WebsiteVoice

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

GOTCHA! - UMA ARMA DO BARULHO (1985)


Quando eu tinha lá meus 12 ou 13 anos, os grandes clássicos do cinema, na minha opinião, eram comédias oitentistas como "Porky's", "A Vingança dos Nerds" e GOTCHA!, filme que no Brasil recebeu o asqueroso subtítulo em português "Uma Arma do Barulho" (Globo e você, tudo a ver!). É que na época os tradutores nacionais adoravam usar expressões "cool" da garotada nos títulos, como "Não-sei-o-quê da Pesada" e "Tal-coisa do Barulho".

GOTCHA! foi, durante muito tempo, um "hours-concours" da Sessão da Tarde, mas anda sumido da grade de programação da TV aberta (e de qualquer outra TV também). Uma pena, pois é uma comédia de ação, ou filme de ação cômico, que merece uma revisão, principalmente para saudosistas dos anos 80.

"Gotcha!" é uma corruptela da expressão em inglês "Got you!" (Te peguei!), dita o tempo inteiro pelo personagem principal. O mais bizarro é que, na dublagem nacional quando o filme foi exibido na TV, os caras mantiveram a palavra "Gotcha!" (com sotaque brasileiro mesmo!), ao invés de substituí-la por "Te peguei!".

Maldita música-tema grudenta!


Basicamente, GOTCHA! é "O Albergue" sem todo sangue e tortura. Como no filmaço de Eli Roth, o roteiro de Dan Gordon coloca um jovem norte-americano em confusões indesejadas (e violentas) quando ele vai se aventurar numa parte um tanto perigosa da Europa, neste caso a antiga Berlim Oriental.

Sim, o mundo mudou bastante desde 1985, quando o filme foi feito, mas naquela época o mundo vivia a Guerra Fria (EUA versus União Soviética) em plena fúria, e a Alemanha era dividida em duas partes, Ocidental e Oriental, sendo que a Oriental era comunista e coalhada de espiões russos - e os norte-americanos não eram bem-vindos, claro.

Anthony Edwards, ainda adolescente e cabeludo, interpreta Jonathan Morris, um universitário banana que participa de um jogo de paintball disputado pelos alunos da sua escola; armados com pistolas que disparam tinta, eles se caçam pelos corredores do colégio como numa brincadeira de polícia-e-ladrão, e nosso herói sempre solta um "Gotcha!" quando acerta seu alvo.

Bem, como diz o velho ditado, "sorte no jogo, azar no amor". E, apesar de ser fera no gatilho, Jonathan não consegue perder a virgindade por sua falta de jeito com as mulheres. Sim, é o tema de 11 entre cada 10 comédias da década de oitenta, mas aqui o tema felizmente não domina a narrativa.

Acontece que é ano de formatura, e a turma vai fazer uma excursão pela Europa. Jonathan vê aí a chance de finalmente perder o cabaço, e convence os pais a bancarem a viagem. A primeira parada é Paris, na França, onde seu colega de quarto, Manolo (Nick Corri, de "A Hora do Pesadelo"), pega mulher geral fingindo ser um terrorista argeliano chamado Carlos!!! Mas Jonathan só se mete em furada. Até que, certa tarde, ele está num café parisiense e conhece uma linda estudante de origem tcheca chamada Sasha (Linda Fiorentino, linda e maravilhosa do alto de seus 27 aninhos!).

Usando seu sexy sotaque europeu e a típica pose de mulher fatal, Sasha seduz Jonathan e lhe tira a virgindade - várias vezes! Depois, quando o peixe está fisgado, a moça o convence a fazer uma rápida "viagem de negócios" à Alemanha Oriental. Acontece que Sasha é uma espiã, e pretende usar Jonathan como disfarce, ou bode expiatório, numa missão de recuperação de dados secretos. Mas espiões russos, liderados pelo sinistro Vlad (o alemão Klaus Löwitsch), começam a perseguir o casal, e é quando o rapaz terá que usar sua habilidade no jogo de paintball com armas de verdade.

Sim, é foda se comunicar em francês...


GOTCHA! foi dirigido por Jeff Kanew, que no ano anterior (1984) havia feito "A Vingança dos Nerds", também estrelado por Edwards ao lado de Robert Carradine. GOTCHA! felizmente não é tão idiota (e infelizmente não tem tanta mulher pelada e sacanagem) quanto "A Vingança dos Nerds", e funciona mais como sátira aos filmes de espionagem do que como pornochanchada adolescente. Talvez por isso o filme continue funcionando bem hoje, mais de 20 anos depois de seu lançamento, enquanto outras comédias adolescentes do período parecem tão debilóides...

Os grandes momentos do roteiro são as dificuldades de comunicação de Jonathan com os parisienses e depois com os alemães, principalmente do outro lado da "Cortina de Ferro". Hoje, revendo o filme, eu inclusive me identifiquei com várias cenas, principalmente quando o rapaz tenta se comunicar com um arrogante garçom francês, que se recusa a responder em inglês e só consegue atrapalhar ainda mais o diálogo (o vídeo pode ser visto acima).

Outra cena engraçada é o diálogo de Jonathan com seus pais, quando tenta convencê-los a bancar a viagem para a Europa, e que eu reproduzo abaixo:

Pai: Você não vai para a Europa, e ponto final!
Jonathan: Mãe...
Pai: Nada de "Mãe"!
Mãe: Al...
Pai: Nada de "Al"! Ele diz "Mãe", você diz "Al", e aí sempre sobra para mim.


O final da cena é uma repetição do diálogo, o que torna a piada mais divertida:

- E posso levar a sua Nikon, pai?
- Minha Nikon? Nem pensar!
- Mãe...
- Al...


(O pai, engraçadíssimo, é interpretado por Alex Rocco, que quase sempre aparece em papéis de mafioso ou bandido nos filmes.)

Melhores momentos


GOTCHA! é um filme que eu só posso recomendar a saudosistas dos anos 80, ou para quem viu o filme há séculos na Sessão da Tarde e não lembra mais de nada (acredite, vale uma reassistida). Não sei se a nova geração vai curtir, ainda mais considerando as mudanças culturais e, principalmente, políticas e geográficas ocorridas de 1985 para cá - a história não vai fazer muito sentido, nem terá a mesma graça, para os que não viveram aqueles tempos de Guerra Fria.

Porém eu acredito sinceramente que qualquer filme com a gatíssima Linda Fiorentino vale pelo menos uma olhada, e este aqui tem até uma rápida cena em que ela aparece com os peitos de fora. Logo, vale arriscar e embarcar numa viagem de 1h30min pelo túnel do tempo direto a uma década em que as comédias eram bem menos idiotas que as atuais. GOTCHA! continua bastante divertido, com diálogos inspirados e um pouco de suspense aqui e ali, comprovando que é possível fazer comédias inteligentes sobre espionagem, como o posterior, e ainda melhor, "Espião por Engano", com Richard Griecco.

Só um alerta de amigo: a música-tema, cantada por Thereza Bazar, é um grude só. Prepare-se para passar dias cantarolando "Gotcha! I got you where I want,
Just too late to talk right now"...


PS: A brincadeira de espionagem no campus rendeu um filme "sério" no ano seguinte (1986). No suspense "Tag – O Jogo Assassino", de Nick Castle, estudantes se perseguem pela escola usando pistolas que disparam dardos de borracha, até que um deles enlouquece e passa a matar os adversários de verdade com um revólver real. O elenco desta pérola traz Robert Carradine, Linda Hamilton e Bruce Abbott!

Trailer de GOTCHA!


****************************************************************
Gotcha! (1985, EUA)
Direção: Jeff Kanew
Elenco: Anthony Edwards, Linda Fiorentino,
Nick Corri, Alex Rocco, Marla Adams, David
Wohl e Klaus Löwitsch.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Vincent Vega falou a verdade


Em "Pulp Fiction", antes de morrer metralhado no banheiro da casa de Butch, o assassino profissional Vincent Vega revelou algumas interessantes informações sobre sua passagem pela Europa. Todas elas, quem diria, são verídicas, conforme eu pude comprovar pessoalmente, atestando assim o talento do diretor-roteirista Quentin Tarantino em levar toneladas de cultura inútil à boca dos seus personagens. Com vocês, Vincent Vega:

"Em Amsterdam o haxixe é legal, mas não 100% legal. Quer dizer, você não pode sair de um restaurante, enrolar unzinho e começar a fumar ali mesmo. Você deve fazer isso em casa ou em certos lugares, como os bares de haxixe. É legal comprar, é legal ter e, se você for dono de um bar de haxixe, é legal vender."

Quem vai para Amsterdam, provavelmente a cidade mais famosa da Holanda (e uma das mais famosas da Europa), espera encontrar um ambiente digno de Cheech & Chong. Mas não é bem assim na prática. Certo, a cidade respira drogas e sacanagem, mas nada tão liberal quanto muita gente pensa.

Como muito bem explicou nosso amigo Vincent em "Pulp Fiction", o cara não pode chegar lá e fumar um baseado na rua. A lei é rigorosa e inclusive proíbe qualquer tipo de fumo na rua. O Vincent não falou, mas até cigarro comum é proibido por lá! Eu estava saindo da estação de trem com meu irmão e vi dois policiais abordando um outro turista e pedindo para ele apagar o cigarro que estava fumando na rua. E não era maconha, era cigarro normal de tabaco!

Mas estas drogas mais "leves", como maconha e haxixe, são toleradas pela polícia de lá com a devida discrição, e não tem como você caminhar pelas ruas de Amsterdam sem lembrar disso. Afinal, de cartões-postais a souvenirs, praticamente tudo traz o desenho da folha de maconha. Isso sem contar que os caras vendem qualquer produto que seja possível fabricar com Cannabis: chás, chocolates, pirulitos, sabonetes, xampus, perfumes e até licor feito de maconha...

O pessoal de lá ainda pode comprar sementes de Cannabis sativa para plantar sua própria mudinha no aconchego do lar. Claro que não dá nem para pensar em levar estas sementes para fora do país. A não ser que você queira ter uma conversinha com o pessoal da Polícia Federal.

Agora, quem pensa que vai encontrar toneladas de hippies chapados espalhados pelas praças e ruas de Amsterdam ou traficantes violentos em cada esquina está tendo uma idéia errada da cidade. Amsterdam, na verdade, é uma cidade "normal", bem séria e até careta na aparência. Isso porque fumar maconha e haxixe é um hábito concentrado aos chamados "coffee shops", que de café não têm nada: são bares estilo pub, escuros e com música, onde você entra para comprar e fumar o cigarrinho do diabo.

Estes bares têm menus com os tipos de maconha e haxixe à venda, como se fosse um cardápio de cerveja ou de drinks; você escolhe, fecha o baseado e fuma ali mesmo. Alguns bares têm ambientes separados: um para o fumacê, outro para quem quer apenas tomar sua cervejinha. Outros, mais especializados, oferecem até utensílios como narguilé.

O mais legal disso tudo é que o produto vendido nos coffee shops tem garantia de qualidade - até porque o preço vai lá nas alturas (uma quantidade irrisória da maconha mais barata custa 20 euros, quase 60 reais!). Mas pelo menos você sabe que a coisa é boa, sem semente, folha seca e bosta de vaca misturada, como os espertinhos costumam fazer aqui no Brasil. E é realmente o máximo você entrar num bar e comprar um baseado como se fosse a coisa mais comum do mundo, sem se preocupar em estar fazendo alguma coisa errada!

Entretanto, para quem está pensando em ir para Amsterdam para puxar um, fica a dica: procurem os coffee shops menores e mais "escondidos". Além do preço ser mais em conta, você pode fumar sossegado sem estar rodeado de turistas xaropes rindo, falando alto e fazendo bagunça só para mostrar que estão chapados.

E um alerta: se você não sabe fechar baseado ou tem preguiça, leve alguém que saiba. Não seja bobo de comprar os baseados já fechados vendidos nos coffee shops, pois eles não passam de cigarrinhos bem fracos com uns 15% de maconha e muito tabaco para fazer volume e fumaça. Sim, Amsterdam é bem longe do Brasil, mas lá também tem dessas malandragens...

Ah, e para quem duvida que a coisa lá é liberada mesmo, saibam que ao fazer o check-in em nossa pensão, eu e meu irmão ganhamos um saquinho com um pouco de maconha e haxixe como "oferta da casa". Alguns hotéis deixam um bombom como brinde para o hóspede; outros um chocolatinho. Em Amsterdam, vejam só que maravilha, você já ganha entorpecentes na chegada!!!


"Sabe o que é mais legal na Europa? As pequenas diferenças. A maior parte das merdas que a gente tem aqui, eles têm por lá. Só que são um pouco diferentes... Em Amsterdam, a gente pode comprar cerveja no cinema. E não em copo de papel, em copo de vidro. Em Paris, a gente pode comprar cerveja no McDonald's. E sabe como eles chamam o quarteirão com queijo em Paris? Royale with cheese. Porque eles têm outro sistema métrico."

Eu não fui no cinema em Amsterdam para saber se realmente vendem cerveja - seja em copo de vidro ou de plástico.

Mas em Paris e Roma, descobri que as salas de cinema têm bares na entrada. Não aquelas bomboniéres xaropes vendendo baldões de pipoca e Coca-Cola, como temos aqui, mas bares mesmo, onde você pode sentar e tomar uma cervejinha antes ou depois da sessão. E é costume do pessoal - na Itália, pelo menos - sair da sessão e parar ali para tomar cervejas discutindo o filme que acabaram de ver. Sabem como é, povo culto é outra coisa...

E sim, em Paris é possível comprar cerveja no McDonald's, bem como em outras partes da Europa (na Suíça também, mas estes foram os dois únicos McDonald's que entrei, por pura necessidade de sobrevivência). O problema é que a cerveja de lata vem quente, pelo menos nas duas lanchonetes que fui.

Finalmente, chegamos ao "royale with cheese". Quem diria, esta famosa frase do "Pulp Fiction" não é lorota, e lá em cima está a foto do cardápio de um McDonald's parisiense para provar.

Todos os outros nomes em inglês, como Big Mag e McFish, foram mantidos (e olha que os franceses realmente odeiam falar inglês, como diz a lenda). Mas, por causa do sistema métrico diferente (eles não têm "quarteirões" na França), eis que o sanduichinho foi rebatizado "royale com queijo", bem como nos informou o poliglota Vincent Vega!

Pena que eu não gosto de McDonald's, pois ia ser muito divertido entrar com a maior cara de John Travolta e pedir um "royale with cheese", ou quem sabe um "Le Big Mac".


"E sabe o que eles botam na batata-frita na Holanda? Maionese! Eu vi com meus próprios olhos, eles mergulham as batatas naquela merda!"

Sei que no Brasil também tem gente que gosta de colocar um pouquinho de maionese na batata-frita junto com o ketchup (sabe como é, mau gosto não se discute).

Mas na Holanda (e também na Bélgica), a coisa é feia: eles vendem estes conezinhos de papelão com batatas-fritas na rua, e sobre as batatas metem um montão de maionese, como vocês podem ver na foto ali em cima.

É o lanchinho típico dos caras, vai fazer o quê? Mas eu é que não quis experimentar essa gororoba!