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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LA VENGANZA DE LOS PUNKS (1991)


Punks não são uma raça fácil de lidar. Que o digam Mad Max e todos os personagens que levaram escarrada do Bob Cuspe na extinta revista Chiclete com Banana. Ou, ainda, policiais de filmes mexicanos. Esses útimos costumam comer o pão que o diabo amassou nas mãos dos punks (ou "pónks", como pronunciam com seu sotaque carregado), em aventuras rasteiras e absurdas ao estilo de "Intrepidos Punks", de Francisco Guerrero.

Eu resenhei "Intrepidos Punks" aqui no FILMES PARA DOIDOS em maio de 2010. Na época, fiquei surpreso ao descobrir a existência de uma sequência de 1991. Então eis aqui os punks mexicanos de volta ao blog!


LA VENGANZA DE LOS PUNKS só trocou o diretor. No lugar de Guerrero, quem comanda o show é o débil mental Damián Acosta Esparza, o mesmo doido varrido que dirigiu "El Violador Infernal".

De resto, volta praticamente a mesma turma de "Intrepidos Punks", do herói (Juan Valentín) ao grande vilão, interpretado pelo lutador mascarado de luta livre El Fantasma! Até mesmo personagens bem secundários estão de volta, revelando que os "pónks" cinematográficos mexicanos são mesmo uma grande família unida!


Só não aparecem nesta segunda aventura o ator que interpretava Javier, parceiro do herói no original (não sei o nome do ator, mas ao que parece ele não quis pagar mico dobrado), e a gostosíssima Princesa Lea, que fazia Fiera, a amante do vilão no filme de 1988 (mas ela nem podia retornar, visto que levou um tiro na cabeça na conclusão daquele filme).

LA VENGANZA DE LOS PUNKS começa sem perder tempo: temos um plano geral do prédio de uma cadeia e, cinco segundos depois, uma das paredes vai pelos ares e todos os "intrépidos pónks", que haviam sido presos no final do primeiro filme, fogem para a liberdade após anos mofando atrás das grandes.


A responsável pela explosão é a gordinha, peituda e bunduda Olga Rios. Ela tinha aparecido no original como uma personagem secundária sem nome, mas agora foi promovida a "Pantera", nova amante do chefão do bando, Tarzan (El Fantasma), depois que a namorada anterior tomou um tiro na cabeça no filme anterior.

(Só para constar: embora apareça pelada o tempo todo e tenha uma buzanfa gigantesca, Olga Rios não serve nem para lamber o salto do sapato da musa do FILMES PARA DOIDOS Princesa Lea. E isso que tenta imitá-la no cabelão armado, no figurino e até no apetite sexual!)


Novamente sem perder tempo, os "pónks" vão concretizar a vingança descrita no título. Eles invadem a festa de 15 anos da filha de Marco (Juan Valentín), o policial que os prendeu, e transformam a comemoração num inferno: estupram a menina e a esposa diante dos olhos do sujeito, estupram as outras mulheres da festa e depois metralham todo mundo. Só Marco escapa com vida, porque Tarzan estupidamente quer que ele viva com a dor da morte de toda a sua família.

É uma pena que o pobre Tarzan nunca tenha visto nenhum filme da série "Desejo de Matar", pois aí ficaria óbvio que era melhor ter matado o pobre Marco também. Afinal, depois de testemunhar estupro e matança da filha, da esposa e de seus familiares e amigos, o sujeito fica meio maluco, pede demissão da polícia e dedica-se ao extermínio sistemático e cruel de todos os "pónks", lentamente e um por um.


Bem, se você gostou daquela divertida tosqueira chamada "Intrepidos Punks", talvez fique feliz de saber que essa sequência é muito, mas muito MELHOR que o original. Dessa vez, tudo vem numa escala maior: há mais violência, mais sacanagem e muito mais bobagens e cenas hilárias para apreciadores desse tipo de tranqueira cinematográfica!

Se o original tinha uma narrativa fragmentada, sem um fio condutor, basicamente apenas mostrando os crimes dos "pónks" até um rápido enfrentamento com a dupla de heróis no final (já que os heróis estavam ocupados resolvendo outros casos sem relação ao longo do resto do filme), em LA VENGANZA DE LOS PUNKS os bandidos multicoloridos passam a ser personagens secundários, já que a trama acompanha a sangrenta vingança de Marco, encarnando um anti-herói tão cruel que daria medo até no próprio Charles Bronson.


Desde as primeiras cenas, o diretor Acosta Esparza não poupa o espectador de doses cavalares de violência: LA VENGANZA DE LOS PUNKS é um filme sujo e sádico, que já começa com o estupro e extermínio da família do herói, e só vai ficando mais pesado à medida que Marco usa as formas mais cruéis para vingar-se dos criminosos.

A narrativa torna-se até meio repetitiva, já que, após os 10 ou 15 primeiros minutos, o filme se transforma numa longa sequência de torturas e assassinatos, com o anti-herói aprisionando algum inimigo e submetendo-o a uma violenta sessão de espancamento antes de finalmente matá-lo.

Menos mal que os diálogos estúpidos e cenas nonsense entre uma tortura e outra garantem a diversão. Até porque as pancadas são convincentes e o sofrimento dos atores também (a cena do cara sendo queimado vivo é perigosamente realista, e duvido que o sujeito não tenha sofrido pelo menos umas queimaduras leves).


Em relação às mortes, tem de tudo um pouco, mas só coisa da pesada: um sujeito é empalado, outro é queimado vivo, e uma garota (é, nem elas ganham colher-de-chá) é lentamente corroída com ácido (!!!). À la Zé do Caixão, cobras e aranhas REAIS também são usadas para matar os inimigos. Progressivamente, Marco vai se transformando num personagem tão sádico e odioso quanto os "pónks" que caça, e vai perdendo a razão.

Numa das muitas bobagens hilárias de LA VENGANZA DE LOS PUNKS, o herói sempre consegue entrar e sair facilmente do esconderijo dos "pónks", sempre levando consigo algum dos vilões para poder torturar e matar lentamente longe dali, e sempre sem que ninguém perceba nada.

E os vilões são tão estúpidos que, mesmo depois do décimo desaparecimento, continuam se separando toda hora e zanzando sozinhos pelo acampamento sem se preocupar com nada!


Outro besteirol é que os "pónks" agora não são apenas arruaceiros assassinos e estupradores viciados em drogas, como no filme original, mas também... satanistas!!! Isso mesmo: em seu novo esconderijo, eles têm até uma gigantesca estátua do Capeta cujos olhos vermelhos ficam piscando (!!!), provavelmente retirada de algum antigo carro alegórico do Carnaval carioca.

Lá pelas tantas, Tarzan realiza uma missa negra (!!!) para agradecer a Satã por terem escapado da cadeia, sacrificando uma ovelha e fazendo seus comandados beberem o sangue do animal! Bela e fidelíssima visão da cultura punk, não é mesmo?

(Vale destacar que a ovelha "sacrificada" provavelmente é de verdade, mas pelo menos já está morta quando é esquartejada pelo vilão sobre o "altar"...)


Ah, o traje utilizado por Tarzan para comandar a missa negra é literalmente de se mijar de rir, com direito a uma grande máscara colorida em formato de cone que lembra uma versão "Parada Gay" do capuz pontudo usado pelos integrantes da Ku Klux Klan!

Por sinal, Tarzan dessa vez não se contenta em usar uma única máscara. Lembre-se que, na vida real, El Fantasma é um "luchador", e portanto não pode mostrar o rosto em público. Pois, durante o filme, dependendo da ocasião, o vilão aparece com três ou quatro máscaras diferentes, inclusive uma muito parecida com a máscara de hóckey do Jason - citação, talvez, ao Humungus de "Mad Max 2", que usava máscara semelhante.


E o festival de bobagens segue adiante: o roteiro apresenta uma dupla de policiais, colegas de Marco na delegacia, apenas para descartá-los logo depois num tiroteio com assaltantes de uma videolocadora (que não têm nada a ver com os punks, são apenas bandidos aleatórios). Sabe-se lá qual o motivo para introduzir esses policiais no roteiro (além de esticar o tempo de duração do filme), mas eles somem de cena tão rápido quanto entraram!

Outra subtrama dispensável, e que não chega a lugar nenhum, envolve uma tentativa de rebelião dentro da própria quadrilha dos "pónks", quando alguns integrantes insatisfeitos com os mandos e desmandos de Tarzan mostram-se louquinhos para matá-lo e tomar seu lugar. Como Marco logo surge para matar contentes e descontentes, essa história nunca rende!


Por fim, há uma patética (e portanto hilária) tentativa de fazer crítica social, quando o delegado que investiga os crimes cometidos pela turma de Tarzan ensaia uma expressão de fúria diante dos cadáveres do massacre na casa de Marco, e começa a berrar, direto para a câmera (e portanto para o espectador): "Escória humana! Quando nós os prendemos, chamaram a nós, os policiais, de criminosos. Meus chefes, os políticos, os doutores... Toda a sociedade! Eu queria que eles estivessem aqui para ver isso, para ver como reagiriam. Todos somos responsáveis! Todos somos culpados! Todos somos cúmplices... Todos nós!".

Como já acontecia em "Intrepidos Punks", tudo que envolve os "pónks" é tão exagerado que é impossível levar a sério. E quem conseguiria engolir esses vilões com cabelos coloridos, cara pintada estilo Pablo, do "Qual é a Música?", e roupas espalhafatosas, que parecem saídos de algum baile de carnaval da periferia, mas jamais legítimos representantes da cultura punk?


Aqui a coisa é até mais exagerada, de forma que até parece paródia. Se no primeiro filme tínhamos punks chamados Calígula e Pirata, além do risível chefão chamado Tarzan (hahaha), aqui há novos membros vestidos como gladiadores da Roma Antiga, um sujeito com apenas metade da barba em um dos lados do rosto (!!!) e até um cara trajado de viking, com capa, chapéu de corninhos pontiagudos e espada!

Claro, todos eles vivem no meio do deserto e não tomam banho, já que passam os dias cometendo crimes, usando drogas e trepando. Mas, milagrosamente, suas fantasias estão sempre impecáveis, e as garotas sempre maquiadas e penteadas!!!


Se funciona como diversão trash, LA VENGANZA DE LOS PUNKS também não nega fogo como aventura violenta. Confesso que fiquei surpreso com o confronto final entre Marco e Tarzan. Eu esperava uma longa pancadaria, já que El Fantasma é "luchador" - e já havia mostrado seus dotes em diversas cenas de "Intrepidos Punks". Mas a resolução do conflito é diferente, para o azar do vilão!

(Vale ressaltar que talvez El Fantasma não lute nessa continuação porque, três anos depois do primeiro filme, aparece bem gordo em relação ao original, e visivelmente fora de forma.)


Para completar a longa lista de bobagens, LA VENGANZA DE LOS PUNKS ainda se encerra de maneira inacreditável: sabe aqueles finais cíclicos que os italianos adoravam colocar em filmes de horror?. Isso só torna o programa todo ainda mais charmoso e engraçado, principalmente se você assistir acompanhado (e devidamente alcoolizado).

Nesses tempos em que o politicamente correto vigora até no cinema de ação, é sempre um alívio assistir aventuras inconsequentes e sádicas como essa LA VENGANZA DE LOS PUNKS, onde vilões cometem atos de extrema brutalidade e recebem o troco na mesma moeda.

Inclusive o sadismo e a sede de sangue do anti-herói Marco fazem com que ele se transforme numa espécie de versão cucaracha do Justiceiro da Marvel - e sua vingança é muito mais eficiente que as adaptações oficiais do personagem para o cinema.


Mesmo que sejam obras bem diferentes na proposta e na realização, "Intrepidos Punks" e LA VENGANZA DE LOS PUNKS podem proporcionar uma maravilhosa e inesquecível sessão trasheira dupla para os apaixonados por FILMES PARA DOIDOS.

E é uma pena que a conclusão não tenha deixado nenhuma possibilidade para uma terceira aventura com os "pónks" mais engraçados do cinema - embora existam outras aventuras mexicanas igualmente hilárias que trazem punks sanguinários, como "Siete en la Mira 2 - La Furia de la Venganza", de Pedro Galindo III.

A inacreditável missa negra dos "pónks"



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La Venganza de los Punks (1991, México)
Direção: Damián Acosta Esparza
Elenco: Juan Valentín, El Fantasma, Olga Rios,
Arturo Mason, Bruno Rey, Fidel Abrego, Socorro
Albarrán, Anaís de Melo e Laura Tovar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (1994)


Pelo menos uma vez por ano ("pelo menos", mas geralmente é bem mais do que isso), os engravatados de Hollywood gostam de dar uma prova incontestável de que não entendem porra nenhuma de porra nenhuma, principalmente quando tentam adaptar quadrinhos, super-heróis ou videogames para o cinema. Que o diga o pobre espectador que viu "A Liga Extraordinária", "Jonah Hex", a "Mulher-Gato" da Halle Berry, e por aí vai (a lista é extensa).

Pois anos antes do alemão Uwe Boll se especializar em adaptações ruins de videogame para o cinema (com os famigerados "House of the Dead" e "Alone in the Dark"), foram os grandes estúdios que demonstraram sua total incapacidade de transpor uma mídia para a outra em duas legítimas bombas atômicas.


A primeira foi "Super Mario Bros." (1993), que enterrou a promissora carreira do casal de cineastas ingleses Annabel Jankel e Rocky Morton. E como Hollywood nunca aprende com seus erros, já no ano seguinte (1994) saiu a outra, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA.

Eu não vou gastar tempo e parágrafos explicando a importância e a fama do jogo de fliperama "Street Fighter 2", produzido pela Capcom em 1991 e até hoje uma referência em games de luta. Saibam apenas que torrei muitas horas (e muita grana) da minha pré-adolescência trancado num fliperama escuro e esfumaçado, disputando partidas de "Street Fighter 2" com meus amigos ou com adversários anônimos.


Portanto, lembro até hoje o quanto estava decepcionado ao sair do cinema depois da sessão de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA: como fã do jogo de videogame, me senti traído porque aqueles caras tinham destruído a história e os personagens de que eu tanto gostava.

Agora, quase 20 anos depois, mais velho e maduro (cof, cof), fui tentar rever o filme com outros olhos, para ver se algo se salva nessa bagunça no final das contas.

Veredicto: não, não se salva. Aliás, não convence nem mesmo como "filme de ação" para alguém que jamais tenha visto ou jogado "Street Fighter 2". O resultado é tão ruim, tão patético, tão ridículo, tão frustrante e tão idiota que poucas obras fazem jus ao nome deste blog tanto quanto esta. Afinal, é preciso ser muito, mas muito doido para ver STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (e doente mental para gostar, o que, pelo menos dessa vez, não é o meu caso).


Se no ano anterior "Super Mario Bros." enterrou a carreira da dupla Jankel & Morton, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA fez o mesmo "favor" a Steven E. De Souza. Até então, ele era o roteirista dos ovos de ouro em Hollywood: escreveu sucessos como "48 Horas", "Comando para Matar", "Duro de Matar" 1 e 2, "O Sobrevivente" (com Schwarzenegger), "Um Tira da Pesada 3"...

Com esse cacife e mais um único crédito como diretor (no excelente episódio da série "Contos da Cripta" em que Kyle McLachlan enfrenta abutres famintos no deserto), De Souza ganhou 35 milhões de dólares para escrever e dirigir a adaptação do famoso jogo de videogame da Capcom, então no auge do sucesso. O resultado foi desastroso.


Para entender porque STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA não funciona, vamos analisar a lógica de "Street Fighter 2", o game. Como o nome já diz, trata-se de uma briga de rua em que oito personagens excêntricos e de diferentes nacionalidades se enfrentam até restar apenas um; então, o vencedor enfrenta três "sub-chefes" até ganhar o direito de participar do confronto final com o grande vilão M. Bison, um ditador asiático com poderes sobrenaturais (capaz de voar e disparar rajadas de energia).

Tá, pensa comigo: o que qualquer ser humano normal e racional iria esperar de um filme baseado em "Street Fighter 2", principalmente se este ser humano normal e racional tivesse jogado "Street Fighter 2" pelo menos uma vez na vida?


No mínimo, muita porrada e lutas pra lá de exageradas (o orçamento de 35 milhões era uma fortuna na época), e que as cenas de ação não deixassem de lado os poderes especiais dos personagens e as suas características, certo?

Certíssimo! Inclusive eu, se fosse roteirista de um filme sobre "Street Fighter 2", nem iria inventar muito: manteria a idéia de um campeonato mundial de briga de rua, manteria a idéia de que alguns personagens seriam vencidos ao longo do caminho (e sumiriam da trama), e até colocaria uma cena em que lutadores destruíssem um carro na pancada, em homenagem a um dos mais populares estágios de bônus do jogo.


Enfim, qualquer diretor-roteirista minimamente consciente do material que tinha nas mãos iria torrar metade desses 35 milhões de dólares contratando coreógrafos de Hong-Kong, da Coréia, da Tailândia e do Japão para cuidarem das cenas de luta, certo? Certíssimo!

Então agora eu pergunto: no que exatamente pensavam os coiós que fizeram essa bomba se não tiveram nenhuma dessas idéias tão básicas que estão sendo jogadas ao léu aqui, num blog chamado FILMES PARA DOIDOS?

Enfim, eu não sei no que eles pensavam (e provavelmente NÃO pensavam), mas STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA consegue a façanha de ser uma adaptação de game de luta... hã... SEM lutas!!!


Se no jogo os personagens principais são os karatekas Ken e Ryu, no filme a honra coube ao militar Guile (coronel aqui, capitão no fliperama), interpretado pelo belga Jean-Claude Van Damme em sua escalada ao posto de astro do cinema de ação.

Van Damme é a primeira escolha equivocada do elenco, já que fisicamente não se parece nada com Guile, nem sequer pensou em cultivar uma cabeleira parecida com a do personagem. Dolph Lundgren seria uma opção muito mais acertada, enquanto Van Damme talvez pudesse ser encaixado como Ken.


No roteiro escrito por De Souza, Guile comanda um pelotão das Nações Aliadas (uma ONU fictícia) enviado ao igualmente fictício país asiático de Shadaloo para enfrentar o general M. Bison, um louco ditador que aprisionou diversos cidadãos norte-americanos, e que exige um resgate absurdo de 20 bilhões de dólares para livrá-los da execução.

Se Van Damme é a primeira escolha equivocada do elenco, certamente não é a última e nem a maior. Essa "honra" cabe ao porto-riquenho Raul Julia como M. Bison, o GRANDE VILÃO de um filme de pancadaria, logo ele que sempre foi baixinho e raquítico!


Inclusive o pobre Raul morreu poucos meses depois das filmagens por complicações decorrentes do tratamento de câncer no estômago. É até indigno, para um ótimo ator como Raul Julia, despedir-se do cinema com um filme tão ruim quanto STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (se não tivesse batido as botas, ele faria o papel de Joaquim de Almeida em "A Balada do Pistoleiro", de Robert Rodriguez, uma despedida bem melhor, por assim dizer).

Pois enquanto no jogo de videogame M. Bison é um vilão gigantesco e ameaçador, com porte e músculos de respeito, no filme o personagem não passa de uma caricatura. Não dá nem para esconder como o ator estava doente, magro, "seco". Sua roupa parece até ter enchimentos para tentar dar-lhe um pouco mais de músculos e "tamanho", mas não adianta: o M. Bison cinematográfico é um vilão patético, digno de pena até.


Só que "Street Fighter 2" não era apenas sobre Guile e Bison, e De Souza sabia que precisaria colocar todos os outros personagens no filme também, caso contrário os fãs do game iriam chiar.

O problema foi a forma que ele escolheu para fazer isso...

No jogo, todos os oito lutadores têm seus próprios motivos para participar do torneio de briga de rua e vingar-se do ditador Bison.


OK, então se eu fizesse um filme sobre "Street Fighter 2", simplesmente usaria uns flashbacks de no máximo três minutos para demonstrar o passado e as intenções de cada um, sem enrolar muito, partindo direto para a pancadaria.

Afinal, ninguém iria ao cinema ver um filme sobre "Street Fighter 2" esperando um grande roteiro ou muito tempo perdido com "desenvolvimento de personagens", não é verdade? Bem, acredite se quiser, foi EXATAMENTE ISSO que De Souza fez: gastou o tempo das lutas tentando contar uma história mirabolante e desenvolvendo os personagens! E olha que estamos falando do mesmo sujeito que escreveu "Comando para Matar", caramba!


De Souza perde um tempão introduzindo cada personagem e dando-lhe um "background" elaborado, como se, de repente, "Street Fighter 2" fosse Shakespeare, e não um simples joguinho de pancadaria. E além dos personagens originais, sabe-se lá porque ele resolveu introduzir também três lutadores de uma versão posterior (Cammy, Dee Jay e T. Hawk, de "Super Street Fighter II", lançado em 1993), e ainda criar um personagem totalmente novo exclusivamente para o filme (o capitão Sawada)!

É aí que os problemas se acumulam de vez. Pô, é gente demais para filme de menos! Se tivéssemos apenas uma sequência de lutas, como todo fã do game esperava, talvez funcionasse. Mas como esse montão de gente aparece e fala pra caramba, não demora nadinha para o filme ficar chato e enrolado.


Além disso, com muita gente para apresentar em pouco tempo, o desenvolvimento de personagens é quase nulo. Quem nunca jogou "Street Fighter 2" vai ficar boiando sobre quem são aquelas pessoas e quais são as suas motivações, até porque o roteiro é muito, mas muito fraco.

Não bastassem todos esses erros, o maior problema de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA é que o diretor-roteirista De Souza parece nunca ter gastado uma única ficha jogando "Street Fighter 2". Os personagens que ele escreveu para o filme só têm o nome dos personagens do jogo, no máximo o figurino parecido. Fora isso, são completamente diferentes em habilidades, motivações e até importância na trama.


Alguém em sã consciência saberia explicar, por exemplo, por que Dee Jay e Zangief (do time dos heróis no game) aparecem no filme como capangas do vilão Bison, enquanto Balrog, que no jogo é vilão, aparece como um dos mocinhos?

Alguém saberia dizer quem foi o cabeça-de-bagre que inventou um Dhalsim cientista, que em nada lembra sua versão no jogo (e nem estica os braços e pernas, características fundamentais do personagem do fliperama)? E quem foi que transformou o japonês lutador de sumô E. Honda em um balofo samoano?


Aliás, se Raul Julia como M. Bison já era piada de mau gosto, o que dizer do baixinho e mirradinho Wes Studi como Sagat, que é um gigante de quase dois metros em "Street Fighter 2"? Será que os caras que escolheram o elenco deram pelo menos uma olhada no jogo, ou simplesmente fizeram "uni-duni-tê" para decidir quem interpretaria cada personagem?

Os únicos personagens do filme bem parecidos com suas versões digitais são Zangief (interpretado pelo futuro Leatherface do remake de 2003, Andrew Bryniarski) e Vega (Jay Tavare). E enquanto esse segundo tem uma luta interessante contra Ryu, o pobre gigante russo é reduzido a alívio cômico, e completamente desperdiçado.


O mesmo pode-se dizer de Ryu e Ken (lembre-se, eles eram os personagens principais do jogo) e do pobre Blanka, o monstruoso lutador brasileiro, cuja origem (argh!) é explicada aqui.

(Chega a ser irônica a falta de respeito dos realizadores com os personagens porque eles se dão ao trabalho de citar CENÁRIOS do game o tempo todo, então obviamente tinham certa familiaridade com o assunto...)

E por falar em "explicar", o roteiro de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA teima em não assumir-se como a aventura absurda que é; pelo contrário, De Souza tenta explicar tudinho de maneira racional e quase científica, do surgimento do monstrengo Blanka aos poderes "sobrenaturais" de Bison (o vilão chega a dar uma aula de física para Guile, dizendo que usa propulsores magnéticos semelhantes aos que impulsionam o trem-bala no Japão!!!). Até mesmo a "ressurreição" de Bison após o nocaute é justificada graças à aparelhagem de suporte de vida que o ditador veste sob o uniforme!


Se já não bastassem tantos problemas, imbecilidades e equívocos, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA afunda de vez quando, depois de looooongos minutos de bla-bla-bla, finalmente chega às cenas de ação.

(Sempre lembrando que você está adaptando um jogo de luta, e teoricamente só precisaria mostrar uma pancadaria a cada cinco minutos que tudo estaria perfeito!)

Pois nessa bomba atômica baseada num game de LUTA, os personagens raramente lutam entre si, preferindo dar porrada em vilões secundários (anônimos capangas de Bison e Sagat, por exemplo). E quando finalmente se pegam entre eles, as lutas são rápidas e sem interesse, sonolentas até. Me dei ao trabalho de marcar no relógio, e a primeira vez em que um personagem do jogo luta contra outro personagem do jogo acontece APENAS aos 51 minutos, quando Chun Li dá uns tabefes em Bison! Pode?


De Souza desperdiça até os clássicos confrontos Ryu x Vega e Ken x Sagat, e os golpes mais famosos de ambos (o hadouken de Ryu e o shoryuken de Ken) são usados gratuitamente.

Resta, então, o grande confronto entre Guile e Bison, a única coisa próxima de uma luta de verdade que vemos no filme. Pena que ver Van Damme bater em Raul Julia seja como testemunhar alguém batendo num bêbado, ou chutando um cachorro morto, já que o ator porto-riquenho está frágil demais para convencer como um adversário à altura do herói, e não consegue nem ficar de pé direito.

Mas a única coisa boa do filme todo acontece durante essa luta: Guile usando seu flash kick (o popular "facão") duas vezes contra Bison, e de maneira idêntica ao game, como você pode ver nas imagens abaixo! É o mais perto de "Street Fighter 2" que De Souza conseguiu chegar em 102 minutos.


O restante é um desperdício. O personagem de Chun Li é tão apagado que depois tentaram até fazer um filme só com ela ("Street Fighter: A Lenda de Chun-Li", de 2009), mas dizem que o resultado é ainda pior (esse eu nem quis ver). Os personagens de "Super Street Fighter", que à época não eram tão conhecidos quanto os originais, não acrescentam nada: Cammy, que tem maior tempo em cena, é interpretada por Kylie Minogue (ela tinha uma cena de luta com Chun Li que foi cortada!); T. Hawk não fede e nem cheira, e Dee Jay não dá um único golpe o filme todo!

E o nosso pobre representante brasileiro Blanka passa o filme todo aprisionado, e por isso não luta contra nenhum dos personagens principais, muito menos usa seus poderes elétricos do jogo. Uma frustração!


Como escrevi no começo, qualquer idiota saberia fazer um filme minimamente divertido sobre "Street Fighter 2". Bastaria filmar um montão de cenas de luta. Bastaria usar as características e golpes principais dos lutadores, como Dhalsim esticando braços e pernas na hora da porrada (tem um lutador que estica os braços na aventura oriental "O Mestre da Guilhotina Voadora", feito vários anos ANTES do jogo).

Bastaria dar uma atenção especial à coreografia das pancadarias ao invés de ficar mais preocupado com tiroteios e explosões, como Steven De Souza faz nesse filme lamentável.

Para ter uma idéia do que estou falando, comparem com o resultado muito mais positivo desse fan film abaixo, dirigido por Joey Ansah e Owen Trevor, que mostra um combate super-estilizado entre Ryu e Ken, com direito a todos os golpes que os lutadores usam no jogo. Em apenas 3min12s, esse fan film é melhor que o longa de 1994 INTEIRINHO!!!

Uma adaptação decente de "Street Fighter 2"



No ano seguinte (1995), Paul W.S. Anderson fez o filme que STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA deveria ter sido: "Mortal Kombat". E usando exatamente esta estrutura simplíssima do torneio de artes marciais, com uma luta seguida de outra luta. Só frustrou o público por não usar a violência explícita que era a principal característica do jogo. Anderson devia ter adaptado "Street Fighter 2", e não De Souza.

Embora não tenha sido exatamente um fracasso de bilheteria, como o anterior "Super Mario Bros.", STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA CONSEGUIU enfurecer tanto críticos quanto o público. Fãs do jogo não engoliram as mudanças radicais da adaptação cinematográfica, enquanto quem não conhecia o game simplesmente não conseguiu embarcar na proposta do filme, que, por si só, é bem fraquinho.

O resultado negativo arranhou tanto a imagem do outrora promissor diretor-roteirista que sua carreira desceu ladeira abaixo. Ele só dirigiu outro filme em 2000 (uma produção para a TV), e seu último crédito expressivo como roteirista é de 1998 ("Golpe Fulminante", um filme menor do Van Damme)!


Já o astro belga tentou, durante algum tempo, tirar do papel uma continuação direta deste filme, onde, quem sabe, seriam corrigidos os seus principais problemas, como a falta de pancadaria. Existe até uma cena depois dos créditos finais mostrando que Bison não morreu no confronto com Guile e poderia voltar para a revanche, quem sabe interpretado por um ator mais apropriado dessa vez. Mas como o primeiro filme fracassou, a idéia da sequência também morreu na praia.

Por pior que seja (e é realmente MUITO RUIM), pelo menos STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA escapou do título de pior adaptação de videogame de todos os tempos. Afinal, no mesmo ano de 1994, James Yukich conseguiu estragar outro jogo de pancadaria bem simples ao transformá-lo num filme muito, mas muito pior.

É claro que estou falando daquele lixo chamado "Double Dragon", com Robert Patrick, Mark Dacascos, Scott Wolf e Alyssa Milano, que do jogo só tem mesmo o nome.


Tanto STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA quanto "Double Dragon", adaptações de jogos de luta que quase não têm lutas, são argumentos inquestionáveis do quanto os executivos de Hollywood não entendem porra nenhuma de porra nenhuma.

Seria melhor se dessem os 35 milhões para seus filhos fazerem filmes baseados em games, pois eles pelo menos entenderiam um mínimo sobre o assunto.

Aliás, que filme que nada: antes dessem esses milhões para a molecada torrar no fliperama mesmo, um programa muito mais divertido do que suportar essas "adaptações" até o fim...

Trailer de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA



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Street Fighter (1994, EUA)
Direção: Steven E. de Souza
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Ming-Na,
Damian Chapa, Kylie Minogue, Roshan Seth, Wes Studi,
Byron Mann e Andrew Bryniarski.