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segunda-feira, 10 de março de 2014

VEIO DO INFERNO (1957)


Ao longo dos anos, filmes de ficção científica e horror transformaram em ameaças mortais praticamente todos os exemplares da nossa fauna - dos animais mais óbvios, tipo ursos, baleias e tubarões, até inofensivas formiguinhas e fofuxos coelhinhos. Mas o mesmo não aconteceu com os exemplares de nossa flora, salvo raras exceções, como a famosa planta carnívora Audrey, de "A Pequena Loja dos Horrores" (1960), e as plantas alienígenas assassinas de "O Terror Veio do Espaço" (1963), entre outras.

O motivo para tamanha discriminação é bem óbvio: até as diminutas e inofensivas formiguinhas têm maior capacidade de locomoção do que uma PLANTA, que, salvo boa dose de criatividade dos roteiristas, simplesmente fica lá enraizada e imóvel, sem oferecer risco algum. Um dos maiores argumentos para o ridículo que uma ameaça vegetal representa é VEIO DO INFERNO, um daqueles filmes que você simplesmente não acredita que alguém teve a cara-de-pau de fazer... e a sério!


Pois a grande ameaça de VEIO DO INFERNO atende pelo nome de TABANGA (grafado como "Tabonga" e até "Tobunga" em algumas fontes), e vem a ser uma árvore demoníaca assassina que ataca os nativos e cientistas de uma lha dos mares do Sul! Visualmente, a criatura lembra um antepassado tosco do Monstro do Pântano, mas sem a mesma agilidade do personagem dos quadrinhos (e sem 1% do interesse dele, também).

O maior problema é que sendo uma árvore, e de tamanho considerável, a terrível Tabanga não tem grande poder de locomoção (NENHUM poder de locomoção, a bem da verdade), e "anda", sendo generoso, a uns 2km/h - você quase consegue visualizar lesmas reumáticas e tartarugas com as patas engessadas ultrapassando em disparada a praticamente inofensiva vilã vegetal!


Por causa desse "pequeno detalhe", Tabanga é simplesmente um dos monstros mais ridículos e menos ameaçadores do cinema de horror de todos os tempos, e os diretores e roteiristas tiveram que rebolar para criar as cenas de ataque da criatura - já que até uma velhinha de 100 anos com duas muletas poderia escapar facilmente de Tabanga.

O resultado é um filme tão ruim que inspirou uma das melhores resenhas da história, em que o crítico norte-americano Ed Naha resumiu: "From Hell It Came? Send it back!" (Veio do Inferno? Manda de volta pra lá!).


VEIO DO INFERNO é a segunda e última produção conjunta dos Irmãos Milner, dois esforçados realizadores que tentaram encontrar seu lugar ao sol no universo dos filmes baratos de ficção científica e horror dos anos 50, mas não foram muito bem-sucedidos (embora suas tralhas sejam lembradas, vistas e analisadas até hoje). Antes deste, eles tinham feito o igualmente infame "The Phantom from 10.000 Leagues" (1955), sobre um monstro marinho gerado pela radiação.

Dan Milner, que assina a direção, trabalhava como editor desde os anos 1930, e, ao abandonar os filmes de horror, acabou arranjando um prolífico bico na montagem (e direção, segundo algumas fontes) dos programas do Palhaço Bozo lá nos Estados Unidos; já seu irmão Jack aqui assina a produção, a edição e o roteiro (este em parceria com Richard Bernstein), e terminaria a carreira no departamento de som de diversos seriados de TV.


A trama se passa numa ilha em algum lugar do Oceano Pacífico, e já começa com uma bela amostra da pobreza da produção e do desinteresse dos realizadores em pesquisar os costumes das tribos daquela região. Os índios são atores norte-americanos com a pele escurecida, que falam inglês e vestem roupas que parecem retalhos de cortinas ou toalhas de mesa com estampas floridas (acima). Já vi teatrinhos de colégio com índios melhor caracterizados que estes do filme!

A tal tribo dos Mares do Sul está preparando o sacrifício de Kimo (Gregg Palmer, que parece mais um surfista do que um nativo dos Mares do Sul), que é acusado de ter matado o próprio pai (que era o antigo chefe) e também de se envolver com os "homens brancos" que chegaram à ilha - médicos e cientistas que estão no local estudando os efeitos de testes nucleares realizados nas proximidades.


Amarrado ao chão, Kimo protesta dizendo que seu pai foi assassinado num complô organizado pelo atual chefe, Maranka (Baynes Barron), e pelo feiticeiro Tano (Robert Swan). Mas, para o azar do rapaz, sua própria esposa Korey (Suzanne Ridgeway, eterna figurante de produções classe A de Hollywood) testemunha contra ele, já que também está mancomunada com os conspiradores.

Percebendo que seu destino está traçado, o inocente nativo amaldiçoa seus algozes: "Eu vou voltar do Inferno para fazer com que paguem por seus crimes!". Dito isso, é executado de maneira violenta: um dos índios dá uma cacetada no punhal que outro nativo segura sobre o coração de Kimo, enterrando-o bem fundo. E embora a cena "corte" antes de mostrar o desfecho da paulada, confesso que me deu um arrepio semelhante ao momento em que a máscara é enterrada no rosto de Barbara Steele no início do clássico "A Máscara de Satã", de Mario Bava!


O finado Kimo é colocado num caixão de madeira (???), ainda com o punhal cerimonial enfiado no coração (aposto que os índios têm vários punhais cerimoniais de reserva para futuros sacrifícios), e rapidamente sepultado na vertical (???) no velho cemitério da tribo. Toda essa cena do sacrifício comprova a exaustiva pesquisa antropológica feita pelos realizadores, que misturaram rituais de vodu, tambores africanos e até garotas dançando "hula", tudo isso numa suposta tribo dos Mares do Sul!

É quando o filme finalmente apresenta nossos protagonistas: o médico William Arnold (Tod Andrews, que parece um Humprey Bogart dos pobres) e o antropólogo Clark (John McNamara), os tais cientistas que trabalham num laboratório perto da aldeia. Como as relações com os nativos azedaram depois da morte do antigo chefe, e muitos índios continuam morrendo por consequência da radiação dos testes nucleares, um terceiro integrante é enviado para a ilha, a Dra. Terry Mason (Tina Carver) - que, aparentemente, não tem nenhum grau de parentesco com o famoso advogado Perry Mason.


Terry e Arnold tiveram um breve relacionamento no passado, e isso é a desculpa para toda a "parte novelão" de VEIO DO INFERNO. Durante uns bons 20 minutos, o médico ficará incomodando a pobre mocinha e colocando pressão forte com frases machistas que eram normais na época, mas, hoje, fariam qualquer feminazi chutar a televisão - tipo "Você não pensa em marido e filhos, como todas as outras mulheres?", ou "Por que você não pára de ser médica antes e mulher depois?".

Aí, quando o espectador já está quase fechando os olhos de sono com tamanha enrolação e chauvinismo, os primeiros brotos de Tabanga, a árvore assassina em que o vingativo Kimo se transformou, começam a nascer no solo do cemitério indígena, justamente no local em que o nativo foi sepultado! (E é realmente muito engraçado pensar em Kimo como a "semente" de onde brota Tabanga!!!)


Terry é a primeira a perceber o fenômeno (um tronco que cresce a uma velocidade absurda e tem feições humanas!), e insiste que os colegas devem estudar aquela estranha planta. Bill, como todo cientista de filme B, preferia destruir logo a criatura com fogo, mas é voto vencido. Assim, os cientistas desenterram Tabanga e levam a árvore-monstro para o seu laboratório, onde Terry descobre que o vegetal tem... BATIMENTOS CARDÍACOS!

Mas nenhum dos personagens demonstra uma mínima reação de surpresa diante do fenômeno, como se toda árvore fosse assim. Inclusive a médica acredita que a bizarra planta está morrendo, e pede a ajuda dos colegas para reanimá-la. "Eu não sou cirurgião de árvores", protesta Bill, mais sério do que deveria ao soltar uma frase imbecil como essa. Terry resolve administrar um "soro estimulante experimental" (cof, cof, cof!) na planta, já que ela tem sistema circulatório muito parecido com o de um ser humano (!!!).


Feito isso, o trio sai para cuidar de suas vidas; na volta ao laboratório, eles encontram o local completamente destruído. E não há nenhum sinal de Tabanga, o que quer dizer que o tal soro estimulante experimental saiu melhor que a encomenda, e agora o monstro-árvore do Inferno está livre para se arrastar por aí e finalmente dar início à vingança prometida por Kimo lá no começo do filme (que parece ter acontecido há um século).

Pena que o soro não "estimule" a criatura tão bem assim, e ela continue se locomovendo a uma velocidade absurdamente reduzida para pelo menos parecer ameaçadora. Com isso em mente, os realizadores filmaram duas cenas diferentes em que garotas indefesas se encostam propositalmente na árvore assassina pensando ser uma árvore inofensiva (que conveniente!), poupando Tabanga do trabalho de arrastar-se com dificuldade atrás delas. E se duvida que possa ser tão ruim, confira o vídeo abaixo (que, apesar de parecer, não está em câmera lenta, é desse jeito mesmo!):


"Killing me softly... and slowly!"



Em outra cena ainda pior, o novo chefe usurpador do trono da tribo está afiando sua lança enquanto Tabanga começa a se aproximar dele por trás (hmmm...), e o sujeito não escuta o menor ruído, sendo que aquele monstrengo destrambelhado provavelmente está fazendo barulho pra cacete enquanto se arrasta com dificuldade até sua vítima (talvez ele seja surdo).

É quando acontece o inevitável: Maranka se vira muito em cima da hora e tenta usar sua lança no monstro-árvore. Mas, apesar de estar a apenas 20 centímetros do alvo, o nativo erra e a lança passa por cima de Tabanga (!!!). Para piorar, com toda uma imensidão de floresta para onde correr, o burraldo consegue a façanha de encostar-se numa outra árvore, esta fixa, ficando sem espaço para fugir, e sendo facilmente agarrado e morto pelo monstro. É mole?


Outros nativos parecem um pouquinho mais espertos e tentam destruir a criatura com fogo. Mas isso só deixa Tabanga ainda mais furiosa, embora ela continue se arrastando naquela velocidade entre "leeeeento" e "devagar, quase parando" (antecedendo, de certa forma, os assassinos de filmes slasher, tipo Jason, que mesmo andando devagarzinho sempre conseguem alcançar suas vítimas que saem em disparada!).

Felizmente, o homem branco Bill percebe o ponto fraco do monstro, que aquele o punhal cerimonial ainda cravado em seu tronco, lembra? Assim, ele conclui que a única forma de destruir Tabanga é empurrá-lo mais para dentro, de forma que atinja o seu coração (e não me pergunte de onde o sujeito tirou essa conclusão estapafúrdia). Mas e como chegar perto da terrível árvore assassina? Simples: basta ficar confortavelmente à distância e disparar um tiro certeiro que "empurre" o punhal mais para dentro!


VEIO DO INFERNO é um daqueles filmes tão ruins que até mesmo Ed Wood - injustamente imortalizado como o pior diretor de todos os tempos - teria vergonha de assinar. Por coincidência, Wood escreveu o seu próprio roteiro sobre planta assassina, "Venus Flytrap", que se transformou em um filme muito mais divertido (embora bem mais obscuro) dirigido por Norman Thomson em 1970.

O principal problema aqui é a falta de ritmo em todos os departamentos. Além de Tabanga não ser a mais ágil e ameaçadora das criaturas, a trama se arrasta de maneira sonolenta, colocando o monstro-árvore para atacar apenas aos 47 minutos (e isso que o filme só tem 70 minutos no total!). Durante a maior parte do tempo, o que vemos é Bill assediando Terry e os nativos zanzando para lá e para cá, temendo a anunciada vingança de Kimo.


Por isso, VEIO DO INFERNO provavelmente despencaria direto para o inferno do esquecimento, como muitas outras produções classe C da mesma época, se não fosse pela "gentileza" dos autores Harry e Michael Medved, que, em 1980, publicaram um divertido livro chamado "The Golden Turkey Awards". A obra é uma coletânea do pior do cinema mundial, e uma das grandes responsáveis por ressuscitar o então esquecido Ed Wood ao dar-lhe o título de "pior diretor de todos os tempos".

Eis que o livro dos Irmãos Medved também desenterrou a patética Tabanga, indicando a criatura ao "prêmio" de "Monstro mais ridículo da história do cinema", ao lado de concorrentes igualmente toscos como os monstrengos de "A Mulher de 15 Metros" (1958), "The Alligator People" (1959), "The Creeping Terror" (1964), "Gamera" (1965) e "Robot Monster" (1953), cujo gorila com escafandro de mergulhador ficou com o título.


Num daqueles fenômenos da cultura popular que volta-e-meia acontecem, "The Golden Turkey Awards" provocou não um distanciamento das obras eleitas como "piores", mas sim uma entusiasmada corrida de cinéfilos para conhecer estes títulos fuleiros analisados com tanto esmero. Logo, Tabanga e VEIO DO INFERNO ganharam uma segunda chance e o status de "cult", que sobrevive até hoje.

Vale ressaltar que o design da criatura foi feito pelo lendário criador de monstros da época Paul Blaisdell, o mesmo responsável pelo tosquíssimo alienígena venusiano Beluah, de "It Conquered the World" (1956), de Roger Corman, uma obra-prima do cinema trash que em breve também dará o ar de sua graça aqui no FILMES PARA DOIDOS.


Mas a culpa não é toda dele: Blaisdell fez apenas alguns esboços da árvore assassina para os Irmãos Milner, que depois levaram os desenhos do artista para o Don Post Studios construir um traje de borracha que pudesse ser vestido por um dublê (o lutador profissional Chester Hayes), alterando bastante o design original de Tabanga. O resultado é aquilo que se vê na tela: um monstrengo tosco e nada ameaçador que poderia até fazer figuração em alguma produção da Disney - ou aparecer entre os simpáticos "Ents" da série "O Senhor dos Anéis".

Mas não se engane: apesar do monstro atrapalhado, e dos seus risíveis ataques a patéticas vítimas que não conseguem escapar de uma criatura que se locomove a 2km/h, VEIO DO INFERNO é bem menos divertido do que poderia ser, e bem pior do que parece.


A curiosidade por ver uma árvore assassina em ação não sobrevive à narrativa arrastada, e os momentos de humor involuntário não compensam as péssimas piadas "voluntárias", principalmente aquelas que envolvem o alívio cômico feminino interpretado por Linda Watkins, que é irritante na sua falta de graça.

Talvez o filme funcione melhor pelas cenas isoladas, e nesse caso eu recomendo que o leitor procure pelos "melhores momentos" no YouTube ao invés de encarar a bagaça inteira. Ou que assista usando a tecla Fast Foward para passar os inúmeros tempos-mortos da narrativa antes da entrada em cena de Tabanga.

De qualquer forma, seja pela sua incompetência como monstro assassino, seja pela fama adquirida graças ao livro "The Golden Turkey Awards", Tabanga ganhou bem mais que os tradicionais 15 minutos de fama, mantendo-se até hoje "enraizada" na galeria das piores criaturas do cinema de horror classe B de todos os tempos. Não é pouca coisa - ainda mais para uma árvore assassina!


Trailer de VEIO DO INFERNO



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From Hell It Came (1957, EUA)
Direção: Dan Milner
Elenco: Tod Andrews, Tina Carver
, Linda Watkins,
John McNamara, Gregg Palmer, Robert Swan,

Chester Hayes e Suzanne Ridgeway.

segunda-feira, 3 de março de 2014

CYBORG COP II - O PIOR PESADELO (1994)


No caso de uma iminente invasão de andróides/cyborgs malignos, algumas pessoas certamente apelariam para Sarah Connor, de "O Exterminador do Futuro" 1 e 2, esquecendo que ela não sobreviveria nem 20 segundos a estes filmes caso não tivesse contado com a ajuda de Kyle Reese no primeiro e do T-800 bonzinho no segundo. Outros apelariam para Rick Deckard, de "Blade Runner", também esquecendo que a performance dele como "Caçador de Andróides" foi bem ruinzinha (matou dois de quatro e quase foi morto pelos inimigos umas 20 vezes!).

E é por isso, amiguinhos, que no caso de uma iminente invasão de andróides/cyborgs malignos eu apelaria primeiro para Jack Ryan. Não o Jack Ryan famosão dos livros de Tom Clancy e de filmes como "Caçada ao Outubro Vermelho" e "Perigo Real e Imediato", mas sim o Jack Ryan classe C interpretado por David Bradley na série "Cyborg Cop". Aquele que decapitou um robô malvado usando uma motocicleta em "Cyborg Cop - A Guerra do Narcotráfico", e que agora retorna com sua indestrutível pochete de couro em CYBORG COP II - O PIOR PESADELO!


Pois eis que algum tempo depois da sua aventura original, em que enfrentou o cientista louco e traficante Kessel e seus dois cyborgs (um deles construído com o corpo do seu próprio irmão, Phillip!), o "nosso" Jack Ryan volta para um segundo round. E dessa vez é obrigado a encarar não um, nem dois, mas um autêntico exército de cyborgs, produzidos não por um cientista louco e traficante, mas pelo próprio Governo dos Estados Unidos!

Trata-se, obviamente, de mais uma produção de baixíssimo orçamento, feita direto para o lançamento em videolocadoras, da Nu Image, que então buscava o título de "nova Cannon Pictures". A sequência saiu já no ano seguinte a "Cyborg Cop 1", em 1994, comprovando a visão de mercado que o pessoal da produtora tinha. E o melhor: como em time que está ganhando não se mexe, os produtores trouxeram de volta a dobradinha Sam Firstenberg na direção e David Bradley como herói, os mesmos nomes que encabeçavam a aventura original.


Fora isso, a pobreza continua a de sempre, com um roteiro ainda mais absurdo que o do original e risíveis "roupas" de cyborg e efeitos especiais, mas com explosões e tiroteios a rodo para disfarçar a falta de dinheiro (e criatividade) em outros departamentos.

Inclusive é tanta explosão (depois de um tempo até desisti de contar) que CYBORG COP II não faria feio perto de uma superprodução dirigida pelo Michael Bay - e ainda sai ganhando pelas suas explosões serem "reais", e não produzidas por computação gráfica, e pelo filme todo ter custado o equivalente a cinco minutos de um do Michael Bay!


CYBORG COP II já começa a 200 por hora, com um bandidão sádico e careca chamado Jesse Starkraven (Morgan Hunter, uma espécie de Arnold Vosloo dos pobres) invadindo uma refinaria de drogas de um traficante rival e tocando o terror, matando incontáveis figurantes e explodindo incontáveis pedaços de cenografia. O engraçado é a maneira como acontece o "ataque": Starkraven simplesmente coloca meia dúzia de capangas, até menos, na traseira de uma caminhonete e acelera pelo interior do depósito, passando fogo em dezenas de bandidos armados até os dentes. E nenhum desses consegue revidar e atingir algum dos invasores pelo menos de raspão - afinal, eles estão desprotegidos na traseira de uma caminhonete! -, ou sequer atingir um único tirinho no próprio veículo, que termina a batalha novinho em folha, como se nunca tivesse participado de um tiroteio infernal!


O engraçado é que quando parece que a batalha terminou, chegam agentes do D.E.A. (a Divisão de Narcóticos do Governo norte-americano) e o tiroteio infernal recomeça, dessa vez com Starkraven e seus capangas contra os homens da lei!

É quando entra em cena o grande herói Jack Ryan, montado em sua Harley Davidson, usando jaqueta de couro e óculos escuros. Ele aparentemente é um dos melhores homens do D.E.A., embora tenha sido expulso da agência em "Cyborg Cop 1" - tá, é bem possível que tenha sido readmitido depois de acabar com Kessel na aventura original, mas poderiam ter pelo menos incluído uma linha de diálogo explicando isso.


Ryan tem uma velha rixa com Starkraven (prendeu o irmão dele no passado, ou coisa que o velha), e o bandidão obviamente não vai deixar barato: depois de apanhar feio, o careca executa o parceiro do herói a sangue frio, com um tiro na cabeça, apenas para apanhar mais um pouco e quase ser morto por Ryan, que precisa ser contido pelos demais colegas. Mas a justiça triunfa e Starkraven é preso e condenado à morte dentro das leis. Final feliz, certo?

Errado! Ocorre que, por mais absurdo que possa parecer, o bandidão acaba sendo escolhido como cobaia para um programa de criação de cyborgs de uma agência secreta do governo, a ATG (Anti-Terrorist Group).

E se digo absurdo é porque não consigo encontrar nenhuma explicação lógica para os sujeitos usarem criminosos psicopatas e extremamente violentos como matéria-prima para a criação de cyborgs que deveriam lutar contra criminosos psicopatas e extremamente violentos como eles! Lembra daquela lógica estúpida do filme original, que mostrava um vilão transformando um policial bonzinho em cyborg para ser seu capanga e fazer maldades, sem imaginar que a "parte boa" dele prevaleceria no final? Pois é, a mesma lógica estúpida reaparece aqui, só que com os componentes trocados!


Enfim... Não demora para Jack Ryan (hehehe) descobrir que Starkraven sumiu da penitenciária onde deveria pagar pena antes da execução. Ele começa a investigar o paradeiro do arqui-inimigo, e, nesse ínterim, o agora robótico Starkraven "desperta" e inicia uma rebelião dos seus outros colegas mecânicos (pelo menos uma dúzia!) contra os cientistas responsáveis pelo projeto.

Livres dos frágeis humanos que os controlavam, os cyborgs assumem o controle de uma usina e se preparam para ameaçar o mundo com sua maldade cibernética... a não ser, claro, que o grande "caçador de cyborgs" Ryan os enfrente com armas de grosso calibre no esperado duelo final, que reserva mais uma rodada de incontáveis explosões e tiroteios!


Embora aparentemente tenha custado o mesmo que a aventura anterior, CYBORG COP II fica o tempo todo buscando um tom épico e grandiloquente, seja na quantidade de cyborgs malvados (em comparação ao único enfrentado pelo herói na primeira parte), seja na quantidade de lutas e explosões, sempre acompanhadas por uma trilha sonora exageradíssima que parece ter sido composta para outro filme (ou para um jogo de videogame).

Além disso, a sequência foi produzida numa época em que os filmes de John Woo eram bem populares, e seu estilo passou a ser copiado ad nauseam por todo mundo. Graças à "febre Woo", toda e qualquer cena de ação de CYBORG COP II, de pessoas alvejadas caindo de grandes alturas a carros capotando, acontecem em câmera lentíssima (rendendo momentos constrangedores, como esse aqui). Não faltam nem adversários apontando a arma um para a cara do outro, ou o herói disparando com duas pistolas, uma em cada mão (acho que só faltaram mesmo as pombas voando em câmera lenta, outra "Woozice" clássica).


E justamente por isso tudo, é irônico que esta sequência não seja tão boa quanto o original. Enquanto em "Cyborg Cop 1" ficava evidente que Firstenberg e cia. não estavam ligando muito para as limitações técnicas e orçamentárias, buscando apenas fazer um filme divertido, aqui já se percebe um tantinho mais de pretensão; inclusive o filme se leva muito mais a sério do que deveria, como se Firstenberg acreditasse ser Roland Emmerich dirigindo "Soldado Universal".

Enquanto "Cyborg Cop 1" era basicamente uma mistura de "Robocop" com "O Exterminador do Futuro", aqui o roteirista Jon Stevens adiciona outros dois filmes ao coquetel: "Robocop 2", na figura do vilão psicopata que é transformado em robô com consequências desastrosas, e o já citado "Soldado Universal", no qual parece ter se inspirado o tal programa do governo que transforma criminosos em cyborgs para combate ao terrorismo (inclusive um título alternativo do filme é "Cyborg Soldier", muito mais adequado).


Mas as referências não param por aí: a versão cibernética de Starkraven é rebatizada "Spartacus" e ele se torna o cabeça da rebelião de cyborgs, como o Spartacus mais famoso fez com os escravos/gladiadores; e os uniformes usados pelos robôs lembram muito o figurino dos alienígenas do clássico seriado "V", embora aqui na cor verde-militar, e não vermelho.

E se no "Cyborg Cop" original o título já era enganoso, pois o "policial-cyborg" mal aparecia (e nem era policial, mas sim um "agente do D.E.A.-cyborg"), aqui a coisa torna-se ainda mais ridícula, pois o que temos é um exército de criminosos cibernéticos e nenhum policial nessa condição. A não ser, claro, que o título tenha outro sentido, como se o próprio Jack Ryan fosse um "cyborg cop" (nesse caso, "policial de cyborgs", e não "policial-cyborg").


Eu só senti falta de mais referências ao original, já que CYBORG COP II tenta dar um mínimo de continuidade à trama ao trazer de volta não apenas o personagem de Bradley, mas também o garotinho Frank (Steven Leader), que no original era filho adotivo do seu finado irmão Phillip, e aqui reaparece sob a guarda do próprio herói - como um conveniente refém para os vilões, óbvio.

De resto, o roteiro não se preocupa em explicar como Ryan foi readmitido no D.E.A., nem coloca o herói para dizer alguma frase do tipo "Eu já lidei com esses bastardos cibernéticos antes!". E bem que algum dos cientistas do Governo poderia soltar que o projeto de "robotização" foi baseado nas experiências de Kessel, o vilão do primeiro filme. Daria um pouquinho mais de coerência e linearidade à continuação.


Um avanço em relação ao original é que, além de mais cyborgs, CYBORG COP II também traz modelos bem mais evoluídos do que o pobre Quincy de "Cyborg Cop 1". Enquanto aquele tinha umas faquinhas mixurucas que saíam da ponta dos dedos, num bizarro cruzamento de Freddy Krueger com T-800, os modelos atuais podem "trocar" uma das suas mãos por diferentes armas acopladas na altura do pulso, tipo metralhadoras, lança-chamas e até lança-foguetes. Assim, o poder de fogo dos vilões cibernéticos é muito maior e mais devastador.

O problema é que o filme parece não saber como aproveitar vilões tão poderosos. Depois que fogem do laboratório e tomam a usina, os robôs não fazem muita coisa além de invadir um posto de gasolina vagabundo e matar seus funcionários (?!?).


E embora o roteiro apresente os cyborgs como criaturas aparentemente indestrutíveis, capazes de aniquilar um batalhão de militares e policiais, eles são destruídos facilmente com explosivos no confronto final, quando Ryan une forças com a chefona da ATG (a ruivinha Jill Pierce) para dar um jeito na ameaça mecânica.

Pior: se no primeiro filme o ponto fraco do cyborg era a eletricidade, aqui os robôs têm um sistema de visão bem fuleiro que pode ser "embaralhado" com luzes muito fortes, tipo aquela gerada por simples sinalizadores (flares)! Mas peraí: qual é a vantagem de você gastar bilhões de dólares para construir cyborgs para enfrentar grupos terroristas se os tais terroristas podem acender uma tocha e embaralhar a visão das criaturas? Algo me diz que não deviam ter poupado verba justamente no departamento de visão eletrônica...


Outro grande defeito de CYBORG COP II é o fato de que o pobre herói Jack Ryan não encosta num único robô até os 50 minutos de tempo corrido, embora já tenha certa experiência em combater cyborgs. Até então, tudo que ele faz é investigar o paradeiro do seu arqui-inimigo Starkraven, e lutando apenas contra agentes do governo que mal oferecem resistência aos seus socos e voadoras.

Somente nos 35 minutos finais Ryan começa a enfrentar os cyborgs rebelados, e, como já mencionei, ele os liquida sem muita dificuldade, apesar de o roteiro inicialmente tratá-los como monstros praticamente indestrutíveis. Inclusive o herói poderia ter facilmente explodido o próprio Starkraven/Spartacus caso o vilão não tivesse o pequeno Frankie como refém. Pense numa conveniência de roteiro...


E como conveniência de roteiro nunca é demais, acho interessante destacar que os criminosos-cyborgs teoricamente são controlados pelos cientistas que os construíram graças a um pequeno terminal que levam no pulso como bracelete. E a revolução só começa no momento em que um dos humanos idiotas tira o tal bracelete do seu pulso para transar com uma garota NO PRÓPRIO LABORATÓRIO, permitindo que os cyborgs possam subjugá-lo!

Sei não, mas se um maldito bracelete é tudo que me protege de cyborgs assassinos e praticamente indestrutíveis, acho que seria uma ótima ideia NÃO TIRÁ-LO DO PULSO EM MOMENTO ALGUM, ainda mais na presença dos tais cyborgs assassinos e praticamente indestrutíveis!


Para completar, os efeitos são paupérrimos. Todos os cyborgs têm uma "placa peitoral mecânica" que mais parece a fachada de um Chevette, e aqueles explodidos por Ryan e sua parceria no ataque final à usina são manequins mais do que visíveis. Os realizadores nem se preocuparam em colocar manequins do mesmo tamanho ou na mesma posição que os "atores" substituídos de um take para o outro. Já a explosão da usina é encenada por meio de simpáticas miniaturas  Risadas garantidas!

(A propósito, agora que caiu a ficha aqui: por que diabos o exército simplesmente não bombardeou a usina de uma vez, destruindo automaticamente todos os cyborgs, e eliminando a necessidade de a dupla de heróis ir até lá para destruir um por um, arriscando a própria vida no processo? "Por causa do garoto feito refém", você pode até argumentar, mas NINGUÉM SABIA DISSO até os heróis chegarem na usina!)


A "trashice" se estende ao departamento de figurino. Não basta Jack Ryan reaparecer com a mesma pochete de couro preta que havia usado no original, e que já havia sido motivo de piada lá: eis que a viúva do parceiro do herói também surge com uma pochete idêntica (!!!), num detalhe completamente injustificável e que só pode ser algum tipo de piada interna.

Por sinal, Ryan só abandona a sua inseparável pochete preta no confronto final, mas confesso que fiquei na dúvida se ele realmente tinha tirado a dita cuja, ou se ela apenas ficou por baixo do cinturão com explosivos que o herói passou a usar. Até porque duvido que ele tenha abandonado sua amada e fiel pochete justamente naquele momento crucial!


Vale destacar também que o roteiro tenta transformar Jack Ryan num personagem muito mais malandrão e engraçadinho que o do original. Ele até fala "Freeze!" ao atingir um rival com o conteúdo de um extintor de incêndio. Mas, infelizmente, aqui o herói não tem oportunidade de demonstrar suas habilidades de Sexta Sexy como fez no primeiro filme, e a diretora da ATG é um interesse romântico bem apagado perto da jornalista bonitinha do original. E não aparece pelada.

Para tentar compensar (sem conseguir), Firstenberg mostra algumas garotas de topless trabalhando na refinaria de cocaína do início - supostamente para não "desviarem" parte da produção nas roupas, lembrando cena parecida do original e também de "A Fúria do Protetor".


O que importa é que, pela segunda vez, Jack Ryan dá conta do recado e controla a ameaça cibernética com eficiência. É uma pena que não tenha voltado na aventura seguinte, "Cyborg Cop III - Resgate Espetacular", de 1995, onde foi substituído por não um, mas dois heróis (interpretados por outros astros da ação classe C, Frank Zagarino e Bryan Genesse). Os motivos são desconhecidos, mas é possível que David Bradley não quisesse ficar com sua carreira marcada por Jack Ryan, como Sean Connery com James Bond e Harrison Ford com Indiana Jones (e sim, eu estou sendo irônico).

Outra falta mais do que sentida no terceiro filme é a de Sam Firstenberg. Ele deixou a direção para o fraquinho Yossi Wein, que foi diretor de fotografia das duas primeiras aventuras.


Embora mais fraco que o original no quesito diversão (mas alguns pontos acima no quesito ação e explosões, que aqui aparecem em número triplicado ou até quadruplicado), CYBORG COP II não é de todo desprezível e vale a espiada, especialmente para quem tem saudade desse tipo de ação old school, com tiroteios em câmera lenta e dublês sendo catapultados para longe por explosões. Eu certamente recomendo uma sessão dupla com o primeiro no lugar do remake de "Robocop" do José Padilha.

E mais: se nos anos vindouros realmente aparecerem os cyborgs produzidos pela Skynet, ou mesmo os Replicantes de "Blade Runner", Jack Ryan é o cara que eu quero ter no meu grupo de resistência para enfrentá-los!


Trailer de CYBORG COP II



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Cyborg Cop II - O Pior Pesadelo (1994, EUA)
Direção: Sam Firstenberg
Elenco: David Bradley, Morgan Hunter, Jill Pierce,
Victor Melleney, Douglas Bristow, Adrian Waldron,
Dale Cutts e Kimberleigh Stark.