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terça-feira, 20 de novembro de 2012

O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE (1990)


Quem viveu a Era de Ouro das videolocadoras brasileiras deve lembrar bem do nome Wilson Rodrigues. Através da sua empresa, a WR-Filmes Ltda., este mineiro de Belo Horizonte radicado em São Paulo distribuiu um montão de tralhas hoje dificílimas de encontrar mesmo lá fora, como a ficção científica pós-apocalíptica "1999 - O Sobrevivente do Fim do Mundo", de Michael Shackleton, o drama de guerra "Mergulhando Para o Inferno", de Shûe Matsubayashi, e o anime "Terror em Love City", de Kôichi Mashimo.

Mas Wilson Rodrigues também dirigiu e produziu seus próprios filmes. Começou com pornochanchadas ("A Dama do Sexo", "Meu Primeiro Amante"), mudou para o sexo explícito quando o pornô estava dando dinheiro ("Masculino... Até Certo Ponto", em 1986), e tentou limpar o currículo especializando-se em produções voltadas ao público infantil. "É a primeira vez que se tem a chance de produzir um vídeo especialmente dedicado ao público infantil, que tem poucos títulos brasileiros à sua disposição", declarou Wilson em reportagem da época.


O resultado da iniciativa foram duas produções baratas baseadas em contos de fadas, produzidas originalmente para o mercado de vídeo, mas também exibidas em alguns cinemas: "No Mundo da Carochinha Volume 1 - Chapeuzinho Vermelho" e "No Mundo da Carochinha Volume 2 - Joãozinho e Maria", ambas de 1986. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, trabalhou na supervisão de "Chapeuzinho Vermelho", e Rubens Francisco Lucchetti, roteirista de vários filmes de Mojica e de Ivan Cardoso, ficou responsável pelas adaptações (acima, os pôsteres das duas produções).

Surpreendentemente, os dois filmes deram um bom retorno financeiro, e Wilson resolveu investir a grana que lucrou com eles numa produção melhorzinha, em sociedade com Rodri J. Rodriguez. Só que sonhou um pouquinho alto demais, achou que era Steven Spielberg e torrou todo o dinheiro num filme brasileiro com pretensões hollywoodianas (só pretensões). Em resumo, foi assim que nasceu O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE, terceira obra da série "No Mundo da Carochinha", mas lançada diretamente em VHS sem esta alcunha, como se fosse uma produção independente.


Rubens Lucchetti novamente ficou a cargo da adaptação, dessa vez da fábula "O Gato de Botas" (Le Chat Botté, no original), do francês Charles Perrault (1628–1703). Esta história popular foi publicada originalmente no volume conhecido como "Histórias da Mamãe Gansa" (Les Contes de ma Mère l'Oye), em 1697. Anos depois, no século 19, os Irmãos Grimm escreveriam sua própria versão de "O Gato de Botas", mas sem nenhuma mudança marcante na trama já conhecida.

Na versão original dos contos de fadas, "O Gato de Botas" narra a história dos três filhos do finado proprietário de um moinho. O mais velho herda o moinho, o irmão do meio herda os cavalos, e o mais jovem fica com o inofensivo gatinho que pertencia ao pai. Só que não é um felino normal: o "Gato de Botas" do título anda em duas patas, fala e se comporta como gente (sem que ninguém estranhe o fato), e, entristecido com a pobreza do seu novo dono, arma um complicado esquema para que ele se case com a bela princesa do reino.


Pelos próximos dias, o Gato de Botas caça coelhos e gansos e os entrega ao rei como se fossem presentes do "Marquês de Carabás", de quem seria súdito. Repete isso tantas vezes que o rei e a rainha ficam encantados com a generosidade do nobre que sequer existe. Aí o gato malandro coloca seu dono no golpe durante um passeio de carruagem do rei, fazendo o rapaz identificar-se como o tão comentado marquês e fingindo que foi assaltado.

E a mentira vai ficando cada vez mais complexa: para que o rei acredite que seu humilde dono é mesmo um nobre, o Gato de Botas sai em disparada pelo reino inventando mentiras, convencendo fazendeiros a dizerem ao rei que suas terras pertencem ao fictício "Marquês de Carabás", e até matando um malvado Ogro que vive na região para apoderar-se do seu castelo, que passa a ser o castelo do marquês de mentirinha. No final, o rapaz pobretão que se fingia de nobre ganha a mão da princesa em casamento e vira príncipe de verdade, enquanto o mentiroso Gato de Botas diverte-se com sua nova vida entre a realeza.


Para a adaptação brasileira, Wilson Rodrigues contratou um elenco repleto de nomes famosos e/ou conhecidos, quase todos oriundos do elenco da Rede Globo na época. O fazendeiro e falso Marquês de Carabás, por exemplo, é interpretado por um jovem Maurício Mattar, então astro das novelas da Globo graças ao João Ligeiro de "Roque Santeiro".

Sua princesa é a ninfetinha Flávia Monteiro, que alguns anos antes, em 1987, tinha provocado polêmica por interpretar uma espécie de Lolita em "A Menina do Lado", protagonizando cenas ousadas com Reginaldo Farias. Na época do filme, ela integrava o elenco da novela das oito "Vale Tudo".


Já o papel do Gato de Botas, que já havia sido interpretado pelo oscarizado Christopher Walken numa adaptação mequetrefe da Cannon Films (e depois seria dublado por Antonio Banderas na série "Shrek"), ficou com Heitor Gaiotti, figurinha carimbada dos filmes de ação baratos de Tony Vieira (como "Tortura Cruel" e "O Último Cão de Guerra").

Ironicamente, Gaiotti era conhecido pelo apelido de "Gato", e talvez por isso tenha sido convidado a interpretar o personagem. (Alguns podem achar engraçado e "politicamente incorreto" um ator de pornochanchada interpretando um clássico personagem infantil, mas é bom não esquecer que o eterno Papaco Fernando Benini hoje está no elenco da novela "Carrossel"!)


O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE começa com a então garota-propaganda do Leite de Aveia Davene, Tônia Carrero, no papel de uma simpática vovó contando uma história para a netinha dormir. Ela pega o livro do "Gato de Botas", e então começa a encenação da história, seguindo fielmente o original de Perrault (embora os créditos iniciais informem que o roteiro de Lucchetti baseou-se na versão dos Irmãos Grimm).

Além dos nomes já citados, Felipe Levy (célebre figurante do programa Os Trapalhões e ator em tralhas como "A Rota do Brilho") interpreta o rei, e a atriz gaúcha Carmem Silva a sua rainha. Tony Tornado aparece como um dos guardas do palácio, Joffre Soares é o feiticeiro malvado Mago Mau (substituindo o Ogro da história original), e há pequenas participações de Zezé Motta e José Mojica Marins como vítimas do feiticeiro malvado. Mojica aparece vestido como Zé do Caixão, mas identifica-se como "Príncipe Renini", um jovem enfeitiçado para ficar com a aparência do Zé do Caixão, na única tirada divertida da adaptação.


O produtor Wilson (que faz uma ponta lendo o testamento dos três irmãos no início do filme) não poupou esforços para dar o ar de "superprodução hollywoodiana" que tanto sonhava ao seu filme. Além de filmar parte das cenas em Monte Verde (MG) e na cidade gaúcha de Gramado - onde também foram aproveitadas as miniaturas de castelos do parque temático Mini Mundo para as externas do reino do conto de fadas -, Wilson encomendou a máscara do Gato de Botas ao Burman Studio, em Hollywood.

Você não leu errado: "o" Burman Studio, aquele mesmo responsável pelos licantropos de "A Marca da Pantera" e "O Garoto do Futuro", pelo Sloth de "Os Goonies", e indicado ao Oscar de Melhor Maquiagem pelas assombrações da comédia "Os Fantasmas Contra-Atacam" (1988). A máscara do gato realmente é bem expressiva, e deve ter comido a maior parte do orçamento, mas sozinha não salva o filme. (Para não ser injusto, a caracterização de Joffre Soares como feiticeiro malvado também é muito boa.)


E se a produção segue fielmente o original de Perrault/Irmãos Grimm (descontando, é claro, a introdução com a vovó e sua netinha, e o bruxo no lugar do ogro), por que diabos o título é O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE?

Aí é que está o problema: para tentar dar uma ar mais "moderno" à fábula, já que as crianças do final dos anos 80 foram educadas mais por Spielberg e George Lucas do que pelos velhos contos de fadas, Lucchetti resolveu dar uma origem alienígena ao Gato de Botas, o que talvez explique o fato de o gato andar, falar e comportar-se como ser humano - embora no filme, como na fábula original, ninguém nunca estranhe esse comportamento.


O problema é que o produtor Wilson deve ter ficado sem dinheiro na hora de filmar as cenas que explicam essa origem alienígena. Portanto, não espere por cenas com o Gato de Botas em seu planeta cheio de outros Gatos de Botas inteligentes e malandros, recebendo a missão de ir à Terra ajudar o pobre fazendeiro. O máximo de "extraterrestre", para justificar o título absurdo do filme, são takes totalmente gratuitos de uma nave espacial em formato fálico no espaço (sua construção é creditada a "Alex Miller"), enxertados sem muito critério no meio da narrativa.

E a conclusão também traz um toque mínimo de ficção científica, quando revela-se que o tal "Gato de Botas Extraterrestre" na verdade é um robô! O personagem fica paralisado enquanto caminha pelo campo, como se as pilhas tivessem acabado, e foi isso mesmo que aconteceu! Então a tal nave em formato fálico aproxima-se da órbita da Terra, um alienígena vestido de preto estilo Darth Vader sai dela e troca as baterias do Gato de Botas, que volta a andar todo serelepe. The end!


Em resumo, a natureza "extraterrestre" do Gato de Botas não acrescenta absolutamente nada de novo à fábula, e a trilha sonora roubada de "Blade Runner - O Caçador de Andróides", repetida ad nauseam ao longo do filme, também falha em dar qualquer tom de ficção científica ao produto final. Lá pelas tantas, também entram trechos da 9ª Sinfonia de Beethoven, talvez porque os realizadores tenham ficado com vergonha da repetição da música de "Blade Runner".

Misteriosamente, os créditos iniciais indicam Jorge Mello como autor da trilha sonora do filme, mas não consegui perceber nenhuma música original além das chupadas de "Blade Runner" e de Beethoven. De qualquer jeito, faz-se a menção.


Se os toques de ficção científica não acrescentam nada de novo, Lucchetti tampouco parece interessado em mexer no texto original, adaptado praticamente na íntegra. Não há espaço para que os poucos personagens novos, como o príncipe enfeitiçado para ter a cara do Zé do Caixão, ou mesmo o bruxo malvado, possam fazer algo para justificar suas existências.

O guarda do rei interpretado por Tony Tornado em certos momentos parece suspeitar da idoneidade do Gato de Botas, mas nem a este personagem é dado qualquer espaço para crescer e mostrar serviço. Por isso, na maior parte de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE só vemos Heitor Gaiotti correndo para cá e para lá com suas mentiras e Maurício Mattar andando de carruagem com Flávia Monteiro e Carmen Silva, ele com cara de bunda, elas com cara de paisagem - quem sabe pensando "Por que diabos fui me meter nessa furada?".


Particularmente, acho bem triste o fato do roteiro de Lucchetti preferir manter a ambientação do conto original num "reino de conto de fadas", com os poucos e dispensáveis toques de ficção científica, ao invés de "abrasileirar" a trama, fazendo, quem sabe, uma adaptação contemporânea do Gato de Botas aqui no Brasil, e não num reino mágico de conto de fadas.

Afinal, se a fábula de Perrault pode ser interpretada como um elogio à esperteza, por outro lado também incentiva e glorifica a mentira: o que o Gato de Botas faz não deixa de ser o popular "conto do vigário", enrolando o rei e a rainha para que entreguem a mão da sua filha a um fazendeiro pobretão que se finge de nobre.


Portanto, sendo o Gato de Botas um personagem tão "171", parece ter nascido para estrelar uma adaptação feita no Brasil, o notório país dos malandros que querem levar vantagem às custas dos outros. Numa adaptação contemporânea da fábula, o felino poderia ter se transformado num personagem estilo Zé Carioca, e sem princesas e castelos.

Mas Wilson Rodrigues e Rubens Lucchetti preferiram uma adaptação mais tradicional, e os ridículos elementos de ficção científica parecem ter sido inseridos no fim das filmagens. Ao menos é a essa conclusão que se chega na pesquisa por reportagens antigas sobre a produção, que ainda era chamada apenas de "O Gato de Botas". Não duvido que a sub-trama com a origem extraterrestre do personagem tenha sido acrescentada depois para tornar o filme mais atrativo à molecada, o que também justificaria as poucas cenas com esse tema.


No conjunto, O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE é um desastre. Não há história para mais do que um curta-metragem de meia hora, e curiosamente os episódios anteriores de "No Mundo da Carochinha" ficavam nessa metragem, entre 40 e 50 minutos. Mas este aqui preferiram transformar em longa, com intermináveis 85 minutos! Não há a menor noção de ritmo e nem um mínimo de edição (cada take dura uma eternidade).

Como não havia história para contar (a própria fábula em que se inspira é bem curtinha), a solução foi enrolar com inúmeras e intermináveis cenas de cavaleiros galopando, com loooooooooongas cenas dos personagens caminhando de ponto A para ponto B, ou ainda a festa de casamento da princesa com o "Marquês de Carabás" no final, filmada como se fosse um autêntico vídeo de festa de casamento da vida real - ou seja, com cenas longas e arrastadas de pessoas comendo, dançando e se divertindo.


O excesso de astros e estrelas, efeitos hollywoodianos e pompa de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE cobrou seu preço, e o diretor/produtor Wilson Rodrigues teria ido à bancarrota. Pelo menos foi o que explicou o roteirista Lucchetti em entrevista de 2000: "Wilson investiu todo o seu dinheiro numa superprodução, que, apesar de não ficar devendo nada às fitas hollywoodianas, levou a WR-Filmes à falência".

O filme sequer chegou aos cinemas, como os dois volumes anteriores da série "No Mundo da Carochinha", saindo direto em vídeo. E se a data oficial da produção é 1990, aparenta ter sido filmado pelo menos dois anos antes (provavelmente ficou emperrado pelos problemas financeiros e de distribuição).


O curioso é que os créditos iniciais do filme estão em inglês (o título inclusive ficou "The Extra-Terrestrial Cat in Boots"!!!), porque a ideia de Wilson e cia. era lançá-lo nos cinemas disputando espaço e público de igual para igual com os blockbusters de Hollywood. "Nosso Gato de Botas vai enfrentar Spielberg", dizia a manchete "só um pouquinho" exagerada de um jornal da época da produção.

Só que o inglês do cara que fez os títulos não era tão bom assim, e deixou passar algumas pérolas. O montador Walter Wanny, por exemplo, virou o responsável pela "ediction" (!!!), palavra que nem existe na língua inglesa (o correto seria "montage", ou "film editing by"); o co-produtor Rodri J. Rodriguez virou "The Rodri Group" (!!!); e os agradecimentos nos créditos finais são identificados pela cartola "Thankfulness" (!!!).


Wilson Rodrigues ainda insistiu e tentou fazer um quarto "No Mundo da Carochinha" em 1994, novamente com roteiro de Rubens Lucchetti, e dessa vez com apresentação de Mojica. Algumas cenas chegaram a ser filmadas, mas a produção foi cancelada pelas dificuldades financeiras do produtor, e porque o próprio cinema brasileiro vivia tempos muito difíceis pré-Retomada.

Ignorado na época de seu lançamento, O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE logo ganhou uma sobrevida entre os admiradores de filmes trash. Afinal, não é todo dia que você Maurício Mattar como príncipe assessorado por Heitor Gaiotti com uma máscara de gato, e Tony Tornado e Zé do Caixão fazendo parte do mesmo elenco!


E eu não consegui descobrir se o filme chegou a ser lançado no exterior, mas, por mais inacreditável que isso soe, existem reproduções do pôster original do filme para vender em sites como Amazon e Moviegoods! Não consigo imaginar quem em sã consciência seria maluco o suficiente para adornar seu quarto ou sala de estar com um pôster de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE...

Mas, a julgar pela quantidade de gente talentosa/famosa que se envolveu nessa canoa furada, e à quantidade de linhas que o demente aqui escreveu sobre o filme, o que mais tem nesse mundão é gente maluca...

PS: Um dos assistentes de direção foi Custódio Gomes, que já havia lidado com "extraterrestres" antes, mas num filme com teor bem menos infantil: o pornô "Aguenta Tesão - O ETesão"!

Trailer de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE



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O Gato de Botas Extraterrestre (1990, Brasil)
Direção: Wilson Rodrigues
Elenco: Maurício Mattar, Heitor Gaiotti, Flávia Monteiro,
Felipe Levy, Carmen Silva, Tony Tornado, Joffre Soares,
José Mojica Marins e Zezé Motta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

ANJO DA DESTRUIÇÃO (1994)


Hoje a garotada vê coisa bem pior no X Videos ou no RedTube, mas o moleque pré-internet do começo dos anos 1990 precisava se contentar com as cenas sensuais, nada explícitas e cheias de cortes da extinta Sexta Sexy (depois Cine Privê). Os "erotic thrillers" e "filmes de ação sensuais" exibidos nesta saudosa sessão da TV Bandeirantes criaram todo um "star system punhetístico" para os moleques brasileiros, formado por musas como Shannon Tweed, Julie Strain e Delia Sheppard.

Estas e outras menos conhecidas davam o ar da graça toda semana na telinha da Band, com pouca ou nenhuma roupa, e o garotão impúbere tinha que criar mil estratégias para assistir os filmes de putaria na sala de casa sem que os pais percebessem. Bons (e ingênuos) tempos...


Os nobres leitores (e leitoras) do FILMES PARA DOIDOS devem ter suas próprias estrelinhas da Sexta Sexy, mas a minha musa desses tempos atendia pelo nome de Maria Ford. Sabe aquele porre de música do "Ai ai ai ai! Assim você mata o papai!"? Pois a letra poderia muito bem ter sido escrita para ela.

Maria era um fetiche ambulante: loira falsa com boca carnuda, corpo escandaloso de boneca Barbie e um par de belíssimos peitinhos (aparentemente) sem silicone. Reza a lenda que um tal de Quentin Tarantino também a elegeu sua "B actress" favorita. E, antes de atuar, Maria era showgirl (nome chique para "stripper") em Las Vegas.


A musa loira fez mais de 50 filmes, e até meados de 1998 o nome "Maria Ford" na capinha da fita (ou DVD) era garantia de que haveria cenas calientes e o belo corpo desnudo da moça em pelo menos 30% do tempo de projeção. Alguns belos exemplos que comprovam essa teoria são "Slumber Party Massacre 3", "Deathstalker 4", "Roedores da Noite" e "Stripteaser". Depois de 1998, ela ficou "séria" e praticamente parou de tirar a roupa, aparecendo em produções infantis como "Beethoven 5" ou seriados inofensivos na TV. Bah

Portanto, se você quiser ver uma das produções menos comportadas da musa, para poder examinar os seus "atributos artísticos" em detalhes, fica como dica do FILMES PARA DOIDOS um dos seus grandes clássicos: ANJO DA DESTRUIÇÃO. Uma das tantas podreiras exibidas na Sexta Sexy, esta produção também é divertida como filme de ação classe C, para aqueles que não gostam tanto de mulher. E pode ser resumida nas seguintes palavras: heroína luta pelada. Sério.


Eu puxei ANJO DA DESTRUIÇÃO dos labirintos da minha memória porque, recentemente, um distinto leitor perguntou, nos comentários da minha resenha sobre "Desejo de Matar 5", qual era o filme em que uma loira gostosa aparecia lutando pelada. Sempre que falam em "gostosa lutando pelada", lembro imediatamente de três filmes: "TNT Jackson", onde a lutadora peladona é negra; "Silk 2 - A Desforra", onde a lutadora peladona é a ruiva Monique Gabrielle, e este ANJO DA DESTRUIÇÃO, onde a honra cabe a Maria Ford, de peitos de fora e calcinha minúscula atolada na bunda. Parece que o filme da pergunta não é nem um dos três, mas o que vale é a intenção.

E vamos combinar que assim fica fácil para vencer uma luta contra qualquer homem: a última coisa em que pensariam os rivais de uma gostosa lutando pelada seria se defender dos golpes; eles querem mais é ficar olhando para aquele espetáculo de mulher antes de serem nocauteados!


ANJO DA DESTRUIÇÃO se passa no Havaí filmado nas Filipinas (!!!), e começa com um sujeito de quase dois metros (Jimmy Broome, único filme) entrando num hotel acompanhado de uma prostituta que tem metade da sua altura. Eles vão para o quarto, a moça fica de topless e o gigantão diz que esqueceu algo no carro e já volta. "Não demore muito", ronrona maliciosamente a puta de topless.

O sujeito sai do quarto, mas não vai até o carro. Ele entra num quarto próximo, onde detona uns cinco ou seis caras armados apenas usando golpes de artes marciais, e ainda atira o último que sobra pela janela, depois de dizer algo como: "Você deixou minha unidade em Angola, e eu não gostei disso". O lance de Angola nunca se justifica, mas depois de atirar o cara pela janela, o gigante volta para o seu quarto, faz a prostituta vestir-se de noiva e a mata


Corta para uma detetive machorra, vestida como Tom Cruise em "Top Gun" (com óculos escuros e jaqueta de couro marrom cheia de emblemas bordados), chegando num outro hotel de quinta categoria, dessa vez para resgatar uma menina que foi sequestrada para abastecer o lucrativo mercado de escravas brancas.

A moça é boa de briga e também arrebenta uns quatro ou cinco caras na porrada. Um deles, que parece ser o chefão, leva golpes no nariz e no saco, e ainda precisa ouvir uma gracinha da lutadora: "O nariz quebrado é pela garota que você sequestrou, mas a vasectomia é de brinde!". Cara, quem escreveu esse roteiro, e por que ele nunca ganhou nenhum Oscar?


A detetive valentona é Brit Altwood, interpretada por Charlie Spradling. Ela tem certo culto no cenário independente porque apareceu num monte de porqueira, mas também caiu nas graças de um certo David Lynch e conseguiu participações num episódio de "Twin Peaks" e no longa "Coração Selvagem". Li em algum lugar que Charlie seria originalmente a protagonista de ANJO DA DESTRUIÇÃO, mas ela não quis aparecer pelada, por isso perdeu o papel para Maria Ford - que tirava a roupa quase automaticamente quando o diretor gritava "Ação!".

O engraçado é que Charlie ficou cheia de pudores aqui, mas fez cenas de nudez em praticamente todos os seus outros filmes! Bem, quem ganha é o espectador: Maria Ford é muito mais gostosa que Charlie Spradling. E se você quiser ver a Charlie Spradling pelada, basta assistir filmes como "O Mestre dos Brinquedos" ou "Seduzida pelo Horror".


Voltemos ao filme: parece que Brit é o "Anjo da Destruição" do título, certo? Mas então cadê a Maria Ford? Calma, calma, já chegamos lá! Porque nossa aventura de repente corta para um show de pop rock com uma cantora "escandalosa" tipo Madonna. A diferença é que Madonna não ficava cantando de lingerie e peitos de fora, mesmo na sua fase mais polêmica. E isso, acredite ou não, acontece aqui, quando somos apresentados à estrela do rock peladona Delilah (Jessica Mark, único filme).

Claro que se o seu ramo de negócio é cantar pop rock de lingerie e peitos de fora, o assédio dos pervertidos deve ser bem comum. O problema é que Delilah atrai as atenções justamente daquele "psicopata gigante matador de prostitutas vestidas de noiva que não gostou de ter sua unidade abandonada em Angola", lembra? E o sujeito presenteia sua roqueira de topless preferida com o dedo decepado da puta do hotel! Digamos que não é uma bela forma de começar uma relação.


No dia seguinte, Delilah procura a detetive Brit para contratá-la como guarda-costas. Ela não confia na polícia e quer uma gostosa guardando as suas costas (e demais partes do corpo). Mas não malicie as coisas, porque isso nem chega a acontecer: é só a roqueira sair do escritório de Brit que aparece por lá o tal fã psicopata.

Ele mata a detetive a pancadas, e é um autêntico cavalo, porque bate pra cacete na pobre da garota! Mas dá azar porque a moça tem uma irmã, a policial disfarçada Jo, que é interpretada por... eba!... Maria Ford!!!


O engraçado é que quando Jo aparece pela primeira vez, ela está na cena do crime daqueles caras e da puta que o psicopata gigante matou no hotel no começo do filme, lembra? O problema é que, a essas alturas, nós já estamos no DIA SEGUINTE aos acontecimentos mostrados no começo do filme! Mas, ao que parece, a polícia só chegou à cena do crime 24 horas depois. E isso que um cara foi atirado pela janela! Lenta, essa polícia do Havaí...

Jo tem um namorado também policial, Aaron (Antonio Bacci, único filme, e com um bigodinho de ator pornô!). Investigando a relação entre esses crimes todos, a dupla descobre que o dedo decepado que Delilah ganhou de presente pertencia à puta morta no hotel, e que o anel que adorna o membro decepado contém o mesmo símbolo da fachada de um bar barra-pesada da cidade. Hã?!? Peraí, isso era para fazer sentido? Provavelmente não, mas a história tinha que andar de alguma maneira, né não?


Aí Jo e Aaron vão até o tal bar em busca de pistas, e o lugar é frequentado por mercenários dos mais filhos da puta - tipo, eles têm metralhadoras penduradas nas paredes e se divertem atirando facas em alvos. É claro que o "interrogatório" dá errado e a dupla de policiais precisa sair na porrada, assim podemos ver Maria Ford em ação pela primeira vez (ela sabia um tantinho de artes marciais na vida real).

Vamos combinar que é hilário ver uma loira gostosa como Maria Ford distribuindo pancadas e nocauteando uns caras com o dobro do tamanho (e dos músculos) dela. Entretanto, como bem observou um gringo que comentou sobre este filme no IMDB, as lutas são muito mais convincentes do que as mostradas em "As Panteras". Ele tem razão.


Não demora para Jo e Aaron descobrirem que o "psicopata gigante lutador de artes marciais etc etc etc" é Robert Kell, um super-mercenário que, por algum motivo ignorado, passa o resto do filme matando prostitutas vestidas de noiva e "stalkeando" Delilah.

E olha que ele nem é o único problema da "cantora": seu empresário, um tipo mafioso, está perdendo rios de dinheiro com o fracasso comercial da moça (vai ver sua música não funciona se ela não estiver cantando ao vivo de topless), e resolve mandar seus capangas para matá-la, assim embolsará a grana do seguro. Faz sentido? Não. Mas o filme ficaria muito chato se Maria Ford passasse os 90 minutos apenas atrás do psicopata gigante, portanto deram-lhe mais um punhado de capangas anônimos para surrar e encher de tiros.


Isso conduz à cena que faz ANJO DA DESTRUIÇÃO valer o preço da locação, ou o tempo investido: aquela em que os tais capangas do mafioso invadem a mansão de Delilah à noite para dar um fim na cantora. Só que a guarda-costas Jo está pronta para proteger sua cliente, mesmo que seja vestindo apenas uma calcinha atolada na bunda, porque ela acabou de acordar e, ao contrário de Monique Gabrielle em "Silk 2", não tem tempo de vestir sequer um roupão para enfrentar os malvados.

Cara, podem me chamar de pervertido, de imaturo, mas ver uma gostosa peladona surrando um bando de marmanjos é uma daquelas coisas que me faz acreditar no termo "magia do cinema". Afinal, este não é o tipo de coisa que você verá algum dia na vida real!


A crítica especializada babou ovo para David Cronenberg (que novidade!) na época de "Senhores do Crime" (2007), dizendo que a cena em que o Viggo Mortensen lutava completamente pelado contra inimigos armados com facas era genial porque "representava toda a vulnerabilidade do protagonista", e aquele "bla-bla-bla" pseudo-cinéfilo de sempre.

Ora, pois ANJO DA DESTRUIÇÃO fez a mesmíssima coisa 13 anos antes e ninguém deu bola. E entre o pau mole do Viggo Mortensen no filme do Cronenberg e a Maria Ford de topless e calcinha atolada na bunda aqui, é claro que fico com essa última! Fodam-se o Cronenberg e o pau mole do Mortensen!


Obviamente, ANJO DA DESTRUIÇÃO não é, nem com muita generosidade, um bom filme. Mas nem precisa ser: ele tem Maria Ford no elenco. E pelada. E lutando pelada. E, quando não está pelada, está vestindo roupas dignas de sex shop ou stripper, embora seja uma policial. Seu figurino se resume a umas mini-blusas deixando meio seio à mostra e umas calças tão grudadas no corpo que parece que vão rasgar a qualquer movimento brusco.

Aliás, no quesito "safadeza" o filme não nega fogo. Praticamente todas as atrizes aparecem peladas (menos a regulona da Charlie Spradling). Maria Ford tem uma cena de sexo com Antonio Bacci cheia daquelas caras e bocas típicas dos filmes da Sexta Sexy, e, lá pelas tantas, é obrigada pelo vilão a fazer um striptease em público, caso contrário ele matará uma refém. Claro que isso é mera desculpa para mais sacanagem, e para Maria Ford relembrar seus tempos de stripper em Las Vegas, numa cena sem qualquer fundamento narrativo, mas de-li-cio-sa!


E tem ainda os videoclipes safadinhos da roqueira Delilah com sua amante lésbica Reena (Chandra Fayme), sempre repletos de topless e fetichismo sadomasoquista, parecendo uma sátira ao que Madonna fazia na época (e uma espécie de preview do que Lady Gaga faria quase duas décadas depois).

Enfim, é tanta mulher pelada e nudez gratuita que até quem gosta muito da coisa vai se pegar reclamando: "Mulher pelada DE NOVO?". Não que eu esperasse algo sério ou digno de Shakespeare quando assisti isso. Quer dizer, volte lá para o topo da resenha e dê uma boa olhada na capinha da bagaça: quem em sã consciência veria um filme com essa capinha em busca de um roteiro complexo e de boas interpretações? Talvez os mesmos que mentem dizendo que compram a Playboy só para ler as entrevistas...


Mesmo que você seja menina, ou daquele tipo que tem nojinho de mulher, o filme continua funcionando por outro ângulo: é tão ruim e absurdo, com cenas de ação que não convencem (tipo uma gostosa surrando dezenas de mercenários valentões) e diálogos toscos, que provoca acessos de gargalhadas involuntárias com bastante frequência.

Além das lutinhas com roupa e sem, Maria Ford também demonstra ser muito boa de tiro, naquelas típicas cenas exageradas à la John Woo em que a heroína dispara de cinco a sete tiros num único vilão, apenas pelo mórbido prazer de explodir "squibs" cheios de sangue no peito dos atores.


ANJO DA DESTRUIÇÃO é uma co-produção EUA/Filipinas realizadas por dois nomes bem conhecidos do leitor do FILMES PARA DOIDOS: Roger Corman e Cirio H. Santiago (o mago das aventuras filipinas baratas). Só por aí, você já pode ter uma bela ideia do que vem pela frente.

O curioso é que o filme é uma espécie de remake (ou "reboot", o termo da moda) de outra aventura produzida pela mesma dupla apenas dois anos antes, "Fúria Sangrenta" (Black Belt, 1992). Tanto original quanto "remake" foram escritos e dirigidos pelo mesmo Charles Philip Moore, mas em "Fúria Sangrenta" era Don "The Dragon" Wilson que fazia o papel de protetor de uma rockstar contra um karateka psicopata interpretado por Matthias Hues. E Wilson não lutava pelado em nenhuma cena (ainda bem!!!).


Os dois filmes dividem até diálogos exatamente iguais, e a única razão para ANJO DA DESTRUIÇÃO existir foi o desejo de colocar uma gostosa pelada no lugar de um cara, pois o resto é exatamente igual. Por mais que eu goste do "The Dragon" Wilson como lutador, confesso que prefiro Maria Ford no lugar dele - e a comparação entre eles é injusta por fatores bem óbvios.

Por conseguinte, eu recomendo ANJO DA DESTRUIÇÃO para aquele público que adora ver aventuras classe B (ou C) cheias de tiros e explosões, mas que estão cansados de ver marmanjos fortinhos sem camisa, tipo Dolph Lundgren e Van Damme, no papel principal. Aqui, você encontra Maria Ford sem camisa no mesmíssimo papel. E acredite: faz toda a diferença!


Além disso, o vilão gigantesco interpretado por Jimmy Broome é bem decente: o cara passa uma sensação de selvageria, descontrole e periculosidade como poucos vilões de filme B, sempre enchendo suas vítimas de violentas pancadas (mesmo quando são mulheres!), e no final ainda dá uma de Jason, lutando normalmente com a mocinha mesmo quando toma três tiros nas costas - e parece nem sentir!

O resto é resto, com uma historinha mequetrefe dando a liga para as pancadarias e tiroteios, e situações que nem sempre convencem. Mas é tanto peito e bunda na tela que você nem vai perceber o tempo passar. E pode até esquecer sobre o que era o filme meia hora depois de assisti-lo, mas certamente jamais vai esquecer da cena com Maria Ford lutando pelada com a calcinha atolada na bunda!

 "Ai ai ai ai! Assim você mata o papai!"...


Trailer de ANJO DA DESTRUIÇÃO



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Angel of Destruction (1994, EUA/Filipinas)
Direção: Charles Philip Moore
Elenco: Maria Ford, Antonio Bacci, Jimmy Broome,
Jessica Mark, Charlie Spradling, Chandra Fayme, Jim Moss,
Bob McFarland e Timothy D. Baker.