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quarta-feira, 24 de março de 2010

O Livro de Eli... e do ódio


E lá se vão 10 anos desde que eu escrevi sobre o irregular "Constantine" (2005), de Francis Lawrence, lamentando o fato de que o filme seria incompreendido: um roteiro inteligentíssimo - sofisticado até - perdido numa embalagem chinfrim de blockbuster descerebrado, e que acabou não agradando nem quem foi ao cinema pela história, nem quem só queria ver os efeitos em CGI e o Keanu Reeves explodindo demônios.

Agora, a história se repete com O LIVRO DE ELI, dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes, e atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. O trailer dá uma idéia errada de que este é apenas mais um filme pós-apocalíptico com ação ininterrupta, mas não há ação suficiente para quem busca apenas isso; por outro lado, há idéias fantásticas e originais no roteiro de Gary Whitta, mas nem sempre utilizadas como deveriam.

O resultado é um filme híbrido e que também vem sendo incompreendido, como "Constantine" foi cinco anos atrás. Por exemplo, entre as muitas bobagens que li sobre a obra pela internet afora, estão comentários taxando o filme de passar uma mensagem cristã e de ser uma "história evangélica". E chamo isso de bobagens porque a mensagem passada pelo filme é justamente O CONTRÁRIO DISSO.


A trama do filme se passa num mundo devastado e desértico, 30 anos após uma misteriosa guerra que devastou o planeta (e sobre a qual não são dadas maiores informações, nem mesmo com um letreiro inicial, algo muito bem-vindo nestes tempos de "quero tudo bem explicadinho").

Um andarilho solitário chamado Eli, e interpretado por Denzel Washington, vaga rumo ao Oeste carregando na sua mochila o que pode ser o último exemplar existente da Bíblia Sagrada, já que todos os livros foram queimados depois da guerra (mais sobre isso em seguida). Enquanto lê e recita os salmos bíblicos, nosso "herói" vive de amputar membros e matar violentamente os inúmeros criminosos pós-apocalípticos que encontra pelo caminho.

Finalmente, Eli chega a uma cidadezinha - o mais próximo de um núcleo civilizado em quilômetros. O lugar é controlado por Carnegie (Gary Oldman, uma boa surpresa), vilão cuja missão de vida é justamente encontrar um exemplar da Bíblia para poder "dominar" mais facilmente os sobreviventes do apocalipse. Ao descobrir que Eli carrega o livro, Carnegie faz tudo para tomá-lo, dando início a uma caçada humana pelo mundo devastado.

Bem, não sei o que viram de mensagem cristã ou história evangélica num filme sobre um anti-herói errante que viaja pelo que restou do mundo lendo e recitando a Bíblia, cujas passagens já sabe de cor, mas ao mesmo tempo matando brutalmente quem quer que se coloque em seu caminho. Se esse é o ideal de um "herói católico", então podemos fazer uma analogia do Eli de Denzel Washington com vários outros homens que tomaram a "palavra de Deus" (ou de Alá, ou de qualquer outra divindade) como desculpa para a violência durante a história da humanidade - dos Cavaleiros Cruzados aos Inquisidores, dos homens-bomba muçulmanos aos sacrifícios humanos.


Aliás, a idéia pareceu familiar? E é! Até achei engraçado o fato de a nossa "imprensa especializada" estar muito ocupada comparando O LIVRO DE ELI com "Mad Max" e "Eu Sou a Lenda" (hã?!?) para esquecer que a principal fonte de inspiração do filme é a graphic novel "Apenas um Peregrino", de Garth Ennis e Carlos Ezquerra. Os quadrinhos contam a história de um peregrino errante num mundo pós-apocalíptico (devastado pela explosão do Sol), que intercala passagens da Bíblia e orações com a matança desenfreada dos "infiéis" - além de usar "inocentes" na sua Guerra Santa e descartá-los assim que não têm mais utilidade.

Pois há muito do Peregrino no Eli de Denzel Washington. Ambos perseguem cegamente suas próprias "missões religiosas", podendo ser facilmente comparados a fanáticos ou extremistas religiosos. No filme, nunca fica bem claro o objetivo de Eli ao preservar com tanta obstinação o livro sagrado, e é isso que o torna um anti-herói tão dúbio - nos quadrinhos, o Peregrino era um psicopata canibal arrependido e que "encontrou Jesus", mas não entendeu muito bem a sua mensagem. Eli também não, pelo jeito: tanto ele quanto o Peregrino são representados como egoístas que matam e deixam pessoas inocentes para morrer nas mãos dos bandidos. São, portanto, heróis imperfeitos e cheios de problemas morais, verdadeiros anti-heróis que não passam uma bela imagem de "soldados de Cristo", como certos cinéfilos carolas vêm propagando por aí...

O roteiro de O LIVRO DE ELI também é bem claro no juízo que faz do livro sagrado transportado por seu Mad Max negro: como diz o vilão Carnegie, "não é a porra de um livro, é uma ARMA!". E não o é até hoje? Conforme uma célebre frase cujo autor me escapa, "nenhum reino teve tantas guerras quanto o Reino de Deus". Dos primórdios da humanidade até o universo do filme dos irmãos Hughes, a religião (aqui na forma da última Bíblia existente) é a desculpa adotada por heróis e vilões para justificar a matança dos rivais.


Mensagem cristã ou evangélica? Pelo contrário: acho que fica muito claro, até a (surpreendente) revelação final de O LIVRO DE ELI, que o tom do roteiro não é "pró-religião", mas sim anti-religião. Aliás, o filme é radical ao mostrar que heróis e vilões estão se matando por uma Bíblia (no fundo, um livro!), num mundo em que ninguém sabe ler e em que há outras preocupações muito maiores do que "evangelizar" os sobreviventes. Até mesmo os capangas iletrados de Carnegie questionam a importância do livro para provocar tantas mortes.

Quando o roteiro revela que todas as bíblias foram queimadas, junto com outros livros, depois da misteriosa guerra que destruiu o mundo, é só ligar os pontos para chegar à conclusão que o conflito apocalíptico foi uma Jihad, uma Guerra Santa, cujo dramático resultado fez com que os sobreviventes se voltassem contra as religiões, queimando seus livros sagrados para que a "palavra" se perdesse e a história não se repetisse.

Ao preservar o último exemplar de uma Bíblia, Eli pode não ser exatamente um valoroso herói, mas justamente o homem que recolocará a humanidade na sua trajetória de destruição provocada pelo extremismo religioso. Não que o mundo apocalíptico sem religião seja melhor (o filme deixa bem claro que não é, com seus bandidos canibais e saqueadores nas estradas à la "Mad Max"), apenas não parece haver mais lugar para Deus, Alá, Buda ou quem quer que seja naquele universo pleno de outras prioridades.


Por sua vez, Carnegie conhece bem o poder da evangelização, de disseminar o medo entre seus comandados - os desesperançados sobreviventes do apocalipse -, fazendo-os acreditar numa força superior para que fiquem "sob controle". O roteiro também explica que pouquíssimos sobreviventes ainda sabem ler (Eli e Carnegie são duas das exceções), remetendo à Idade Média, quando quem detinha o poder sobre os livros (logo, sobre o conhecimento) era a Igreja.

Eu, pessoalmente, acredito que a religião é a raiz de todo o Mal, e isso também está nas entrelinhas de O LIVRO DE ELI. Com a Bíblia em seu poder, Carnegie poderia usar a "palavra de Deus" para dominar seus súditos a exemplo do que fazem hoje muitos sacerdotes e pastores evangélicos. Por isso o irônico comentário "não é um livro, é uma arma". Uma arma que vem sendo usada desde a aurora dos tempos, e é eficiente o bastante para fazer com que seres humanos explodam bombas no próprio corpo sonhando com um Paraíso repleto de virgens!

Ainda é possível fazer uma relação entre o vilão Carnegie e um certo ex-presidente norte-americano chamado George W. Bush, que usava Deus como desculpa para tudo, inclusive para bombardear o Iraque! Não que seja exclusividade dele, a julgar as atrocidades cometidas em nome de Alá e a eterna guerra entre palestinos e judeus.


Enfim, o que O LIVRO DE ELI procura deixar bem claro é que a Bíblia, por mais que represente a "palavra de Deus", foi escrita pelo HOMEM. E baseado nela, o próprio homem é capaz de cometer os piores atos de injustiça e violência, seja herói ou vilão, dependendo da forma como manipula/interpreta a sua mensagem. O filme usa a Bíblia, mas em seu lugar podia ser o Alcorão, a Torá ou qualquer outro texto sagrado tomado como "verdade absoluta e inquestionável" pelos seus seguidores, que a mensagem será a mesma.

Confesso que fiquei até imaginando, no final: SPOILER Será que Eli ditou uma versão decorada e integral da Bíblia ou inventou a sua própria (como também podem ter feito os monges copistas que registraram as primeiras Bíblias)? Afinal, os "fiéis" iriam segui-la do mesmo jeito, como fazem até hoje inspirados pelos evangelhos escritos por pessoas mortas há dois mil anos! FIM DO SPOILER

Descontando todo este aspecto religioso, O LIVRO DE ELI também é tecnicamente atrativo pela fotografia acinzentada, quase monocromática, que transporta o espectador àquele mundo destruído onde vivem os personagens. Os irmãos Hughes usam vários planos abertíssimos, revelando estradas desertas, carcaças de veículos, cidades destruídas e principalmente enormes crateras e marcas de explosões da tal guerra que destruiu o planeta.


Os irmãos também demonstram-se competentes nas cenas de ação, sem abusar da câmera epilética típica das produções modernas (embora os cortes rápidos na cena da luta no bar desorientem completamente o espectador). O grande momento do filme, disparado, é a câmera entrando e saindo do interior de uma casa durante uma feroz batalha entre os heróis e os vilões do lado de fora - não é um plano-seqüência, obviamente, mas a "maquiagem digital" engana e realmente parece que a cena não tem nenhum corte.

Pouca gente lembra que os Hughes têm pelo menos duas obras bem interessantes no currículo, o policial "Perigo Para a Sociedade" (1993) e a adaptação de HQ "Do Inferno" (2001), sobre os crimes de Jack, O Estripador. Mas O LIVRO DE ELI é disparado o seu melhor trabalho, com herói, vilão e ambientação que lembram um faroeste futurista - a vila de Carnegie até parece uma cidadezinha do Velho Oeste, e a briga no salloon só reforça a semelhança!

Há também o final espertíssimo com uma bela revelação-surpresa, e até participação especial do faz-tudo Malcolm McDowell, que parece ter abandonado definitivamente o universo dos filmes classe Z para virar coadjuvante de luxo em Hollywood. (O elenco excêntrico tem ainda Ray "Justiceiro" Stevenson, uma envelhecida Jennifer Beals e o músico Tom Waits)


Claro que há algumas bobagens típicas dos blockbuster hollywoodianos, como o fato de que todo mundo é feio e acabado no mundo pós-apocalíptico, mas a mocinha que acompanha Eli (Mila Kunis) é uma gata com cabelo lisinho e limpinho, apesar do racionamento de água e de não existirem mais comésticos naquele ambiente.

Muito pouco para desmerecer um blockbuster inteligente e cheio de atrativos como O LIVRO DE ELI, que pode ser definido como um clone de "Mad Max" onde o grande tesouro para os personagens não é a água ou a gasolina, mas sim a esperança proporcionada pela religião - ou o poder de manipulação da mesma.

Em tempos de "Avatar", sempre é bom ver uma história conhecida sendo contada de um novo jeito. Mas é uma pena que, como "Constantine", o filme dificilmente encontrará o seu público.

domingo, 21 de março de 2010

MISSÃO COBRA (1986)


"Cobra Mission"... Não sei exatamente por que, mas sempre adorei este título. E assim como o Tarantino se apropriou do título "Inglorious Bastards" por gostar muito da obra do Enzo G. Castellari, o dia em que eu fizer um filme de ação e guerra também vou batizá-lo "Cobra Mission". Claro que isso não quer dizer que a produção barata italiana originalmente batizada com ele seja um clássico do gênero. Ou mesmo um bom filme.

Estamos nos anos 80. Os mesmos italianos que deixaram bem mais interessante um gênero tipicamente norte-americano (o western) agora tentam fazer o mesmo com os filmes sobre uma guerra tipicamente norte-americana, a do Vietnã. E tome produções baratas e repletas de tiros e explosões, copiando de "Rambo" a "Apocalypse Now", normalmente rodadas a toque de caixa nas selvas filipinas por diretores tão diferentes quanto Antonio Margheritti e Bruno Mattei.

MISSÃO COBRA foi inspirado principalmente por "Rambo 2 - A Missão", mas traz ainda um toque de "Braddock - O Super Comando" e "De Volta para o Inferno", aquele filme do Ted Kotcheff em que Gene Hackman liderava um pelotão de mercenários de volta ao Vietnã para resgatar seu filho prisioneiro de guerra.


A boa notícia é que essa produção de 1986 tem uma contagem de cadáveres mirabolante (semelhante à de "Rambo 4", feito 22 anos DEPOIS) e inúmeras cenas de explosões de praticamente todo tipo de veículo (caminhões, helicópteros, barcos...). É estrelada por Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida"), John Steiner ("Tenebre"), Manfred Lehmann ("Casablanca Express") e Oliver Tobias ("Mata Hari"). E tem pequenas participações de gente como Donald Pleasence, Gordon Mitchell, Ennio Girolami e até do diretor Enzo Castellari, aqui como ator. Também tem uma eficiente trilha sonora composta pelo especialista Francesco De Masi (uma de suas últimas, por sinal).

Quantas boas notícias, não é? Bem, agora vem a má: MISSÃO COBRA é dirigido pelo péssimo Fabrizio De Angelis, usando seu habitual pseudônimo Larry Ludman.

Como produtor, De Angelis foi responsável por alguns dos grandes filmes italianos dos anos 80, de "Zombie" e "The Beyond", do Lucio Fulci, a "1990 - Os Guerreiros do Bronx" e "Fuga do Bronx", do Castellari.

Como diretor, entretanto, o sujeito é uma nulidade, que só ganhou certa fama por ter dirigido a trilogia "Thunder" (aquela com Mark Gregory interpretando um índio metido a Rambo). O trabalho do homem vai do regular ao ridículo, e é claro que um especialista em ação faria a diferença no comando de MISSÃO COBRA. Ainda assim, pelo menos neste caso a ruindade geral do filme acaba transformando-o num passatempo bastante divertido.


Antes de mais nada, você precisa esquecer todas as leis da física e da lógica. Este é um daqueles filmes em que helicópteros explodem no ar, mas não são vistos caindo no chão; em que quatro homens de pé disparando metralhadoras, sem qualquer tipo de cobertura ou escudo, conseguem detonar um batalhão de 40 soldados sem tomar um mísero tirinho de raspão; em que granadas demoram de 3 segundos a 10 minutos para explodir, dependendo do tempo que o herói precisa para escapar do local da explosão, e por aí vai. Sabe, todas estas bobagens que você comenta em voz alta e entre risadas quando assiste ao filme com um grupo de amigos ao redor...

MISSÃO COBRA começa apresentando nossos "heróis": quatro fracassados veteranos do Vietnã cuja vida não vai nada bem. Roger Carson (Connelly) é um panaca casado com uma megera rica, e cuja única alegria consiste em jogar "Enduro" no seu velho videogame Atari (!!!); James Walcott (Steiner) é um perdedor que precisa empenhar suas medalhas conquistadas na guerra para faturar uma graninha; Mark Adams (Lehmann) é um homem que vive de bar em bar de beira de estrada, comendo as proprietárias em troca de uns trocos; e Richard Wagner (Tobias) está internado num hospital psiquiátrico, fingindo-se de louco para poder ganhar comida e hospedagem grátis!!!


Certo dia, Roger, James e Mike se encontram no casamento da filha de Roger. E, enquanto tomam uns tragos num boteco, descobrem pela TV que um prisioneiro norte-americano dos tempos da guerra conseguiu escapar de um campo de concentração no Vietnã (onde estava preso desde os anos 70) e voltar para os EUA. Curioso, o trio vai visitar um velho amigo da época, o major Morris (interpretado por Castellari), que está obcecado com a idéia de resgatar todos os prisioneiros norte-americanos que ainda estão apodrecendo nos campos de concentração vietnamitas.

E assim, sem mais nem menos, nossos heróis quarentões resolvem tirar o parceiro Mark do hospício e voltar para o Vietnã para tentar ganhar a guerra que seu país inteiro perdeu da primeira vez. E quando escrevo "sem mais nem menos", é porque é assim mesmo: o filme corta de uma cena em que um deles diz "Devíamos ir ao Vietnã dar uma olhada nestes campos de prisioneiros", para outra cena em que os quatro já estão em Saigon e prontos para a guerra, como se fosse a coisa mais simples do mundo (e vai saber de onde os fracassados tiraram o dinheiro para bancar a viagem e todas as despesas da operação...).

O mais engraçado é que o quarteto de veteranos nem ao menos tem um plano: eles não sabem onde ficam os campos de prisioneiros, não têm armas nem equipamentos, e muito menos apoio do exército para tocar adiante sua pequena operação - ao contrário do Rambo, por exemplo. Mesmo assim, tudo é facilitado para os caras no momento em que eles pisam no Vietnã. Primeiro, ganham uma grana preta de um ex-combatente que agora é proprietário de um cassino (!!!).


Depois, topam com um padre francês chamado Lenoir (Pleasence), que guarda um arsenal completo no porão da igreja (!!!) e, pelo visto, estava só esperando um grupo de desocupados aparecer para lhes entregar as armas. Para facilitar ainda mais, Lenoir também conhece bastante a região e até a localização dos campos de prisioneiros!!! Assim até eu...

O restante de MISSÃO COBRA é rotina: os quatro amigos perambulando pela selva e detonando inimigos com a maior facilidade. Eles chegam a um dos campos e conseguem libertar boa parte dos prisioneiros, entre eles o jovem Mike (que é interpretado por ninguém menos que Ethan Wayne, filho de uma das lendas do cinema americano, o eterno John Wayne!!!). Milagrosamente, apesar de os caras estarem presos há 10 anos, sendo torturados e agredidos de tempos em tempos, eles estão em perfeitas condições físicas para sair correndo e atirando de volta nos inimigos!

Com os vietcongues em seu encalço, nossos heróis passam o restante do filme metralhando e explodindo o que quer que apareça pela frente, enquanto quase todos os prisioneiros resgatados vão perdendo a vida pelo caminho (!!!), até restar apenas Mike. É então que o diretor De Angelis termina a trama de forma surpreendente (e totalmente debilóide), numa conclusão pessimista e trágica que é de deixar qualquer ser humano com vontade de dar um chute na TV!


Apesar de algumas tentativas de seriedade e de crítica social, felizmente, na maior parte do tempo, MISSÃO COBRA é apenas uma bobagem divertida. Nossos heróis são completos mentecaptos sem estratégia, que conseguem tudo na sorte - e também pelo fato de seus inimigos serem ainda mais burros. Uma cena histórica mostra o personagem de John Steiner posicionando-se na saída de uma casamata e mandando chumbo nos soldados que tentam correr por ali. E eis que, mesmo depois que os primeiros dez ou vinte caem fulminados pelas rajadas de metralhadora, os inimigos restantes continuam vindo correndo PELO MESMO LUGAR, somente para morrer como moscas e cair por cima dos cadáveres dos companheiros que tentaram passar pelo mesmo caminho, ao invés de voltar e buscar uma rota alternativa!!!

Porém o ponto alto da película é a forma como um dos heróis morre, não por causa das incontáveis rajadas de metralhadora dos inimigos, nem pelas muitas explosões, mas sim por culpa de um rabo-de-saia - uma prostituta que queria vingança pelas marcas de queimadura que cobrem seu corpo, provocadas pelo napalm jogado pelos americanos nos tempos da guerra! O mais incrível é a forma como o rapaz seduz sua futura algoz: simplesmente se aproxima da moça e larga um papo do tipo "Você me lembra uma garota que comi em Saigon e que logo depois morreu num bombardeio"!!!! hahahahaha.


Christopher Connelly, para mim, sempre foi um dos mais carismáticos atores destas tralhas italianas, ao lado de David Warbeck e Timothy Brent. Aqui, infelizmente, o roteiro não lhe dá muitas oportunidades. Já os veteranos Pleasence e Mitchell aparecem em duas cenas cada (o último como um general malvado que explica o "acordo" dos EUA com o Vietnã para manter os prisioneiros de guerra por lá); juntas, estas cenas não somam 5 minutos no total. E o finado John Wayne deve ter se revirado no túmulo com o desempenho do filho, que, além de não atuar, nem mesmo se envolve nas cenas de ação (pior é que o marketing da película exaltava justamente a presença do "filho de John Wayne" no elenco!!!).

É claro que existem filmes italianos de guerra (e especificamente sobre a Guerra do Vietnã) muito melhores do que este. Só para arrematar, cito um dos meus preferidos: "The Last Hunter", do Antonio Margheritti. Mesmo assim, MISSÃO COBRA é uma hilária e divertida aventura de guerra com o maior climão trash.


Só fico pensando o que é pior para os americanos: terem levado o maior laço na verdadeira Guerra do Vietnã (mesmo possuindo muito mais tecnologia e armamento que os pobres vietcongues que combatiam), ou terem que agüentar, até hoje, estas bisonhas e delirantes aventuras que insistem em mostrar seus soldados como heróis invencíveis, que sozinhos poderiam ter ganhado a guerra...

PS 1: O filme teve uma seqüência em 1989, dirigida por Camillo Teti. Entretanto, apesar do nome "Cobra Mission 2", não tem absolutamente nada a ver com o original, além do fato de também ser produzida por Fabrizio De Angelis.

PS 2: Quem foi criança/pré-adolescente no início dos anos 90 certamente tem boas recordações de um antiquíssimo jogo de RPG para computador chamado, justamente, "Cobra Mission". Ele marcou época pelo seu farto teor pornográfico, já que o jogador (normalmente recém-ingresso na puberdade) dividia a matança de inimigos com momentos em que precisava seduzir e satisfazer belas moças na cama! Ah, como era boa a juventude naqueles tempos politicamente incorretos...


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Cobra Mission/Operation Nam (1986, Itália)

Direção: Larry Ludman (aka Fabrizio De Angelis)
Elenco: Christopher Connelly, Oliver Tobias,
John Steiner, Manfred Lehmann, Ethan Wayne,
Donald Pleasence, Enzo G. Castellari,
Ennio Girolami e Gordon Mitchell.