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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

10.000 DÓLARES PARA DJANGO (1967)


Depois de alguns títulos bem fuleiros, finalmente chega a hora de dar uma animada na nossa MARATONA VIVA DJANGO! com a análise de uma pequena obra-prima, provavelmente o melhor dos "Sotto-Djangos": 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, de Romolo Guerrieri (exibido em nossos cinemas com o título "Django Mata por Dinheiro"). É até uma pena que este filmaço tenha ganhado uma relação bem superficial com a obra de Sergio Corbucci, pois muita gente deve ter deixado de ver pensando algo como "Mais uma porcaria com 'Django' no título", quando não poderia estar mais longe disso.

Os próprios realizadores perceberam que tinham algo muito melhor que um mero "Sub-Django" nas mãos, já que o projeto nasceu com um título enganoso que escancarava a relação (inexistente) com o personagem de Corbucci, "7 Dollari su Django" (em tradução literal, "7 Dólares em Django"), mas no momento do lançamento os distribuidores optaram por mudá-lo para "10.000 Dollari per un Massacro" (ou "10.000 Dólares para um Massacre"). Ou seja: seguiram o caminho inverso dos ambiciosos realizadores da época, que rebatizavam seus faroestes justamente para atrair a atenção dos fãs de "Django". Claro que, no Brasil e em outros países, o nome do personagem voltou para o título...


10.000 DÓLARES PARA DJANGO também marca a estreia do croata Gianni Garko como protagonista de westerns spaghetti. Ele já fazia cinema desde 1958, tendo aparecido em épicos e aventuras "peplum" do período. Também tinha roubado a cena como o excepcional vilão do faroeste "Johnny Texas" (1966), de Alberto Cardone, em que interpretava um psicopata chamado Sartana (!!!), irmão malvado do herói encarnado por Anthony Steffen.

A interpretação de Garko em "Johnny Texas" chamou a atenção dos produtores Mino Loy e Luciano Martino, que resolveram promovê-lo a astro em dois westerns que seriam filmados ao mesmo tempo e com o mesmo elenco: "Pistoleiros em Conflito" ("Per 100,000 Dollari ti Ammazzo"), de Giovanni Fago, e este 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, que ficou pronto e foi lançado antes.


Escrito por Ernesto Gastaldi, Sauro Scavolini, Franco Fogagnolo e pelo produtor Martino, 10.000 DÓLARES PARA DJANGO já começa brilhante: ao invés de apresentar seu personagem principal galopando pelo deserto, ou arrastando um caixão por uma estrada lamacenta, a bela cena inicial mostra o caçador de recompensas Django (Garko) deitado à beira da praia (!!!). Agora, de memória, não consigo lembrar de outro western spaghetti que comece mostrando o mar ao invés da tradicional cidadezinha caindo aos pedaços com ruas de areia...

Por alguns breves minutos, enquanto admira o vaivém das ondas, Djando comenta com o amigo deitado ao seu lado sobre as maravilhas da natureza. É quando a câmera se afasta e descobrimos que o "amigo" na verdade é um cadáver, pertencente ao último fugitivo que o caçador de recompensas matou! "Mas acho que agora seu único interesse é o Paraíso, não é?", pergunta Django ao finado, antes de colocá-lo na sela do cavalo e galopar de volta para a cidade para trocá-lo pelo dinheiro da recompensa, enquanto aparecem os créditos iniciais do filme!


Logo descobrimos que o Django de Garko é um "bounty hunter" com um estrito código de conduta: só pega serviços que valham no mínimo 10.000 dólares. Ele vive num quartinho nos fundos do estúdio do amigo fotógrafo Fidelio (Fidel Gonzáles), e nutre uma paixão platônica por Mijanou, a dona do saloon, interpretada por ninguém menos que Loredana Nusciak (que já havia "pegado" outro Django, o original).

Apresentado o herói, vamos conhecer o vilão: ele é Manuel Vasquez (Claudio Camaso, irmão mais novo e menos famoso de Gian Maria Volonté!), um bandido mexicano fugido da cadeia e que está com a cabeça a prêmio, mas custa "apenas" 2.000 dólares, então não interessa ao ambicioso Django.


Porém as coisas tendem a mudar: Manuel passou alguns anos na cadeia por culpa de um rico fazendeiro da região, Don Mendoza (Herman Reynoso). Para vingar-se, ele invade o rancho e mata todo mundo MENOS o próprio Mendoza, a quem reserva um outro tipo castigo: o bandido foge levando consigo a filha do fazendeiro, a jovem e pura Dolores (Adriana Ambesi). O pai desesperado resolve procurar pelo melhor pistoleiro da região (Django, é claro), e, após acirrada negociação, concorda em lhe oferecer a recompensa de 10.000 dólares pela cabeça de Manuel e resgate da filha.

Como Django acabou de explodir com dinamite o seu último alvo, e por isso não recebeu o dinheiro da recompensa, ele decide aceitar o trabalho para equilibrar as finanças. Deixando para trás a enfurecida Mijanou, para quem tinha prometido aposentar-se, o herói sai na pista do mexicano. Mas quando o encontra, ao invés de matá-lo, é convencido a associar-se a ele num golpe rápido e mais lucrativo: roubar uma carruagem que transporta uma fortuna em ouro. Só que as coisas acabam mal, os bandidos traem Django e, no assalto à carruagem, matam a amada do herói. Começa a tradicional busca de vingança.


10.000 DÓLARES PARA DJANGO difere-se de outros "Sotto-Djangos" bem burocráticos ou ruins (como "Django Atira Primeiro" e "Django Não Espera... Mata") principalmente pela preocupação em criar uma história melhor construída e com personagens que tenham motivações, cheios de camadas, contrastando com aquelas figuras de cartolinas que aparecem em outras imitações do clássico de Corbucci.

Aqui, cada personagem tem características bem definidas, que os tornam mais complexos que os clichês ambulantes das aventuras do gênero: Django usa sempre uma echarpe branca no pescoço, Manuel leva o coldre no ombro e saca o revólver por cima, enquanto o velho Vasquez usa na camisa as estrelas de prata pertencentes aos vários xerifes que matou ao longo de sua carreira criminosa.


Heróis e vilões também têm personalidades bem complexas. Por exemplo, o Django de Garko mais uma vez anda no fio da navalha entre o herói e o anti-herói, como Franco Nero lá em 1966. Por não caçar procurados que valham menos de 10.000 dólares de recompensa, o protagonista não apenas deixa Manuel livre na primeira vez em que lhe pedem para pegá-lo (porque vale muito pouco), como ainda comemora que, com os novos crimes praticados pelo mexicano, a recompensa pela sua cabeça começa a subir ("Acho que você tem potencial", comenta sarcasticamente o "herói" ao corrigir o valor ofertado pelo fugitivo num cartaz de "Procura-se").

Também é genial o fato do Django de Garko dormir num quarto rodeado dos cartazes com as fotos dos Procurados que constituem seu ganha-pão (e que são impressos pelo seu amigo Fidelio), como se esta fosse a única coisa que importasse na sua vida. Sinceramente, não consigo imaginar lar melhor para um caçador de recompensas!


Já o vilão Manuel é um criminoso diferente da média clichezenta dos westerns spaghetti, e especialmente dos "Sotto-Djangos". Embora a princípio sequestre a filha de Mendoza por vingança, só para sacanear o fazendeiro, mais adiante fica claro que o bandido acaba se apaixonando pela garota, e vice-versa, tornando um pouco mais complicada aquela clássica trama do "resgate da mocinha indefesa em perigo".

Os personagens secundários também agregam uma riqueza singular à história: além de Fidelio, o atrapalhado amigo fotógrafo de Django (que é um alívio cômico menos escancarado que outros do gênero), e da apaixonada Mijanou, tem um velhinho engraçadíssimo na quadrilha de Manuel, interpretado por Pinuccio Ardia. O coroa é um grande agourento, pois vive fazendo apostas CONTRA o seu "empregador" Manuel - tipo "Aposto sete dólares que Django vai aparecer e pegar todos nós", justificando assim o título inicial do filme lá na Itália, "7 Dólares em Django".


Outro personagem riquíssimo é o pai de Manuel, Vasquez, um velho bandidão aposentado interpretado (claro) por Fernando Sancho, figurinha carimbada nos faroestes italianos e justamente neste papel (mas que apareceu como um raro personagem bonzinho em "Django Não Espera... Mata"). Vasquez vive com alguns ex-colegas de crime numa cidade-fantasma no meio do deserto, constantemente assolada por ventanias e tempestades de areia, que dão um ar surreal ao cenário.

A exemplo do que o diretor norte-americano Sam Peckinpah faria em vários dos seus filmes (incluindo o clássico "Meu Ódio Será Sua Herança"), o personagem de Sancho representa os "velhos tempos", um Oeste que não existe mais, em que havia "honra" e os papéis de mocinho e bandido eram bem definidos, mas que vê no próprio filho o retrato de uma nova geração rebelde que não respeita mais nada.


Numa cena bem diferente, o aposentado criminoso apresenta a Django sua companheira (Ermelinda De Felice), uma envelhecida dançarina, inchada pelo álcool, com quem ele vive há décadas. Quando Vasquez pede que a mulher dance, e ela atende de maneira desengonçada (o que poderá parecer engraçado para certos públicos), o bandidão faz um comovente discurso sobre a implacável ação do tempo: "Há 20 anos, esta garota virou a cabeça de todos os políticos e ricos fazendeiros. Rosita, 'A Boneca', era como lhe chamavam. Você deveria tê-la visto naquela época. E o jeito que ela dançava, amigo... Vamos! Mostre ao nosso amigo como você dançava!".

Enquanto a dançarina velha e gorducha faz o possível para parecer tão sensual como era na juventude, diante de um ainda maravilhado Sanchez, os outros homens no recinto apreciam o espetáculo com um olhar triste, sem jeito até. E quando Fidelio se atreve a rir da insólita apresentação, Django lhe lança um gélido olhar de reprovação. É uma cena melancólica, do tipo que você não espera ver numa aventura de faroeste.


E toques dramáticos são constantes em 10.000 DÓLARES PARA DJANGO. No momento mais triste do filme, o herói encontra o cadáver da sua amada na carruagem atacada por Manuel e seu bando. Em vários outros "Sotto-Djangos", e mesmo lá na aventura oficial de 1966, Django também teve a esposa morta por diferentes antagonistas. Porém em todos estes filmes, e mesmo no de Corbucci, a perda da amada não passa de um simples recurso narrativo para fazer andar a trama, uma justificativa para motivar a vingança do protagonista.

Não é o caso aqui, onde vemos um Django mais humano e mais sensível, que realmente fica emocionado com a morte da amada, chegando a sofrer e chorar - algo impensável em outras encarnações do herói, como Franco Nero em "Django" ou Anthony Steffen em "Um Homem Chamado Django", que também perdem suas esposas. Assim fica mais fácil entender a guinada no roteiro, em que aquele personagem que só pensava em dinheiro subitamente parte para o "tudo ou nada" em busca da velha e boa vingança.


Toda a cena em que Django encontra o cadáver de Mijanou é exageradamente dramática, mas belíssima em sua decupagem: a amada morta encara o herói com seus olhos inexpressivos, como que acusando-o pelo seu triste destino (ela só pegou a fatídica carruagem porque brigou com Django dias antes, quando este resolveu fazer um "último serviço" caçando Manuel).

A montagem alterna planos de detalhe dos olhos acusadores da falecida (como se estivesse dizendo "Eu estou morta por sua culpa!") e dos olhos com lágrimas do herói, num momento sem igual em toda a filmografia do personagem. Aí fica impossível não entender a dor e a angústia do Django de Garko, já que Mijanou não teria morrido caso ele tivesse prendido (ou matado) Manuel ao invés de "associar-se" a ele para o roubo do ouro. E embora o filme se resolva no tradicional duelo de quem saca mais rápido, não importa quem vai ficar vivo no final, pois a vitória é amarga e todos saem perdendo.


Mesmo que seja uma aventura independente, e não uma continuação, percebe-se certo cuidado dos realizadores para linkar 10.000 DÓLARES PARA DJANGO com o filme original de Corbucci, como, por exemplo, a presença da atriz Loredana Nusciak, ou a associação do herói com bandidos mexicanos para o roubo de uma fortuna em ouro, como acontecia também em "Django". Há quem veja também uma forte influência da "Trilogia do Dólar" de Sergio Leone: a busca de vingança pela morte de Mijanou por um bandido mexicano lembraria "Por uns Dólares a Mais" (1965), em que o personagem de Lee Van Cleef queria vingar-se do vilão de Gian Maria Volonté por ter matado sua irmã; a semelhança do bandido interpretado por Claudio Camaso com o vilão de seu irmão Volonté no western de Leone ajudam a justificar esta relação entre as duas obras.

E se o Django de Garko e Guerrieri escapa da terrível punição de ter suas mãos esmagadas pelos bandidos mexicanos, inflingida ao Django de Franco Nero no original de Sergio Corbucci, por outro lado o herói enfrenta uma outra tortura bastante angustiante, quando é enterrado no deserto pelos mexicanos e fica apenas com a cabeça para fora, sofrendo com o sol forte e a sede!


Gianni Garko está perfeito como um herói mais humano e frágil (ele alegou que ainda não tinha visto o "Django" de Corbucci quando fez este filme), e é uma pena que só tenha interpretado o personagem uma vez. Se comparássemos as aventuras de Django com as de James Bond, 10.000 DÓLARES PARA DJANGO seria "007 A Serviço Secreto de Sua Majestade", e Garko o George Lazenby da série, já que o Bond de Lazenby era menos "super-herói" e coincidentemente também perdeu a mulher que amava.

Eu sempre fui um grande fã de Garko, principalmente por causa da série "Sartana". O ator tem um jeitão de quem não leva a coisa muito a sério, sempre com um olhar de fanfarrão e um sorriso cínico, mesmo quando mata 20 inimigos a tiros (só falta piscar para o espectador, lembrando que é tudo uma grande brincadeira). Ainda comparando com James Bond, Garko me lembra um pouco Roger Moore, que sempre teve uma pegada parecida em suas aventuras como 007. Em 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, o astro consegue equilibrar muito bem sua habitual fanfarronice com a melancolia que o personagem exige. É, disparado, o terceiro melhor Django depois de Franco Nero, perdendo apenas para Terence Hill em "Viva Django!".


Na época de 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, por ainda estar sendo "lançado" como protagonista, Garko foi obrigado pelos produtores a adotar um pseudônimo americanizado, como era comum nos westerns italianos daquele período. Assim, ele aparece nos créditos iniciais como "Gary Hudson", uma homenagem aos astros norte-americanos Gary Cooper e Rock Hudson. A partir da série "Sartana" (cujo primeiro filme é de 1968), o ator passou a assinar como "John Garko", e assim ficou internacionalmente conhecido.

Em sua longa carreira como herói no western spaghetti, Garko às vezes foi chamado para tentar dar mais personalidade a outros heróis, criados para rivalizar com os populares Django, Sartana e Trinity. Ele foi, por exemplo, Camposanto ("Cemitério", em italiano) no filme "Ainda me Chamam de Camposanto" (1971), que não vingou e não virou série, e Espírito Santo em "Espírito Santo, O Justiceiro" (1972), personagem que rendeu outras três aventuras, mas com Vassili Karis no lugar de Garko.


Já o diretor Guerrieri nunca foi tão popular quanto seu astro, apesar deste trabalho acima da média. 10.000 DÓLARES PARA DJANGO foi o quarto filme dirigido por Romolo, que é respectivamente irmão e tio dos também cineastas Marino Girolami ("Zombie Holocaust") e Enzo G. Castellari ("Vou, Mato e Volto"), e quem sabe por isso acabou ficando em segundo plano.

Ele dirigiu mais alguns poucos filmes, como o giallo "O Doce Corpo de Deborah" (1968) e a aventura pós-apocalíptica "O Executor Final" (1984), mas sempre com resultados bem distantes deste seu único "Sotto-Django". Atualmente, Guerrieri trabalha como roteirista da TV italiana.


Vale destacar que pelo menos quatro futuros diretores trabalharam nos bastidores de 10.000 DÓLARES PARA DJANGO. Um é Sergio Martino, irmão do produtor Luciano Martino, aqui creditado como diretor de produção. Ele estreou atrás das câmeras dois anos depois, em 1969, e tem uma filmografia bem eclética, com gialli ("Torso", "A Cauda do Escorpião"), aventuras baratas de ficção científica ("2019 - After the Fall of New York" e "Keruak - O Exterminador de Aço") e cultuados filmes de horror ("A Ilha dos Homens-Peixe" e "A Montanha dos Canibais").

O segundo é Tonino Ricci, que trabalhou como assistente do diretor e pelo jeito não aprendeu muita coisa, a julgar pela quantidade de divertidíssimas tralhas que o sujeito passaria a dirigir por conta própria, também a partir de 1969. Sua obra mais popular, inclusive para os brasileiros, é o terror trash "Pânico" (1976), mas Ricci dirigiu ainda uma hilária cópia de "Conan" ("Thor, o Conquistador") e paupérrimos fimes de horror sobre o Triângulo das Bermudas (o inacreditável "Bermude: La Fossa Maledetta" e "Encuentro en el Abismo").

Os outros dois são o assistente de câmera Pasquale Fanetti - que, com o pseudônimo "Frank DeNiro", virou diretor de filmes pornográficos nas décadas de 80 e 90 -, e o secretário de produção Michele Massimo Tarantini, aqui em um dos seus primeiros trabalhos com cinema, antes de dirigir "clássicos" como "Poliziotti Violenti" e "Perdidos no Vale dos Dinossauros"! Em resumo, é muito talento para um filme só, o que talvez explique o resultado muito acima da média!


10.000 DÓLARES PARA DJANGO foi uma das mais nobres e interessantes variações produzidas em cima da obra de Sergio Corbucci, e percebe-se o trabalho de todos os envolvidos para fazer algo além de uma aventura de rotina só para faturar com o nome do personagem. O mérito é principalmente do ótimo roteiro, que foge do lugar comum do gênero, e onde se percebe a valiosa contribuição de Ernesto Gastaldi, um dos grandes roteiristas italianos de todos os tempos.

É até uma pena que o filme tenha ficado associado às demais cópias de "Django", porque muitas delas são tão ruins que esta bela obra deve ter sido mal-interpretada como picaretagem de má qualidade, quando na verdade é um dos raros "Sotto-Djangos" a buscar uma abordagem original, ao invés de só tentar lucrar com um título enganoso.


Por isso, talvez seja melhor referir-se a ele pelo título italiano, "10.000 Dollari per un Massacro". Porque perto de outras bobagens produzidas com o nome "Django" no título, incluindo a única continuação oficial do clássico de Corbucci (o péssimo "Django, A Volta do Vingador"), o filme de Guerrieri é praticamente um "Cidadão Kane" - e uma pérola a ser (re)descoberta.

PS: Para fechar o conjunto com chave de ouro, a trilha sonora da cantora, compositora e pianista italiana Nora Orlandi é fantástica, e não deixa a menor saudade de Ennio Morricone, Bruno Nicolai, Riz Ortolani e outros mestres que musicavam os westerns spaghetti do período. Infelizmente, a trilha completa não está disponível no YouTube para ser apreciada, mas dê uma conferida na linda música-tema "Basta Così", cantada por Pier Giorgio Farina, clicando neste link (logo logo o Tarantino usa esta canção num próximo filme dele!).


Trailer de 10.000 DÓLARES PARA DJANGO



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10.000 Dollari Per Un Massacro (1967, Itália)
Direção: Romolo Guerrieri
Elenco: Gianni Garko, Claudio Camaso, Loredana Nusciak,
Fernando Sancho, Fidel Gonzáles, Adriana Ambesi, Franco
Lantieri, Pinuccio Ardia e Franco Bettella.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O FILHO DE DJANGO (1967)


De todos os "Sotto-Djangos" produzidos depois da estreia do filme de Sergio Corbucci, O FILHO DE DJANGO, de Osvaldo Civirani, foi o que mais facilmente resolveu a questão "Como fazer uma aventura de Django sem Franco Nero no elenco?". Conforme o título já entrega, seus realizadores optaram por uma solução bem simples: ao invés de colocar outro ator para interpretar o personagem e torcer para dar certo, como fizeram tantos outros produtores naqueles tempos, eles apelaram para a linhagem sanguínea do herói e apresentaram ao mundo "o filho de Django"!

Esta é uma saída muito comum no mundo do cinema quando você quer fazer uma "continuação" de um filme de sucesso mas já não pode contar com o astro do original, esteja ele morto - como aconteceu em "O Filho do Capitão Blood" (1962) e "O Filho da Pantera Cor-de-Rosa" (1993) -, ou indisponível por um cachê mais baixo - como aconteceu em produções tão díspares quanto "Son of Zorro" (1947) e "O Filho do Máskara" (2005).


O problema, aqui neste caso em questão, é a forma como o filho do famosão foi inserido na história. Ao invés de seguir pelo caminho mais lógico - tipo o sucessor de Django assumindo o posto do pai quando este se aposenta depois de uma vida de aventuras -, o roteiro de Alessandro Ferraù, Tito Carpi e do próprio diretor Civirani prefere o caminho mais polêmico e ofensivo para os fãs: Django foi assassinado (!!!), e resta ao seu filho sair em busca de vingança.

Opa, opa, opa, como é que é?!? Então quer dizer que aquele pistoleiro invencível e casca-grossa que enfrentou os 40 homens do Major Jackson sozinho, armado "apenas" com uma metralhadora, foi assassinado? E como aconteceu isso? Em algum duelo contra um pistoleiro mais rápido que ele? Numa emboscada planejada pelo dobro de homens da outra vez (80, ou 100 quem sabe), quando ele estava sem sua metralhadora por perto, ou ficou sem munição? Que nada, amiguinhos: acreditem se quiser, mas no roteiro de Ferraù, Carpi e Civirani - estes hereges! -, o velho Django foi morto à traição, com tiros nas costas, sem sequer uma honrada saída de cena.


Claro que, por esta não ser uma continuação "oficial" de "Django", podemos respirar aliviados e imaginar que O FILHO DE DJANGO na verdade é sequência de algum dos outros "Sotto-Djangos" anteriores. Neste caso, o personagem-título não seria um rebento de Franco Nero, mas sim, quem sabe, do Django Foster de "Django Não Espera... Mata"? Ou do Glenn Garvin que os mexicanos chamavam de Django, de "Django Atira Primeiro"? Os caras nem eram grande coisa mesmo, e eu não me espantaria se morressem com tiros nas costas mais cedo ou mais tarde...

(Por sinal, o IMDB até relaciona O FILHO DE DJANGO como continuação de "Django Atira Primeiro", mas não faço ideia de onde tiraram tal informação, considerando que os filmes sequer foram feitos pelos mesmos realizadores! E outra: o personagem aqui usa uma luvinha preta de couro numa das mãos, igual ao Django de Ivan Rassimov em "Django Não Espera... Mata". Coincidência ou evidência da identidade do verdadeiro pai?)


Ok, se concordamos que foi um dos Djangos genéricos que foi morto pelas costas, porque o oficial é muito fodão para acabar assim, vamos esquecer essa história toda e conhecer o tal filho do herói: seu nome é Jeff Tracy (ora, você não queria que ele se chamasse "Django Jr.", né?), interpretado por Gabriele Tinti.

Jeff ainda era uma criança quando viu seu pai ser morto à traição. Conseguiu escapar da morte, mas o assassino em fuga esmagou uma de suas mãos ao pisoteá-la (sabe como é, mão machucada é um velho problema de família...). Aí o garoto cresceu alimentando o desejo de vingança, mas só tem uma pista sobre o autor do pérfido crime: seu finado pai gritou o nome "Thompson" antes de tomar os pipocos.


Já adulto e supostamente tão rápido no gatilho como o pai, o filho de Django parte em sua missão de vingança que o leva até Topeka City, uma cidadezinha que enfrenta seus próprios problemas: dois grandes fazendeiros rivais estão envolvidos numa guerra sangrenta, e sempre acaba sobrando tiros para os moradores inocentes do lugar. Ou seja, a velha historinha de cidade dividida entre duas quadrilhas, outra citação ao "Django" original (ou, quem sabe, a "Por um Punhado de Dòlares", ou "Yojimbo"!).

Nosso herói descobre que um dos rancheiros é Ferguson (Daniele Vargas, tão popular no papel de vilão no cinema italiano quanto José Lewgoy no cinema brasileiro); e o outro, adivinhe, se chama Thompson (Pedro Sanchez), e no passado foi um grande amigo de Django. "Muy amigo", pelo jeito, considerando que seu nome foi o último que Django pronunciou antes de ser morto covardemente.


Mas é claro que a coisa não é tão simples quanto parece. Investigando o caso, Jeff descobre que tudo pode ter sido um plano para incriminar o pobre Thompson, e o culpado seria alguém bem mais poderoso. Por sorte, o filho de Django pode contar com uma ajudinha inesperada: a mira infalível do sacerdote da cidade, o Padre Fleming (Guy Madison!), que no passado foi um famoso pistoleiro e também um grande amigo do falecido Django!

O FILHO DE DJANGO termina com Jeff e o padre levando o inferno a Topeka City, e a vingança do personagem-título inclui um barulhento tiroteio no saloon, onde quase todos os coadjuvantes do filme (entre eles Luciano Rossi, figurinha carimbada nas produções italianas do gênero) perdem a vida. Ironicamente, quando se trata de dar o troco no próprio assassino do pai, o desfecho do filme é tão covarde quanto o ato de matar Django pelas costas, e indigno de alguém que é filho do famoso pistoleiro. Talvez ele tenha puxado pela mãe...


Vingança é um dos temas mais recorrentes no western spaghetti. O próprio Django do Corbucci queria vingar a morte da esposa, lembra? E por mais que o argumento "garotinho que vê o pai ser morto e cresce alimentando o desejo de vingar-se do assassino" seja um dos mais velhos e batidos do gênero, bons diretores geralmente conseguem fazer milagres com o material.

A prova é o excelente "A Morte Anda a Cavalo", de Giulio Petroni, cuja trama é bem parecida - até pensei que O FILHO DE DJANGO fosse cópia desse, mas ambos foram lançados no mesmo ano (1967), e "A Morte Anda a Cavalo" chegou aos cinemas DEPOIS! Só que enquanto Petroni acertou em cheio em todos os departamentos (elenco, roteiro, fotografia, trilha sonora), e entregou uma pequena obra-prima, Civirani, aqui, não consegue fugir do lugar comum.


A trama é burocrática e demora muito para chegar ao que interessa. Assim como o anterior "Django Não Espera... Mata", de Edoardo Mulargia, há uma infinidade de personagens secundários que ganham valioso tempo de cena sem necessidade, e uma "revelação" sobre a real identidade do assassino de Django que sequer é surpreendente, já que todo mundo espera que Daniele Vargas assuma seu rotineiro papel de vilão!

Não contente em gastar um tempão com bobagens, o diretor ainda consegue a façanha de interromper a narrativa com um longo e desnecessário número musical no saloon, em cena que poderia ter ficado no chão da sala de edição sem pensar duas vezes!


Como vários outros diretores de western spaghetti, o veterano Civirani (1917-2008) também começou sua carreira no "peplum" (aquelas aventuras baratas com gladiadores), dirigindo, entre outros, "Hércules Contra o Filho do Sol" (1964). O FILHO DE DJANGO é seu terceiro western, e provavelmente a obra mais conhecida de uma filmografia sem grandes destaques.

Ironicamente, o velho Osvaldo era um respeitado fotógrafo antes de começar a dirigir seus próprios filmes: entre as décadas de 40 e começo dos anos 1960, ele trabalhou fazendo still (fotos de making-of e para divulgação) no set de grandes mestres do cinema italiano, como Luchino Visconti (em "Obsessão"), Federico Fellini (em "Abismo de um Sonho" e "Mulheres e Luzes") e Roberto Rossellini (em "Francesco, Giullare di Dio"). Por isso, é impossível não se decepcionar com um filme feio como este, mal-filmado e mal-fotografado (Civirani também assina como diretor de fotografia), confirmando que ele não aprendeu nada trabalhando com os grandes mestres.


O FILHO DE DJANGO também marca a única participação do finado Gabriele Tinti (1932-1991) num western spaghetti. Nome popular no cinema exploitation italiano (embora tenha trabalhado até com Glauber Rocha e René Clément em sua longa carreira), Tinti hoje é mais lembrado pela cacetada de filmes que fez com Joe D'Amato, e por ter sido o marido da deusa Laura Gemser (a "Black Emanuelle").

E justamente por ter se tornado um ator "cult", é uma pena que o único faroeste de Tinti seja um trabalho convencional como este. Interpretando o filho de um personagem icônico como Django, o ator não tem a mínima presença de cena e parece cambalear pelo filme como um sonâmbulo. Nem mesmo o figurino ajuda, pois na maior parte do tempo o herói veste um sobretudo de pele (?!?) que lhe dá mais aparência de hippie do que de pistoleiro implacável.


Enfim, o astro funcionou tão mal no filme que a publicidade de O FILHO DE DJANGO na época começou a destacar mais a presença do ator norte-americano Guy Madison, que é o parceiro de Jeff na trama, e que nem aparece tanto tempo assim. Popular nos faroestes do seu país de origem, Madison foi "importado" para a Itália ainda na época dos filmes de gladiadores, e logo estava fazendo sucesso nos bangue-bangues italianos, como "Texas 1867", de Enzo G. Castellari.

Pois o ianque realmente é a melhor coisa do filme: embora seu padre pistoleiro apareça pouco, e na maior parte das cenas se limite a dar lições de moral no herói, Madison rouba os holofotes no momento em que pega suas armas e sai pelas ruas da cidadezinha passando fogo nos bandidos, e ainda vestido de sacerdote! Padres-matadores virariam um clichê nas décadas seguintes (recentemente, tivemos Cheech Marin neste papel em "Machete", de Robert Rodriguez), e o próprio Madison voltaria à pele de padre e pistoleiro no posterior e superior "Reverendo Colt" (1970), de León Klimovsky.
 

Ainda que O FILHO DE DJANGO seja tão burocrático quanto os dois outros "Sotto-Djangos" anteriores ("Django Atira Primeiro" e "Django Não Espera... Mata"), pelo menos o herói interpretado por Tinti ganha algumas poucas chances de demonstrar certa habilidade na pistola, que é o mínimo que se espera de alguém com o DNA de Django. Numa delas, ele dá o tradicional tiro que arranca o revólver da mão de um rival, mas em seguida dá outros tiros para manter a arma rodopiando duas ou três vezes no ar! Esse é o tipo de truque que eu espero de um cara com pai tão ilustre!

Já no tiroteio final, Jeff parece não sentir falta da metralhadora que era instrumento de trabalho do pai, e mata uns 20 vilões no tiroteio no saloon. Nesta cena, chama a atenção o realismo dos disparos que estilhaçam o balcão que protege o herói e as garrafas nas prateleiras. Em entrevista publicada no "Dizionario del Western all'italiana", de Marco Giusti, Civirani explicou o porquê do realismo: ele mesmo usou revólver e balas de verdade para atirar nos copos e garrafas!


No fim, a melhor coisa do filme é a música-tema, "They Called Him Django", composta (e cantada?) por Piero Umiliani, tão boa que merecia estar numa aventura melhor. Menos mal que neste caso a justiça foi feita: ela seria reaproveitada na trilha de "Django x Sartana - Duelo Mortal" (1970), de Pasquale Squitieri, um "Sotto-Django" muito superior a este aqui.

O único problema é que a letra da canção é diretamente inspirada na trama de O FILHO DE DJANGO, e lá pelas tantas anuncia: "They call him Django / A coward gun him down / I won't rest easy / Until that coward is found (...) I kill for Django / And for his memory / He was my father / A man of high degree". Portanto, sua reutilização num filme em que Django ESTÁ VIVO E NÃO TEM FILHOS, como o de Squitieri, acaba ficando meio estranha...


Embora seja perfeitamente assistível, é difícil não pensar em O FILHO DE DJANGO como um desperdício, e uma péssima desculpa para se fazer um filme com o nome do personagem. Mal-dirigido e sem maiores atrativos, também é um faroeste burocrático e esquecível.

Por isso, apesar do título, eu confesso que esperaria mais por uma nova aventura do padre-pistoleiro de Guy Madison do que por uma suposta volta do tal "filho de Django", em alguma futura sequência (que, felizmente, jamais foi produzida). Porque o tal Jeff Tracy definitivamente não faz jus ao pai que tem/teve, e, de tão molenga, provavelmente morrerá sem demora num tiroteio próximo, privando-nos assim de conhecer "O Neto de Django"!


PS 1: Nos EUA, O FILHO DE DJANGO foi distribuído com dois títulos alternativos: "Return of Django", para o espectador pensar que veria o herói original ao invés do seu filho, e "Vengeance is a Colt 45", eliminando qualquer referência de parentesco com Django, o que me parece muito mais adequado e respeitoso. Inclusive esta versão chamada "Vengeance is a Colt 45" parece também ter uma montagem diferente, iniciando com a cena do assassinato do pai de Jeff, que na versão italiana só é mostrada lá pelo meio do filme em flashback. Não consegui confirmar a informação, mas várias resenhas em inglês alegam que a história começa com a morte do pai, por isso deixo a dúvida no ar (se alguém tiver mais informações sobre diferentes montagens da obra, por favor entre em contato, pois nem o IMDB esclarece a questão).

PS 2: O famigerado Demofilo Fidani, que já foi chamado de "Ed Wood do western spaghetti", assinou a cenografia do filme, o que explica algumas coisas (tipo a pobreza dos cenários).


Ouça a música-tema "They Call Him Django"



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Il Figlio di Django (1967, Itália)
Direção: Osvaldo Civirani
Elenco: Gabriele Tinti, Guy Madison, Ingrid Schoeller,
Daniele Vargas, Ignazio Spalla, Andrea Scotti, Luciano
Rossi, Roberto Messina e John Bartha.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DJANGO NÃO ESPERA... MATA (1967)


O italiano Edoardo Mulargia deve ter gostado muito do "Django" de Sergio Corbucci. Ou então - o que é mais provável - era malandro e sabia que podia faturar uma bela graninha em cima do sucesso deste filme. Num período de quatro anos, entre 1967 e 1971, Mulargia dirigiu (e às vezes escreveu) quatro faroestes diretamente relacionados com "Django": dois traziam novos personagens com nomes bem parecidos, como "Cjamango - O Vingador" (1967) e "Shango - A Pistola Infalível" (1970), enquanto os outros dois eram assumidamente aventuras não-oficiais do personagem: "Um Homem Chamado Django" (1971) e o alvo da nossa análise de hoje, DJANGO NÃO ESPERA... MATA (1967).

Trata-se do último filme da parceria entre Mulargia e Vincenzo Musolino, que produziu e escreveu os três westerns anteriores de Edoardo ("Só Contra Todos", "Vá com Deus, Gringo" e "Cjamango - O Vingador"). O problema é que se Mulargia não era exatamente o melhor dos diretores, tampouco Musolino era o mais inspirado dos roteiristas. Nos sites sobre western spaghetti, há quem compare estes quatro filmes da dupla com os trabalhos do notório Ed Wood, tal a ruindade e a quantidade de problemas graves, tanto técnicos quanto narrativos.


Se "Django Atira Primeiro", de Alberto De Martino, ainda era um western qualquer que foi adaptado para virar aventura de Django, neste aqui o personagem já tem mais em comum com Franco Nero no filme de Corbucci. Em sua nova encarnação, Django é interpretado por Ivan Rassimov, que já havia sido Cjamango sob o comando de Mulargia e Musolino.

Este "novo" Django não tem caixão nem metralhadora, mas em compensação (?) tem um sobrenome (Foster) e uma família, constituída por pai, tio e a irmã Mary (que, numa bela sacada dos realizadores, é interpretada por Rada Rassimov, irmã de Ivan na vida real). O único problema é que, num western spaghetti, ter família geralmente envolve luto, porque é claro que alguém vai aprontar alguma com os familiares do herói para que ele possa entrar em ação e vingar-se.


No caso aqui, quem se dá mal é o patriarca Foster (Gino Turini), um criador de cavalos que comete o grande erro de envolver-se com um grupo de bandoleiros mexicanos (talvez numa referência aos vilões chicanos de "Django"). O que era para ser uma negociação comum se transforma numa chacina quando o líder do grupo, Navarro (César Ojinaga), mata Papai Foster e rouba 10.000 dólares do finado.

Para o azar de Navarro, o filho da vítima, Django Foster, acabou de voltar à cidade. Quando chega no rancho da família e descobre sobre o assassinato do pai, nosso herói jura vingança e sai no encalço dos bandidos. É quando a história começa a se complicar...


Acontece que o filho de Navarro, Nico (Alfredo Rizzo), decide passar a perna no próprio pai e fugir com as 10 mil doletas, escondendo-se numa pequena vila mexicana. Navarro segue o fujão até lá, mas o encontra morto. Para piorar, o dinheiro sumiu novamente, fazendo valer aquela máxima popular de que "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão".

Furioso, Navarro e seus homens começam a matar aleatoriamente os pobres moradores da vila, para descarregar a raiva pela morte do filho e pelo roubo do dinheiro. É quando aparece o próprio Django e enche os mexicanos de chumbo. Pronto: com Navarro e seus homens mortos, o herói completou sua vingança em tempo recorde e pode voltar para o rancho e descansar com o que restou da sua família, certo? Errado!


Acontece que isso tudo acontece nos primeiros 20 minutos de DJANGO NÃO ESPERA... MATA, e o filme não é um curta-metragem; portanto, ainda tem pelo menos mais uma hora e uns quebrados pela frente! E é claro que Django não vai ficar satisfeito com uma vingancinha tão mixuruca enquanto não reaver também a grana originalmente roubada do seu pai (e, desde então, roubada mais duas vezes... que confusão!).

O herói irá descobrir que quem matou Nico para roubar-lhe o dinheiro foi um espertinho chamado Gray (o brasileiro Celso Faria!), que pretende aproveitar a fortuna ao lado da namorada Judy (Marisa Traversi). Mas Django descobre o plano, encontra o ladrãozinho e mata-o num duelo, recuperando o dinheiro da família. Vingança consumada, dinheiro recuperado, fim do filme, certo? Errado! Acredite se quiser, ainda estamos nos quarenta e poucos do primeiro tempo!


Acontece que Navarro, o bandido mexicano que roubou a grana em primeiro lugar lá no começo do filme e depois foi morto por Django (ainda lembra de tudo isso?), trabalhava originalmente para um rico e poderoso fazendeiro da região, Don Alvarez (Gino Buzzanca), que não pretende desistir dos cobiçados 10.000 dólares que julga serem seus de direito.

Por isso, o figurão contrata o melhor pistoleiro daquelas bandas, Hondo (interpretado pelo próprio roteirista-produtor Musolino, este da imagem abaixo), para que sequestre a irmã de Django, obrigando-o a trocar a grana pela garota. Infelizmente, no processo de sequestrar a garota, Hondo também acaba matando o tio do herói, dando-lhe um duplo motivo para se vingar!


Se lendo assim já parece confuso, saiba que ao resumir a trama eu tentei dar um mínimo de sentido e coerência ao que acontece no filme, pois a narrativa de DJANGO NÃO ESPERA... MATA é incompreensível: são tantos personagens entrando e saindo de cena sem dizer ao que vieram que eu passei a maior parte da trama boiando, até finalmente desistir de entender; só fui entender minimamente a história ao ler algumas resenhas sobre o filme depois, e então reassisti-lo com outros olhos.

Mas, mesmo usando um "manual de instruções" como eu fiz, a trama continua desnecessariamente complicada e enrolada, com um excesso de traições e personagens se enganando e roubando o dinheiro uns dos outros. Em resumo, só para dar uma ideia de como o roteiro é estupidamente complexo: Navarro mata o pai de Django e rouba seu dinheiro; o filho de Navarro, Nico, rouba o dinheiro e foge; Gray mata Nico e rouba o dinheiro uma terceira vez; Django mata Navarro e depois mata Gray, recuperando o dinheiro; Don Alvarez manda Hondo sequestrar a irmã de Django para roubar o dinheiro pela... sei lá, quarta vez?


Cada uma dessas situações já renderia seu próprio filme, então imagine ver tantas voltas e reviravoltas numa mesma aventura com menos de 90 minutos. E sem sequer se preocupar em explicar ao espectador quem são aqueles personagens todos ou suas intenções. Complicado, hein?

Alguns críticos escreveram que o roteiro parece ter sido escrito numa noite para filmar no dia seguinte, mas eu já acho que nem havia roteiro, e as cenas foram sendo improvisadas na hora da filmagem mesmo! O fato de Django "vingar-se" do assassino do pai (o mexicano Navarro) ainda nos primeiros 20 minutos também estraga aquela expectativa pelo grande duelo final. E, com tantos vilões em cena, nem sequer existe um único bandidão memorável para o espectador ficar de olho.


Embora Django Foster seja um pistoleiro bem mais próximo do Django de Franco Nero do que Glenn Saxson em "Django Atira Primeiro", as semelhanças não são lá tão expressivas. Além de ter família e uma irmã, coisas que faltavam ao herói "forever alone" do filme de Corbucci, o Django de Mulargia e Musolino também tem um sidekick, um mexicano chamado Barrica (interpretado por Ignazio Spalla).

Pelo menos o carrancudo Rassimov está ótimo como Django genérico, e acertou até no tom misterioso/silencioso do personagem - embora a ridícula luvinha de couro que ele usa numa das mãos nunca se justifique. Coincidentemente, o ator também havia integrado o elenco de "A Bíblia", de John Huston, de onde saiu o Django oficial, Franco Nero.


É uma pena que o filme seja bem ruinzinho e não lhe faça justiça, e que essa seja sua única interpretação do herói (adoraria vê-lo interpretar Django em mãos mais habilidosas, de um Ferdinando Baldi ou Enzo G. Castellari, por exemplo). Quer dizer, única interpretação oficialmente, porque se considerarmos também as redublagens e títulos em outros países (e eu, pelo menos, não considero), este seria o segundo dos quatro "Djangos" de Rassimov!

Acontece que "Cjamango - O Vingador" foi lançado como "Django e as Cruzes na Areia Sangrenta" na Alemanha, onde o pistoleiro Cjamango também foi renomeado Django (ora, o nome já era bem parecido mesmo!); "Atirar para Viver" (1968), de Sergio Garrone, virou "Façam Suas Preces... Django Atira!" para o público alemão (mesmo que o personagem de Rassimov se chamasse Johnny Dall na versão original); por fim, "Sua Lei Era a Vingança" (1969), de Mario Siciliano, foi rebatizado "Django Não Reza" na França (Rassimov originalmente interpretava um herói chamado Daniel neste filme).


Os créditos iniciais de DJANGO NÃO ESPERA... MATA identificam Ivan com um nome artístico americanizado, "Sean Todd", que ele usou também em seus outros faroestes, como era comum aos atores da época para se passarem por "astros norte-americanos". O engraçado é que eu sempre achei que "Ivan Rassimov" também fosse um nome artístico (referência ao escritor russo Ivan Assimov, talvez). Bem, não deixa de ser, já que o nome de batismo deste italiano de origem sérvia era Ivan Djerassimovic!

Rassimov teve uma longa carreira no cinema italiano, sendo bastante lembrado pelos fãs de horror por ter aparecido em três títulos do notório ciclo de filmes sobre canibais: "The Man from the Deep River" (1972), "O Último Mundo dos Canibais" (1977) e "Os Vivos Serão Devorados" (1980), o primeiro e o último dirigidos por Umberto Lenzi, e o segundo por Ruggero Deodato.


O restante do elenco não tem muita chance para mostrar serviço, graças à direção inepta de Mulargia (creditado como "Edward G. Muller") e ao roteiro bisonho do produtor Musolino (que assina com o pseudônimo "Glenn Vincent Davis"). E olha que se o filme não fosse tão enrolado e tão chato, poderia ter algum valor como comédia involuntária, como acontece com as obras do igualmente ruim Demofilo Fidani (logo chegaremos a elas).

Motivos para rir de DJANGO NÃO ESPERA... MATA não faltam: além da pobreza geral da produção (cenários e figurinos parecem ter sido improvisados no próprio dia da filmagem), e da incompetência geral de todos os envolvidos na parte técnica, há um problema crônico com a iluminação, que ganha contornos surreais em diversas cenas. Repare, por exemplo, na imagem abaixo, que mostra Django caminhando à noite e sendo diretamente iluminado pela luz de um refletor!


Outro detalhe hilário envolvendo a iluminação é que ela diversas vezes entrega a utilização de cenários. O rancho da família Foster, por exemplo, é um cenário tão óbvio, sem teto ou paredes, que em várias das internas filmadas ali vemos a luz do sol incidir diretamente sobre os personagens, vinda por cima e pelos lados, comprovando que não há telhado na casa, como você pode conferir nas imagens abaixo.

O leitor do FILMES PARA DOIDOS sabe que eu não costumo me deter a estes aspectos tão técnicos, mas é que o problema nesse caso é tão grave que fica impossível não rir da incompetência geral, e é incrível que o diretor não tenha percebido a luz estourando enquanto filmava estas cenas - ou então percebeu, mas achou que o filme já era tão ruim que ninguém iria ligar para mais este "detalhe"!


DJANGO NÃO ESPERA... MATA também é fraquinho no quesito ação. Os duelos e tiroteios são bem básicos, e a narrativa se resume a mostrar Rassimov chegando (geralmente de lugar nenhum), encontrando um grupo aleatório de inimigos e sacando seu revólver mais rápido para matar todos os rivais, não importando seu número. Depois da terceira ou quarta vez que isso acontece, fica redundante e provoca até bocejos.

Não há nada sequer próximo do massacre com metralhadora em "Django", mas pelo menos a conclusão envolve um gigantesco tiroteio na fazenda de Don Alvarez, com farta contagem de cadáveres, no estilo do que Lucio Fulci tinha feito no ano anterior em "Tempo de Massacre" (1966) - com destaque para o improvisado "colete à prova de balas" usado por Barrica, que só pode ser citação a "Por um Punhado de Dólares".


Enfim, deve ter um bom filme em algum lugar de DJANGO NÃO ESPERA... MATA, mas o roteiro incompreensível e as limitações da produção comprometem bastante o resultado final. E é uma pena, porque Rassimov poderia ter sido um ótimo Django caso contasse com diretor e roteiro melhores.

A parceria entre Mulargia e Musolino pode ter encerrado aqui, mas ambos seguiram seu próprio caminho. O produtor resolveu escrever e dirigir seus próprios filmes, talvez por ter percebido a inépcia do seu parceiro habitual. Ele mesmo assinou os westerns "Peça Perdão a Deus, Nunca a Mim" (1968) e "Quintana", este lançado no mesmo ano em que Musolino faleceu, 1969.

Já Mulargia deve ter aprendido algumas coisas com DJANGO NÃO ESPERA... MATA, considerando que a sua outra aventura não-oficial do personagem, o posterior "Um Homem Chamado Django" (estrelado por Anthony Steffen), é infinitamente superior e muito mais divertido, conforme veremos mais adiante em nossa MARATONA VIVA DJANGO!.


Cena de DJANGO NÃO ESPERA... MATA



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Non Aspettare, Django... Spara 

(1967, Itália)
Direção: Edoardo Mulargia
Elenco: Ivan Rassimov, Rada Rassimov, Ignazio Spalla,
Vincenzo Musolino, Gino Buzzanca, Franco Pesce, Celso
Faria, Alfredo Rizzo e Marisa Traversi.