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quarta-feira, 16 de março de 2011

EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE (1986)


(Esta resenha é dedicada ao grande cinéfilo Hugo Malavolta, leitor contumaz do blog que foi iniciado, segunda-feira, no estranho mundo de Sady Baby, e justamente com esse filme aqui!)

Segundo o jornalista Gio Mendes, um dos seus biógrafos oficiais, o cineasta brasileiro maldito Sady Baby nunca ouviu falar no Marquês de Sade. Ironicamente, o célebre escritor do século 18 cuja obra cunhou a palavra "sadismo" e o ex-jogador de futebol gaúcho que virou diretor de cinema pornô têm muito, mas muito em comum.

Como Sade, Sady (nome de batismo: Sadi Plauth) também tem uma obra cult marcada pelo sexo e pela violência, em que o prazer anda lado a lado com a dor, a humilhação e o sofrimento do parceiro. O próprio cineasta, estrelando seus filmes, costuma interpretar um personagem sádico (ou, nesse caso, "sádyco"), geralmente um perigoso bandido ou vingador, que estupra as mulheres, pratica assassinatos violentos ou força pessoas a fazer sexo contra a vontade.


O cinema de Sady Baby é apenas para estômagos fortes. Em "A Máfia Sexual", por exemplo, ele obriga um casal de irmãos a fazer sexo sob a mira do seu revólver; em "No Calor do Buraco", mata uma garota, faz sexo com o cadáver e fala, diretamente para a câmera: "Dar uma trepada com uma pessoa morta é uma sensação arrepiante!".

É por isso que eu falo para os cinéfilos que babam ovo de supostos "filmes extremos" recentes, como "Irreversível" e "A Serbian Film": assistam as obras do Sady Baby que ele já fez quase tudo antes. E pior.


Porém, de tão fragmentados, absurdos, inesperados, extremos e amalucados, os filmes de Sady acabaram se tornando algo difícil de definir - algo numa fronteira bastante tênue entre a completa loucura e uma genialidade bem particular. Suas obras podem ser consideradas FILMES PARA DOIDOS por excelência, com cadeira cativa nesse blog (e se não aparecem por aqui com frequência, é justamente pela dificuldade de escrever sobre filmes TÃO doidos!).

Conhecedores da sua filmografia alegam que "No Calor do Buraco" é o seu melhor filme. Mas para o próprio Sady Baby e para mim particularmente, o "grande momento" do diretor é EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE, que provavelmente também é sua obra mais divertida e mais fácil de acompanhar, narrativamente falando.


Produzido em 1986 (embora o site da Cinemateca Brasileira informe o ano de 1987), o filme parece uma tentativa de aproveitar o sucesso da obra anterior de Sady, o pornô zoófilo "Emoções Sexuais de um Cavalo", estrelada pela célebre "Cicciolina do Bexiga" Makerlei Reis. E, como na maioria das suas produções, Sady não apenas estrela como divide direção e roteiro com o amigo Renalto Alves.

Este pornô, que é bem menos "zoófilo" do que o título anuncia, foi produzido em plena era do medo da AIDS, quando pouco se sabia sobre a doença além do fato de ela ser mortal. Nada mais certo, portanto, que Sady Baby explorasse esse medo de forma sensacionalista: Gavião, seu personagem na trama, é um presidiário que fugiu da cadeia e é portador do vírus HIV por, segundo o próprio, ter dado a bunda na prisão.


Logo na cena inicial, já apresentando o clima tosco e pobre que permeia o filme, Gavião caminha por uma floresta e, faminto, disputa um osso com um cachorro. A cena não tem cortes: Sady realmente tira um osso roído da boca de um cachorro e come o pouco de carne que ainda resta nele!

Em seguida, uma garota loira (interpretada por X-Tayla, figurinha carimbada nos pornôs do diretor) caminha inocente pela floresta e é agarrada por Gavião, que resolve estuprá-la para satisfazer seus desejos carnais há muito refreados no presídio.

Num caso clássico de contraste entre o som (dublado) e a imagem, as falas de Gavião ("Eu não vou te machucar! Eu não vou fazer nada contigo!") se sobrepõem a essa cena aí embaixo, o que já provoca as primeiras gargalhadas!!!


Gavião leva a loirinha até um caixão (feito visivelmente de papelão!) e segue-se um dos primeiros diálogos geniais da película: "Esse é o caixão do amor", declara o presidiário aidético. "Aqui eu faço sexo. Eu tô com fome de sexo! Eu vou comer seu cu dentro desse caixão!". Bizarramente, a moça fica excitada (!!!) e aceita participar de uma cena de sexo (simulado, sem penetração) dentro do caixão!

Acredite: esse é um dos momentos mais "normais" do filme!!!


Pulando as inevitáveis cenas de sexo explícito sem conexão com a trama que se seguem (conforme comentarei mais adiante), EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE continua com Gavião voltando para casa e encontrando sua esposa, Cocota, grávida. Hora do segundo diálogo genial do filme:

- O que é isso, Cocota?
- É... É um tumor!
- Isso é gravidez! Além de presidiário agora eu sou otário? Um chifrudo? Eu sou um corno? Engraçado: pra ajudar não tem ninguém, agora pra botar no rabo dos outros...



Em meio à sua fúria, Gavião descobre que o responsável por engravidar a esposa foi seu próprio pai, sogro da moça, conhecido apenas pelo apelido de "Velho Paçoca". Ele resolve se vingar do progenitor e vai até a casa da família, onde encontra a irmã mais nova (rápida participação de Makerlei Reis) também grávida do velhote! Segue-se novo diálogo antológico:

- Quem é o pai da criança?
- É o pai!
- Que pai?
- Nosso pai!
- Não... Velho fedido! Eu vou comer o cu daquele velho filho da puta!


Cada vez mais descontrolado, Gavião volta para sua própria casa e começa a socar a barriga da esposa, na tentativa de provocar-lhe um aborto involuntário. Depois, arranca-lhe das mãos uma banana que ela está comendo, e berra: "Você não vai comer porra nenhuma! Você vai morrer de fome!".


Mas no momento seguinte ele muda de ideia: ao invés de esperar que Cocota morra de fome, Gavião resolve queimar a esposa viva, incendiando o próprio barraco!!!

A partir de então, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE divide-se em três segmentos distintos: a busca de vingança de Gavião contra seu pai, o Velho Paçoca; a fúria do presidiário aidético contra a humanidade em geral, pelo fato de ele estar contaminado pelo HIV e sofrer preconceito (momento "crítica social" do roteiro); e, finalmente, uma suruba caligulesca que ocupa meia hora da narrativa.


Entre os momentos que fazem parte dessa subtrama da AIDS, estão as melhores cenas do filme.

Na primeira delas, Gavião invade o consultório do dr. Chabú (!!!) para vingar-se do médico, que supostamente teria lhe vendido um remédio para curar a AIDS (!!!) sem nenhuma serventia, óbvio. O protagonista dispara um quase-monólogo entre gritos e ameaças que é de deixar qualquer um chorando de rir:

"Você me enganou, médico trambiqueiro! Tu pediu grana pra me salvar, e eu fui na tua conversa, meu! Tu falou que tinha remédio pra AIDS, cara! Eu acreditei nisso, cara! Por que você fez isso comigo, médico filho da puta? Eu vou comer seu cu, cara! EU VOU COMER SEU CU, CARA!!! Olha aqui pra mim! Olha pra dentro dos meus olhos! Eu tô podre, cara! EU TÔ PODRE, CARA!!!" (Você pode ver esse lindo momento clicando aqui!)


Revólver em punho, Gavião primeiro estupra a secretária do dr. Chabú (outra cena implícita protagonizada pelo próprio Sady), sem que a moça proteste muito. Pelo contrário, ela até parece gostar - e a moça é a única razoavelmente gatinha no elenco, o que é um verdadeiro alívio depois de tantas caras feias vistas até então.

Depois, diante do olhar perdido da garota, o bandido força o "médico trambiqueiro" a sugar o sangue de uma ferida no seu braço. Ato feito, o ator que interpreta o doutor, no auge da sua interpretação forçada de galã de quinta categoria, declara, com os lábios ainda ensanguentados: "Sou um homem contaminado!", enquanto Sady, claro, gargalha maleficamente!!!


A outra melhor cena do filme acontece quando Gavião é expulso de uma boate por um grupo de homossexuais quando as bibas percebem que ele é aidético. Furioso, o bandido irrompe no local com uma motosserra (!!!) e mata violentamente uma das bonecas, serrando-lhe o torso!!!

A cena, realista e bastante sangrenta, foi feita com Sady realmente serrando o peito do sujeito, onde foi amarrada uma chapa de metal que protege o corpo do ator! Revelando todo seu "sadysmo", Gavião acaba com o rosto todo vermelho por causa do sangue que jorra durante a mutilação, enquanto ri e berra alucinado: "Hahahaha! Sangue! SANGUE!!!".


Já a busca do protagonista pelo pai garanhão encerra com um dramático reencontro dos dois. Ferido por um tiro, Gavião diz ao progenitor: "Ah, Velho Paçoca... Meu grande pai... Meu grande filho da puta!!! Vai comer capim, velho!!!".

Todas essas cenas sem-noção fazem de EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE um filme simplesmente incrível, inacreditável até, daqueles em que você não sabe se ri ou chora, e em que um momento bizarro é seguido por outro ainda mais escalafobético.


Infelizmente, este também é um filme pornográfico produzido na Boca do Lixo. E, como tal, traz um montão de cenas de sexo porcas, mal-filmadas e protagonizadas por pessoas feias e peludas (com "nomes artísticos" do calibre de Rui Taradão, Rinaldo Pilantra e Cilene Bucetão!!!).

Quem já viu algum pornô da Boca sabe o que esperar, mas os filmes de Sady Baby descem a um nível de feiúra e vulgaridade ainda mais abominável do que a média. É simplesmente a maior reunião de gente feia e desdentada fora de um filme do Fellini ou do Pasolini! E o pior: esses caras e barangas geralmente estão pelados e trepando!!!

Sady provavelmente contratava mendigos da Rua do Triunfo a preço de cachaça e colocava-os para protagonizar, sem muita distinção, cenas homossexuais ou de zoofilia!!!


Uma curiosidade: nem todos os pornôs brasileiros daquele período eram exclusivamente "heteros", como os estrangeiros. Se hoje você entra numa videolocadora e escolhe um filme só com lésbicas, só com gays, só com travecos ou só com dupla penetração anal, na época era comum ter tudo isso misturado no mesmo balaio - e mais zoofilia, no caso das obras da Boca do Lixo!!!

É o caso aqui, onde há diversas cenas gays protagonizadas por homens barrigudos e peludos. Numa delas, um policial leva um casal homossexual para um matagal e obriga ambos a fazerem sexo com ele. Enquanto é sodomizado por um e chupa o outro, grita: "Você não é estuprador? Então me estupra!". Mais adiante, outros dois homens transam ao som da Marcha Nupcial (!!!) e da música-tema de "Carruagens de Fogo" (!!!).


E há a gigantesca orgia de meia hora no bar, detalhe característico da maioria dos filmes de Sady (quando a narrativa é interrompida para uma grande suruba entre vários atores e atrizes). Sem distinção entre gays, lésbicas e simpatizantes, o povo transa animadamente e até um cavalo entra na jogada.

Com a boca cheia de iogurte ou leite, homens e mulheres aplicam um singelo boquete zoófilo no equino e simulam a ejaculação do animal - uma cena que só lembro de ter visto "de verdade" no igualmente inacreditável "Experiências Sexuais de um Cavalo", de Rubens Prado.

Destaque para o "cardápio" do bar, que anuncia "buceta ao molho" como prato do dia e opções do tipo "sopa de menstruação", "rolê de rola" (!!!) e até "feijoada de cu"!!! A "imaginação" de Sady e sua trupe realmente não tinha limites...


E por falar nisso, ainda nessa cena da suruba, Sady inseriu um momento que é absolutamente genial: sem poder colocar uma câmera dentro da vagina da atriz (lembre-se que eles ainda filmavam com enormes câmeras de película, e não existiam microcâmeras de vídeo, como hoje), o diretor simulou um plano "por dentro da perereca" simplesmente dando um close no pinto do "ator" enquanto ele penetra um pedaço de bife até a ejaculação!

(É uma pena que esse blog seja "respeitável" e eu não possa publicar fotos desse momento maravilhoso de criatividade cinematográfica aqui...)


Mas péra lá: e onde entra o jegue do título nessa história? Bem, na verdade o jegue faz uma minúscula participação especial só para justificar o nome do filme, quando X-Tayla encontra o animal e simplesmente fica se esfregando pelada nele, mas sem muita ousadia, o que pode frustrar quem foi atrás do filme APENAS para ver as emoções sexuais do tal jegue!!!

(E é claro que, como em quase todos os pornôs da Boca, o jegue "pensa alto", como o Garfield, enquanto X-Tayla sensualiza com ele...)


O resultado é que EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é um filme inclassificável, em que momentos de extrema violência (como o esquartejamento com motosserra) aparecem depois de diálogos cômicos e nonsense, mas também estão separados por intermináveis trepadas literalmente nojentas entre homens e mulheres, homens e homens e ambos os sexos com animais!

Não foge à regra: como a maior parte dos pornôs da Boca, este também ficaria muito mais divertido (e fácil de assistir) SEM o sexo explícito, que aqui é tão excitante quanto se masturbar assistindo "Os Dez Mandamentos" (se bem que no filme do Cecil B. De Mille até aparecem umas figurantes bonitinhas com pouca roupa, enquanto no do Sady Baby todo mundo é feio e asqueroso, fora, talvez, a secretária do dr. Chabú!).


Se você nunca viu um filme de Sady e pretende começar a conhecer sua insólita filmografia, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é uma boa opção: traz tudo aquilo que caracteriza o cinema do sujeito (frases de efeito, personagem "sádyco", violência explícita e sexo nojento) de uma forma menos insuportável e desconexa que as suas outras obras. Até existe uma história e uma trama para seguir, mesmo que na maior parte do tempo as cenas apenas se sucedam sem muito critério e praticamente no improviso.

Afinal, de que outra maneira você consegue encarar a despedida entre Sady e X-Tayla na história, quando ele entrega dezenas de fotos para a garota e diz: "Quero que você faça um favor para mim, porque eu estou morrendo. Eu quero que você trepe com todos!"?!?

Um momento insólito que só poderia ter saído da cabeça do nosso "Marquês de Sady", um dos "artistas" mais estranhos dessa miríade de bizarrice chamada "cinema pornô nacional dos anos 80"...


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Emoções Sexuais de um Jegue (1986, Brasil)
Direção: Sady Baby e Renalto Alves
Elenco:Sady Baby, X-Tayla, Renalto Alves,
Neilton Mofarrej, Kátia Bokão, Makerlei Reis,
Feijoada e Karla Karbley.

sábado, 12 de março de 2011

SONATINE - ADRENALINA MÁXIMA (1993)


(Depois de algumas semanas de tranqueiras, nada como fugir um pouco da rotina com mais uma resenha da série FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA.)
Imagine um filme sobre a Yakuza (a máfia japonesa) completamente diferente de tudo o que você já viu: ao invés de ficar trocando tiros, matando rivais ou cortando os dedos em sinal de lealdade, os gângsters passam a maior parte do tempo numa casa de praia, brincando com frisbee (!!!), jogando conversa fora e aprontando brincadeiras uns com os outros.

Pois assim é SONATINE, o quarto filme dirigido (e também escrito e estrelado) pelo mestre Takeshi Kitano. Considerando que praticamente nada acontece durante a maior parte dos 94 minutos da película, é mais do que inapropriado o título nacional, "Adrenalina Máxima" (!!!), certamente uma tentativa de tentar vender o filme de Kitano como um exemplar do explosivo cinema de ação japonês da época - "citando" ainda títulos brasileiros para produções do gênero, como "Fervura Máxima" e "Velocidade Máxima".


O que faz de SONATINE uma obra espetacular é que esse marasmo, esse "não acontece nada", esse ritmo letárgico e silencioso da maior parte do filme é quebrado inesperadamente, em diferentes momentos da trama, por explosões furiosas de violência - que pegam não só os personagens, mas o próprio espectador, de surpresa!

Quem acompanha o FILMES PARA DOIDOS há tempos deve saber que Takeshi Kitano é um dos meus cineastas contemporâneos preferidos. SONATINE não é o meu filme preferido do diretor, mas é dos melhores que ele fez e um filmaço!


O diretor-roteirista interpreta Murakawa, um veterano membro da Yakuza que explora o jogo ilegal num bairro de Tóquio. Ele já está de saco cheio de ser gângster e vive um dia-a-dia de rotina, desprovido de emoção - mesmo quando precisa executar um rival nos "negócios", ele o faz de maneira tão desinteressada como se estivesse apenas varrendo o chão.

Certo dia, o chefão da Yakuza reúne seus aliados e resolve enviar Murakawa até a cidade japonesa de Okinawa, para intermediar as negociações de paz entre dois clãs mafiosos que estão em guerra. Mas o velho bandidão, que não é moleque nem nada, questiona a validade da "negociação", considerando que no passado, em outra situação parecida, perdeu três dos seus melhores homens.


É claro que o chefão não escuta seus argumentos, e assim Murakawa e seu bando - formado por comparsas fiéis e também por alguns garotos novos e indisciplinados - parte para sua missão.

Porém, já nos primeiros dias, o grupo sofre um violento atentado na cidade e resolve esconder-se numa casa de praia, onde veteranos e novatos irão se conhecer melhor e descobrir que têm pelo menos uma coisa em comum: nenhuma expectativa de vida.

Muito já se falou e se escreveu sobre como Martin Scorsese (com "Os Bons Companheiros", em 1990) e Quentin Tarantino (com "Cães de Aluguel", em 92, e "Pulp Fiction", em 94) desmistificaram e "desglamurizaram" o universo dos gângsters cinematográficos, mostrando-os como pessoas comuns, que fazem brincadeiras, riem e falam sobre filmes e músicas, ao invés de ficar o tempo todo planejando crimes e matando pessoas.


Mas pouca gente lembra de citar SONATINE, que tem uma pegada bem parecida e foi feito na mesma época. É realmente muito estranho ver membros durões da Yakuza jogando frisbee na praia (ainda que o personagem de Kitano logo apareça para acabar com a brincadeira, disparando tiros de revólver no frisbee!!!) ou tomando banho de chuva como se fossem crianças.

Porém o mais interessante dessa pequena gema do mestre Takeshi são os rompantes de fúria que, de repente, invadem a narrativa lenta e silenciosa, mudando completamente o tom do filme.

Como na vida real, a violência surge de repente, caótica, sem anúncio prévio tipo trilha sonora subindo, câmera tremendo, cortes rápidos na edição, e definitivamente sem pistoleiros invadindo o quadro berrando "iáááááá" ou "die motherfuckers!!!!".


A primeira vez em que isso acontece é de fazer o espectador saltar da poltrona: NADA acontece na primeira meia hora do filme além de diálogos entre os bandidos e cenas com pessoas caminhando ou andando de automóvel.

Então, inesperadamente, Murakawa e seu grupo estão num bar quando começa um tiroteio infernal, anunciado apenas pelo som dos tiros e pelas pessoas caindo ensanguentadas no chão (confesso que levei um susto, tão inesperado que é o ataque). Nunca me peguei no meio de um tiroteio, mas aposto que na vida real a coisa é bem assim.

Mais adiante, perto do final, outra cena explosiva de violência acontece dentro de um elevador lotado, e outra vez inesperadamente, com tiros sendo disparados para todos os lados e personagens centrais da trama morrendo como moscas. Ficou curioso? Então veja no vídeo abaixo:

Nunca troque tiros num elevador lotado!

Aqui, como em praticamente todos os filmes de Kitano, chama a atenção o fato de que ninguém fala, xinga, ameaça o rival ou grita durante os tiroteios (os personagens apenas ficam estáticos, sérios, disparando suas armas), e nenhum personagem grita de dor ao ser alvejado, como se a surpresa pelo ferimento fosse maior do que a dor.

Também como na maioria dos filmes do diretor, seu personagem, Murakawa, é um sujeito fechadão e de poucas palavras, mas capaz de revelar seus sentimentos apenas com os olhos puxados quase inexpressivos.


 Ele vive uma relação esquisita com uma garota que salvou de um estupro (Aya Kokumai), mas ao mesmo tempo leva uma vida auto-destrutiva demais para se importar com o futuro. Tanto que, à noite, ao invés de ter um sono tranquilo, Murakawa sempre sonha que está estourando os próprios miolos ao jogar roleta russa!

E que personagem fantástico Murakawa é! Um gângster cansado da vida de gângster, que só quer administrar suas casas de jogo ilegal, mas acaba envolvido numa guerra estúpida que sabe que irá acabar em banho de sangue...


 Na cena brilhante em que o chefão reúne seus aliados para explicar a missão, Murakawa ouve tudo silenciosamente e fumando um cigarro. Quando o conselheiro do chefe, e puxa-saco de marca maior, declara algo como "Chefe, nós colocamos nossas vidas em suas mãos", o personagem de Kitano levanta-se furioso e esbraveja: "VOCÊ está colocando minha vida nas mãos dele!".

Logo em seguida, revelando que é realmente um sujeito casca-grossa, Murakawa pega o tal conselheiro puxa-saco de surpresa no banheiro e arrebenta o cara na porrada para mostrar o que acha do seu puxa-saquismo!


Econômico em diálogos, tiroteios e até em movimentos de câmera, SONATINE é um filme parado e introspectivo, e por isso mesmo deverá decepcionar quem espera a "adrenalina máxima" prometida pelo título nacional.

Mas quem tem certa intimidade com o cinema, digamos, diferente de Takeshi Kitano vai curtir muito, principalmente porque as cenas são embaladas por uma belíssima (e melancólica) trilha sonora de Joe Hisaishi. A conclusão é a esperada, mas o filme tem pelo menos meia dúzia de cenas fantásticas que já valem o programa.


Ironicamente, SONATINE foi um fracasso de bilheteria na época do seu lançamento. Afinal, Kitano era um comediante popular na TV japonesa, e ninguém gostou de vê-lo como mafioso implacável e violento.

Somente anos depois, quando sua obra-prima "Hana-Bi - Fogos de Artifício" (1997) ganhou o Festival de Veneza, é que SONATINE foi redescoberto e reavaliado pelos críticos japoneses e do resto do mundo. Nos EUA, por exemplo, o filme só chegou aos cinemas em 1998, com comentários elogiosos de um certo Quentin Tarantino, que "apadrinhou" a obra.

PS:
Alguns consideram SONATINE uma grande homenagem de Takeshi Kitano a um dos seus mestres, o veterano Kinji Fukasaku. Em 1971, Fukasaku dirigiu um filme chamado "Sympathy for the Underdog", sobre gângsters que se reúnem na mesma Okinawa para resolver uma guerra de gangues. Kitano estaria prestando a homenagem ao cineasta que lhe deu a primeira oportunidade de dirigir um filme, o excelente "Violent Cop", em 1989, já que a obra seria originalmente dirigida por Fukasaku, mas ele desistiu e Kitano assumiu a missão.


Trailer de SONATINE - ADRENALINA MÁXIMA

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Sonatine - Adrenalina Máxima (Sonatine, 1993, Japão)
Direção: Takeshi Kitano
Elenco:Takeshi Kitano, Aya Kokumai, Tetsu Watanabe,
Masanobu Katsumura, Ren Ohsugi, Susumu Terajima
e Tonbo Zushi.

sábado, 5 de março de 2011

A FÚRIA DO PROTETOR - Director's e Jackie Chan's Cut (1985)


(Alô amigos do FILMES PARA DOIDOS! Eis que nesta semana comecei num emprego temporário de um mês, e assim mais uma vez me vi sem tempo de atualizar o blog. Para compensar, como sou bonzinho, vou postar mais uma Sessão Dupla, dessa vez com duas versões do mesmo filme. É uma resenha que foi bastante requisitada pelos leitores, então espero que vocês se divirtam!)

Num daqueles interessantes fenômenos do mundo do cinema, divergências entre diretores e produtores, ou entre atores e diretores, ou entre toda essa cambada junta, acabam gerando versões diferentes de um mesmo filme.

Um caso clássico é "Blade Runner" (1982): a versão que todo mundo aprendeu a gostar foi aquela editada e alterada pelos produtores, e somente uma década depois o diretor Ridley Scott conseguiu lançar sua "director's cut", com uma série de alterações e um final pessimista. Outro exemplo, que chega a ser absurdo, é "O Exorcista - O Início" (2004): o diretor Paul Schrader rodou o filme todinho, mas o resultado desagradou os executivos da Warner e eles resolveram despedir Schrader e contratar Renny Harlin para recomeçar tudo do zero, fazendo com que existem duas versões completamente diferentes da mesma obra!


Há inúmeros outros casos dignos de citação, mas um bem curioso e pouco conhecido é o de um pequeno filme de ação de 1985 chamado A FÚRIA DO PROTETOR.

Nesta época, Jackie Chan já era um grande astro no Oriente, mas estava querendo fazer sucesso também nos Estados Unidos, já que o cinema ocidental estava carente de grandes astros de artes marciais desde a morte de Bruce Lee. Jackie já tinha tentado conquistar o mercado norte-americano cinco anos antes, com a dobradinha "O Grande Lutador" (1980, de Robert Clouse) e "Quem Não Corre, Voa" (mesmo ano, dirigido por Hal Needham), mas não conseguiu chamar a atenção do público.

A FÚRIA DO PROTETOR tinha tudo para dar certo: era um violento filme de ação em que Jackie interpretava um policial durão em Nova York. Como diretor, foi escalado James Glickenhaus, que alguns anos antes chamou a atenção dos grandes estúdios graças ao sucesso de sua produção independente "O Exterminador".


O roteiro mostra uma dupla de tiras (Jackie Chan e Danny Aiello!!!) investigando o seqüestro da filha de um milionário em Nova York. O caso acaba levando ambos a Hong-Kong, onde enfrentam um poderoso traficante de drogas - mesmo argumento da comédia "A Hora do Rush", que uniu Chan e Chris Tucker em 1998, fez muito mais sucesso e virou trilogia.

O problema é que tudo deu errado no set de A FÚRIA DO PROTETOR, principalmente porque Jackie não se bicava com Glickenhaus, que considerava um péssimo diretor. Em sua auto-biografia, o astro explicou que o diretor estava mais interessado em filmar tiroteios sangrentos (ao invés das mirabolantes lutas do astro) e mulheres nuas, e que simplesmente pulava de uma cena para a outra sem dar muita bola para o roteiro.


Além disso, segundo Jackie, Glickenhaus raramente filmava mais do que quatro takes das cenas de ação, enquanto na Ásia ele estava acostumado a fazer mais de 20! Astro e diretor brigaram o tempo inteiro e, lá pelas tantas, Jackie abandonou o set. "Glickenhaus vai destruir minha carreira!", choramingou para seu agente, e este recomendou que o ator voltasse ao set pelo menos para concluir o filme, ou então pagaria uma pesada multa por quebra de contrato e nunca mais conseguiria emprego nos EUA.

O resultado é, digamos, bem diferente da imagem que Jackie construiu para si: seu personagem quase não luta, mas passa o filme fuzilando bandidos como se fosse um Dirty Harry chinês; fala vários "fuck" e circula sem timidez no meio de diversas figurantes peladas. Embora tenha a cara do cinema de ação exagerado e inconseqüente dos anos 80, a versão do diretor de A FÚRIA DO PROTETOR não é, sob hipótese alguma, um "filme de Jackie Chan".


O ator sabia disso, e achou que seria "um insulto" (suas próprias palavras) lançar essa versão norte-americana na Ásia. Resolveu o problema de uma forma simples: rodou um montão de novas cenas em Hong-Kong (principalmente mais lutas exageradas, bem ao seu estilo), cortou várias coisas que Glickenhaus havia insistido para ter no filme (as cenas com mulheres nuas, por exemplo) e até criou novas subtramas para dar sentido ao roteiro caótico da versão norte-americana.

O resultado é um A FÚRIA DO PROTETOR totalmente novo, apelidado de "Jackie Chan's Cut": enquanto a versão norte-americana tem 91 minutos, a asiática, mesmo com um montão de cenas a mais, ficou com 88 minutos (por causa dos diversos cortes feitos pelo ator na remontagem).


Assim, existem dois A FÚRIA DO PROTETOR completamente diferentes, e cada um com seus próprios fãs. E a experiência ruim de Jackie com Glickenhaus acabou sendo benéfica para seus fãs: o ator gostou da experiência atrás das câmeras, ao filmar as novas cenas para a "sua versão" do filme, e isso incentivou-o a apostar também na carreira de diretor, gravando, no mesmo ano de 1985, o excelente "Police Story" em Hong-Kong.

Qual versão é a melhor? Quais são as diferenças entre elas? Saiba tudo e um pouco mais acompanhando mais esta exclusiva Sessão Dupla do FILMES PARA DOIDOS!



THE PROTECTOR - James Glickenhaus' Cut


O diretor do clássico cult "O Exterminador" tinha um objetivo em mente ao escrever e dirigir sua versão de A FÚRIA DO PROTETOR: transformar Jackie Chan, astro de sucesso na Ásia, em um fenômeno também no Ocidente. A melhor forma de fazer isso, pensou ele, era mudar sua imagem de "lutador engraçadinho", dos filmes asiáticos, para a de policial durão nos Estados Unidos, seguindo um modelo de heróis rabugentos e de poucas palavras muito em voga no período (era a época de Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris).

Mas quem já viu outros filmes do diretor sabe como é seu jeito de trabalhar: um caos! Os roteiros são absurdamente fragmentados, não raras vezes contendo situações que nem ao menos se relacionam com a trama. É o que acontece aqui, e um dos motivos que enfureceu Jackie Chan.


Para o leitor ter uma idéia, A FÚRIA DO PROTETOR começa com uma gangue de punks roubando um caminhão repleto de computadores no violento bairro do Bronx. Chegam dois policiais, Billy Wong (Chan) e seu parceiro Michael (Patrick James Clarke), mas eles não fazem nada além de ironizar com um "Bem-vindo a Nova York" para o motorista do caminhão. E assim a cena termina. Você leu corretamente: os heróis nunca investigam o roubo nem perseguem os punks. É um enigma o fato de essa cena inicial existir!

Na cena seguinte, a ronda da dupla termina e eles vão tomar umas num boteco, que coincidentemente é assaltado por um grupo de psicopatas com armas de grosso calibre. Billy está no banheiro no momento do ataque e reage, matando vários dos bandidos, mas um deles foge depois de fuzilar seu parceiro. Nosso herói persegue o vilão até o cais, onde ambos escapam em velozes lanchas. A cena termina com o policial agarrando-se a um helicóptero (!!!) e usando a sua lancha como míssel para destruir o barco do bandido em fuga (!!!).


Claro que não faltam motivos para o superior de Billy ficar puto com ele e rebaixá-lo para o departamento de controle de multidões, onde ele ganha um novo parceiro, Danny Garoni (Danny Aiello).

A primeira missão de ambos é investigar o sequestro de Laura Shapiro (Saun Ellis), filha de um poderoso empresário ligado ao tráfico de drogas. Billy desconfia que a garota foi seqüestrada pelo associado do seu pai, um traficante de Hong-Kong chamado Ko (Roy Chiao), e a dupla de policiais misteriosamente consegue permissão para ir até o outro lado do mundo investigar, embora seja totalmente fora da sua jurisdição!!!

Chegando em Hong-Kong, Billy e Danny passam os minutos seguintes dando tiros e porradas na bandidagem, investigando porra nenhuma e eventualmente causando a morte de todas as pessoas que tentam ajudá-los. Isso até o herói descobrir, por meio de um vidente (!!!), o cativeiro de Laura.


Ao invés de avisar a polícia de Hong-Kong, a dupla dinâmica prefere formar um trio com um traficante de armas (!!!), que guarda em seu barco metralhadoras Uzi e até um lança-foguetes (!!!), que ganhou de presente de um amigo de Israel (!!!!).

Realizado com desleixo por Glickenhaus, A FÚRIA DO PROTETOR é um filme de ação onde só se percebe esmero nos sangrentos tiroteios, com pistolas abrindo crateras no corpo das vítimas e sangue voando generosamente à la "Duro de Matar" (que foi feito depois). Logo no começo, por exemplo, o personagem de Jackie dá um tiro no ombro de um bandido e sai mais sangue do que se tivesse acertado na cabeça!


O diretor também parece ter uma fixação doentia por nudez gratuita: quando uma garota aparece nua frente e verso numa casa de massagens vá lá, mas nada justifica o fato de as mulheres no laboratório de cocaína de Ko trabalharem completamente peladas!!!

No New York Times de agosto de 1985, o crítico detonou o roteiro do filme: "O título é 'O Protetor', mas Jackie Chan não protege ninguém e ainda deixa uns 100 cadáveres para trás". Chama a atenção principalmente o fato de que Glickenhaus não tem qualquer intenção de fazer uma aventura de artes marciais (a especialidade do seu astro), mas sim um policial sanguinolento no estilo de seus filmes anteriores, "O Exterminador" e "O Ultimato" ("Codename: The Soldier", de 1982).


Tanto que Jackie raramente tem a oportunidade de lutar ALÉM da cena final, em que ele sai no pau com um dos capangas de Ko (interpretado pelo campeão mundial de artes marciais Bill "Superfoot" Wallace). O próprio Jackie queria coreografar a luta, mas é óbvio que Glickenhaus não deixou - e o resultado está na tela, burocrático e sem grandes lances.

Outra rara chance para o astro mostrar seus talentos acontece quando o herói persegue um vilão que foge de barco, obrigando-o a saltar com motocicletas e até varas de bambu, de um barco para outro, até chegar àquele em que seu rival está.

No restante do tempo, Jackie fica perambulando para lá e para cá com um olhar de peixe morto (sem esconder sua falta de entusiasmo com o filme), sem investigar nada, ouvindo as gracinhas do parceiro Danny Aiello e descobrindo tudo por pura sorte - ou por meio do vidente, que, numa das ferramentas mais imbecis que eu já vi para tocar um roteiro adiante, conta em detalhes tudo aquilo que o herói precisava descobrir. Ele é tão eficiente que os detetives da polícia de Hong-Kong deveriam ser substituídos por videntes que lêem I-Ching!


No cômputo final, A FÚRIA DO PROTETOR não é um filme ruim: é realmente muito engraçado ver Jackie Chan como policial durão, falando palavrões e atirando à queima-roupa, longe daqueles papéis engraçadinhos em que ele se especializou (a versão editada por Glickenhaus NÃO tem humor).

Os sangrentos tiroteios e algumas boas cenas de ação, como a da casa de massagens, o ataque ao laboratório de drogas e principalmente a luta final entre Jackie e Bill Wallace, fazem valer o espetáculo para quem procura um daqueles exagerados policiais dos anos 80. E os filmes de Glickenhaus, por piores que pareçam, ainda são bem mais interessantes que muita coisa que se faz hoje.

Agora, se o seu negócio é mais artes marciais e menos "policial durão enchendo bandidos de tiros", recomendo fortemente procurar a versão asiática editada por Jackie Chan. No Brasil, a única versão de A FÚRIA DO PROTETOR disponível (em VHS e DVD) é a original norte-americana.



WAI LUNG MAANG TAAM - Jackie Chan's Cut


Completamente insatisfeito com a versão norte-americana de A FÚRIA DO PROTETOR (que inclusive bombou nas bilheterias nos EUA, arrecadando pouco mais de 980 mil dólares), Jackie Chan considerou a hipótese de nem lançar o filme no mercado asiático. Depois pensou melhor e resolveu colocar a mão na massa, consertando tudo aquilo que ele achava errado no trabalho de Glickenhaus, e filmando diversas cenas novas com os atores asiáticos, Bill Wallace e um dublê de Danny Aielo.

Para quem só conhece a versão norte-americana, fica a dica: a versão de Chan é um filme quase totalmente diferente!

A trama básica continua a mesma: o início, com o inexplicável ataque dos punks, a morte do parceiro e a viagem a Hong-Kong para investigar o sequestro de Laura Shapiro continuam no filme.


A diferença é que Jackie filmou novas cenas para corrigir algumas bobagens feitas por Glickenhaus. Quando seu parceiro é assassinado no assalto ao bar, por exemplo, o personagem de Jackie originalmente saía correndo atrás do vilão, mas adivinhando para que lado o meliante havia fugido; na versão asiática, foi adicionada uma pequena cena em que o policial pergunta a um pedestre para onde o bandido foi. Pequenos detalhes assim acabam corrigindo furos grotescos da versão norte-americana.

Como a versão asiática foi dublada, Jackie também aproveitou para eliminar todos os palavrões que foi obrigado a dizer em inglês, como "Give me the fucking keys!". E passou a tesourinha em todas as cenas com mulheres peladas, principalmente a pra lá de gratuita cena com as peladonas no laboratório de cocaína (novas cenas foram filmadas mostrando-as totalmente vestidas e bombeando cocaína para dentro de frutas).


Não contente com essas pequenas alterações, o astro ainda chamou o roteirista King Sang Tang para criar novos personagens e subtramas, justificando as cenas de luta que pretendia filmar e adicionar à montagem (todas as cenas adicionais foram rodadas pelo próprio Jackie, que assim pôde coreografar as lutas).

A maior mudança é a inclusão de uma nova personagem, Sally (interpretada por Sally Yeh). Ela é a filha de um homem assassinado pelo grande vilão Ko, e ajudará o herói na sua investigação. O encontro entre Billy e Sally acontece numa academia de ginástica, onde a moça é cortejada por dois pretendentes ciumentos. Claro que isso é apenas desculpa para uma cena de luta "engraçadinha", ao estilo Jackie Chan, em que o herói usa os instrumentos da academia (halteres, esteira...) contra seus oponentes.


Inclusive é graças a Sally que finalmente descobrimos a história da moeda que Billy usa para buscar informações com um velho informante da polícia em cena posterior, algo que na versão de Glickenhaus ficava muito no ar.

Jackie também filmou mais cenas com os vilões discutindo seus planos e se irão matar ou não os dois policiais nova-iorquinos. Bill Wallace tem mais tempo para desenvolver seu vilão, e o proprietário da casa de massagens (que desaparecia logo do filme de Glickenhaus) aparece mais vezes, primeiro apanhando dos homens de Ko por ter falhado em matar os policiais, e depois revelando ser tio de Sally, quando vai à casa da garota para avisá-la de que sua vida corre perigo.


Essa cena, bem longa, inclui Billy desarmando uma bomba colocada sob a cama de Sally pelos homens de Ko, e um tiroteio entre o herói e um dos assassinos enviados pelo vilão. No fim, o herói acompanha Sally e seu tio ao aeroporto, já que eles resolvem fugir para os Estados Unidos. E é o tio de Sally quem conta a Billy onde é o cativeiro de Laura, eliminando assim a ridícula cena do vidente "descobrindo" o local via I-Ching da versão norte-americana!

Mas calma que não termina por aí: visando dar mais tempo para que Bill Wallace demonstre suas habilidades, Jackie filmou uma outra cena de ação com ele. Na versão de Glickenhaus, o informante de Billy, Lee Hing (Kwan Yeung), aparecia morto sem mais nem menos, e com seu barco incendiado.

Uma longa cena filmada especialmente para a versão asiática mostra Hing encontrando um colega numa fábrica de gelo para se informar sobre os planos de Ko, quando ambos são emboscados e mortos por Wallace e outros capangas do vilão, em mais uma violenta luta.

Uma das cenas exclusivas da versão oriental


Finalmente, como perfeccionismo pouco é bobagem, Jackie reeditou e inseriu alguns takes nas cenas de luta filmadas por Glickenhaus sem sua colaboração (a da casa de massagens e o duelo final com Wallace), tornando-as mais "orientais" (leia-se velozes e violentas).

Com tantas cenas a mais, como é que a versão asiática de A FÚRIA DO PROTETOR consegue ser três minutos mais curta que a norte-americana? Simples: Jackie adicionou as novas cenas enquanto cortava coisas da montagem de Glickenhaus, diminuindo a perseguição ao bandido após o assalto ao bar no início (aquilo nem faz parte da trama principal mesmo), deletando a cena do funeral do parceiro de Billy e apagando diálogos redundantes.


O resultado não é apenas uma "maquiagem", mas um filme diferente no tom e no ritmo. Por isso, é difícil escolher a melhor versão.

Eu confesso que gosto bastante do A FÚRIA DO PROTETOR de Glickenhaus principalmente porque ele vai direto ao assunto (tiros, sangue, pauleira e mulher pelada), sem perder muito tempo com investigações (e é por isso que o herói descobre tudo que quer saber através do vidente, por pura preguiça do roteiro de mostrar qualquer investigação!!!).


Mas a "Jackie Chan's Cut" do filme também tem seus pontos positivos, principalmente o upgrade nas cenas de luta (duas a mais) e a remontagem mais dinâmica das cenas de ação já existentes, embora contenha um excesso de investigação e personagens.

Talvez um grande filme saísse de uma mescla das duas edições. Afinal, Glickenhaus tentou fazer um policial sério e violento enquanto Jackie teimou em inserir uma dose do seu humor habitual (a luta na academia de ginástica) que não se encaixa muito bem na proposta original.

Por via das dúvidas, recomendo conhecer as duas versões, cada um com seus méritos e defeitos, mas uma prova de que o mundo do cinema também tem dessas coisas: quem diria que uma simples briguinha entre diretor e astro pudesse gerar dois filmes quase que completamente diferentes e rodados em países diferentes?

Trailer de A FÚRIA DO PROTETOR



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A Fúria do Protetor (The Protector, 1985, EUA)
Direção: James Glickenhaus
Elenco: Jackie Chan, Danny Aiello, Victor
Arnold, Roy Chiao, Saun Ellis, Bill Wallace,
Mike Starr e Moon Lee.

Wai Lung Maang Taam (1985, EUA/Hong-Kong)
Direção: James Glickenhaus e Jackie Chan
Elenco: Jackie Chan, Danny Aiello, Victor
Arnold, Roy Chiao, Saun Ellis, Bill Wallace,
Sally Yeh e Hoi Sang Lee.