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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT (1985)


Sam Raimi, diretor da trilogia "Evil Dead", e seu irmão e ator Ted Raimi. Bruce Campbell, famoso astro do cinema classe B. Scott Spiegel, diretor de "Intruder" e "Um Drink no Inferno 2". Sheldon Lettich, roteirista de "Rambo 3" e diretor de vários filmes do Van Damme. Considerando o potencial "cult" de todos os envolvidos, é inexplicável o fato de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT ser um filme tão desconhecido mesmo para garimpeiros de podreiras e filmes obscuros. Trata-se de uma bizarra mistura de "revenge movie" ("Quando a violência exige vingança", dizia a frase no cartaz) com horror e humor negro, produzida por Josh Becker nos fundos da sua casa (literalmente!) em 1985, e que traz participações de toda essa galera aí de cima.

Josh era amigo de infância de Sam Raimi, e conseqüentemente também passou a fazer parte da turma de amigos que incluía Bruce Campbell, Robert G. Tapert (o produtor de "Evil Dead") e Scott Spiegel. Todos começaram a produzir pequenos filmes amadores em Super 8 entre a década de 70 e o começo dos anos 80. Becker chegou a filmar uma adaptação de "Édipo Rei", do grego Sófocles, estrelada por Bruce Campbell (!!!).


Quando Raimi começou a filmar o "Evil Dead" original, em 1981, pediu a ajuda de todos os seus parceiros para tocar o projeto em frente a custo zero. Se você olhar os créditos do filme, lá estão todos os conhecidos de Sam, alguns acumulando várias funções: Bruce Campbell, Robert G. Tapert, Scott Spiegel, Ted Raimi e até o futuro diretor Joel Coen (participando como assistente de edição). Josh Becker também deu sua colaboração: cuidou da segunda unidade de som e iluminação.

Alguns anos depois, em 1985, Becker resolveu fazer seu próprio longa-metragem, no esquema custo zero e improvisação que havia aprendido com Raimi durante as filmagens de "Evil Dead". E não pensou duas vezes em chamar toda a turma de amigos para dar uma força. Sam já estava em alta com o sucesso do seu primeiro longa. Mesmo assim, não negou o convite do parceiro e acabou interpretando o grande vilão de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT: um hippie malucão e assassino à la Charles Manson (foto abaixo)! Hoje, vendo Raimi todo almofadinha, de terno e gravata, no set de blockbusters como "Homem-Aranha", é impossível segurar o riso diante da sua participação nesse filme de baixíssimo orçamento.


THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT (em tradução literal, algo como "Não Matarás... Exceto") começou a ser rodado com a mixaria de 18 mil dólares (!!!) e um roteiro escrito pelo diretor Becker a partir de uma história criada em colaboração com Bruce Campbell, Sheldon Lettich e Scott Spiegel. Embora a primeira parte do filme se passe no Vietnã, praticamente todas as cenas foram filmadas no quintal e na garagem da casa do diretor (!!!), e intercaladas com cenas de documentários.

Becker queria Bruce Campbell no papel principal de Jack Stryker, mas problemas com o Sindicato dos Atores, que exigia o pagamento de um salário mínimo para a função (neste caso, maior que todo o orçamento do filme!), impediu a participação do ator. Para não deixar o amigo Becker na mão, Campbell participou numa ponta não-creditada (como apresentador de TV, como você pode ver na foto abaixo) e ajudou na edição de som, reaproveitando vários efeitos sonoros de "Evil Dead"!!! Quem ficou com o papel principal foi Brian Schulz, que, misteriosamente, não está creditado no Internet Movie DataBase.


A história se passa em 1969 e começa em plena Guerra do Vietnã, quando o sargento Jack Stryker serve em uma pequena unidade cercada por tropas inimigas, e passa seus dias lembrando da namorada que deixou nos Estados Unidos, Sally (Cheryl Hausen, em seu único filme). Num daqueles toques de humor negro tipicamente "Raimianos", a unidade de Stryker anda perdendo seus superiores com uma velocidade espantosa, e o mais recente, o tenente David Miller (John Manfredi), resolve mostrar serviço com um plano mirabolante para atacar uma bem-guardada vila vietcongue.

Stryker protesta, mas é obrigado a liderar um batalhão formado por seus amigos, o sargento Walker J. Jackson (Robert Rickman, único filme) e o capitão Tim Tyler (Timothy Patrick Quill, que fez pequenas participações em diversos filmes de Sam Raimi, incluindo a trilogia "Homem-Aranha"). Mas eles são emboscados e massacrados; apenas Stryker, Jackson e Tyler sobrevivem, após uma investida heróica e suicida, sendo que nosso herói é ferido numa das pernas e fica inválido.


De volta à sua pequena cidade-natal nos Estados Unidos, e obrigado a andar com uma bengala por causa do ferimento na perna, Stryker tenta refazer sua vida, mudando-se para uma cabana no meio da floresta ("Evil Dead"?) e reaproximando-se da ex-namorada Sally. O problema é que o retorno do herói de guerra à cidadezinha coincide com a chegada de um grupo de malvados hippies satanistas, liderados por um malucão estilo Charles Manson (Sam Raimi!!!). Os vilões invadem casas para torturar e matar seus habitantes, não poupando nem bebês. Isso, claro, até se meterem a amada de Stryker.

Quando os velhos amigos do Vietnã - Jackson, Tyler e o tenente Miller - aparecem em sua cabana para uma visita, Stryker consegue convencê-los a voltar às armas para exterminar os hippies satanistas, numa longa e sangrenta batalha campal repleta de mortes criativos e momentos de puro humor negro (pessoas são esmagadas por capôs de carro, empaladas em galhos de árvore ou acabam com tesouras enfiadas nos olhos, entre outros belos momentos). O irmão de Sam, Ted, e Scott Spiegel aparecem como alguns dos hippies assassinos combatidos por Stryker e sua turma.


THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT é um filme estranho, mas muito divertido, que não se decide entre ser história de ação séria ou comédia bizarra de humor negro. É claro que aqueles 18 mil dólares que Becker tinha para a produção não duraram nem uma semana, e os realizadores precisaram fazer um mutirão, pedindo dinheiro para seus familiares e amigos, completando o orçamento total de 200 mil dólares.

E é justamente pelo fato de ter um orçamento tão merreca que THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT deve ser valorizado: o diretor-roteirista-editor-diretor de fotografia Becker conseguiu tirar água de pedra, filmando uma história ambiciosa, repleta de tiroteios, cenas de ação e sangue, usando um mínimo de recursos, inclusive reaproveitando próteses e "corpos falsos" usados em "Evil Dead" e emprestados pelo amigo Sam.


Embora o baixo orçamento esteja evidente nos cenários, atores e efeitos (as cenas no "Vietnã" lembram os filmes do diretor David A. Prior), o resultado é interessante principalmente pelo talento demonstrado pelo realizador para contornar o problema da falta de grana, embora o ritmo seja arrastado em todo o segundo ato.

Fãs incondicionais de "Evil Dead" vão perceber que Becker aprendeu muitas lições no set do clássico de Sam Raimi, como o uso da câmera em movimento pela floresta (nas cenas finais), ângulos muito parecidos com os de Raimi ou o bizarro senso de humor pastelão que o próprio Sam levaria às raias do absurdo em "Evil Dead 2", de 1987.

As mortes em THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT geralmente são seguidas por improváveis alívios cômicos, num humor negríssimo que definitivamente não é para todos os públicos.


O resultado dessa união da turma de amigos de Raimi é um filme bastante esquisito, mas divertido e curto o suficiente para não chatear (não chega a durar 80 minutos). Claro que não pode e nem deve ser comparado com "Evil Dead", e muito menos ser levado a sério.

Até porque esta é apenas uma história classe C de vingança sangrenta rodada no fundo do quintal de alguém (literalmente). E é exatamente o tipo de brincadeira macabra e bizarra que se espera que uns caras tipo Sam Raimi e Bruce Campbell façam no seu tempo livre.

Sem contar que o fato de ter sido feita com pouquíssimo dinheiro é uma prova de amor à arte de fazer cinema, um exemplo para muitos cineastas independentes aqui do Brasil mesmo, daquele tipo que vive chorando pela falta de recursos ou de incentivo.

Trailer de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT


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Thou Shalt Not Kill... Except/
Stryker's War/ Bloodbath (1985, EUA)

Direção: Josh Becker
Elenco: Brian Schulz (não-creditado), John
Manfredi, Robert Rickman, Timothy Patrick
Quill, Sam Raimi, Ted Raimi e Scott Spiegel.

domingo, 18 de outubro de 2009

Ninguém deve PERDER!


No final da sessão de estréia de NINGUÉM DEVE MORRER, novo filme (na verdade curta) do catarinense Petter Baiestorf, fui saudar o vivente e recomendei, brincando, que ele parasse de usar drogas na hora de fazer suas mirabolantes produções cinematográficas. Para meu espanto, Petter garantiu que já não usava há tempos. Ou seja, é um doido varrido por natureza! E esse seu novo trabalho, aquele tipo de brincadeira bizarra que parece ter sido feita sob efeito de entorpecentes, se encaixa como poucos no rótulo FILMES PARA DOIDOS que dá título a esse blog.

Algum tempo atrás, quando o Petter me confidenciou que estava pensando em fazer um filme de bangue-bangue, eu lhe desejei boa sorte dizendo que também tinha um roteiro em forma de homenagem ao western spaghetti, e que só não havia filmado ainda devido às dificuldades técnicas (de conseguir figurinos, armas, os efeitos para fazer os tiros...). Ele riu da minha ingenuidade dizendo que o seu seria um "faroeste diferente".

Pois a forma mais simplificada de tentar descrevê-lo é dizer que NINGUÉM DEVE MORRER é um western musical (!!!). E apesar do título e da ambientação lembrarem o clássico ciclo do western spaghetti (principalmente o filme "Meu Nome é Ninguém", de 1973, com Terence Hill), a inspiração de Baiestorf não veio dos faroestes produzidos na Itália, mas sim dos escalafobéticos e ultrajantes filmes realizados na Boca do Lixo, como "Um Pistoleiro Chamado Papaco" (1986), de Mário Vaz Filho.


Todo o filme pode ser considerado uma brincadeira cinéfila de citação-colagem-paródia. Gurcius Gewdner interpreta Ninguém, um cowboy envolvido com a produção de filmes pornográficos sobre zoofilia. Certo dia, ele se revolta contra os produtores e abandona o set sem concluir uma cena de sexo oral com um touro (!!!). Furioso, o produtor ordena que Ninguém deve morrer! Um pequeno bando de pistoleiros é reunido para a missão, que envolve os clichês do faroeste (como o ataque à namorada do "herói"), mas logo descamba para o "Baiestorfismo".

Em diversos momentos, por exemplo, a história é interrompida por números musicais que se passam "dentro da cabeça" dos personagens, quando os atores dançam e fingem cantar canções populares, acompanhados de homens travestidos como dançarinas dos cabarés de filmes de western.

Mais adiante, quando a missão do título finalmente é cumprida, o faroeste é deixado de lado para se transformar numa parábola místico-religiosa (em forma de sátira, claro), quando aparece um personagem tradicional do cinema de Baiestorf: o religioso hipócrita que cheira cocaína enquanto balbucia suas mensagens edificantes.


Para completar a balbúrdia, o filme nem ao menos tem uma conclusão, substituída por uma colagem de fotos do tornado que varreu Santa Catarina (e a região das filmagens) em 7 de setembro deste ano, quando NINGUÉM DEVE MORRER estava sendo gravado.

Este novo trabalho de Baiestorf é engraçado por ser totalmente débil mental. Ninguém deve assisti-lo esperando por uma narrativa séria. Além dos bizarros números musicais que entrecortam a história, os figurinos são propositalmente pobres; a cor do sangue que sai dos ferimentos nos personagens muda de vermelho para verde e azul; um carro suspenso em uma árvore (protesto "anti-carro" feito pelo próprio diretor no prólogo) invade o filme numa cena-chave; os cowboys fingem cavalgar cavalos invisíveis, à la Monty Python (simplesmente porque a produção não tinha cavalos para utilizar!), e quase todos os "atores" são dublados com diálogos impagáveis tirados de filmes da Boca (o já citado "Papaco" e "Fuk-Fuk à Brasileira"), e da dublagem nacional do clássico "Comando para Matar", com Schwarzenegger (de onde saíram frases tipo "Cortar a garganta de uma menina é como cortar manteiga quente" e "Ele é um gigante pra ninguém botar defeito!", entre outras).


O resultado é uma brincadeira cinéfila (como assume o próprio diretor) bastante divertida, desde que se entre no espírito da coisa. A proposta de homenagear a Boca do Lixo e seus filmes excêntricos e inacreditáveis sempre é válida.

Mas, apesar da fonte de inspiração, Petter não apela para a sacanagem que vinha como uma constante em seus últimos trabalhos ("Arrombada" e "Vadias do Sexo Sangrento"): a nova musa do diretor, Ljana Carrion, aparece travestida como um dos pistoleiros, e a única mulher em cena, Lane ABC, está sempre com roupa.

Como atração à parte, NINGUÉM DEVE MORRER reúne várias caras conhecidas da cena underground e do cinema independente brasileiro, incluindo atores já conhecidos do cinema de Baiestorf (Gurcius, Ljana, Lane, Elio Coppini, Coffin Souza, Jorge Timm) e participações especiais de Cristian Verardi, Insekto e mais uma trupe de malucos de várias partes do Brasil.


Nesses tempos inglórios em que o cinema independente brasileiro tem descambado para um experimentalismo chatíssimo, sempre resta a esperança de aguardar com ansiedade pela próxima loucura (sem efeito de drogas) de Petter Baiestorf.

ATUALIZAÇÃO (18/12/2009):
Acabo de receber a notícia de que o Baiestorf, através do Gurcius, "uplodeou" o filme no YouTube, dividido em três partes, conforme vocês podem ver abaixo. Agora sim que ninguém deve perder!!!

NINGUÉM DEVE MORRER - Parte 1



NINGUÉM DEVE MORRER - Parte 2



NINGUÉM DEVE MORRER - Final