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quarta-feira, 16 de março de 2011

EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE (1986)


(Esta resenha é dedicada ao grande cinéfilo Hugo Malavolta, leitor contumaz do blog que foi iniciado, segunda-feira, no estranho mundo de Sady Baby, e justamente com esse filme aqui!)

Segundo o jornalista Gio Mendes, um dos seus biógrafos oficiais, o cineasta brasileiro maldito Sady Baby nunca ouviu falar no Marquês de Sade. Ironicamente, o célebre escritor do século 18 cuja obra cunhou a palavra "sadismo" e o ex-jogador de futebol gaúcho que virou diretor de cinema pornô têm muito, mas muito em comum.

Como Sade, Sady (nome de batismo: Sadi Plauth) também tem uma obra cult marcada pelo sexo e pela violência, em que o prazer anda lado a lado com a dor, a humilhação e o sofrimento do parceiro. O próprio cineasta, estrelando seus filmes, costuma interpretar um personagem sádico (ou, nesse caso, "sádyco"), geralmente um perigoso bandido ou vingador, que estupra as mulheres, pratica assassinatos violentos ou força pessoas a fazer sexo contra a vontade.


O cinema de Sady Baby é apenas para estômagos fortes. Em "A Máfia Sexual", por exemplo, ele obriga um casal de irmãos a fazer sexo sob a mira do seu revólver; em "No Calor do Buraco", mata uma garota, faz sexo com o cadáver e fala, diretamente para a câmera: "Dar uma trepada com uma pessoa morta é uma sensação arrepiante!".

É por isso que eu falo para os cinéfilos que babam ovo de supostos "filmes extremos" recentes, como "Irreversível" e "A Serbian Film": assistam as obras do Sady Baby que ele já fez quase tudo antes. E pior.


Porém, de tão fragmentados, absurdos, inesperados, extremos e amalucados, os filmes de Sady acabaram se tornando algo difícil de definir - algo numa fronteira bastante tênue entre a completa loucura e uma genialidade bem particular. Suas obras podem ser consideradas FILMES PARA DOIDOS por excelência, com cadeira cativa nesse blog (e se não aparecem por aqui com frequência, é justamente pela dificuldade de escrever sobre filmes TÃO doidos!).

Conhecedores da sua filmografia alegam que "No Calor do Buraco" é o seu melhor filme. Mas para o próprio Sady Baby e para mim particularmente, o "grande momento" do diretor é EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE, que provavelmente também é sua obra mais divertida e mais fácil de acompanhar, narrativamente falando.


Produzido em 1986 (embora o site da Cinemateca Brasileira informe o ano de 1987), o filme parece uma tentativa de aproveitar o sucesso da obra anterior de Sady, o pornô zoófilo "Emoções Sexuais de um Cavalo", estrelada pela célebre "Cicciolina do Bexiga" Makerlei Reis. E, como na maioria das suas produções, Sady não apenas estrela como divide direção e roteiro com o amigo Renalto Alves.

Este pornô, que é bem menos "zoófilo" do que o título anuncia, foi produzido em plena era do medo da AIDS, quando pouco se sabia sobre a doença além do fato de ela ser mortal. Nada mais certo, portanto, que Sady Baby explorasse esse medo de forma sensacionalista: Gavião, seu personagem na trama, é um presidiário que fugiu da cadeia e é portador do vírus HIV por, segundo o próprio, ter dado a bunda na prisão.


Logo na cena inicial, já apresentando o clima tosco e pobre que permeia o filme, Gavião caminha por uma floresta e, faminto, disputa um osso com um cachorro. A cena não tem cortes: Sady realmente tira um osso roído da boca de um cachorro e come o pouco de carne que ainda resta nele!

Em seguida, uma garota loira (interpretada por X-Tayla, figurinha carimbada nos pornôs do diretor) caminha inocente pela floresta e é agarrada por Gavião, que resolve estuprá-la para satisfazer seus desejos carnais há muito refreados no presídio.

Num caso clássico de contraste entre o som (dublado) e a imagem, as falas de Gavião ("Eu não vou te machucar! Eu não vou fazer nada contigo!") se sobrepõem a essa cena aí embaixo, o que já provoca as primeiras gargalhadas!!!


Gavião leva a loirinha até um caixão (feito visivelmente de papelão!) e segue-se um dos primeiros diálogos geniais da película: "Esse é o caixão do amor", declara o presidiário aidético. "Aqui eu faço sexo. Eu tô com fome de sexo! Eu vou comer seu cu dentro desse caixão!". Bizarramente, a moça fica excitada (!!!) e aceita participar de uma cena de sexo (simulado, sem penetração) dentro do caixão!

Acredite: esse é um dos momentos mais "normais" do filme!!!


Pulando as inevitáveis cenas de sexo explícito sem conexão com a trama que se seguem (conforme comentarei mais adiante), EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE continua com Gavião voltando para casa e encontrando sua esposa, Cocota, grávida. Hora do segundo diálogo genial do filme:

- O que é isso, Cocota?
- É... É um tumor!
- Isso é gravidez! Além de presidiário agora eu sou otário? Um chifrudo? Eu sou um corno? Engraçado: pra ajudar não tem ninguém, agora pra botar no rabo dos outros...



Em meio à sua fúria, Gavião descobre que o responsável por engravidar a esposa foi seu próprio pai, sogro da moça, conhecido apenas pelo apelido de "Velho Paçoca". Ele resolve se vingar do progenitor e vai até a casa da família, onde encontra a irmã mais nova (rápida participação de Makerlei Reis) também grávida do velhote! Segue-se novo diálogo antológico:

- Quem é o pai da criança?
- É o pai!
- Que pai?
- Nosso pai!
- Não... Velho fedido! Eu vou comer o cu daquele velho filho da puta!


Cada vez mais descontrolado, Gavião volta para sua própria casa e começa a socar a barriga da esposa, na tentativa de provocar-lhe um aborto involuntário. Depois, arranca-lhe das mãos uma banana que ela está comendo, e berra: "Você não vai comer porra nenhuma! Você vai morrer de fome!".


Mas no momento seguinte ele muda de ideia: ao invés de esperar que Cocota morra de fome, Gavião resolve queimar a esposa viva, incendiando o próprio barraco!!!

A partir de então, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE divide-se em três segmentos distintos: a busca de vingança de Gavião contra seu pai, o Velho Paçoca; a fúria do presidiário aidético contra a humanidade em geral, pelo fato de ele estar contaminado pelo HIV e sofrer preconceito (momento "crítica social" do roteiro); e, finalmente, uma suruba caligulesca que ocupa meia hora da narrativa.


Entre os momentos que fazem parte dessa subtrama da AIDS, estão as melhores cenas do filme.

Na primeira delas, Gavião invade o consultório do dr. Chabú (!!!) para vingar-se do médico, que supostamente teria lhe vendido um remédio para curar a AIDS (!!!) sem nenhuma serventia, óbvio. O protagonista dispara um quase-monólogo entre gritos e ameaças que é de deixar qualquer um chorando de rir:

"Você me enganou, médico trambiqueiro! Tu pediu grana pra me salvar, e eu fui na tua conversa, meu! Tu falou que tinha remédio pra AIDS, cara! Eu acreditei nisso, cara! Por que você fez isso comigo, médico filho da puta? Eu vou comer seu cu, cara! EU VOU COMER SEU CU, CARA!!! Olha aqui pra mim! Olha pra dentro dos meus olhos! Eu tô podre, cara! EU TÔ PODRE, CARA!!!" (Você pode ver esse lindo momento clicando aqui!)


Revólver em punho, Gavião primeiro estupra a secretária do dr. Chabú (outra cena implícita protagonizada pelo próprio Sady), sem que a moça proteste muito. Pelo contrário, ela até parece gostar - e a moça é a única razoavelmente gatinha no elenco, o que é um verdadeiro alívio depois de tantas caras feias vistas até então.

Depois, diante do olhar perdido da garota, o bandido força o "médico trambiqueiro" a sugar o sangue de uma ferida no seu braço. Ato feito, o ator que interpreta o doutor, no auge da sua interpretação forçada de galã de quinta categoria, declara, com os lábios ainda ensanguentados: "Sou um homem contaminado!", enquanto Sady, claro, gargalha maleficamente!!!


A outra melhor cena do filme acontece quando Gavião é expulso de uma boate por um grupo de homossexuais quando as bibas percebem que ele é aidético. Furioso, o bandido irrompe no local com uma motosserra (!!!) e mata violentamente uma das bonecas, serrando-lhe o torso!!!

A cena, realista e bastante sangrenta, foi feita com Sady realmente serrando o peito do sujeito, onde foi amarrada uma chapa de metal que protege o corpo do ator! Revelando todo seu "sadysmo", Gavião acaba com o rosto todo vermelho por causa do sangue que jorra durante a mutilação, enquanto ri e berra alucinado: "Hahahaha! Sangue! SANGUE!!!".


Já a busca do protagonista pelo pai garanhão encerra com um dramático reencontro dos dois. Ferido por um tiro, Gavião diz ao progenitor: "Ah, Velho Paçoca... Meu grande pai... Meu grande filho da puta!!! Vai comer capim, velho!!!".

Todas essas cenas sem-noção fazem de EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE um filme simplesmente incrível, inacreditável até, daqueles em que você não sabe se ri ou chora, e em que um momento bizarro é seguido por outro ainda mais escalafobético.


Infelizmente, este também é um filme pornográfico produzido na Boca do Lixo. E, como tal, traz um montão de cenas de sexo porcas, mal-filmadas e protagonizadas por pessoas feias e peludas (com "nomes artísticos" do calibre de Rui Taradão, Rinaldo Pilantra e Cilene Bucetão!!!).

Quem já viu algum pornô da Boca sabe o que esperar, mas os filmes de Sady Baby descem a um nível de feiúra e vulgaridade ainda mais abominável do que a média. É simplesmente a maior reunião de gente feia e desdentada fora de um filme do Fellini ou do Pasolini! E o pior: esses caras e barangas geralmente estão pelados e trepando!!!

Sady provavelmente contratava mendigos da Rua do Triunfo a preço de cachaça e colocava-os para protagonizar, sem muita distinção, cenas homossexuais ou de zoofilia!!!


Uma curiosidade: nem todos os pornôs brasileiros daquele período eram exclusivamente "heteros", como os estrangeiros. Se hoje você entra numa videolocadora e escolhe um filme só com lésbicas, só com gays, só com travecos ou só com dupla penetração anal, na época era comum ter tudo isso misturado no mesmo balaio - e mais zoofilia, no caso das obras da Boca do Lixo!!!

É o caso aqui, onde há diversas cenas gays protagonizadas por homens barrigudos e peludos. Numa delas, um policial leva um casal homossexual para um matagal e obriga ambos a fazerem sexo com ele. Enquanto é sodomizado por um e chupa o outro, grita: "Você não é estuprador? Então me estupra!". Mais adiante, outros dois homens transam ao som da Marcha Nupcial (!!!) e da música-tema de "Carruagens de Fogo" (!!!).


E há a gigantesca orgia de meia hora no bar, detalhe característico da maioria dos filmes de Sady (quando a narrativa é interrompida para uma grande suruba entre vários atores e atrizes). Sem distinção entre gays, lésbicas e simpatizantes, o povo transa animadamente e até um cavalo entra na jogada.

Com a boca cheia de iogurte ou leite, homens e mulheres aplicam um singelo boquete zoófilo no equino e simulam a ejaculação do animal - uma cena que só lembro de ter visto "de verdade" no igualmente inacreditável "Experiências Sexuais de um Cavalo", de Rubens Prado.

Destaque para o "cardápio" do bar, que anuncia "buceta ao molho" como prato do dia e opções do tipo "sopa de menstruação", "rolê de rola" (!!!) e até "feijoada de cu"!!! A "imaginação" de Sady e sua trupe realmente não tinha limites...


E por falar nisso, ainda nessa cena da suruba, Sady inseriu um momento que é absolutamente genial: sem poder colocar uma câmera dentro da vagina da atriz (lembre-se que eles ainda filmavam com enormes câmeras de película, e não existiam microcâmeras de vídeo, como hoje), o diretor simulou um plano "por dentro da perereca" simplesmente dando um close no pinto do "ator" enquanto ele penetra um pedaço de bife até a ejaculação!

(É uma pena que esse blog seja "respeitável" e eu não possa publicar fotos desse momento maravilhoso de criatividade cinematográfica aqui...)


Mas péra lá: e onde entra o jegue do título nessa história? Bem, na verdade o jegue faz uma minúscula participação especial só para justificar o nome do filme, quando X-Tayla encontra o animal e simplesmente fica se esfregando pelada nele, mas sem muita ousadia, o que pode frustrar quem foi atrás do filme APENAS para ver as emoções sexuais do tal jegue!!!

(E é claro que, como em quase todos os pornôs da Boca, o jegue "pensa alto", como o Garfield, enquanto X-Tayla sensualiza com ele...)


O resultado é que EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é um filme inclassificável, em que momentos de extrema violência (como o esquartejamento com motosserra) aparecem depois de diálogos cômicos e nonsense, mas também estão separados por intermináveis trepadas literalmente nojentas entre homens e mulheres, homens e homens e ambos os sexos com animais!

Não foge à regra: como a maior parte dos pornôs da Boca, este também ficaria muito mais divertido (e fácil de assistir) SEM o sexo explícito, que aqui é tão excitante quanto se masturbar assistindo "Os Dez Mandamentos" (se bem que no filme do Cecil B. De Mille até aparecem umas figurantes bonitinhas com pouca roupa, enquanto no do Sady Baby todo mundo é feio e asqueroso, fora, talvez, a secretária do dr. Chabú!).


Se você nunca viu um filme de Sady e pretende começar a conhecer sua insólita filmografia, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é uma boa opção: traz tudo aquilo que caracteriza o cinema do sujeito (frases de efeito, personagem "sádyco", violência explícita e sexo nojento) de uma forma menos insuportável e desconexa que as suas outras obras. Até existe uma história e uma trama para seguir, mesmo que na maior parte do tempo as cenas apenas se sucedam sem muito critério e praticamente no improviso.

Afinal, de que outra maneira você consegue encarar a despedida entre Sady e X-Tayla na história, quando ele entrega dezenas de fotos para a garota e diz: "Quero que você faça um favor para mim, porque eu estou morrendo. Eu quero que você trepe com todos!"?!?

Um momento insólito que só poderia ter saído da cabeça do nosso "Marquês de Sady", um dos "artistas" mais estranhos dessa miríade de bizarrice chamada "cinema pornô nacional dos anos 80"...


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Emoções Sexuais de um Jegue (1986, Brasil)
Direção: Sady Baby e Renalto Alves
Elenco:Sady Baby, X-Tayla, Renalto Alves,
Neilton Mofarrej, Kátia Bokão, Makerlei Reis,
Feijoada e Karla Karbley.

sábado, 12 de março de 2011

SONATINE - ADRENALINA MÁXIMA (1993)


(Depois de algumas semanas de tranqueiras, nada como fugir um pouco da rotina com mais uma resenha da série FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA.)
Imagine um filme sobre a Yakuza (a máfia japonesa) completamente diferente de tudo o que você já viu: ao invés de ficar trocando tiros, matando rivais ou cortando os dedos em sinal de lealdade, os gângsters passam a maior parte do tempo numa casa de praia, brincando com frisbee (!!!), jogando conversa fora e aprontando brincadeiras uns com os outros.

Pois assim é SONATINE, o quarto filme dirigido (e também escrito e estrelado) pelo mestre Takeshi Kitano. Considerando que praticamente nada acontece durante a maior parte dos 94 minutos da película, é mais do que inapropriado o título nacional, "Adrenalina Máxima" (!!!), certamente uma tentativa de tentar vender o filme de Kitano como um exemplar do explosivo cinema de ação japonês da época - "citando" ainda títulos brasileiros para produções do gênero, como "Fervura Máxima" e "Velocidade Máxima".


O que faz de SONATINE uma obra espetacular é que esse marasmo, esse "não acontece nada", esse ritmo letárgico e silencioso da maior parte do filme é quebrado inesperadamente, em diferentes momentos da trama, por explosões furiosas de violência - que pegam não só os personagens, mas o próprio espectador, de surpresa!

Quem acompanha o FILMES PARA DOIDOS há tempos deve saber que Takeshi Kitano é um dos meus cineastas contemporâneos preferidos. SONATINE não é o meu filme preferido do diretor, mas é dos melhores que ele fez e um filmaço!


O diretor-roteirista interpreta Murakawa, um veterano membro da Yakuza que explora o jogo ilegal num bairro de Tóquio. Ele já está de saco cheio de ser gângster e vive um dia-a-dia de rotina, desprovido de emoção - mesmo quando precisa executar um rival nos "negócios", ele o faz de maneira tão desinteressada como se estivesse apenas varrendo o chão.

Certo dia, o chefão da Yakuza reúne seus aliados e resolve enviar Murakawa até a cidade japonesa de Okinawa, para intermediar as negociações de paz entre dois clãs mafiosos que estão em guerra. Mas o velho bandidão, que não é moleque nem nada, questiona a validade da "negociação", considerando que no passado, em outra situação parecida, perdeu três dos seus melhores homens.


É claro que o chefão não escuta seus argumentos, e assim Murakawa e seu bando - formado por comparsas fiéis e também por alguns garotos novos e indisciplinados - parte para sua missão.

Porém, já nos primeiros dias, o grupo sofre um violento atentado na cidade e resolve esconder-se numa casa de praia, onde veteranos e novatos irão se conhecer melhor e descobrir que têm pelo menos uma coisa em comum: nenhuma expectativa de vida.

Muito já se falou e se escreveu sobre como Martin Scorsese (com "Os Bons Companheiros", em 1990) e Quentin Tarantino (com "Cães de Aluguel", em 92, e "Pulp Fiction", em 94) desmistificaram e "desglamurizaram" o universo dos gângsters cinematográficos, mostrando-os como pessoas comuns, que fazem brincadeiras, riem e falam sobre filmes e músicas, ao invés de ficar o tempo todo planejando crimes e matando pessoas.


Mas pouca gente lembra de citar SONATINE, que tem uma pegada bem parecida e foi feito na mesma época. É realmente muito estranho ver membros durões da Yakuza jogando frisbee na praia (ainda que o personagem de Kitano logo apareça para acabar com a brincadeira, disparando tiros de revólver no frisbee!!!) ou tomando banho de chuva como se fossem crianças.

Porém o mais interessante dessa pequena gema do mestre Takeshi são os rompantes de fúria que, de repente, invadem a narrativa lenta e silenciosa, mudando completamente o tom do filme.

Como na vida real, a violência surge de repente, caótica, sem anúncio prévio tipo trilha sonora subindo, câmera tremendo, cortes rápidos na edição, e definitivamente sem pistoleiros invadindo o quadro berrando "iáááááá" ou "die motherfuckers!!!!".


A primeira vez em que isso acontece é de fazer o espectador saltar da poltrona: NADA acontece na primeira meia hora do filme além de diálogos entre os bandidos e cenas com pessoas caminhando ou andando de automóvel.

Então, inesperadamente, Murakawa e seu grupo estão num bar quando começa um tiroteio infernal, anunciado apenas pelo som dos tiros e pelas pessoas caindo ensanguentadas no chão (confesso que levei um susto, tão inesperado que é o ataque). Nunca me peguei no meio de um tiroteio, mas aposto que na vida real a coisa é bem assim.

Mais adiante, perto do final, outra cena explosiva de violência acontece dentro de um elevador lotado, e outra vez inesperadamente, com tiros sendo disparados para todos os lados e personagens centrais da trama morrendo como moscas. Ficou curioso? Então veja no vídeo abaixo:

Nunca troque tiros num elevador lotado!

Aqui, como em praticamente todos os filmes de Kitano, chama a atenção o fato de que ninguém fala, xinga, ameaça o rival ou grita durante os tiroteios (os personagens apenas ficam estáticos, sérios, disparando suas armas), e nenhum personagem grita de dor ao ser alvejado, como se a surpresa pelo ferimento fosse maior do que a dor.

Também como na maioria dos filmes do diretor, seu personagem, Murakawa, é um sujeito fechadão e de poucas palavras, mas capaz de revelar seus sentimentos apenas com os olhos puxados quase inexpressivos.


 Ele vive uma relação esquisita com uma garota que salvou de um estupro (Aya Kokumai), mas ao mesmo tempo leva uma vida auto-destrutiva demais para se importar com o futuro. Tanto que, à noite, ao invés de ter um sono tranquilo, Murakawa sempre sonha que está estourando os próprios miolos ao jogar roleta russa!

E que personagem fantástico Murakawa é! Um gângster cansado da vida de gângster, que só quer administrar suas casas de jogo ilegal, mas acaba envolvido numa guerra estúpida que sabe que irá acabar em banho de sangue...


 Na cena brilhante em que o chefão reúne seus aliados para explicar a missão, Murakawa ouve tudo silenciosamente e fumando um cigarro. Quando o conselheiro do chefe, e puxa-saco de marca maior, declara algo como "Chefe, nós colocamos nossas vidas em suas mãos", o personagem de Kitano levanta-se furioso e esbraveja: "VOCÊ está colocando minha vida nas mãos dele!".

Logo em seguida, revelando que é realmente um sujeito casca-grossa, Murakawa pega o tal conselheiro puxa-saco de surpresa no banheiro e arrebenta o cara na porrada para mostrar o que acha do seu puxa-saquismo!


Econômico em diálogos, tiroteios e até em movimentos de câmera, SONATINE é um filme parado e introspectivo, e por isso mesmo deverá decepcionar quem espera a "adrenalina máxima" prometida pelo título nacional.

Mas quem tem certa intimidade com o cinema, digamos, diferente de Takeshi Kitano vai curtir muito, principalmente porque as cenas são embaladas por uma belíssima (e melancólica) trilha sonora de Joe Hisaishi. A conclusão é a esperada, mas o filme tem pelo menos meia dúzia de cenas fantásticas que já valem o programa.


Ironicamente, SONATINE foi um fracasso de bilheteria na época do seu lançamento. Afinal, Kitano era um comediante popular na TV japonesa, e ninguém gostou de vê-lo como mafioso implacável e violento.

Somente anos depois, quando sua obra-prima "Hana-Bi - Fogos de Artifício" (1997) ganhou o Festival de Veneza, é que SONATINE foi redescoberto e reavaliado pelos críticos japoneses e do resto do mundo. Nos EUA, por exemplo, o filme só chegou aos cinemas em 1998, com comentários elogiosos de um certo Quentin Tarantino, que "apadrinhou" a obra.

PS:
Alguns consideram SONATINE uma grande homenagem de Takeshi Kitano a um dos seus mestres, o veterano Kinji Fukasaku. Em 1971, Fukasaku dirigiu um filme chamado "Sympathy for the Underdog", sobre gângsters que se reúnem na mesma Okinawa para resolver uma guerra de gangues. Kitano estaria prestando a homenagem ao cineasta que lhe deu a primeira oportunidade de dirigir um filme, o excelente "Violent Cop", em 1989, já que a obra seria originalmente dirigida por Fukasaku, mas ele desistiu e Kitano assumiu a missão.


Trailer de SONATINE - ADRENALINA MÁXIMA

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Sonatine - Adrenalina Máxima (Sonatine, 1993, Japão)
Direção: Takeshi Kitano
Elenco:Takeshi Kitano, Aya Kokumai, Tetsu Watanabe,
Masanobu Katsumura, Ren Ohsugi, Susumu Terajima
e Tonbo Zushi.