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sexta-feira, 21 de maio de 2010

COISAS ERÓTICAS (1981)


Independente da sua qualidade artística e da sua pobreza como produto erótico (é mais brochante do que propriamente excitante), o longa COISAS ERÓTICAS, produzido em 1981 e exibido em 1982, tem seu lugarzinho de honra na história do cinema brasileiro: foi o primeiro filme pornográfico produzido no país, uma "novidade" que levou uma multidão de 4,7 milhões de curiosos para as salas de cinema!

Claro, eram outros tempos. O videocassete engatinhava mundo afora e ainda era novidade no Brasil, portanto a pornografia cinematográfica ainda não era um ritual individual (você com sua fita ou DVD no conforto da sua casa), e sim coletivo (você no cinema, vendo o sexo explícito na tela grande e desconfortavelmente rodeado de outros punheteiros).

Também havia ainda no Brasil a forte censura, que não permitia a exibição de pornôs em nossos cinemas, embora nos Estados Unidos e na Europa a indústria hardcore já estivesse instituída desde o começo dos anos 70.


Ironicamente, a censura nunca impediu que o cinema brasileiro explorasse o sexo e a sexualidade - embora não o pudesse fazer explicitamente, como nos produtos importados. Mas não faltava sacanagem nos filmes nacionais pré-COISAS ERÓTICAS, basta lembrar de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (com José Wilker pegando Sônia Braga de quatro), "A Dama do Lotação" e as famosas pornochanchadas do período.

A abertura para a pornografia explícita começou em 1980, com algumas cenas rápidas e escuras em obras como "Boneca Cobiçada", de Rafaelle Rossi. E foi no ano seguinte que o mesmo Rossi chutou o pau da barraca e rodou COISAS ERÓTICAS, primeiro filme nacional a mostrar tudo, sem cortes - como o cartaz de cinema anunciava, cheio de erros de pontuação, "E assim!... Conheceram as maravilhas do Sexo!".


COISAS ERÓTICAS é um longa composto por três historinhas péssimas - mas, como o objetivo era mostrar putaria, vamos dar um desconto. A primeira e a última foram dirigidas pelo também produtor e roteirista Rafaelle Rossi, e a do meio é assinada por Laente Calicchio.

O primeiro episódio (que traz o nome do filme, "Coisas Eróticas") é uma pérola do mau gosto. Começa com Eduardo (Oásis Minitti, de "O Império do Sexo Explícito") literalmente sentado no trono, enquanto folheia uma revista masculina. Ato encerrado, o sujeito limpa a bunda, dá uma suspeita olhadinha sorridente para o papel higiênico sujo e vai direto para o chuveiro descascar a banana enquanto olha para a bela modelo nas páginas da revista.


Uma coisa que salta aos olhos já nestes primeiros momentos é o banheirinho tosco e tipicamente brasileiro: aquelas janelinhas basculantes com a toalhinha pendurada para secar, os azulejos bregas, o box minúsculo para tomar banho com uma enorme esponjona pendurada num preguinho na parede... Enfim, o tipo de coisa que só se vê mesmo no Brasil!

A história continua e só "melhora": Eduardo vai dar uma voltinha com sua Brasília e, numa rua movimentada, cruza com uma bela mulher num sinal fechado. Surpresa: é a modelo para quem ele bateu uma bronha horas antes! E não tem como segurar o riso diante do close na cara de surpresa de Minitti enquanto ele declara, emocionado: "Ei, mas eu te conheço!".


Segue-se um flerte, uma noitada no restaurante, e a bela modelo (interpretada pela linda Jussara Calmon, em seu primeiro filme) convida o rapaz para um final de semana em sua chácara. Lá chegando, Eduardo conhece a filha adolescente da amada, Arlete (Ilse Cotrim), uma daquelas meninas com os hormônios em ebulição. Detalhe: Arlete e uma amiga estão tomando banho de sol completamente nuas, mas nem elas e nem a mãe ficam constrangidas, e Eduardo é apresentado normalmente às garotas!

Mais tarde, enquanto Arlete transa com a amiguinha no chuveiro, Eduardo e sua modelo transam na cama de casal, quando finalmente rolam as tais "cenas explícitas" que todo mundo pagou ingresso para ver. A filha espia tudo pelo buraco da fechadura - apesar de a cena anterior deixar bem claro que a cama NÃO estava em frente à porta para permitir qualquer visualização!!! - e se apaixona pelo "quase padrasto", que irá seduzir no momento em que a mãe sair para "ir até a cidade".


A conclusão da "trama" é fantástica: a modelo volta à chácara antes da hora (num carro diferente daquele em que ela estava ao sair!!!), flagra o amado na cama com a própria filha e só consegue soltar um "Não...". O casal nem ao menos pára o que está fazendo, e a modelo sai para flertar com outro desconhecido no sinal de trânsito. Uma salva de palmas!

O segundo episódio (misteriosamente também batizado "Coisas Eróticas"!!!) é mais divertido, mas igualmente sem noção: um casal sadomasoquista (Marília Nauê e Andrev Soller), que só se excita trocando pancadas e chicotadas na cama, coloca um anúncio numa revista masculina oferecendo-se para fazer swing - uma novidade que seduzia a sociedade brasileira da época, também enfocada na engraçada pornochanchada "Embalos Alucinantes - A Troca de Casais" (1978), de José Miziara.


Quem responde ao anúncio é um casal aparentemente certinho e recatado (Vânia Bonier e Michel Belmondo), mas já no primeiro encontro os dois pares fazem um surubão com direito a troca-troca (homem com homem, mulher com mulher) e ménage a trois entre chicotadas.

Estranhamente, a historinha não tem uma conclusão, e nem mesmo o sexo "termina": os personagens ainda estão transando animadamente quando o episódio chega ao fim, sem que nem ao menos se mostre a ejaculação para dar a certeza do orgasmo.

E para quem não ligou o nome à pessoa, a feinha Vânia Bonier ficou "famosa" por fazer uma cena caliente com o pastor-alemão Jack no "clássico" "24 Horas de Sexo Explícito" (1984), de José Mojica Marins!


Finalmente, Rafaelle Rossi volta à direção para a terceira história, desta vez com um título diferente ("Férias de Amor"), e que na verdade tem um argumento muito parecido com o da primeira: os colegas de faculdade Betinho (Walder Laurentis) e Laura (a deusa Zaira Bueno) se apaixonam, e a moça convida o rapaz para um final de semana na chácara da família.

Ali, Betinho passa a pistola em tudo que se move (a sogra, as duas cunhadas... só o sogro escapa!). Mas, na conclusão engraçadinha, fica furioso com o convite da namorada Laura para transar no chuveiro, já que o hipócrita queria preservar a castidade da moça para o casamento - um marcante traço cultural daquela época.

Por sinal, já que estamos falando de Zaira Bueno no chuveiro, nunca vi um filme com tantas cenas de gente tomando banho como esse! A conta deve ter saído uma fortuna no final das filmagens. É quase mais água que em "Waterworld"!


COISAS ERÓTICAS foi uma verdadeira revolução na época do seu lançamento, já que os espectadores brasileiros finalmente poderiam ver os atores "transando de verdade", e não aquelas simulações um tanto ingênuas mostradas nas pornochanchadas e filmes eróticos de então.

A bem da verdade, ainda há muito sexo simulado no filme de Rafaelle Rossi, com alguns poucos closes do "tchaca-tchaca na butchaca" para comprovar que, sim, está ocorrendo penetração. Algumas das atrizes nem toparam ir até o fim: Zaira Bueno, por exemplo, não aparece fazendo sexo, nem explícito e nem simulado, apenas peladinha numa cena de banho - mas já vale, pois ela é a mulher mais bonita do elenco.

Além disso, o filme mostra um sexo explícito ainda tímido, e que os diretores visivelmente não sabem filmar direito (os órgãos sexuais ficam encobertos por braços e pernas o tempo todo; os ângulos de câmera escolhidos não são exatamente os melhores para ver a "ação").

Cenas de sexo oral (nele e nela) são rápidas e filmadas de longe, talvez para não chocar. E o filme raramente mostra a ejaculação dos atores, que nos pornôs costuma representar o realismo da coisa ("Se o ator gozou, é porque eles estavam transando de verdade!").


Mas pelo seu aspecto pioneiro e revolucionário, pelos detalhes 100% brasileiros (os banheiros bregas, os carros da época, as salas decoradas com vasos suspensos de samambaia!) e pela nudez das musas Jussara Calmon e Zaira Bueno (as outras mulheres são "normais" ou feias), COISAS ERÓTICAS merece ser conhecido (e reconhecido), até porque está para fazer 30 anos e com certeza a data vai passar em branco.

Nem que seja para dar risada diante dos tradicionais diálogos constrangedores, como "Arlete, não sei porque essa sua atitude, não fica bem pra você! Você é uma garota, e não pode saber coisas sérias sobre o amor" (dita por Minitti à filha da sua namorada, que acabou de ficar completamente pelada na sua frente!)


Ou ainda da conversa entre o rapaz e sua sogra no terceiro episódio, quando passam em frente a um motel de beira de estrada:

- Conheço um casal de amigos que vem ao motel duas ou três vezes por mês. Eles contam milagres! Dizem que a decoração é excitante! Qualquer dia eu gostaria de conhecer um só pra matar a curiosidade...
- Se quiser, eu posso lhe mostrar um agora!
- responde prontamente o genro safado.
- Hihihi... Até que a ocasião é própria!

Vale destacar que COISAS ERÓTICAS, um filme pornográfico, aparece em respeitável 12º lugar na lista das maiores bilheterias do cinema brasileiro de todos os tempos, com 4.729.000 espectadores, muito à frente de filmes como "Se Eu Fosse Você" (23º colocado), "Cidade de Deus" (31º colocado) e "Roberto Carlos a 300 Km por Hora" (45º colocado). Glauber Rocha e sua turma de xaropes cinema-novistas nem mesmo aparecem nessa lista, o que já diz tudo.

E o mais surpreendente é que se tirarmos da tal relação os filmes dos Trapalhões (22 deles aparecem entre as 50 maiores bilheterias!), os da Xuxa e os do Mazzaropi, COISAS ERÓTICAS imediatamente sobe para uma honrosa SEXTA COLOCAÇÃO entre as maiores bilheterias do cinema nacional, atrás de "Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia" e "Dois Filhos de Francisco"!!!


Não é pouca coisa para um filme pornográfico... Ainda mais para um pornô brochante como este do Rafaelle Rossi, que comete até o disparate de colocar uma versão disco do tema de "Tubarão" (!!!) para tocar durante uma cena de sexo, e traz um dos personagens dublado por Marthus Mathias, o dublador oficial do Fred Flinstone!!! Dá até medo que ele grite um "Wilmaaaaaaaaa!" durante a cena de sexo...

Mesmo assim, COISAS ERÓTICAS conquistou o público e ganhou uma seqüência menos famosa, realizada pelo mesmo diretor em 1984.

PS: Para entender um pouco do "choque" que foi ver um pornô nacional nos cinemas lá atrás, no início da década de 80, é sempre interessante procurar pelos relatos de quem viveu aquela época. Aqui tem um bem interessante, e que revela um pouco de uma época cheia de inocência, diferente destes tempos modernos em que qualquer pivete com acesso à internet consegue ver uma suruba de loiras siliconadas com cães, gatos e coprofagia a qualquer hora, no conforto do seu lar...


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Coisas Eróticas (1981, Brasil)
Direção: Rafaelle Rossi e Laente Calicchio
Elenco: Oásis Minitti, Jussara Calmon, Zaira
Bueno, Vânia Bonier, Walder Laurentis,
Regina Célia e Deusa Angelino.

domingo, 16 de maio de 2010

Luigi Cozzi no Fantaspoa 2010


Sempre que eu lia sobre aquelas mostras de cinema fantástico realizadas na Europa, com a presença de diretores como Dario Argento, Ruggero Deodato e Enzo G. Castellari, ficava morrendo de inveja e ao mesmo tempo frustrado por saber que uma coisa assim jamais aconteceria no Brasil, onde estes cineastas mais "alternativos" não são tão conhecidos (mesmo Argento). Mas eis que este ano acontece uma das primeiras tentativas (que eu me lembre) de mudar este cenário: o cineasta italiano Luigi Cozzi estará participando do Fantaspoa - Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, com uma mostra retrospectiva da sua obra.

O curador do evento é este que vos escreve, que também espera que a Mostra Luigi Cozzi seja apenas a primeira de muitas outras que possam trazer ao Brasil e homenagear, pela primeira vez, estes amados diretores "cult" europeus.

Conheci Cozzi há uns cinco anos, quando descobri que ele tinha uma página na internet que informava seu e-mail. Sem pensar duas vezes, enviei um e-mail sugerindo uma entrevista para o site Boca do Inferno, já que sempre fui muito fã dos seus filmes, especialmente "Paganini Horror" e "Alien Contamination". Em poucas semanas, Luigi não apenas concedeu a entrevista como ainda mandou inúmeros presentes para a minha casa, entre livros de sua autoria, revistas que publica na Itália e até um DVD francês com a edição de colecionador de "Starcrash".

No ano passado, quando estive viajando pela Europa, não pensei duas vezes e me mandei para a loja Profondo Rosso, que Cozzi administra bem pertinho do Vaticano. Ele é um bonachão, muito simpático e acessível. Após um bate-papo de umas duas horas, saí da loja cheio de livros e DVDs, e já pensando na possibilidade de trazer o cineasta para o Brasil.

O homenageado e o curador

Sugeri esta possibilidade aos organizadores do Fantaspoa, as negociações aconteceram rapidamente (com a ajuda do meu amigo e tradutor oficial de italiano Eliseu Demari), e logo o velho Luigi já estava todo faceiro com a idéia de participar de uma retrospectiva da sua obra no país.

O resto é história.

Segue a programação da Mostra Luigi Cozzi no Fantaspoa 2010. Serão exibidos todos os seus longas, mais documentários que ele dirigiu sobre Dario Argento, episódios de seriados da TV italiana que ele roteirizou ou dirigiu e até "Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza", clássico giallo dirigido por Argento e co-roteirizado por Cozzi, inédito no Brasil e em versão sem cortes!

Programem-se e não deixem passar esta oportunidade de conhecer pessoalmente um cineasta da Era de Ouro do cinema fantástico italiano!

Mais informações no blog do Fantaspoa 2010.

PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA LUIGI COZZI

* Terça-feira - 6 de julho
15 horas – Turno da Noite + O Túnel Sobre o Mundo
17 horas – O Túnel do Submundo
19 horas – Hércules
21 horas – As Aventuras do Incrível Hércules – Sessão Comentada por Luigi Cozzi

* Quarta-feira - 7 de julho
15 horas – Hércules
17 horas – O Vizinho + Testemunha Ocular
19 horas – Alien – O Monstro Assassino (Alien Contamination)
21 horas – Starcrash – Sessão Comentada por Luigi Cozzi

* Quinta-Feira - 8 de julho
15 horas – Starcrash
17 horas – Matador Implacável
19 horas – Filmagem Macabra (The Black Cat)
21 horas – Paganini Horror – Sessão Comentada por Luigi Cozzi

* Sexta-feira - 9 de julho
15 horas – Alien – O Monstro Assassino (Alien Contamination)
17 horas – Dario Argento: O meu Cinema (Partes 1 e 2)
19 horas – Matador Implacável
21 horas – Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza – Sessão Comentada por Luigi Cozzi

Cozzi convida para o Fantaspoa 2010!