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domingo, 27 de setembro de 2009

O GRANDE GOLPE (1956)


Sempre que um diretor ganha status de gênio ou se transforma em lenda, é comum que seus primeiros filmes sejam esquecidos, ou considerados "produções menores" em comparação aos clássicos que dirigirá posteriormente.

Foi assim, por exemplo, com Francis Ford Coppola, que antes de "O Poderoso Chefão" e "Apocalypse Now" dirigiu um pequeno filme de horror produzido por Roger Corman, "Dementia 13", que a maioria dos cinéfilos costuma descartar (embora seja ótimo). Foi assim também com Spielberg: muitos de seus fãs nunca viram o clássico "Encurralado", um de seus primeiros e melhores filmes.

E tem também o Stanley Kubrick. Cinéfilos de todas as idades se divertem tentando eleger os melhores filmes desse grande diretor, e é claro que figurinhas carimbadas, como "2001", "Laranja Mecânica" e "Dr. Fantástico", normalmente dominam os "Top Ten" do diretor. No caso de uma filmografia praticamente impecável, como a de Kubrick, é até comum dar menos importância para seus primeiros filmes, aqueles que ele fez ainda jovem e com pouca influência no mundo do cinema.


Mas não se engane: O GRANDE GOLPE, que é apenas o terceiro filme do diretor, é uma daquelas obras-primas esquecidas que teve maciça influência na cultura pop. Também é, provavelmente, um dos melhores filmes de roubo da história. Mesmo assim, raramente aparece em qualquer "Top Ten" de Kubrick. Eu, pelo menos, o colocaria entre os cinco melhores do diretor, sem pensar muito.

Lembro que só descobri que O GRANDE GOLPE existia depois de ter visto "Cães de Aluguel", no começo dos anos 90. Um ex-colega de trabalho falou maravilhas e praticamente me obrigou a ver, contando o filme inteiro como uma forma de me preparar para a cena final: "O cara tem um trabalhão para inventar um plano perfeito, todo mundo morre, aí ele vai para o aeroporto tentar fugir com todo aquele dinheiro e... Bom, aí tu tem que ver o que acontece", relatou o saudoso ex-colega, completando: "Dá dez a zero no 'Cães de Aluguel', e deve ser um dos melhores finais de filme de todos os tempos!".

Resultado: abobalhado pela propaganda feita, tive que ficar acordado até umas quatro da manhã para poder gravar o filme do Corujão, quando a Globo ainda passava esses clássicos na madrugada (afinal, ele não havia sido lançado em VHS no Brasil, e o DVD só chegaria quase uma década depois). Foi só aí que percebi como o incensado filme do Tarantino era bastante inspirado no de Kubrick, além, é claro, de pegar diversas idéias de "Perigo Extremo", do Ringo Lam.


Quando Kubrick fez O GRANDE GOLPE, ele já tinha certa moral no mundo do cinema por causa do sucesso do seu segundo trabalho, o estiloso "A Morte Passou por Perto" (1955).

Dessa vez, o diretor resolveu adaptar o livro "Clean Break", de Lionel White. Escreveu um roteiro não-linear e chamou Jim Thompson, um famoso autor de "pulp fictions" da época ("Os Implacáveis", do Peckinpah, foi baseado em livro dele), para criar diálogos memoráveis. E que diálogos: "Você tem um maço de dólares onde as outras mulheres têm um coração", "Moça, você tem uma bela cabeça sobre os ombros. Quer mantê-la aí ou sair carregando nas mãos?", e nessa linha vai.

O GRANDE GOLPE trata do minucioso planejamento de um crime perfeito. Johnny Clay (Sterling Hayden, nome imposto pelo estúdio, mas ótimo no papel) é um criminoso que acabou de sair da cadeia e está disposto a dar o "grande golpe" para poder curtir o resto da vida como milionário.


O objetivo é roubar dois milhões de dólares (um dinheirão na época; se bem que hoje também é, pelo menos para mim!) de um hipódromo, bem no dia de uma grande corrida de cavalos que vai levar uma multidão ao local, inflacionando as apostas.

Para poder praticar o crime, Clay se alia a um grupo de homens que não são exatamente bandidos, mas apenas pobres-coitados com dificuldades financeiras, cuja posição e área de atuação pode ajudar na realização do assalto: George Peatty (Elisha Cook, de "House on Haunted Hill") é um dos caixas do hipódromo e quer usar a sua parte do dinheiro para comprar o amor da esposa adúltera, Sherry (Marie Windsor); Randy Keenan (Ted de Corsia) é um policial que precisa da grana para ajudar a esposa doente... Enfim, todos têm seus motivos, e não são exatamente caras malvados - apenas Clay é um bandidão no concreto sentido do termo.

Na primeira metade do filme, todo o plano é meticulosamente planejado para funcionar como um relógio. Clay também contrata alguns "peões" para provocar distrações e tirar a atenção sobre o assalto, como um pistoleiro (Timothy Carey) designado para matar um dos cavalos no auge da corrida, e um ex-lutador de luta livre (Kola Kwariani, que é a cara e o físico do Tor Johnson!) para iniciar uma briga de bar do hipódromo.


Quando todas as peças estão no tabuleiro, o plano acaba funcionando perfeitamente, como Clay previra, e como se fosse uma jogada de xadrez. Os problemas começam na divisão do dinheiro. Principalmente porque Sherry, a tal esposa traidora, andou contando do assalto para o seu amante, e mais gente aparece disposta a colocar a mão na bolada...

Tudo termina naquele tal final maravilhoso no aeroporto, que, como meu ex-colega de trabalho descreveu sem nenhum exagero, é uma daquelas cenas que fica marcada eternamente na memória de qualquer cinéfilo, do tipo "seria cômico se não fosse trágico".

A comparação que fiz, do plano de Clay com um jogo de xadrez, não foi gratuita e nem delírio de blogueiro que gosta de metáforas: o próprio Kubrick era um fã de xadrez, e disse ter criado O GRANDE GOLPE nos moldes de uma partida desse nobre jogo, onde a estratégia ocupa papel central e há os peões para serem sacrificados - não por acaso, um dos personagens do filme é especialista em xadrez, e seu encontro com Clay acontece num salão de jogos onde todos estão disputando partidas de... xadrez!


O filme é tão bem escrito e dirigido que funciona maravilhosamente bem, tal qual o "plano perfeito" do protagonista, criando uma tensão crescente à medida que se aproxima o momento do roubo (algo que filmes posteriores sobre "crimes perfeitos" não conseguiram nem de longe imitar).

Além disso, há a estrutura não-linear da narrativa, que, no momento do assalto, acompanha o papel de cada uma das "peças" no grande plano arquitetado por Clay.

Isso invariavelmente resulta na repetição de alguns acontecimentos (já que estamos revendo os fatos pelo ponto de vista de cada personagem), e o público da época não entendeu direito, embora o clássico "Cidadão Kane", que também traz uma narrativa não-linear, tenha sido feito anos antes.


Assim, O GRANDE GOLPE foi massacrado em algumas exibições-teste, e os produtores forçaram Kubrick a fazer uma nova montagem na ordem correta dos acontecimentos, para tentar tornar o filme mais convencional.

É claro que o diretor odiou a idéia, mas fez a remontagem mesmo assim, só para provar aos "gênios" do estúdio como a história perderia totalmente a lógica caso fosse exibida de maneira convencional. Dito e feito: os tais "gênios" se convenceram e optaram, a contragosto, pela edição "fora de ordem", mas adicionaram uma estúpida "narração para cegos" que explica detalhadamente cada cena, mesmo aquilo que o espectador está VENDO, supostamente para que os espectadores não ficassem perdidos com as idas e vindas da trama.

Ignorando essa estúpida voz do narrador, fica ainda mais fácil perceber como o filme funciona bem, com direito a uma cena belíssima, em plano-seqüência, que mostra Clay entrando no hipódromo e encontrando, ao longo do caminho, todas as peças do seu complicado plano.


E nem precisa lembrar como essa narrativa não-linear foi depois aproveitada por Tarantino em "Cães de Aluguel"... O nobre Quentin, por sinal, sempre foi um fã confesso de O GRANDE GOLPE, e quase contratou um dos seus atores (o lunático Timothy Carey) para o papel que ficou com Lawrence Tierney em "Cães de Aluguel".

Em seu terceiro filme, Kubrick já demonstrava ser mesmo um gênio, e por isso os momentos criativos não se resumem à estrutura narrativa, mas também à estética. Por exemplo, os personagens estão quase sempre na escuridão, iluminados por pequenos pontos de luz (um abajur, uma lâmpada, a brasa do cigarro), em cenas soberbas.


No final, as sombras inclusive refletem um X sobre o rosto de Sterling Hayden, lembrando sempre que a letra tinha um papel simbólico (anunciando morte, violência ou punição) em muitos filmes de gângsters da época, começando pelo "Scarface" de Howard Hawks - recentemente, Martin Scorsese homenageou essa tendência ao encher seu filme "Os Infiltrados" de letras X...

Para completar, num toque de gênio que deve ter deixado muita gente furiosa na época do seu lançamento, Kubrick desvia a câmera do alvo na principal cena do filme (a "matança" do título em inglês). Ao espectador, só resta escutar os sons dos tiros e depois ver os cadáveres espalhados pelo chão, mas sem saber quem atirou em quem e quem matou quem. Kubrick não mostra a violência, mas as conseqüências dela, numa opção estilística muito imitada desde então (como esquecer do antológico tiroteio final do incrível western "Matalo!", que adota essa mesma estratégia?).


Sem esquecer, ainda, que o truque de esconder uma espingarda no meio de flores virou clichê no cinema, aparecendo em filmes tão diferentes quanto "Um Dia de Cão", "O Exterminador do Futuro 2", "Fulltime Killer" e, mais recentemente, "Hitman". E a máscara de palhaço usada por Clay durante o assalto também pôde ser vista recentemente na cena inicial de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", quando os capangas do Coringa, e o próprio, vestem máscaras bem parecidas.

É claro que, hoje, muito pretenso cinéfilo e pesquisador de cinema não dá a O GRANDE GOLPE a mesma importância dada a outras obras posteriores de Kubrick. Até por puro preconceito, já que esse é um legítimo filme B, ou seja, uma produção barata (custou 320 mil dólares) produzida para ser a "segunda atração" em cinemas que exibiam programas duplos - havia o "filme B" e o "filme A", que era a atração principal, um filme mais caro e melhor produzido. Na época, O GRANDE GOLPE foi exibido junto com o filme A "Bandido!", de Richard Fleischer.

Mas convém esquecer que Kubrick dirigiu genialidades posteriores para apreciar melhor essa obra-prima como o que ela realmente é: um excelente filme policial, que fica muitos degraus acima da média das produções B da época, com uma narrativa envolvente e original, ótimos personagens e situações, e aquele final que é realmente de arregalar os olhos.


Não por acaso, o sucesso do filme acabou abrindo o caminho para as grandes obras de Kubrick, quando Kirk Douglas, maravilhado com O GRANDE GOLPE, contratou o diretor para dirigir o filme de guerra "Glória Feita de Sangue".

Enfim, um CLÁSSICO que deve ser escrito em maiúsculas, mais um para a série "FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA", e que todo mundo deveria ser obrigado a conferir uma vez na vida, nem que seja para ver aquela inesquecível cena final e saber o que acontece para motivar esse último diálogo entre o protagonista e sua namorada:

- Você precisa fugir, Johnny!
- E fugir pra quê?


Trailer de O GRANDE GOLPE


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The Killing (1956, EUA)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray,
Elisha Cook, Marie Windsor, Ted de
Corsia e Timothy Carey.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

THE SNIPER (2009)


Em 2008 foi "Flashback", do Wilson Yip. Em 2007, "Fulltime Killer", do Johnnie To e do Ka-Fai Wai. E nos anos anteriores eu não lembro, mas tem uma porrada de obras. Enfim, a cada ano que passa, eu sempre vejo algum filme de ação oriental acima da média que me dá a certeza de que as boas produções modernas do gênero estão sendo feitas lá pelos carinhas de olhinho puxado. Agora em 2009 não foi diferente: quem precisa dessas abobrinhas mal-filmadas, mal-editadas e repletas de efeitos digitais produzidas nos Estados Unidos quando se tem filmaços vindo do Oriente, como esse THE SNIPER?

Antes de mais nada, permitam-me fazer uma observação importante: THE SNIPER não tem absolutamente nada de excepcional, é apenas um filme de ação muito bem feito, com uma história acima da média, envolvente, trazendo belos efeitos, belos movimentos de câmera, personagens interessantes e um climático confronto final, tudo embalado por uma trilha sonora de primeira. Enfim, tudo aquilo que o cinema de ação norte-americano não consegue fazer há sei lá quanto tempo, mesmo com orçamentos de centenas de milhões de dólares (sim, estou me referindo a bobagens tipo o "Duro de Matar 4.0").


Dirigido por Dante Lam ("Heat Team", 2004) e escrito por Wai Lun Ng, o filme narra um duelo mortal entre franco-atiradores, os populares "snipers", numa aventura que remete a outras obras do gênero, como "O Atirador" (1993), de Luis Llosa, e "Círculo de Fogo" (2001), de Jean-Jacques Annaud. No caso, muito mais para o filme de Annaud, que se concentrava na rivalidade entre dois franco-atiradores, do que para a ação descerebrada do filme de Llosa, que era estrelado por Tom Berenger e Billy Zane.

THE SNIPER também é uma história sobre rivalidade e as suas conseqüências, já que seus personagens, longe de nutrirem sentimentos de heroísmo ou de "ajudar o próximo", passam o filme todo brigando para ver quem é o melhor atirador. O herói chega a resumir seu egoísmo numa frase emblemática ("Dois especialistas não podem co-existir"), enquanto faz todo o possível para mostrar que tem a melhor pontaria, mas pouco ligando para o lema de "servir e proteger" dos policiais. E sim, ele é o HERÓI do filme!!!!


A trama começa com os dois melhores snipers da polícia de Hong-Kong, Fang (Ritchie Ren, de "Exilados" e "Breaking News", ambos do Johnnie To) e Shan (Bowie Lam), salvando uma dupla de policiais de uma operação fracassada. Quando um desses policiais também se revela um atirador acima da média, ao acertar um disparo no meio dos cornos de um malfeitor, Fang resolve "adotá-lo" para o treinamento na unidade de snipers. Trata-se de Chen (Edison Chen, que interpretou a versão jovem do protagonista da trilogia "Conflitos Internos"). Ele é um jovem rebelde que não gosta de seguir ordens, mas demonstra grande habilidade no gatilho.

As primeiras cenas, que mostram o treinamento de Chen com alguns outros jovens candidatos a franco-atirador ("aspiras", segundo o Capitão Nascimento), são o grande "momento macho" do filme, ou homo-erótico, dependendo do público, já que os recrutas aparecem correndo sem camisa, com closes nos músculos e peitos suados, enquanto eles carregam seus enormes rifles de mira telescópica. Para a coisa ficar mais gay, só faltava uma discussão do tipo: "Meu rifle é maior do que o seu!".


E não demora para as coisas começarem a se complicar: Jing (Xiaoming Huang, nesse momento filmando "Ip Man 2", do Wilson Yip) é libertado da cadeia e alimenta um ódio mortal por Fang. Ele era o melhor sniper da polícia de Hong-Kong, capaz de acertar um alvo a 500 metros de distância (o maior recorde entre os atiradores), mas acabou matando um refém acidentalmente durante uma operação policial (será que ele trabalhava no Brasil?). Foi condenado a quatro anos de prisão devido ao testemunho do ex-colega Fang, pois, segundo ele, Jing teria se descontrolado no momento do tiro.

Pois Jing se alia a um grupo de criminosos e ajuda a libertar da prisão um chefão do crime, Tao (Jack Kao), o bandido que ele falhou em matar na operação de quatro anos antes. Juntos, eles pretendem roubar um carregamento de explosivos da polícia, e o sniper malvado passa o resto do filme cutucando Fang para se vingar da sua prisão, que considerou injusta. E é claro que o jovem Chen logo acaba se metendo no confronto, pois, como novo melhor sniper da polícia, ele tem ao mesmo tempo orgulho e inveja do recordista Jing.


O final eletrizante reserva um tenso duelo entre os snipers num armazém abandonado, quando Jing vai dizimando toda a unidade de Fang, até o duelo mortal com seu arquiinimigo.

Mesmo que não consiga escapar de alguns clichês comuns ao gênero, tipo o sábio mestre que ensina tudo o que sabe a um jovem rebelde, e depois luta para mantê-lo afastado do "lado negro da Força", THE SNIPER ganha muitos pontos pela narrativa dinâmica e por algumas resoluções fora do padrão, diferentes do que o espectador está acostumado a esperar desse tipo de filme de ação.

A conclusão, por exemplo, foge da burocracia típica do cinema norte-americano e desfila uma interessante sucessão de reviravoltas, trazendo à tona a verdade sobre alguns dos principais personagens. Uma delas chega a mudar totalmente o juízo que você faz de determinado personagem - tipo de revelação corajosa que só se vê nos filmes orientais.


O diretor Lam (que aparentemente não tem parentesco com o também competente Ringo Lam) também foge das soluções fáceis, e, mesmo optando por uma narrativa dinâmica e "moderninha", não cai naquela armadilha da "edição estreboscópica", com mil frames por segundo (agradecemos!!!). Aliás, bem que diretores norte-americanos metidos a cineastas orientais podiam ver filmes tipo THE SNIPER para aprender como se filma cenas de ação. Em uma única lição: usem planos mais abertos, como Dante Lam, para mostrar ao espectador o que está acontecendo, ao invés de optar pelos tradicionais supercloses com câmera tremida, que são uma praga do cinema contemporâneo.

Destaque ainda para as cenas em que os snipers demonstram sua habilidade nos corpos alheios, e para o belo momento em que a câmera segue a bala disparada por um rifle até o seu alvo, atravessando uma moeda a vários metros de distância (muitos dirão que é apenas frescura em CGI, mas ficou bem legal, como você pode conferir na seqüência de imagens abaixo).


O diretor não esconde duas influências bem visíveis: ele parece conhecer muito bem jogos de tiro com snipers, tipo "Counter Strike", e também adorou a cena em câmera lenta de "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, que mostra um franco-atirador fuzilando implacavelmente um soldado, já que filma uma cena bastante parecida, só que ainda mais sangrenta. Destaque também para as cenas que retratam aspectos interessantes da vida de sniper, como a importância da respiração na hora de puxar o gatilho e o exercício que os atiradores fazem para manter os dedos sempre prontos, sem tremer.

Como normalmente acontece com filmes orientais lançados no Ocidente, esse também teve os nomes dos personagens "americanizados" para soarem mais simples: Chen virou OJ (!!!), Fang tornou-se Hartman e Jing virou Lincoln. Coadjuvantes não tiveram melhor sorte, ganhando alcunhas do tipo Shane, Big Head, Crystal e até... Iceman!!!! (Alguém viu "Top Gun" muitas vezes...)


Um detalhe interessante: embora o personagem de Edison Chen seja o protagonista, ele praticamente não aparece em cena, e a montagem dá mais destaque para o duelo de nervos entre os rivais Fang e Jing. A própria duração do filme (cerca de 85 minutos) e o ritmo acelerado da narrativa fazem com que o espectador suspeite de que há coisa faltando aí. E é isso mesmo: quase todas as cenas com Chen acabaram cortadas, pois os produtores tinham medo que o filme fosse um fracasso após um escândalo sexual envolvendo o ator.

Por aqui a história é pouco conhecida (eu mesmo nem sabia disso), mas vou deixar vocês, nobres leitores, a par de tudo, já que é uma fofoca tão ou mais interessante que o próprio filme. Eis que o ator Edison Chen, que também é modelo, astro de comerciais e cantor famoso lá do lado de lá do mundo, mandou seu computador para o conserto em novembro de 2006, e assim cerca de 1.300 fotos "íntimas" do rapaz vazaram para a internet. Até aí, tudo bem, certo?

O problema é que essas fotos, feitas entre 2003 e 2006, envolviam uma porrada de mulheres, sendo que 14 delas eram super-celebridades lá em Hong-Kong, como as atrizes Gillian Chung, Bobo Chan e Cecilia Cheung. E como algumas faziam pose de boas moças na mídia, tipo umas Sandra Bullocks orientais, imagine o bafafá que foi.

Sobrou para Chen, claro, que foi considerado parcialmente culpado pelo episódio e crucificado pela mídia (olha aí embaixo a capa de uma das revistas falando sobre o escândalo; clique na imagem para ampliar). E a comoção pública foi tão grande que o ator chegou a ser ameaçado de morte.


O episódio enterrou a carreira do jovem Chen, que teve o contrato rescindido em todas as campanhas publicitárias de que participava, foi cortado na edição de "Jump", novo filme de Stephen Fung, que estréia esse ano, e também de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan, onde interpretava um dos capangas que apanhavam do herói na cena filmada em Hong-Kong (mesmo assim, ele aparece brevemente na recepção do edifício antes da chegada de Batman).

No caso de THE SNIPER, o filme era para ter sido lançado no ano passado, mas os produtores cancelaram a estréia e limaram o maior número possível de cenas com o "queimado" ator. Seu relacionamento atribulado com o pai criminoso e a namorada, por exemplo, se resume a uma mísera cena; se havia outras aparições destes dois familiares, elas acabaram no chão da sala de edição, o que torna a trama bastante dispersiva.

E é por isso que o personagem Chen não aparece tanto quanto seus "coadjuvantes alavancados a protagonistas". O ator nem mesmo participou da premiére do filme em Hong-Kong, que foi realizada somente agora em 2009. E, há alguns meses, chegou a dar uma entrevista dizendo que considerava o suicídio, tal o rumo que sua carreira tomou. Que coisa, hein?


Apesar dessa polêmica e da remontagem mutiladora, THE SNIPER permanece como um interessantíssimo e bem realizado filme de ação, com personagens um pouquinho mais profundos do que poderia se esperar e ótimas cenas de tiroteios envolvendo os snipers, além de uma boa dose de suspense e tensão (ótima a cena do policial no elevador com três bandidos).

A própria idéia de um inimigo sempre escondido gera bastante aflição, já que os tiros disparados pelos snipers podem vir de centenas de metros de distância!

Enfim, um tiro certeiro - melhor do que qualquer filme de ação que Hollywood possa regurgitar este ano.

Trailer de THE SNIPER


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The Sniper/ Sun Cheung Sau
(2009, Hong-Kong)

Direção: Dante Lam
Elenco: Edison Chen, Richie Ren,
Xiaoming Huang, Jack Kao, Bowie
Lam e Wilfred Lau.