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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

HOLLYWOOD BOULEVARD (1976)


Com a câmera armada no tripé e pronta para filmar, um diretor de cinema orienta seus dois atores, que estão fora do quadro: "Bobbi, esta é sua grande cena. Sua fala é a mais importante, ela representa toda a essência do filme, entendeu? Então vamos lá: Ação!". A câmera começa a rodar e os atores - um homem e uma mulher completamente pelados! - finalmente entram no quadro, ela com um facão apontado para ele, ameaçando: "Get it up or I'll cut it off!" (Levanta esse troço ou eu corto fora!).

Só esta cena simbólica já dá uma idéia do que é HOLLYWOOD BOULEVARD, comédia de 1976 perdida nas poeiras do tempo, ao mesmo tempo uma homenagem e uma sátira irônica às pequenas produtoras que, com um mínimo de recursos e condições, rodavam exploitation movies baratíssimos, repletos de sexo e violência, para exibição em drive-ins na década de 70. "Homenagem" porque o filme inclui toneladas de referências a pessoas e produções da época (inclusive cenas de outros filmes, usadas na edição); "sátira irônica" porque a história é um retrato cômico, porém bastante fiel, do que fazia a própria produtora New World, de Roger Corman, que bancou esta comédia.


Escrito por Danny Opatoshu com o pseudônimo Patrick Hobby (ele depois escreveria o ainda mais alucinado e engraçado "Get Crazy"), HOLLYWOOD BOULEVARD foi a chance que o produtor Corman deu a dois jovens colaboradores da New World para que dirigissem seu primeiro filme, desde que o fizessem em tempo recorde (10 dias) e com um orçamento minúsculo até em comparação às produções baratas rodadas por Corman na época (custou 60 mil dólares).

Os jovens colaboradores, então completos desconhecidos, eram Allan Arkush ("Rock'n'Roll High School", "Get Crazy") e Joe Dante ("Piranha", "Gremlins"). E este primeiro trabalho está no nível do que ambos fariam depois: maluco e anárquico, porém nostálgico e respeitoso ao universo em que ambos se criaram, o dos filmes classe B.

A história começa com uma ingênua garota do interior, Candy Hope (a bela Candice Rialson), chegando a Hollywood com o objetivo de tornar-se estrela de cinema. Mas ela não consegue emprego nos estúdios por ser inexperiente na área. Após participar, sem querer, de um assalto a banco, ela acaba se associando a um agente picareta chamado Walter Paisley (o eterno coadjuvante Dick Miller, aqui em raro papel principal), e, através dele, vai parar nas produções baratas da Miracle Pictures (cujo slogan é: "Se é um bom filme, é um Milagre"!!!).


Sempre sob a direção do excêntrico cineasta Erich Von Leppe (Paul Bartel, ele próprio um cineasta cult na época!), Candy acaba estrelando exploitation movies como "Machete Maidens of Mora Tau" (rodado nas Filipinas!!!) e "Atomic War Brides", que começa como um roteiro de aventura nos anos 50 e se torna ficção científica pós-apocalíptica no decorrer das filmagens!!!

Há ainda um mistério a resolver: várias atrizes da Miracle Pictures andam morrendo misteriosamente em "acidentes", como pára-quedas que não abrem e tiros de verdade disparados pelas armas de figurantes (cena que antecedeu em duas décadas a morte real do ator Brandon Lee no filme "O Corvo"). Quem será o misterioso assassino? O diretor Von Leppe? A estrela ciumenta da produtora, Mary McQueen (interpretada pela musa de Bartel, Mary Woronov)? O roteirista frustrado Patrick (Jeffrey Kramer)? Ou o produtor P.G. (Richard Doran), que costuma selecionar suas atrizes transando com elas na traseira de uma van?

O roteiro de HOLLYWOOD BOULEVARD é o que menos interessa, já que o filme na verdade é uma seqüência caótica e não-linear de piadas/homenagens ao mundo do cinema, que inclusive pode ser vista como se fossem quadros isolados, estilo "Amazonas na Lua".


Fãs de cinema em geral vão se divertir muito: a citação já começa com o título, uma brincadeira com o clássico "Crepúsculo dos Deuses" (no original, "Sunset Boulevard"). Já as tralhas da Miracle Pictures mostram cenas retiradas de "clássicos" reais da New World, como "Ano 2000 - Corrida da Morte", "The Big Bird Cage", "Sombras do Terror" e "Big Bad Mama".

O Von Leppe de Bartel (que parece estar interpretando ele mesmo) é a síntese dos cineastas exploitation. Nas filmagens nas Filipinas, ele explica às suas atrizes, vestidas com enormes decotes e portando metralhadoras: "Sua motivação é... massacrar 3.000 soldados asiáticos!", e na cena seguinte vemos as moças metralhando indiscriminadamente multidões de figurantes filipinos (em cenas tiradas de "The Big Bird Cage" e "The Big Doll House", ambos produzidos por Corman e dirigidos por Jack Hill nas Filipinas).

O mesmo Von Leppe tenta convencer Candy que uma cena sensacionalista de estupro coletivo por nativos filipinos é "o sonho de toda atriz", e não perde a pose nem quando os figurantes levam a coisa a sério demais e se recusam a atender a ordem de "corta!" do diretor!

Mais adiante, durante as filmagens de "Atomic War Brides", aparecem cenas, carros e figurinos de "Ano 2000 - Corrida da Morte", que o próprio Bartel havia dirigido em 1975 com David Carradine e Sylvester Stallone. A cena em que figurantes usam qualquer fantasia existente no depósito da produtora para criar "mutações pós-apocalípticas" é hilária, e lembra muito filme bagaceiro onde isso foi feito de verdade. Quando uma atriz reclama que uma das "mutações" não passa de um figurante com uma máscara de gorila, o produtor P.G. simplesmente coloca um capacete de astronauta na cabeça do figurante, dizendo: "Agora é uma mutação simiesca". Trata-se, claro, uma homenagem ao ridículo "Robot Monster", dos anos 50, onde o grande vilão era um gorila com um escafandro na cabeça!


Há toneladas de outras referências ao cinema barato daquela época: quando Candy, Walter e Patrick vão à pré-estréia de "Machete Maidens of Mora Tau" (num drive-in!!!), outros dois filmes são exibidos, "Zombie in the Attic" e "Moonmen from Mars" (!!!), o primeiro aproveitando cenas com Boris Karloff retiradas de "Sombras do Terror", e o segundo mostrando um ridículo e sangrento duelo entre monstros bagaceiros (asquerosamente semelhantes a um pênis e uma vagina), tirado de "Battle Beyond the Sun", ambos também produzidos por Corman.

E mais: Dick Miller interpretou um personagem chamado "Walter Paisley" em "A Bucket of Blood" (dirigido por Roger Corman em 1959), e uma sangrenta cena de assassinato a punhaladas foi dirigida por Joe Dante com inspiração confessa nos filmes do italiano Mario Bava! De tão violenta, a tal cena de esfaqueamento acabou sendo utilizada em outros filmes produzidos pela New World (posteriormente rebatizada Concorde), como "The Slumber Party Massacre" e "Vampiro das Estrelas".

Quem não é do ramo também pode se divertir com HOLLYWOOD BOULEVARD, mesmo sem pegar estas citações todas. Não tem como não rir imaginando que muitos filmes classe B da época (principalmente os da New World) realmente eram realizados da mesma forma que as produções da Miracle Pictures, e sempre estrelados por garotas ingênuas que não tinham vergonha de tirar a roupa diante das câmeras sonhando se tornar grandes estrelas de cinema.

Uma ótima cena mostra Candy e duas outras atrizes (interpretadas pelas gatas Rita George e Tara Strohmeier) revoltando-se quando um dos membros da equipe de filmagens vai espiá-las tomando banho de sol de topless - e isso que elas ficaram completamente nuas durante a maior parte das cenas gravadas momentos antes. "Se quer ver nossos peitos, vai ter que pagar a entrada!", reclama uma delas. Como todo bom filme sobre o universo exploitation, HOLLYWOOD BOULEVARD também está repleto de cenas gratuitas de nudez e violência!

Para tornar ainda mais saborosa a brincadeira, o elenco tem diversas caras conhecidas em pequenas participações. Além de todos os já citados, o diretor Joe Dante aparece como figurante numa festa chique de Hollywood, ao lado de Forrest J. Ackerman (editor da antológica revista Famous Monsters of Filmland), do roteirista Opatoshu, do futuro diretor Lewis Teague (de "Alligator" e "Olhos de Gato") e até do robô Robby, do clássico sci-fi "Forbidden Planet"!!!


Também surgem, em pequenas participações, os cineastas Allan Arkush, como um xerife; Jonathan Kaplan ("Acusados"), como o diretor de produção da Miracle Pictures, e Jonathan Demme ("O Silêncio dos Inocentes"), vestindo uma fantasia de Godzilla!!! Só estas participações já fazem de HOLLYWOOD BOULEVARD um autêntico FILMES PARA DOIDOS!

O mais irônico é que tanto Dante quanto Arkush se dedicaram de corpo e alma à produção desta sua primeira obra por pensarem que não teriam outras chances no cinema! Sorte que esta previsão pessimista não se tornou realidade: um logo saltou para os blockbusters, mas mantendo aquele climão de classe B das produções que dirigiu para Roger Corman ("Gremlins", por exemplo, é um típico filme B com orçamento classe A, e tem até Dick Miller no elenco!); o outro teve tempo de fazer uma das melhores comédias dos anos 80, "Get Crazy", antes de cair no limbo dos produtores de filmes para a TV...

PS 1: Infelizmente, HOLLYWOOD BOULEVARD ficou tão obscuro com o tempo que não há vídeos do filme no YouTube, apenas este divertido clip da música "Everybody's Doing It", por Commander Cody and his Lost Planet Airmen, que invade uma cena de romance da película. Como a música é divertida (e a interpretação da banda idem), fica como aperitivo para entrar no clima do filme.

PS 2: Várias piadas acabaram sendo reaproveitadas em outros filmes. É o caso de "Amazonas na Lua", co-dirigido por Joe Dante, onde aparece um exploitation movie produzido pela "Miracle Pictures", inclusive com a reprodução do já clássico slogan "Se é um bom filme, é um Milagre".

PS 3: Em 1988, Corman produziu e Steve Barnett dirigiu "Hollywood Boulevard 2", lançado em vídeo no Brasil como "Um Filme Muito Louco". Apesar do título original, é um remake, e não seqüência, do filme de 76. No elenco, as atrizes pornô Ginger Lynne e Tracy Lords.

Videoclip de "Everybody's Doing It"



Joe Dante fala sobre HOLLYWOOD BOULEVARD



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Hollywood Boulevard (1976, EUA)
Direção: Joe Dante e Allan Arkush
Elenco: Candice Rialson, Mary Woronov, Paul
Bartel, Rita George, Jeffrey Kramer, Dick Miller,
Richard Doran e Tara Strohmeier.

sábado, 13 de dezembro de 2008

99 AND 44/100% DEAD (1974)


99 AND 44/100% DEAD é uma daquelas obras anos à frente do seu tempo. Quando foi lançado, em 1974, o filme foi massacrado pela crítica e ignorado pelo público, tornando-se um fiasco de bilheteria e uma mancha na carreira promissora do diretor John Frankenheimer, que só se recuperou do desastre ao concordar em dirigir a seqüência "Operação França 2", no ano seguinte. E não é difícil de entender o espanto de público e crítica: escrito por Robert Dillon (roteirista do excêntrico "A Marca da Brutalidade", com Lee Marvin), é um filme policial narrado em ritmo de paródia, às vezes sério e sombrio, às vezes cômico e absurdo como uma boa história em quadrinhos.

Seus protagonistas são gângsters durões, porém simpáticos, que pensam que atirar desafetos no rio com blocos de concreto nos pés é um trabalho como qualquer outro, e que adoram falar bobagem entre um tiroteio e outro. Enfim, é a idéia básica de "Pulp Fiction", só que 20 anos antes. Mais ou menos como no premiado filme de Tarantino, aqui também temos uma visão cartunesca, caricatural, sobre o mundo do crime. Visão esta que antecede em pelo menos duas décadas o trabalho de Tarantino, Guy Ritchie, Joe Carnahan e outros cineastas contemporâneos que fazem a mesma coisa. Em outras palavras, é um filme incompreendido, que certamente faria o maior sucesso se fosse lançado hoje.


Frankenheimer não é um dos meus diretores prediletos (embora tenha assinado alguns filmaços), e eu confesso que não conheço boa parte da sua filmografia. No caso específico deste filme, nunca encontrei referências que me deixassem curioso para vê-lo, até ler um breve comentário no blog Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça, falando justamente sobre a dificuldade para obter uma cópia. Aí resolvi ir atrás, e quem me conseguiu a cópia VHS-Ripada foi o Zebu, do finado blog Boizeblog, pois até na rede é difícil de encontrar o filme para baixar!!!

Enfim, agora, depois de finalmente conferir o polêmico trabalho de Frankenheimer, fico imaginando como os espectadores lá dos anos 70, acostumados a filmes policiais mais sérios e violentos, encararam 99 AND 44/100% DEAD...

A relação com os quadrinhos começa já pelo pôster de cinema, que traz uma artezinha estilizada e a frase de duplo sentido "Todos estão morrendo para conhecer Harry Crown", e segue pelos créditos de abertura, mostrados através de animações com bonequinhos coloridos (cuja arte lembra o trabalho do brasileiro Ziraldo). Em seguida, o espectador é surpreendido com uma introdução maluca que mostra uma dupla de gângsters jogando um inimigo no rio com os pés presos a um bloco de cimento. O homem afunda feito chumbo e, ao atingir o fundo do rio, a câmera mostra dezenas de outros cadáveres na mesma situação, alguns já transformados em esqueletos, ao som de uma musiquinha em tom cômico composta por Henry Mancini, que transforma aquela visão mórbida em piada!


O filme não demora a situar o espectador no universo fantasioso da sua narrativa: há uma grande cidade (não-identificada) sendo disputada pelos chefões de duas quadrilhas rivais, a do "Uncle" Frank Kelly (Edmond O'Brien) e a do jovem e arrogante Big Eddie (Bradford Dillman). Um anda invadindo os negócios do outro, e o conflito entre ambos está se transformando num banho de sangue, com alta contagem de cadáveres. Até que Kelly resolve contratar os serviços de um famoso pistoleiro, Harry Crown (interpretado por Richard Harris, com um corte de cabelo que lembra Michael Caine em "Carter - O Vingador"), para botar ordem na casa.

Crown chega à cidade, reencontra um velho amor, Buffy (Ann Turkel), e logo descobre que a quadrilha de Big Eddie também contratou reforços; neste caso, o matador Marvin "Claw" Zuckerman (Chuck Connors!!!), que, como o nome já diz, tem um gancho numa das mãos - que foi decepada pelo próprio Crown em outra oportunidade, tornando o duelo entre os dois pistoleiros bastante, digamos, "pessoal".

Feitas as apresentações dos personagens, e de quem joga para o lado de quem, pode esquecer qualquer tentativa de acompanhar um roteiro plausível: 99 AND 44/100% DEAD transforma-se num longo conflito entre os gângsters, sem muita história para contar, até chegar ao barulhento tiroteio final. É quase como uma versão adulta de um desenho tipo o do Tom & Jerry - o que fica ainda mais evidente na cena em que um capanga de Big Eddie surge com uma ridícula banana de dinamite fumegante muito parecida com aquelas produzidas pelas "Indústria Acme".


O que se percebe é que, nesta mistura debochada de gêneros e estilos, todos, do diretor aos atores, parecem estar se divertindo horrores. Nunca me esqueço de que tinha um amigo dono de videolocadora que não sabia em qual prateleira guardar a fita do "Pulp Fiction": comédia, policial, drama ou aventura? Ele enfrentaria o mesmo problema com 99 AND 44/100% DEAD: não tem como chegar a um consenso sobre o gênero do filme, que às vezes é comédia (regada a muito humor negro, claro), às vezes é policial sério (com perseguições de carro, tiroteios, emboscadas), e às vezes, ainda, é simplesmente uma bobagem sem pé nem cabeça.

Claro, o mais importante é não levar o filme a sério, como fizeram os críticos e espectadores lá nos anos 70. Afinal, esta é a história de um pistoleiro chamado Harry Crown que usa uns óculos ridículos que lhe dão um ar constrangedor de CDF, mas, sempre que os tira do rosto, é porque vai fuzilar ou quebrar a cara de alguém - e passa de bobão a durão em questão de segundos, graças à ótima interpretação do falecido Richard Harris.

O mesmo Harry Crown anda sempre com duas pistolas automáticas que têm desenhos de flores gravados nas coronhas (!!!), namora uma garota que de dia é professora, e de noite é stripper (!!!), e adota como ajudante um garoto inexperiente que é capanga de "Uncle" Frank. E se o "mocinho" já é fora do convencional, o que dizer do "vilão de filme do 007" personificado por Chuck Connors, que tem diferentes próteses para encaixar na mão que lhe falta, de tesouras e ganchos a saca-rolhas (!!!) e chicotes?


Novamente, fico imaginando os espectadores lá dos anos 70 vendo esse filme esquisitíssimo, principalmente uma cena que se inscreve nos anais do absurdo: Crown foge em disparada pela rua sendo alvejado pelos disparos de um assassino com um rifle de mira telescópica, posicionado no topo de um prédio; finalmente, o herói busca abrigo atrás do carro blindado do seu contratante, Kelly, e, enquanto as balas do "sniper" ricocheteiam na blindagem do veículo, os dois começam a papear normalmente como se nada estivesse acontecendo!

Por essas e por outras, 99 AND 44/100% DEAD definitivamente é um filme que se passa no universo dos quadrinhos ou desenhos animados, e não no mundo real. É um universo absurdo em que dezenas de cadáveres são afundados por gângsters no rio e nunca localizados pela polícia (que, aliás, nunca dá as caras em momento algum da trama); em que há crocodilos nos esgotos (!!!), e ninguém parece estranhar o fato; enfim, um mundo maluco em que todos os gângsters estão o tempo inteiro vestidos com ternos pretos e chapéus, sempre padronizados, como se fossem inimigos de algum antigo jogo de videogame!

Há um charme em toda esta balbúrdia, mas claro que não é para todos os gostos. Trata-se de um autêntico FILME PARA DOIDOS, com um tom estranho de humor negro e um olhar caricatural do mundo dos gângsters, o que, aliás, levou muitos críticos da época a condenarem o diretor Frankenheimer, taxando-o de "sádico" por brincadeiras como a dos cadáveres no fundo do rio - imagine agora o que esse mesmo pessoal diria após assistir "Pulp Fiction" ou "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes"!!! E isso que o filme de Frankenheimer nem é exatamente violento: apesar dos diversos tiroteios, não se vê uma única gota de sangue.


É uma pena que o fracasso de público e crítica tenha condenado 99 AND 44/100% DEAD a desaparecer na obscuridade. Até hoje, o filme permanece inédito no Brasil, e nos EUA só foi lançado em VHS (nada de uma segunda chance em DVD por enquanto). Continua, também, como uma mancha no currículo de Frankenheimer, sendo dificilmente citado em biografias e perfis do diretor (que, ironicamente, não deixam de fora os filmes verdadeiramente ruins assinados pelo cineasta, como "A Semente do Diabo" e "Amazônia em Chamas").

Talvez ainda demore um pouco, mas tenho certeza que 99 AND 44/100% DEAD um dia vai receber sua merecida segunda chance como o filme divertido que é, especialmente agora que público e crítica já estão mais acostumados com extravagências como esta. E é óbvio que os "novatos" Tarantino, Ritchie e Carnahan teriam muito a aprender com esta pérola esquecida - embora às vezes já pareçam estar copiando-a descaradamente!

PS: Não tente entender o título, que é tão inexplicável quanto o próprio filme. Trata-se de uma brincadeira intraduzível com uma marca de sabonete da época, que anunciava "99 - 44/100% Puro".

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99 and 44/100% Dead (1974, EUA)
Direção: John Frankenheimer
Elenco: Richard Harris, Chuck Connors, Ann
Turkel, Edmond O'Brien, Bradford Dillman, David
Hall, Constance Ford e Karl Lukas.