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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Personagens secundários não têm sentimentos?


Ontem eu finalmente vi "Um Beijo a Mais" (The Last Kiss, 2006), remake norte-americano praticamente cena a cena do fantástico filme italiano "O Último Beijo" (L'Ultimo Bacio, 2001). O original é de Gabriele Muccino; a refilmagem foi dirigida por Tony Goldwyn, que muitos devem lembrar como o vilão do filme "Ghost - Do Outro Lado da Vida" (aquele que morre espetado por um pedaço enorme de vidro).

Quando chegou o final do filme, novamente me peguei pensando na gigantesca injustiça cometida pelo personagem principal para que se consumasse o "final feliz" esperado pela maior parte da platéia, mesma atitude questionável que eu já havia presenciado no original italiano.

Para quem não viu nenhum dos filmes: Michael (Carlo no original) é um "adultescente" de 29 anos que, às vésperas de chegar nos 30, começa a sentir aquele tradicional medo de que sua vida se transforme num gigantesco tédio. Ele tem um bom emprego, uma namorada fantástica e divertida, e o casal espera seu primeiro filho. Por outro lado, todos os outros casais ao redor do rapaz (seus amigos, seus sogros...) parecem estar em crise ou se separando. Será isso um sinal?

Finalmente, na festa de casamento de um dos amigos, Michael conhece Kim (Francesca no original), uma irresistível ninfetinha que começa a dar mole para ele. A garota percebe que ele está com o namoro em crise e passa a seduzi-lo; já Michael, assustado com a possibilidade de passar o resto da vida com a mesma mulher, cede aos encantos da "invasora", com quem tem um breve caso de amor.


Pois tanto em "L'Ultimo Bacio" quanto em "The Last Kiss", nosso herói repentinamente "abre os olhos" e percebe que aquela ninfeta não passa de uma aventura, e que a mulher da sua vida é mesmo a namorada traída, aquela que vai ter um filho seu. Claro, essa "descoberta" só acontece depois que ele come a pobre garotinha que estava dando mole para ele!

E assim "Um Beijo a Mais" repete a cena em que nosso "herói" dá o fora na menina para voltar para o seu "grande amor". E é incrível como continuo ficando sensibilizado com esse momento, para mim uma das cenas mais tristes da história do cinema.

E isso que o remake norte-americano ainda dá uma maneirada, pois no filme italiano a coisa é ainda pior: a pobre Francesca aproxima-se de Carlo, toda apaixonada, presenteando-o com um livro, cobrando atenção e afeto (já que o rapaz não faz contato desde que transou com ela); e Carlo simplesmente arranca para longe com seu carro, fugindo daquela menina que dias antes seduziu sem culpa, deixando atirado ao chão o presente que Francesca comprou com todo amor e carinho (veja abaixo).

O fora mais triste da história do cinema



Talvez ajudasse se os roteiros de "O Último Beijo" e "Um Beijo a Mais" transformassem as personagens de Francesca e Kim em simples predadoras sexuais, em Lolitas insensíveis atrás de homens comprometidos, com o único objetivo de destruir um casal por pura diversão.

Mas não: Francesca e Kim são garotas realmente apaixonadas pelo protagonista, seja Carlo ou seja Michael, que não estão seduzindo o rapaz apenas por diversão, mas por amor. Além disso, ambas são garotas lindas, sensíveis e divertidas, daquele tipo por quem é muito fácil se apaixonar, o que justifica o fato de Carlo e Michael ficarem caidinhos por elas. O único "pecado" das personagens foi se apaixonar por um rapaz comprometido e tentar salvá-lo de um relacionamento em crise.


E é justamente por isso que a atitude de nossos supostos "heróis" soa tão horrível. Tanto Francesca quanto Kim só servem para uma trepadinha rápida; não são elas que estão brincando com os sentimentos do "herói", mas sim o contrário. E, após conseguirem o que querem (a pulada de cerca), tanto Carlo quanto Michael não demoram para fugir correndo da menina, quando qualquer homem na mesma situação pensaria pelo menos um milhão de vezes antes de voltar para um relacionamento já caindo na rotina. (As fotos aqui publicadas são de Carlo e Francesca no filme de Mucino; repare na felicidade do casal antes do "herói" voltar acovardado para os braços da namorada.)

Eu sempre tive essa fraqueza de pensar no destino dos personagens secundários dos filmes, especialmente comédias românticas. Os roteiros tentam nos fazer torcer pelo protagonista, por mais estúpido que ele seja, mas eu normalmente fico com pena daquele sujeito que perde a namorada para o "herói", ou da pobre mocinha abandonada quando o "herói" redescobre o amor da sua vida (como Francesca e Kim no caso em questão).

Normalmente, os roteiristas corrigem essa falha de caráter de seus protagonistas transformando os personagens secundários em malas cheios de defeitos, que justificam a torcida por parte do espectador. Mas isso não acontece em "O Último Beijo"/"Um Beijo a Mais". No fim, eu realmente acho que Carlo/Michael devia ter ficado com Francesca/Kim, com quem certamente teria uma vida mais divertida e apaixonada do que com a namorada que, afinal, traiu.

Outra comédia romântica recente que me deixou com a pulga atrás da orelha (comecem a namorar e vocês também serão obrigados a ver váriaaaas comédias românticas) foi "O Melhor Amigo da Noiva", onde Patrick Dempsey rouba Michelle Monaghan de um nobre escocês em pleno dia do casamento da moça.

Por mais "romântico" e "bonitinho" que possa parecer o final desse filme, tem que ser muito insensível para não ficar pensando no coitado do noivo abandonado. Pois o pobre rapaz era um partidão (bonitão, ricaço, cavalheiro, apaixonado...), a mocinha passou o filme todo perdidamente apaixonada por ele, mas é claro que o roteiro exigia que ela ficasse com o mocinho trapalhão e mulherengo na cena final.


E por isso, sem pensar duas vezes, é só o filme se aproximar da conclusão para que a moça saia da igreja, no dia do seu casamento, subitamente tomada de paixão fulminante pelo herói banana. Isso, claro, para o alívio da maioria dos espectadores - e para a fúria de quem, como eu, sempre espera um pouco de lógica do roteiro dos filmes.

Aí, enquanto o casalzinho central curte seu final feliz, o maluco aqui se põe a pensar: e quanto àquele pobre ricaço escocês, cujo único defeito e única culpa era ser o personagem secundário do filme?

Talvez o errado seja eu, pois confesso que já torci até pelo Belloq, o rival de Indiana Jones em "Os Caçadores da Arca Perdida" (puxa, ele nem era de todo mal, e ainda ajudava a Marion quando ela era prisioneira dos nazistas!!!).

Mas toda vez que esse tipo de injustiça acontece, eu me lembro do filme "Austin Powers" e da impagável piada que mostra o drama dos familiares e amigos dos ajudantes do Dr. Evil mortos pelo herói. "Ninguém pensa nas famílias dos capangas dos vilões", reclamam eles, entre lágrimas. Pelo jeito, ninguém pensa nos sentimentos dos personagens secundários, também...

PS: Descobri agora que o diretor Gabriele Mucino está trabalhando em uma seqüência de seu "L'Ultimo Bacio", que vai se chamar "Baciami Ancora" e será lançada em 2010, mostrando seus personagens 10 anos depois dos acontecimentos do original. Pensei que era a chance da redenção de Carlo, e que ele finalmente voltaria aos braços da apaixonada Francesca. Mas caí do cavalo ao olhar os créditos do filme no IMDB: a linda Martina Stella, que interpretou a ninfeta no original, não estará na seqüência. E, pelo jeito, Carlo não vai se redimir daquele fora terrível que deu na garota - uma das cenas mais tristes da história do cinema.

Olha só o que o babaca do Carlo dispensou!!!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O pior livro de todos os tempos da última semana


"Um pai. Um filho. Três filmes por semana."

É essa a frase na capa de O CLUBE DO LIVRO, obra do crítico de cinema canadense David Gilmour (não confundir com o músico homônimo) que parece estar fazendo sucesso também no Brasil. Ando lendo demais ultimamente, e não resisti quando encontrei esse livro na FNAC com 20% de desconto.

O que me atraiu foi a frase da capa e especialmente o resumo na contracapa. Segue:

"David Gilmour, crítico de cinema desempregado e com o dinheiro contado, vivia uma fase complicada. Além disso, o filho de 15 anos colecionava reprovações em todas as disciplinas. Diante da falta de rumo daquele estudante perdido e despreparado, uma proposta paterna radical: o garoto poderia sair da escola - e ficar sem trabalhar e sem pagar aluguel - desde que assistisse toda semana a três filmes escolhidos pelo pai, e com o pai. Assim surgiu o Clube do Filme..."

Bem, pelo resumo, eu esperava uma história realmente interessante onde filmes seriam utilizados como uma forma de educar um jovem para as diversas etapas e dificuldades da vida - como de fato eles podem ser utilizados, pois, se pensarmos, há cenas de filmes que se encaixam em cada situação que encontramos no dia-a-dia. Enfim, esperava algo que fosse para o mundo do cinema o mesmo que o excelente "Alta Fidelidade" havia sido para o mundo da música.

Quebrei a cara. Não se julga um livro pela capa, realmente...

O CLUBE DO FILME na verdade não passa de um diário piegas e mal-escrito, onde o tal Gilmour fica relatando as desventuras amorosas de seu filho, um adolescente mimado, antipático e boçal chamado Jesse, que tem um talento tão natural para se meter em encrenca que, se eu fosse o autor do livro, sentaria porrada no rapaz o dia todo, ao invés de convidá-lo para ver filmes. O cinema não fica em segundo, mas em décimo-quinto plano na narrativa simplória do autor.

Pior que as narrações melosas de Gilmour, que morre de orgulho do filho mesmo quando ele abandona a escola sem pensar duas vezes para trabalhar como lavador de pratos (belo futuro, hein?), somente a forma como os filmes são citados e utilizados ao longo da narrativa.

Para quem espera algo no estilo "Alta Fidelidade", os comentários cinéfilos do autor parecem coisa de redação escolar de alguém que viu meia dúzia de filmes na vida. Raramente cenas e diálogos são usados para ilustrar episódios da vida, como eu esperava pela descrição da história na contracapa do livro. Surgem mais como citações gratuitas mesmo, ou para motivar comparações óbvias e sem qualquer talento.

Quer alguns exemplos? Então acompanhe:

"Ele levantou os olhos, mas não com a expressão de quem olha para um pai, mas da forma como Al Pacino olha para um idiota em 'O Pagamento Final' (1993), de Brian DePlama. Tínhamos ultrapassado algum limite, em algum momento."

"Eu sou como aquele cara em 'O Último Tango em Paris', imaginando se a mulher dele fez com o cara de roupão lá embaixo as mesmas coisas que fez com ele."

"Começamos com 'Rocky 3' (1982). Chamei a atenção de Jesse para o apelo barato, mas irresistível, do personagem Mr. T, suado, fazendo flexões e supinos em seu cubículo. Nada de pratos com guarnições de leito de cogumelos, nada de cappuccinos afrescalhados para ele."

"Achei que fosse ter um ataque do coração, ou que minha cabeça fosse explodir, como a daquele cara no filme do Cronenberg... 'Scanners'."

"No fim de semana passado, fui a um bar na rua Queen. Parecia aquela cena de 'Caminhos Perigosos', do Scorsese."

"Bem, ele já tem 19 anos, é assim que funciona. Pelo menos ele sabe que Michael Curtiz filmou dois finais diferentes para 'Casablanca', para o caso de o final triste não funcionar. Isso provavelmente vai ajudá-lo, no mundo lá fora. Ninguém vai poder dizer que deixei meu filho partir indefeso."

"Sabe o que ela disse uma vez? Disse que a versão de 'Lolita' de Stanley Kubrick, de 1962, é melhor que a de Adrian Lyne, de 1997. Aquilo tem de estar errado. A 'Lolita' de Adrian Lyne é uma obra-prima!"


E por aí vai... As citações não vão muito além desse uso raso e bobo. Se a proposta de Gilmour era educar o seu filho para a vida, substituindo a escola pelo uso de filmes, e as únicas relações que ele consegue criar entre filmes e vida real são essas frases banais, então só posso imaginar que o pobre Jesse continua lavando pratos até hoje!!!

Logo, fujam desse livro, que provavelmente ainda vai ganhar algum "Prêmio Paulo Coelho de Qualidade Literária".

PS: Voltei para o Sul do Brasil para um mês de férias. O blog provavelmente ficará abandonado nesse período, pois, entre outros compromissos inadiáveis, vou participar do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, e filmar meu novo longa-metragem. Abraços a todos.