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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

THE BIG RACKET (1976)


Se tivesse Clint Eastwood no papel principal, THE BIG RACKET (inédito no Brasil; traduzido literalmente, o título ficaria "O Grande Golpe" ou "O Grande Crime") poderia muito bem passar por "prequel" do clássico "Perseguidor Implacável", dirigido por Don Siegel em 1971, e que trazia Eastwood no papel do violento policial Dirty Harry. Enquanto o filme de Siegel já começava com Harry mostrando métodos pouco ortodoxos de combate ao crime e uma total falta de confiança na justiça convencional, THE BIG RACKET explica como um policial correto, determinado e honesto acaba se transformando numa versão macarrônica de Dirty Harry ao encontrar bandidos que usam as brechas da justiça para escaparem do merecido castigo.

Dirigido por Enzo G. Castellari em 1976, na esteira do sucesso de policiais violentos como "Operação França", o próprio "Perseguidor Implacável" e "Desejo de Matar", este ainda obscuro filme de ação italiano mostra porque não é nenhum pecado dizer que Castellari, um dos meus diretores preferidos, é a versão italiana do norte-americano Sam Peckinpah: com apurada técnica e muito estilo, Enzo dirige as (muitas) cenas de ação da obra como se estivesse coreografando um número de ballet clássico, usando e abusando de violentos e estilizados tiroteios, toneladas de slow-motion (a popular câmera lenta) e criativos movimentos e trucagens de câmera (como aquela que acompanha o personagem principal dentro de um carro capotando).

O policial correto, determinado e honesto da vez é o inspetor Nico Palmieri (interpretado pelo sempre simpático Fabio Testi). Junto com o parceiro e amigão Salvatore (Sal Borgese), Palmieri está caçando obsessivamente uma gangue de arruaceiros que usa violência e vandalismo para convencer comerciantes de Roma a pagarem por "proteção", como faziam os mafiosos dos anos 20-30. A seqüência de créditos iniciais inclusive mostra diferentes ações dos bandidos, destruindo mercadorias e arrebentando vitrines, sempre em câmera lenta.

Crimes em slow motion



Certo dia, enquanto segue a quadrilha de carro, o inspetor descobre que o problema é maior do que aparenta: os arruaceiros na verdade integram um grande esquema de pilantragem (o "racket" do título original), que pretende ampliar seus "serviços" para o país inteiro, unindo todas as famílias mafiosas italianas sob o comando de um misterioso gângster inglês (Joshua Sinclair). O bandidão pretende centralizar todas as atividades ilegais de Roma sob seu comando, mais ou menos como o Rei do Crime dos quadrinhos da Marvel.

Quando Palmieri é pego no flagra bisbilhotando, os implacáveis integrantes da quadrilha nem se importam com o fato de ele ser policial: simplesmente rolam seu carro até que despenque de uma colina (o próprio Testi protagoniza a arriscada cena, filmada com a câmera dentro do carro enquanto o veículo rola ladeira abaixo, fazendo com que o ator receba uma chuva de vidro moído!).

Nosso herói passa uns dias se recuperando no hospital, e quando sai intensifica sua ação sobre a quadrilha. Mas suas tentativas de botar os bandidos atrás das grades sempre esbarram na Justiça, já que os marginais são espertos o suficiente para usar as brechas das leis ao seu favor - chega a ser revoltante o fato de um batalhão de advogados sempre conseguir tirar os sujeitos da cadeia, mais ou menos como acontece até hoje no Brasil. Pior: quando Luigi (Renzo Palmer), um dos comerciantes agredidos por membros do "racket", finalmente aceita testemunhar contra a quadrilha, os bandidos seqüestram e estupram sua filha de 15 anos, que morre após a agressão.

E Palmieri vai agüentando tudo no osso, tentando fazer a coisa da forma certa, dentro da lei. Ele até coloca um informante no mundo do crime, um velho batedor de carteiras chamado Pepe (o norte-americano Vincent Gardenia), para tentar prever os passos do "racket". Mas fica sempre de mãos amarradas para agir. Até que Salvatore é friamente executado pelos bandidos com tiros de metralhadora.

Afastado da delegacia pelos seus superiores, já que estava "fechando um olho" para os roubos do seu informante Pepe, Palmieri resolve que vai acabar com a quadrilha à sua maneira. E, como se trata de um filme de Castellari, já sabemos qual é esta "maneira": sangrentos tiroteios em câmera lenta. Não é por nada que a frase do cartaz de cinema é: "Alguém vai ter que pagar!"...

O diferencial de THE BIG RACKET em comparação a outros filmes com policiais durões da época de ouro dos poliziotteschi é que Nico Palmieri não aparece como o exército de um homem só, tão bem representado em outras produções por atores como Franco Nero e Maurizio Merli. Assim, para eliminar o "racket", que é formado por dezenas de marginais, o herói resolve recrutar vítimas da quadrilha que também perderam algo valioso por causa dos bandidos, como sua ex-testemunha Luigi, o bandido Pepe e Giovanni (Orso Maria Gerrini), um atirador olímpico que teve a esposa estuprada e queimada viva pelos criminosos, entre outros, numa espécie de mistura de "Os Doze Condenados" com "Desejo de Matar". Juntos e com armamento pesado, eles partem para um último confronto com o "racket".

Mas o Homem de Ferro não era o Robert Downey Jr.?



Em filmes de vingança, como este, a hora de dar o troco sempre é doce, para os personagens e para o espectador. Mas poucas vezes eu torci tanto pela morte dos antagonistas quanto neste filme. Os marginais do roteiro de Castellari, Massimo De Rita e Arduino Maiuri são um rascunho dos demônios do inferno. Além do cinismo com que cobram a proteção ("É como se você estivesse pagando taxas", minimiza um deles, ao ameaçar um comerciante), os bandidos são tão frios e sádicos que chega a dar nojo, como na cena em que um dos capangas mija sobre o corpo nu de uma mulher que acabou de estuprar, diante do olhar do marido atacado. Mais adiante, o chefão do "racket" orienta seus comandados que, se alguém não quiser pagar a proteção, basta matar um filho ou uma filha e ninguém mais irá se rebelar, isso com a maior frieza e naturalidade do mundo!

E como o roteiro deixa seus pobres heróis (incluindo Palmieri) com as mãos amarradas o tempo todo, chega a ser um alívio quando eles finalmente resolvem partir para o contra-ataque, com direito a quase pornográficas cenas em slow-motion dos bandidos sendo alvejados com tiros de grosso calibre (Peckinpah ficaria orgulhoso de ver o estilo que ele ajudou a popularizar atingindo a perfeição). E cada bandido que cai crivado de chumbo é um sorriso de satisfação a mais para o espectador!

Além do mérito de criar uma narrativa mais realista e pé no chão do que outros poliziotteschi do período, sem apelar para heroísmos exagerados dos protagonistas, THE BIG RACKET também tem o mérito de não negar fogo no quesito ação, com inúmeros tiroteios e pancadarias na narrativa. O único ponto fraco, pelo menos na minha opinião, é a desajeitada tentativa de incluir algumas cenas de artes marciais na narrativa (Nico e Salvatore ensaiam uns golpes contra os bandidos em duas cenas), talvez visando o público que curtia as produções de ação made in Hong-Kong. Mas a coreografia não convence (os atores ficam "duros" dando os golpes nitidamente ensaiados), e Fabio Testi parece um peixe fora d’água lutando kung-fu.

Outro ponto fraco é uma desnecessária revelação final sobre um segundo chefão do "racket", e que estaria envolvido diretamente com a polícia, mas que não faz muita diferença àquela altura do campeonato.

Fora isso, THE BIG RACKET é recomendadíssimo e um dos grandes filmes dos gêneros "vingança" e "men on a mission" já produzidos, de deixar envergonhados os responsáveis por recentes aventuras absurdas na mesma linha, como o exagerado e inverossímil "Sentença de Morte", com Kevin Bacon, que meio-mundo babou ovo. E como uma imagem vale mais que mil palavras, vou ficando por aqui, pois estes vídeos do YouTube que postei já são uma referência bem melhor que qualquer resenha minha.

Para quem não conhece o cinema de Castellari e quer um referencial, aqui está um dos seus filmes mais perfeitos e bem produzidos, antes que ele se entregasse à loucura das aventuras absurdas de baixo orçamento, tipo "Fuga do Bronx" e "Guerreiros do Futuro". Praticamente um western moderno, que Sam Peckinpah aplaudiria de pé.

Trailer de THE BIG RACKET



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Il Grande Racket (1976, Itália)
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Fabio Testi, Vincent Gardenia, Renzo
Palmer, Orso Maria Guerrini, Romano Puppo,
Joshua Sinclair e Sal Borgese.

domingo, 7 de dezembro de 2008

TROVÃO AZUL (1983)


É a típica historinha policial de sempre: uma dupla de homens da lei (um deles veterano e estressado, o outro jovem e inexperiente) topa acidentalmente com uma daquelas poderosas conspirações envolvendo altos escalões do governo e do exército, sendo perseguidos pelos caras maus, que querem impedi-los de divulgar as provas do complô.

A grande diferença de TROVÃO AZUL, dirigido em 1983 por John Badham, para outros filmes que contam esta mesma historinha policial de sempre é que aqui heróis e vilões usam modernos helicópteros armados até os dentes, e as perseguições são pelos céus de Los Angeles, e não em carros velozes pelas ruas, como é comum.


TROVÃO AZUL também é um dos meus "filmes da infância", que eu adorava quando guri, e foi ótimo revê-lo agora, num DVD-Rip, para descobrir que ele continua tão bom e interessante quando da primeira vez que o vi, numa das incontáveis reprises pelo SBT (que por sinal nunca mais exibiu estes filmes antigos do seu acervo).

Lembro que, quando era criança, também havia um seriado de TV com o mesmo nome, certamente surgido após o filme, mas nunca assisti e por isso não posso julgar (acabo de conferir no IMDB que um dos protagonistas da série era ninguém menos que Dana Carvey, o Garth de "Wayne's World"!!!). Curiosamente, o mesmo IMDB diz que TROVÃO AZUL foi um inesperado fracasso de bilheteria na época do seu lançamento.


Quem também é desta época deve lembrar que houve um pequeno ciclo de "filmes aéreos", principalmente sobre pilotos de caças, provavelmente por causa do sucesso do intragável "Top Gun - Ases Indomáveis", aquele estrelado por um jovem Tom Cruise. Eu nunca gostei desses filmes, mas meu irmão do meio adorava aviões, caças, helicópteros e o escambau (coisa de criança, já que ele nunca virou piloto nem nada disso). E foi meio por causa dele que vi TROVÃO AZUL: ele gravou o filme do SBT e assistia um milhão de vezes por semana.

A diferença desta para outras produções "aéreas" é que aqui existe uma história interessante como pano de fundo para as cenas de ação, e estas também são boas e bem filmadas. A maioria dos filmes com caças dos anos 80 só se preocupavam em mostrar os aviões voando e jogando mísseis, e olhe lá.

Já este filme de John Badham, escrito por Dan O'Bannon (diretor de "A Volta dos Mortos-vivos"), Don Jakoby (roteirista do clássico "Desejo de Matar 3") e Dean Riesner (roteirista de "Perseguidor Implacável"), mostra o dia-a-dia da divisão aérea da polícia de Los Angeles, que vigia os céus da metrópole com helicópteros na tentativa de impedir crimes em andamento e auxiliar no trabalho dos policiais terrestres.


Na verdade, é um trabalho bem bundão: os pilotos ficam sobrevoando a cidade, avisando a delegacia por rádio quando avistam ações ou veículos suspeitos, e iluminando com holofote os bandidos em fuga, para facilitar sua perseguição pelos policiais em terra. Um pé no saco para quem pensava que os pilotos tinham permissão de voar metralhando ou disparando mísseis na bandidada, né?

Para compensar, pelo menos, eles podem utilizar os helicópteros policiais para atitudes bem menos nobres que "manter a lei e a ordem", como espiar uma bela garota que pratica yoga completamente nua em sua casa!


O principal policial-piloto da divisão é o oficial Frank Murphy (o saudoso Roy Scheider), veterano do Vietnã que está estressado e à beira de um ataque de nervos. As coisas não melhoram nada quando ele recebe um novo parceiro, Richard Lymangood (um jovem Daniel Stern), e nem com a pressão do seu chefe, o capitão Jack Braddock (último filme de Warren Oates, que morreu após as filmagens).

Certo dia, Braddock convida Murphy para acompanhar a demonstração de um novo brinquedinho do exército, o Trovão Azul. Trata-se de um helicóptero modificado e dotado da mais alta tecnologia: além de metralhadoras movidas por um sensor no capacete do piloto ("Elas atiram para onde você está olhando", explica um dos personagens) e mísseis, o helicóptero tem visor infra-vermelho, computador de bordo conectado com os arquivos da polícia e até câmera e microfone de alta potência, além, claro, de um visual estiloso. Tudo para supostamente deter possíveis atentados terroristas.


A demonstração dos benefícios da aeronave é feita pelo arrogante coronel Cochrane (Malcolm McDowell, porra!!!), que tem uma longa rusga com Murphy, ainda dos tempos do Vietnã. E o próprio Murphy é escolhido para realizar alguns vôos experimentais com o Trovão Azul

É quando, por acidente, ele e Lymangood sobrevoam um edifício governamental e descobrem que agentes de alto escalão estão envolvidos no assassinato de uma importante defensora dos direitos humanos, e que o Trovão Azul será usado como arma - o coronel Cochrane, claro, é um dos conspiradores.

A dupla de policiais grava áudio e vídeo da reunião como evidência, e então são perseguidos pelos vilões. Quando Lymangood é brutalmente assassinado, Murphy rouba o Trovão Azul e dá início a uma longa e emocionante perseguição aérea, que corresponde à meia hora final do filme.


Eu vi um documentário há algum tempo falando sobre a dificuldade de utilizar helicópteros em filmes, e como são comuns as tragédias em sets de filmagens, inclusive matando atores (isso aconteceu, por exemplo, em "No Limite da Realidade", "Comando Delta 2" e "Keruak - O Exterminador de Aço", entre outros títulos). Por isso, não tem como não achar menos que incríveis as acrobacias realizadas pelas aeronaves na parte final de TROVÃO AZUL, sem a praga da computação gráfica que infesta a maioria das produções recentes.

O clímax mostra Murphy sendo perseguido no ar pelo seu desafeto Cochrane, pilotando outro moderno helicóptero de guerra, e ambos trocam rajadas de metralhadoras e mísseis sem se preocupar com a segurança das pessoas em edifícios próximos do "campo de batalha".


Aliás, o filme não mostra baixas civis, mas elas se tornam evidentes pela dimensão da destruição provocada durante a perseguição ao Trovão Azul: quando um caça é abatido por Murphy, por exemplo, o piloto consegue se ejetar, mas não tem como não pensar que a aeronave em chamas deve ter caído bem no meio de Los Angeles!!!

É interessante constatar que Frank Murphy não é um herói perfeitinho como é comum no gênero. Ele é apresentado desde o início como um homem literalmente à beira de um ataque de nervos, dominado por seus traumas dos tempos do Vietnã e obcecado por um velho relógio digital que conta os segundos na forma de um círculo que vai se apagando (outra coisa típica dos anos 80). Também vive entre tapas e beijos com a companheira Kate (Candy Clark).

Talvez tudo isso tenha a ver com a primeira versão do roteiro, que era mais puxada para o suspense: mostrava um piloto tendo um surto psicótico e roubando o Trovão Azul para aterrorizar Los Angeles, sendo então combatido pela polícia. Só que os produtores acharam o tom muito pessimista e mandaram reescrever tudo.


TROVÃO AZUL ainda traz uma boa química entre Scheider e Stern como parceiros de vôo - a cena dos dois bancando os voyeurs para espiar a peladona fazendo yoga é muito engraçada. Mas, claro, o melhor do filme é o duelo de nervos entre o herói e o vilão interpretado por McDowell, que na época ainda não havia afundado sua carreira como protagonista de produções classe Z, e aqui dá certo charme ao psicótico coronel Cochrane - impagável a cena em que Murphy debocha do tradicional sotaque inglês de seu desafeto.

Destaque também para a ótima trilha sonora de Arthur Rubinstein, a única coisa do filme de que eu me lembrava desde que o vi na infância!

E eu continuo não gostando dessas produções com aeronaves e duelos aéreos. Mas TROVÃO AZUL se mantém como uma ótima exceção no gênero, e hoje é um filme injustamente desconhecido e que merecia uma segunda chance. Até porque não é sempre que você vê uma chuva de frangos assados no centro de Los Angeles (!!!), provocada pela explosão de um restaurante pelo míssil disparado por um caça! E sem CGI!

Trailer de TROVÃO AZUL



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Blue Thunder (1983, EUA)
Direção: John Badham
Elenco: Roy Scheider, Malcolm McDowell,
Candy Clark, Daniel Stern, Warren Oates,
Paul Roebling e David Sheiner.