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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (1982)


Vi o trailer de "Tron Legacy" no cinema esses dias e fiquei duplamente surpreso: primeiro pela idéia maluca de lançar uma sequência quase 30 anos depois do original; segundo porque eu não lembrava de absolutamente nada sobre TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (o primeiro filme, lançado em 1982), além do fato de ser estrelado por Jeff Bridges e de se passar quase que interamente em um universo virtual.

Assim, foi com um pouco de nostalgia e um muito de curiosidade que revi TRON como ele deveria ser visto pela primeira vez: não naquelas fitas VHS com qualidade de imagem e som sofrível, e imagem cortada dos lados em tela cheia, mas em DVD, com imagem e som cristalinos, e em widescreeen. Isso tudo pareceu deixar o filme melhor do que eu me recordava das velhas reprises na Sessão da Tarde.


E como eu não lembrava de praticamente nada além de um ou outro detalhezinho (como as "motos eletrônicas" disparando velozes pelas grades de circuitos, algo que deverá ficar lindo no novo filme), foi até surpreendente constatar como TRON ainda funciona direitinho, talvez até melhor agora do que na época do seu lançamento.

Afinal, em 1982, quando foi lançado, o computador ainda era um bicho de sete cabeças para a maior parte das pessoas "normais". O conceito de computador pessoal, para você ter e trabalhar em casa, estava começando a surgir, e pouquíssimos possuíam o equipamento em seus lares, como hoje. (Lembro que eu, particularmente, só fui ver um computador de perto, e mexer nele, por volta de 1994!)


A própria programação das máquinas exigia muito conhecimento, pois não existia um ambiente gráfico como o Windows, onde os programas podiam ser acessados através de clicks em ícones coloridos.

Na época, as operações ainda precisavam ser digitadas na máquina através de longas e complicadas linhas de comando, como devem lembrar os idosos como eu, que aprenderam a mexer no DOS ou a programar joguinhos em Basic (onde se digitava um milhão de linhas de comandos para criar um simples jogo-da-velha, e mesmo assim aquilo parecia o máximo!).


Portanto, o público "comum" do começo dos anos 80 deve ter visto TRON como uma história de ficção científica, já que termos como "programa" e "usuário" estavam começando a aparecer. Isso o transforma num filme visionário, ainda mais pela maneira criativa como a direção de arte imaginou o universo digital que existiria dentro de um computador.

A trama tem como protagonista um "adultescente" chamado Flynn (Jeff Bridges), brilhante programador de jogos de computador que trabalhava para uma poderosa multinacional chamada Encom, até ter seus projetos roubados por um inescrupuloso executivo chamado Ed Dillinger (David Warner). Enquanto o plagiador virou o poderoso da empresa, Flynn foi demitido e passou a administrar um pequeno fliperama.


Porém, nos bastidores, o herói age como hacker, tentando invadir os computadores da Encom para encontrar provas de que Dillinger roubou suas ideias, e assim desmascará-lo e recuperar seu antigo emprego.

Só que Dillinger também é o responsável por um super-programa de computador que acabou criando consciência, o Master Control Program, ou MCP - uma espécie de avô do Skynet da série "Terminator" e das máquinas inteligentes da trilogia "Matrix", e quem sabe um parente próximo do HAL-9000 de "2001".


Ao mesmo tempo em que pensa em dominar o "mundo real", fazendo contatos com a Rússia e com a China (lembre-se que estamos em tempos de Guerra Fria), o MCP também é tirano no ambiente digital, onde escraviza programas de computador, forçando-os a lutar até a morte em videogames.

Quando Flynn invade a sede da Encom e tem acesso a um terminal interno, o Programa Mestre resolve livrar-se dele, "digitalizando-o", com a ajuda de um equipamento ainda em fase de testes, e aprisionando-o dentro do universo digital, onde ele também se tornará um escravo nos jogos de videogame.


O que a máquina não sabe é que Flynn é um craque em jogos eletrônicos, e ele logo consegue escapar do ambiente dos games para tentar iniciar uma revolução digital e destruir o MCP "por dentro". Para isso, conta com a ajuda de um programa de segurança chamado Tron (Bruce Boxleitner).

Não é exagero dizer que TRON foi o "Avatar" da sua geração. A maior parte da trama se passa em cenários gerados por computador, que continuam bonitos e convincentes até hoje, e que também ganharam, agora, um certo charme retrô (o menu animado do DVD do filme é mais "avançado" que o filme inteiro, para dar uma ideia!).


Por mais que o filme tenha alguns defeitos bem básicos - como os personagens sem profundidade e a falta de cenas de ação convincentes -, percebe-se o capricho de todos os envolvidos para criar um universo com regras, paisagens e criaturas próprias, não muito diferente do que James Cameron fez com "Avatar".

As próprias críticas da época destacam mais o lado tecnológico e os efeitos visuais (diferentes de tudo que foi visto até então), falando pouquíssimo sobre a trama ou sobre o desempenho dos atores.


Mais ou menos como aconteceu há pouco com "Avatar", críticos como Roger Ebert disseram, sobre TRON, que os atores realmente pareciam estar vivendo dentro daquele mundo fictício, e não simplesmente cercados por efeitos de computador.

Finalmente, TRON também divide com "Avatar" a trama do sujeito que vai parar num mundo completamente diferente do seu e precisa conhecer seus habitantes e costumes para sobreviver e combater a "tirania" dos vilões.


A isso, soma-se um curioso elemento religioso que posteriormente seria reutilizado em "Matrix": os programas aprisionados no universo digital veneram seus usuários do mundo real como se eles fossem deuses (afinal, são os usuários que decidem o destino dos programas através de suas ações digitadas no computador). Já o MCP e seus asseclas negam qualquer possibilidade de existência dos "usuários" para tentar manter os programas sob controle.

Tron e sua turma acreditam que somente um dos usuários (uma espécie de Messias) poderá libertá-los dos vilões, algo que acontece quando alguém do mundo exterior (Flynn) finalmente chega ao mundo digital, mais ou menos como Neo na "Matrix".


Méritos também para a idéia de seres conscientes (os "programas" aprisionados pelo MCP) sendo usados em jogos de videogame, sentindo dor e morrendo enquanto os humanos se divertem nos fliperamas. Muita gente deve ter começado a jogar videogame com outros olhos.

(E esse conceito seria reaproveitado muitos anos depois em um estranho filme francês chamado "Nirvana", com Christopher Lambert.)

Porém o mais impressionante de TRON é o pioneirismo no uso de imagens geradas por computador, numa época em que isso ainda era coisa de ficção científica.


Vendo o documentário que acompanha o DVD importado, é impossível não ficar de queixo caído com o trabalhão que os caras tiveram para fazer esse filme.

Só para dar uma idéia, todas as cenas dentro do universo digital foram filmadas em preto-e-branco e depois coloridas manualmente, através de retoques fotográficos (quadro a quadro!) e de efeitos de rotoscopia, para inserção dos cenários digitais.


TRON foi, provavelmente, um dos primeiros filmes em que os atores "interpretaram com o nada", olhando para um pontinho que depois viria a ser um personagem digital na pós-produção - algo que o próprio Jeff Bridges comenta no mesmo documentário, dizendo que eles não tinham a menor idéia de como o filme se pareceria depois da inserção dos efeitos em CGI.

Assim fica até fácil perdoar defeitos como a precariedade das cenas de ação. No final, por exemplo, Tron precisa jogar um disco eletrônico com informações (tipo um frisbee) no núcleo do MCP para desativá-lo.

Podia render uma cena tensa no mesmo estilo da destruição da Estrela da Morte no final de "Star Wars" (lançado apenas cinco anos antes), mas ficou uma coisa bem rápida e brochante, provavelmente pela falta de experiência dos realizadores em "dirigir" uma cena que depois seria montada quase inteiramente com efeitos digitais.


A verdade é que quase não há ação/tensão em TRON, simplesmente porque todas as cenas no universo digital precisaram ser filmadas com câmera fixa (para permitir a inserção das trucagens fotográficas/digitais depois; lembre-se que ninguém tinha muita idéia do que estava fazendo lá em 1982!).

Mesmo assim, há um momento brilhante que eu adoraria ver em 3-D (o que deve acontecer agora, com "Tron Legacy"): a corrida das motos eletrônicas. Os veículos disparam velozes deixando rastros sólidos no grid, mais ou menos como aquele joguinho de celular da cobra que precisa desviar do próprio rabo. O objetivo é "fechar" o adversário para fazer com que ele bata no rastro da sua moto. Só essa cena já vale o filme inteiro, e pode ser vista (ou revista) na janelinha abaixo:

Motocross do futuro



Como todo filme à frente do seu tempo, TRON tornou-se "cult movie" depois, principalmente graças aos nerds e viciados em computador, mas foi um fracasso de bilheteria quando lançado.

Para dar uma idéia, o filme custou 17 milhões de dólares, e faturou "apenas" 33 milhões nos cinemas norte-americanos, bem aquém do que os produtores esperavam.

(É bom esclarecer que TRON foi um filme caríssimo para a sua época, tendo custado o mesmo que "Os Caçadores da Arca Perdida", lançado no ano anterior, só que o filme de Spielberg teve bilheteria de 245 milhões de dólares lá nos EUA!)


Ainda no documentário sobre o filme, um executivo dos Estúdios Disney (que produziu TRON) confessa que ninguém entendeu direito o projeto quando deram sinal verde para sua realização, mas que era uma forma de afastar a imagem de "velha e ultrapassada" que a Disney tinha na época.

E, mesmo que o filme ficasse ruim, os produtores já ganhariam uma grana federal só com os direitos sobre as máquinas de fliperama baseadas nele - o que de fato acabou acontecendo.

Que bom que, hoje, a tecnologia do DVD (e do blu-ray) permite rever TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA com outros olhos. No caso, olhos já acostumados à tecnologia, que entendem melhor os termos técnicos usados pelos personagens e também suas ações no mundo digital. Quem diria, aquilo que era ficção científica no começo dos anos 80 hoje é tão comum que até seu sobrinho de 10 anos sabe mais sobre informática do que você!


Independente disso, TRON ainda é um filme bem interessante e divertido, no qual envolveram-se alguns dos grandes talentos daquela época (música de Wendy Carlos, arte conceitual de Moebius), e também iniciantes que revelariam seu talento anos depois (Tim Burton foi um dos anônimos animadores que deram vida ao mundo digital).

Agora é esperar para ver o que virá com "Tron Legacy". Acho difícil que o filme consiga ser tão revolucionário e inovador quanto o original foi na sua época, ainda mais nestes tempos em que é tão difícil algo realmente novo ser produzido. Pelo menos os efeitos digitais devem ter sido bem facinhos de fazer, em comparação com o trabalho braçal dos realizadores lá em 1982...


Mas se a continuação dificilmente deixará de ser algo apenas divertido para a atual geração de frequentadores de "multiplexes", o original, por outro lado, definitivamente já pode ser considerado profético.

Não só pela sua visão de um mundo digital onde usuários interagem e trocam informações (bem parecido com a atual internet), mas também pela frase de um dos personagens no mundo "humano" do filme: "Computadores e programas vão começar a pensar enquanto as pessoas vão parar de fazê-lo".

E não é que foi isso mesmo que aconteceu?


PS 1: Como vários "pioneiros", o diretor Steven Lisberger nunca mais fez nada como TRON. Na verdade, dirigiu apenas outros dois filmes, bem mais simples, e sumiu do mapa, parecido com o que aconteceu a outros dois "visionários" da união cinema-computação gráfica, Brett Leonard ("O Passageiro do Futuro", 1992) e Kerry Conran ("Capitão Sky e o Mundo do Amanhã", 2004).

PS 2: Num universo digital predominantemente masculino, vale destacar a presença das curvas maravilhosas da loirinha Cindy Morgan, a única menina do filme. Poucos devem lembrar, mas a gata mostrou seus "atributos peitorais", por assim dizer, na comédia "Clube dos Pilantras", dois anos antes.

PS 3: O IMDB informa que Michael Dudikoff, o "American Ninja" em pessoa, é um dos figurantes do filme, mas não consegui ver ninguém nem ao menos parecido com ele. Terá ficado no chão da sala de edição?

Trailer de TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA



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Tron - Uma Odisséia Eletrônica
(Tron, 1982, EUA)

Direção: Steven Lisberger
Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David
Warner, Cindy Morgan, Barnard Hughes, Dan
Shor e Peter Jurasik.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

INFERNO NO HARLEM (1973)


Larry Cohen é um dos mais celebrados (e com razão) diretores da "cena B" do cinema norte-americano. Não bastasse ter dirigido alguns clássicos de baixo orçamento, como "Nasce um Monstro", "A Coisa" e "Q - The Winged Serpent", o homem também é um roteirista de primeira (o célebre personagem Maniac Cop, da trilogia dirigida por William Lustig, é criação dele).

O que pouca gente lembra, ou sabe, é que Cohen mirava um outro público antes de envolver-se com o cinema fantástico: ele começou sua carreira escrevendo, produzindo e dirigindo filmes do ciclo blaxploitation, aquelas produções estreladas por negros e destinadas ao público negro, que na primeira metade dos anos 70 davam um dinheirão (e eram politicamente incorretas até a medula).


É até irônico que um "branquelo" como Larry Cohen esteja por trás de alguns dos filmes mais bem-sucedidos do período. Mas ele já estreou no cinema com uma produção black, "Bone" (1972), estrelada por Yaphet Kotto.

E seu primeiro sucesso, igualmente um blaxploitation, veio já no ano seguinte: "O Chefão de Nova Iorque", aka "Black Ceaser", estrelado por um jovem Fred Williamson (o filme foi relançado em DVD recentemente com o estúpido título "O Chefão do Gueto").

Uma versão mais escurinha dos filmes de gângster dos anos 30 - como o "Scarface" de Howard Hawks e principalmente "Alma no Lodo", de Mervyn LeRoy (cujo título original, "Little Ceaser", é citado de forma escancarada) -, "O Chefão de Nova Iorque" deu tanta grana que Samuel Z. Arkoff, o cabeça da American International Pictures (AIP) e produtor do filme, praticamente OBRIGOU Cohen a fazer uma sequência meses depois.


Resumidamente, foi assim a gênese de INFERNO NO HARLEM, uma obra barata, feita às pressas com o único objetivo de ganhar dinheiro, e cujo resultado o próprio diretor-roteirista hoje renega, alegando que não é dos seus trabalhos mais inspirados.

Mas, nesses tempos de Zack Snyder e Michael Bay, até mesmo um Larry Cohen fraco sai-se melhor que a média.

No caso de INFERNO NO HARLEM, a surpresa pode ser positiva caso você assista com o devido clima: sim, o filme é ruim, mas é MUITO DIVERTIDO em todas as suas falhas e problemas. Praticamente uma comédia involuntária, daquelas para reunir a turma na sala e ficar 1h30min dando gargalhada.


Para quem não lembra, ou não viu, "O Chefão de Nova Iorque" narrava a ascenção e queda de Tommy Gibbs (Williamson), um marginal fanfarrão (e negro, óbvio) que sobe na vida bandida eliminando os chefões de outras máfias, até virar o grande rei do crime no Harlem. Bandidão do bem, ele não se mete em negócios "sujos", como drogas, e inclusive ajuda a varrer os traficantes do bairro.

Porém, como aconteceu a Scarface e Little Ceaser antes, quando a subida é muito rápida, o tombo também vem rápido. Assim, o primeiro filme terminava com Gibbs sendo traído numa manobra dos seus adversários.


Andando por um beco, sozinho e na sarjeta, o ex-chefão era atacado, espancado e deixado para morrer por um grupo de novos marginais e candidatos a futuros reis do crime (uma ideia que seria reaproveitada, décadas depois, no final do nosso "Cidade de Deus").

Como não era possível continuar a história de Tommy Gibbs depois disso, o início de INFERNO NO HARLEM simplesmente descarta e reescreve a conclusão de "O Chefão de Nova Iorque" - numa daquelas típicas táticas desesperadas e questionáveis adotadas por produtores ávidos por grana fácil.


Agora, Gibbs não é mais espancado até a morte por marginais no beco, mas sim sobrevive a um atentado realizado por seus inimigos. E, ferido por um tiro no peito, é levado ao hospital por alguns homens de confiança. É a partir dali que se desenrola a história dessa sequência.

Depois de recuperar-se do atentado, Gibbs resolve retomar o controle do crime no Harlem e vingar-se de todos os seus inimigos, inclusive a ex-esposa Helen (Gloria Hendry), que ajudou no planejamento do atentado da cena inicial.

Quase todos os personagens de "O Chefão de Nova Iorque" estão de volta nessa nova "aventura": Tommy Gibbs, sua ex-esposa, o reverendo (e ex-matador) Rufus (interpretado por D'Urville Martin) e o pai do protagonista, Papa Gibbs (Julius Harris, mais conhecido como o vilão com garra metálica de "Com 007 Viva e Deixe Morrer", filmado no mesmo ano de 1973).


Já os desafetos do "Black Ceasar" são novinhos em folha, até porque ele tinha liquidado quase todos os seus inimigos no final de "O Chefão de Nova Iorque".

Um deles é Zach, um membro da sua própria gangue que vira a casaca (interpretado por Tony King, posteriormente visto em filmes italianos como "The Last Hunter" e "Os Caçadores de Atlântida").

O outro é o ardiloso e corrupto promotor DiAngelo (Gerald Gordon), esse um branquelo, óbvio. Foi DiAngelo o verdadeiro responsável por arquitetar o atentado contra Gibbs no início do filme, para ver-se livre do bandidão e poder ele mesmo controlar o crime em Nova York.


INFERNO NO HARLEM não esconde em momento algum o fato de ser uma produção feita na corrida para aproveitar a bilheteria do original.

Cohen confessadamente rodou o filme sem o menor empenho, enquanto filmava, simultaneamente, um dos seus grandes clássicos, "Nasce um Monstro", que foi lançado no ano seguinte (1974).

O esquema de trabalho do cineasta era absurdo: ele gravava cenas de "Nasce um Monstro" de segunda a sexta-feira, e deixava o final de semana para filmar INFERNO NO HARLEM!


Para piorar, o astro Fred Williamson não estava disponível em tempo integral, pois, com o sucesso de "O Chefão de Nova Iorque", foi contratado para estrelar "That Man Bolt", de Henry Levin e David Lowell Rich.

O problema: as filmagens de "That Man Bolt" e INFERNO NO HARLEM aconteceram NO MESMO PERÍODO, só que um filme estava sendo rodado em Los Angeles e o outro no Harlem, em Nova York!

Qualquer outro produtor menos insano teria adiado INFERNO NO HARLEM em alguns meses até Williamson estar finalmente disponível, mas Cohen e sua turma não queriam deixar o interesse pelo original esfriar.


Assim, como só podia dispor do seu astro quando ele tinha tempo livre nas filmagens do outro trabalho, o diretor usou um dublê parecido com Williamson (!!!), e rodou com este dublê a maior parte das cenas em que o personagem aparece de costas ou de longe, numa picaretagem das mais safadas!

Por sua vez, os closes do ator "verdadeiro" foram todos filmados em Los Angeles, nos intervalos da filmagem de "That Man Bolt", e depois editados com as cenas do dublê. Desnecessáro dizer que a "solução" nem sempre funciona...

Tudo isso ajuda a criar uma certa "aura de culto trash" em torno de INFERNO NO HARLEM. Afinal, a produção é tão problemática, e foi feita tão "nas coxas", que só por isso já vale uma olhada, nem que seja para tentar identificar todas as cenas em que Fred Williamson é substituído pelo dublê - que, segundo o próprio ator, não se parecia nadinha com ele, à la dublê de Bela Lugosi em "Plan 9 From Outer Space"!


Mas não fica só nisso: o filme todo é desleixado, mal-filmado e mal-editado, um verdadeiro caos. Por exemplo, se tirarmos todas as cenas que apenas mostram os personagens caminhando de um ponto a outro para matar tempo, a duração da obra baixaria de 94 minutos para 50, no mínimo.

E nada pode ser mais porco que o ataque da gangue de Gibbs a um grupo de traficantes de drogas orientais. Talvez a idéia fosse aproveitar a febre dos filmes de artes marciais no Ocidente, mas não colou: a cena é filmada com a câmera sacudindo, mais que num filme do Michael Bay, provavelmente para que o espectador não possa perceber como é tosca e pobre a coreografia das "lutas" entre os bandidos.


Continuando nesse ritmo trash, é impossível não citar a cena ABSURDA em que Gibbs persegue o traidor Zach até o aeroporto, mas seu inimigo consegue entrar no avião e fugir para Los Angeles. Quando o protagonista chega no aeroporto, o avião com seu rival já decolou. Tranquilamente, Gibbs compra uma passagem para o próximo vôo, entra no seu avião, decola, enfrenta um inimigo no interior da aeronave, pousa e, MIRACULOSAMENTE, encontra o homem que estava perseguindo chegando no mesmo aeroporto naquela mesma hora, apesar do vôo do sujeito ter decolado pelo menos meia hora antes que o dele! E você que achava que só no Brasil o serviço das companhias aéreas atrasava tanto, né?

Apesar de todas essas baboseiras, que geram sonoras gargalhadas involuntárias, INFERNO NO HARLEM também tem algumas ótimas qualidades. O nível de violência, por exemplo, está no mesmo patamar do original, com sangrentos tiroteios em que ainda se usa aquele sangue bem vermelhão, tipo o dos filmes de Dario Argento.

Além disso, mesmo numa produção inegavelmente tosca e ruim como esta, Cohen consegue espalhar uma série de pequenos momentos que são absolutamente geniais, e que hoje fariam surtar esse pessoal que policia o politicamente correto no cinema.


Um deles é o ataque da gangue de Gibbs a um grupo de mafiosos (brancos) que se diverte numa mansão à beira-mar. No meio do tiroteio dos diabos, até a empregada dos branquelos, vestida com sua tradicional roupinha de doméstica, pega um trabuco para passar chumbo nos patrões, e com um sorriso escancarado nos lábios!

Nessa mesma cena, Tommy é surpreendido pelas habilidades em artes marciais de uma insuspeita garota de biquíni (!!!). Após cair no chão, atordoado pelos chutes que levou da garota, nosso protagonista simplesmente levanta e, sem um pingo de sutileza, esquece o ditado "Em mulher não se bate nem com pétala de rosa" e dá uma voadora na fuça da gostosa karateka, que vai a nocaute instantaneamente!


E o público negro deve ter vibrado na cena em que o personagem de Williamson recebe voz de prisão de dois policiais (brancos). A reação do rei do crime é encher ambos de sopapos até caírem na calçada. Depois, gentilmente ajuda os policiais a levantar e "se rende" para ser levado à delegacia!

Na conclusão, Gibbs também despacha seu inimigo DiAngelo em grande estilo. (SPOILER) Numa espécie de vingança contra os linchamentos promovidos pela Ku Klux Klan, o protagonista enforca seu rival numa árvore enquanto grita: "Vou te tornar famoso, DiAngelo. Você vai ser o primeiro branco a ser enforcado por um negro!". (FIM DO SPOILER)

O próprio Cohen se arrependeria da cena posteriormente: na faixa de comentário que acompanha o DVD gringo, ele diz que até o público negro ficou indiferente, meio chocado, nas salas de cinema, ao invés de vibrar com o "linchamento ao contrário".


INFERNO NO HARLEM vale por esses momentos preciosos e pelos inúmeros problemas de uma produção apressada (e que não tenta esconder isso em momento algum). É praticamente uma aula de cinema improvisado e de como um diretor pode usar muita criatividade (e cara-de-pau) para contornar as maiores dificuldades, como a ausência do seu ator principal.

E não foge à regra da maioria dos filmes blaxploitation daquela época áurea: hoje, nesses tempos cheios de frescuras e "não-me-toques", obras sem medo de ousar e de ir longe demais, como esse INFERNO NO HARLEM, são uma verdadeira curtição.

No ano seguinte (1974), o sucesso de crítica e público de "Nasce um Monstro" pôs Cohen em outro caminho (o cinema fantástico), onde ele se mostraria igualmente talentoso.


Porém, fiel às origens, o diretor sempre deu um jeitinho de homenagear suas raízes blaxploitation ao colocar ícones da época, como Richard Roundtree (o próprio Shaft!), em seus filmes posteriores.

Finalmente, em 1996, o diretor tentou homenagear o ciclo blaxploitation com "Original Gangstas / Hot City", no Brasil rebatizado "Justiceiros de Rua". O filme foi um fracasso, mas é uma rara oportunidade de rever astros e estrelas do ciclo (envelhecidos, claro), como Fred Williamson, Jim Brown, Pam Grier e Richard Roundtree.

PS: Quem achou super-hiper-mega-ultra criativo o padre assassino de Cheech Marin em "Machete" talvez se decepcione ao saber que INFERNO NO HARLEM tem um personagem idêntico. Tudo bem, Robert Rodriguez, você está apenas 37 anos atrasado...

Trailer de INFERNO NO HARLEM



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Inferno no Harlem (Hell Up in
Harlem, 1973, EUA)

Direção: Larry Cohen
Elenco: Fred Williamson, Julius Harris, Gloria
Hendry, Margaret Avery, D'Urville Martin, Tony
King, Gerald Gordon e James Dixon.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL (1992)


Hoje, amiguinhos, o FILMES PARA DOIDOS tem uma missão difícil: tentar redimir o maior fracasso comercial da carreira do mestre John Carpenter, e provavelmente o seu filme mais criticado.

Estamos falando de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL, comédia que o criador de "Halloween" e "Fuga de Nova York" filmou em 1992. Não é exagero dizer que esse é um dos filmes mais odiados de um cineasta cuja filmografia é quase irretocável, com raras obras fracas e muitos títulos memoráveis.


Mas Carpenter nunca teve sorte quando trabalhou com grandes estúdios e grandes orçamentos. Parece até maldição: "O Enigma do Outro Mundo" (1982) mal recuperou, nas bilheterias, a grana que custou, enquanto "Os Aventureiros do Bairro Proibido" (1986) foi um fiasco tão grande nos cinemas que fez o diretor voltar às produções independentes jurando nunca mais comandar um blockbuster.

"O Príncipe das Sombras" e "Eles Vivem" (respectivamente de 1987 e 88) foram produções menores, mais baratas e mais bem-sucedidas. Mas aí, quatro anos depois, a Warner sacudiu um maço de verdinhas diante de Carpenter e o diretor resolveu sair do exílio para dirigir sua produção mais cara até então.

A gênese de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL não foi simples. Esse talvez seja o projeto mais impessoal de Carpenter (que, por isso, não colocou seu tradicional "John Carpenter's" sobre o título). Quem mandou e desmandou na produção, além da Warner, foi o astro do filme, Chevy Chase.


Chevy é um rosto que ficou marcado em comédias dos anos 80, principalmente a franquia "Férias Frustradas". A exemplo de outros colegas do humor da época (especialmente Bill Murray), ele estava ficando velho e queria dar um novo rumo, mais sério, à sua carreira.

Em 1986, o ator comprou os direitos sobre o livro "Memoirs of an Invisible Man", de H.F. Saint, uma bem-humorada variação do tema, sobre um corretor da bolsa que fica invisível após um acidente de laboratório e precisa fugir da CIA, que pretende usá-lo como arma de guerra.

A primeira versão do roteiro foi escrita pelo veterano William Goldman e oferecida a diretores como Ivan Reitman, mas nenhum estúdio tinha interesse em bancar o projeto porque achavam que o público não queria ver Chevy Chase num papel mais sério.


Finalmente, em 1990, o material acabou nas mãos de Carpenter e ele aceitou a missão, mas exigiu mudanças para que o filme virasse mais uma fantasia de humor negro. Robert Collector e Dana Olsen reescreveram totalmente aquele primeiro roteiro de William Goldman.

Em MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL, Chevy interpreta Nick Halloway, um corretor que, durante uma ressaca infernal, vai participar de um seminário num grande laboratório e acaba adormecendo no banheiro.

Só que uma experiência dá errado e metade do edifício, inclusive o pobre Halloway, ficam invisíveis. A imagem do prédio com vários pedaços faltando é uma das grandes cenas do filme.


Quando nosso herói acorda e descobre o que lhe aconteceu, sua primeira providência é procurar ajuda. Só que as intenções do agente da CIA David Jenkins (Sam Neill, ótimo) não são das melhores.

Sem nenhuma intenção de tornar-se rato de laboratório, Halloway foge - apenas para descobrir que a vida de homem-invisível não é nada divertida, e muito solitária. Principalmente quando ele lembra que tem encontro marcado com uma documentarista gatíssima (interpretada por Daryl Hannah) e não pode aparecer - literalmente!


A idéia de Carpenter (com as bênçãos de Chevy, na sua tentativa de ser "mais sério") era dar mais destaque ao drama da solidão provocada pela invisibilidade e menos às palhaçadas cometidas pelo homem-invisível, embora ainda existam umas cenas bem divertidas.

Mas o resultado dividiu o público e a crítica: o filme não é tão engraçado quanto esperavam os fãs de Chevy Chase, e nem tem tanta ação e suspense quanto queriam os fãs de John Carpenter. Por causa disso, a produção de 40 milhões de dólares foi um fiasco de bilheteria, mal arrecadando 14 milhões.


Se quiser ter uma ideia do quanto MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL é odiado, tente procurar por alguma crítica positiva na internet. Eu mesmo não tinha boas recordações do filme, e lembrava dele apenas como uma comédia estúpida e pouco inspirada.

Foi revendo-o agora que mudei meu conceito. Mesmo muito distante dos grandes filmes de Carpenter, MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL tem ótimas qualidades e efeitos especiais que continuam funcionando mesmo depois do seu "primo milionário", "O Homem Sem Sombra", de Paul Verhoeven - outra história contemporânea sobre invisibilidade, mas cujo roteiro eu acho bem pior do que o do filme do Carpenter.


Para quem conhece bem a obra do diretor, essa comédia-aventura-suspense não parecerá um trabalho tão impessoal assim. Afinal, ainda que o filme eventualmente se renda ao humor, o que se vê é um perfeito exemplo do gênero fantástico, com ótima utilização de criativos efeitos e trucagens para "dar vida" à invisibilidade do protagonista.

Acontece que o acidente no laboratório não deixa apenas o protagonista invisível, mas também suas roupas (eliminando o trabalho de ter que andar pelado para desaparecer). Porém, coisas que "entram" no corpo invisível do protagonista, como comida, água ou a fumaça de um cigarro, tornam o interior do seu organismo visível, o que rende cenas muito interessantes - principalmente o vômito visto "por dentro" ou a fumaça do cigarro moldando os pulmões de Nick.


Ao mesmo tempo, Carpenter narra uma história de suspense - a caçada dos agentes ao protagonista -, que lembra vários dos seus filmes anteriores em que um personagem solitário precisa enfrentar a caçada sem tréguas dos representantes do governo (de "Starman" a "Eles Vivem").

Uma das grandes críticas a MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL ironiza o fato de Chevy Chase continuar aparecendo durante boa parte do filme, mesmo quando deveria estar invisível, forçando o espectador a "imaginá-lo" invisível.

Por mais que isso realmente possa parecer uma grande falha, a maioria das cenas em que o astro continua "aparecendo" justifica-se plenamente. E não só pelo fato de que não adiantaria nada ter um ator famoso para usar apenas a sua voz na maior parte do filme.


Acontece que diversas cenas só fazem sentido quando VEMOS o homem-invisível (novamente, por mais que isso pareça idiota). Por exemplo, a cena em que Halloway usa suas mãos para abrir e fechar a boca de um homem desacordado (para poder "dublá-lo" durante uma corrida de táxi) perderia totalmente a graça e a função de existir caso não víssemos Chevy Chase fazendo isso com o pobre sujeito, IMAGINANDO que ele está invisível embora possamos vê-lo.

O mesmo vale para o momento, perto do final, em que Halloway tira e segura seu casaco (sujo de cimento, e, portanto, "visível") para enganar seu perseguidor. A cena não teria o mesmo impacto caso não VÍSSEMOS o homem-invisível (sim, isso soa estúpido).


E quer saber? Essa reclamação também não tem muito fundamento, porque em boa parte de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL o protagonista realmente não aparece, num festival de efeitos especiais ainda surpreendentes envolvendo roupas que andam "sem corpo".

Segundo disse Carpenter numa entrevista posterior, foi a tecnologia desenvolvida para o seu filme que originou os efeitos fantásticos de várias produções que vieram depois, como apagar as pernas de Gary Sinise em "Forrest Gump".


Há ainda um belíssimo momento em que a amada de Halloway resolve devolver um rosto ao protagonista com o uso de maquiagem - e, por alguns momentos, tudo o que vemos é um "rosto flutuante" e inexpressivo.

Boa parte do filme enfoca justamente essa insólita relação amorosa entre a personagem de Daryl Hannah e um homem que ela não consegue ver (a não ser durante uma chuva, em outro momento muito bonito).

E também a dura vida de homem-invisível, que pode espionar os outros sem ninguém saber (o que é divertido), mas ao mesmo tempo pode descobrir o que seus amigos realmente pensam dele ou acompanhar uma broxante cena de sexo (o que definitivamente NÃO é).


Alguns críticos mais "sérios" poderão enxergar o filme como uma metáfora sobre como o indivíduo se torna "invisível" numa sociedade moderna altamente competitiva, já que o pobre Nick Halloway não era notado por ninguém ANTES de ficar invisível, justamente por levar uma vida insignificante. Mas eu não chegaria tão longe: para mim, pessoalmente, a obra funciona mais como aventura descompromissada do que qualquer outra coisa.

Infelizmente, Carpenter também tem a história de suspense (envolvendo a perseguição de Halloway) para contar, e é essa parte que tira um pouco do brilho da história. Acredito que MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL ficaria bem melhor caso se concentrasse mais nas dificuldades do protagonista para viver invisível, já que ele não pode nem comer porque seria descoberto - já que a comida em seu estômago continua visível!


Mas, no fim, o resultado dessa mistura não é nada desprezível, muito menos tão horroroso quanto eu lembrava. O próprio Carpenter declarou exatamente isso, que o filme não é tão ruim quanto ele achava que era, porém foi um fracasso mesmo assim.

O fiasco comercial quase enterrou a carreira do diretor e do astro: Chevy nunca mais conseguiu bons papéis e acabou preso à série "Férias Frustradas" (seu último filme memorável - ainda que ruim - é "Férias Frustradas em Las Vegas", de 1997). Já Carpenter voltou a ser "independente" e ficou três anos remoendo o fracasso até voltar com o superior "À Beira da Loucura".


Ainda que tenha defeitos óbvios (principalmente a falta de atenção com personagens secundários, como o "melhor amigo" de Nick), MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL é um filme que eu recomendo para revisão - principalmente por quem também viu na época do lançamento e não tem boas lembranças.

O tempo e o amadurecimento às vezes fazem justiça a algumas produções, e eu diria que essa simpática "comédia fantástica" de John Carpenter é um desses casos. E, bem, muito melhor que o remake "A Cidade dos Amaldiçoados", esse sim um indiscutível ponto fraco da carreira do diretor!

PS: Duas piadas internas. Primeiro, a cidade onde fica o laboratório chama-se Santa Mira, a mesma cidade (fictícia) de "Vampiros de Almas" e "Halloween 3" (esse último produzido por John Carpenter). E a personagem de Daryl Hannah supostamente voltou do Brasil, sendo que a própria atriz estava filmando no Brasil no ano anterior a MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL (o filme era "Brincando nos Campos do Senhor", de Hector Babenco).

Trailer de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL



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Memórias de um Homem Invisível
(Memoirs of an Invisible Man, 1992, EUA)

Direção: John Carpenter
Elenco: Chevy Chase, Daryl Hannah, Sam Neill,
Michael McKean, Stephen Tobolowsky, Jim Norton,
Pat Skipper e Patricia Heaton.