA (1970)


"Crossover" é o nome dado ao encontro de personagens de mídias ou histórias distintas, e, embora os nerds acreditem que seja uma coisa recente (graças a HQs como "Marvel vs. DC" ou filmes tipo "Alien x Predador"), o recurso é antiquíssimo, inclusive no mundo do cinema, que já mostrou insólitos encontros como "Abbott and Costello Meet the Mummy" (1955) e  "King Kong vs. Godzilla" (1962). O curioso é que embora o "crossover" se encaixe como uma luva no universo do western, já que os fãs do gênero adorariam ver seus personagens preferidos duelando para saber quem é o mais rápido no gatilho, produções neste sentido demoraram para aparecer.

A partir do começo dos anos 70, Django já não era o pistoleiro mais popular do western spaghetti: desde 1968, ele rivalizava as atenções do público com outro personagem, Sartana, surgido em "Se Encontrar Sartana, Reze Pela Sua Morte", de Gianfranco Parolini. E embora o intérprete "oficial" do personagem seja Gianni Garko nos quatro filmes da série, logo pipocaram vários "Sotto-Sartanas", ou Sartanas genéricos, interpretados por gente como William Berger e George Ardisson.


Era questão de tempo para que algum espertinho resolvesse juntar os dois lucrativos personagens num único filme, e isso aconteceu em 1970. Infelizmente, o "crossover" entre os gatilhos mais rápidos do Oeste não foi comandado por um cineasta apto, tipo os diretores que assinaram as aventuras de origem de ambos (Sergio Corbucci e Parolini). Pelo contrário: o responsável por DJANGO DESAFIA SARTANA foi ninguém menos que Demofilo Fidani!

Se o nome "Demofilo Fidani" não significa nada para você, caro leitor, meus parabéns: você é um cinéfilo de bom gosto, que foge de filmes e diretores ruins como o Diabo da cruz. Apenas permita-me alertá-lo de que você está deixando de se divertir bastante. Apelidado de "Ed Wood do Western Spaghetti", Fidani era um débil mental cuja ruindade ultrapassa até a de nomes conhecidos do universo trash, como Bruno Mattei e Alfonso Brescia (para ficar só nos italianos). Definitivamente, eu não recomendaria uma obra dele para alguém que não cultive uma paixão incondicional por filmes ruins.


DJANGO DESAFIA SARTANA foi o título adotado nos lançamentos em VHS e DVD, e, considerando a trama do filme, não poderia ser mais inadequado: apesar de passar a ideia de que teremos um grande duelo entre os dois famosos personagens, na verdade eles lutam lado a lado contra uma dupla de vilões. Nos cinemas brasileiros, o filme foi batizado como "Django e Sartana - Até o Último Sangue", resumindo o título original italiano ("Quel Maledetto Giorno d'inverno... Django e Sartana all'ultimo Sangue").

Curioso é que, apesar de o título divulgar com tanto entusiasmo o encontro dos dois personagens famosões, nenhum deles é chamado pelo nome até o ato final do filme, quando finalmente descobrimos que Jack Betts interpreta Django e Fabio Testi (em começo de carreira) é Sartana, embora use outro nome durante todo o resto do filme!


O roteiro escrito pelo próprio Fidani em parceria com a esposa Mila Vitelli Valenza não podia ser mais simplório: a pequena cidade de Black City recebe um novo xerife, Jack Ronson (Testi), recém-chegado de Denver City. Os pacíficos moradores esperam que ele acabe com os dois perigosos foras-da-lei que dominam o lugar, Bud Willer (Dino Strano, visto também em "Django não Espera... Mata") e o mexicano Paco Sanchez (Benito Pacifico).

O problema é que Ronson é um xerife de primeira viagem, ainda inexperiente e meio cagão, que não sabe exatamente como lidar com os bandidos e prefere evitar o confronto direto, deixando-se inclusive humilhar por eles numa visita ao saloon. Para a sorte do rapaz, também chega à cidade um misterioso pistoleiro vestido de preto (o norte-americano Jack Betts, que usava o pseudônimo "Hunt Powers"). Ele é o caçador de recompesas Django, mas só se identificará como tal no fim do filme.


Percebendo que Ronson ainda não está preparado para enfrentar os vilões, Django consegue fazer com que um dos bandidos, Willer, desafie o xerife para um duelo; então, o caçador de recompesas dá um sumiço em Ronson e veste suas roupas, enfrentando o bandidão de igual para igual. Adivinha só quem vai sacar primeiro?

Com Willer morto, seu sócio Paco resolve levar o inferno a Black City. Mas ele e seus homens serão enfrentados por um misterioso pistoleiro com o rosto semi-encoberto. Será Django outra vez, passando-se pelo xerife, ou será que Ronson finalmente tomou coragem para combater os criminosos?


Na última cena de DJANGO DESAFIA SARTANA, quando os dois heróis finalmente se apresentam, a última frase do personagem de Testi (e do próprio filme!) é algo como "Aqui vocês me conhecem como Jack Ronson, mas meu verdadeiro nome é Sartana", apenas para justificar o título do filme.

Parece até mudança feita de última hora, apenas para faturar uns trocados com os fãs dos dois personagens, pois àquela altura Sartana era tão popular quando Django - Fidani provavelmente pensou que se um herói já levava público aos cinemas, os dois juntos levariam o dobro!


Outra evidência de que batizar o personagem de Testi como Sartana na cena final pode ter sido uma ideia de última hora é o fato de que o sujeito não tem absolutamente nada a ver com Sartana da forma como é representado no filme (a não ser, claro, que Fidani esteja fazendo um "prequel", contando a história de como Sartana começou sua longa carreira de pistoleiro implacável).

E nem é ignorância do diretor, pois nos anos anteriores ele já havia feito duas aventuras não-oficiais de Sartana: "Sartana - A Sombra da Morte" e "Sou Sartana... Venham em Quatro para Morrer", ambas de 1969 e ambas estreladas por Jeff Cameron. Logo, se DJANGO DESAFIA SARTANA tivesse sido planejado como "crossover" entre os personagens desde o início, por que Fidani não chamou Cameron para repetir o papel?


Embora também não tenha muito em comum com o Django de Corbucci e Franco Nero, o Django de Jack Betts pelo menos está melhor caracterizado; barbeado pela primeira vez, ao contrário das outras encarnações oficiais e não-oficiais do personagem, ele é apresentado como caçador de recompensas (como o Django de Gianni Garko em "10.000 Dólares para Django"). Betts também mantém aquele tom cínico e calado da interpretação de Franco Nero, além de vestir figurino parecido, todo preto (a novidade é uma vistosa cicatriz no rosto).

Em relação aos vilões, não há nada de muito especial: Strano encarna o bandido fanfarrão que adora humilhar e desafiar os outros, e Pacifico o típico bandido mexicano extremamente malvado, também com uma cicatriz enorme que ocupa metade do seu rosto. Nenhum deles é particularmente memorável ou ameaçador, ou tem alguma característica marcante. São bandidos de meia-tigela, perfeitos para uma aventura de meia-tigela como esta.


DJANGO DESAFIA SARTANA foi filmado em 1969 e lançado no ano seguinte, e parece ser uma produção melhorzinha do que outros trabalhos de Fidani no gênero, pelo menos visualmente. Já nos outros departamentos, percebe-se que o orçamento também é minúsculo, ou inexistente. Fidani era um especialista em fazer faroestes baratos rapidamente, e sempre apresentando todo um repertório de erros grosseiros, problemas de ritmo e inépcia geral, que também podem ser encontrados aqui.

Por exemplo: entre 30 e 35 minutos da narrativa correspondem a um gigantesco flashback em que os dois heróis sequer aparecem (!!!), e que apenas mostra como os vilões Willer e Paco ascenderam ao poder e dominaram Black City. Com direito a momentos descartáveis apenas para comprovar a crueldade dos bandidos, como quando eles entram num bar (um cenário mais pobre que o Restaurante da Dona Florinda, do seriado "Chaves") e matam os fregueses e uma dançarina anônimos antes de sair gargalhando!


Vale destacar que Quentin Tarantino também usou um tempão para contar a origem da vilã O-Ren-Ishii em "Kill Bill". Mas é claro que a história dos dois vilões aqui não têm nenhum interesse, e só é tão longa porque Fidani provavelmente precisava enrolar para manter o tempo de duração de um longa-metragem!

Em relação a Django e Sartana, os dois personagens famosos que estão no título, pouca coisa acontece até a meia hora final. Django até mata um montão de bandidos, mas Jack Ronson/Sartana não faz absolutamente NADA até os últimos 10 minutos. Se for para analisar o tempo em cena de cada personagem, o filme bem que poderia ser rebatizado como "Ascenção e Queda de Bud Willer e Paco Sanchez"!


Há algo de interessante na ambientação, uma cidadezinha em pleno inverno (justificando a primeira parte do título italiano, "Aquele Maldito Dia de Inverno..."), castigada por ventos fortes que obrigam os personagens a usarem casacos grossos e cachecóis - o extremo oposto da maioria dos westerns, que se passam em cidades desérticas com o sol a pino e personagens sempre sujos e suados.

Mas Fidani não tem capacidade para fazer nada de muito memorável com a ambientação ou com os personagens, simplesmente pulando de uma cena de tiroteio/briga para a outra. Numa entrevista de anos atrás (o diretor faleceu em 1994), havia uma estapafúrdia justificativa do velho Demofilo para os contrastes da sua obra: "O filme tem um belo início e um belo final. As coisas que eu gostava, dirigi bem. Já as outras...". Que figura!


Claro que quem for ver o filme baseado no título enganoso adotado no Brasil vai quebrar a cara, pois não há desafio algum entre os dois personagens em DJANGO DESAFIA SARTANA (alô, Procon?!?). A não ser que os distribuidores estivessem se referindo a uma rápida troca de socos entre Django e Ronson/Sartana, que acontece quando ambos discordam numa questão e resolvem resolvê-la com sopapos (o que eu não consideraria um "desafio").

O nome de Sartana no título é uma enganação pura e simples, já que quem domina a aventura é Django. Dentro de suas limitações, Jack Betts consegue encarnar um Django bem decente e divertido (ele foi o ator que mais vezes interpretou o personagem, três ao todo). Ao menos o roteiro lhe dá oportunidades de atirar em vários bandidos ao longo do filme, e ele ainda protagoniza várias cenas divertidas, como quando acende um cigarro riscando o fósforo nos dentes de um barman impertinente, ou ao disparar um tiro no meio da moeda que usa para pagar o mesmo sujeito!


Já o pobre Testi parece completamente perdido no filme. A ideia de um xerife iniciante que precisa pegar as manhas da coisa justamente numa cidade dominada por dois perigosos bandidões é boa, mas mal-aproveitada por Fidani. Na maior parte do tempo, Testi só fica zanzando pela cidade e olhando para o outro lado quando encontra os vilões, para não se comprometer.

O máximo de conflito, antes do tiroteio final, é um hilário momento à la "Falcão, O Campeão dos Campeões" (mas 17 anos ANTES), quando Ronson/Sartana desafia Willer para uma queda de braço, com velas acesas nas duas extremidades da mesa (para queimar a mão do perdedor)! Juro que estou até agora tentando encontrar algum propósito nesta cena!


Na época do lançamento, Testi foi identificado por um pseudônimo em inglês (no seu caso, "Stet Carson"). Este aqui é um dos seus primeiros papéis principais (ou quase), mas ele já havia feito grandes filmes, como os clássicos "Três Homens em Conflito" (1966) e "Era Uma Vez no Oeste" (1968), de Sergio Leone, respectivamente como dublê e figurante. Foi Fidani quem deu as primeiras oportunidades para o ator, inclusive sua estreia no cinema foi num filme do diretor, "Gringo, Reze para Morrer", de 1967.

Anos mais tarde, quando Testi ficou famoso e começou a fazer filmes bem melhores usando o próprio nome de batismo ao invés do ridículo "Stet Carson", novas cópias de DJANGO DESAFIA SARTANA tiveram os créditos iniciais mudados para que o nome "Fabio Testi" aparecesse em destaque. Em entrevistas recentes, o ator lembrou entre risadas da sua experiência com Fidani: em diversos filmes, Testi trocava de roupa cinco ou seis vezes para fazer figuração como diferentes bandidos anônimos alvejados pelos heróis!
 

Recomendado apenas a fãs de trash movie e escolados no cinema de Demofilo Fidani (que assina como "Miles Deem", o mais popular dos seus 12 pseudônimos), DJANGO DESAFIA SARTANA é a típica produção que funciona pelos motivos errados - neste caso, por ser engraçada de tão ruim.

Sem nunca tentar ser mais do que é, a produção barata assume-se como uma mera desculpa para tiroteios e cenas de ação, com dublês que morrem fazendo exagerados malabarismos e revólveres que disparam 16 tiros sem precisar recarregar. Enfim, o típico western descartável, casca-grossa e rápido e rasteiro que meu finado avô, grande fã do gênero, adorava assistir - para ele, vejam só que heresia, os westerns de Leone e Corbucci eram muito enfeitadinhos e complexos!


Mas Fidani faria coisa bem pior (e mais divertida) num novo encontro entre os personagens, "Django e Sartana no Dia da Vingança", que também é uma picaretagem de dar dó! E, provando que era mesmo o "Ed Wood do Western Spaghetti", ele ainda juntou cenas destes dois filmes para fazer um terceiro, "Uma Balada para Django", conforme veremos em futuros capítulos dessa nossa MARATONA VIVA DJANGO!.

PS 1: O elenco conta também com dois atores habituais do cinema Fidaniano: o brasileiro Celso Faria e a bela filha do diretor, Simonetta Vitelli, sempre usando o pseudônimo "Simone Blondell".

PS 2: Django desafiaria mesmo Sartana, desta vez sem propaganda enganosa, em "Django x Sartana - Duelo Mortal", de Pasquale Squitieri, lançado no mesmo ano.

Trailer de DJANGO DESAFIA SARTANA



***********************************************************
Quel Maledetto Giorno d'inverno... Django e 

Sartana all'ultimo Sangue (1970, Itália)
Direção: Demofilo Fidani
Elenco: Jack Betts, Fabio Testi, Benito Pacifico,
Dino Strano, Luciano Conti, Simonetta Vitelli,
Attilio Dottesio e Celso Faria.