WebsiteVoice

domingo, 7 de agosto de 2011

Os filmes que eu vi no Fantaspoa

A SERBIAN FILM (Srpski Film, 2010, Sérvia. Dir: Srdjan Spasojevic)
Esse originalmente estava na minha lista de boicote, mas resolvi conferir no Fantaspoa só para sacar de perto qual seria a reação do público ao tão anunciado "filme mais chocante dos últimos tempos". Claro, isso foi antes da palhaçada da censura à película no Rio de Janeiro. O irônico é que todo esse marketing em cima do "choque" não poderia ser menos apropriado: os espectadores que se preparavam para sair chocados e revoltados da sessão em Porto Alegre (eu inclusive) acabaram rindo o tempo todo, de forma que o título poderia ser modificado para "A Serbian Comedy". Vá lá que a cópia exibida no Fantaspoa era cortada em alguns minutos, mas mesmo as supostas cenas "mais fortes" não trazem nada de tão abominável (os "momentos snuff" do "Emanuelle in America", que Joe D'Amato fez mais de 30 anos antes, continuam muito mais fortes que essa tralha sérvia inteira). Além disso, vamos combinar que momentos dignos das obras da Troma, como o sujeito que é morto com um caralho enfiado no olho, não ajudam nada. Pelo menos, "A Serbian Film" revelou-se bem mais divertido do que eu imaginava. Confesso que esperava algo mais grosseiro e gratuito, estilo "Irreversível" ou aquelas sangreiras da série "Guinnea Pig". Mas o trabalho do estreante Spasojevic surpreende porque ele tenta contar uma historinha razoavelmente interessante que justifique a barbárie no ato final. Eu até achei a trama muito melhor ANTES que toda a brutalidade finalmente entrasse em cena. Porque, quando o sangue começa a rolar, a opção do diretor em querer ser fodão e "super-chocante" acaba levando a cenas absurdamente apelativas, idiotas até, como o tal "newborn porn". Só não vá na onda de certos críticos e nem acredite muito nas entrevistas do diretor sobre como "A Serbian Film" é uma história sobre a situação atual da Sérvia. Na verdade, este é mais um caso de muito barulho por nada, de cachorrinho que late demais mas não morde. E muito parecido com o filme norte-americano "8mm", de Joel Schumacher - inclusive a figura do cineasta maluco de "A Serbian Film" é uma cópia xerox do personagem interpretado por Peter Stormare no filme ianque. Se você está com medo do filme sérvio por tudo que leu por aí, não se preocupe que há muito de exagero e pouco de verdade nos relatos. Para quem já viu pérolas como "Cannibal Holocaust" e "Antropophagous" (que também tem violência contra fetos, mas de forma muito mais convincente), o tal "filme mais chocante dos últimos tempos" parecerá quase inofensivo. Cômico, até, em seus exageros e absurdos. Mas, definitivamente, não é para todos os públicos.


VERMELHO, BRANCO E AZUL (Red White & Blue, 2010, Inglaterra. Dir: Simon Rumley)
Curto e grosso: eu não gostei de "Vermelho, Branco e Azul". Mas vou humildemente pedir aos leitores que relevem minha opinião e assistam o filme por sua conta e risco. Afinal, eu sou a única pessoa que conheço que NÃO gostou de "Vermelho, Branco e Azul": o filme não só foi elogiado com louvor por todos que estavam na mesma sessão que eu em Porto Alegre, como ainda foi eleito Melhor Filme do Fantaspoa 2011! A obra tem dois atos bem distintos: (SPOILERS) o primeiro é um drama pesado sobre uma garota promíscua que se relaciona sexualmente com vários homens, na verdade contaminando-os com o vírus da Aids sem que eles saibam; o segundo mostra um psicopata, obcecado pela tal garota, "castigando" brutalmente as pessoas que julga responsáveis pela sua morte (FIM DOS SPOILERS). Cada ato dura cerca de uma hora, e o último é basicamente uma sequência de tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte de pessoas, sem nenhuma reviravolta ou surpresa no processo. Me lembrou um filme exibido no Fantaspoa do ano passado, "O Cavaleiro" (lançado em DVD no Brasil como "Vingança Animal"), que também não foge muito disso. E confesso que não me agrada esse tipo de história que não chega a lugar algum, apenas vai de uma tortura-morte para a outra. Ora, até o mais básico dos "Jogos Mortais" tem uma historinha por trás. Não é o caso aqui: você logo percebe que o sujeito vai pegar, torturar e matar cada uma das pessoas que está perseguindo, e nenhuma delas vai tentar escapar ou reagir para pelo menos criar alguma situação de tensão ou conflito; e como nem ao menos há a polícia ou algum outro antagonista atrás do sujeito, o restante do filme se resume ao tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte... Para piorar, é impossível simpatizar com qualquer um dos personagens! Vá lá, há algumas boas qualidades no conjunto, como a relação de um roqueiro rebelde com sua mãe que sofre de câncer, e a interpretação do irreconhecível Noah Taylor (que geralmente faz papel de bonzinho, e aqui está assustador como psicopata). Mas, como já falei, particularmente EU não engulo esse tipo de narrativa. E se todo mundo ficou extasiado menos eu, então provavelmente o errado da história sou eu, e é por isso que recomendo que todos confiram "Vermelho, Branco e Azul" para julgar por conta própria. Só sei que, além de ter achado o filme em si bem fraquinho, fiquei ainda mais puto acompanhando os comentários do diretor Simon Rumley ao final, quando ele tentou convencer o público de que seu filme era uma "alegoria sobre a situação sóciopolítica dos Estados Unidos hoje". Aham, tá bom...


O MASSACRE DE REYKJAVIK (Reykjavik Whale Watching Massacre, 2009, Islândia. Dir: Júlíus Kemp)
Uma decepção. O título original, o pôster, a sequência de abertura nua e crua mostrando a pesca e matança de uma baleia (cena real?) e a presença do ator Gunnar Hansen (o Leatherface original) fazem pensar que estamos diante de um terrorzão sério, estilo "O Massacre da Serra Elétrica". Tem até uma família de psicopatas (provavelmente canibais) que vivem não no interior do Texas, mas num velho barco de pesca de baleias, e uma garota aprisionada e submetida a vários horrores para gritar o tempo todo, como Marilyn Burns no filme de Tobe Hooper. Infelizmente, se a ideia era homenagear ou emular o clima daquele clássico, "O Massacre de Reykjavik" erra feio. Até porque logo se entrega a um inesperado senso de humor, com mortes e diálogos engraçadinhos, personagens toscos e vilões patéticos. Uma qualidade do filme é não render-se ao tradicional clichê dos "adolescentes em férias", preferindo apresentar um elenco adulto e formado por estrangeiros de diferentes nacionalidades. Mas as piadas não funcionam - com exceção do herói que se confessa gay no "clímax romântico" com a mocinha -, o suspense e a tensão logo dão lugar a intermináveis correrias pelo navio, e os personagens são tão idiotas que acabamos torcendo para que todos morram de uma vez, tanto heróis quanto vilões. Gunnar Hansen tem uma participação minúscula e sai de cena sem muito brilho, e o roteiro é uma verdadeira bagunça, espalhando núcleos de pessoas para lá e para cá sem muito critério. O filme até tem sangue e violência, mas as cenas não são memoráveis e já foram vistas antes e melhor. Não falta nem o negro morto acidentalmente como se fosse vilão, à la "A Noite dos Mortos-vivos". Muitos talvez encontrem diversão nessa balbúrdia, mas é uma pena que o filme nunca se decida entre tensão ou humor negro, e nem tente contar uma história minimamente diferente (e mais séria). Como curiosidade, ele foi inicialmente marketeado como "Iceland's first thriller", mas após sua estreia nos cinemas os realizadores mudaram a tagline para "Should only be seen if you have a sense of humor"!!!


AURORA (Dawning, 2009, EUA. Dir: Gregg Holtgrewe)
Uma família passa uma noite de horror numa casa de campo quando um desconhecido aparece dizendo que há algo monstruoso "lá fora", na floresta. OK, o ponto de partida é interessante, embora nada original. O problema é que a tal família descrita no argumento é uma família disfuncional, detalhe que parece apenas uma desculpa do diretor-roteirista-produtor Gregg Holtgrewe para esticar o que podia ser um curta-metragem interessante durante insuportáveis 82 minutos. É isso mesmo, amiguinhos: embora o argumento, do jeito que se apresenta, não sobreviva a mais que 20 minutos, Holtgrewe faz o possível e o impossível para acabar com um longa nas mãos, e isso inclui intermináveis discussões da tal família disfuncional, cujos filhos ficam toda hora se pegando com os pais e vice-versa. Parece até que você está assistindo aqueles programas barraqueiros de TV, tipo "Casos de Família", ao mesmo tempo em que fica zapeando para algum filme de terror classe B em outro canal, pois as duas ideias parecem nunca funcionar juntas. E o interesse por qualquer coisa que possa acontecer aos personagens se esvai depois da décima briga e/ou discussão entre eles, quando você fica esperando desesperadamente que a tal "coisa" existente na floresta entre logo naquela maldita casa e mate todo mundo de um vez. O pior é que a trama até começa bem, apresentando a ideia de uma ameaça desconhecida (sobrenatural ou "humana"?) quando o cachorro da família some e depois reaparece mortalmente ferido. Aí você fica esperando que algo interessante aconteça a qualquer momento, mas a situação não se sustenta, a tensão é inexistente e a sensação de que o diretor está embromando de propósito e fazendo um curta esticado logo fica evidente. E é tão chato, mas tão chato, que um crítico gringo fez um trocadilho com o título original, mudando-o para "Yawning" (Bocejo). Uma boa opção para quem sofre de insônia, portanto!


LUNÓPOLIS (Lunopolis, 2009, EUA. Dir: Matthew Avant)
Até a metade de "Lunópolis", eu imaginei que estava diante do "8th Wonderland" do Fantaspoa 2011: com o já saturado formato de "falso documentário", o filme de estreia do norte-americano Matthew Avant narra uma intrincada, porém muito inteligente história que envolve viagens no tempo, teorias da conspiração, universos paralelos e até a existência de uma civilização avançada que vive na Lua e controla o destino da humanidade. Porém (e sempre tem um porém), a trama que começa intrigante e interessantíssima de repente "trava". É como se alguém desse "pause" na narrativa para que um montão de estudiosos e cientistas (atores, obviamente) entre em cena para teorizar sobre viagens no tempo e a criação de universos paralelos, tentando dar algum "embasamento científico" para a história que está sendo contada. Só que é um autêntico tiro no pé: os sujeitos falam, falam e falam sem parar para explicar o que, na essência, qualquer pessoa que viu a série "De Volta para o Futuro" já sabe! Talvez o objetivo dos realizadores seja fazer com que espectadores desavisados acreditem que tudo aquilo possa ser real; afinal, isso é um "mockumentary" (será que alguém ainda cai nessa?). Mas podiam ter feito a mesma coisa de outra maneira. Até porque, depois da chatíssima aula de física, o filme segue ladeira abaixo, com soluções fáceis e explicações idiotas (uma pedra mágica da Lua?) quase estragando o que começou tão bem. A sequência final, que remete de volta ao início (e também explica a primeira cena), é ótima, mas até chegar ali o estrago já foi feito. "Lunópolis" não é exatamente ruim, mas exige muita paciência e também que o espectador "embarque" no conceito, o que não é tão simples. Porém é preciso dar algum crédito a Avant, pois o sujeito fez absolutamente tudo na obra: dirigiu, escreveu, produziu, estrelou, editou e ainda assinou som, design de produção e direção de arte (!!!). Ainda assim, o filme se parece muito com um episódio de "Arquivo X" esticado.


O SANATÓRIO (El Sanatorio, 2010, Costa Rica. Dir: Miguel Alejandro Gomez)
Mais um falso documentário estilo "A Bruxa de Blair" e "Atividade Paranormal"? Aham. E foi um dos quatro ou cinco filmes nesse estilo exibidos no Fantaspoa, comprovando que os cineastas desse mundo andam precisando desesperadamente de novas ideias. Menos mal que "O Sanatório" tem pelo menos dois grandes motivos para ser descoberto: primeiro, é uma rara produção do gênero vinda da Costa Rica (!!!); segundo, é um daqueles raros filmes de horror que são mais divertidos e interessantes pelos momentos que ANTECEDEM os fenômenos sobrenaturais! Contada através de entrevistas feitas pelos protagonistas e cenas supostamente "reais" gravadas com câmera na mão, a história mostra jovens jornalistas e estudantes de cinema realizando um documentário sobre um sanatório com fama de assombrado. O horror e os fantasmas só aparecem nos 20 minutos finais; antes, no que considero a melhor parte do filme, acompanhamos o relacionamento entre os personagens, que vivem brigando e brincando entre si. O diretor-roteirista Gomez se esforça para transformá-los em personagens verossímeis, em momentos como o dos amigos jogando videogame (e discutindo, lógico), ou o rapaz tímido que convida a bonitona por quem é apaixonado para fazer parte da equipe, e depois vive levando foras diante da câmera. Esses momentos e detalhes são muito mais interessantes que os fantasmas propriamente ditos. Também são bem engraçados os depoimentos de pessoas que testemunharam os horrores do sanatório (a cena em que um jornalista fala, com os olhos arregalados, que "se cagou todo", naquele espanhol hilário, é de rolar de rir). Ao final, quando os fantasmas do sanatório finalmente dão as caras, cai-se na rotina das histórias do gênero, mas mesmo assim com alguns bons sustos. Por isso, mesmo que perca bastante no quesito "novidade", esse é um pequeno filme bem divertido que vale a pena conhecer. "Juancitoooooo"...


PRESSÁGIO (Presagi, 2010, Itália. Dir: Lamberto Bava)
Entre os famosos representantes do cinema fantástico italiano dos anos 70-80, Lamberto Bava é um dos poucos que continua na ativa, mesmo que seus filmes recentes ("A Tortura", "Mensagem do Além"...) fiquem bem abaixo da média. "Presságio", seu último trabalho, é uma produção feita para a TV italiana e estreou oficialmente no Fantaspoa - também foi a primeira vez que o diretor viu a obra junto com o público. O filme conta a história de uma médium que começa a ter visões com uma garotinha vestindo capa-de-chuva vermelha; um ex-agente do FBI investiga o caso, acreditando que são premonições envolvendo uma menina recentemente sequestrada. Não há grandes novidades na trama nem na forma de contá-la, embora o roteiro tenha alguns poucos detalhes visualmente criativos - como as visões da médium que mostram o vulto do assassino em forma de animal predador. No geral, entretanto, "Presságio" é um filme extremamente convencional e sem grandes atrativos, daquele tipo que mais cedo ou mais tarde acaba passando no Supercine e é ignorado. Essa não é a primeira vez que Bava faz filmes para a TV: "O Terror Não Tira Férias" e "Amantes Diabólicos", por exemplo, também foram produzidos para a televisão italiana e são infinitamente mais criativos e melhor dirigidos. Aqui, o veterano diretor trabalha de maneira burocrática e contida. Parece até de má vontade, como se estivesse apenas esperando para receber o cheque pelo trabalho no final do mês. E mesmo assim é possível encontrar pelo menos uma qualidade: a excelente interpretação do norte-americano Craig Bierko como o amargurado e traumatizado agente. E olha que o sujeito já se queimou fazendo "Todo Mundo em Pânico 4" e "Super-Herói - O Filme"!!! A propósito: Bava jura que a menina de capa-de-chuva vermelha é uma referência a Chapeuzinho Vermelho, e não ao clássico "Inverno de Sangue em Veneza". Então tá...


FAMÍLIA NUCLEAR (Nuclear Family, 2010, EUA. Dir: Kyle Rankin)
Assistindo a essa aventura pós-apocalíptica do simpático Kyle Rankin (com quem tive a felicidade de bater um papo e tomar umas cachaças durante os dias de Fantaspoa), me senti de volta aos anos 80. Como muitos filmes daquela década, "Nuclear Family" também se leva pouco a sério, atropelando explicações em prol da ação que nunca pára, e com um roteiro esquemático que apenas leva os heróis de um perigo para outro. O filme acompanha as aventuras de uma família (pai, mãe e filha pequena) que tenta sobreviver após um holocausto nuclear, num mundo devastado e repleto de criminosos bárbaros. Personagens e situações são caricaturais: há uma garota (interpretada por Danielle Harris) que atira facas com fantástica perícia, portanto o roteiro logo se adianta em explicar que, antes do holocausto, ela era atiradora de facas num circo (!!!); já o vilão era um escritor de livros de auto-ajuda antes do fim do mundo, interpretado pelo fantástico Ray Wise. Há algumas bobagens, como um misterioso vírus que afeta o comportamento humano, mas são falhas facilmente perdoáveis toda vez que Wise entra em cena, roubando o show como um vilão cruel e psicopata, sim, mas tão cheio de frases de efeito e momentos ensandecidos que o espectador fica do seu lado, torcendo para que ele apareça mais no filme. Wise parece um Jack Nicholson dos pobres, e "Nuclear Family" é a prova de que como ele rende quando bem-dirigido. Curiosamente, a história não tem uma conclusão, deixando a trama em aberto para uma possível sequência. Ou, quem sabe, para continuar a acompanhar as aventuras da "família nuclear" num futuro seriado. Até porque o filme tem a maior cara de piloto de série de TV. De qualquer jeito, continuando ou não no futuro, esse aqui cumpre o que promete: diversão descompromissada e muitas gargalhadas. Algumas propositais, mas outras visivelmente involuntárias.


MANÔUSHE (1992, Brasil. Dir: Luiz Begazo)
A grande curiosidade do Fantaspoa 2011. Esse filme brasileiro foi realizado em 1992, nunca lançado comercialmente no país (embora tenha sido exibido no exterior), e é o único trabalho do mineiro Luiz Begazo. Com um olhar bem particular, o diretor encena uma trama fantástica que se passa num universo mágico, envolvendo ciganos, artistas mambembes e uma floresta repleta de criaturas bizarras. Praticamente sem diálogos - as poucas conversas entre os personagens são num bizarro dialeto usado pelos ciganos, e, sem legendas, ininteligíveis -, "Manôushe" começa com o funeral de um velho cigano; sua viúva então começa a recordar-se dos dias em que se conheceram, e o filme conta a história em flashback mostrando a fuga do casal de apaixonados e sua passagem por uma floresta repleta de monstrinhos e ameaças. Visualmente deslumbrante e com uma fotografia belíssima, a obra tem elementos que lembram trabalhos tão díspares quanto os de Fellini, Alejandro Jodorowsky ou mesmo o cinema fantástico da década de 80 (especialmente obras como "A Lenda", de Ridley Scott, e "Labirinto", de Jim Henson). Mas não é um filme infantil. Aliás, se há um problema na obra, é justamente sua indecisão entre ser fantasia para adultos ou história fofinha para crianças. Embora o primeiro e o segundo atos sejam fantásticos, a narrativa começa a se tornar arrastada quando o casal entra na tal floresta mágica. O episódio se arrasta mais do que o necessário, e, pior, sem que exista um fio condutor para manter o interesse. Isso, mais a ausência de diálogos, são um convite ao sono, embora o belíssimo visual e a fotografia consigam prender a atenção do espectador até o final. "Manôushe" é uma obra mais bela e "diferente" do que propriamente memorável, mas conhecê-la é obrigatório para qualquer fã de cinema brasileiro, e principalmente para quem tem interesse no cinema fantástico feito no país. É uma pena que tenha permanecido obscuro, pois talvez tivesse incentivado a realização de outros filmes na mesma linha.


SANTOS E PECADORES (Sinners and Saints, 2010, EUA. Dir: William Kaufman)
Esse violento filme policial chegou ao Brasil após receber láureas em vários sites gringos, que compararam o trabalho do novato William Kaufman com obras consagradas como "Viver e Morrer em L.A." e "Fogo Contra Fogo". Não é para tanto, e no fim das contas "Santos e Pecadores" é até bem previsível e rotineiro. Se não fosse pelo elenco de primeira (com Tom Berenger e Jürgen Prochnow fazendo personagens secundários) e por alguns momentos mais exagerados de violência, graças aos vilões que torturam suas vítimas queimando-as vivas, a obra provavelmente passaria desapercebida e acabaria sua trajetória num Domingo Maior qualquer. Mas, ainda que o roteiro não ajude muito, sempre é bom assistir um filme policial violento e sem frescura feito nesses nossos tempos politicamente corretos, e protagonizado por um tira durão (Johnny Strong, muito bom) que sai enchendo a bandidagem de tiros sem pensar duas vezes. Somente um sujeito casca-grossa como esse para enfrentar a quadrilha de bandidos barra-pesada liderada por Costas Mandylor (um dos vilões de "Jogos Mortais"). Existe um "MacGuffin" cobiçado pelos bandidos, mera desculpa para levar a trama adiante, um detalhe que é rapidamente esquecido numa trama que privilegia a ação rápida e rasteira e os tiroteios, filmados de maneira estilizada e realista. Kaufman desfila um amplo repertório cinéfilo que prende a atenção de fãs de filmes policiais, como o duelo final entre herói e vilão, correndo em direção um ao outro e trocando tiros como os protagonistas de "O Ano do Dragão", de Michael Cimino. Embora não tenha nada de tão espetacular para justificar os elogios rasgados que recebeu, "Santos e Pecadores" diverte e não compromete - ainda que faça falta uma história melhorzinha e sem tantos clichês, onde não falta nem a mais do que batida dupla de policiais branco e negro que começa o filme se odiando e depois "descobre o valor da amizade"!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quatro dias com Lamberto Bava


Como toda uma geração de fãs de horror brasileiros, minha "alfabetização" no gênero se deu em meio à década de 80, atráves da grande variedade de fitas lançadas no país por uma infinidade de pequenas distribuidoras. E, como todo fã de horror do período, um dos clássicos da minha infância/adolescência foi "Demons - Filhos das Trevas", pequena pérola lançada em VHS no Brasil pela F.J. Lucas.

Assim, foi como um sonho realizado poder participar da primeira visita do diretor de "Demons", o italiano Lamberto Bava, ao Brasil, trazendo-o para participar de uma retrospectiva da sua obra no Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, realizado no início de julho.

Para tornar a passagem de Lamberto ainda mais especial, foi realizada não só uma retrospectiva da sua obra, mas também do seu pai, o mestre Mario Bava (1914-1980), realizador de clássicos que influenciaram gerações inteiras de cineastas, como "A Máscara de Satã" e "Banho de Sangue".

O que se segue é um relato desses dias passados ao lado de Bava em Porto Alegre, já que, como curador das mostras realizadas no Fantaspoa, tive o prazer de acompanhá-lo durante sua passagem pelo RS, antes de seguir viagem, como turista, para o Rio de Janeiro...


Dia 1 - Terça-feira
Originalmente, Lamberto e sua esposa cubana Ileana chegariam na noite de segunda-feira, mas um problema com o voo adiou a chegada para a manhã de terça-feira. Lá vou eu buscar o casal no Aeroporto Salgado Filho.

Reconheci Bava sem maiores problemas - um italiano atarracado como ele não passa desapercebido -, e então percebi que ele e a mulher vestiam roupas leves para um clima tropical, e o inverno gaúcho estava de rachar! Para piorar a situação, a bagagem deles havia ficado retida no Rio de Janeiro, numa daquelas clássicas palhaçadas de nossas empresas aéreas, então o convidado teve que passar frio até a noite, quando suas malas finalmente chegaram a Porto Alegre.

No táxi a caminho do hotel, usei meu inglês improvisado para conversar sobre filmes e a carreira de Lamberto, que respondia num inglês macarrônico tão improvisado quanto o meu (porque apesar de entender razoavelmente bem o italiano, não conheço o suficiente para manter uma conversação no idioma).


Ainda no táxi, uma revelação. Perguntei a Bava se era sua primeira viagem ao Brasil, e ele disse que sim. Então pedi se não havia conhecido a parte brasileira da Amazônia durante as filmagens do clássico "Cannibal Holocaust" (1980), de Ruggero Deodato, em que é creditado como assistente de diretor.

Lamberto então confessou que nunca pisou na Amazônia nem participou das filmagens de "Cannibal Holocaust", e que Deodato colocou seu nome nos créditos apenas porque tinha uma equipe muito pequena e queria fazer com que parecesse maior!!! Ah, a velha picaretagem italiana...

Entretanto, me contou Lamberto, ele foi assistente de diretor de Deodato em outro filme sobre canibalismo, o anterior "O Último Mundo dos Canibais" (1977), filmado na Malásia e nas Filipinas.

Ao lembrar do filme, ele mostrou pequenas cicatrizes na mão direita e relatou: "Isso é uma lembrança daquela filmagem. Tinha uma cena em que uma cobra enorme era mostrada rastejando pelo chão. Para filmar isso, nós soltávamos uma cobra que tínhamos numa gaiola, a cobra fugia rastejando, Deodato filmava e então precisávamos apanhar a cobra para fazer um novo take. O correto é pegar a cobra logo abaixo da cabeça, pois aí ela não pode morder. Mas depois de vários takes eu estava cansado e fui pegá-la mais embaixo, e então ela teve espaço para virar a cabeça e me encher de mordidas na mão!". Nem a esposa Ileana sabia dessa história, pela maneira assustada como olhou para as cicatrizes na mão do velhinho...

Falei a Lamberto que naquele primeiro dia exibiríamos quatro clássicos do seu pai, inclusive "The Whip and the Body", e ele se espantou ao saber que esse filme foi lançado nos cinemas brasileiros como "Drácula, O Vampiro" apenas por ter Christopher Lee no elenco (sendo que não há nenhum vampiro no filme, muito menos Drácula!). A sessão comentada pelo diretor naquela noite seria a do grande clássico de seu pai, "A Máscara de Satã".

Aproveitei para ir direto ao assunto: Lamberto dirigiu, em 1989, um remake da obra-prima do pai, e um filme tão ruim que nunca chegou a ser oficialmente lançado em lugar algum (no Japão, saiu em VHS como "Demons 5"!).

Originalmente, como curador, eu pretendia exibi-lo no Fantaspoa, até para que o público pudesse comparar o abismo de qualidade entre as duas versões, mas não encontramos uma versão com imagem boa o suficiente para exibir na tela grande. Expliquei isso a Lamberto e pedi se era verdade que ele não gostava da sua refilmagem, algo que tinha lido em algum lugar séculos atrás.

Para minha surpresa, ele não apenas disse gostar do estapafúrdio remake (que é mesmo muito ruim) como defendeu supostas qualidades da obra que eu não lembro de ter visto. Em todo caso, o "Mask of Satan" de Lamberto certamente entrou para a história como um daqueles raros casos em que o filho resolveu refazer um clássico do pai - e é uma pena que não conseguimos exibi-lo no Fantaspoa! (Numa dessas noites, num boteco, César "Coffin" Souza quase teve um treco quando citei este remake e pôs-se a xingá-lo das maneiras mais escabrosas!)

Após um rápido almoço com apresentações formais aos organizadores do festival, João Pedro Fleck e Nicolas Tonsho, Lamberto entregou-me o DVD de sua produção mais recente, um filme produzido para a TV italiana chamado "Presagi" (no Fantaspoa, "Presságio"). Como ele seria exibido na noite de quinta-feira, eu tinha menos de dois dias para fazer as legendas em português da obra.

As primeiras cenas de "Presságio" são promissoras: mostram uma menina vestida com capa-de-chuva vermelha ("Inverno de Sangue em Veneza"?) sendo perseguida por um homem de capa e chapéu pretos, figura típica dos filmes giallo. Infelizmente, o restante do filme cai na burocracia dos telefilmes - e a falta de violência ou cenas mais fortes é compensada com uma quantidade absurda de diálogos que o pobre coitado aqui teve que legendar.


À noite, fui buscar Lamberto e Ileana no hotel para a sessão comentada de "A Máscara de Satã". Aproveitei para perguntar se a menina de vermelho em "Presságio" era citação ao clássico de Nicolas Roeg, mas Bava desconversou: "Não, não, é uma referência a Chapeuzinho Vermelho". Tá bom...

Bava não quis ver pela milésima vez o filme do seu pai, então ficamos num restaurante ao lado do Cine Bancários, onde vários participantes do festival se encontravam para jantar antes das sessões da noite. Grandes fãs de Lamberto ficavam distantes, meio tímidos, e tive que chamá-los para apresentar formalmente ao "maestro".

Um deles foi Rodrigo Aragão, que estava lançando "A Noite do Chupacabras" no Fantaspoa e confessou seu amor por "Demons". Na foto abaixo, Aragão, eu, Bava e o zumbi do "Mangue Negro", grande filme do diretor brasileiro:


Na hora da sessão comentada, o organizador do Fantaspoa João Pedro me chamou para sentar ao lado de Lamberto e da tradutora de italiano, algo que se repetiu nas noites seguintes, para o meu desespero - ficar sentado calado diante de uma sala de cinema lotada não é minha praia.

Para tentar ser útil, resolvi fazer perguntas a Bava quando o público, por timidez, ficava mudo. Fui eu que pedi que ele falasse sobre seu remake de "A Máscara de Satã", por exemplo - mas tenho certeza que algum dos presentes na sessão, como Carlos Primati ou Carlos Thomaz Albornoz, acabaria fazendo a mesma questão.

Novamente, Lamberto falou com carinho do seu remake. Mas, se você ainda tem alguma dúvida sobre qual é o melhor, compare as imagens do original e da refilmagem abaixo:


Foi uma noite tranquila e de poucas perguntas, já que todo mundo queria mesmo era pegar autógrafo e foto ao lado de Lamberto, o que aconteceu depois da sessão. Percebi o enorme cansaço do convidado, que não havia dormido quase nada desde sua chegada ao Brasil, mas mesmo assim ele foi simpático, prestativo e não arredou o pé do cinema até dar seu último autógrafo, quando finalmente pediu que eu o acompanhasse de volta ao hotel porque não aguentava mais. Terminava o dia 1.


Dia 2 - Quarta-feira
Envolvido com a legendagem de "Presságio", só encontrei Lamberto no final da tarde.

Conversamos muito sobre cinema de horror italiano, histórias em quadrinhos (que lá eles chamam de "fumetti") e sobre a série de filmes de fantasia infanto-juvenil que ele dirigiu nos anos 90, "Fantaghirò", que foi um clássico do Cinema em Casa do SBT durante praticamente uma década.

Nesse ponto, talvez surpreso pela quantidade de cultura inútil sobre cinema que eu demonstrava (conhecendo alguns dos seus filmes melhor do que ele próprio!), Bava perguntou como eu sabia tanto sobre ele e seu pai Mario. Respondi que era fã e pesquisador de cinema desde a adolescência, ao que Lamberto respondeu: "Bravo, bravo".

Ainda na conversa sobre quadrinhos, falávamos sobre "Perigo: Diabolik", dirigido por Mario, quando Lamberto surgiu com uma curiosidade sobre a qual jamais tinha ouvido falar. Disse-me que, por conta de sua primeira esposa, acabou tornando-se parente do diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de "Carandiru" e "Pixote - A Lei do Mais Fraco").


Não me lembro direito qual era o grau de parentesco da sua ex-mulher com Babenco, mas o lance é que o jovem Hector, alguns anos antes de iniciar sua carreira como diretor, foi à Itália a convite de Lamberto para assistir as filmagens de "Perigo: Diabolik", quando teria feito uma ponta como um dos policiais que admiram a "estátua de ouro de Diabolik" na cena final!

Portanto, na próxima vez que vocês forem rever "Perigo: Diabolik", não esqueçam de prestar atenção num argentino com jeito atrapalhado na cena final: segundo Lamberto, ele é o próprio Hector Babenco!

Nesta noite, a sessão comentada foi sobre "Cani Arrabbiati" (1974), um dos grandes filmes de Mario Bava, e provavelmente o mais amaldiçoado. E lá estava eu outra vez, sentado ao lado de Lamberto e tentando fazer cara de inteligente (foto abaixo).


Após anos dirigindo filmes de horror gótico, este policial violento representaria um grande ponto de virada na careira de Mario, mas o produtor faliu e os negativos ficaram retidos pela justiça italiana como parte do seu espólio até os anos 90. Mario, portanto, nunca viu o filme pronto e exibido na tela grande, já que ele só ficou pronto uma década depois da sua morte.

Finalmente, em 1992, foi lançada uma primeira versão com o título em inglês "Rabid Dogs", mas Lamberto nunca a aprovou, conforme confirmou na sessão comentada - disse que era mais um copião das cenas filmadas pelo pai do que uma edição digna do que ele queria fazer.

Assim, junto com o produtor Alfredo Leone, o próprio Lamberto apropriou-se do material, reeditando-o, filmando novas cenas e relançando-o em 1996 com o título "Kidnapped". Esta foi a versão exibida no Fantaspoa.

Mais uma vez, o convidado não quis ver o filme inteiro, limitando-se a dar uma espiada pela porta para ver a cena final. "Que imagem maravilhosa", elogiou, surpreso com a qualidade da versão exibida.

Depois, na sessão comentada, o filho de Mario contou que foi complicado encontrar veículos dos anos 70 para poderem refilmar algumas cenas que foram adicionadas à edição. "Sua" versão também tem um final novo, razoavelmente diferente da conclusão original. Música e créditos iniciais também são diferentes, e a edição é mais rápida e dinâmica.

Apesar disso, eu ainda prefiro o final da primeira versão lançada, que era muito mais macabro e filho da puta...


Dia 3 - Quinta-feira
Perto do meio-dia, eu estava concluindo as legendas de "Presságio" quando recebi a missão de fazer um passeio de ônibus pelo subúrbio de Porto Alegre com Bava e sua esposa. Esse passeio é uma verdadeira armadilha para turistas (já tinha feito com Luigi Cozzi no Fantaspoa do ano passado), 1h30min dentro de um ônibus que nunca pára e passa por raros locais interessantes. Meio contra a vontade, aceitei minha missão, mais pela oportunidade de passar o tempo papeando com Lamberto.

Dito e feito: após uns 10 minutos, o próprio Bava percebeu que havia pouco de interessante para ver naquele passeio, e, embora eu tenha tentado traduzir para o italiano algumas das informações sobre o Rio Guaíba e os prédios históricos porto-alegrenses, a conversa logo enveredou para anedotas da passagem de Cozzi pelo Brasil em 2010, características italianas da minha cidade-natal (fundada por imigrantes italianos) e, claro, cinema.

Quando a conversa chegou em Quentin Tarantino e sua paixão pelo cinema italiano, Bava contou que, numa das muitas visitas de Tarantino a Roma, os dois se encontraram e o diretor de "Bastardos Inglórios" disse que seu filme preferido de Lamberto, para a surpresa do próprio, era "Blastfighter" (1984), uma aventura estrelada por Michael Sopkiw.

O bate-papo sobre cinema italiano oitentista foi tão animado que Lamberto decidiu que queria ver um dos seus filmes à tarde, "O Assassino da Meia-noite" ("Morirai a Mezzanotte", 1986, nunca lançado no Brasil). A sessão tinha um público reduzido, mas fiquei honrado com a oportunidade de ver um filme sentado ao lado do seu diretor.

Como se estivesse gravando a faixa de comentário de um DVD, Bava ficava falando o tempo todo sobre sua obra - mas os comentários eram sobre como ele não lembrava quase nada do filme! Quando rolavam os créditos iniciais, por exemplo, ele perguntou: "Mas quem fez essa música?". Surge o crédito: Claudio Simonetti. "Ah, Simonetti, claro, só podia ser!".

A versão exibida era falada em italiano, o que deixou o diretor mais animado. Depois de meia hora de filme, entretanto, ele me cutucou e pediu para sair da sessão. Na rua, quando eu o escoltava até o hotel, Lamberto disse, envergonhado, que não lembrava do filme. "É como se outra pessoa tivesse dirigido!", afirmou.

O mais engraçado, porém, foi quando Bava me perguntou quem era o assassino do filme!!! Contei-lhe a revelação do final e ele fez uma expressão de surpresa, como se nunca tivesse visto "Morirai a Mezzanotte" antes. "Ah é? Faz sentido...", comentou, e então emendou uma declaração simplesmente genial: "Até que é uma revelação inteligente".

Após um breve descanso, nos encontramos para a estréia de "Presságio" na sessão comentada das nove da noite. Bava estava surpreendentemente nervoso pela primeira vez, e justificou dizendo que o filme foi feito para a televisão e essa seria a primeira vez que ele o assistiria num cinema, com o público, portanto não sabia que reação teriam os espectadores.

"Presságio" é mesmo bem fraquinho (embora seja válido destacar a ótima interpretação do norte-americano Craig Bierko). Mas o público educadamente compreendeu que estava diante de um produto televisivo e poupou Lamberto de maiores críticas. Preferiram fazer perguntas sobre outros filmes exibidos no dia, como "A Blade in the Dark", infinitamente mais interessante.


O diretor depois distribuiu mais alguns autógrafos. Quando Leandro Caraça, do Viver e Morrer no Cinema, pôs diante dele a capinha do VHS de "O Quebra-cabeça" ("Body Puzzle", 1992), Bava ficou encucado: "Mas que filme é esse?". Não reconheceu a foto genérica da capa, com uma cena sangrenta que, pelo que me lembro, nem está no filme. Quando eu disse que era "Boddy Puzzle", Lamberto ficou emocionado: "Não vejo esse filme há 20 anos! Vai passar aqui? Eu gostaria de rever". Para nossa sorte, a sessão de "Body Puzzle" seria no dia seguinte, antes de "Demons"...

Na saída, Bava pediu para conhecer um pouco da noite porto-alegrense. Queria ver samba, o que me deixou numa encruzilhada: como mostrar samba em pleno inverno gaúcho? A solução foi tentar entretê-lo com um show de bossa nova no Odeon, um pequeno barzinho próximo ao cinema, onde, após vários chopps, Lamberto entrou no clima de avacalhação, inclusive tirando fotos fazendo caretas.

Interessante é que Luigi Cozzi foi levado ao mesmo bar em 2010 e pacientemente deu papo para um bêbado chato que ficou lhe torrando a paciência. Bava escapou disso, mas teve que aguentar outro bêbado chato: seu curador e cicerone Felipe (abaixo)!



Dia 4 - Sexta-feira
Sexta era o "Dia D" da Retrospectiva Bava no Fantaspoa. Dia D literalmente: à noite, numa sessão concorridíssima, seria exibido "Demons", o grande clássico do diretor.

Ao meio-dia, nos encontramos todos numa churrascaria para a tradicional overdose de carnes do italiano. É interessante destacar que, na sua chegada ao Brasil, Lamberto disse que queria conhecer a culinária brasileira e ao mesmo tempo manter distância da comida italiana. Nas palavras do próprio, "No pasta!" (Nada de massas).

Corajoso, ele não arregou diante de feijoada, mocotó e cortes de carnes diferentes; provou guaraná, caipirinha, cachaças e até a graspa brasileira. Na churrascaria, Bava fez a festa junto com outros convidados, como o simpático casal Kyle Rankin e Emily Janice Card (ele dirigiu o divertido "Nuclear Family") e os argentinos Hernán Moyano e Marina Glezer (roteirista e atriz de "Suor Frio").

À tarde, os hermanos quiseram ir até uma videolocadora em busca de DVDs de filmes brasileiros. Lamberto foi junto, mas não encontramos filmes de José Mojica Marins para vender, que era justamente o que todos procuravam (Hernán só conseguiu o recente "Encarnação do Demônio"). Quando lembro que esses filmes do Zé do Caixão eram vendidos a R$ 9,90 nos balaios das Americanas em São Paulo, me dá vontade de comprar uns 50 e vender a peso de ouro para os gringos no Fantaspoa 2012...

Após uma rápida visita à Usina do Gasômetro e à exposição da obra de Kenneth Anger, Lamberto foi para a sessão de "O Quebra-cabeça" - depois inclusive ganhou o DVD importado, inédito na Europa, de presente do organizador do Fantaspoa, João Pedro.

Bava tem melhores lembranças de "Body Puzzle" do que de "Morirai a Mezzanotte", mas se espanta com algumas cenas (segundo ele, hoje faria tudo diferente). Diz que a atriz Joanna Pacula era muito frígida e não conseguiu arrancar dela a atuação desejada.

Ele não pareceu incomodado com as risadas do público diante de cenas verdadeiramente imbecis do filme, como quando o assassino mata uma de suas vítimas numa piscina - e, apesar da água ser transparente, a tal vítima não enxerga um sujeito mergulhado que nada em sua direção com uma faca! Como aconteceu no dia anterior, Lamberto não aguenta o próprio filme até o fim, saindo da sala quando faltam 15 minutos para terminar.

O público começa a chegar para a sessão de "Demons", tomando o hall de entrada do Cine Bancários. Enquanto o filme não começa, aproveito para gravar depoimentos em vídeo de Lamberto sobre "Demons", "Roleta Macabra" (outro de seus filmes exibido no Fantaspoa, e que para mim é um guilty pleasure) e seu remake de "A Máscara de Satã".

Bebemos caipirinha, chopp e champanhe depois, num rápido coquetel realizado como parte da homenagem à carreira do diretor, que recebeu uma placa comemorativa dos organizadores do Fantaspoa.


Finalmente, "Demons" começa com sala lotada e gente sentada nas escadas (foto acima). "Tem que deixar espaço para a moto passar", brinca alguém, lembrando a cena mais antológica do filme.

Assistir um clássico da nossa juventude no cinema pela primeira vez é uma experiência única - ainda mais considerando que os horrores da trama se passam também dentro de um cinema!

E foi o único filme além de "Presságio" que Lamberto viu inteiro, sentado entre fãs que riam e vibravam durante a sessão inteira, contagiando o diretor (cada frase do cafetão interpretado por Bobby Rhodes gerava um festival de sonoras gargalhadas, inclusive do próprio Lamberto!).

Seguiu-se a sessão comentada, quando Bava explicou que "A Catedral", de Michele Soavi, surgiu de um roteiro não-filmado para "Demons 3".

Na saída do cinema, mais um festival de autógrafos e fotos que Lamberto encarou com alegria e entusiasmo, aparentando felicidade por ver que seu grande filme, lançado no hoje longínquo 1985, ainda funciona, inclusive para as novas gerações.

Bava ainda ficaria em Porto Alegre no sábado, mas é a hora da despedida - eu tinha outros compromissos no dia seguinte. Ele me agradeceu por tudo e confessou ter ficado surpreso por participar de um festival em que todas as suas despesas, inclusive com alimentação e bebedeiras, eram pagas pelos organizadores (o que não acontece em eventos maiores lá fora).

Ainda autografou-me um pôster de "Demons" com a frase: "Ao Felipe com carinho, tchau e obrigado por tudo". Finalmente, nos despedimos com uma demonstração de carinho de Lamberto Bava pelo seu curador, cicerone e fã, como demonstra a foto abaixo: