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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

DJANGO, O BASTARDO (1969)


(Este filme foi o único "Sotto-Django" que já havia sido resenhado aqui no FILMES PARA DOIDOS antes da MARATONA VIVA DJANGO!, no longínquo 16 de fevereiro de 2009! Para os novos leitores, que não acompanham o blog desde o começo, e para não deixar incompleta esta ambiciosa Maratona, resolvi republicar a resenha, agora em versão revisada e ampliada.)

"Eu vou te matar, Murdok. Lentamente... Vou fazer você morrer mil mortes, como os seus homens", ameaça Django, no clímax de DJANGO, O BASTARDO, uma daquelas ótimas surpresas para quem acha que já viu tudo em matéria de western spaghetti. Sem nenhuma relação com o "Django" de Sergio Corbucci além do nome do personagem, o filme difere de outras aventuras não-oficias do personagem porque foge do lugar-comum ao apresentar uma curiosa mistura de faroeste e horror, dando a Django uma certa aura sobrenatural.

Produzido em 1969 (apenas três anos depois do original), DJANGO, O BASTARDO tem outro destaque além do toque fantasmagórico: a presença, no papel principal, de Anthony Steffen, pseudônimo "americanizado" do italiano filho de brasileiros Antonio Luiz de Teffé. (O quê? Você ainda não leu o livro que Daniel Camargo, Fábio Vellozo e Rodrigo Pereira escreveram sobre o ator? Então saia JÁ da internet e vá em busca deste livro obrigatório!!!).


Já a direção é de Sergio Garrone, que dirigiu vários westerns, mas hoje é mais conhecido no "underground" pelas suas lamentáveis contribuições ao ciclo "nazisploitation" italiano, como "SS Experiment Camp" (1976) e "SS Camp 5: Women's Hell" (1977). Garrone já havia dirigido dois faroestes cujo personagem principal foi rebatizado como "Django" em alguns países ("Atirar para Viver", de 1968, e "Uma Longa Fila de Cruzes", em 1969, este último também estrelado por Steffen).

DJANGO, O BASTARDO é a primeira produção de Garrone realmente pensada e produzida para ser uma aventura não-oficial de Django (e não algum outro western qualquer que ganhou novo título com o nome do personagem). O roteiro foi escrito em parceria entre o diretor e seu astro, marcando também a estreia de Steffen como co-roteirista (função que ele exerceria em outras três produções). Em entrevistas, Garrone diria que este era o seu filme preferido entre os diversos que dirigiu; Steffen também tinha um carinho muito grande por ele.


Nossa aventura começa com vários takes mostrando um personagem misterioso caminhando, mas sempre sem mostrar o rosto do sujeito. Sua caminhada, que parece durar uma eternidade, acaba na frente de uma bela cabana, onde o misterioso homem finca no chão uma cruz com o nome "Sam Hawkins" e a data daquele dia. Os capangas de Sam ficam apavorados com aquela aparição e saem da cabana para confrontar o desconhecido.

Neste momento, a câmera acompanha o homem enquanto ele levanta o rosto, revelando finalmente os olhos frios e o rosto desprovido de emoção. Trata-se de Django, nosso protagonista, e antes que os seus antagonistas possam sequer trocar algumas palavras, ele atira rapidamente, eliminando todos em cena; Hawkins, claro, cai perto da cruz de madeira com seu nome.


Corta para uma luxuosa mansão onde encontramos os dois outros personagens centrais da trama: o banqueiro Ross Howard (Jean Louis) e o vilão, um poderoso fazendeiro chamado Rod Murdok (Paolo Gozlino), que vive ali com o irmão psicótico, Luke (Luciano Rossi, vilão habitual dos westerns e policiais da época, aqui creditado como "Lu Kamonte" e numa perfeita interpretação de desequilibrado, à la Klaus Kinski!!!).

Quando conhecemos os malvadões, eles estão assistindo a um bizarro jogo onde dois homens atiram, um para o outro, uma banana de dinamite com o pavio em chamas - numa ideia bastante inspirada, que rende uma cena tensa que Garrone estica até deixar o espectador na maior agonia, esperando pela iminente explosão da bomba!


Descobrimos que Murdok e Ross têm negócios fraudulentos em comum, e também parecem ligados por um segredo do passado. Logo, chega à cidade o misterioso Django, que vai procurar um marceneiro e lhe pede para construir uma cruz de madeira. Segue-se um diálogo impagável:

- É apenas um dólar. Que nome e data quer que eu grave?
- O nome é Ross Howard. E a data é de hoje.
- Ross Howard? Então pode guardar o seu dólar! É de graça!



Naquela noite, Django visita Howard em sua casa. O banqueiro é atraído pelo pistoleiro até um velho cemitério. Durante o trajeto, Howard só sabe repetir: "Eu não tive culpa, Django! Eu não tive culpa!". Mas é inútil. Levado até uma sepultura aberta, onde está a cruz de madeira com seu nome e a data daquele dia, Howard é impiedosamente baleado por Django. Ah, antes que você pense que estou indo longe demais na descrição da trama, isso tudo acontece nos primeiros 20 minutos do filme!

É quando o diretor freia o ritmo. Ficamos sabendo mais sobre os irmãos Murdok - Rod e Luke. Assustado com a possibilidade de ser a próxima vítima, já que uma cruz de madeira com seu nome apareceu do lado de fora do rancho, Rod contrata dezenas de pistoleiros mercenários para protegerem sua pele. Eles inclusive expulsam todos os moradores da cidadezinha para que possam ter controle total da situação (uma desculpa para justificar a falta de dinheiro para contratar figurantes, claro...).

Só que, numa noite escura, o fantasmagórico Django aparecerá para acertar as contas com Murdok e todo o seu exército de mercenários, ajudado/atrapalhado pela própria esposa do vilão, a ambiciosa Alida (Rada Rassimov, irmã de outro Django não-oficial, Ivan Rassimov, e que já havia aparecido em "Django Não Espera... Mata")


O grande acerto de DJANGO, O BASTARDO é apresentar o personagem-título como um carrasco misterioso e impiedoso, e circulando na tênue linha entre uma ameaça humana e real e uma invencível aparição sobrenatural. Por meio de um flashback, descobrimos que o herói era um soldado durante a Guerra Civil - e, ironicamente, um soldado confederado, enquanto o Django de Corbucci lutava pela União! Certo dia, todo o seu batalhão foi traído pelos seus superiores, Hawkins, Howard e Murdok, e exterminados sem piedade (incluindo outro ator com sangue brasileiro, o paulista Celso Faria, figurinha carimbada nos "Sotto-Djangos").

Vemos, ainda no flashback, Django caindo após ser alvejado pelas costas. Mas terá morrido e virado um fantasma vingador, ou sobrevivido ao atentado para dar o troco? Boa pergunta. Até os 15 minutos finais, o espectador não tem nenhuma dúvida de que Django é um fantasma vindo do passado para vingar-se dos homens que o mataram. Mas aí o "fantasma" é ferido e sangra no confronto final com seus inimigos, desmistificando aquela aura de assombração que o acompanhara até então. Real ou sobrenatural? No livro "Dizionario del Western All'Italiana", de Marco Giusti, o diretor Garrone não dá nenhuma explicação conclusiva: "Ao final você não sabe se Django é real ou não, se é um sonho ou um fantasma", disse.


Para reforçar o "toque sobrenatural" da trama, Garrone usa diferentes artifícios cênicos, alguns bem simples, mas ainda eficientes. Por exemplo: poucas vezes, ao longo do filme, vemos o rosto de Django, que aparece quase sempre envolto pela escuridão. Em algumas cenas, apenas um pequeno facho de luz ilumina seus olhos! Tem também um inspirado momento em que um oponente de Django é "engolido" pela enorme sombra do herói projetada em uma parede. Por essas e outras, entre todas as obras de Garrone que vi, esta é a mais e bem filmada e visualmente criativa.

Apesar de ter um ritmo bastante irregular, DJANGO, O BASTARDO é um excelente bangue-bangue, que tenta - e consegue - escapar das armadilhas e clichês típicos do gênero. Embora os tiroteios não sejam tão inspirados, a forma como Django surge e elimina seus oponentes rende alguns bons momentos. Não raras vezes ele usa bonecos feitos com suas roupas para enganar os adversários e pegá-los pelas costas. E há ainda alguns toques bastante macabros, como três pistoleiros mortos pelo herói que voltam à cidade levados por seus cavalos, crucificados sobre as selas!


O grande ponto fraco do filme é a inexistência de um duelo final mais criativo entre Django e o grande vilão, Murdok, pois Garrone se limita ao batido e pouco emocionante "mano a mano" de quem saca mais rápido. É uma pena, porque em vários momentos constatamos que Murdok é um grande espadachim, e por um momento imaginei que ele fosse usar suas habilidades no manejo da espada contra o herói - coisa que nunca acontece.

Para terminar, vale lembrar que este é um raro caso de produção italiana "copiada" anos depois numa grande produção norte-americana, e não o contrário. Acontece que quatro anos depois, em 1973, Clint Eastwood dirigiu e estrelou "O Estranho Sem Nome", um faroeste com tom "sobrenatural" bastante parecido com o de DJANGO, O BASTARDO, e cujo roteiro (assinado por Ernest Tidyman) traz Eastwood como um xerife que supostamente volta da morte para se vingar dos seus algozes.


Graças ao sucesso do filme com Eastwood, o produtor norte-americano Herman Cohen comprou os direitos de exibição da obra de Garrone e remontou-a para sua estreia nos cinemas dos Estados Unidos, dando-lhe um título, "The Stranger's Gundown". A única diferença perceptível é que a cena em que os soldados confederados são exterminados foi jogada lá para o meio do filme, como flashback, enquanto na versão original italiana o massacre acontecia logo no começo, antes mesmo dos créditos iniciais (esta resenha foi baseada na montagem norte-americana).

Considerando que as aventuras não-oficiais baseadas no clássico de Sergio Corbucci raramente fugiam do lugar-comum, DJANGO, O BASTARDO foi um sopro de criatividade muito bem-vindo no universo dos "Sub-Djangos". Não só é um dos grandes trabalhos do diretor Garrone, como um dos melhores filmes com o personagem. Steffen voltaria a ele em "Um Homem Chamado Django" (1971), de Edoardo Mulargia, mas dessa vez sem nenhum toque sobrenatural.


E embora Garrone não tenha feito outro filme com um herói de nome Django, pelo menos mais um filme dele foi rebatizado para parecer aventura não-oficial do personagem: a co-produção Itália-Espanha "Tequila" (1971), que, mesmo com um herói chamado Johnny), foi distribuída na Itália, França e Estados Unidos com o enganoso título "Mate, Django... Mate Primeiro!".

PS: Este é um dos primeiros filmes do técnico em efeitos especiais Paolo Ricci, que depois comandaria as barbaridades e sangrentas mutilações de filmes como "A Montanha dos Canibais" e "A Ilha dos Homens-Peixe", de Sergio Martino, e "Paganini Horror", de Luigi Cozzi.


Cena inicial de DJANGO, O BASTARDO



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Django, Il Bastardo (1969, Itália)
Direção: Sergio Garrone
Elenco: Anthony Steffen, Rada Rassimov, Luciano Rossi, 

Paolo Gozlino, Furio Meniconi, Celso Faria, Teodoro 
Corrà, Jean Louis e Emy Rossi Scotti.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

VIVA DJANGO! (1968)


Todos os filmes não-oficiais com o personagem Django produzidos depois do sucesso da obra de Sergio Corbucci eram aventuras independentes, com pouca ou nenhuma relação direta com o original, embora sempre emprestando um elementozinho aqui, outro ali. Para todos os efeitos, a única sequência oficial de "Django" saiu apenas duas décadas depois, em 1987 ("Django, A Volta do Vingador"), contando inclusive com o retorno de Franco Nero no papel-titulo.

Só que bem antes dela houve um "Sotto-Django" que conseguiu se aproximar bem mais do universo do personagem. Trata-se de VIVA DJANGO!, de Ferdinando Baldi, que na Itália se chama "Preparati la Bara" ("Prepare o Caixão"). Motivos não faltam para que esta seja a mais fiel das sequências bastardas do clássico de Corbucci: o filme tem o mesmo produtor (Manolo Bolognini), o mesmo diretor de fotografia (Enzo Barboni) e até um dos roteiristas de "Django", Franco Rossetti (tornando-se, assim, o único a escrever uma outra aventura do personagem além da oficial).


Além disso, por contar uma história anterior aos acontecimentos mostrados em "Django", muitos críticos e espectadores consideram VIVA DJANGO! um "prequel" do original, mostrando como o protagonista transformou-se naquele pistoleiro solitário e sanguinário encarnado por Franco Nero em 1966.

Em minha resenha sobre "Django", eu até comentei que muitas informações eram jogadas apenas por alto e nunca devidamente explicadas, como o que aconteceu à esposa assassinada do herói, ou onde ele encontrou o caixão e a metralhadora que arrastava desde o início do filme. Pois bem: apesar de ser uma produção "não-oficial", VIVA DJANGO! se preocupa em tentar explicar tudo isso, mesmo que os fatos aqui apresentados não batam 100% com aqueles que vimos no filme de Corbucci (mais sobre isso a seguir).


Vale registrar que por muito pouco o próprio Franco Nero não voltou ao seu papel mais famoso, pois tinha assinado um contrato com o produtor Bolognini para estrelar três produções. A primeira, claro, foi "Django", que ninguém imaginava que seria um sucesso tão estrondoso; a segunda foi "Adeus, Texas" (1966), um outro western também dirigido por Ferdinando Baldi (e divertidíssimo).

A terceira obra do contrato seria VIVA DJANGO!, que o produtor concebeu exatamente como um retorno de Nero ao personagem. O problema é que o agora astro recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em Hollywood, estrelando o épico "Camelot" (1967), de Joshua Logan, no papel de Sir Lancelot (que ele roubou de astros como Terence Stamp e Alain Delon), ao lado de um elenco de peso que incluía Richard Harris, Vanessa Redgrave (futura esposa de Nero) e David Hemmings.


É claro que entre fazer mais um western spaghetti poeirento ou estrelar uma superprodução hollywoodiana, Nero não pensou duas vezes e quebrou o contrato com Bolognini - produtor e astro só voltariam a se encontrar num set de filmagem quase dez anos depois, em "Keoma" (1976), de Enzo G. Castellari.

Com a saída do astro quando o projeto já estava encaminhado, os realizadores resolveram tocar VIVA DJANGO! do mesmo jeito, só que encontrando um sósia de Nero para o papel de Django. A opção escolhida pode parecer meio esquisita para o espectador de hoje, mas caiu como uma luva: Bolognini contratou um ator de 29 anos chamado Mario Girotti, que ficaria conhecido pelo pseudônimo americanizado de Terence Hill.


Hoje o nome do ator está associado ao personagem Trinity e às inúmeras comédias e faroestes cômicos que ele estrelou ao lado do parceiro Bud Spencer. Mas é bom lembrar que, em 1968, Terence ainda não era Trinity: sua veia cômica só começou a ser mais explorada a partir de "Trinity é o Meu Nome" (1970), de Enzo Barboni, embora o ator já tivesse feito algumas poucas comédias (como "La Feldmarescialla", de Steno, em 1967; este filme seria rebatizado "Trinity Vai à Guerra" no Brasil por causa do sucesso do personagem POSTERIOR de Terence Hill).

Mario/Terence foi chamado porque era praticamente uma cópia xerox de Franco Nero (compare as fotos abaixo), e inclusive parecia uma versão mais jovem do ator, embora na vida real Nero fosse dois anos mais jovem. Tanto que quando o ator substituto aparece vestido com roupas pretas e disparando rajadas de metralhadora nos inimigos em VIVA DJANGO!, o espectador praticamente esquece que quem está ali é Terence Hill, e não Franco Nero.


O roteiro de Ferdinando Baldi e Franco Rossetti passa-se em data ignorada antes da Guerra Civil, portanto antes dos acontecimentos mostrados em "Django". O herói ainda não é um pistoleiro errante e silencioso: no começo do filme, encontramos o jovem Django sempre falante e sorridente, bem casado com a bela Lucy (Angela Minervini) e trabalhando como guarda-costas para um ambicioso político que pretende concorrer ao Senado, David Barry (o alemão Horst Frank, que é praticamente um clone de Klaus Kinski).

Certo dia, Django é designado para ajudar na escolta de uma carruagem que transporta uma fortuna em ouro para outra cidade, e aproveita para levar a esposa na viagem. Só que o carregamento cai numa emboscada armada pela quadrilha de Lucas (George Eastman), que mata todos para roubar o ouro. Somente Django sobrevive ao ataque e, depois de enterrar Lucy e providenciar uma sepultura falsa para ele próprio, foge e passa a viver como anônimo numa pequena cidade.


Cinco anos se passam e o herói agora trabalha como carrasco na tal cidadezinha, sendo o responsável por enforcar em praça pública os ricos fazendeiros e trabalhadores honestos que foram injustamente acusados de crimes pelo próprio Lucas, agora um dos homens mais importantes da região. Só que Django está pondo em prática um ousado plano de vingança: ao invés de executar os inocentes, ele apenas simula suas mortes e depois os recruta para um pequeno exército particular.

O carrasco pretende usar seus "mortos-vivos" para desferir um ataque direto contra o bando de Lucas. Não demora para as coisas se complicarem. Especialmente porque Django nem imagina que o superior de Lucas é o próprio Senador Barry, que usou o ouro roubado anos antes para se eleger, mas não pretende desistir das atividades ilícitas.


Embora possa até ser visto como uma pré-continuação de "Django", e assim seja considerado por muita gente, VIVA DJANGO! não respeita as informações básicas sobre o personagem introduzidas no filme de Corbucci, mesmo tendo um de seus roteiristas (Rossetti) no time. Por exemplo, em "Django" o personagem dizia que sua esposa tinha sido assassinada pelo Major Jackson (Eduardo Fajardo, vilão daquele filme) enquanto ele estava "muito longe", lutando na Guerra Civil.

Aqui, por outro lado, vemos a esposa de Django ser morta por Lucas a mando do Senador Barry, mas não quando o herói está "muito longe" na guerra; pelo contrário, o herói está bem ao lado da mulher no momento em que ela é morta! E se em "Django" o protagonista está em busca do Major Jackson justamente para vingar a esposa assassinada, aqui em VIVA DJANGO! o herói já exerce sua tão sonhada vingança ao eliminar tanto Lucas quanto o mandante do crime.


O pior é que, com um pouco mais de cuidado, o filme poderia realmente passar por uma pré-continuação. Por exemplo, se o personagem de Horst Frank fosse rebatizado "Jackson", e não morresse na conclusão, o espectador poderia assumir que ele é a versão jovem do vilão interpretado por Eduardo Fajardo no filme de Corbucci, e que, com a fuga dele, Django continuou sua busca por vingança durante anos e durante a própria Guerra Civil, quando o antigo político fez carreira no exército e virou major. Não é o que acontece, infelizmente.

Além disso, VIVA DJANGO! tem uma conclusão espetacular que cita "Django" diretamente: cercado pelo Senador Barry num velho cemitério, e em desvantagem numérica diante dos mais de 20 capangas do político, Django desenterra o caixão da sua própria sepultura, aquela que usou para simular a própria morte, e tira do seu interior uma metralhadora semelhante à usada por Franco Nero em "Django", e que usa para exterminar todos os seus rivais (unindo, assim, as duas cenas mais icônicas do filme de Corbucci: o massacre com a metralhadora e o duelo final no cemitério!).


Pena que tanto o diretor Baldi quanto o roteirista Rossetti foram muito manés na última imagem do seu filme: se tivessem concluído VIVA DJANGO! mostrando o herói indo embora arrastando seu caixão com a metralhadora dentro, teriam criado um belíssimo elo com o início do "Django" original!

Mas eu duvido que o espectador da época tivesse muita familiaridade com prequels, ou que realmente se importasse com o fato de os acontecimentos mostrados aqui não baterem com as informações apresentadas no clássico de Corbucci. Provavelmente a maioria assistiu VIVA DJANGO! sem sequer se lembrar destes detalhes sobre o personagem, motivo pelo qual os próprios realizadores nem se preocuparam tanto em ligar as histórias dos dois filmes, concentrando-se na ação.


E ação é o que não falta! O falecido Ferdinando Baldi (1917-2007) era um especialista no assunto, que infelizmente morreu sem o devido reconhecimento (um outro filmaço dele já resenhado aqui no FILMES PARA DOIDOS foi "Blindman", de 1971). VIVA DJANGO! pode até não ter uma contagem de cadáveres tão alta quanto o original, mas se considerarmos que o herói aqui ainda está em início de carreira, a soma de óbitos é bastante expressiva: Django mata mais de 40 rivais, a maior parte deles com sua metralhadora!

Terence Hill está anos-luz distante do palhaço que encarnaria posteriormente, a partir de Trinity, mas protagoniza um momento muito engraçado ao ser rendido por um dos inimigos, que lhe pede para entregar o revólver segurando pela coronha. Fingindo que vai realmente dar a arma para o rival, o herói faz um rápido malabarismo e gira a pistola, disparando-a virada, direto na cara do sujeito!


Além dos tiroteios de costume, há uma cena explosiva (literalmente) em que Django enfrenta toda a quadrilha de Lucas, e que termina num confronto com o próprio Lucas dentro de um saloon em chamas. Percebe-se claramente que são os próprios atores, e não dublês, se esgueirando pelo cenário em chamas e desviando-se por muito pouco de vigas incendiadas que quase caem sobre eles!

O duelo entre Django e Lucas tem um desfecho fantástico: o herói atira no lampião que o vilão segura, incendiando-o instantaneamente. O engraçado é que, neste momento, o ator George Eastman é visivelmente substituído por um dublê, que inclusive perde a peruca ao rolar pelo chão!


Quem viu "Django" diversas vezes certamente vai identificar inúmeras referências ao original. Por exemplo: ao ser aprisionado pelos homens de Lucas, o Django de Terence Hill também tem suas mãos feridas (elas são pisoteadas pelos bandidos), embora não esmagadas tão violentamete quanto as de Franco Nero no filme de Corbucci.

VIVA DJANGO! também tem uma reviravolta um tanto forçada, quando um dos homens salvos da forca por Django, Garcia (José Torres), consegue convencer o exército secreto do herói a roubar um carregamento de ouro que também é visado pelos ladrões. Depois, o mexicano trai os colegas e os mata todos, fugindo sozinho com a fortuna e sendo caçado pelo próprio Django.


Embora seja algo que me incomode sempre que revejo o filme (pois os esforços do herói em criar um exército com condenados salvos da forca acabou resultando em... nada!), podemos interpretar esta cena como uma prévia desilusão de Django com mexicanos, o que de certa forma justificaria porque, no filme de Corbucci, o herói convence a quadrilha de mexicanos a roubar o ouro de um forte apenas para depois traí-los e roubar a fortuna (é o tal do "toma lá, dá cá"!).

A propósito, o filme também traz alguns toques "Leonianos", como a colorida vinheta animada nos créditos iniciais. Nesse caso, convém assistir a versão italiana, já que a bela sequência de créditos foi mutilada na edição norte-americana (justamente a lançada no Brasil em DVD pela Ocean), para a inclusão dos novos créditos em inglês.


Falar em bela trilha sonora num western spaghetti é redundante, mas não posso deixar de citar as duas músicas mais famosas do filme: a bela canção "You'd Better Smile", na voz de Nicola Di Bari, que toca durante os créditos iniciais, e o melancólico tema instrumental "Last Man Standing" aka "Nel Cimitero di Tucson", composto pelos irmãos Gian Piero e Gianfranco Reverberi.

Este último, que é repetido umas 15 vezes ao longo do filme (mas é tão lindo que nunca incomoda), é um dos temas mais conhecidos do gênero, e ficou ainda mais famoso ao ser sampleado pela dupla norte-americana Gnarls Barkley no hit "Crazy", em 2006. Compare as versões originais e sampleada nas janelinhas abaixo:


O original "Nel Cimitero di Tucson"



A versão sampleada, "Crazy"



Nas minhas resenhas anteriores sobre "Django Não Espera... Mata" e "10.000 Dólares para Django", eu lamentei o fato de os atores Ivan Rassimov e Gianni Garko só terem interpretado o personagem uma única vez. Porém quem REALMENTE parece ter sido talhado para personificar Django em uma longa série de filmes é Terence Hill; não só pela sua semelhança física com Franco Nero, mas principalmente porque ele não tenta inventar moda e nem moldar o personagem à sua maneira - o que vemos no filme não é Terence Hill interpretando Django, mas sim Terence Hill interpretando Franco Nero interpretando Django!

Claro que, hoje, fica difícil saber os motivos para o ator não ter sido oficializado como "o novo Django". Deve ter pesado o fato de Terence estar sendo disputado por outros diretores, como Giuseppe Colizzi ("Boot Hill") e Enzo Barboni, para interpretar seus próprios personagens, incluindo o famoso Trinity ("Trinità", no original). Uma pena, porque o ator foi, disparado, o melhor Django depois de Franco Nero, e o único que é realmente parecido com o original.


Considerando que todos os filmes com "Django" no título produzidos depois de 1966 eram ou picaretagens ou aventuras independentes, VIVA DJANGO! tem o grande mérito de ser a única aventura a manter relações bem próximas com o original de Corbucci - além de trazer o "Sub-Django" mais parecido com Franco Nero, não só visualmente, mas também no modus operandi e no uso da metralhadora. É até irônico que esta aventura não-oficial seja muito mais fiel que a continuação oficial de "Django", aquela produzida em 1987!

Portanto, VIVA DJANGO! é simplesmente obrigatório para todos os fãs do personagem e do filme de Corbucci. É uma pena que os realizadores não tenham observado alguns detalhes básicos para poder vendê-lo como prequel oficial do clássico, embora ainda seja possível vê-lo dessa maneira com alguma boa vontade.

E, sinceramente, quem apostaria que o palhaço Terence Hill, lembrado até hoje pelos seus faroestes bem-humorados e comédias-pastelão, acabaria sendo o segundo melhor Django da história do western spaghetti?


Trailer de VIVA DJANGO!



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Preparati la Bara (1968, Itália)
Direção: Ferdinando Baldi
Elenco: Terence Hill, Horst Frank, George Eastman,
José Torres, Pinuccio Ardia, Guido Lollobrigida, Barbara
Simon, Luciano Rossi e Spartaco Conversi.